domingo, agosto 20, 2006

CINEMA

“SUPERMAN – O REGRESSO”

“Superman” é uma criação de “comic books”, ou banda desenhada, da responsabilidade do escritor Jerry Siegel e do desenhador Joe Shuster. Colegas de escola em Cleveland, ambos fervorosos adeptos de ficção científica, começaram mesmo por publicar um “fanzine” chamado “Science Fiction”, onde Joe era artista gráfico e Jerry editor." Em Janeiro de 1933, Siegel escreve “The Reign of the Superman”, que Shuster ilustra. Nesse conto, "Superman" tornava-se um vilão por influência de um sábio louco, na linha do que viria a ser futuramente o seu inimigo figadal, Lex Luthor. Mais tarde, “Superman” iria adquirir os contornos e as características por que hoje o conhecemos. Seria no verão de 1934 que Siegel e Shuster, praticamente numa noite, conceberam e desenharam Clark Kent, Lois Lane e Superman, já com o seu fato, o símbolo no peito, a capa. Estava criada uma das personagens de maior impacto no universo da banda desenhada, estava lançada uma das maiores aventuras de sempre, estava igualmente em marcha uma das locomotivas do mundo dos “comics” norte-americanos, que só tem rival no “Batman” e no “Homem Aranha.” Com uma característica que faz toda a diferença, como o recorda Quentin Tarantino, quando uma personagem sua fala do super-herói: “Batman” e “Homem Aranha” são homens que adquirem super-poderes. “Super-Homem” é um extra-terrestre que se mascara de humano.”

Estávamos em pleno rescaldo da Grande Depressão, a América reconstruía-se com enorme sacrifício, a imagem do Superman dava alento. Não muito tempo depois, iria aparecer em animação, pela mão de Dave e Max Fleischer, uma série de episódios que se inicia com “Superman” (ou “The Mad Scientist”), de Dave Fleischer, estreado na televisão no dia 26 de Setembro de 1941. Estamos em plena II Guerra Mundial, e o super-herói combatia as forças do Mal.
Em plena década de 50, Superman surge na televisão numa série que iria durar vários anos. Serão 104 episódios, que irão ocupar seis temporadas, de 1951 a 1958. O episódio piloto, 'The Unknown People" seria dividido ao meio e apresentado como 25º e 26º episódio da primeira série, com o título “The Unknown People”. A série iniciara-se em Dezembro de 1951, com o primeiro episódio, “Superman and the Mole Men” (67 min).
Em 1978, surge o filme que iria eternizar Superman no cinema. Chamava-se “Superman – the Movie”, com realização de Richard Donner, produção de Ilya Salkind e Pierre Spengler, com argumento baseado obviamente nas aventuras criadas por Jerry Siegel e Joe Shuster, mas guião escrito por Mario Puzo, David Newman, Leslie Newman, Robert Benton e contribuições de Tom Mankiewicz. Christopher Reeve era o Superman/ Clark Kent como nunca mais haverá outro, o pai era Marlon Brando, Margot Kidder era Lois Lane, os vilões Gene Hackman, Ned Beatty, e havia muita coisa brilhante neste filme que se estreou a 15 de Dezembro de 1978. Teve um orçamento de 55,000,000 dólares e teve receitas, nos EUA, de 134,218,018 e de 166,000,000 fora da América, o que deu um resultado bruto de 300,218,018. Histórico.
A este sucedeu-lhe “Superman II” (1980) e “Superman III” (1983), ambos com a assinatura de Richard Lester. O primeiro Lester era igualmente muito bom, o segundo já deixava adivinhar a queda futura: “Superman IV: The Quest For Peace” (1987), de Sidney J. Furie era francamente mau, e já não foi produzido por Salkinds, mas pela dupla Golan-Globus e Cannon Films, ainda que em associação com a Warner Bros.
“Supergirl” é de 1984, com Helen Slater na figura da protagonista, e direcção de Jeannot Szwarc. Uma mediocridade mais a acrescentar à lista. Daí em diante, Superman não parou, ainda que a sua melhor fase cinematográfica tenha ficado para trás. A partir daí são duas séries televisivas que dão cartas e vão mantendo os fãs alerta: “Superboy” (produzida igualmente por Alexander Salkind), “Lois and Clark: The New Adventures of Superman”, “Superman: The Animated Séries”, e a mais badalada das séries, “Smallville”.
Até que chega 2006. Afastado dramaticamente Christopher Reeve da figura de Superman, para regressar ao grande ecrã era necessário encontrar alguém que fosse credível para a personagem, e que se aproximasse da figura legada por Christopher Reeve, hoje em dia referência mítica inquestionável (porque foi um excelente Superman, e por toda a dramática sequência de factos que o envolveu posteriormente, e ajudou a criar a lenda).

