terça-feira, junho 26, 2007

CINEMA:OS INIMIGOS DO IMPÉRIO

OS INIMIGOS DO IMPÉRIO
“Ye Yan” (Os Inimigos do Império), do chinês Feng Xiaogang, parte de uma adaptação livre da tragédia “Hamlet”, de William Shakespeare, transpondo-a para os tempos caóticos do século X (entre 907 e 960), na China, num período da Dinastia Tang em que existiam Cinco Dinastias e Dez Reinos. Para quem viu “A Maldição da Flor Dourada”, de Zhang Yimou, as semelhanças não passarão despercebidas. Trata-se de novo de um conflito familiar que envolve uma luta pelo poder, desta feita protagonizada por um Imperador que assassinara o irmão para assim conseguir chegar ao poder, uma Imperatriz que está apaixonada pelo Príncipe, filho do seu ex marido, mas não seu, e que aceita casar com o cunhado para se salvar e poupar o legítimo herdeiro, e ainda por um numeroso séquito de ardilosos conspiradores e inocentes amantes. Ministros, generais, filhos e filhas de ministros, todos os seus destinos se entrelaçam neste jogo mortal que tem como fito o trono do Império.

Um dia, depois de muitas armadilhas e traiçoeiras ciladas, com muitos duelos de uma olímpica beleza e proverbial agilidade, com os guerreiros a esgrimir na terra e no ar, evoluindo por entre espadas, lanças e punhais que se cruzam e descruzam e vão provocando rios de sangue-vermelho-vivo, o Imperador resolve oferecer um banquete, num dia que o Camareiro-mor não acha o mais auspicioso para semelhante ocorrência. Mas como as vontades do Imperador são para cumprir, assim seja. E assim foi que num espaço de um palco frente ao trono do Império, se sucederam as mortes, com um compasso feroz, marcado pela cobiça dos homens e executado através de múltiplos expedientes, salpicados por fatalidades e equívocos sem retorno. A Imperatriz tenta envenenar uns, mas acaba por ver desviada a taça, e a partir daí o morticínio é total. No palco desse jogo de poder nefasto, jazem corpos que tombam num bailado fúnebre.
O filme é basicamente mais uma meditação sobre a febre do poder que tudo corrói e corrompe. O talento de Feng Xiaogang é inequívoco, ainda que uns pontos abaixo da genialidade de Zhang Yimou. Será aliás curioso comparar como dois filmes tão semelhantes quanto ao seu argumento, podem ser tão diferentes, mesmo contraditórios, quanto à estética, ao ritmo, ao estilo de ambos os cineastas. Numa escola de cinema, mostrar “A Maldição da Flor Dourada” e “Os Inimigos do Império” um a seguir ao outro, é uma boa maneira de “explicar” o que é um estilo, um tom pessoal, um olhar diferente. Feng Xiaogang é mais denso, mais soturno, mais nocturno nas suas imagens. Mais lento na forma como conduz a obra. Mais “intelectualizado”, mais “artístico”, sem que nada disso sejam virtudes só por si. Como já dissemos, preferimos a limpidez kurosaweana (e fordeana) de Zhang Yimou. Não é por querer ser mais “intelectual” que se é melhor.
Mas é evidente igualmente que este é um filme fascinante, inclusive por essa necessidade de se afirmar mais reflexivo. Desde as primeiras imagens que Feng Xiaogang aproxima a sua narrativa do palco teatral. O seu Príncipe, angustiado pelo que vai no palácio, afasta-se para longe da corte e vai aprender arte de representação, utilizando máscaras e túnicas brancas que tornam todos os actores iguais. Explica-se mesmo que representar com máscara é que é a autêntica forma de representar, pois se torna mais difícil mostrar as emoções. É ai que os primeiros enviados do Imperador usurpador o vão tentar assassinar pela primeira vez. Aí se vai iniciar o bailado bélico que acompanha toda a obra. Aí principia igualmente a “representação” ostensiva desta tragédia que se envolve num melodrama passional de umas proporções de tal forma excessivas que chega a surpreender. Feng Xiaogang não recusa um plano mais extenso (o longo travelling acompanhando o caminhar da Imperatriz, de costas!) ou uma fixidez de uma duração insuspeita (vários exemplos ao longo do filme). Mas a estes seguem-se cenas de um ritmo avassalador, verdadeiros ballets organizados em função de lutas corpo a corpo, onde a beleza, a brutalidade, a elegância e a violência se cruzam (há muito de “O Tigre e o Dragão” nesta obra que é produzida por um dos responsáveis pela coreografia do filme de Ang Lee).
O que mais impressiona nesta obra é objectivamente a forma como o realizador cria uma atmosfera quase doentia, patológica, através de ambientes pesados e sombrios, jogos de luzes e sombras, cores densas e magoadas, cenários sumptuosos que oprimem, e uma “encenação” (os franceses chamam-lhe “mise-en-scène” com muito rigor) que vai buscar influência ao teatro e o transporta com eficácia e rigor para a narrativa cinematográfica que, não descolando do estilo “wuxia”, não deixa de ser uma obra de grande beleza e severidade estética.
Conhecido internacionalmente como “The Banquet” esta obra de Xiaogang Feng, que conta com interpretações de Ziyi Zhang (excelente, e continua a ser uma das mais belas presenças do cinema asiático) e Daniel Wu, possui uma admirável fotografia que ajuda a criar esse clima poético de viciada decadência moral, sendo ainda o todo muito ajudado pela direcção artística e o guarda roupa de uma qualidade estética invulgar.
OS INIMIGOS DO IMPÉRIO
Título original: Ye Yan ou Banquet
Realizador: Feng Xiaogang (China, 2006); Argumento: Chiu-Tai An-Ping, Sheng Heyu; Música: Tan Dun; Fotografia (cor): Zhang Li; Director de cenas de acção: Yuen Woo Ping; Montagem: Miaomiao Liu; Direcção artística: Timmy Yip; Guarda-roupa: Timmy Yip; Coreografia: Wang Yuanyuan; Departamento de arte: Li Ji Qing; Som: Danrong Wang; Efeitos visuais: Phil Jones, Tracy Lefler, Persis Reynolds, Sarah Wormsbecher; Produção: John Chong, Zhonglei Wang, Woo-ping Yuen; Companhias de produção: Huayi Brothers & Taihe Film Investment Co.
Intérpretes: Ziyi Zhang (Imperatriz Wan), Daniel Wu (Principe Wu Luan), Xun Zhou (Qing Nu), You Ge (Imperador Li), Jingwu Ma (Ministro), Xiaoming Huang (Filho do Ministro), etc.
Duração: 131 minutos; Distribuição em Portugal: Vitória Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Filmagens: Setembro de 2005 até Fevereiro de 2006, em Beijing, Montanhas de Altay, Xinjiang; "Mar de Bamboo", Zhejiang; Orçamento: 20 milhões de dólares.

