segunda-feira, novembro 19, 2007

CINEMA: CORRUPÇÃO

CORRUPÇÃO
À partida ia muito desconfiado para este filme cujas peripécias sabidas e amplamente publicitadas não auguravam nada de bom. Desde logo o livro donde parte, “Eu, Carolina”, de Carolina Salgado, não me merece qualquer credibilidade, muito embora o tenha comprado e lido (só assim cheguei á conclusão de não me merecer credibilidade). Por outro lado, os problemas que estalaram entre realizador e produtor são quase inéditos no nosso país, apesar de serem vulgares, até há pouco, um pouco por todo o lado onde a figura do produtor dispunha de poder de vida ou de morte sobre os filmes. Surge assim nas salas de cinema um filme não assinado pelo realizador (João Botelho), apesar de toda a gente saber quem é o realizador, após uma obsidiante campanha publicitária que martelou dia a dia a realização da obra junto dos olhos e dos ouvidos da população portuguesa. Dado o melindre da realização, esta campanha destinou-se, em parte, a tornar irreversível a produção do filme, é evidente e foi bem pensada e melhor executada.
E pronto, temos o filme em 55 salas portuguesas, com boas receitas. Talvez não tão boas como a produção esperasse. Não vai de certeza retirar o primeiro lugar no discreto “box office” português a filmes como “Capas Negras”, “Fado”, e alguns mais. Mas está a facturar bem. A ser visto, o que é muito bom para um filme português. Não sou, porém, daqueles que acha que se deve facturar a todo o preço. Um mau filme que facture e seja visto por muito público só desprestigia. Nada traz de significativo, a não ser para a conta do produtor.
Mas “Corrupção” não é um mau filme. Tem consigo a marca de João Botelho. Não sendo um mau filme, levanta contudo curiosas questões que será bom analisar. Comecemos pela adaptação do livro de Carolina Salgado, “Eu, Carolina” que passa a ser conhecido por “Eu, Sofia”. Uma nuance que, todavia, nada muda, a não ser em pormenores.
O filme segue, a par e passo, a carreira martiriológica de uma mulher jovem, bonita e bem feita, que para assegurar a sobrevivência de dois filhos trabalha no Porto, de dia num supermercado (actividade que nunca vemos), de noite numa afamada casa de alterne, onde leva uma vida pudica e recatada. Ela está ali “para beber, não para dormir”, e sempre que um cliente troca o copo de champanhe pela sua roliça perna, lá vem tempestade. Percebe-se. Nesta altura entra em cena um polícia incorrupto que quer provas para enterrar um dirigente desportivo que todos sabem corrupto, mas de quem ninguém consegue reunir provas suficientes para o entrincheiras atrás das grades. Falinhas mansas de um e outro, e a pequena acaba por cair nas garras do prepotente que a leva em romagem à Galiza e acaba por metê-la na cama na estalagem de Santiago de Compostela. A menina era tão distraída que nem levara roupa a condizer, nada que não fosse prontamente remediado num armazém galego.
