quarta-feira, julho 05, 2006

ACTRIZES QUE ME MARCARAM
(II)

ROSE LOOMIS
(MARILYN MONROE)
EM “NIAGARA”

NA MORTE DE MARILYN

Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quern a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse a governanta não me acorde amanha
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou

Ruy Belo, in “Nau de Corvos”, “Transporte do Tempo”, Lisboa, 1973
(com a devida vénia ao Ruy Belo, e a saudade da sua companhia na Faculdade)




MARILYN MONROE: A MULHER

Falar de Marilyn Monroe é tarefa quase impossível no que diz respeito à sua biografia. Se a sua morte está ainda hoje envolta num manto de opaca dúvida (seria suicídio ou assassinato?), tudo o mais se rege pelos mesmos princípios. Nada é certo na sua vida e quase apetece perguntar se Marilyn existiu realmente. Há os seus filmes, uma das poucas realidades palpáveis e definitivas mas, quanto ao resto, cada biografia aponta num sentido, refuta as outras, acrescenta um ponto. Uma afirma que foi o marido da melhor amiga da mãe que a viola aos nove anos, outra que foi aos catorze um Zé-ninguém, o primeiro marido garante que casou com ela virgem. Mas há quem diga que tudo principiou aos seis anos. E que aos dois a tentaram matar, asfixiando-a com um travesseiro. Uns afirmam que o primeiro contrato com a Fox foi celebrado em Junho, um outro em Agosto, e há também quem garanta que foi em Setembro, coincidindo todos no ano, 1946, mas divergindo nas importâncias: um contrato que valia para uns 125 dólares, para outros 75… Há quem diga que foi o agente Hyde que a lançou, outros afiançam que ele nada teve a ver com o facto. Enfim, restam os filmes, as fotos, e a lenda. A lenda que por vezes é mais forte que a verdade, como dizia o director do jornal do filme de John Ford, “O Homem que Matou Liberty Valance”: “Quando a lenda é mais forte que a História, imprime-se a lenda!”
No controverso plano da biografia de Marilyn Monroe, a ideia não foi optar pela lenda, mas tentar tecer um conjunto de factos plausíveis, retirados de várias biografias manuseadas. A maioria delas não possui qualquer credibilidade, mais interessadas que estão em especular com a possível miséria moral do que em atingir alguma verdade, factual ou psicológica. Há obras como “Violations of the Child Marilyn Monroe”, escrita por um psiquiatra que se diz amante da actriz nos últimos anos da sua vida, que afirma que todos os dados lhe foram contados e confirmados directamente por Marilyn, mas que parece não merecer a mínima atenção. E mesmo as mais credíveis, assinadas por nomes como Norman Mailer ou Arthur Miller, são textos com muito de subjectivo e nalguns casos obviamente tendenciosos.
Resta-nos tentar uma aproximação possível da vida de Marilyn, com todas as inexactidões e erros prováveis, e falar sobretudo, do mais importante, o que permanece para lá da morte, a lenda, o mito, e os filmes.

De nome de baptismo chamava-se Norma Jean Mortensen, mas começou por ser conhecida por Norma Jean Baker. Nasceu as 9 horas e 30 minutos do dia 1 de Junho de 1926, no Los Angeles General Hospital, em Los Angeles, Califórnia, EUA, e teve uma infância difícil. A mãe, Gladys Baker Monroe, chegou a trabalhar no cinema, como montadora de negativo, teve problemas psiquiátricos, chegou a estar presa várias vezes e vivia ermanentemente em condições de quase penúria extrema. Morreu num asilo psiquiátrico, com o diagnóstico de esquizofrénica-paranóica, e há quem diga que matara com uma facada, a melhor amiga, Grace McKee. A mesma, cujo marido terá abusado sexualmente de Norma Jean, quando esta tinha apenas nove anos. Tudo isto são, porém, atuaradas lançadas para o ar, pelo diz-se diz-se e nada de concreto as fundamenta. As recordações de infância não poderiam, no entanto, ser mais dramáticas.

