sábado, abril 14, 2007

JOSÉ SOCRATES E A DEMOCRACIA

Esta história do “engenheiro” já enjoa, e devo dizer que não tenho uma especial simpatia pessoal pelo engenheiro Sócrates. Nem antipatia também. Acho, todavia, que está a cumprir uma função e a está a cumprir o melhor que sabe, no caso até acho que a está a cumprir bem, a fazer o que nenhum outro até agora tinha tido poder ou coragem para o fazer.
É obvio que esta trapalhada da Universidade Independente e dos títulos académicos que o PM possui ou não possui legitimamente daria muito pano para muitas mangas, mas ninguém me tira da cabeça que a relação OPA falhada de Belmiro de Azevedo e o facto do “Público” (jornal de Belmiro de Azevedo) ter puxado pelo assunto é uma coincidência dos diabos. O que retira a toda esta questão qualquer consistência honesta e a atira para o pior que há da baixa política. Já tivemos tentativas de assassinato político desse senhor pelo menos por duas vezes, e quem saiu tostado foi quem levantou as questões da sua inclinação sexual, de uma vez, e de um caso de possível compadrio na zona protegida da Arrábida, ao que me lembro. Em ambos os casos, Sócrates saiu por cima. A baixa política por baixo. Mas a missão dos boatos venceu porque fica sempre no ar a dúvida.
Depois, quero lá saber se Sócrates é engenheiro ou não. Não está a construir casas, está a governar o País. Dizem-me: pois mas não é isso que está em causa, mas sim o facto de a licenciatura do senhor poder ser uma aldrabice e isso definir uma personalidade e um modo de agir. Nada de mais enganoso. Se houve anomalias na atribuição do grau académico, isso tem a ver com o funcionamento das universidades, não com os alunos. Já viram o que seria da classe política portuguesa se se fosse examinar “a passagem administrativa” de tantos e tantos? Todos os que passaram pelo ensino superior entre 1974 e 1980, e até mais tarde, podem ter esse labelo colado às costas. Ora bem, passaram, fizeram os cursos, desempenham actividades profissionais, o que há a fazer é saber se o fazem bem ou não. No campo onde se encontram.
Esta história do “Senhor Engenheiro” ser ou não ser “Engenheiro” enfim releva do maior provincianismo português e da mais descarada hipocrisia política. Podem crer que diria o mesmo, qualquer que fosse a cor partidária do “Engenheiro”. Já viram o que seria pedir o título universitário a José Saramago, para poder receber o Prémio Nobel?
Mas este caso levanta muitas outras questões, algumas delas essenciais para a vida política portuguesa. E não só. Também para o que se entende que deva ser a democracia. A democracia está em crise há muito. Em crise em virtude das suas próprias características e virtudes.
A democracia vive da liberdade. Liberdade de expressão, liberdade política, liberdade jurídica, liberdade económica. A liberdade de expressão assegura a liberdade a todos, inclusive aos que atentam contra a liberdade. Quem propõe uma ditadura exprime-se livremente em democracia. Em ditadura quem defende a liberdade de expressão é preso, perseguido, mesmo morto.
Ora o que se assiste de algum tempo a esta parte é não a uma tentativa de derrube da democracia, mas a um sistemático ataque às virtudes da democracia, para a desacreditar. Hoje é difícil impor na Europa ditaduras como as que existiram no mundo na primeira metade do século XX. A ditadura de hoje, muito mais sofisticada, é simplesmente económica, não tem ideologia, exerce-se nas multinacionais sem rosto, que tudo controlam em nome do lucro e que não têm pátria. Nem regime político. Veja-se o caso da China: diz-se comunista, mas é um mercado tremendo, logo serve os interesses. Por isso não só se fazem todos os negócios com a China, como se dá possibilidade ao regime de sobreviver, aceitando que invada mercados com os seus preços baixos e a sua mão-de-obra quase escrava. Não há nem moral, nem política que pare o interesse económico.
Nos países democráticos (não é só em Portugal, é a nível planetário!), a liberdade de expressão permite algo de perfeitamente perverso: destruir a democracia por dentro, ir corroendo lentamente as personagens e as instituições, até a opinião pública não acreditar em nada e se afastar do que considera a “politica”. A “porca política”.