Poderia nesta altura pensar-se então que a senhora sofria, na cama, com as arremetidas do verdugo, a bem da Pátria e da segurança nacional, mas tal não acontece: Sofia não se vende sob nenhum pretexto. Aceita uma chamada do polícia e informa-o para nunca mais telefonar: ela afinal apaixonou-se pelo “Presidente”. Enquanto o “romance” rola, vai descobrindo as trapaças que envolvem futebol, política, justiça, polícia, economia, etc. Juízes corruptos, árbitros vendidos, inspectores de polícia comprados, etc., etc. Mas Sofia lá vai mergulhando com prazer nas piscinas da putrefacção. Por amor. Até que um dia chega e se descobre trocada por outra, aí descarrila, o marido põe-a na rua à bofetada, e a “gestora” vê-se sozinha, com a cara feita num bolo (escuro). Regressa o polícia incorruptível, inicia-se a recolha de provas, os corruptos são chamados a depor, Sofia e o polícia partem, quem sabe?, em viagem de (segundas) núpcias. A vida de Sofia não acaba aqui, ameaça “continuar…” é o que nos diz a legenda final.
Não se trata bem de um filme sobre o tão falado “sistema”, a corrupção em Portugal, nem dos negócios obscuros do futebol e da restante sociedade, mas sim da história de uma mulher com pouca sorte na vida, mas resoluta para resolver e ultrapassar os problemas que se lhe colocam, que teve a infelicidade de tropeçar num (reparem “um”) “Presidente” que é corrupto. Se aquele prepotente, que ainda por cima põe a vida da mulher em permanente risco, ao mandá-la acender cigarros a toda hora, e já se sabe que o fumo mata!, se aquele prepotente, dizia, for dentro, fica o país livre de corrupção desportiva? Não fica. Este ajuste de contas pessoal não serve as intenções. Se aquele “presidente”, por um azar do carraças (para ele) fosse dentro, o polvo continuaria com os tentáculos bem estendidos, desde a Liga Bwin até aos distritais (veja-se o que aconteceu agora em Viseu, com árbitros e dirigentes desportivos de Tondela e Castro Daire). Uma “vendeta” pessoal não serve a ninguém. É o caso.
Agora o filme: como se sabe João Botelho é um dos mais conceituados realizadores portugueses. Tem atrás de si uma obra muito pessoal, de autor, onde a denúncia social é uma constante. Filmes belíssimos, ao lado de outros não tanto (não aprecio muito a sua veia satírica que ultimamente tem vincado alguns títulos). Acontece que julgo que o registo optado para “Corrupção” é dos que melhor o serve. Este “realismo” nocturno, inspirado nos “filmes negros” de Hollywood anos 40, é muito bem aproveitado para certas cenas do filme, reuniões mafiosas, cenas familiares, encontros a transpirarem clandestinidade quotidiana, viagens à Galiza ao som de ópera... Julgo que aqui se descobre do melhor João Botelho. O pior fica para as cenas de pequenas multidões, entradas e saídas de tribunais, etc., onde as movimentações da comunicação social e dos apoiantes são pífias e nada credíveis.
Quase sempre boa a fotografia, boa a iluminação, a rondar o expressionismo, aceitável criação de ambientes, muito boa no geral a interpretação, que vai do excepcional (Ruy de Carvalho, Nicolau Breyner e outros) até um ou outro malogro, mas quase sempre em curtos papeis não muito bem resolvidos. Margarida Vilanova, no papel de “Sofia” defende bem uma tarefa ingrata. É muito bonita, tem aquele ar arisco e sabido que convinha, deixa sempre antever que “sabe muito mais do que confessa” e que tem “uma outra vida” muito bem escondida, por detrás daquela que aparenta. Pode ir longe, se bem dirigida, como aqui foi.
Esperemos pela “director’s cut”, que se anuncia já nesta bem montada operação de marketing, para ver o que melhora ou piora em “Corrupção”.


