quarta-feira, janeiro 30, 2013

CINEMA: DJANGO LIBERTADO

 
 
 

DJANGO LIBERTADO
 
Creio que os dois melhores filmes norte-americanos nomeados para o Oscar de Melhor Filme de 2013, são “Lincoln” e “Django Libertado”, ambos curiosamente ambientados no mesmo período histórico e abordando igual tema, a escravatura negra. Em nenhum dos casos os realizadores, Steven Spielberg ou Quentin Tarantino, obedecem a qualquer oportunismo político da era Obama: ambos sempre pugnaram por essa causa e ambos têm nas respectivas filmografias exemplos claros disso mesmo. Mas o percurso narrativo e o estilo dos dois filmes são bem diferentes, ainda que as intenções se possam justapor: ambos se batem contra a escravatura, pela igualdade de direitos e pela dignidade humana. Spielberg avança pelo campo da seriedade e da reconstituição histórica, Tarantino joga na cartada da rábula ao western spaghetti, reinventando “Django”, um filme italiano de 1966, dirigido por Sergio Corbucci e protagonizado por Franco Nero. Depois das obras de Sergio Leoni, que são de uma outra constelação, esta de Sergio Corbucci é muito curiosa e, entretanto, tornou-se um “cult movie” que um cinéfilo fanático da série B, como Tarantino, não podia desdenhar. Esta é a sua homenagem, que vai ao ponto de chamar Franco Nero para interpretar um pequeno papel, em jeito de tributo a um dos mais populares actores do western spaghetti, claro que depois de Clint Eastwood (que por acaso era americano e se notabilizou em películas de Leoni).
Mas a inspiração de Tarantino em “Django” fica-se pelo título e pelo estilo. Toda a história é bem diversa e baseia-se numa vingança. As personagens parecem realmente retiradas de um western spaghetti, dada a caracterização brutal, o amoralismo, a baixeza das intenções dos vilões, e os processos nada digno dos anti-heróis.
Tudo começa pelo aparecimento do Dr. King Schultz (Christoph Waltz), um médico alemão que viaja pelo oeste americano numa carroça transformada em clínica dentária, mas que no fundo não passa de um muito eficiente caçador de prémios. Para chegar junto de um gang de irmãos muito cobiçado, tem de libertar um escravo negro, Django (Jamie Foxx), e ambos passam a constituir uma dupla de peso. Um continua a perseguir cadastrados que quer levar às autoridades, vivos ou mortos (de preferência mortos), para arrecadar os prémios prometidos, o outro quer resgatar a noiva, Broomhilda (Kerry Washington), que se encontra escrava numa fazenda de um latifundiário sem escrúpulos (mas quem é que tem escrúpulos neste filme?). Na sua dupla perseguição viajam em conjunto e vão organizando as tarefas com sucesso, até chegarem à propriedade de um verdadeiro tarado sanguinolento, Calvin Candie (Leonardo DiCaprio), que se entretém a ver morrer negros desfeitos pelas dentadas de cães ou a assistir a duelos mortais entre negros mandingos. E chega de falar na intriga que, como em todos os westerns spaghetti, é intrincada, ainda que progrida em linha recta até ao massacre final.
 

Primeira constatação: Tarantino é fiel ao cinema e não à história. Mandingo existe como filme de Richard Fleischer (um dos preferidos do cineasta, segundo revelações do próprio), e a existência ou não real desses combates interessa-lhe pouco. Existem no cinema, é quanto basta. De resto, já vi quem criticasse o aparecimento da KKK, antes de ela ter existido (historicamente e organizada só aparece depois do fim da Guerra da Secessão), mas o que vemos não é a KKK, mas uma pré-KKK que existiu, que parece ter sido conhecida por "The Regulators". Mas a Tarantino, o que interessa é que depois de aparecer no seu filme, passa a existir. O filme não se reclama da fidelidade histórica, quanto muito de uma fidelidade de estilo cinematográfico e de uma coerência ideológica.
Posto isto, se nas sequências finais o massacre atinge um tom de uma violência quase insuportável (o que provocou protestos na América, e o que terá levado a algum constrangimento da Academia nas nomeações, e creio que nos próprios Oscars, o que confirmaremos daqui a alguns dias), a verdade é que todo o filme se desenvolve num tom de paródia, com personagens particularmente bem construídas e divertidas (o Dr. King Schultz, de Christoph Waltz, é uma figura inesquecível, uma das melhores criações da mente pervertida de Tarantino, bem assim como o Calvin Candie, de Leonardo DiCaprio), situações magnificamente sustentadas, uma narrativa nervosa de uma arquitectura quase esquizóide, e uma componente técnica de mestre, desde a sumptuosa fotografia, ao requinte dos ambientes, da inspirada partitura musical à montagem e à sonoplastia. Cremos mesmo que este é dos melhores Tarantinos de sempre. Rapidamente se tornara um cult movie e deixa rasto na história do cinema, mesmo que passe quase desapercebido na cerimónia dos Oscars. Onde se deve sublinhar, todavia, um agradável e bem-vindo regresso de um cinema interventivo, certamente consequência de uma era Obama, incrustada num período de crise que leva os criadores a questionarem a realidade social e política, uma das boas características do cinema norte-americano de esquerda liberal.



