domingo, agosto 03, 2008

BLOGUES E LITERATURA

BLOGUES E LITERATURA DÁ FILME NO BRASIL

A querida amiga Liza França enviou, por mail do Brasil, um texto aparecido no diário “O Popular”, de Goiânia, 3 de Agosto de 2008, intitulado “Depois da febre, o papel”, onde se aborda o tema do blogue e da blogisfera nas suas relações com a literatura: “Apontado até como substituto do livro, blog hoje é mais usado para exercitar o estilo, dizem escritores” É autor Francisco Quinteiro Pires (São Paulo/AE). Transcrevo, com a devida vénia, pois me parece de interesse para os bloguistas portugueses, tanto mais que se estreou no Brasil um filme abordando esse tema. Respeitei a linguagem de lá:
“Claro blog, no começo desta década você surgiu como diário particular. E, claro, virtual. Mas, em vez de o guardarem a sete chaves numa gaveta, os seus donos queriam mesmo é que os outros o lessem.
Logo, os escritores, e aspirantes a escritores, o notaram. Falava-se que ali surgia a geração 00 da literatura brasileira. Você vinha cheio de promessas. Era livre e fácil de usar. Era uma febre. Neste ano, até fizeram um filme baseado nos textos de uma escritora e blogueira, a Clarah Averbuck.
E hoje surge a pergunta: quantas dessas promessas se realizaram após a febre ter passado? Para saber a resposta, a reportagem consultou escritores que têm ou tiveram blogs, página na internet onde é possível postar (divulgar) textos gratuita e livremente. A maioria vê o blog como ferramenta de divulgação de trabalhos, além de ponto de encontro com os colegas.
Embora seja cedo para afirmar categoricamente qual o poder do blog de transformar a literatura, o que se vê é esse espaço virtual sendo usado para exercitar um estilo, antes de o autor chegar ao papel. “O blog se oferece como uma pista de provas sem limites”, diz Cíntia Moscovich, que vai “matar” seu blog criado em 2005; falta tempo para cuidar dele.
O livro continua como o suporte por excelência da literatura, “ele é um software invencível”, brinca o catarinense Cristovão Tezza, que não tem blog, mas um site (www.cristovaotezza.com.br). “Ninguém quer ser escritor de blog”, segundo Daniel Galera, um dos pioneiros na web a falar de literatura no mailzine CardosOnline, com Averbuck e Daniel Pellizzari. Segundo Galera, o blog não influencia o fazer literário, porque, a exemplo de um fanzine, ele é meio de divulgação.
Em abril do ano passado, ele desativou o blog, onde não publicava ficção. Na última década houve a comparação da geração do mimeógrafo, dos anos 1970, com a dos blogueiros, lembrada por João Paulo Cuenca, que criou um blog para falar dos bastidores do romance Corpo Presente (2003). Hoje ele está hospedado n’O Globo Online, onde divulga opiniões. “Blog é qualquer coisa menos literatura, é uma ferramenta para expor seu trabalho.”
Cuenca diz ter perdido a paciência com esse meio virtual. “Eu me sinto próximo do leitor, mas interatividade em excesso pode prejudicar o processo ficcional”, afirma. Se há uma influência, diz Cuenca, ela não está no nível da linguagem, mas no fato de o blog ter criado uma rede entre escritores.
“O blog é outro gênero literário, tem o post, assim como tem a novela, o conto, o romance, etc.”, discorda Lucia Carvalho, do frankamente.blogspot.com. Para ela, o ato de postar tem um elemento transformador da literatura, que, embora a blogueira não especifique, tem a ver com o tamanho menor e a leitura rápida dos textos. Lucia chegou ao papel na coletânea 35 Segredos Para Chegar a Lugar Nenhum (Bertrand Brasil). Ela tem um livro à espera de uma editora.
Dono do www.eraodito.blogspot.com, uma agência de notícias literárias, Marcelino Freire diz que o blog espelha a doença do mundo atual: a pressa. Ele não publica ficção nem os bastidores da sua literatura na web – “não apareço de pijama na sala”. Marcelino acredita que “o blog transforma a literatura, apesar de não saber onde, como o bico-de-pena influenciou Machado de Assis e o tique-taque da máquina de escrever deu voz dramática própria aos escritores que a utilizavam”.
As relações entre blog e literatura vieram à tona, quando Nome Próprio, de Murilo Salles, estreou nos cinemas no mês passado. Baseado no livros Máquina de Pinball (2002) e Vida de Gato (2004) e em posts do www.brazileirapreta.blogspot.com, todos de Clarah Averbuck, o filme conta a história de Camila (Leandra Leal), aspirante a escritora que cria um blog acessado por internet discada. É um canal em que ela acessa os demônios interiores para manifestá-los ao mundo.
Classificado de “mídia eucêntrica” pela estudiosa Maria Regina Momesso, o blog pode ser considerado “uma técnica de si”. Ela recorreu a esse conceito de Michel Foucault para estudar como os internautas podem, além de manifestar uma subjetividade, construir uma identidade por meio do discurso. E, assim, saírem do anonimato.
Para Cristovão Tezza, os blogs vieram na esteira de uma tendência mundial da literatura, em que a ficção perde terreno para a não-ficção, dando vez à exposição (auto)biográfica.
Doutora em lingüística pela Unesp, Maria Regina estuda a linguagem dos blogs desde 2004. Diz que a “técnica de si” pode ser verificada já na Grécia antiga, onde aprendizes relatavam angústias e dúvidas em cadernos . Esses cadernos eram lidos pelos mestres, que ensinavam filosofia e oratória – era uma preparação para o estar no mundo.
“As pessoas escrevem porque é uma forma de autoconhecimento”, diz. Narrar por escrito ou oralmente é o mesmo que conhecer, segundo a etimologia desse verbo. Escrever é deixar marcas no mundo, enquanto se é marcado por ele. E a palavra entrou em circulação com força na internet.
“Nos anos 80 e 90, dizia-se que iríamos viver numa cultura ágrafa por causa da televisão e do telefone”, diz Tezza. “Mas nunca houve tanta palavra circulando.” Para ele, a literatura tem antena ligada com o mundo concreto. Por isso é difícil fazer qualquer previsão: o futuro das relações entre blog e literatura à geração 10 pertence.

1 comentário:

Ana Paula disse...

Um tema dos mais interessantes.
Muito fértil, sem dúvida, a ideia do blog como "uma técnica de si".

Não concordo, no entanto, que a escrita dos blogs não tenha relações (e poderosas) com a literatura. Para mim, o livro em suporte de papel será sempre insubstituível, mas a blogosfera é um imenso laboratório,também de literatura. E, com a sua especificidade, também insubstituível.
Se pensarmos igualmente, no importante que é poupar papel, o meio virtual surge como o lugar mais adequado para exercitar a escrita no futuro. E também divulgá-la.

Na verdade, cada uma destas dimensões terá sempre o seu lugar próprio. A grande novidade reside na interacção que pode desenvolver-se entre ambos os domínios.

Obrigada pela divulgação! :)