quarta-feira, janeiro 14, 2009

CRÍTICA DIVIDIDA: QUEM TEM RAZÃO?

VÁRIAS OPINIÕES PARA O MESMO FILME?
Comentário aparecido no meu blogue e que julgo merecedor de um post:
Há dias li a mui douta opinião do Lauro António sobre o filme "Austrália" e sinceramente apesar do que se diz por aí fiquei muito interessado em ver o filme. Ainda não o consegui. Mas chamou-me a atenção a crónica da senhora crítica da "Visão" de 31.12.08. Para a dita senhora o filme é execrável pelos vistos. E eu pergunto. O que poderá levar pessoas que percebem de cinema a dizerem muito bem enquanto outros dizem muito mal ? Afinal deveremos seguir a opinião dos críticos ou apenas guiarmo-nos pela nossa sensibilidade? Uma boa tarde - Palma –Louletania

Meu caro Palma, da Louletania: ora aqui está uma questão extremamente interessante. As críticas oficiais de ditos "especialistas", claro que podem ser importantes, mas não passam disso mesmo, opiniões, como tal discutíveis. Os “críticos” ou os “especialistas” têm uma visão “por vezes” estribada em conhecimentos técnicos e artísticos (por exemplo: se são profissionais da mesma arte), devem ter informações mais profundas que o espectador normal, mas não passam de opiniões. Respeitáveis, mas opiniões. Cada pessoa, especialista ou não, gosta ou não gosta de algo, julga uma obra, com base numa experiência pessoal que é só sua. Irrepetível. Por isso há quem ame e há quem deteste a mesma obra. Nada de surpreendente. O cidadão deve estar habituado à diferença, e julgar por si mesmo. Não nos devemos abespinhar por A dar uma bola preta e B cinco estrelas ao mesmo filme. Uma diferença estética, uma divergência ideológica impõem por vezes essa inversão total de valores. É assim mesmo e o cidadão tem apenas de aceitar a diferença, e depois, se possível escolher aquele que está mais de acordo com a sua própria sensibilidade e cultura, ciente de que não estará nunca a cem por cento de acordo com alguém.
Mas há ainda um outro problema relativo à crítica, por exemplo cinematográfica: Eu julgo (e escrevi, e escrevo tendo em conta este julgamento), que um crítico não deve impor a sua opinião aos filmes que vê. Um crítico deve estar aberto ao que cada filme propõe. Eu tenho, como realizador, por exemplo, um certo tipo de filmes que quero fazer, e só os faço da maneira que eu julgo a minha (por isso, faço pouco filmes, mas os que faço são inteiramente como quero, dentro das condicionantes da produção). Como crítico, porém não imponho esse modelo aos filmes que vejo e de que falo ou escrevo. Tento perceber o que cada filme pretende e verificar se o atinge, desde que os processos e as intenções me pareçam honestos e legítimos. Não desconsidero um filme por ser vanguardista, nem outro por ser comercial, não nego um por optar por uma estética nem valorizo outro por seguir uma outra. Cada um no seu campo pode ser bom. É obvio que deve sentir-se sempre no que escrevo um entusiasmo mais nítido por certa obra que me é mais familiar. É humano. Mas tento respeitar o que vejo ou leio ou ouço em função das intenções dos autores.
Quanto ao cidadão consumidor de arte, qualquer que seja a sua forma de expressão, só vejo uma atitude salutar: julgar por si próprio, e ler as críticas para contrapor ao seu julgamento, para com elas se debater, para colher um ou outro informe que não possui, para se situar por vezes num terreno que não domina completamente. Mas nunca para seguir como carneiro em rebanho a opinião dominante ou não.
A liberdade de julgamento é um dos nossos direitos mais inalienáveis. Mas sabe-se também que a liberdade é difícil, dá trabalho, obriga a tomar posição em tudo. Muitos escudam-se na opinião dos “leaders” ou dos “opions makers” e não questionam o que vêem ou lêem ou ouvem. Seguem o que lêe, sem questionar nada. O que se passa no domínio das artes, passa-se no domínio da política. Às vezes saem-se mal e vão atrás de manipuladores de opinião mal intencionados ou fascistas encapotados de democratas que vendem sonhos de paraísos terrestres. Infelizmente o que há mais são carneirinhos enlevados por lobos sedentos de sangue fresco. Sóo descobrem tarde demais. Por isso, cada um deve analisar bem, por si, antes de alinhar com as doces palavras que lhe vêem de fora.
No caso de “Austrália”, por exemplo, veja primeiro, e diga-me depois qual o veredicto. Se não estiver de acordo com o que escrevi, eu não me importo, continuo a lê-lo (não sei onde, mas pelo menos aqui, nos comentários) e a achar que “Austrália é um bom filme”.

