quarta-feira, julho 16, 2008

CINEMA. UM MESTRE DO CINEMA ITALIANO

DINO RISI
Biografia

Em 1953, em pleno apogeu do “Neo-Realismo” em Itália, um grupo de realizadores e argumentistas lançou uma obra colectiva que ficou conhecida como manifesto desse movimento estético, cultural, cinematográfico e social e político também. Chamava-se “Retalhos da Vida” (no original “L’ Amore in città”, e agrupava alguns cineastas, cada um deles assinando um episódio, Michelangelo Antonioni (segmento "Tentato suicido"), Federico Fellini (segmento "Un Agenzia matrimoniale'"), Alberto Lattuada (segmento "Gli Italiani si voltano"), Carlo Lizzani (segmento "L’ Amore che si paga'"), Francesco Maselli (segmento "Storia di Caterina"), Dino Risi (segmento "Paradiso per 4 ore") e Cesare Zavattini (segmento "Storia di Caterina"). Cesare Zavattini, sobretudo argumentista, fora o mentor do projecto. Michelangelo Antonioni e Federico Fellini subiram ao céu dos génios; Carlo Lizzani ia perder-se numa ortodoxia asfixiante, Francesco Maselli seria um dos arautos de um neo-neo realismo nos anos 60 e 70, Cesare Zavattini ficaria para sempre como um dos intelectuais marxistas que moldara grande parte do movimento, em Itália, no cinema, mas também em todas as formas artísticas e em todo o mundo. Ficam Alberto Lattuada e Dino Risi, que se afastaram um pouco da ortodoxia do neo-realismo, optando por uma crítica de costumes de raiz satírica da realidade italiana do pós guerra que nos deu exemplos magníficos de obras inesquecíveis. Não foram considerados tão geniais como outros companheiros de percurso, mas andaram perto, e não subiram mais porque os preconceitos da época os classificaram com a depreciativa designação de “neo-realistas rosas”, o que é objectivamente uma mentira e uma afronta. No caso de Dino Risi ele foi um cineasta magnífico, um retratista implacável, um aguarelista inspirado na descrição de um tempo, de uma sociedade, de um clima social.
Dino Risi nasceu a 23 de Dezembro de 1917, em Milão, Lombardia, Itália, e faleceu a 7 Junho de 2008, em Roma, Lazio, igualmente em Itália. Ele próprio escreveu que “nascera do ano da Revolução Russa e no ano do primeiro “Giro d’Italia.” Agora que desapareceu, aos 91 anos, foi considerado unanimemente como “o pai da comédia de costumes italiana”. Mas, durante muitos anos, foi geralmente subestimado, considerado “menor”, o que parece paradoxal para um cineasta que conta, na sua vasta filmografia, algumas obras-primas do cinema italiano, simultaneamente de uma qualidade cinematográfica e interesse sociológico impares e grandes sucessos de público. “A Ultrapassagem”, “Uma Vida Difícil”, “Os Monstros” ou “Perfume de Mulher” bastavam para o colocar no panteão da cinematografia transalpina.
Um ano antes da sua morte, ele, que tinha o sentido de humor apurado, comentou o desaparecimento, quase simultâneo, de Michelangelo Antonioni e Ingmar Bergman, profetizando que "poderia partir de uma hora para a outra, mas que agora gostaria de esperar um pouco mais. Se morro agora, os jornais vão colocar a notícia na secção de desporto.”
Dino Risi escreveu uma curta e saborosa autobiografia, onde comenta alguns dos passos mais relevantes da sua vida. O pai, Arnaldo Risi, era médico, e melómano, razão certamente pela qual era médico do Scala de Milão. Há uma curiosa fotografia do pai, durante a I Guerra Mundial, capitão médico, que comandava uma companhia de que fazia parte um cabo de nome Bento Mussolini. Conta como aos dez anos foi entregue aos cuidados de um músico famoso, Premoli, de 80 anos, que tentou ensinar-lhe violino. Em vão. No primeiro concerto, desafinou, espatifou o violino com a revolta e nunca mais quis ouvir falar nessa tortura. Conta também que, por essa altura, fazia férias em casa de família amiga, onde se apaixonou por uma tal Milena, loura, de igual idade, dez aninhos, com quem foi apanhado aos beijinhos, uma noite, na cama dela. Resultado, acabaram-se as férias e o amor de Milena. Mas outros amores foram aparecendo até se casar, em 1943, com Cláudia Mosca. O casal teve dois filhos, ambos hoje “registas” (realizadores, Claudio Risi e Marco Risi). Mas antes, muita água iria correr. O pai faleceu quando era muito jovem, a mãe teve de encarregar-se da educação dos filhos e do sustento diário da família, foram anos de dificuldade. Frequentou o liceu Berchet, entre 1931 e 39. O liceu tinha fama de ser dos melhores de Milão e de Itália, por lá passava a fina-flor dos filhos dos intelectuais milaneses. Começou a escrever