O escolhido foi um desconhecido Brandon Routh (que interviera apenas em séries de televisão) que todavia não se comportou mal, apesar de andar muito longe do carisma e da presença de um Christopher Reeve. Mais grave porém foi a escolha de Kate Bosworth para o papel de Lois Lane (muito longe da composição de Margot Kidder), que estabelecia com Reeves alguma faísca, coisa que pouco se sente neste par que agora nos lançam e que tem a sexualidade muito por baixo, muito embora seja neste filme que apareça pela primeira vez consumada uma cena de amor (ou seja, a cena não se vê, mas vê-se o rebento dela gerado, nascido cinco anos antes!). Quanto a actores, havia ainda o caso do vilão. Lex Luthor aprece sob o rosto de Kevin Spacey que introduz algumas nuances. O seu vilão é mais moderno, mais homem de boa cara, menos brutal nas suas maneiras, ainda que o resultado seja idêntico. Para terminar com as referências ao elenco, há ainda que registar Jimmy Olsen, como o estagiário no jornal, Richard White, (James Marsden), como o homem com quem Lois Lane vive e que é sobrinho do editor do jornal Daily Planet, Perry White (Frank Langella), numa convincente e forte composição. Mas quem não gosta de Frank Langella? Portanto, o elenco não deslustra, mas não atinge o nível dos dois primeiros filmes da série Christopher Reeves. Deixar saudades é sempre trágico.

Falemos do realizador. Bryan Singer tornou-se conhecido de um dia para o outro com um filme invulgar, “Os Suspeitos do Costume” (The Usual Suspects, 1995). Antes disso já tinha realizado “Lion's Den” (1988) e “Sob Chantagem” (Apt Pupil, 1998). A sua cotação no mercado americano permitiu-lhe ser contratado para dirigir dois “blockbousters” retirados de bandas desenhadas, “X-Men” (2000) e “X2” (2003), ambos com excelentes resultados de bilheteira, o que lhe deu possibilidade de ser o escolhido para regressar com “Superman Returns” (2006). Como o efeito Bryan Singer não pára de brilhar lá onde os estúdios mais ambicionam, na bilheteira, a sua carreira futura está assegurada. Em produção tem “You Want Me to Kill Him?” e “The Mayor of Castro Street” (ambos para 2007) e uma nova aventura de “Superman” (com estreia prevista para 2009).
Voltando a “Superman – o Regresso” há que dizer que de certa forma o filme retoma o aparecimento do super herói na Terra. Desta feita aparece já crescidinho, depois de uma ausência de cinco anos, durante os quais tentou saber qual o destino do seu planeta natal, Krypton, que descobre completamente arruinado e sem vivalma. Volta então à Terra, a tempo de descobrir que por cá as ameaças continuam, os vilões são desamparam a loja, e, apesar de Lois Lane ganhar um Prémio Pulitzer com um artigo que se intitulava “Não precisamos de Super Homens”, a verdade é que todos precisamos cada vez mais de super-heróis. Tanto mais que Lex Luthor foi libertado antes de tempo e já engendra novas aventuras na área do imobiliário em alta escala, depois de ter visitado a “Fortaleza da Solidão”, fazer-se passar por Superman para ouvir a voz (recuperada) de Marlon Brando e roubar certos cristais que guardavam os ensinamentos de Jor-El. Com eles tenta reproduzir o planeta Krypton na Terra, afundando parte da América e destruindo milhões de vidas humanas. Parker Posey (Kitty Kowalski) é a namorada tonta de Lex Luthor, mas nem por isso deixa de se emocionar com as perspectivas sombrias da Humanidade, e de torcer por ela no momento decisivo.

Nunca atingindo o nível do seu modelo, este regresso de Superman aceita-se como um bom espectáculo, com uma cuidada realização de Bryan Singer que se esmera nalgumas cenas de acção, com efeitos especiais bastante bons, e alguma simbologia bem explorada. Há um aproximar da personagem do Superman da figura de Cristo que é feito de forma discreta, como por exemplo numa cena com o super-herói a flutuar na atmosfera, ouvindo as preces dos humanos que procuram auxílio. Mas as grandes criações cénicas não lhe ficam atrás, como a Fortaleza da Solidão, toda em cristais, ou o cenário onde evolui Lex Luthor, uma enorme e fantástica cidade em miniatura, com comboios e carros, que se desmorona à medida que a verdadeira Metropolis é abalada pela falta de energia.

Numa crítica de Roger Ebbert a este filme, aparece citado Tom Mankiewicz que descreve Superman como uma peça em três actos: o momento de Krypton é "Shakespeareano", a época de Smallville assemelha-se à obra do pintor americano Andrew Wyeth, e finalmente Metropolis sai das páginas de um “comic book”. Creio que Tom Mankiewicz não se refere a este filme em particular, mas à criação na sua globalidade. Acontece que esta trindade de influências, teatrais, pictóricas e de banda desenhada está muito bem observada, e todas elas se podiam ver nos filmes de Richard Donner e Richard Lester, e se entrevêem neste de Bryan Singer.

quadro de Andrew Wyeth

o realizador Bryan Singer
SUPERMAN - O REGRESSO (Superman Returns), de Bryan Singer (EUA, 2006), com Brandon Routh, Kate Bosworth, Kevin Spacey, James Marsden, Frank Langella, Parker Posey, Sam Huntington, Eva Marie Saint, Kal Penn, David Fabrizio, etc. 154 min: M/ 12 anos.

2 comentários:

Dora disse...

Fui ver e achei que estava bem feito, mas não é bem o meu tipo de filme. Gostei bem mais do Spiderman!

Hugo Alves disse...

É a silly season. É certo. MAs só por ter recuperado 8tentou, pelo menos) a essência do filmes de Donner, este blockbuster merece algumas palmas.