segunda-feira, novembro 17, 2008

CINEMA: ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
A história da literatura, a do cinema, enfim toda a história da arte está repleta de utopias e de antecipações catastróficas do futuro. Umas e outras querem no fundo significar o mesmo: que o presente que se vive não é exemplar e que, de uma forma ou outra, urge modificar as coisas para que a vida do Homem na Terra possa ser melhor (o que anunciam as utopias, pelo lado positivo) ou para que a vida na Terra não seja um pesadelo (o que as antecipações catastróficas prevêem). O romance de José Saramago, “Ensaio sobre a Cegueira” é do segundo tipo, podendo colocar-se ao lado de outras obras de antecipação como “O ÚIltimo Homem sobre a Terra” ou alguns romances e filmes de “mortos-vivos”, de “Metrópolis” ou de “Blade Runner”. Com algumas características a diferenciá-lo, certamente. Enquanto quase todos os outros partem de antecipações catastrofistas de cunho popular, esta assume o seu lugar erudito. Todas querem dizer mais ou menos a mesma coisa: que, se não se arrepiar caminho, o futuro do Homem é sombrio, mas em Saramago não há simbologias associadas a vampiros ou mortos-vivos. Há cegos, com tudo o que a palavra comporta igualmente de simbólico (cegos = os que não vêem, os que ignoram o que os rodeia). Imagine-se que, um certo dia, uma epidemia de cegueira grassava entre os humanos. Não numa cidade particular ou país em especial, mas na Terra, na Humanidade. Por isso o filme de Fernando Meirelles, rodado entre São Paulo (Brasil) e Montevideu (Uruguai), não precisa nunca qual a cidade em que estamos, e procura reunir um pouco de todas as raças, dos brancos aos negros, dos latino-americanos aos japoneses. A parábola diz respeito à Terra na sua globalidade, e à Humanidade. Se atentarmos melhor no discurso, percebe-se que se dirige a aspectos que constituem a essência do ser humano, no que este tem de pior: a necessidade de poder, a avidez, a tendência endémica para a maldade, a perversidade, a cupidez. Quando todos ficam cegos, há logo quem se imponha, se auto nomeie “Rei” e submeta pela força os restantes, ou procurando roubar-lhes as riquezas (a propriedade privada) ou impondo-lhes a indignidade (as mulheres são obrigadas a entregarem-se aos senhores da camarata que detêm o poder, o revólver, por um lado, e a sabedoria, o cego de nascença que sabe como ninguém conviver com a desgraça da escuridão, ou da luz branca). A parábola é óbvia, basta acompanhar com alguma atenção o percurso do livro ou o do filme: o homem tem de ser solidário para sobreviver, e, se for caso disso, os lobos têm de ser abatidos para que os cordeiros se salvem.
De uma crueldade invulgar, com cenas que psicologicamente roçam o insuportável, o filme de Fernando Meirelles (que nos dera “”O Fiel Jardineiro” e “Cidade de Deus”, entre outros) assume-se como um exercício de escrita coerente e compacto, sem grandes deslizes e uma progressão dramática tensa e obsessiva. A parábola da cegueira mexe com os espectadores, tal como mexe com os leitores (mas no cinema a cegueira é mais “visível”), pois continua a ser uma das ameaças mais temidas. Por isso livro e filme adquirem tamanho impacto e desespero. Depois, o significado torna-se muito claro. Os propósitos do livro eram demasiados evidentes, os do filme são-no igualmente. Não é preciso pensar muito para se chegar onde os autores querem chegar.
Neste aspecto, acho José Saramago um óptimo e fortíssimo inventor de boas histórias com moralidades sociais mais ou menos evidentes. Depois, dependendo dos títulos, a sua escrita tem pouco de subtil, não deixa grande lugar ao leitor, manipula-o deliberadamente com um maniqueísmo óbvio, esgrimindo “lições” compulsivas, que o tornam por vezes demasiado demagógico. É uma opinião pessoal, obviamente. Devo dizer que é um autor que não perco, mas que nem sempre chego ao fim. O livro retirado deste seu romance é, porém, uma adaptação fiel ao espírito da obra, mas algo que me quadra melhor. Não será uma obra-prima perfeita, longe disso, mas é um filme que consegue marcar os espectadores de forma indelével. Os monólogos do velho negro são escusados, mas as personagens são muito bem trabalhadas, os actores bons, Julianne Moore brilhante (fico a aguardar pelas nomeações para a ver incluída na lista e é bem capaz de haver mais umas quantas surpresas, argumento adaptado, por exemplo). Há cenas magníficas, a violação colectiva, a mulher morta a ser lavada, a insurreição da camarata 1, a cena de amor entre o médico e a mulher dos óculos escuros, logo a cena inicial do primeiro anúncio de cegueira, que nos introduz num ambiente de cortar à faca, e algumas mais. A segurança de Meireles a segurar a tensão num plano altíssimo é de assinalar. A fotografia colabora enormemente para este clima, não só de cegueira colectiva, como de morbidez e viscosidade contagiante. No que a direcção artística funciona bem, igualmente. As cenas de ruas, com os amontoados de carros e lixo, o cenário desolador de porcaria acumulada nos corredores das camaratas, e no interior das mesmas, os supermercados esventrados, tudo contribui para restituir um ambiente de fim de mundo convincente e brutal.
