sábado, junho 27, 2009

YANN ARTHUS-BERTRAND E "HOME"

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Yann Arthus-Bertrand
Yann Arthus-Bertrand, o autor de “Home”, era mais conhecido até há bem pouco tempo como fotógrafo e repórter do que como realizador, apesar de ter assinado uma série de certo renome: “La Terre vue du Ciel”. Nascido em Paris a 13 de Março de 1946, Yann Arthus-Bertrand descende de uma família bem instalada na vida, possuindo um reputado negócio de joalheiros medalhistas, a casa Arthus-Bertrand, fundada por Claude Arthus-Bertrand e Michel-Ange Marion. Mas terá sido através da sua irmã, Catherine, entusiasta da natureza e dos animais, que Yann Arthus-Bertrand se começou a interessar pela ecologia.
Aos 17 anos, em 1963, torna-se assistente de realização, depois actor (em filmes como “Dis-moi qui Tuer”, de Étienne Périer, 1965, e “OSS 117 Prend des Vacances”, de Pierre Kalfon, 1970). Em 1967, passa a dirigir uma reserva natural de animais no centro da França, no “Parque de Château de Saint-Augustin”, em Château-sur-Allier. Em 1976, com 30 anos, parte para o Quénia, com a mulher, Anne, passando ambos a viver no parque nacional “Massaï Mara”, juntamente com os Masaïs, aproveitando para estudar o comportamento de uma família de leões que fotografa todos os dias durante três anos, trabalho que estará na base do seu álbum “Lions”, publicado em 1983, no seu regresso a França. Foi a partir daqui que se apaixonou pela natureza e a sua relação com a imagem. É disputado como repórter fotográfico, quer se trate de grandes reportagens internacionais sobre aventura, desporto, natureza, animais, ou fotografia aérea, no que irá especializar-se. Trabalha sobretudo para o “Paris Match” e “Géo”. Cobre dez dos rallies Paris-Dakar, e é ele que organiza anualmente o livro do torneio de Roland-Garros. Fotografa o Salão de Agricultura de Paris ou colabora com pesquisadores da natureza como Dian Fossey e os seus gorilas das montanhas do Ruanda.
Em 1991, cria a agência “Altitude”, que inicia um banco de imagens de fotografias aéreas único no mundo, com cerca de 100 fotógrafos a sobrevoarem centenas de países, recolhendo mais de 500 000 imagens. Três anos depois lança-se na sua primeira grande aventura, efectuar um trabalho de fundo sobre o estado do planeta, mostrando as belezas da Terra e alertando para os perigos que esta corre. O projecto, que contou com o apoio da Unesco, dará origem a um álbum com mais de 3 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo (em 24 línguas), e a uma série de televisão, ambos com o mesmo título: “La Terre Vue du Ciel”, Pretendeu com esta iniciativa, “testemunhar a beleza do mundo e tentar proteger a Terra.” Outra das componentes deste projecto foi uma exposição, de visita gratuita e apresentada ao ar livre, que iniciou o seu trajecto através do mundo, em 2000, nos jardins do Luxemburgo, e já viajou por mais de 110 cidades, contando com 120 milhões de visitantes.
Em Julho de 2005, Yann Arthus-Bertrand cria a associação ecologista “GoodPlanet”, que acciona o plano “Action carbono”, destinado a compensar as emissões de gás libertadas pela actividade de fotógrafo aéreo. O programa alargou-se depois para outros públicos e empresas, procurando todos minimizar o efeito da sua actividade no clima, procurando energias renováveis, lutar contra a desflorestação e outras ameaças muito concretas.
O objectivo primeiro da associação é colocar “a ecologia e o ambiente no coração das consciências”, o que a leva a criar novos desafios: distribuição gratuita por todas as escolas de França de cartazes sobre temas relacionados com o ambiente (em 2006, o desenvolvimento sustentável, em 2007, a biodiversidade, em 20, a energia), uma exposição vídeo “6 Milliards d'Autres”, estreada no Grand Palais, com cerca de 5 000 vídeos rodados no mundo inteiro, onde pessoas muito diferentes falam de temas universais, como a alegria, a dor, a vida, a morte, o amor, o ódio, etc.; “Vivants”, uma exposição itinerante, com mais de 100 imagens de animais, acompanhadas de legendas que explicam o impacto do homem sobre a natureza; sites informativos, actividades para jovens, etc.
Em 2006, roda “Vu du Ciel”, uma série documental, que passou na France 2, em episódios de hora e meia, abordando temas diferentes. Nesse mesmo ano, nas edições “La Martinère”, sai o album “L'Algérie vue du ciel”, obra que o autor considera uma das mais conseguidas da sua carreira.
Home
A rodagem de “Home”, primeira longa-metragem de Yann Arthus-Bertrand, durou dezoito meses, iniciando-se em 2007. Nessa altura chamava-se “Boomerang”. Produzido pelo cineasta e produtor francês Luc Besson (também ele desde sempre preocupado com questões ambientais, vejam-se os seus filmes “O Último Combate” ou “O Grande Azul”), “Home” foi financiado integralmente pelo grupo francês PPR (que detém marcas como a Fnac e a Conforama) e estreado mundialmente no dia 5 de Junho, Dia Mundial do Ambiente, uma organização das Nações Unidas, que se comemora desde 1972. Nesse dia foi exibido numa versão de 90 minutos no canal de televisão francês “France 2”, às 20h35 e, logo a seguir, em versão alargada, em Paris, no “Champ de Mars”, e em muitas outras cidades. Sempre com entrada gratuita. O filme também foi exibido em simultâneo em todo o mundo e distribuído gratuitamente, tanto no cinema, como em DVDs, e na internet (sendo permitido legalmente fazer o download da obra). Foi a primeira vez na história que um acontecimento deste género ocorreu, demonstrando bem a intenção de sensibilizar todos os cidadãos do planeta para os problemas que o mesmo defronta. No jornal “Público”, que em Portugal se associou ao lançamento do DVD, podiam ler-se palavras de Yan Arthus-Bertrand: “Vivemos tempos excepcionais. Os cientistas dizem-nos que temos dez anos para alterar a forma como vivemos, para evitar o esgotamento dos recursos naturais e a catastrófica evolução do clima terrestre.” (excerto de um comentário divulgado no site do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (Pnua). E continuava: “O documentário apela para uma nova consciência, convidando o espectador a parar por um momento e olhar para o nosso planeta, para os seus tesouros e beleza…”.
