sábado, outubro 08, 2011

CINEMA: MEIA-NOITE EM PARIS

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MEIA-NOITE EM PARIS

“Meia-Noite em Paris” é um excelente divertimento, inteligente e bem saboreado pelo seu autor, Woody Allen. Não está, porém, segundo a minha perspectiva, muito acima de alguns outros filmes rodados recentemente por este cineasta, e que parece que caíram na desdita de alguma crítica, vá-se lá saber porquê. Isto não quer dizer que “Meia-Noite em Paris” seja fraquinho, porque está ao nível de alguns outros títulos recentes. Muito pelo contrário. Quer dizer que Woody Allen não faz maus filmes, pode desiludir aqui e ali, mas muito raramente, e que a qualidade geral é sempre boa ou muito boa. Compreendo que se ressalve “Match Point” (2005), mas não percebo por que razão não se valoriza devidamente obras tão interessantes como “Scoop” (2006), “Vicky Cristina Barcelona” (2008) ou “Tudo Pode Dar Certo” (2009).
“Midnight in Paris” começa desde logo por apresentar um óbice grave à partida: o nome de Owen Wilson como protagonista não augurava nada de auspicioso. É um actor medíocre, de comédias tão idiotas (duas ou três das quais tive a desdita de ver), que fazia prever o pior. Acontece que Woody Allen consegue o milagre de tornar suportável este génio da inexpressividade e da parvoíce, transformando-o numa espécie de alter ego seu. Depois coloca-o a contracenar com actores tão bons que ele sai valorizado: em vez de parvoíce parece inocência e candura a sua pose.
A ideia é interessante, mas nada original. Woody Allen já tinha experimentado o efeito em “Rosa Púrpura do Cairo”, uma das suas obras-primas indiscutíveis. Nos anos 30, uma dona de casa desesperada faz do cinema a sua tábua de salvação e acaba por passar para o outro lado do ecrã, e trazer consigo personagens do filme para a realidade. Era uma nova versão de “Alice no Pais das Maravilhas”. Agora, Gil Pender (Owen Wilson), argumentista de sucesso em Hollywood e aspirante a escritor boémio em Paris, volta a viajar para fora da sua realidade, entrando na Paris dos loucos anos 20. Mas como Woody Allen gosta de contos de fadas, desta feita acrescenta-lhe um cheirinho de “Gata Borralheira”: é à meia-noite que passa o automóvel que o conduzirá à sua época de eleição.
Gil Pender está noivo de Inez (Rachel McAdams), filha de um casal de republicanos radicais. Andam todos a visitar Paris, mas Gil prefere uma Paris que lhe recorda a inspiração e a boémia dos anos 20, e todos os outros membros da família optam por compras e visitas guiadas a museus, conduzidos por um emproado amigo universitário que vem à cidade luz dar uma lição à Sorbonne. Não há muito a esperar do casamento, mas há muita deambulação pela capital de França então povoada pelo mais intenso brilho do génio internacional.
Numa noite em que percorre sozinho os bairros de Paris, Gil apanha uma boleia e vai parar à conversa com Scott Fiztegearld e Zelda, numa festa dada por Jean Cocteau, onde aparecem ainda Cole Porter, Hemingway e Gertrud Stein. Nas noites seguintes, lá continuará a peregrinação pelos cenáculos da cultura e da arte dos anos 20, encontrando Picasso, e a sua paixão do dia, Adriana, Dali, Josephine Baker, Buñuel (a quem oferece a ideia para um filme, que será precisamente “O Anjo Exterminador”), Man Ray, T. S. Elliot, Matisse, etc.
Gil passeia extasiado por estes ambientes de devaneio estético e de efervescência cosmopolita, mas descobre que Adriana, por quem se apaixona secretamente, vive obcecada pela “Belle Epoque”. Afinal ninguém está satisfeito com a realidade que vive e todos sonham com tempos passados. Adriana consegue mesmo viajar com Gil até à “Belle Epoque”, onde se cruzam com Toulouse Lautrec, Degas e Gauguin, mas estes suspiram, por sua vez, pelo Renascimento. A mensagem está dada: o presente é insatisfatório, sobretudo entre artistas que aspiram sempre a “outra coisa” e, neste caso, a um paraíso perdido, onde, todavia, ainda não existe nem valium nem penicilina. Que podem ser muito úteis em certos casos.
“Meia-Noite em Paris” é divertido, sensível, sensual, traumatizado e angustiado como todo o cinema de Woody Allen, mas agora sereno em relação à vida: afinal não é preciso ir buscar a felicidade ao passado, porque Cole Porter continua entre nós e há embaixadoras suas bem interessantes. A viagem por Paris é seguida pelo olhar apaixonado do cineasta e pela câmara de tons nostálgicos do iraniano Darius Khondji. Um belo filme sobre o amor e a vida, com um Owen Wilson, quase irreconhecível, e excelentes aparições de um elenco de luxo: Rachel McAdams, Michael Sheen, Carla Bruni (uma cativante guia turística), Marion Cotillard (a sedutora Adriana), Alison Pill, Kathy Bates, Adrien Brody (fabuloso Dali), Corey Stoll, Tom Hiddleston,  Kurt Fuller, Mimi Kennedy, David Lowe ou Léa Seydoux. Quase no final, um irresistível gag protagonizado por um detective encerra de forma brilhante esta viagem na máquina do tempo.