Já a avó materna fora internada num hospício depois de ter tentado sufocar a neta com um travesseiro. Do pai, Norma Jean pouco soube e nenhuma certeza teve. Há quem fale num tal Edward Mortensen, que garantem ter sido padeiro e que morrera vítima de um acidente de viação, antes de Marilyn nascer. Mas um outro biógrafo afirma que este mesmo Mortensen morreu aos 81 anos, em Riverside, de um ataque de coração. Há quem afirme, todavia, que o pai era um amigo desse Edward, colega da mãe na Consolidated Film Industries, e que se chamava Charles Stanley Gifford. Quando o tentou encontrar, ainda no início da sua carreira, este mandou dizer pelo telefone que se tinha alguma reclamação a apresentar se dirigisse ao seu advogado. Mais tarde, no auge da sua fama, Gifford tentou a aproximação, mas Norma Jean recordou-lhe então esta conversa.
Atendendo à instabilidade emocional da mãe, e ao facto desta ser mãe solteira, Norma Jeane foi para casa de uma família adoptiva, a do muito religioso (fundamentalista!) casal Albert e Ida Bolender. Foi aqui que viveu os primeiros sete anos da sua vida: “Eram terrivelmente severos… não era por mal… era a sua religião. Educaram-me com muita severidade.” Mas à severidade de uns correspondia a depravação de outros. Em Outubro de 1933, com as finanças mais equilibridas, Gladys passa a viver por algum tempo com a filha Norma Jean Em Setembro de 1935, com nove anos de idade, depois de ter sido (novamente?) violada (fala-se de um enigmático Mr. Kimmell, que poderia ter sido o actor inglês Murray Kinnell), foi para um orfanato, o Los Angeles Orphan’s Home, onde permaneceu até Junho de 1937, em condições, relatadas por ela, dignas de um romance de Dickens. Jura que teve de lavar quantidades enormes de louça e se banhava em água suja, apanhava surras com escovas de cabelo e vivia infeliz: “Nessa altura, o mundo à minha volta era deprimente. Tive de aprender a fingir para… não sei… afastar a tristeza. O mundo todo parecia que me estava fechado… (Sentia-me) de fora de tudo e a única coisa que eu podia fazer era sonhar uma espécie de mundo de faz-de-conta.”
Em Setembro de 1941, Norma Jean, depois de várias outras peripécias, estava a viver com Grace McKee quando encontrou Jim Dougherty, cinco anos mais velho do que ela. Grace encorajou a relação entre ambos e, ao saber que ela e o marido iam mudar-se para a Costa Leste, tratou de tudo para Norma Jean casar com Dougherty no dia 19 de Junho de 1942: “Grace McKee arranjou-me o casamento, eu não tive alternativa. Não há muito a dizer à cerca disso. Eles não me podiam sustentar e tinham que arranjar qualquer coisa. E foi assim que me casei.”

