quinta-feira, abril 19, 2007

CINEMA - 300

300 ESPARTANOS

“Estrangeiro, vai contar aos Lacedemónios que jazemos
aqui, por obedecermos às suas normas.”
- Simónides de Céos

“Estrangeiro que passas, diz a Esparta teres-nos visto aqui jacentes,
obedecendo às santas leis da Pátria.”
- Cícero

“Aqui combateram um dia, contra três milhões, quatro mil homens do
Peloponeso.”
- Simónides de Céos

“Ou quem, com quatro mil Lacedemónios,
O passo de Termópilas defende [...]”
- Luís Vaz de Camões

“[...] Earth! render back from out thy breast
A remnant of our Spartan dead!
Of the three hundred grant but three,
To make a new Thermopylæ!”
- Lord Byron, The Islands of Greece


Quadro de Jacques Louis David, "Batalha das Termópilas" (1814)

“300”, de Zack Snyder, é uma produção norte-americana de 2007 que aborda um acontecimento de relevo no constante confronto entre Ocidentais e Orientais, no Médio Oriente. Esse episódio bélico ficou conhecido pela designação de batalha das Termópilas e integra-se obviamente num contexto mais vasto das Guerras Médicas, ou Persas, que opuseram durante muitos anos Persas e Gregos.

(...) A resposta das cidades-estado gregas, perante a ameaça, foi colocar de lado as habituais divergências e reunirem-se numa conferência pan-helénica no Istmo de Corinto (481 a.C.). Quase todas aderiram à confederação, com excepção de Argos, inimiga de Esparta, Cirenaica, Massália ou Siracusa. A Leónidas, rei de Esparta, estado militarista por excelência, onde todos os cidadãos eram soldados profissionais, sendo exclusivamente educados para a vida militar, foi entregue a defesa da Grécia. Em finais de 481 a.C., Xerxes avança sobre a Grécia, iniciando a II Guerra Médica, dominando a Macedónia, a Calcídica e a Tessália, na qual fixou as suas bases, rumando de seguida para o centro da península helénica, onde se irá travar a batalha das Termópilas. Quem vai contar esta façanha heróica é Heródoto, obviamente sob um olhar e uma perspectiva parciais, descrevendo este conflito entre o Ocidente e o Oriente, entre os Cidadãos, habitantes das democracias gregas, e os Bárbaros, nome por que eram, depreciativamente, conhecidos os persas, entre europeus e asiáticos. Pela primeira vez na História da Humanidade, julga-se, há uma verdadeira consciência da distinção entre duas culturas e duas civilizações, separadas por dois continentes. Aqui se jogou também o destino da Civilização Ocidental. Mas Heródoto de Halicarnasso, e também Esquilo, em “Os Persas”, mais não fazem do que seguir os estereótipos da época, convocando uma tradição que remonta à “Ilíada”, de Homero, onde o Oeste (os aqueus) e o Leste (os troianos) já se chocavam entre si. Segundo a descrição de Heródoto (que viveu a guerra pessoalmente, segundo uns, que teria apenas quatro ou cinco anos nessa data, segundo outros), no Verão de 480 a.C., no desfiladeiro das Termópilas, na Grécia Central, 300 espartanos, sob o comando de Leónidas, acompanhados por pouco mais de 7 000 aliados de outras cidades-estado helénicas, enfrentaram “milhões de persas” (uma enormidade: julga-se que não iriam além de 160.000 homens, no máximo) chefiados por Xerxes. 300 ou sete mil, a desproporção era fantástica. Mas não deixa de ser curiosa a referência a 300 espartanos, pois só estes eram soldados profissionais e só estes eram considerados cidadãos da mítica cidade guerreira. Quando morreram foram os únicos a serem celebrados. A “ralé” que os acompanhou, não contava, nem em número. Por outro lado, celebrar 300 espartanos era erigir uma lenda à coragem de um povo e de uma cidade. Era lançar na História um mito que se celebra até hoje.
Quanto ao desfiladeiro das Termópilas era uma estreita língua de terra entre o Golfo de Mália e os Montes Eta e Calídromo. Perfilava-se como uma zona montanhosa, seleccionada de forma notável de um ponto de vista estratégico, longe de Atenas, que ficava preservada, longe da Tessália, base de apoio de Xerxes. Este rei observou do alto do seu trono dourado a resistência dos Gregos. Primeiro esperou que fossem estes a atacar. Durou cinco dias a espera. Depois resolveu-se a atacar. Impossibilitado de lançar a cavalaria, mandou avançar homens armados somente com um pequeno escudo e uma lança. Ao tentarem penetrar no desfiladeiro, foram completamente rechaçados. Lamentava-se Xerxes, segundo Heródoto, de ter “muitos homens, mas poucos soldados”, o que era verdade. Do lado espartano também era verdade. A seguir, choveram do céu milhões de flechas, que os gregos receberam protegidos pelos seus escudos. Conta-se que um soldado terá dito a Leonidas que “as flechas eram tantas que tapavam o Sol”, ao que este terá respondido: “Melhor assim. Se os persas taparem o Sol, combateremos à sombra”. Mas há outras tiradas célebres relativas a essa batalha, toda ela mítica. Diz-se que Xerxes procurou evitar o confronto e que teria enviado mensageiros a Leónidas pedindo a este para depor armas e que se juntasse aos persas, ao que Leónidas teria respondido simplesmente: “Vinde buscá-las!”.

