quarta-feira, março 03, 2010

CINEMA: O LAÇO BRANCO

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O LAÇO BRANCO

“O Laço Branco” explode no interior de uma paisagem triste de uma aldeia alemã em meados da primeira década do século XX, em pleno período pré I Guerra Mundial. Mas explode sobretudo no contexto de uma geografia humana que oscila entre o mais completo negrume e a cinza magoada. É um universo de adultos e crianças, num desolador horizonte onde se vão precipitando inquietantes acontecimentos, que resultam em indecifráveis enigmas. De um lado, os impolutos cidadãos de uma sociedade feudal, machista, autoritária, prepotente e exploradora dos mais fracos. Do outro lado, os rostos puros mas muito pouco ingénuos das crianças da aldeia que frequentam a escola do jovem professor que procura colocar alguma humanidade nas suas vidas. Quando se assiste a esta obra-prima de Michael Haneke não podemos deixar de recordar um outro excelente filme, “A Aldeia dos Malditos”, de Wolf Rilla (1960), ambientado igualmente numa pequena aldeia, desta feita no Midwich de Inglaterra, onde surge uma geração de jovens concebidos no mesmo dia e à mesma hora, uma hora de um dia parado no tempo, que permitiu a extraterrestres invasores apoderarem-se dos úteros das mulheres e conceberem seres maléficos que serão os seus pioneiros na Terra. Em “O Laço Branco” os extraterrestres são bem humanos, na sua desumanidade. Não descem do céu, vivem na terra e concebem crianças que não chegam com o Mal dentro de si, mas o vão aprendendo lenta e dolorosamente no dia a dia. “Das Weisse Band” é a crónica intimista dessa aprendizagem. O ódio instila-se, ganha-se, apodera-se de nós, inscreve-se no corpo dúctil de uma criança, cresce com as imagens que se vêem, com as dores que se sentem, com as injustiças que se interiorizam. É uma aprendizagem rigorosa, até se sentir o ressentimento, até se dominar a dor, até se calar o sofrimento, até que os olhos só vomitem ódio, até que se aprenda a lição de que temos de ser fortes, muito fortes, porque só os mais fortes resistem, porque são os mais fortes que comandam a aldeia, a cidade, o país, o mundo. “Sieg Heil!, Heil Hitler!, Heil mein Führer!”
É isso mesmo que Michael Haneke nos procura fazer ver com o seu angustiante “O Laço Branco”. Foi deste barro que se fizeram os soldados que invadiram a Europa, tentando impor uma raça ariana. Foi desta argamassa que se criaram os cidadãos que se transformaram em turbas assassinas ao som de trombetas imperais. Foram estas crianças que, vinte anos depois, invadiram a Polónia e atravessaram Paris. Foram justamente elas que guardaram os campos de concentração onde se deu o Holocausto. Foram crianças crispadas pelo horror de uma educação sem amor, sem ternura, sem o afago de uma mão ou a doçura de um olhar, com a ponta do chicote em punho, para vergastar o mais pequeno desvio, ou manter sob o jugo da prepotência e da exploração trabalhadores e mulheres. Muitas delas cúmplices nada inocentes do que presenciavam e aplaudiam.
Aparentemente a aldeia onde decorrem esses perturbantes factos é um local idílico. A calma é total, ou parece sê-lo. Até ao dia em que o cavalo do médico da aldeia tropeça num arame que une dois troncos de árvores e envia o homem para o hospital e o cavalo para abate. Depois há um incêndio de que ninguém descobre as causas, um agricultor que aparece enforcado, crianças que são torturadas e desaparecem na floresta, um pássaro que sai da gaiola para aparecer estripado por uma tesoura na secretária do barão todo-poderoso. A violência existe, por debaixo de uma capa de austeridade, de rigoroso puritanismo, de asfixiante pobreza e miséria moral.
Haneke não dá tréguas ao espectador, mas sem nunca entrar pelo caminho mais fácil da violência exposta. O que vemos, quase sempre, são sintomas ou consequências dessa violência calada, interiorizada, estrangulada. O que há de absolutamente notável neste filme surpreendente é que com a maior economia de meios se cria uma tensão insustentável. O que impera no filme não é o terror barato do “mata e esfola”, mas o horror institucionalizado, normalizado, quotidiano. É o terror imposto do interior, no interior. Um terror que marca fundo, que sulca de estigmas perenes quem o vive e a ele sobrevive. Um terror que fortalece e fulmina nos olhos das crianças. Crianças que avançam em bandos disciplinados e secretos, que progridem ameaçadoramente, com a aparente doçura da sua pele branca e olhos claros (as crianças de “A Aldeia dos Malditos” eram igualmente louras, de olhos transparentes). Que no seu íntimo, porém, vão gerando “O Ovo da Serpente” de que falou Bergman.
Haneke é austríaco e sabe do que fala, mesmo quando fala de jovens alemães, os mesmos que invadiram o seu país e foram saudados por muitos compatriotas que se associavam às ideias do nacional-socialismo emergente. O cinema de Haneke nunca deixou de ser inquietante, e nunca se furtou a abordar formas de violência quotidiana, geradas no silêncio e que explodem na clandestinidade do tempo proibido (“Jogos Proibidos”, “Brincadeiras Perigosas”, “Código Desconhecido”, “A Pianista”, “Caché - Nada a Esconder”, “O Tempo do Lobo”, ou essa adaptação de “O Castelo”, revelada em Portugal pelo Famafest, numa das suas primeiras edições).
A realização do cineasta austríaco atinge aqui um rigor e uma depuração que relembram os grandes mestres nórdicos (de Stroheim a Dreyer ou Bergman). A direcção de actores é majestosa na sobriedade e na fulgurância dos resultados, nessa inquietante atmosfera que se cria na combinação da tensão da atmosfera humana e da densa paisagem. A fotografia de Christian Berger é simplesmente magistral, num preto e branco pesado que cria as cores do terror do nada e veste o ecrã de uma magnitude de sombras tenebrosas. Um filme que tudo indica vai conquistar dois merecidos Oscars, o de melhor filme em língua não inglesa e o de melhor fotografia. Uma obra opressiva que o espectador demora a digerir, que se instala no seu subconsciente e diariamente o martela, sem complacências. O cinema no seu estádio mais puro, mais exigente, mais absorvente.