CORRUPÇÃO
Realização: João Botelho (não creditado na versão estreada no cinema) (Portugal, 20007); Argumento: João Botelho, Leonor Pinhão, segundo livro de Carolina Salgado; Fotografia (cor): Orlando Alegria; Montagem: João Braz; Design de produção: Catarina Amaro; Guarda-roupa: Silvia Grabowski, Vera Midões, Catarina Rodrigues; Maquilhagem: Sano de Perpessac; Direcção de produção: Pedro Bento, Rita Simão; Assistentes de realização: João Fonseca, Tiago Almada, Iris Reis; Som: Branko Neskov, Francisco Veloso; Produção: Alexandre Valente; Produtor executivo: Rui Louro; Bruno Martins; Companhia de produção: Utopia Filmes.
Intérpretes: Nicolau Breyner (Sr. Presidente), Margarida Vila-Nova (Sofia), António Cerdeira (Inspector Luís), Alexandra Lencastre (Mãe de Sofia), André Gomes (Advogado do Presidente), António Cid (Banqueiro), Aulácio Costa Almeida (Amigo Figueira), Carlos Costa (Patrão do Bar), Dinarte Branco (Médico), Edmundo Rosa (Adepto), Eurico Lopes (TV Anchor), Filipe Vargas (Agente PJ), Francisco Cunha Leal (Amigo Figueira), João Brás (Editor 1), João Cabral (Editor 2); João Catarré (Fotógrafo), João Lagarto (Figueira), João Loy (Cliente), João Ricardo (Empresário), João Silvestre (Taxi Driver), Jorge Schnitzer (Amigo Figueira), Jorge Sequerra (Homem da Rua), José Eduardo (Almirante), José Raposo (Inspector da PJ), Luísa Ferreira (Fotógrafa), Luís Soveral (Deputado), Manuel Gregório (Árbitro 1), Maria Duarte (Vizinha 1), Miguel Guilherme (Presidente dos Árbitros), Miguel Monteiro (Director Polícia Judiciária), Nelson Veiga (Cavalheiro do Jantar), Paula Guedes (Criada Zulmira), Paula Lobo Antunes (Alternadeira), Paulo Filipe (Jornalista), Paulo Manso (Vendedor da Livraria), Pedro Valente (Polícia de Ruela), Rita Blanco (Esposa do General), Rui Morrison (Procurador), Rui Santiago (Jornalista Espancado), Ruy de Carvalho (Juiz Presidente), Sérgio Grilo (Membro da Claque), Sónia Balacó (Alternadeira 2), Suzana Borges (Magistrada), Teresa Ovídio (Secretária do Tribunal), Tina Barbosa (Vizinha 2), Virgílio Castelo (Vice-Presidente), Jorge Chança (Segurança do Bar), Adérito Lopes, Matilde (Alternadeira), Margarida Moreira (Alternadeira), Ana Murinello (Mulher do Deputado), Samantha (Alternadeira), Luís Teodoro (Barman), etc.
Duração: 93 minutos; Classificação etária: Portugal: M/16 anos; Distribuição em Portugal: Filmes Lusomundo; Locais de filmagem: Aroeira, Lisboa, Peniche, Porto, Seixal, Portugal; Santiago de Compostela, A Coruña, Galiza, Espanha.
“Corrupção” na imprensa
O realizador João Botelho disse à agência “Lusa” que abdica de todos os direitos de autor relativamente ao filme “Corrupção”. O filme baseado no livro de Carolina Salgado estreou esta quinta-feira em 55 salas de cinema do país. “Eu abdico dos meus direitos, sei que por lei tenho direito a eles, mas não os quero”, declarou.
Contactado pela “Lusa”, o Gabinete dos Direitos de Autor e da Propriedade Intelectual afirmou que “o realizador, enquanto autor da obra, assine-a ou não, tem sempre direito aos respectivos direitos de autor”.
A mesma fonte sublinhou que “todo o processo entre produtor e realizador é exterior à questão dos direitos de autor”.
Botelho, que assinou já a realização de mais de dez longas-metragens, afirmou que apenas lhe interessa agora fazer o “seu” filme, mesmo que “daqui a muito tempo”, escusando-se a dar outros pormenores.
A 4 de Outubro, o realizador anunciou em comunicado que não assinaria o filme porque a Utopia Filmes optara por “uma versão diferente de imagens e de sons” na qual não reconhecia a linha fundamental do argumento, de que é co-autor (com Leonor Pinhão), e o cinema que há 30 anos defende.
Por seu lado, o produtor Alexandre Valente, comentou na altura que as divergências com o realizador, nomeadamente sobre a montagem final e a banda sonora, já eram esperadas desde o início do projecto, e por isso celebrou “um contrato muito claro”.
Filmado em Lisboa, Porto e Santiago de Compostela, a longa-metragem é baseada no livro “Eu Carolina”, de Carolina Salgado, ex-companheira de Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto, e tem nos principais papéis os actores Nicolau Breyner e Margarida Vilanova.
O seu filme de estreia, “Conversa acabada”, recebeu Prémio Glauber Rocha e uma Menção Especial do júri da Federação internacional da Imprensa Cinematográfica do Festival da Figueira em 1981 e o Grande Prémio do Festival de Cinema de Antuérpia em 1982.

2 comentários:

Flávio disse...

Tenho 'mixed feelings' em relação ao filme. Os três actores são excepcionais, o assunto é explosivo e o João Botelho sabe escrever diálogos 'literários' (no melhor sentido) e elegantes. Mas não me parece, ao contrário do que diz o Lauro António, que ele fosse o autor adequado para um material destes. Tenho a sensação que o Botelho fez um frete. Falta dedicação, trabalho de pesquisa e riqueza de pormenores ao seu argumento, o filme fica-se pelas generalidades que já toda a gente conhece. A propósito de detalhe, comparem 'Corrupção' ao infinitamente melhor 'Noite Escura': o realizador João Canijo passou meses nos bares de alterne a estudar a fauna local e o fruto desse trabalho está bem evidente no resultado final.

isabel victor disse...

Também ía desconfiada ...
Aliás, nem pensava ir !


Acabei por ir. Vi e gostei !

:)) surpreendente ! Gostei !!!


Bj*