num jornal satírico, “Bertoldo”. Em 1941, o cinema, como por acaso. Um dia, em 1941, falando com o amigo Alberto Lattuada, que preparava o novo filme de Mario Soldati, “Piccolo mondo antico”, foi-lhe proposto um lugar na equipa técnica, que aceitou mais por desporto do que por gosto. A seguir esteve como assistente de realização do próprio Alberto Lattuada, em "Giacomo l'idealista" (1942). Mas estudava medicina e, depois de uma permanência em Itália, no regresso diploma-se em psiquiatria e começa a trabalhar como interno no hospital de Pádua, e depois do hospício de Voghera. Tudo indicava que nascia mais um médico, mas afinal o bichinho do cinema fez estragos. Com a guerra, resolve partir para a Suiça, onde conhece a futura mulher, tira um curso de encenação com Jaques Feyder, e faz amizades com o encenador e dramaturgo Giorgio Strehler.
De regresso a Itália, finda a guerra, volta a Milão em 1945. Começa a escrever contos e textos para jornais e revistas, e críticas de cinema para “Milano Sera”, nessa altura dirigido por Elio Vittorino e Alfonso Gatto. Gigi Martello, um produtor, convida então Dino Risi a realizar uma série de cerca de vinte curtas e médias-metragens documentais, o que o ocupa entre os anos de 46 e 50. Um desses trabalhos, talvez o mais citado, é "Buio in sala", que é vendido a Carlo Ponti, que o chama para Roma, onde se instala, e começa a escrever, com outros, um argumento para uma diva da altura, Silvana Mangano. O filme será “Anna”, que Lattuada dirige, e que se afirma como um dos maiores êxitos de sempre do cinema italiano. Dino Risi via abrir-se a porta da grande indústria. Em 1951, filma "Vacanze col gangster", tenta rodar, em 1953, um filme na produtora brasileira, de São Paulo, “Vera Cruz”, sem sucesso. Depois, com Sophia Loren e Vittorio de Sica, dirige o seu primeiro filme de fôlego, "O Signo de Vénus", e o título de encerramento de uma trilogia iniciada por Luigi Comencini e que fez furor na época, "Pão, amor e..." (ambos em 1955). "Pobres mas Belas" (Poveri ma belli), interpretado por Marisa Allasio, em 1956, é um relativo triunfo. O neo-realismo tinha esgotado as suas fórmulas e Dino Risi, com alguns outros realizadores e argumentistas, retomam a fórmula, mas sob o prisma de comédia de costumes. A história roda à volta de um grupo de jovens romanos, oriundos da pequena burguesia, que falam mais de amor e problemas do dia a dia do que de política e questões sociais. O público acorre. A crítica fala, de forma depreciativa, de um “neo-realismo rosa”. Hoje em dia são documentos impressionantes de caracterização sociológica de uma época precisa e de uma situação italiana determinada. Falava-se em “milagre económico” e na reconstrução do país no pós guerra.
Entre 1960 e 1961 realiza “Il Mattatore”, com Vittorio Gasman, que prenuncia uma vasta e prodigiosa colaboração entre actor e cineasta, e depois "Un Amore a Roma" e "A Porte Chiuse", duas obras dramáticas sem grande sucesso, a que se seguem duas das suas obras maiores, “Una Vita Difficile” e "Il Sorpasso". Este último, “A Ultrapassagem” será possivelmente, a sua grande obra. Conta-se que na noite da estreia, ele e o produtor Mario Cecchi Gori esperaram no exterior do cinema as reacções do público. Desgostoso pelo facto de haver muito poucos espectadores, Dino Risi regressou mais cedo a casa. Três horas depois diziam-lhe, pelo telefone, que fora um sucesso, e no dia seguinte a sala estava esgotada. Dino Risi tornara-se numa nova lenda viva do cinema italiano. Fiz mais de cinquenta filmes, e estive sempre seguro de que um deles poderia vir a ser uma obra-prima.” "I Mostri" (1963), "L'Ombrellone" (1966), "Operazione San Gennaro" (1967) e “Vedo nudo” (1969) são os títulos seguintes de uma vasta filmografia que engloba cinco dezenas e meia de longas-metragens, para lá de um importante conjunto de curtas e de telefilmes. Em 1970 roda "La Moglie del Prete" com o casal sensação desses anos, Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Nesse mesmo ano assina “In Nome del Popolo Italiano”, outra das suas obras mais conhecidas.
"”Profumo di Donna”, de 1974, reúne Gassman e Agostina Belli, e com ele recebe o César de melhor filme estrangeiro lançado nesse ano em França. Mais tarde servirá de base a uma nova versão, norte-americana, assinada por Martin Brest, com Al Pacino no protagonista.