Compreende-se que, apenas com 16 anos, Norma Jean se case com Jimmy Dougherty, um jovem de 21 anos que conheceu quando trabalhava na Rádio Plane, em Van Nuys, Califórnia, uma fábrica de construção de aeronaves. O casamento funcionou como uma forma de libertação, um escape. De pouca duração. Dougherty alistou-se na Marinha em 1943 e, no ano seguinte, foi enviado para a frente da batalha. Ela ficou. Divorciaram-se em Junho (ou Setembro?) de 1946: “O meu casamento não me fez infeliz, mas também não me fez feliz. O meu marido e eu mal nos falávamos. Não porque estivéssemos zangados. Mas não tínhamos nada para dizer um ao outro. Morria de aborrecimento.”
Antes, em 1944, Marilyn foi fotografada na fábrica de material militar por David Conover um repórter fotográfico. O Exército encomendara as fotos com o intuito de divulgar o papel e a contribuição das mulheres durante a guerra. O fotógrafo, que havia sido enviado nessa missão pelo capitão Ronald Reagen, pediu permissão para fazer mais fotos e Marilyn dava início à sua carreira de modelo. Emmeline Snively, directora do “Blue Book Modeling Agency” ficou entusiasmada com o que viu e contratou-a como modelo. Cinco dólares por hora. A primeira capa foi a de “Family Circle”, aparecida a 26 de Abril de 1946. No ano seguinte, a beleza de Norma Jean tornou-se imensamente popular, sendo capa de 33 das revistas mais famosas. Entretanto, deixara o trabalho na fábrica e assume a tempo inteiro uma carreira de modelo. O seu fito é, no entanto, chegar ao cinema.
O sucesso como modelo fotográfico leva a 20th Century-Fox a contratá-la no dia 26 de Agosto de 1946 (admitamos como certa esta data!). Foi Howard Hughes quem a notou antes e lhe propôs uns testes. Zanuck, o patrão da Fox, não estava muito inclinado sequer para o teste, mas quando o viu ficou entusiasmado e Marilyn assina um contrato de 75 dólares por semana (admitamos como certa esta importância!). Billy Wilder mais tarde diria que Zanuck ficou particularmente tentado pelo “impacto sensual”, e acrescentou: “Há raparigas que tem uma pele que parece viver na fotografia. Temos a impressão de que as podemos tocar.” Norma Jean era uma delas. Pouco depois, e por sugestão da Fox (dizem que por sugestão de Bent Lyon), Norma Jean começou à assinar o nome Marilyn Monroe. Monroe vem da sua mãe e Marilyn da actriz Marilyn Miller.
A primeira aparição de Marilyn foi numa pequena cena, em 1947, no filme "The Shocking Miss Pilgrim". Seguiu-se-lhe “Scudda Hoo! Scudda Hay!” onde a sua contribuição a nível de diálogo se resumia a um “Hi!”, ainda assim cortado na montagem definitiva. “Dangerous Years” mostra-a num grande plano, o que não foi suficiente para a Fox manter o contrato. Dispensada, foi para à Columbia, em cujo primeiro filme, “Ladies of the Chorus”, interpreta a personagem secundaríssima da “strip-teaseuse” Peggy Martin que canta a famosa canção “Every Baby Needs a Da-Da-Daddy”, que mereceu as primeiras referências críticas a Marilyn Monroe aparecidas na imprensa: ”Uma das prestações mais brilhantes é a de Miss Monroe. Ela é bonita, ela tem uma voz e um estilo encantadores e prometedores.” Apareceu a 23 de Outubro de 1948, numa das páginas do “Motion Pictures Herald”.
Mas também a Columbia não ficou entusiasmada com o concurso de Marilyn, e foi de novo dispensada, depois de algumas outras curtas aparições. Voltou a trabalhar como modelo, até que respondeu a um anúncio para um papel num filme que seria o último dos Irmãos Marxs: “Love Happy”. Ela recorda o episódio: “Éramos três e Groucho pedia a cada uma para dar alguns passos à sua frente. Eu fui a única que ele pediu para recomeçar, segredando-me antes ao ouvido: “Tu tens o mais belo rabo da profissão!” Era um cumprimento, não uma grosseria.” Uma cena de minuto e meio, e foi tudo.

Continuou a representar pequenos papéis, mas surge então (1949) uma personagem que irá ter algum significado na vida de Marilyn, Johnny Hyde, agente da William Morris Agency e rapidamente seu amante, que encontra numa recepção em Palm Springs e que se mostra entusiasmado com o futuro da prometedora actriz. Hyde está profundamente apaixonado por Marilyn, propõe-lhe casamento. Ela recusa, apesar da fortuna que poderia herdar rapidamente. Hyde estava gravemente doente do coração, explica-lhe que terá pouco tempo de vida, mas Marilyn confessa-lhe que “tem muita afeição por ele, que o acha um homem delicado, meigo, brilhante, um amigo querido, mas que não está apaixonada.” Depois da morte de Hyde diz que “passou noites e noites a chorar. Por vezes recriminava-me por ter recusado aquele casamento. Mas ao mesmo tempo sabia que agiria mal se tivesse casado com alguém que não amava. Um milhão de dólares não me inspira nenhum remorso. Mas Johnny Hyde continua a fazer-me falta.” A família do defunto pede-lhe para não ir ao enterro. Mas ela vai.
É ainda em 1949 que Marilyn aceita posar nua para um calendário, facto que mais tarde irá acarretar inúmeras críticas e contestação, quando a actriz era já uma vedeta, o que lhe valeu uma réplica célebre: “Hollywood é um lugar onde te pagam mil dólares por um beijo e cinquenta cêntimos pela tua alma.” Na verdade, a foto de Tom Kelley deu-lhe 50 dólares a ganhar e conseguiu um lucro de mais de 750.000.
Foi Johnny Hyde quem, em 1950, chamou a atenção do realizador John Huston para Marilyn. Ele viu uma das suas “aparições” no ecrã e resolve dar-lhe uma oportunidade de maior relevo em "Asphalt Jungle", depois de um teste lendário: Marilyn aparece com os peitos reforçados por “kleenexs” para causar melhor impressão, John Huston, ele próprio, alivia-a desses apêndices e diz-lhe para ela “passar o texto”. Marilyn pede para se deitar no chão, pois a cena seria passada numa cama, e não se cansa de repetir a “deixa”. Será Huston a mandá-la calar, dizendo “Basta, o papel é teu. Aparece segunda-feira no estúdio às nove horas.” Será a “sobrinha” de Louis Calhern, um advogado corrupto num grupo de “gansgters”, que ela atraiçoa, neste “filme negro” que se tornou um clássico do género.

