sexta-feira, julho 07, 2006

SHERLOCK HOLMES
“O CÃO DOS BASKERVILLE”
(Terence Fisher,
Inglaterra, 1959)


Acabou há pouco o Famafest 2006, e já se prepara o próximo. Um Festival tem muito que se lhe diga. Para o ano, por exemplo, vou dedicar um ciclo a Sir Connan Doyle e ao seu detective Sherlock Holmes. Entretanto aproveito para ver filmes que nunca tinha visto (trouxe do Brasil uma raridade, quase toda a série da Universal, com Basil Rathbone a interpretar Holmes), mas tenho também conseguido, aqui e ali, recuperar filmes essenciais. Há anos que recolho cópias para o efeito, e acho que tenho tudo o que é essencial. Agora revi "O Cão dos Baskerville", na versão de 1959 (DVD, edição MGM), e revisitaram-se sensações boas de adolescente encantado e fascinado pelos arrepios de terror, mas também pela magia do cinema. Ambas se mantêm após a revisita.
Sir Arthur Conan Doyle, escocês (1859 / 1930) é escritor de renome, sob vários pontos de vista, mas deve a sua celebridade à criação de uma dupla de detectives fantástica, Sherlock Holmes, um inglês a roçar aristocrata, inteligente e arguto, homem de saberes variados, que gosta de fumar cachimbo, tocar violino, injectar uma ou outra vez a sua droga pesada, e o seu companheiro inseparável, Dr. Watson (há mesmo quem afiance que existe uma relação homossexual latente entre ambos).
"O Cão dos Baskervilles" (The Hound of the Baskervilles) é uma das suas histórias mais conhecidas. A acção explora pretensas presenças sobrenaturais e teve algumas versões no cinema, duas delas muito citadas: uma a preto e branco, datada de 1939, dirigida por Sidney Lanfield e interpretada por Basil Rathbone, Nigel Bruce, Lionel Atwill e John Carradine (primeiro filme de uma série Sherlock Holmes que se recorda com muito carinho), e o filme da "Hammer", estreado precisamente 20 anos depois, com realização de um dos mestres incontestados do terror, Terence Fisher, e protagonizado pela dupla Peter Cushing e Christopher Lee, dois dos maiores ícones do cinema fantástico de sempre.
É um médico, o Dr. Richard Mortimer (Francis De Wolff), quem introduz a maldição que pesa sobre os Barkerville, ao referir a lenda do cão que jurou vingar prepotências de nobres de outrora. O filme intercala um “flash back” onde se ilustram as patológicas aberrações do excêntrico e violento Sir Hugo Baskerville (David Oxley), que reúne amigos na sua sombria mansão de Dartmoor, bem no interior da Inglaterra, aproveitando para em público dar azo aos seus maquiavélicos instintos. Que irão provocar a sua morte e dar origem à lenda:
"Vou-lhes contar a lenda do Cão dos Baskervilles. Saibam que a grande mansão dos Baskervilles foi uma vez ocupada por um certo Sir Hugo, um homem violento, profano, ateu e perverso. Na verdade, nele existia um certo humor cruel e ameaçador, que fez do seu nome objecto de desprezo no país..."
"… Então, o destino de Sir Hugo Baskerville apareceu sob a forma de um cão do inferno, e trouxe eternamente para a família Baskerville a desgraça. Portanto, atenção, e tenha cuidado nos pântanos durante a noite, quando o Mal está à espreita. Ou então, com certeza encontrará o Cão do Inferno, o Cão dos Baskervilles... Assim termina a lenda..."

