sexta-feira, julho 07, 2006

MARIA DULCE

Há umas semanas atrás, o meu amigo Luciano Reis disse-me que estava a preparar uma biografia sobre a Maria Dulce, que deverá estar nas livrarias ainda neste mês de Julho de 2006, o mais tardar início de Agosto. Nessa altura, prometi-lhe um prefácio em forma de memorialismo pessoal, que já entreguei e que abrirá o volume. Falava nele de um encontro de jovens, em finais dos anos 50 (agora sei o ano, 1957), em Portalegre, onde então eu vivia e por onde passou Maria Dulce em "tournée". Hoje encontrei a foto que ela me deu nessa altura: estava numa moldura, cuidadosamente pendurada numa das paredes de um corredor onde guardo reliquias cinéfilas e teatrais. Olhem para o belo rosto da Maria Dulce e digam se não eram permitidas todas as paixões e arrebatamentos. Aqui fica a foto, e o texto que serve de perfácio, para abrir o apetite para o livro.


Durante uns anos da minha adolescência vivi em Portalegre. Meu pai era professor e fora colocado nessa bela cidade do Alto Alentejo para se efectivar. Em finais dos anos 50, não sei precisar o ano mas recordo que era um puto de 13 ou 14 anos que já tinha escolhido as paixões que me iriam acompanhar ao longo da vida. Uma delas era o cinema, outra a escrita, a leitura, os jornais, outra o SCP, outra as mulheres. Entre estas últimas, que na altura não eram ainda mulheres mas meninas mais ou menos da minha idade, encontrava-se a Maria Dulce, a Maria de Noronha, do “Frei Luís de Sousa”, filme de 1950. Devo ter visto o filme no ecrã do Teatro Portalegrense ou no cinema ao ar livre da Cine Parque, uma esplanada que funcionava durante o Verão.
Ainda me lembro hoje como era bonita a gaiata loura de catorze anos, com os cabelos encaracolados, que tinha pouco mais anos que eu, e cintilava brilhantemente nesse filme de António Lopes Ribeiro. Não sei mesmo o que mais me impressionou a altura – se o dramático “Ninguém!” do Romeiro, se a presença da bela Maria Dulce. Já se sabe que todos os putos têm sonhos, um dos meus sonhos era a Maria Dulce. Linda de morrer (ou não estivesse no Frei Luís de Sousa!) e ainda por cima actriz, e de cinema. Era tudo o que eu podia desejar. Em sonhos… para quem vivia em Portalegre, nos anos 50. Sabem o que era isso? Perdido junto à fronteira com a Espanha, a muitas horas de Lisboa, longe de tudo... ainda sem televisão. Só revistas de cinema, jornais diários, jornais regionais, um ou outro filme português no cinema da terra.
Existia, todavia, uma prática saudável. Rara, mas mesmo assim salutar: de tempos a tempos aparecia em digressão pela província uma companhia teatral, normalmente uma revista ou comédia de sucesso garantido, uma vez por outra algo de mais substancial. Havia também a Companhia de Teatro Itinerante Rafael de Oliveira, e outros espectáculos musicais.
Pois não querem então lá ver que um dia apareceu anunciada a presença de Maria Dulce em Portalegre! Integrada em que projecto (como hoje se diz), já não me lembro. Mas não devia ser grande coisa, uma revista montada para consumo na província ou um “sarau para trabalhadores”, daqueles que a FNAT promovia para “Alegria no Trabalho”. Mas eu queria lá saber da qualidade do “projecto”. O que me interessava era a Maria Dulce em Portalegre, e esse episódio não o esqueci mais. Por varias razões: por ver a Maria Dulce, “A vivo e a cores”, diriam os putos de hoje; porque era teatro, ou algo semelhante, e tudo o que mexesse num palco, valia a pena, mas sobretudo por um acontecimento que aconteceu e que me marcou profundamente.
Passo a contar, para ficar registado para a História: anunciado o espectáculo para a noite do dia tal, calculei que a Maria Dulce e todo o elenco chegariam de véspera e ficariam instalados na Pensão Central, a única então existente em Portalegre, onde todas as noites se podia ver a jantar o poeta José Régio, amigo da minha família, o que me fazia um frequentador assíduo da pensão. Consegui saber com facilidade quando chegava a comitiva, quantos dias iam ficar, introduzindo-me assim no segredo dos deuses.
Mal a Maria Dulce pôs o pé em Portalegre já estava eu no seu encalço. Chegámos portanto à fala, à porta da Pensão Central. Como já por essa altura escrevia umas “notícias” sobre espectáculos para os jornais da terra pedi-lhe descaradamente uma borla para o espectáculo da noite. Eu e uns colegas de liceu que me acompanhavam. A Maria Dulce, com uma simpatia que rondava a sedução (mas o que não rondaria a sedução nela?), disse-me que deixaria bilhetes para nós na porta do Teatro, à hora do espectáculo. Assim foi. As 21 horas, lá estava eu e os amigos a recolher a oferta: uma magnífica frisa para os atrevidos putos do liceu de Portalegre.
Nessa noite, cada palavra de Maria Dulce fazia aumentar a minha paixão. Que perdura até hoje, apesar dela não saber. Desencontros da vida.
Ao longo da vida fui acompanhando a sua carreira sempre com um interesse particular (um amor de adolescência não se esquece!). Uma ou outra vez tropecei em filmes medíocres (ela não voltou a ter muita sorte com os filmes, mas naquele tempo, quem tinha?), mas nunca por culpa dela, que tentava defender personagens banais em argumentos sem garra e realizações sem nada que as recomendassem. Em Espanha foi vedeta, mas também aí os filmes do período franquista não eram particularmente brilhantes. No teatro, porém, construiu uma carreira sólida, onde brilhou o seu enorme talento e dedicação à arte, sempre que havia oportunidade para o conseguir (Portugal é, todavia, madrasto para os seus artistas, já se sabe). Na revista obteve êxitos inesquecíveis. Na televisão, sobretudo ultimamente em séries e telenovelas, foi mantendo um registo de qualidade e de exigência para consigo própria e para com o seu público. Hoje é uma das presenças mais respeitadas e queridas do nosso espectáculo.
Já não tem os caracóis louros. Pois não. Vamos obviamente envelhecendo. “Os cabelos branqueando”, como dizia um nosso comum amigo, José Viana. Mas há dias, numa aula de História do Cinema Português, projectei o Frei Luís de Sousa e tudo voltou ao que era: eu adolescente, ela adolescente, a frisa no Teatro Portalegrense, Portalegre, à porta da Pensão Central, o autocarro com a companhia, pronto para regressar a Lisboa, eu a despedir-me de Maria Dulce, com o coração destroçado. Coisas de miúdos.
Um beijo para ti, Maria Dulce, do teu Lauro António.