Ao fim do segundo dia de batalha, apareceu no acampamento dos persas um tal Efialtes, dirigindo-se a Xerxes na esperança de obter uma compensação pecuniária a troco da traição: revelar um caminho secreto que conduzia à retaguarda das Termópilas, através da montanha. Foi assim que os espartanos foram derrotados, apanhados entre dois fogos, não sem antes venderem cara a derrota. Leónidas mandou retirar quem o quisesse fazer, e aguentou firme até à morte com os seus 300 bravos (e mais uma centenas de outros bravos que também ficaram, mas dos quais não reza a História, pelo menos a mítica). Diz a História recente que terão morrido na batalha cerca de 2000 gregos e mais de 30000 persas. Este tempo que pausa no avanço de Xerxes permitiu a Atenas evacuar a cidade, que seria pilhada, e reorganizar a defesa ao longo do Istmo de Corinto. Tempos mais tarde, a pesada armada persa foi obrigada a penetrar no estreito de Salamina, onde foi massacrada pelas ágeis embarcações atenienses. No ano seguinte, viria a derrota final, que acontece em Plateias. A Pérsia desiste então de invadir a Grécia continental. A paz é decretada em 449 a.C., com a assinatura da Paz de Cálias. Mais tarde, Alexandre, o Grande, invadiu o Próximo Oriente e conquistou o império de Dario III. Mas isso já pertence a outro filme…