Esta obra abre-lhe as portas para novas oportunidades, cada vez mais influentes. O seu desempenho em "All About Eve", também em 1950, gerou alguma notoriedade, e ficou a dever-se ao facto de Joseph L. Mankiewicz a ter visto em “Quando a Cidade Dorme”. Nesta obra-prima que aborda o universo do cinema, Marilyn é uma jovem estudante de arte dramática e aparece ao lado de nomes consagrados como os de Bette Davis, Anne Baxter, George Sanders, Gary Merrill oiu Celeste Holm. Quem a viu nos primeiros dias de filmagens percebeu o terror em que a mesma vivia. Chegava com horas de atraso ao estúdio, não conseguia fixar uma linha de texto, obrigava cada plano a ser filmado para cima de vinte vezes. Seria o início de um longo calvário (que se iria prolongar nos mesmos termos até ao fim da sua carreira) para os realizadores, produtores e colegas actores que consigo contracenavam, mas seria igualmente um pesadelo para a própria Marilyn, vítima da insegurança e da fragilidade psicológica de uma Norma Jean nunca amada, nunca desejada como pessoa, apenas cobiçada como corpo erótico para satisfação de sonhos de homens (e mulheres) que viam nela apenas um objecto sexual facilmente descartável depois de utilizado.
Toda a vida de Marilyn parece evoluir entre duas realidades psicológicas contraditórias: por um lado a necessidade de ser desejada a todo o preço, de se sentir cortejada, adulada, nem que para tal se tenha de converter num mero “sex symbol” de uma geração (ou de várias); por outro lado a imperiosa exigência de romper com esse estatuto de mulher-brinquedo, loura e desmiolada, apenas desejada pelo seu busto, o seu andar, a generosidade da sua sensualidade explosiva. Neste caso, Marilyn pretendia acima de tudo ser olhada como mulher, como actriz, como alguém que pensa e sente, que lê bons livros e é capaz de ser amada por um dos mais prestigiados escritores norte americanos do seu tempo (Arthur Miller, vítima de perseguições durante o “machartismo”, e a quem Marilyn soube apoiar nos momentos de crise), ou pelos presidenciáveis Kennedys. Esta duplicidade de desejo nunca resolvida, este esboço de esquizofrenia latente, ficou marcada no seu corpo pelas mãos dos mais importantes homens da América, desde presidentes a escritores, de produtores a cantores, de actores a realizadores, de agentes a multimilionários.
Marilyn queria ser a um tempo “maravilhosa” e/ou “apenas uma mulher” e uma “boa actriz”. O espantoso, porém, e talvez seja essa a razão maior da criação de um mito que nada irá apagar nunca, é a permanência de uma inocência inatacável no seu olhar, a fragilidade doce e etéreo de um corpo que todos desejam e ninguém parece macular. Para lá de todas as feridas que os anos vão acumulando, a sua pele continua “a apetecer ser tocada”, tal como uma deusa misteriosa de desígnios insondáveis. O mito nasce.
"Clash By Night", de Fritz Lang, em 1952, merece igualmente boas referências da crítica, como a assinada por Alton Cook, no “New York World-Telegram and Sun” que dizia: "a forceful actress, a gifted new star, worthy of all that fantastic press agentry. Her role here is not very big, but she makes it dominant."
Marilyn conhece Joe DiMaggio no início de 1952, ela tem 25 anos, ele 37. DiMaggio tinha-se retirado do “baseball” norte-americano, concluindo uma carreira de astro. Há tempos que manifestara o desejo de conhecer a sua actriz preferida e em Fevereiro desse ano o romance explode nas páginas das revistas. “Fiquei surpreendida por me apaixonar de tal maneira por Joe, disse Marilyn. Esperava que ele fosse do género do desportista flamejante de Nova Iorque, e em vez disso deparei com um tipo reservado que não se atirou a mim logo imediatamente. Joe é um homem muito decente que faz as outras pessoas sentirem-se decentes também.”