MEIA-NOITE EM PARIS
Título original: Midnight in Paris.
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2011); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Raphaël Benoliel, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures, Stephen Tenenbaum; Fotografia (cor): Johanne Debas, Darius Khondji; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Stéphane Foenkinos, Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Anne Seibel; Direcção artística: Anne Seibel; Decoração: Hélène Dubreuil; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Catherine Leblanc, Thi Thanh Tu Nguyen, Jean-Christophe Roger, Olivier Seyfrid; Direcção de Produção: Matthieu Rubin; Assistentes de realização: Mallorie Ballestra-Duquesnoy, Delphine Bertrand, Aurore Coppa, Gil Kenny; Departamento de arte: Tatiana Bouchain, Hélène Dubreuil, Georges Kafian; Som: Jean-Marie Blondel, Lee Dichter, Matthew Haasch; Efeitos especiais: Georges Demétrau; Efeitos visuais: Ryan Duffy, Marika D. Litz, Chris MacKenzie; Companhias de produção: Gravier Productions, Mediapro, Televisió de Catalunya (TV3), Versátil Cinema; Intérpretes: Owen Wilson (Gil), Rachel McAdams (Inez), Kurt Fuller (John), Mimi Kennedy (Helen), Michael Sheen (Paul), Nina Arianda (Carol), Carla Bruni (guia de museu), Maurice Sonnenberg, Thierry Hancisse, Guillaume Gouix, Audrey Fleurot, Marie-Sohna Conde, Yves Heck (Cole Porter), Alison Pill (Zelda Fitzgerald), Corey Stoll (Ernest Hemingway), Tom Hiddleston (F. Scott Fitzgerald), Sonia Rolland (Joséphine Baker), Daniel Lundh (Juan Belmonte), Laurent Spielvogel, Thérèse Bourou-Rubinsztein  (Alice B. Toklas), Kathy Bates (Gertrude Stein), Marcial Di Fonzo Bo (Pablo Picasso), Marion Cotillard (Adriana), Léa Seydoux (Gabrielle), Emmanuelle Uzan (Djuna Barnes), Adrien Brody (Salvador Dalí), Tom Cordier (Man Ray), Adrien de Van (Luis Buñuel), Serge Bagdassarian (Detective Duluc), Gad Elmaleh (Detective Tisserant), David Lowe (T.S. Eliot), Yves-Antoine Spoto (Henri Matisse), Laurent Claret (Leo Stein), Sava Lolov, Karine Vanasse, Catherine Benguigui, Vincent Menjou Cortes (Henri de Toulouse-Lautrec), Olivier Rabourdin (Paul Gauguin), François Rostain (Edgar Degas), Marianne Basler, Michel Vuillermoz, Kenneth Edelson, etc. Duração: 94 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 15 de Setembro de 2011.

3 comentários:

BlueAngel disse...

Achei o filme brilhante, mas sou uma fã incondicional do Woody. O "Vicky Cristina Barcelona" é, sem dúvida, o único filme dele do qual não gostei nem um bocadinho.

Anónimo disse...

O operador de câmara fez um trabalho prodigioso em Meia-Noite em Paris. Os passeios a pé pela cidade - salvo erro, nunca se usaram estúdios, foi tudo rodado 'in situ' - estão maravilhosamente filmados.

Flávio
www.emma49.blogspot.com

dumoc disse...

Realmente um filme muito, muito interessante a celebrar a vida, o sexo e o amor, afinal, como já woody, anteriormente tinha afirmado, Love is the answer - but while you're waiting for the answer, sex raises some pretty interesting questions.
Quem não viu ãinda que não o perca...