domingo, janeiro 18, 2009

CINEMA: A TROCA

A TROCA
Há verdades que já se sabem de há muito: Clint Eastwood filma a tragédia da condição humana como poucos. Penetra-lhe no lado mais sórdido e violento com o mesmo olhar com que filma mais adiante a pureza e a bondade de um gesto, e diz-nos, com o conhecimento de vida que só a idade confere, que uns e outros são autênticos, genuínos, humanos e que nada há a fazer para alterar essa condição que se abate sobre nós como uma tragédia, senão não capitular, lutar até ao fim, procurar fazer deste mundo um mundo melhor, sem ilusões de que a vilania seja erradicada, mas que a mesma pode ser circunscrita. O terrível é que todos sabemos que, aqui ou ali, neste preciso momento, se manda para hospícios quem não agrada aos poderosos que ande solto, que se mata com requintes de malvadez crianças sabe-se lá com que justificação traumática, que há garotos desaparecidos que nunca regressam (e outros que felizmente voltam aos pais), que há polícias corruptos e políticos que só pensam na próxima eleição e no poder absoluto, que há médicos comprados pelo sistema para assinarem o que for preciso, todos sabemos pois que tudo isto acontece hoje, neste preciso momento, menos em sociedades mais controladas pelos direitos e deveres dos cidadãos, é verdade, mais nas despoticamente governadas por tiranos sem escrúpulos (e há-os para todas as cores e bandeiras!). Não tenhamos ilusões que nada disto mudará nunca. Basta o rastilho para a pólvora explodir. Por isso o melhor mesmo é afastar o rastilho da pólvora e esperar que a civilização vá cada vez mais controlando a barbárie, com leis justas e educações privilegiadas, sem esquecer o cutelo da lei sempre atento ao violador.
Clint Eastwood é um conservador que aposta nos valores e deles não sai. Sabe-se que muitas vezes é difícil distinguir o Bem do Mal, mas há momentos em que o maniqueísmo do juízo vingará para sempre. Por exemplo, quer seja em Belém de Judá, quer seja nos campos de concentração nazis ou nos “goulags” estalinistas, quer seja em Guantánamo ou nas guerras “justas” de palestinianos (que se imolam com bombas e fazem ir pelos ares crianças inocentes de todos os credos) e israelitas (que bombardeiam sem cessar população civil), quer seja às mãos de “serial killers” isolados em qualquer país do mundo sabe-se, de ciência certa, que a morte de inocentes, sejam crianças ou adolescentes, nunca irá parar. E isso é o Mal, qualquer que seja a justificação. Haverá sempre, em qualquer parte do mundo, um tarado (ou dezenas, ou centenas de tarados, às vezes formando governos!) que acham justo matar crianças. Mas nada nos fará vacilar no juízo: é um crime, venha ele com que justificação, política ou religiosa, um exemplo bárbaro do exercício do Mal. Por isso, Clint Eastwood não vacila. Há utopias em que ninguém deve acreditar. Não haverá “homem novo” nunca. O que temos é o que há, é com este “homem” que teremos viver até ao fim. É com esta natureza humana que há que lidar, que aprender a domesticar, sem retirar a identidade e a diferença, a brandamente civilizar, a tornar mais habitável o planeta. Lentamente, sem grandes ilusões. Mas vagarosamente o caminho vai sendo feito, e, sem euforias, podemos dizer, que para cada “serial killer” privado ou militarizado, há milhões de gente boa que só quer viver bem e ser feliz, de harmonia com o vizinho, sem raivas nem ódios demenciais.
Antigamente, quando era “Dirty Harry” (e muitos o acusavam de um comportamento fascista, porque era polícia e fazia justiça pelas próprias mãos, eu próprio o escrevi e não retiro uma vírgula), empunhava a Magnum e disparava a matar. Agora, com o avançar da idade, segura a câmara de filmar e atira certeiramente no alvo. Curiosamente nos tais polícias que primeiro atiram e depois fazem perguntas. “A Troca” é um ajuste de contas com a corrupta polícia de Los Angeles no final dos idos anos 20, à beira da Grande Depressão, denúncia de tal forma vigorosa que deixa alguns a duvidar se esta “história real” não será antes ficcionada. Mas não, não é na essência, parece que o argumentista J. Michael Straczynski ao descobrir o caso de Christine Collins, através de uma qualquer fonte do “Los Angeles City Hall”, se deixou por tal forma obcecar pelo tema que removeu céus e terra, e sobretudo arquivos policiais e jurídicos, para reconstituir a tragédia e recuperar igualmente o que ficou conhecido como o “Wineville Chicken Coop Murders” ou “Wineville Chicken Murders”, uma série de raptos e de assassinatos de crianças, ocorridos em Los Angeles, durante o final da década de 20 do século XX, praticados por um canadiano de nome Gordon Stewart Northcott, conjuntamente com Sanford Clark, um sobrinho de 14 anos (e diz o registo oficial que com a cumplicidade da afirmada mãe de Gordon, o que no filme é elidido).
Entre as crianças mortas (ou desaparecidas) estaria Walter Collins, filho de Christina Collins, que, a 10 de Março de 1928, havia relatado o desaparecimento da criança à polícia de Los Angeles. É este caso que dá origem a “A Troca”: alguns meses depois da polícia iniciar as buscas, Walter é dado como aparecido em DeKalb, Illinois, e trazido para Los Angeles, para junto da mãe. Esta não reconhece o filho, mas a policia insiste que o deve receber “à experiência”. O que faz, mas o miúdo não é definitivamente o seu filho, o dentista confirma-o, a professora assegura-o, a altura do corpo não bate certo, e uma mãe sabe sempre quem é o seu filho. Excepto se estiver “louca”, o que parece ser uma boa solução para a polícia que, querendo resolver rapidamente a questão e aquietar os ânimos, envia Christine Collins para o “Los Angeles County Hospital”, com uma indicação, assinada pelo capitão J.J Jones, dela ser internada ao abrigo de um celebrado "Code 12", código esse que servia para afastar de cena arbitrariamente mulheres indesejáveis para a tranquilidade das autoridades locais, por