1952 marca ainda pontos na carreira cinematográfica de Marilyn, que filma "Niagara", de Henry Hathaway, com Joseph Cotten, uma obra que ajuda a consolidar o seu estatuto de vedeta. "Gentlemen Prefer Blondes", de Howard Hawks, é o título seguinte, que a reúne a Jane Russell. Ambas irão assinar e deixar as marcas de mãos e pés no cimento que fica no passeio frente ao Chinese Theatre, em Hollywood Boulevard. Este tinha sido o local que Marilyn havia visitado quando criança, acompanhada pela mãe e pela amiga Grace. Tinha sido ali que havia jurado a si própria: “Quero ser uma grande estrela para lá de tudo o resto!" Conseguira-o.
Em 14 de Janeiro de 1954, Marilyn casa-se pela segunda vez, desta feita com Joe DiMaggio. Apenas nove meses depois, a 27 de Outubro de 1954, divorciaram-se. O advogado de Marilyn explicou em conferência de imprensa que o motivo da separação foi “um conflito entre de carreiras”. Ou apenas mais um equivoco.
A celebridade da actriz é total e isso mesmo fica demonstrado na visita que Marilyn Monroe faz às tropas americanas deslocadas na Coreia. São 60.000 mil militares em estado de completa euforia que a recebem em apoteose.
Após participar em vários filmes como apenas mais uma bela face de Hollywood, Marilyn Monroe estava pronta para transformar a sua imagem através de uma séria actuação profissional. Queria deixar os papéis de tontinha e interpretar Dostoievski. Em 1956, Marilyn parte para Nova Iorque e dá início aos seus estudos sob a direcção de Lee Strasberg no Actors Studio, uma casa que formara Marlon Brando, James Dean ou Paul Newman entre tantos outros. Nesse mesmo ano, junto com o fotógrafo Milton Greene, Marilyn lançou a “Marilyn Monroe Productions”, uma produtora que irá intervir na concretização de alguns projectos futuros, como "Bus Stop", de Joshua Logan, (1956) e "The Prince and the Showgirl", de Laurence Olivier (1957). Em ambos os filmes ficam documentados os progressos da actriz em importantes papéis que exigem mais do que um rosto bonito e um corpo escultural. Em Londres, com Laurence Olivier como actor e realizador, Marilyn protagoniza um dos episódios mais desequilibrados da sua carreira, chegando sempre ao estúdio fora de horas e provocando a ira de Olivier. Tudo indica que será a partir desta época que a sua instabilidade psicológica se agrava.
No dia 29 de Junho de 1956, depois de vários casos sentimentais, amplamente testemunhados pela imprensa de coração de todo o mundo, Marilyn Monroe casa com o dramaturgo Arthur Miller.
Entretanto, Billy Wilder, outro dos grandes cineastas norte-americanos, ainda que de origem europeia (austríaco), o que lhe confere um tipo de humor diferente, mais adulto e cínico, dirige Marilyn em duas das suas melhores comédias, “The Seven Year Itch” (1955) e, sobretudo, “Some Like it Hot” (1959). Em 1960, outro mestre americano, George Cukor realiza “Let’s Make Love”, onde Marilyn contracena com Yves Montand e nova situação explosiva se insinua durante a rodagem. A proximidade de Montand e Monroe não deixa ninguém indiferente, a começar pelos próprios. Durante as filmagens, Arthur Miller parte subitamente para o Nevada, deixando o par de actores entregue ao seu romance. Explosivo. Yves Montand acabado o filme regressa a Paris e à sua mulher, a actriz Simone Signoret. Marilyn sofre novo abalo.