O LAÇO BRANCO
Tìtulo original: Das Weisse Band
Realização: Michael Haneke (Áustria, Alemanha, França, Itália, 2009); Argumento: Michael Haneke; Produção: Stefan Arndt, Veit Heiduschka, Michael Katz, Margaret Ménégoz, Ulli Neumann, Andrea Occhipinti; Fotografia (cor): Christian Berger; Montagem: Monika Willi; Casting: Simone Bar, Carmen Loley, Markus Schleinzer; Design de produção: Christoph Kanter; Direção artística: Anja Müller; Decorações: Heike Wolf; Guarda-roupa: Moidele Bickel; Maquilhagem: Anette Keiser, Waldemar Pokromski; Director de produção: Miki Emmrich; Assistente de realização: Hanus Polak Jr., Patrick Winkler; Departamento de Arte: Enzo Enzel, Gonda Hinrichs, Ilse Töpfer; Som: Vincent Guillon, Jean-Pierre Laforce, Michel Monier, Guillaume Sciama; Efeitos Especiais: Gerd Feuchter; Companhias de Produção: X-Filme Creative Pool, Wega Film, Les Films du Losange, Lucky Red, Medienboard Berlin-Brandenburg, Mitteldeutsche Medienförderung (MDM), German Federal Film Board, Mini-Traité Franco-Canadien, Deutsche Filmförderfonds (DFFF), Austrian Film Institute, Vienna Film Financing Fund, Ministère de la Culture et de la Communication, Eurimages, Canal+; Intérpretes: Christian Friedel (Professor), Ernst Jacobi (Professor - voz), Leonie Benesch (Eva), Ulrich Tukur (Barão), Ursina Lardi (Baronesa), Fion Mutert (Sigi), Michael Kranz (Professor de casa), Burghart Klaußner (Padre), Steffi Kühnert (Mulher do padre), Maria-Victoria Dragus (Klara), Leonard Proxauf (Martin), Levin Henning (Adolf), Johanna Busse (Margarete), Thibault Sérié, Josef Bierbichler, Gabriela Maria Schmeide, Janina Fautz, Enno Trebs, Theo Trebs, Rainer Bock, Susanne Lothar, Eddy Grahl, Branko Samarovski, Klaus Manchen, Birgit Minichmayr, Sebastian Hülk, Kai-Peter Malina, Kristina Kneppek, Stephanie Amarell, Aaron Denkel, Detlev Buck, Anne-Kathrin Gummich, Carmen-Maja Antoni, Christian Klischat, Michael Schenk, Hanus Polak Jr., Sara Schivazappa, etc. Duração: 144 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 7 de Janeiro de 2010.

1 comentário:

Rui Luís Lima disse...

Caro Lauro António
Mais um filme de Haneke que não deixa ninguem indiferente.
abraço cinéfilo
Paula e Rui Lima