quinta-feira, dezembro 17, 2015

RECORDANDO "A GUERRA DAS ESTRELAS" EM 1977


A GUERRA DAS ESTRELAS

Agora que se anuncia a estreia de mais um episódio da saga "A Guerra das Estrelas", recorde-se o que escrevi, em 1977, na estreia, e depois 1981, na reposição, quando era crítico no "Diário de Noticias". 


GEORGE LUCAS: A GUERRA DAS ESTRELAS

Possivelmente os mesmos que, em 1963, torceram o nariz aquando da estreia de “2001” (nessa altura a ficção científica não era um valor cultural solidariamente implantado), olham agora de soslaio esta “A Guerra das Estrelas”. E para diminuir o filme de George Lucas estabelecem comparações, servindo-se já do “2001”. Como se fosse possível atacar “Fanfan la Tulipe”, em nome de “O Mundo e Seus Pés”.
“A Guerra das Estrelas” pretende ser uma maravilhosa aventura no espaço. E consegue-o. De que maneira! Uma galáxia dominada por um despótico tirano assiste à insurreição. A revolta é o tema do filme de George Lucas, que se inscreve na melhor tradição do cinema de aventuras norte-americano, de Errol Flynn a “O Comboio Apitou Três Vezes”.
As trucagens são brilhantes, mas o menos importante nesta obra-prima da aventura, da audácia, do arrojo, do humor. Mesmo num plano filosófico, o filme se revela de grande riqueza e complexidade, permitindo-se inovações de certa monta, como por exemplo o lugar ocupado pelo Homem neste universo povoado por seres das mais diversas configurações e origens. Temos assim, finalmente, o Homem a viver com outros seres, sentindo-se um entre vários habitantes do espaço. O que até agora o cinema não nos tinha dado com a clareza e exemplaridade deste “Star War”.
Ao lado do Homem, androides que relembram Bucha e Estica e “saloons” espaciais onde o “Muppet Show” marca “rendez vous”. A banda sonora recorda os “cartoons” do «Buq's Bunny» e o Cavalo de Troia recolhe “robots” usados para revenda. Peter Cushing e Alec Guiness defrontam-se ainda nesta luta pelo poder e pela liberdade com espadas de raio Laser, enquanto a “princesa” e Luke tentam a destruição da estação de guerra. Emocionante.
(D. N.) - 1977


A GUERRA DAS ESTRELAS DE GEORGE LUCAS (REVISÃO)

A década de 70, quando a aventura épica e generosa que fizera a lenda do cinema americano, parecia desaparecer, sob uma onda de violência descompassada, de mercenarismo e hipocrisia, eis que George Lucas descobre que afinal os heróis resistem nas suas brancas indumentárias e Tom Mix, o cavaleiro íntegro, poderia continua a sua gesta, agora nas estrelas.
“Star Wars”, com a data de 1977, é isso mesmo, um regresso à idade da inocência do cinema americano, repescando aqui e ali influências de uma adolescência dourada passada no interior de salas escuras, povoadas pelo ruído das lanças dos torneios do príncipe Valente, os saltos de Tarzan, as naves espaciais de Buck Rodgers e Flash Gordon em “serials” de dezenas de parte, ou as cavalgadas de Gary Cooper ou John Wayne nas pradarias do Oeste. Entre dezenas de outras referências possíveis, crescem as personagens desta “A Guerra das Estrelas”, onde os bons são mesmo bons e os maus intrinsecamente mau. Não há complexidades psicológicas nesta obra de uma linearidade gratificante, porque inteiramente assumida enquanto tal e por isso mesmo defendida. Luke Skywalker, a quem os tiranos mataram os pais, vive uma aventura que comporta apenas as cores puras da armadura de um cavaleiro da corte do rei Artur, aqui em busca da suprema “força”. A princesa Leia Organa apenas se distingue das virginais damas medievais, por quem se terçavam lanças em mortais duelos de honra desagravada, por uma ou outra réplica mais ousada, um outro gesto mais intempestivo. Mas Darth Vader é obviamente a personificação do Mal, simbolicamente assinalado por uma máscara e uma silhueta que impedem toda a identificação com o espectador.
A única figura de contornos mais imprecisos será o oportunista Hans Solo, que, todavia, deixa falar o coração no momento derradeiro e regressa à luta e ao campo da honra em defesa dos fracos e dos oprimidos. Desesperando de qualquer retribuição monetária ou honraria. Ben Kenobi, por seu turno, é o ideal arquétipo que se persegue, a fonte de inspiração que se tenta continuar, depois de se ter provado merecê-la. Do burlesco, uma dupla de “robots”, C3PO e R2D2, prolongam desajustamento Bucha e Estica e o seu discreto humor, invadido pela ternura. Chewbacca, “esse enorme tapete rolante mal cheiroso”, como lhe chamava a princesa, introduziu-nos no entanto num universo onde tudo é possível de acontecer, onde os humanos perderam o centro do mundo, sendo uns entre vários, princípio de cooperação cósmica cuja lição é depois continuada, por exemplo nos “Encontros Imediatos”, de Spielberg.
Aventura pela aventura, A Guerra das Estrelas é a afirmação lúcida de uma arte que se alimenta do movimento, da acção, do ritmo e de uma imaginação feérica de contos de fadas, onde, para valorizar devidamente o Bem, são imprescindíveis os muito maus. Há um maniqueísmo que nunca se procura encobrir sob falsas roupagens de intelectualismo ou filosofice. A pretensão está ausente desta movimentada aventura que restitui ao espectador um prazer quase perdido: num sofisticado reino interplanetário, povoado por robots e seres estranhos (de antologia a sequência do “saloon” onde, lado a lado, coexistindo sem qualquer estranheza, se descobrem as figuras mais inconcebíveis, os heróis do “western” voltam a cavalgar, por sua dama e por el-rei. Ao público resta embarcar nesta nave espacial de direcção à distância, e percorrer nela o quarto de brinquedos mágicos de um feiticeiro chamado George Lucas.
(D. N.) - 1981 


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