Os meios de comunicação social tradicional estão hoje em dia todos na mão do capitalismo. Jornais como “A República” ou “O Diário de Lisboa” de há uns anos atrás, realmente desalinhados em relação ao sistema, são impossíveis de conceber presentemente. Todos se norteiam pelas tiragens, o lucro. Precisam de altas tiragens (que raros têm) e para as conseguir procuram o que vende. O que vende é a coscuvilhice no jet set, a certos níveis, e na política, nesses e noutros níveis. O que vende são os sucessivos “namorados” da Elsa Raposo ou a corrupção política. Logo, vamos a isso, e se não existirem casos reais significativos, inventam-se alguns ou descobrem-se miudezas para alimentar os tablóides. O que se disse de Sá Carneiro, o que se disse de Mário Soares, o que se disse de Paulo Portas, o que se disse de Guterres, o que se disse de Santana Lopes, o que se disse de José Sócrates, com e sem razão! Para só falar de alguns, porque dizer-se, disse-se de todos.
Que alguns anónimos da blogosfera espalhem boatos e digam o que lhes apetece sob o disfarce do nickname, compreende-se. Que se sirvam dessa cobardia perfidamente assassina para passar a jornais, rádios e televisões, isso já fia mais fino. Que se ataquem impunemente pessoas sem provas provadas do que se afirma ou se insinua é algo que não só pode “assassinar” civicamente o visado, como vai matando lentamente a democracia.
Este é um trabalho sistemático, planificado, organizado. A ideia final é demonstrar que toda a gente é corrupta, toda a gente só se serve a si próprio. O que incute no cidadão normal a ideia de que ninguém “serve o interesse comum”, todos “se servem”, logo o melhor é eu fazer o mesmo. Donde essa geração de tecnocratas sem alma que visa o proveito pessoal e nada mais. Logo cada vez mais essa sensação de total desencanto que só pode levar ao alheamento da política. Logo a instalação de uma terra de ninguém, onde o poder económico se instala sem critica e sem controlo. Logo essa ditadura sem rosto que actua a seu belo prazer, duplamente legitimada: se todos procuram o lucro, para quê criticar aqueles que vivem do lucro? Vivendo do lucro, conseguido de forma selvática, a ditadura económica não encontra oposição credível, pois esta foi destruída previamente. E ainda vai lucrando uns pozinhos com a comunicação social que detém e que a serve, beneficiando também duplamente com os escândalos: vendem papel e conseguem audiências, por um lado, e minam oposições, por outro. Para quê arranjar ditadores de outro género, se esta situação serve perfeitamente e ainda por cima dá a ilusão de se viver numa perfeita democracia? Em que ninguém está acima do poder controlador da comunicação social.
Ora bem, com todos os seus vícios, a democracia é ainda o melhor sistema político que conheço. Se não fosse ela não estava aqui a escrever o que escrevo, nem vocês aí a lerem-se, se for o caso. Mas para que isso aconteça, a democracia e a liberdade têm de encontrar os seus próprios mecanismos de defesa.
Mas isso ficará para um próximo texto.
Adenda:
Caros leitores deste blogue: Por norma sou totalmente contra comentários críticos, anónimos e que não estejam ligados a um blogue. É obvio que há comentários anónimos que não rejeito, sobretudo quando ligados a blogues, e se o tema do comentário não ofende ninguém. Quanto a comentários insultuosos para comigo, ou para com terceiros, não são publicados seguramente. Mesmo quando os temas são polémicos se exige alguma compostura.
É evidente que a blogosfera está infestada de energúmenos que a coberto de anonimato dizem o que entendem, sem respeito por nada nem ninguém. É óbvio que só idiotas, e idiotas mal intencionados, podem acreditar que esta forma de expressão é o que se chama “liberdade de expressão” ou qualquer forma de exercício da democracia. A essa vil forma de “expressão”, cobarde e sem carácter, nada mais se poderá chamar do que velhaca calúnia, qualquer que seja a sua justificação. Quem quer ataca e criticar que o faça a descoberto, usando o seu nome e o seu rosto. Quem não tiver coragem para o fazer assim, que se cale. Neste blogue não há lugar para cobardes.

