segunda-feira, janeiro 11, 2010

CINEMA: AVATAR

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AVATAR

Sim, julgo que “Avatar” é um acontecimento. Uma revolução nos caminhos do cinema, mas não me parece que o seja somente no campo das novidades tecnológicas, quer se fale da imagem, da animação, das 3D ou mesmo do som. “Avatar” é realmente o primeiro filme em 3D que os jovens podem (e devem) ver, mas que se destina a todos os públicos e que, sobretudo, os adultos colherão muitos ensinamentos se não o perderem. Ensinamentos e prazer.
“Avatar” é uma experiência única até hoje no cinema. É evidente que os irredutíveis, aqueles para quem o cinema acabou em Murnau, ou quanto muito nos clássicos dos anos 40 e 50, esses acharão “Avatar” uma monstruosidade tecnológica. Mas em arte, como em tudo o mais na vida, nada pára, tudo se transforma, e “Avatar” representa hoje em dia, por exemplo, o que “Citizen Kane” representou em 1942. Uma revolução no cinema, possibilitada por novos meios técnicos, mas que um realizador de génio coloca ao serviço de uma narrativa e de uma ideia.
Se “Avatar” não fosse em 3D seria um filme extremamente interessante. Não compreendo os que falam de uma historieta simples e fraquinha. Sem interesse. Muito pelo contrário. O argumento de “Avatar”, criado por James Cameron, é excelente. Fala-nos de Jake Sully, um ex-fuzileiro naval, agora paraplégico, que se arrasta numa cadeira de rodas, a quem é proposta uma segunda vida: dele será retirado um avatar, um ser geneticamente reconstruído, mesclando o seu ADN com o dos indígenas de Pandora, os chamados Na`vi, considerados bárbaros inimigos do progresso, que se opõem à extracção de um minério raro, o “unobtanium”, que os humanos perseguem. É conveniente recordar que Pandora é uma lua que tem um ambiente muito semelhante ao da Terra. Ela gira em redor de uma massa gasosa a que dão o nome de Polyphemus, situada em Alpha Centauri-A, num longínquo sistema estelar a quatro anos-luz do nosso planeta. Mas, aí a atmosfera é altamente tóxica, os homens só podem viver de máscara, ou através de “avatares”, réplicas que combinam os ADNs humanos com os dos Na`vi.
O avatar de Jake Sully é o enviado da Terra para que a pilhagem se cumpra. Parte com essas intenções, mas cedo descobre que os Na`vi são um povo pacífico que apenas procura continuar a viver no seu habitat natural em perfeita harmonia com a natureza. Lentamente Jake Sully vai descobrindo o que está por detrás da invasão, desta colonização selvagem, em busca de lucro fácil e de formas de prolongar a política de terra queimada dos humanos insensíveis a tudo o que não seja rentabilizar os meios colocados sob a sua alçada. A sua integração entre os Na`vi é completa, acabando mesmo por casar com Neytiri, uma das guerreiras da tribo. Como aliada na nave espacial apenas conta de início com a Drª. Grace Augustine, mas à medida que a brutalidade da intervenção se vai tornando evidente, mais aderentes conquista para a sua causa: impedir a destruição dessa lua utópica chamada Pandora.
Retirem-se os adornos dos Na`vi e a história poderia ser a de um qualquer western clássico. Ou não clássico. Em vez de peles-vermelhas substituam-nos por peles-azuis. Em vez da conquista do Oeste, a conquista do espaço. Sempre a conquista de “novas fronteiras”. De novo a corrida ao ouro, mas agora o ouro tem um outro nome. Basta, pois, recordar “Dança com Lobos”, de Kevin Costner (1990), história de um ex-soldado que é recolhido por uma tribo de índios e, depois de os compreender, se integra na sua maneira de viver, que acha muito mais justa do que a do exército a que pertencia e se coloca do lado dos índios, combatendo antigos camaradas de armas. “Avatar” resume a mesma filosofia, mas com ressonâncias mais modernas. Há o aspecto ecológico a ressalvar, quando se levanta contra a destruição de uma civilização antiga e onde impera a harmonia homem-natureza, em nome de um falso progresso, movido apenas pelo lucro. Mas mais ainda. Este é um filme anti-imperialista, que combate a ideia de um povo se sentir autorizado, apenas pelo seu poderio militar, a invadir outro, com um único propósito, que pode ser o petróleo ou o “unobtanium” (num caso como noutro, elementos que são fonte de energia).
Curiosamente, o paralelismo com os índios americanos é mais do que evidente e em várias perspectivas. Vermelhos e azuis deparam-se com a cupidez dos “rostos pálidos”, usam vestimentas ou simples adereços muito semelhantes, caçam com arco e flecha, têm gritos de guerra e danças rituais idênticas, e até os deuses se aproximam (os Na’vi adoram Eywa que tem muitos pontos de contactos com divindades índias). De resto, matam somente para comer e aceitam esse sacrifício como “justo”.
Não ficam muitas dúvidas sobre as intenções da obra e se James Cameron esperou quase duas décadas para poder ter as condições tecnológicas para se permitir erigir o universo de Pandora, não é menos verdade que a espera teve igualmente o condão do filme se encaixar no seu tempo histórico e ideológico: esperemos que este seja um filme da era Obama.
Este híbrido que nasce do cruzamento de “A Conquista do Oeste” com “A Guerra das Estrelas”, e de “Pocahontas” com “O Gigante”, mistura igualmente imagem real e animação digital. Situa-se hipoteticamente em 2156, mas a verdade é que, se nada se fizer rapidamente, em termos ecológicos e militares, impondo limites decentes à ambição desmedida de (alguns) homens (infelizmente os mais poderosos, e não pelas melhores razões), muito poucas hipóteses teremos de chegar a essa data.
Deixando agora de lado o argumento, atentemos em toda a parafernália tecnológica que o reveste. Será necessária? Funciona como roupagem para “épater le bourgeois”? Creio que raras vezes a tecnologia se mesclou tão harmoniosamente com a história que quer contar. James Cameron sabia que precisava de alguns recursos técnicos para tornar plausível o seu projecto que esperou longos anos até ser concretizado. O resultado é deslumbrante. Sobretudo não há um plano desnecessário para “mostrar” a excelência dos efeitos, não existe um movimento excessivo para explorar as 3D. Tudo está lá porque é essencial, indispensável para o resultado final. A descrição de Pandora é admirável, de uma beleza sufocante e sufocante é um bom termo porque nos encontramos inscritos, emergidos na natureza, sentimos animais e flores, árvores e insectos, indígenas e carros de assalto a passarem a nosso lado de forma tão realista quanto fantástica. A criação em imagem virtual, digital, das paisagens, dos ambientes, das sugestões imagéticas é algo até agora nunca visto. A forma como são plasticamente criadas, como são iluminadas tridimensionalmente, como a luz as atravessa (efeito que as 3D acentua), é absolutamente entorpecedor, como se de uma viagem psicadélica se tratasse, em que o fascínio nos conduzisse mansamente até ao efeito desejado. A partir de agora, desde que saímos da projecção de “Avatar”, Pandora existe algures, nem que seja só na nossa imaginação. Esse efeito de sugestão é brilhantemente conseguido, e, repetimo-lo, de forma absolutamente harmoniosa, sem se impor abusivamente, impondo-se antes subtilmente à medida que as imagens se sucedem e vamos mergulhando no seu turbilhão. Cameron consegue o prodígio de criar um universo fantástico e de o tornar “real”. Não que o saibamos real, mas porque o aspiramos utópico.
O mesmo se pode dizer das personagens, mais uma vez criadas pelo processo de “performance capture” que combina o corpo e a representação do actor com o revestimento da silhueta pela capa da animação. Jake, Neytiri ou a Dr.ª Grace são criações notáveis de um realismo-irrealista que é uma novidade absoluta em cinema, muito embora se saiba que esta técnica foi de certa forma aperfeiçoada por Peter Jackson para a sua trilogia “O Senhor dos Anéis”, e que muitos outros realizadores já a utilizaram (ainda há pouco Zemeckis, em “Conto de Natal”).
Refira-se que muitos dos efeitos especiais de “Avatar” foram criados pela celebérrima “Industrial Light & Magic”, de George Lucas, mas a “captura de movimento” dos avatares e dos indígenas de Pandora foi desenvolvida pela “Weta Digital”, de Peter Jackson, que a utilizou na construção da personagem Gollum, em “O Senhor dos Anéis”, e, mais tarde, na derradeira versão de “King Kong”.
Este é um filme importante, pois, por diversos motivos e uma aventura para os sentidos de quem o for ver no cinema. No cinema e preferencialmente em 3D. É como entrar num aquário e flutuar ao sabor da magia de um demiurgo que nos conduz por terras de sonho e, todavia, nos acorda, sobressaltados, para o futuro do nosso planeta e para os perigos das ingerências abusivas dos negócios sujos nas vidas dos povos.