O filme "The Misfits", último trabalho terminado da actriz, é escrito propositadamente por Miller para Marilyn, colocando-a ao lado de Clark Gable, que desde a infância, era o seu actor preferido e o homem que ela gostaria de ter tido como pai, ou algo mais. Tudo indica que Marilyn teria um problema edipiano mal resolvido, e toda a sua vida emocional e sexual parece ser uma longa procura do pai que nunca teve. Não será necessário ser um psiquiatra muito atento para inferir desta vida consumida em excessos uma conclusão destas. Um conjunto invulgar de episódios trágicos marca “Os Inadaptados”, que mantinha constantemente em estúdio, durante as filmagens, médicos para acompanharem quer Marilyn Monroe quer Montgomery Clift.
Em Agosto de 1960, Marilyn é hospitalizada e as filmagens suspensas. Retomadas pouco depois, são concluídas em 4 de Novembro. A 11 do mesmo mês anuncia-se a separação de Marilyn e Miller e a 16, Clark Gable morre vítima de um ataque cardíaco. Marilyn é acusada por Kay Gable, mulher do actor, de ter sido a causa da sua morte. O casamento entre Miller e Marilyn teve fim com o divórcio de 20 de Janeiro de 1961. Em Fevereiro, Marilyn tenta suicidar-se atirando-se de uma janela, mas fracassa nos seus intentos, sendo internada novamente numa clínica psiquiátrica de Nova Iorque. A dependência de drogas e do álcool acentua-se dramaticamente.
Em 1962, Marilyn foi considerada a estrela mais popular do mundo ("World's Most Popular Star") pelo Globo de Ouro (Golden Globe), demostrando a sua fama e o reconhecimento internacional. No dia 5 de Agosto do mesmo ano, com apenas 36 anos de idade, Marilyn Monroe morreu enquanto dormia na sua casa de Brentwood, Califórnia. Tinha o telefone a seu lado. Uma dose excessiva de barbitúricos foi a causa apontada na autópsia. Mas a sua morte continua envolta em mistério. Fala-se em assassinato. O seu romance com os Kennedys vem à baila.
O envolvimento com John F. Kennedy iniciara-se em finais de 1961. Na gala da celebração do aniversário do Presidente, no Madison Square Garden, a 6 de Maio de 1962, Marilyn canta o famoso "Happy Birthday To Mr. Presidente.” Também Bobby Kennedy ficou ligado a Marilyn com a suspeita de um “affair” numa dta já muito próxima da sua morte. Por tudo isto, há quem fale de um silenciamento para impedir a revelação de algo comprometedor para alguém envolvido emocional e sexualmente com a actriz. O seu corpo foi sepultado no Westwood Memorial Park, em Los Angeles, Corridor of Memories, 24.
Deixou atrás de si trinta filmes, entre os quais um, inacabado, "Something's Got to Give". “Sei que pertenço ao público e ao mundo, não porque seja especialmente talentosa e bela, mas porque nunca pertenci a nada ou ninguém mais.”

O FILME: “NIAGARA”

Depois de ter passado por várias comédias, entre 1952 e 1953, que fizeram de Marilyn Monroe uma das maiores estrelas do cinema norte-americano de todos os tempos, é altura de se descobrir a actriz num registo bastante diferente: “Niagara”, de Henry Hathaway, foi rodado ainda em 1953, mas desenrola-se num clima de drama sentimental e suspense que permite a Marilyn Monroe desenvolver um tipo de abordagem diferente, em relação às personagens de comédia que até aí a tinham notabilizado, em “A Culpa foi do Macaco”, “Os Homens Preferem as Loiras” ou “Como se Conquista um Milionário”.
Se recordarmos de relance toda a filmografia de Marilyn Monroe veremos que a actriz interpretou quase sempre diversas variantes de uma mesma personagem: uma rapariga algo ingénua, mesmo quando se faz passar por caçadora de milionários, de uma pureza quase imaculada, apesar da generosidade dos seus movimentos de ancas, sedutora e irresistivelmente atraente, mas de um comportamento isento de maldade. Em “Niagara”, tudo isso desaparece por detrás do retrato de uma mulher extremamente perversa, calculista, que se serve de todos os argumentos para atingir os fins em vista. É, por isso mesmo, um filme único na carreira da actriz, e, atrevemo-nos a dizê-lo, uma das suas grandes representações em cinema. Será o seu filme mais inquietante, e igualmente um dos seus trabalhos mais fascinantes, precisamente pela complexidade psicológica da figura que compõe com uma subtileza de processos e um vigor no resultado verdadeiramente notáveis. Isso deve-se muito ao talento de Marilyn Monroe, como é óbvio, mas também à direcção de Henry Hathaway, que julgo assinar aqui uma das suas obras-primas.