O cineasta trabalhou com os principais actores italianos da segunda metade do século XX, entre os quais Vittorio Gassman (uma colaboração em mais de quinze filmes, uma das mais inspiradas da história do cinema), Alberto Sordi, Ugo Tognazzi, Nino Manfredi, Totó, Sophia Loren, Marcello Mastroianni, Sylvia Koscina, Agostina Belli, Walter Chiari, Tina Pica, Amedeo Nazzari, Silvana Pampanini, Mónica Vitti, Giancarlo Giannini, Laura Antonelli, Ornella Mutti, entre muitos outros. Nas últimas duas décadas, o cineasta envereda por um tipo de realização que se afasta do campo da comédia e penetra nos terrenos do drama e do mistério. 1975 é ainda o tempo de outra comédia primorosa, "Telefoni bianchi", a que se seguem “Anima Persa” (1977), La Stanza del Vescovo (1978), I Nouvi Mostri, (978), “Primo Amore” (1978), “Caro Papà” (1979), “Sono Fotogénico” (1980), “Fantasma d'Amore” (1981) ou “Sesso e Volentieri” (1982).
Depois, afasta-se um pouco do cinema, e continua na televisão, com telefilmes e mini-séries, de que os portugueses quase desconhecem tudo: “...e la vita continua” (TV, 1984), “Dagobert” (1984), “Scemo di guerra” (1985), “Teresa” (1987), “Carla. Quattre storie di donne” (TV) (1987), “Il commissario Lo Gatto” (1987), “La Ciociara” (TV) (1988), “Il vizio di vivere” (TV) (1989), “Tolgo il disturbo” (1990), “Vita coi figli” (TV) (1990), “Missione d'amore” (mini-série de TV) (1992), “Giovani e belli” (1996), “Esercizi di stile” (episódio "Myriam", 1996) e “Le Ragazze di Miss Itália” (TV) (2002), sua derradeira contribuição para o cinema, inteiramente rodado em Salsomaggiore, tendo por base um concurso de Miss Itália, durante o qual Dino Risi ensaia uma crítica sobre a vida quotidiana em Itália, vista através do medo, da angústia e da esperança dos participantes neste concurso.
Dino Risi vivia numa suite de um dos melhores hotéis de Roma, desde que, há dezoito anos, se divorciara da mulher Cláudia. Sobre o seu filho Marco Risi, igualmente realizador, dissera um dia: “Nunca ajudei Marco a encontrar um emprego. Quando era criança, veio muitas vezes assistir às filmagens, mas agora trabalha sem nunca me pedir qualquer sugestão. Penso que é um excelente director.” Dino Risi é irmão do fotógrafo Fernando Risi e do realizador Nelo Risi. Escreveu uma autobiografia, editada em 2004, chamada "I Miei Mostri". Durante os últimos quarenta anos manteve uma relação com a actriz Leontine Snell, vivendo cada um em sua casa. Mas ainda teve envolvimentos amorosos, que se conheçam, com as actrizes Anita Ekberg e Alida Valli.
Em 1993, o Festival de Cannes reconhece a obra deste cineasta brilhante, exibindo um ciclo com quinze das suas obras mais reputadas. Em 2002 recebe um Leão de Ouro pelo conjunto da sua carreira em Veneza (2002). Em 2004, no dia 2 de Julho, durante o qual se celebra a implantação da República, o presidente Carlo Azeglio Ciampi condecorou Dino Risi com a ordem “Cavaliere di Gran Croce”. Quando Dino Risi morreu, Sofia Loren foi a voz de quantos o conheciam bem: "É uma grande perda para o cinema italiano". "Fazia uma comédia de costumes italiana, mas que na realidade era universal", disse o crítico italiano Valerio Caprara, lembrando que Risi "jamais se prendeu às exigências estéticas da moda". Era "um Billy Wilder à italiana", afirmou o jornal “La Repubblica”, com alguma razão. O presidente italiano, Giorgio Napolitano, disse que "Dino Risi era um observador atento dos factos e comportamentos, que imprimiu sua marca pessoal no cinema italiano". "Com Dino Risi, o cinema italiano perde um de seus pais fundadores", estimou o novo ministro da Cultura, Sandro Bondi. Para o ex-ministro da Cultura, Francesco Rutelli, "Risi foi um dos maiores poetas do século XX".
O Cine Eco, Festival de Cinema e Ambiente de Seia, vai levar a efeito, este ano, entre 18 e 25 de Outubro, uma homenagem a Dino Risi, apresentando um conjunto de alguns dos seus títulos mais importantes.

2 comentários:

Ana Paula disse...

Quero agradecer todo o conhecimento que me permitiu obter deste realizador.

E tenho que dizer: o Dino Riso foi, sem dúvida, um realizador de cinema magnífico! Nos seus filmes encontrei um humor refinado a par de uma análise brilhante dos mais finos detalhes da vida social, com as suas grandezas e as suas misérias.
Fica sempre na memória, depois de um filme destes, um inconfundível olhar...

Obrigada! :)

Rui Luís Lima disse...

Olá Lauro António!
Nos anos setenta quando o cinema italiano tinha uma profunda visibilidade nas nossas salas, Dino Risi ofereceu dos momentos mais gratificantes da comédia italiana, agora que partiu, foi bom recordá-lo neste excelente texto.
Abraço cinéfilo
Paula e Rui Lima