quarta-feira, janeiro 28, 2009

CINEMA: VICKY CRISTINA BARCELONA

VICKY CRISTINA BARCELONA
Duas jovens americanas aterram em Barcelona para umas férias de Verão. Vicky (Rebecca Hall) vem estudar a cultura catalã e a arte de Gaudi, por que se apaixonara aos 14 anos, e está noiva de um executivo norte-americano, tendo o casamento aprazado para daí a meses; Cristina (Scarlett Johansson) parece ser o inverso da “bem comportada” amiga, inquieta e instável, quer sorver a vida sofregamente, a goles de paixões que se sucedem. Instalam-se em casa de amigos que as convidaram e, numa inauguração de uma galeria de arte, conhecem Juan Antonio Gonzalo (Javier Bardem) que as convida, na primeira conversa que mantêm, para uma visita a Oviedo, um jantar e uma cena de amor a três. Claro que Vicky, chocada, protesta o seu puritanismo e invoca o próximo casamento, enquanto Cristina acaba por levar todos até Oviedo, onde tudo se passa ao contrário do que se poderia pensar. Cristina vai ao quarto de Juan António, mas acaba doente, a sopas e descanso, sozinha no “seu” quarto, e a preconceituosa Vicky, secretamente, e sem dar conhecimento do caso a ninguém, nem à melhor amiga (nem, sobretudo, ao namorado, futuro marido), dá livre curso à sua libido desenfreada. Nem tudo o que parece é, e as mais sonsas são as que mais prevaricam, já se sabe. Nomeadamente as que mais invocam a sua incorruptível moralidade. Este o início de “Vicky Cristina Barcelona”, uma deliciosa comédia de costumes que Woody Allen escreveu e foi rodar a Barcelona, cidade que se afirma igualmente como personagem nesta trama de amores lícitos e ilícitos. O mais divertido neste filme é que parece que estamos a assistir a uma obra concebida a quatro mãos: Vicky e Cristina são personagens de Woody Allen; José António e a sua fogosa e fatal ex-mulher Maria Elena (Penélope Cruz) são personagens de Almodóvar; o diálogo tem o brilhantismo próprio de um certo humor judeu nova-iorquino, que Woody Allen tão bem desenvolve, numa ironia fina e numa inequívoca ternura pelos seres humanos, as suas fraquezas e as suas forças, mas o cenário, de Barcelona a Oviedo, parece o “décor” de uma obra de Almodóvar.
Filme sobre a imponderabilidade da vida e os caprichos do amor, rodado numa Barcelona de cores doces e voluptuosas, cuja arquitectura de Gaudi ajuda a moldar numa perspectiva arrevesada e tortuosa, “Vicky Cristina Barcelona” é mais uma daquelas obras onde o confronto de duas civilizações, e de dois comportamentos quase inconciliáveis cria o conflito e mantém a expectativa. De um lado, os americanos planificados, pragmáticos e algo puritanos, por muito que afirmem que “não julgam ninguém”. Por outro lado, a vida boémia e libertina dos artistas europeus, herdeiros de um contexto histórico muito diferente, e que exerceu sempre um enorme fascínio nos companheiros do outro lado do Atlântico (veja-se por exemplo, a dita “geração perdida” dos anos 20, que emigrou quase toda para o Velho Continente, por longas temporadas, em busca de inspiração e vivência intensa). Cristina é um caso desses, americana como Vicky, mas sequiosa de novidades e pronta a entregar-se aos mais díspares triângulos e duetos amorosos. A sua franqueza irá talvez fazê-la sofrer mais, cada nova paixão equivale a um novo desgosto, mas, para quem assim vive, a dor é o equivalente ao prazer e tudo vale a pena se a vida não é pequena. Inteligentemente escrito, na narrativa em off, bem como nos diálogos, inventivo nas situações, subtil no humor, magnificamente encenado em cenários que percorrem os lugares essenciais de Barcelona, sem cair no rodriguinho do bilhete postal turístico, “Vicky Cristina Barcelona” impõe-se ainda pela qualidade do trabalho dos actores Javiem Bardem é o fulgurante artista romântico por excelência (a ex-mulher tem a teoria, quem sabe se certa?, de que só são românticos os amores impossíveis ou condenados ao fracasso, no caso dela, aos sucessivos fracassos, porque volta sempre ao lugar do crime, repetindo a dose); Penélope Cruz, é uma espanhola que gosta de “touros de morte” e avança de faca ou pistola em punho para qualquer ajuste de contas emocional; Scarlett Johansson mantém o nível a que nos habituou ultimamente, mas continua a desiludir um pouco, e Rebecca Hall torna-se a grande surpresa do filme, ela que se impõe nos últimos anos de título em título (em exibição igualmente em “Frost/Nixon”).
Vicky Cristina Barcelona
Título original: Vicky Cristina Barcelona
Realização: Woody Allen (EUA, Espanha, 2008); Argumento: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Gareth Wiley, Bernat Elias, Charles H. Joffe, Javier Méndez, Helen Robin, Jack Rollins, Jaume Roures; Fotografia (cor): Javier Aguirresarobe; Montagem: Alisa Lepselter; Casting: Patricia Kerrigan DiCerto, Juliet Taylor; Design de produção: Alain Bainée; Direcção artística: Iñigo Navarro; Guarda-roupa: Sonia Grande; Maquilhagem: Robert Fama, Manolo García, Ana Lozano, Jesús Martos, Eva Quilez; Direcção de Produção: Bernat Elias, Oriol Marcos; Assistentes de realização: Daniela Forn, Murphy Occhino, Richard Patrick, Anna Rua; Departamento de arte: Marina Pozanco; Som: Robert Hein; Efeitos visuais: Randall Balsmeyer, J. John Corbett; Companhias de produção: Mediapro, Gravier Productions, Antena 3 Films, Antena 3 Televisión; Intérpretes: Rebecca Hall (Vicky), Scarlett Johansson (Cristina), Javier Bardem (Juan Antonio Gonzalo), Penélope Cruz (Maria Elena), Christopher Evan Welch (Narrador), Chris Messina (Doug), Patricia Clarkson (Judy Nash), Kevin Dunn (Mark Nash), Julio Perillán (Charles), Juan Quesada (Guitarista), Richard Salom, Manel Barceló, Josep Maria Domènech, Emilio de Benito, Maurice Sonnenberg, Lloll Bertran, Joel Joan, Sílvia Sabaté, Jaume Montané, Pablo Schreiber, Carrie Preston, Zak Orth, Abel Folk, Jordi Basté, Michael Bennett, Paco Mir, Rodrigo Rojas, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 22 de Janeiro de 2009;

3 comentários:

Maria Afonso Sancho disse...

Gostei de o reencontrar aqui e de o voltar a ler.
Prometo que vou voltar.
Continue.

Helder Magalhaes disse...

Deste também gostei...

Da irreverência e do atrevimento!


Abraço grande, do
Helder

Lóri disse...

Delícia de post. Era tudo que eu queria ler, de quem eu queria que escrevesse.

Fui ver duas vezes, uma no dia de natal por obra de ociosidade, boa companhia e temporal na cidade maravilhosa. Valeu tanto quanto da primeira vez.
E absolutamente concordo contigo, é isso ái, W.Allen e Almodóvar! Amei.

Beijos far from Barcelona, dommage!