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terça-feira, junho 05, 2007

EXPOSIÇÃO: JOÂO CONCHA NO CARTAXO

ALICES, SEM TÍTULO
Não é a primeira vez que falo dele neste meu blogue. Já noutras ocasiões escrevi sobre o Intruso, blogue de João Concha, arquitecto, designer, ilustrador, pintor, e afável bloguista, de traço elegante e sóbrio, aparentemente homem tímido e reservado, mas senhor de uma forte personalidade que se esconde por detrás de uma discreta bonomia e transmissível simpatia. Pois o Intruso inaugurou no passado sábado, dia 2 de Junho, na Casa da Cultura do Cartaxo, uma exposição chamada “Alices, sem título”, que é uma excelente afirmação do seu talento, para quem não o conhecia ainda.
João Concha nasceu em 1980, em Évora, e aos 18 anos vem para Lisboa, onde se licencia em Arquitectura. Agora esta exposição afirma-o como ilustrador e pintor sensível, inventivo, iconoclasta. A ter em conta, a partir de hoje. Por mim, já o tinha em conta há mais tempo, descoberto que foi nas ilustrações do seu blogue, onde vi e assinalei os esboços iniciais destas “Alices”. A partir desse contacto, convidei-o para um projecto comum (que talvez se concretize, ele o dirá!), por acreditar obviamente na justeza do seu traço. Mas estas “Alices” confirmam-no, para quem o não conhecia.
João Concha pega na personagem de Alice, tal como a conhecemos das gravuras de Sir John Tenniel (que ilustrou a primeira edição da obra de Lewis Carroll), e coloca-a nos mais diversos contextos, muitas vezes a fugir aos contextos, outras quase só pressentida nos contextos, e relança-a para novas leituras. Ou para nenhuma leitura outra que não seja a do seu diálogo com a matéria gráfica, as texturas, as tintas, a plasticidade da matéria, as cores, as formas, as proporções, a miniatura aqui, o gigantismo acolá, o pulsar de um coração, a presença de um botão que o deixa de ser ou de um pente que se metamorfoseia, uma porta a abrir para o mistério, a ameaça desconhecida, uma fuga de um campo verde (este é meu, cheguei tarde para optar por outros, mas gosto muito deste, para que estou a olhar na foto que a MEC me tirou).

Boa a exposição e muito boa a Casa da Cultura do Cartaxo (que tem acoplado um Auditório, onde cheguei tarde para ver o Bruno Schiappa no seu novo espectáculo, mas ele não perde pela demora, que o apanho por aí, noutra ocasião).
“Terra do Vinho”, como aparece escrito por cada canto da cidade, o Cartaxo já foi minha passagem regular quando ia visitar o João Maria Tudela, a Filomena e as crianças, que por ali perto têm casa, na Lapa, e quando o Frederico gravava “A Estrela” na Eireira (com a amigável colaboração da Maria do Céu Guerra e do Camacho Costa, saudade Camacho!). Mas há muito que por lá não passava e está uma terra bonita, na meia hora de entardecer que deu para ver a percorrer as ruas à volta da Câmara Municipal. Come-se razoavelmente bem no “Batalhoz”, onde vi Portugal ganhar à Bélgica, e, de volta, a excursão que regressou a Lisboa por estradas de um Portugal profundo, deu certamente por bem empregue esta fuga à rotina, esta viagem ao outro lado do espelhos destes citadinos empedernidos que, todavia, não se cansam de procurar “Alices” um pouco por todo o lado, mesmo “sem titulo”, quiçá mesmo sem títulos para melhor a compreenderem e adoptarem.
Assim foi, e ficam algumas fotos para o documentar.

Casa da Cultura do Cartaxo. Ex. Noite

Fotos de MEC, LA e S.