James F. Cameron é canadiano de Ontário, filho de uma enfermeira e de um engenheiro electricista. Cresceu em Chippawa (agora Niagara Falls), estudou no Stamford Collegiate e mudou-se com a família para a Califórnia em 1971. Estudou filosofia na Universidade de Toronto, em 1973, e era visita frequente dos arquivos de filmes da University of Southern Califórnia. Aí se começou a interessar por cinema, ficando fã de “A Guerra das Estrelas IV” em 1977, quando a viu pela primeira vez. Dedicou-se então inteiramente ao cinema, abandonando a profissão de camionista de longo curso. Foi admitido como colaborador de Roger Corman, onde começa a aperfeiçoar um modelo de mini câmara e aprendeu a trabalhar com orçamentos mínimos (o que veio a contrariar no futuro!). Produziu o seu primeiro filme, “Battle Beyond the Stars” e, posteriormente, assinou os efeitos especiais numa obra de John Carpenter, “Fuga de Nova York”. Grande parte das suas principais obsessões estavam traçadas. Iniciou a carreira como realizador com “Xenogenesis” (1978), a que se seguiu “Piranha Part Two: The Spawning” (1981). “O Exterminador Implacável” (The Terminator, 1984), “This Time It's War” (1985), “Aliens, O Resgate” (Aliens, 1986), “O Abismo” (The Abyss, 1989), “Exterminador Implacável 2: O Dia do Julgamento” (Terminator 2: Judgment Day, 1991), “A Verdade da Mentira” (True Lies, 1994) e “T2 3-D: Battle Across Time” (1996) foram os títulos que cimentaram uma carreira que lhe permitiu abalançar-se num dos filmes mais caros de sempre, “Titanic” (1997), e que foi, simultaneamente, o mais premiado de sempre nos Oscars e o mais rentável de sempre nas bilheteiras (até agora – veremos o que faz “Avatar”). Seguem-se filmes para televisão, “Earthship.TV” (2001), "Dark Angel - Freak Nation” (2002), “Expedition: Bismarck” (2002), “Ghosts of the Abyss” (2003) ou “Aliens of the Deep” (2005), enquanto se preparava para “Avatar” (2009). Tem em pré-produção um novo projecto, “Battle Angel” (que se anuncia para 2011).