Foi com base neste episódio que Frank Miller, autor norte-americano de banda desenhada, escreveu e desenhou “300”, em 1999, agora adaptada a cinema por Zack Snyder. Já em 1962, um polaco, Rudolph Maté, dirigira em Itália, “The 300 Spartans”. Sobre a sua actividade, Frank Miller contou: “O meu trabalho são as histórias em quadradinhos. Já escrevi e desenhei histórias para personagens clássicas, como “Homem-Aranha”, “Batman”, “Elektra” e “Demolidor”, sempre com um estilo mais sombrio. A minha primeira BD individual, “Sin City”, foi fielmente adaptada para o cinema e fez muito sucesso. Agora, está em cartaz mais um filme baseado numa história minha: “300”. Sempre me interessei por História e guerras, por isso me inspirei na verdadeira Batalha de Termópilas, ocorrida na Grécia, para escrever essa BD que mostra a saga dos 300 soldados de Esparta.”
A BD é uma coisa, o filme surgido em 2007 uma outra. O universo de Frank Miller é já de si um universo de violência machista, que Robert Rodriguez, em “Sin City” transpôs para o cinema com alguma ironia e uma excelente “adaptação” de linguagens. No caso do filme de Zack Snyder fia tudo muito mais fino. O filme é plasticamente muito bonito, criando uma notável equivalência entre os quadros da BD e as imagens de cinema. Deve dizer-se que mais uma vez as novas tecnologias digitais se mostram à altura para conseguir resultados brilhantes, desta feita como que interligando desenho e pintura e fotografia e imagem em movimento. Cada imagem do filme pode muito bem funcionar isolada, como um quadro, a fotografia é fabulosa, com predominância de ocres, castanhos avermelhados e cinzas azulados, conferindo ambientes de tonalidades românticas que a obra justifica amplamente.
Este é obviamente um filme de acção, onde não interessam tanto as explorações psicológicas ou os estudos sociológicos, o que se entende. O desenvolvimento da acção prevalece e a violência explode em várias cenas rodadas em câmara lenta (à boa maneira de Sam Peckinpah!), fazendo explodir o sangue e como que suspendendo no tempo alguns actos particularmente sádicos (cortes de cabeças, de membros, etc.). Tudo isso se pode apreciar como uma forma de fazer render o espectáculo com resultados plásticos de bom efeito.
É por demais óbvio que o filme se quer militarista, aguerridamente bélico, defensor do homem como animal belicoso por excelência. Os espartanos que vão para a guerra, e que são preparados desde a infância para esta actividade, são os bons da fita, morrem pela Pátria e por altos valores de coragem e sacrifício. Nada a opor. Morrem lado a lado, homens brancos e sadios (os estropiados, deformados e outros que tais são anulados à nascença, o que dá uma boa ideia de métodos pré-nazis de depuração da raça branca!), numa confraternização muito musculada que tem algo de homossexualidade à mistura (por muito que sejam os próprios espartanos a brincar com o gosto ateniense por efebos!). Mas homossexualidade era comum entre gregos de todas as cidades estados e não só de Atenas. Passemos, portanto, ainda que cautelosamente, por cima de tudo isto, desta mentalidade guerreira militarista, para-homossexual. Nada a opor.
Que nos reserva ainda “300” para comentarmos?
Pois o mais discutível de tudo, a apologia da guerra, a apologia da guerra Ocidente-Oriente, onde curiosamente os persas são o inimigo, persas que hoje em dia se chamam iranianos, e ficam por ali perto do Afeganistão e Iraque. Não será estranho aparecer agora um filme que defende o heroísmo de uns tais ocidentais, ditos muito democráticos (mas que vivem rodeados de escravos, que utilizam também para adestrar a espada nas suas aulas de guerra – Leonidas exercita-se a matar escravos, não lobos!), que defendem a Liberdade e a Democracia contra persas tirânicos? Creio que não nos foi dado ver até hoje filme mais abertamente pró-Bush do que este.

texto integral pode ser lido na revista "História", de Maio de 2007.

6 comentários:

Ana Paula disse...

Gosto muito de aprender e há sempre matéria para isso nos seus textos acerca de cinema. Muito rico historicamente, este.
Em princípio, não verei o filme mas fiquei a par quer da sua novidade tecnológica quer da sua implícita ideologia.
Bj da A.P.

Insano disse...

Acho nefasta esta tentativa de tentar arranjar interpretações políticas, em todos os filmes que aparecem no grande écran. "300" um filme pro-bush???
Apenas, porque os maus da fita no cinema, são os Persas... que actualmente é o Irão... Se houvesse uma analogia com o presente, até seria o contrário, a grande potência que não consegue vergar tudo o que lhe aparece pela frente....
Ou se calhar, dar a descobrir, que realmente os Iranianos se revejam nos seus antecendetes Persas e como tal, criaram inimigos entre as outras nações árabes... e não é tudo farinha do mesmo saco, sendo assim mais fácil isolá-los no contexto internacional...

Não, "300" é uma excelente adpatação de uma magnífica graphic-novel de BD... ~e não de um livro de história... normalmente escrito pelos vencedores...

Abraço,

Joana C. disse...