Feng Xiaogang é um dos mais cotados realizadores chineses da actualidade. Nascido em Beijing, em 1958, Xiaogang é filho de um professor de um colégio do Partido Comunista e de uma enfermeira. A sua formação cinematográfica foi adquirida na televisão. Primeiro como assistente de produção, omo argumentista, como pintor de cenários num grupo teatral, etc. Em 1991 adaptou a televisão um romance popular sobre emigração chinesa nos EUA, de que resultou uma série de TV muito popular, "Beijingers in New York", estreada na China em 1992. Rapidamente surgiu o sucesso, e outras séries que estabelecem um novo género de teledramáticos na China "Hesui Pian (贺岁片)" ("New Year Celebration Movies"): “Dream Factory” (Jiafang yifang, 1997), “Be There or Be Square” (Bujian busan, 1998), “Sorry, Baby” (Meiwan meiliao, 1999) ou "A Sigh” (Yisheng tanxi, 2000). No cinema o seu reconhecimento dá-se com “Big Shot's Funeral”, “A Sigh” e, sobretudo, “Cell Phone”, afirmando um cineasta um pouco diferente de camaradas como Chen Kaige ou Zhang Yimou. Feng Xiaogang é casado com a actriz chinesa Xu Fan. Nos seus filmes Ge You é a sua actriz fetiche.

7 comentários:

Ida disse...

Fiquei morta de vontade ver o filme. Belo texto e ainda me seduziu mais do que o que fizeste para "A maldição da flor amarela" que li religiosamente como a este. E há, acima, uma imagem dentre todas deslumbrante, de uma poesia indiscutível. Beijo

Mar Arável disse...

belo texto - excelente texto como sempre.socrates estaria a mais apesar dos malefícios

vitoscano disse...

Prabens á RTP pela transmissão do documentário "AU COUER DE L´EUROPE". Um documentário que retrata os trabalhos de José Manuel Durão Barroso à frente da Comissão Europeia(curioso ser Belga,ainda que com participação da RTP).
Em Relação ao filme parece-me ser um bom filme embora viva em Castelo Branco e só temos uma sala
por aqui 3 semanas de Piratas das Caraibas assim fica complicado po resto.

Manuel Anastácio disse...

kusosaweana?...

Lauro António disse...

kurosaweana, de Akira Kurosawa. Um neo-logismo. Esperemos que nao leve a mal.

Annabel Lee disse...

Este filme tem uma interpretação da Zhang Yi de um belíssimo poema chinês tipíco da dinastia Tang 北方有佳人 (bei fang you jia ren), um momento simplesmente único de tanta pureza e beleza...

Joaquim Diabinho disse...

Agrada-me que o Lauro tenha gostado de The Banquet. Por um acaso -de oportunidade e graças à gentileza da Vitória Filmes / Ecofilme- foi o filme de abertura do 3º Festival de Cinema da Covilhã, que se realizou este ano de 11-19 Maio.Para o ano, e se não ocorrerem mais tentativas de boicote, gostaria de poder exibir, com a sua presença, o "saudoso" Manhã Submersa.