AVATAR
Título original: Avatar
Realização: James Cameron (EUA, Inglaterra, 2009); Argumento: James Cameron; Produção: Brooke Breton, James Cameron, Jon Landau, Josh McLaglen, Janace Tashjian, Peter M. Tobyansen, Colin Wilson; Música: James Horner; Fotografia (cor): Mauro Fiore; Montagem: James Cameron, John Refoua, Stephen E. Rivkin; Casting: Margery Simkin; Design de produção: Rick Carter, Robert Stromberg; Direcção artística: Todd Cherniawsky, Kevin Ishioka, Kim Sinclair; Decoração: Kim Sinclair; Guarda-roupa: Mayes C. Rúbeo, Deborah Lynn Scott; Maquilhagem: Rick Findlater; Direcção de Produção: Helen Clare, Mika Saito, Jennifer Teves, Brigitte Yorke; Assistentes de realização: Maria Battle-Campbell, Bruno Dubois, Sarah Lowe, Richard Matthews, Josh McLaglen, Steven Quale, Sharon Swab, Judith Wayers; Departamento de arte: C. Scott Baker, Luke Caska, Andrew Chan, Scott Herbertson, Joseph Hiura, Tammy S. Lee, Darryl Longstaffe, Karl J. Martin, Richard F. Mays, Michael Smale; Som: Christopher Boyes; Efeitos especiais: Karl Chisholm, Iain Hutton, Steve Ingram; Efeitos visuais: Laia Alomar, Malcolm Angell, Manasi Ashish, Dean Lewandowski, Brice Liesveld, Jennifer Loughnan, Steve Riera, Mahria Sangster, Bryan Searing, Wayne Stables, Colin Strause, Greg Strause, Guy Williams, Michael Zavala; Animação: Richard Baneham, Miguel A. Fuertes, Aldo Gagliardi, Scott Patton, Ben Sanders, Jarom Sidwell, Danny Testani; Companhias de produção: Twentieth Century-Fox Film Corporation, Dune Entertainment, Giant Studios, Ingenious Film Partners, Lightstorm Entertainment; Intérpretes: Sam Worthington (Jake Sully), Zoe Saldana (Neytiri), Sigourney Weaver (Dr. Grace Augustine), Stephen Lang (Coronel Miles Quaritch), Michelle Rodriguez (Trudy Chacon), Giovanni Ribisi (Parker Selfridge), Joel Moore (Norm Spellman), CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso, Dileep Rao, Matt Gerald, Sean Anthony Moran, Jason Whyte, Scott Lawrence, Kelly Kilgour, James Pitt, Sean Patrick Murphy, Peter Dillon, Kevin Dorman, Kelson Henderson, David Van Horn, Jacob Tomuri, Michael Blain-Rozgay, Jon Curry, Julene Renee, Luke Hawker, Woody Schultz, Peter Mensah, Sonia Yee, Ilram Choi, Kyla Warren, Dean Knowsley, Nikie Zambo, etc. Duração: 162 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 17 de Dezembro de 2009.

2 comentários:

Helder Magalhaes disse...

Eu cá acho que a crítica só tem atacado o filme pela história por não ter mais por onde pegar - e mesmo assim não tem muita razão de ser, porque a história deixa bons ensinamentos (ecológicos, principalmente).

E, já agora, neste momento Cameron está a competir com ele próprio na lista dos filmes mais rentáveis de sempre. Em primeiro lugar ainda continua "Titanic" - o "Avatar" já anda em segundo. Quer se destrone a ele próprio ou não, é um feito histórico que ele já alcançou!

Um abraço e obrigado pelo excelente texto, do
Helder

Anónimo disse...

Obrigado por tanta e boa informação. Espero vê-lo para a semana num cinema perto de mim e que por íncrível que pareça tem de ser em Faro. O concelho de Loulé neste momento não é possuidor de um único cinema aberto ao público. Esperemos que as obras no antigo Cine Teatro terminem neste ano de 2010 apesar da bela e velha sala ter sido muito mal tratadinha por dentro em relação ao seu passado - Palma - Louletania