Normalmente a imagem é mais demagógica que a palavra, porque mais evidente, porque mostra em vez de sugerir. Neste caso, porém, o cuidado de Fernando Meirelles e da sua equipa em manter o filme num nível de grande plausibilidade consegue tornar uma aposta difícil e perigosa numa aposta ganha.
ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA
Título original: Blindness ou Ensaio Sobre a Cegueira
Realização: Fernando Meirelles (Canadá, Brasil, Japão, 2008); Argumento: Don McKellar, segundo romance de José Saramago (“Ensaio sobre a Cegueira”); Produção: Andrea Barata Ribeiro, Niv Fichman, Sonoko Sakai, Bel Berlinck, Sari Friedland, Simon Channing Williams, Gail Egan, Akira Ishii, Victor Loewy, Tom Yoda, Claudia Büschel, Aeschylus Poulos, Chris Romano, Austin Wong, Nicolas Aznarez; Música: Marco Antônio Guimarães; Fotografia (cor): César Charlone; Montagem: Daniel Rezende; Casting: Deirdre Bowen, Susie Figgis; Design de Produção: Matthew Davies, Tulé Peak; Direcção artística: Joshu de Cartier; Decoração: Erica Milo; Guarda-roupa: Renée April; Maquilhagem: Debra Johnson, Janie MacKay, Susan Reilly LeHane, Micheline Trépanier, Anna Van Steen, Catherine Viot; Direcção de produção: Marcelo Cotrim, Andrezza de Faria, Ivan Teixeira; Assistentes de realização: Adam Bocknek, Penny Charter, Joana Cooper, Tyler Delben, Walter Gasparovic, Tomas Portella, Flavia Zanini; Departamento de arte: Mary Arthurs, Daniel Fernandez, Steve Stack; Som: Guilherme Ayrosa, Alessandro Laroca, Eduardo Virmond Lima; Efeitos visuais: Martin Cobelo, Madhava Reddy, Andre Waller, Andre Waller; Companhias de Producção: Rhombus Media, O2 Filmes, Bee Vine Pictures, Alliance Films, Ancine, Asmik Ace Entertainment, BNDES, Corus Entertainment, Fox Filmes do Brasil, GAGA Communications, IFF/CINV, Movie Central Network, Téléfilm Canada;
Intérpretes: Julianne Moore (mulher do médico), Mark Ruffalo (médico), Alice Braga (mulher dos óculos escuros), Yusuke Iseya (primeiro cego), Yoshino Kimura (mulher do primeiro cego), Don McKellar (ladrão), Jason Bermingham, Maury Chaykin, Mitchell Nye (rapaz), Eduardo Semerjian, Danny Glover (negro com olho tapado), Gael García Bernal (o “rei”), Joe Pingue, Susan Coyne, Fabiana Guglielmetti, Antônio Fragoso, Lilian Blanc, Douglas Silva, Joe Cobden, Daniel Zettel, Mpho Koaho, Tom Melissis, Tracy Wright, Amanda Hiebert, Jorge Molina, Patrick Garrow, Gerry Mendicino, Matt Gordon, Sandra Oh, Anthero Montenegro, Fernando Patau, Otávio Martins, João Velho, Marvin Karon, Joseph Motiki, Johnny Goltz, Robert Bidaman, Niv Fichman, Oscar Hsu, Martha Burns, Scott Anderson, Michael Mahonen, Joris Jarsky, Billy Otis, Linlyn Lue, Toni Ellwand, Mariah Inger, Nadia Litz, Isai Rivera Blas, Rick Demas, Kelly Fiddick, Matt Fitzgerald, Mike G. Yohannes, Norman Owen, Jackie Brown, Victoria Fodor, Agi Gallus, Bathsheba Garnett, Alice Poon, Plínio Soares, Rodrigo Arijon, Mel Ciocolato, Heraldo Firmino, Carol Hubner, Fernando Macário, Eduardo Parisi, Rodrigo Pessin, Domingos Antonio, Ciça Meirelles, Katherine East, Katia Kieling, etc.
Duração: 120 min; Classificação etária: M/16 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Data de estreia: 13 de Novembro de 2008 (Portugal).

3 comentários:

BlueAngel disse...

Se já estava com vontade de ir ver agora ainda estou mais.

Lóri disse...

A vergonha é que ainda não vi e, como de hábito, deixaste-me com água na boca e ansiosa por fazê-lo, e mais aflita pois já está há tanto tempo em cartaz por aqui que nem sei se ainda o alcanço na telona ou se terei que esperar pelo DVD. De toda forma, foi delicioso ler o teu olhar sobre os olhares do Fernando Meirelles sobre os não-olhares do Saramago. Eu diria que isto é uma mise-en-abîme quase involuntária e deliciosa. Obrigada, meu querido Senhor do cinema... e dos blogs, já agora! :)

Maria Eduarda Colares disse...

Acho o cartaz aqui reproduzido excepcionalmente inspirado.