Conan Doyle

Depois de definir o clima, Mortimer convida Sherlock Holmes (Peter Cushing) e o Dr. Watson (Andre Morell) para tentarem desvendar a maldição da lenda do "Cão dos Baskervilles", após uma nova morte, ocorrida muitos anos depois, mas igualmente em circunstâncias misteriosas. Deita feita foi Sir Charles encontrado morto no pântano, perto do palacete da família, com um olhar completamente aterrorizado. Se Sir Charles morreu, vem aí Sir Henry Baskerville (Christopher Lee), sobrinho do falecido e o último descendente vivo da família, a quem é necessário dispensar todos os cuidados. A mansão está sob a guarda de um velho casal de criados, o mordomo, Barrymore (John Le Mesurier) e a mulher (Helen Goss). Nas imediações, por entre pântanos e florestas, apenas uns vizinhos, um fazendeiro, Stapleton (Ewen Solon), e sua estranha filha, Cecile (Marla Landi), por quem Sir Henry se sente subitamente perdido de amores. Também não é todos os dias que se encontra uma mulher na floresta, que esta foge dos primeiros contactos, e quando é alcançada nos beija na boca. Sherlock Holmes precisa de descobrir o que se passa para lá da lenda, e racionalizar o mistério. A maldição terá de parar ali. Parece que há alguma base histórica para esta lenda de maldição. Terence Fisher terá estudado as reminiscências desse passado feudal para recriar este filme, e o resultado é muito bom.
“Tal como lhe disse, em Londres, meu caro Watson, nunca tivemos inimigos mais perigosos, como este que decerto o pântano de Grimpen sorveu para a sua pestilenta profundeza.” Henry não pára de ser ameaçado: “Se der valor à sua vida ou ao seu equilibrio mental deverá afastar-se do pântano.” Os suspeitos multiplicam-se: o vizinho Stapleton conhece como ninguém o pântano; a filha deste é não só atraente como misteriosa; o mordomo é suspeito porque mente, e a mulher dele chora aparentemente sem razão; há pelo pântano um preso fugitivo, e para cúmulo aparece ainda Laura, que se descobre tinha um caso com Sir Charles. Além do próprio Dr. Mortimer que, apesar de ser quem chama Sherlock Holmes, parece ter motivos bastantes para ganhar com a morte do herdeiro.
A primeira história sobre Sherlock Holmes, “A Study in Scarlet”, foi publicada em 1887. “The Sign of the Four” foi escrita para a revista “Lippincott’s Magazine”. Em 1891, a “Strand Magazine” começou a publicar “As Aventuras de Sherlock Holmes”. Doyle queria “matar” o seu herói, mas isso só aconteceu em 1893, quando Holmes “morre” no “Final Problem”. Os leitores, contudo, protestaram tanto que a revista perdeu mais de 20 mil assinaturas, e Holmes teve de “regressar”, em “The Hound of Baskervilles”, publicado em 1902, mas relatando um caso antigo do detective, entretanto falecido. E foram os leitores que exigiram mais aventuras – ainda surgiria depois “The Empty House” (1903).



Quando se vai a Londres não se deve passar sem uma paragem em 221B, Baker Street. Esta é a morada fictícia de Sherlock Holmes, onde hoje se ergue uma casa-museu. Foi lá que comprei, há uns bons anos já, este livrinho precioso, “Sherlock Holmes’s Movies” que agora folheio. Mas foi lá também que me deixei impregnar pelo tabaco do cachimbo de Holmes e notei cada recanto da casa, reconstituída como manda a imaginação do escritor, e bem exemplificada em várias das suas obras.
Voltando ao filme, Terence Fisher era um cineasta rigoroso, sóbrio, eficaz, que nunca sublinhava efeitos ou tirava partido deles, para lá do que o argumento sugeria. Homem de um bom gosto esmerado, pedia direcções artísticas cuidadas, esteticamente parcimoniosas mas que tinham o condão de gerar ambientes densos e vividos. Rodeava-se de uma equipa técnica e artística constante, de segunda linha, é certo (nunca teve grandes orçamentos, graça a Deus!), mas segura (donde foram saindo aliás muito bons técnicos para voos mais altos). Os actores assentavam numa dupla de sucesso, Peter Cushing e Christopher Lee, ladeados por um elenco de secundários característicos e jovens galãs de futuro incerto. Recuperou quase toda a mitologia do fantástico herdado da Universal, tendo passado pelas suas mãos vários Dráculas, Frankenstein, a Múmia, o Homem Lobo, a Gongona, o Médico e o Monstro, e Sherlock Holmes, evidentemente.
Deve dizer-se, aliás, que os produtores da Hammer tinham a intenção deste ser o primeiro título de uma série com Peter Cushing no papel de Sherlock Holmes. Mas "O Cão dos Baskervilles" acabou por ser o único por duas causas bem difíceis de ultrapassar: o público da altura não se deixou atrair por esta obra de suspense e inquietação, habituado que estava a um terror mais explícito (casos de Drácula, Frankenstein ou a Múmia), e, além disso, outros estúdios detinham os direitos de adaptação da obra de Conan Doyle e não os largaram de mão. Por isso este foi o primeiro e último Sherlock desta família “Hammer”, sendo ainda de referir que Christoper Lee tem aqui o seu único papel em que não é vilão (ia dizer o único papel “simpático”, mas não é verdade: o seu Drácula é o mais simpático e sedutor dos vampiros).
Resta dizer que este “O Cão os Baskerville” é uma das melhores adaptações de sempre do espírito Sherlock Holmes ao cinema. Os ambientes, as atmosferas, a condução da narrativa, a manutenção do suspense, a escolha dos cenários naturais (com a paisagem a definir psicologicamente o desenho das personagens e das situações), a recriação dos cenários interiores (sempre muito bem caracterizados e enquadrados), fazem deste filme um dos bons momentos da carreira de Fisher, marcada aqui por uma suave sensualidade que escorre das cores para os olhos das personagens. "Peter Cushing faz um Holmes esplêndido" (Daily Mirror) e "André Morell é perfeito em Dr. Watson" (Daily Herald).




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