2 comentários:

Anónimo disse...

Este textio foi transcrito em:
http://emportalegrecidade.blogspot.com/2006/07/maria-dulce-em-portalegre-1957.html
e comentado: ~
Comments on "Maria Dulce em Portalegre - 1957"



Anonymous said ... (7/10/2006 03:14:21 PM) :
Bonito, muito bonito.
E o Lauro António é um senhor com quem ja tive o prazer de me cruzar e até de falar um pouco com ele sobre Portalegre e as suas memórias desta nossa cidade.
Foi há anos no átrio do Crisfal.
O pai, Lauro Corado, foi professor no liceu e um artista de mérito.
É de sua autoria um dos mais belos (para mim) quadros de Portalegre que retrata o mercado na agora Praça da República; o mercado do Côrro.
Esse quadro pertence á colecção da Cãmara de Portalegre e durante muitos anos esteve no Gabinete do presidente (na Câmara velha), e foi utilizado há coisa de 10 anos ou pouco mais para capear o programa das Festas da Cidade e para o cartaz alusivo, julgo que por iniciativa do professor Martinó.



Anonymous said ... (7/12/2006 01:14:33 AM) :
Não sei quem seja "Em Portalegre Cidade", mas obrigado por transcrever. Nunca esquecerei Portalegre e tantos e tantos portalegrenses, que me marcaram no que sou hoje. Um abraço, LA

ptg disse...

Caro Lauro António
É uma honra que tenha visitado o "Em Portalegre Cidade", Portalegre e muitos de nós Portalegrenses também não esquecemos que por cá passou, mesmo não o conhecendo dá para perceber que tem por esta cidade um especial carinho. Espero que continue a partilhar connosco esses momentos que passou na nossa e também sua cidade. Se não estiver contra iremos continuar a reflecti-los no nosso blog.