essa altura a atravessar um dos períodos de maior corrupção e venalidade, associada a uma brutalidade policial impressionante. O filme mostra-a rapidamente. O caso apaixonou a opinião pública, subiu aos jornais e à rádio, sobretudo pela intensa actividade de um sacerdote, o reverendo Gustav Briegleb, que fez de Christina Collins bandeira para a sua cruzada contra a polícia do Estado. Segundo se apurou, quase todo o argumento escrito por Straczynski é de uma consistência factual total, obedecendo a recolha exaustiva de situações, frases de interrogatórios, de crónicas de jornais, de testemunhos da época, com uma excepção apenas e que se prende com a estadia de Christine Collins no hospício, onde a lenda é mais forte que os dados recolhidos. Como já dizia John Ford, mestre confessado de Clint Eastwood, “quando a lenda é mais forte que a realidade, imprime-se a lenda” (em “O Homem que Matou Liberty Valance”).
Filme sombrio, duro, agreste, paredes-meias entre o melodrama e o negro “thriller” de ressonância social, “A Troca” é uma daquelas obras donde se sai com um sintoma de KO na alma, muito embora o pragmatismo de Clint Eastwood não seja de molde a destruir toda a esperança na condição humana. Muito pelo contrário, como bom americano, no final as instâncias judiciais acabam por funcionar, a opinião pública não desarmou e a mãe não deixou a sua tarefa a meio.
Para nos dar este drama intenso, Clint Eastwood não falha um plano e aponta a câmara com mestria invulgar. Se querem saber o cinema que mais me agrada, é este, sólido, clássico, austero, sem rodriguinhos de nenhuma espécie, direito ao que quer contar, sem efeitos nem floreados, não vivendo de uma montagem habilidosa, mas sim de uma encenação (“mise-en-scéne” lhe chamam os franceses) rigorosa. Aquelas frases célebres que relembram que “só há um local para colocar a câmara” e que esta deve estar “à altura dos olhos do realizador” são aqui paradigmas de verdade. A câmara não anda à deriva, está quase sempre fixa, movimentos só os essenciais, para acompanhar uma personagem, para percorrer um friso de rostos que fazem ligações telefónicas, e nada mais. O enquadramento não mentem. Esta lição de cinema clássico é uma demonstração inequívoca de que as modas passam, mas o essencial permanece imutável. De Griffith a Eastwood. Aqui o cinema é narrativo e poético, porque é sincero e leal. É o grande cinema que faz oscilar corações e verter lágrimas da mesma forma que agita consciências e introduz dúvidas.
Depois há ainda os actores, todos eles admiráveis, desde a fulgurante Angelina Jolie ao radical John Malkovich a roçar o fanatismo, passando por todos os polícias, os políticos, os algozes e as vítimas (que brilhante é o miúdo que confessa a sua ligação aos crimes!). Pode dizer-se que este é um filme de intérpretes, genialmente dirigidos, porque este é seguramente um filme de personagens, de pessoas, que só se poderia erguer se estas possuíssem a densidade e a autenticidade requeridas. Neste aspecto, “Changeling” é também uma lição. De resto, tudo parece perfeito nesta obra de uma sublime opacidade, de uma contagiante angústia e de um desespero eterno. Como eterna é a esperança, não numa utópica redenção que nunca virá, mas numa progressiva regeneração da condição humana.
A TROCA
Título original: Changeling
Realização: Clint Eastwood (EUA, 2008); Argumento: J. Michael Straczynski; Produção: Clint Eastwood, Brian Grazer, Ron Howard, Geyer Kosinski, Robert Lorenz, Tim Moorem, James Whitaker; Música: Clint Eastwood; Fotografia (cor): Tom Stern; Montagem: Joel Cox, Gary Roach; Casting: Ellen Chenoweth; Design de produção: James J. Murakami; Direcção artística: Patrick M. Sullivan Jr.; Direcção artística: Gary Fettis; Guarda-roupa: Deborah Hopper; Maquilhagem: Tania McComas, Carol A. O'Connell; Direcção de Produção: Tim Moore; Assistentes de realização: Katie Carroll, Efrain Cortes, Peter Dress, Donald Murphy, Ruby Stillwater; Departamento de arte: Adrian Gorton, Hugo Santiago, Dianne Wager; Som: Bub Asman, Alan Robert Murray; Efeitos especiais: David A. Poole, Steve Riley, Dominic V. Ruiz, George Zamora; Efeitos visuais: Geoffrey Hancock, Claudia Meglin, Michael Owens; Companhias de produção: Imagine Entertainment, Malpaso Productions, Relativity Media; Intérpretes: Angelina Jolie (Christine Collins), Gattlin Griffith (Walter Collins), Michelle Martin, Jan Devereaux, Michael Kelly (Detective Lester Ybarra), Erica Grant, Antonia Bennett, Kerri Randles, Frank Wood (Ben Harris), Morgan Eastwood, Madison Hodges, John Malkovich (Rev. Gustav Briegleb), Colm Feore (Chefe James E. Davis), Devon Conti (Arthur Hutchins), J.P. Bumstead, Jeffrey Donovan (Capt. J.J. Jones), Debra Christofferson, Russell Edge, Stephen W. Alvarez, Peter Gerety, Pete Rockwell, John Harrington Bland (Dr. John Montgomery), Pamela Dunlap, Roger Hewlett, Jim Cantafio, Maria J. Rockwell, Wendy Worthington, Riki Lindhome, Dawn Flood, Dale Dickey, Jason Butler Harner (Gordon Northcott), Eddie Alderson (Sanford Clark), Sterling Wolfe, Michael McCafferty, Amy Ryan (Carol Dexter), David Goldman (Administrador), Denis O'Hare (Dr. Jonathan Steele), Anthony De Marco, Joshua Logan Moore, Joe Kaprielian, Ric Sarabia, Muriel Minot, Kevin Glikmann, Drew Richards, Hope Shapiro, Caleb Campbell, Jeff Cockey, Zach Mills, Kelly Lynn Warren, Colby French, Scott Leva, Richard King, Clint Ward, Geoffrey Pierson, Reed Birney (Mayor Cryer), Michael Dempsey, Peter Breitmayer, Phil Van Tee, Jim Nieb, Lily Knight (Mrs. Leanne Clay), Jeffrey Hutchinson (Mr. Clay), Brian Prescott, Ryan Cutrona (Juiz), Mary Stein (Janet Hutchins), Gregg Binkley, William Charlton, Cooper Thornton, Asher Axe, Devon Gearhart, Dalton Stumbo, Austin Mensch, Richard Hansen, Jen Lilley, Gabriel Schwalenstocker, Billy Unger, Marissa Welsh, Araksi Willebrand, etc. Duração: 141 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 8 de Janeiro de 2009.

