segunda-feira, maio 11, 2009

CINEMA: SINGULARIDADES

:
SINGULARIDADES DE UMA RAPARIGA LOURA
“Singularidades de uma Rapariga Loura” comporta singularidades a que não nos pudemos furtar. È um filme realizado por um cineasta com cem anos, que passou o seu dia de anos em rodagem. Único na História do Cinema? Não sei, nem interessa muito, mas o facto merece ser mencionado. Para lá de tudo o mais, enternece. E não é um filme senil.
Como tem acontecido ao longo da carreira de Manoel de Oliveira, há filmes de que gosto mais e outros de que gosto menos. Mas a todos há que conferir uma dignidade intelectual e artística indiscutíveis. Deste gosto menos. Acho mesmo que comporta erros de base que colocam toda a sua estrutura em causa.
O conto de Eça de Queiroz fala-nos de 1823 (ou 1933), ao que recordo. Reli-o agora depois de ver o filme. A sensação que voltou a aflorar foi a que me dominou ao ver a obra de Oliveira: este, nem de perto nem de longe, consegue aproximar-se de Eça. Primeiro equivoco, actualizar o contexto. Pelo menos da forma por que foi feita essa actualização. Eça dá-nos um retrato de uma sociedade e de um tempo que Oliveira nunca atinge. No filme, a sensação é de algo postiço: personagens de um tempo, diálogos de uma época colocados num contexto completamente diferente. Oliveira respeita os diálogos, respeita as personagens, respeita alguns ambientes, respeita certos adereços, mas não respeita o espírito de Eça querendo ser-lhe o mais fiel possível. Aqueles diálogos são impossíveis hoje, aquele leque chinês também, os saraus culturais também, aquelas personagens têm outra contextura hoje. A condição humana é a mesma? Certo, não poderia estar mais de acordo. Mas o seu comportamento mudou. Os signos por que se expressam também. Não existem aqueles Macário, Luísa, mãe da Luísa, tio de Macário, amigo o chapéu de palha, etc. Actualização ou era total, radical, ou então muito se perde do essencial.
Mas há mais: em Eça há descrições que, por uma questão de economia (financeira, e de meios, expressiva, no dizer do próprio autor), Oliveira simplesmente cortou. A sequência em casa do tabelião da Rua dos Calafates, contém momentos absolutamente indispensáveis para se compreender a crítica social da época, como a descrição da corrida de touros em que morre o conde de Arcos ou o rosnar antimonárquico do Gaudêncio.
Pequenos exemplos:
“Depois, a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou com a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:
Oh Ricardo, oh meu rei,
O mundo te abandona.
O que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:
— Reis!... víboras!
Depois, o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. João VI: lindas moças, lindas moças. E a noite ia assim correndo literária, pachorrenta, erudita, requintada e toda cheia de musas.”

“Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um velho cavaleiro de Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz de tiple, e as manas Hilárias, a mais velha das quais tendo assistido, como aia de uma senhora da casa da Mina, à tourada de Salvaterra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixava de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata: o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu da trincheira alta, e a hilaridade da corte, que até a sr.ª condessa de Pavolide apertava as mãos nas ilhargas: depois el-rei o sr. D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, e fazendo girar entre dois dedos a sua caixa de rapé cravejada, e por trás, imóveis, o físico Lourenço e o frade, seu confessor; depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve, quando D. José I entrou: - Viva el-rei, nosso senhor! E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo, atrás dele. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritando na confusão, e o capelão da casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária, ficara estarrecida de pavor: sentia os urros dos bois, gritos agudos de mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão, debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bramindo de raiva! "É o pai do conde!", explicavam em volta. Ela então desmaiara nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda real estava à porta, com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores a cavalo, à frente: via-se lá dentro el-rei, escondido ao fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiada à alta bengala, forte, espadaúdo, o aspecto carregado, o marquês de Pombal falava devagar e intimativamente, gesticulando com a luneta. Mas os batedores picaram, os estalos dos boleeiros retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: Viva el-rei!, nosso senhor! - e o sino da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à casa dos Arcos.”
Esta saborosa descrição irónica, carregada de sinais da época, desaparece e não dá lugar a outras, igualmente significativas, dedicadas à actualidade (que também as há e de que maneira!).
A presença deste tipo de apontamentos em Eça faz a diferença, adensa a anotação social e a sua crítica. Perde-se em Oliveira, que se atém apenas ao esqueleto da história, ou da anedota, melhor dizendo, pois o que fica não passa de uma anedota.

Há outras anotações que se perdem, e com elas a referência a um determinado tempo, e igualmente ao pensamento de Eça. Macário viaja até Cabo Verde, onde enriquece. Eça escreve:

“E ao outro dia Macário partiu.
Conheceu as viagens trabalhosas dos mares inimigos, o enjoo monótono num beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos fazendeiros ricos, o peso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, as viagens ao interior das terras negras e a melancolia das caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranquilos, de onde se exala a morte.
Voltou.”

Quanto às personagens do filme, debitando tiradas do início do século XIX, nada lhes permite criar densidade. São “actores” (como sempre em Oliveira, o que é um estilo e não se discute enquanto tal), mas são actores sem texto para se imporem, mesmo enquanto tal. Compare-se com “Amor de Perdição” ou “Francisca” e veja-se a diferença.
Depois há situações quase insuportáveis: a visita ao Circulo Eça de Queiroz, com o mordomo cicerone, é uma delas. Mas há mais. Por exemplo, o sarau já aludido, com harpista, recitador e Glória de Matos.
Um desastre?
Em Oliveira é difícil, senão impossível o desastre total, porque ao lado dos desacertos, há um cineasta que se nos impõe. Há sequências que nos relembram a arte do mestre. As cenas de janela são brilhantes. Há uma maravilhosa, em que Oliveira iguala Eça, quando este escreve:

“A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, e naturalmente desceu a vidraça, correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e têm na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la, fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e espera - são velhas maneiras com que, na realidade e na arte, começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto loiro espreitou.”

Oliveira consegue tudo isso, com o levantar e o baixar dos cortinados, e a bela presença de Catarina Wallenstein. A cortina que desce, sobre uma outra já descida, não oculta, desoculta, “revela”.
As escadas, à entrada para o sarau, dadas numa imagem que se desdobra através dos espelhos, é outro plano de antologia. O início, no interior da carruagem do alfa pendular (ou intercidades) Lisboa-Algarve, que funciona como genérico, é prometedor. A imagem final, já muito comentada, de Luísa prostrada, é excelente. Temos, aqui e ali, Oliveira do melhor. Mas falta-nos Oliveira o tempo todo, o que se lamenta.

Para quem gosta de Manoel de Oliveira, “Singularidades de uma Rapariga Loura” merece a visita e o respeito. E tem uma vantagem: nas obras-primas não se percebe tão bem a arte de quem as concebe. Mas os falhanços, deixando a descoberto a tecitura da narrativa e dos processos, podem ser elementos muito interessantes para se perceber o como e o porquê de alguns processos.

3 comentários:

Rui Luís Lima disse...

Eça foi um escritor genial, espero bem que um dia alguem se lembre de adaptar ao cinema esse romance maravilhoso que é "A Cidade e as Serras".
Paula e Rui Lima

Frioleiras disse...

bem... eu gosto (muito) do
Manoel de Oliveira..........................................

anderson disse...

interessante