17 comentários:

Ana Paula disse...

Um tema polémico e nada simples.
Gostaria de destacar apenas dois aspectos da sua intervenção:
1º - Excelente fotografia do nosso 1º Ministro!

2º - Qualquer que seja a evolução das democracias, ela nunca deverá eliminar, enquanto sistema político, a liberdade de expressão que é dos mais altos valores conquistados pela humanidade. Mas é preciso ver bem onde é que está a liberdade de expressão, de facto, a manifestar-se. Pode não estar onde parece estar.
Acho que seria útil para a democracia se de vez em quando cortássemos com tudo o que é a nossa sociedade da informação e tentássemos organizar as ideias sem tanto ruído doentio.

A.P.

Pedro Morgado disse...

Sócrates e Portas são os "Mourinhos" da política portuguesa. Mas só no estilo. Resultados nem vê-los.

Joaquim Sobral Gil disse...

Concordo plenamente consigo: a democracia traz em si o germe da da sua própria destruição, ao permitir no seu seio a existência de todas as liberdades.

Anónimo disse...

Quem deu importância ao título foi o PM, não quem critica a usurpação indevida. O seu raciocínio meridiano não ilustra a sua cinematografia.

Ponha as coisas assim, para ter mais facilidade de compreensão:

-o PM do meu país viveu ou não obcecado com um "título académico", obsessão sempre provinciana que releva de um complexo de inferioridade?
-o PM do meu país tirou uma licenciatura com facilidades de que todos os meus jovens concidadãos gozam?
-uma pessoa com este perfil, que todos os dias remenda as declarações do dia anterior, tem credibilidade, interna e internacional, para desempenhar uma função tão importante no meu país?
-quando falo de democracia, incluo a transparência e a moralidade pública?

Como homem do espectáculo, revela uma surpreendente dificuldade de análise do que está a ser um dos espectáculos mais grotescos oferecidos por um governante desde 1974.

António P. disse...

Belo texto.
O descreditar o sistema democrático é algo que está a ser feito de uma forma sistemática e pérfida que infelizmente colhe junto de orgãos de informação que têm à sua frente profissionais que o não deveriam permitir.
Boa noite

Arlindo disse...

Não sendo um sistema politico perfeito, a Democracia é pelo menos o melhor sistema politico possível, todos os outros são piores. O calcanhar de Aquiles é quando o povo é pouco esclarecido, como é o nosso caso.

Anónimo disse...

estimado lauro antónio, entendo o que diz, mas convêm não branquearmos a questão da licenciatura de Sócrates....porque o problema não reside em alguêm que é primeiro ministro ter ou não titutlo académico, o que está em causa é saber a forma como tudo se processou. Com que legitimidade manda para o desemprego doutorados, se o próprio governo tem telhados de vidro.
Um abraço
Etelvina Pinto

Lauro António disse...

Adenda:
Caros leitores deste blogue: Por norma sou totalmente contra comentários críticos, anónimos e que não estejam ligados a um blogue. É obvio que há comentários anónimos que não rejeito, sobretudo quando ligados a blogues, e se o tema do comentário não ofende ninguém. Quanto a comentários insultuosos para comigo, ou para com terceiros, não são publicados seguramente. Mesmo quando os temas são polémicos se exige alguma compostura.
É evidente que a blogosfera está infestada de energúmenos que a coberto de anonimato dizem o que entendem, sem respeito por nada nem ninguém. É óbvio que só idiotas, e idiotas mal intencionados, podem acreditar que esta forma de expressão é o que se chama “liberdade de expressão” ou qualquer forma de exercício da democracia. A essa vil forma de “expressão”, cobarde e sem carácter, nada mais se poderá chamar do que velhaca calúnia, qualquer que seja a sua justificação. Quem quer ataca e criticar que o faça a descoberto, usando o seu nome e o seu rosto. Quem não tiver coragem para o fazer assim, que se cale. Neste blogue não há lugar para cobardes.

Anónimo disse...

subscrevo-te.


em tudo.


és um dos meus Heróis.


a blogo está enfestada de cobardes e invejosos!!!!!!!!!!!!!!


todos os meus beijos. de Amizade.


Sempre.


(Piano) de IMF.

Patrícia disse...

Concordo integralmente!!!

Bandida disse...

pois é, Lauro, subscrevo-te completamente.

há gente é há gentinha... e desses
não rezará a história...


beijossssssssssssssssssss meussss


B.
___________________________

isabel victor disse...