6 comentários:

BlueAngel disse...

Tenho muita curiosidade em ver este filme e, confesso, que agora ainda mais. Quando bem apresentada essa ideia do "KO na alma" é uma das características que mais aprecio num bom filme. Se me toca é porque gostei mesmo. :-) A ver seguramente.

Luís Galego disse...

“A Troca” é uma daquelas obras donde se sai com um sintoma de KO na alma

descrição que resume o que sinto...

Um abraço

Carlos Medina Ribeiro disse...

Caro Lauro António,

O seu livro «Lauro António Apresenta», que autografou no "Vá-Vadiando" com a Alice Vieira, vai ser oferecido amanhã num passatempo a propósito deste filme e que está a decorrer em:

http://sorumbatico.blogspot.com/2009/01/changeling-passatempo-com-prmio.html

Abraço
CMR

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PS: Vou ver se apareço no jantar de 5ª-feira, com o Maestro.

Tracey disse...

Vi o filme ontem e estou com vontade de dizer que é o melhor do Clint até hoje. Tenho medo de estar a exagerar por estar no rescaldo do deslumbre... Mas é que é realmente muito bom.

Aggio Piaggio disse...

É um daqueles filmes que incomoda, tal a crueza (não confundir com crueldade) com que a câmara capta as imagens. Angelina Jolie num papel que certamente a indicará para candidata a Óscar. Muita emoção â flor da pele, por um excelente contador de histórias como é Clint Eastwood. Aconselho vivamente a verem este filme.
Abraços

Hugo Cunha disse...

Concordo consigo no geral, embora ache que tanto a Angelina como Malkovich especialmente o 2º podiam ir um pouco melhor. A Angelina tem aqui o seu melhor papel em cinema dramático, mas eu acho que ela funciona melhor em cinema de acção. O Clint está cada vez melhor estou mortinho por ver Gran Torino aqui com o próprio no ecrã.O Argumentista deste filme é genial, bem que merece um Oscar.