Caro Lauro António: Um grupo de alunas da Faculdade de Letras de Lisboa, no qual estou inserida, está a organizar um Ciclo de Cinema denominado "Let´s Look at the Trailer" que terá como tema "Os Clássicos de Ontem e de Hoje". Gostariamos de o convidar para participar nas conferências que decorrerão nos dias 22 e 24 de Maio. Peço que nos contacte através dos segintes e-mails:
lets.look.at.the.trailer@gmail.com ou joana.m.cordeiro@gmail.com
(ou se preferir pelo telefone 919783107) para lhe enviarmos o convite formal e o programa do nosso ciclo e conferências.
Peço desde já desculpa por este comentário que nada tem a ver com o post mas foi a única maneira que encontrámos para o contactar. Com os melhores cumprimentos, Joana Cordeiro

festroia disse...

Só para avisar que estamos de volta, em www.festroiablog.com

Yardbird disse...

À margem do filme e do seu conteúdo, quer histórico, quer ideológico ou mesmo artístico, queria pôr ao meu caro Lauro António uma questão que surge agora, como surgiu outras vezes anteriormente em relação a outros filmes e que sempre me deixou céptico em relação à qualidade dos nossos críticos cinematográficos.
Na semana passada, numa revista semanal, e como é habitual, dois ou três críticos davam a sua apreciação sobre o 300. Um deles atribuía uma classificação muito razoável ao filme. Outro, classificava-o como "de fugir".
É claro que as opiniões são pessoais, mas é sabido que ainda há espectadores que lêem as análises dos críticos e decidem em conformidade se sim ou não irão ver determinado filme. E em última análise, seria mesmo essa a função do crítico.
Ora, face ao que exponho, não ficará o espectador interessado perplexo face ao que lhe é "dito" tão contraditoriamente por uum e outro crítico?
Não contribuirá esta tão flagrante diversidade de opiniões para o descrédito da opinião dos próprios críticos?
Ou haverá mais alguuma coisa que me esteja a escapar?
Um abraço para sim, caro L.A.

belinha disse...

Caro Lauro António, desculpe peguntar, mas a sua formação é História? O texto está excelente!Adorei ler e gostava de colocar no meu blog, se me deixar.Eu não arrisco escrever sobre História-daria erros e acho uma tolice escrever sobre coisas que não domino.Eu vi o 300, e sou franca, já tinha ouvido falar das Guerras entre Persas e Gregos, mas nunca desta batalha.É, a História nunca foi o meu forte.Sei bastante História de Inglaterra pois o programa de Inglês do meu 12º ano abordava-a.Sei que os Gregos não gostaram do filme e já perguntei a um amigo grego o que pensava mas ele ainda não viu.Como deve imaginar eu gosto de banda desenhada e de adpatações de BD ao cinema: vejo quase tudo o que se faz. Este filme, nesse aspecto, parece-me muito bom.Estava à espera de uma fita fraca pois já tinha lido algures que o aorgumento era incipiente. Mas penso que se aguenta pois o episódio a narrar era aquele e foi tratado a seco, sem muitos rodeios-directo ao assunto!Penso que a personagem de Leónidas é muito convincente, já Xerxes é bastante decorativo. O filme é um festim visual, tal como diz.Mas trata a batalha de uma forma muito plástica e coreográfica: lembrei-me de outros, a abertura do Galadiador ou Braveheart, onde a noção de campo de batalha é muito mais real. Ali imaginamos facilmente vinhetas de banda desenhada: tudo ajuda a isso, os ângulos, o apuro de certos detalhes cobntrastantes, as figuras "paradas", como imagens,a que se refere também. A apologia da guerra- diz o Lauro que é o problema.Não tenhamos ilusões: a guerra nasceu com o homem e só morrerá com ele.Embora o diálogo seja uma forma superior de lidar com o conflito será precisa uma aprendizagem por parte da Humanidade nesse sentido e não sei-mas que pessimista- se a Humanidade não se destruirá antes de alcançar essa faculdade.Ainda assim, e sempre pensei isto, as guerras na antiguidade, com as suas estratégias e engodos, mas cheias de combates corpo a corpo, possuiam, dentro da sua irracionalidade, uma nobreza que as actuais, de botão vermelho a milhas de distância, não possuem.