Envio de longe o meu eco de concordância com o estilo e tom do que aqui está escrito.

subscrevo :

"Ora bem, com todos os seus vícios, a democracia é ainda o melhor sistema político que conheço."

um beijo
da isabel

marta disse...

Subscrevo, também, tudo o que escreveu.

É verdade que Sócrates deu importância á licenciatura, mas deu porque vive num país que é doido por títulos académicos e que pensa que sem esses títulos se não é nada.

Beijinhos

Anónimo disse...

Publicação de requerimento enviado por José Maria Martins ao Procurador-Geral da República

Porque entendo que tem interesse cívico , público o requerimento que hoje enviei ao Procurador-Geral da República sobre o caso da licenciatura de José Sócrates, que é do seguinte teor:

"Lisboa, 18 de Abril de 2007

Exmº Senhor
Procurador-Geral da República

Com Conhecimento
Ao Exmº Senhor Presidente do Parlamento Europeu


Assunto: Licenciatura do cidadão José Sócrates Queixa por mim apresentada em 09 de Março de 2007.

Como V. Exª sabe entreguei via fax no dia 09/03/2007 a queixa cuja cópia junto.(doc. nº 1).
No dia 12 de Março foi entregue o original na Procuradoria-Geral da República.
Até hoje não tive qualquer informação de V. Exª sobre o destino da queixa.
Antes do Secretário-Geral do PSD ter exigido uma investigação independente, a noticia que tive foi que V. Exª disse aos jornalistas que não havia matéria para investigar.
O assunto é um escândalo nacional, tal a extensão que ganhou.
Parece que deve ser mandado abrir processo crime autónomo;
Soube hoje que a Inspecção do Ministério queria levar da Universidade Independente o dossier do aluno José Sócrates, o que é grave sabendo que o visado é o Primeiro Ministro e que a Inspecção está subordinada ao Ministério.
Isto assim não pode ser.
O Jornal "O Público" noticiou na edição de 17/04/2007 que anda um inquérito no Ministério Público há 8 anos no qual é investigado um caso de corrupção , na Covilhã, envolvendo a empresa do professor das 4 cadeiras de José Sócrates, na UNI,o que é de espantar, pois não se sabe o que o MºP andou a fazer 8 anos.
Hoje o jornal "O Público" noticia sobre esse caso , envolvendo burlas ao Estado - e revelando factos sobre o pai de José Sócrates - e tudo isto é grave.
Quero saber o que o Mº Pº decidiu sobre a queixa que apresentei e entendo que o Mº Pº deve investigar.
Por isso, vou publicar este requerimento no meu blogue na Internet -mas não o teor da queixa crime que apresentei, pedindo a abertura de um Inquérito - porque entendo que o devo publicar.
Creio que V. Exª sabe que jornais estrangeiros publicaram o escândalo.


NESTES TERMOS
-Requeiro a V. Exª que me informe qual a decisão tomada sobre a queixa crime que apresentei na PGR em 09/03/2007, cuja cópia vai em anexo.

Junta Uma cópia da queixa.

Com os melhores cumprimentos.

O advogado"

vague disse...

A mim enjoa-me igualm/ a abertura de todos os recentes noticiários c/ a suposta licenciatura de Sócrates. É-me tb. o grau académico. Mas não conocrdo totalm/ cnsigo quando o Lauro diz:

Nada de mais enganoso. Se houve anomalias na atribuição do grau académico, isso tem a ver com o funcionamento das universidades, não com os alunos"

Eu acho é q se calhar não é tão linear assim. Se houve favorecimento do aluno e/ou da universidade é isso q revela uma forma de agir e estar.
Hum, o caso da OPA e Público e cira o disco é q sabe-se lá...
Apesar de tudo acho q há coisas mais importantes para fazer do q pedir a cabeça do homem! :)

vague disse...

Ah os inefáveis anónimos!

Giro giro era ver um elogio anónimo e uma crítica feroz a dar o nome. Mas já não há homens como antigamente :)

Eu tive a minha dose de anónimos patetas ao longo do meu tempo de net - se uma coisa reforcei em mim foi o meu repúdio da cobardia e o meu respeito pela lealdade e dignidade q pode (ou não) existir em qq anónimo. Tal qual.

Anónimo disse...

Agora "anónimos" mandam cartas de outros. Mas como a carta tem rosto, fica o registo da carta do advogado. LA