DJANGO LIBERTADO
Título original: Django Unchained
Realização: Quentin Tarantino (EUA, 2012); Argumento: Quentin Tarantino; Produção: William Paul Clark, Reginald Hudlin, Shannon McIntosh, Pilar Savone, Michael Shamberg, Stacey Sher, James W. Skotchdopole, Bob Weinstein, Harvey Weinstein; Fotografia (cor): Robert Richardson; Montagem: Fred Raskin; Casting: Victoria Thomas; Design de produção: J. Michael Riva; Direcção artística: Page Buckner, David F. Klassen, Mara LePere-Schloop, Suzan Wexler; Decoração: Leslie A. Pope; Guarda-roupa: Sharen Davis; Maquilhagem: Camille Friend, Heba Thorisdottir; Direcção de produção: Tina Anderson, Marc A. Hammer, Alex G. Scott, James W. Skotchdopole; Assistentes de realização: William Paul Clark, Greg Hale, Melinda Johnson, Teresa Jolene Lee, Leonardo Corbucci, Juana Franklin; Departamento de arte: Ernie Avila, Andrea Babineau, Andrew Birdzell, Caleb Guillotte, Nancy A. King, Molly Mikula, Paul Sonski, Eric Sundahl, Brian Walker, Suzan Wexler; Som: Harry Cohen, Wylie Stateman; Efeitos especiais: John McLeod; Efeitos visuais: John Dykstra, Sheila Giroux, Rachel Faith Hanson, Mohamad Sharil Harees, Tom Rubendall, Wineeth Wilson; Agradecimentos e homenagens: Ralph Bakshi, Sacha Baron Cohen, David Carradine, Sergio Corbucci, Lady Gaga, Joseph Gordon-Levitt, Sid Haig, Isaac Hayes, Sergio Leone, Gordon Parks, Sam Peckinpah, Robert Rodriguez, Richard Roundtree, Kurt Russell, Tony Scott, Michael Kenneth Williams; Companhias de produção: The  Weinstein Company, Columbia Pictures, Brown 26 Productions, Double Feature Films, Super Cool Man Shoe Too, Too Super Cool ManChu; Intérpretes: Jamie Foxx (Django), Christoph Waltz (Dr. King Schultz), Leonardo DiCaprio (Calvin Candie), Kerry Washington (Broomhilda), Samuel L. Jackson (Stephen), Walton Goggins (Billy Crash), Dennis Christopher (Leonide Moguy), James Remar (Butch Pooch / Ace Speck), David Steen (Mr. Stonesipher), Dana Michelle Gourrier (Cora), Nichole Galicia (Sheba), Laura Cayouette (Lara Lee Candie-Fitzwilly), Ato Essandoh (D'Artagnan), Sammi Rotibi (Clay Donahue Fontenot), Miriam F. Glover, Don Johnson (Big Daddy), Franco Nero (Amerigo Vessepi), James Russo (Dicky Speck), Tom Wopat (U.S. Marshall Gill Tatum), Don Stroud (Sheriff Bill Sharp), Russ Tamblyn (filho do pistoleiro), Amber Tamblyn, Bruce Dern (velho), M.C. Gainey, Cooper Huckabee, Doc Duhame, Jonah Hill, Lee Horsley, Zoe Bell, Michael Bowen, Robert Carradine, Jake Garber, Ted Neeley, James Parks, Tom Savini, Michael Parks, John Jarratt, Quentin Tarantino, Amari Cheatom, Keith Jefferson, Marcus Henderson, etc. Duração: 165 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/16 anos; Estreia em Portugal: 24 de Janeiro de 2013. 



2 comentários:

António Sousa disse...

Boa Tarde,

Comecei a seguir atentamente o seu blog e estou a gostar muito da sua análise aos filmes.

No entanto apesar de concordar com o que disse na sua crítica não entendo o porquê da aclamação crítica que Tarantino tem com Django. Não é de todo um mau filme, mas à luz daquilo que Tarantino já fez não é propriamente nada de Groundbreaking.

Se reparar a própria estrutura narrativa é bastante linear, algo que Tarantino era eximio a fazer nos seus primeiros fimes.

Eu só estou a perguntar-lhe isso porque gostava de perceber aos olhos de um crítico como o senhor, o que é que torna Django num objecto assim tão impar?

Cumprimentos cinéfilos
António Sousa


Belinha Fernandes disse...

Ahahh! Já vi Django e achei muito bom. Curiosamente vi há pouco tempo From dusk till dawn escrito pelo e com o Tarantino também. Dá para pensar o quanto ele cresceu como cineasta. Eu não achei que os encapuçados fossem a KKK, não os entendi assim. Esse momento do filme é hilário. E a banda sonora? E a personagem do Dr. Schultz? É uma festa, este filme,uma festa para qualquer cinéfilo. Não é a veracidade histórica que interessa a Tarantino. Os Bastards e este são dois grandes filmes que se servem de períodos históricos conturbados mas apenas como pano de fundo.