terça-feira, janeiro 20, 2009

OPINIÃO, OPINIÕES

OPINIÕES
Ana Paula, no blogue “Catharsis”, repegou um tema várias vezes abordado aqui (veja-se, por exemplo, “Várias opiniões para o mesmo filme?”), num texto que julgo de todo o interesse ser debatido. Refiro-me ao valor da opinião própria. Este “Momento Filosófico” (cuja leitura recomendo) suscitou-me novas considerações a saber:
A invocação de autores do passado como Platão, que “considerava a opinião (doxa) um domínio inferior do conhecimento relativamente à ciência (episteme)”, não é, neste caso, acho eu, uma invocação inteiramente válida, dado que tanto a noção de “opinião” como a de “ciência” mudaram muito, desde então, apesar de ter sido a Grécia a criar a democracia baseada no voto do “cidadão”, isto é, na “opinião” do cidadão. Mas o conceito de “doxo” evoluiu muito de então até hoje. Se naquele tempo “doxo” se referia à opinião popular que criava a “ortodoxia”, hoje o termo opinião pode querer dizer mesmo o contrário. Assim, quando falo, por exemplo, em “opinião”, o que julgo essencial é chamar a atenção para a necessidade de cada pessoa ter uma opinião cada vez mais fundamentada sobre a vida social onde se inscreve. Quer seja para votar a política nacional, ou a política educacional, ou ajuizar o interesse de um filme, é preciso ter “opinião”. Eu sei que tecnicamente a “opinião” não pode ser valorizada do mesmo modo. Mas democraticamente todas as opiniões valem o mesmo.
Agarre-se num tema de actualidade escaldante. Falando das manifestações dos professores, por exemplo, se fossemos a ter em conta somente a opinião dos técnicos, o Ministério teria toda a razão contra as “opiniões” dos professores, que são variadas e contraditórias. Mas a verdade é que, por vezes, podem existir opiniões fora das instituições sociais mais estimulantes que as das próprias instituições, por isso é bom ouvir todas as “opiniões” o melhor fundamentadas possível e livres (assim se devem combater as “opiniões” daqueles que acham que o melhor é ir atrás das opiniões de outros, que, sabedores disso, tentam manipular o melhor que sabem e podem aqueles que não querem ter opinião e a delegam).
É obvio que se sabe que a opinião de A pode não valer tanto como a opinião de B, mas nunca estarei de acordo com a tese de que, por vezes, o melhor é não ter opinião. Até porque toda a gente tem opinião, quanto mais não seja a opinião de que o melhor é não ter opinião. Todos os totalitarismos se baseiam na anulação da opinião que não seja a dos mentores e ideólogos dessas ditaduras. Desacreditar a opinião do cidadão, é não acreditar na democracia, uma opinião de que discordo inteiramente.
O esforço maior daqueles que acreditam na democracia deverá ser inteiramente contrário, o de transformar a sociedade num todo de opiniões bem fundamentadas, mesmo que contraditórias. Por isso digo que viver em liberdade é difícil, mas o mais estimulante dos modos de viver em sociedade, pois implica ter opinião, procurar que essa opinião seja o mais bem fundada possível, impondo um trabalho pessoal de informação que nunca termina, e obrigando igualmente a respeitar as outras opiniões e a usar o direito do contraditório. Mas como diz a própria Ana Paula “não é certamente avanço oferecer opiniões desinformadas e de compromisso. É que uma opinião fundamentada não é nada fácil. Porque já se afasta do domínio do subjectivo e procura ascender ao patamar do rigor e da seriedade... Uma empreitada! Se calhar, não vale a pena viver sem a experimentar.”
Eu por mim acho mesmo que vale a pena experimentá-la, e mais do que isso, deve-se persegui-la como um valor. Tanto mais que não se sabe muito bem, hoje em dia, o que são opiniões tecnicamente correctas, nem se “há saberes que conferem autoridade em determinadas matérias”. É verdade que há. Mas também é verdade o inverso. Por isso temos de formar a nossa opinião em relação aos que possuem, ou julgam possuir, “autoridade em determinadas matérias”. Eram tecnicamente correctas as opiniões que colocaram Fernando Pessoa em segundo lugar num prémio literário ganho por um hoje desconhecido? Seria tecnicamente correcta a opinião de críticos que recusaram Van Gogh? John Ford, Howard Hawks, Alfred Hitchcock eram, nos anos 40, tidos como meros técnicos competentes, hoje são considerados autores dos maiores da história do cinema. Tudo julgamentos de “técnicos” a quem foi conferido “autoridade em determinadas matérias” na altura e que afinal pouco valiam ao lado de outras “opiniões” que apontavam para o futuro.
Posto isto, leitor/a, a minha opinião só pode ser uma: se quiser saber como comportar-se, e se é, por exemplo, professor/a, estude bem o que está em causa, tente ver para lá do fumo passageiro, e tenha opinião, deixe de ir atrás das opiniões alheias (tantas vezes comprometidas politicamente, ou de outra forma ainda mais grave). Se quiser votar no próximo governo, ouça o que dizem uns e outros, e o que prometem, leia, compare, avalie, veja a obra feita e não feita, estimule a sua inteligência e a argúcia, e vote finalmente de acordo com a sua consciência. Se acha que aquele filme pode ser interessante, vá vê-lo e depois julgue por si, apesar de haver um crítico que o arrasa e outro que o coloca nos píncaros da lua (no “Público”, “Austrália” vai das 5 estrelas à 1 estrela, quem terá razão?).
Nem a ciência é certa hoje em dia. Nem a medicina é constante. Às vezes o se prescreve hoje para certa cura, amanhã é desaconselhado. O que esteticamente hoje domina, amanhã passou à história (com h pequeno). E a sua “opinião” afinal é a melhor forma de se exteriorizar, de se afirmar, de se “ser”. Não deixe que os outros sejam por si. Afirme-se e afirme-se com a melhor argumentação possível. Esta é uma aposta total no cidadão, em alguém que quer efectivamente ser responsável, afirmar-se como um ser pensante, alguém com direito à palavra. Já dizia Frank Capra: “Peço a Palavra!”
(esta a minha "opinião", com um beijo para a Ana Paula. A imagem foi retirada do seu blogue.)

1 comentário:

isabel victor disse...

Uma ruptura epistemológica, Lauro. Não há ciências neutras. Nem teses irrefutáveis. A opinião fundamentada, iluminada pela subjectividade, desarruma a "divina" verdade (Aletheia).

Pulsa com os sofistas. Palavra e verdade conflituam. Tudo é mutável. Nada existe fora da História. E a História ... feita des "estórias", por aí fora ...


A Doxa tornou-se instrumento de persuasão, dialética, diálogo.


Afinal, sem opinião não existiria a Arte ... e a poesia era apenas um delírio. Será ?


:))


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