6 comentários:

Rui Luis Lima disse...

Caro Lauro António
Este Post sobre a critica de cinema é extremamente interessante. Nos dias de hoje já não existem aquelas guerras Cahiers versus Positif, em que o poder argumentivo dava cartas. Hoje há um desejo imenso de dar estrelas e bolinhas, criando um sistema perigoso, porque cada vez mais, muito boa gente decide o que vai ver ou comprar pelo número de estrelas, nem se dando ao trabalho, muitas vezes, de ler a respectiva crónica, e quando vemos este género de classificação a estender-se aos outros géneros culurais: livros, teatro, discos, ficamos na verdade perplexos.
Este jogo de classificação criado pelos Cahiers, se a memória não me falha, na época era bastante apelativo, hoje vulgarizou-se e são cada vez menos os que vão ler os textos.
Abraço cinéfilo
Rui Luís Lima

Hugo Cunha disse...

Perfeitamente de acordo consigo. Os críticos nunca gostaram de filmes com actores como por exemplo Steven Segal ou o Van Dame,etc, sei que aquilo é um estilo já formatado, que não tem nada de novo e até adivinho por vezes todo o filme, mas como divertimento e nada mais que isso até gosto de ver alguns deles, se fosse pelos críticos nunca os teria visto. Eu no geral nem ligo muito para as pontuações dadas aos filmes, eu vejo porque o tema me interessa, gosto do realizador, do actor ou da actriz. Sou sincero, um oscar ou um Globo de Ouro ou outro prémio por vezes tambem me faz ver um filme que eu á partida nem pensava ver, mas não é por isso que eu vejo a maioria dos filmes, por exemplo o Clássico de 1950 All About Eve eu vi-o no canal de cabo RTP Memórias(tenho quase 32 anos e é dificil em Castelo Branco encontrar clássicos infelizmente) sem conhecer muito bem o filme(apenas sabia que tinha a Bette Davis porque a reconheci), adorei está no meu top, mas só uns tempos mais tarde descobri que tinha ganhou 6 oscares e como vê não o vi pelos prémios, mas ainda bem que os ganhou é um filme genial(eu não tenho aversão como muitos ao filme em P/B o que me importa é eu gostar).Muito obrigado pelo seu excelente texto.

Luis Eme disse...

claro, cada um de nós tem direito a ter a sua opinião, por muito ou pouco conhecimento que tenha.

coisa que não se usa muito na nossa "parvónia", inclusive na blogosfera, onde há um seguidismo levado da breca...

em relação aos criticos, tanto bom filme que vi, com bola preta, Lauro...

Anónimo disse...

Agradeço penhoradamente ao Lauro António o texto/resposta à minha pergunta. Sem dúvida que me elucidou. Palma - Louletania

bandida / intruso disse...

dear laurro, here we are in bracara augusta and missing you a lot.


big enregelated hug, our friend


let's look at the presentation.....



Bandyd & Yntrouso

Roberto F. A. Simões disse...

Eu também sou daqueles que acha que AUSTRALIA é um bom filme.

Fica a sugestão de leitura da Crónica de Calcifer em: http://cineroad.blogspot.com/2009/01/chama-de-calcifer-1-porque-no-se-pode.html

Não conhecia o seu blog. Passei agora a conhecer. Gostei, claro.

Roberto F. A. Simões
cineroad.blogspot.com