Henry Hathaway é um realizador que demonstrou bem ao longo da sua carreira algumas das muitas qualidades, desde a eficácia e solidez do seu trabalho até ao lirismo intenso com que marcava dramas, westerns, aventuras ou policiais. “Niagara” vem apenas confirmar essa ideia, desenvolvendo-a, se necessário fosse.
Veja-se como Hathaway, com uma brilhante economia de meios, nos oferece retratos inesquecíveis de personagens que em meia dúzia de planos se nos apresentam na sua complexidade. As primeiras imagens definem, de forma fulgurante, as figuras interpretadas por Marilyn Monroe e Joseph Cotten: ele, submergido pela força avassaladora das cataratas de Niagara, hesitante e amedrontado; ela, sensual e despreocupada, calculista e fria. O casal que com eles se cruza no motel, está também desenhado de forma perfeita. Tudo em dois ou três planos, duas ou três frases aparentemente insignificantes. É o talento de Hathaway no seu melhor período.
Depois atente-se ainda na forma como o realizador envolve estas personagens numa teia de luz coada através das persianas, construindo assim uma prisão donde ninguém se libertará. Esse jogo de luzes é prolongado pela maneira como Hathaway se serve ainda das escadas nas sequências finais, e, sobretudo, pela utilização dramática das próprias cataratas de Niagara.

Extraordinário exercício de cinema, brilhantemente escorreito e linear, servido por uma fotografia notável e por uma iluminação de todo em todo invulgar, nela sobressaindo os rostos por entre as penumbras dos quartos, este “Niagara” é ainda um belo pretexto para opor o calor sensual e obsessivo de Marilyn Monroe ao fragor das cataratas em fúria. Um filme de amor, onde o desejo cresce, indomável como as águas (elemento erótico por excelência) que, da serenidade da nascente, se deixam depois atravessar por correntes imperceptíveis aos olhos, mas que conduzem o curso ao trágico desfecho. Amor e morte de novo reunidos, incendiados aqui pelo corpo de Marilyn. Um filme admirável que fará as delícias de todos os entusiastas de uma certa maneira americana de filmar, no seu período clássico, de que Hathaway é aqui um excelente exemplo.





in "Cine Clube", volume nº 17, dedicado a "Marilyn Monroe", editado pela Biblioteca Museu República e Resistência.


7 comentários:

Hugo Alves disse...

Acabo de descobrir este blog e posso dizer: Estou maravilhado! :-)

MRF disse...

eu tb ;)

Anónimo disse...

Hugo Alves, deixe-me dizer-lhe que o seu Amarcord (um dos meus filmes de eleição) é bem bonito. Passarei a visitá-lo regularmente. Um abraço. LA
mrf: Gosto que gostes. É para gostarem (ou não) que o faço. Com gosto. E, acima de tudo,como tudo o que faço na vida, com sinceridade: aqui só a legitima emoção do que sinto. Seja ou nao politicamente (cinematograficamente, culturalmente, socialmente)correcto. LA

Anónimo disse...

[Polly Cutler catches Rose Loomis in a passionate embrace with her lover]
Polly Cutler: Didn't that Mrs. Loomis say she was going shopping?
Ray Cutler: Yeah. Why?
Polly Cutler: Well, she sure got herself an armful of groceries.

Anónimo disse...

Marilyn Monroe Norma Jean Rose Loomis era realmente A beleza. Mas o poema do Ruy (e tantos outros!) não fica nem um bocadinho atrás. E sigo na minha campanha "uma palavra vale mais do que mil imagens"
MEC

Hugo Alves disse...

Muito obrigado pelas gentis palavras ("bonito")!

Abraço!

stripteaseuse paris disse...

i love paris hilton.