Na verdade assim é. Em cerca de duas horas de projecção (versão do DVD) assistimos a uma deslumbrante panorâmica aérea sobre mais de meia centena de países do mundo (54 para ser mais preciso), onde as imagens de uma beleza por vezes sufocante se cruzam com outras profundamente inquietantes, sublinhadas por um comentário que vai alertando para os desafios que temos pela frente: o nosso planeta está gravemente doente, ferido de forma dramática, exaurido nos seus recursos essenciais, ameaçado pelo aquecimento global, os ecossistemas em perigo, acossada a harmonia da vida natural, as grandes cidades transformadas em gigantescas metrópoles sem qualidade de vida, a água a ser disputada como bem essencial rarefeito, o petróleo e o carvão a multiplicarem guerras e cobiças, à medida que se tornam cada vez mais caros.
O filme começa por evocar a formação da Terra, referindo que há vida neste planeta há quatro milhares de milhões de anos e só existem humanos há duzentos mil anos. Jogando com imagens (obviamente) actuais, o filme procura restituir a ambiência desses tempos primordiais. Numa perspectiva muito darwineana, fornece elementos para a cadeia evolucionista, desde o caos de uma bola de fogo, até ao milagre do aparecimento da vida na Terra, a origem das plantas, dos insectos, dos animais, do primeiro homem. A vida do homem vista como apenas um elo entre diversos. Os humanos que moldam a Terra à sua imagem, com tudo o que isso representa de extraordinário, mas também de perigoso. A agricultura é ainda hoje o labor dominante, metade da humanidade emprega-se nessa actividade, ¾ da qual ocupa-se da agricultura manualmente.
Aborda-se então, ainda que genericamente, o caso da energia retirada do solo, petróleo, gás ou carvão. A explosão demográfica impõe um ritmo de exploração suicida. Em 30 anos, em Xangai construíram-se 3.00 arranha-céus. As cidades consomem cada vez mais carvão, petróleo, electricidade. O petróleo tem um poder revolucionário. Cidades como Nova Iorque ou Tóquio documentam-no. Mas também a agricultura – 35 % da agricultura da Terra é realizada através de tractores. Para assegurar energia, mais energia, os cereais deixam de ser só consumidos pelos humanos, passam a gerar biocombustíveis (e alimentos para o gado).
O que representa um avanço tecnológico por um lado, é uma ameaça pelo outro: a água consumida pela agricultura é cada vez mais, os parasitas são combatidos pelos pesticidas, tornam as colheitas mais férteis, maiores, mas criam excedentes, e esses mesmos pesticidas são tóxicos e prejudiciais para o homem. As monoculturas (sobretudo soja) tornam-se mais rentáveis, mas extinguem a biodiversidade (3/4 das variedades da flora desapareceram).
O consumo da carne multiplica-se pelo mundo. A pecuária industrializa-se a extremos, criando verdadeiros campos de concentração onde os animais são criados, sem verem durante toda a sua vida um centímetro de verdura. Com outras agravantes: para produzir um quilo de carne são necessários 13.000 litros de água.
Mas uma vez a biodiversidade em perigo. A dependência do petróleo é manifesta, mas o petróleo barato acabou. O automóvel é um símbolo do progresso. O sonho americano está bem sublinhado em Los Angeles, onde o número de carros é quase igual ao número de habitantes. As cidades tendem a uniformizar-se. Nos subúrbios das grandes metrópoles as casas, tipo vivendas, são iguais na América e em Pequim, onde a casa estilo pagode desaparece.
Os minérios são extraídos da Terra a uma velocidade impressionante. Cada vez mais e mais rápido. Nos próximos vinte anos, serão extraídos da terra mais minerais do que durante toda a História do Homem. Mas apenas 20% da população mundial irá usufruir desta regalia. Rapidamente também se esgotarão os recursos da Natureza. Os contentores atravessam os oceanos carregados de recursos. A globalização permite-o, impõe-no. O Dubai é um dos países do mundo com menos recursos naturais. Mas tem petróleo, e o dinheiro que o petróleo gera. Por isso são dos maiores construtores do mundo. Criam ilhas artificiais, promovem turismo de luxo, multiplicam arranha-céus no deserto. E esgotam a terra, não ali, no Dubai, mas algures, donde importam os materiais.
O ciclo de vida que nos foi oferecido pela Natureza está a ser transformado, destruído. A pesca industrial, as grandes frotas que utilizam o arrastão, vão despovoando os oceanos de peixe. As grandes espécies tendem a desaparecer. Há preocupantes sinais de esgotamento de recursos. As colónias de mamíferos ao longo das costas são cada vez mais pequenas, porque o alimento escasseia e impera a fome. As aves marinhas têm que percorrer cada vez maiores distâncias para se alimentarem. Os pequenos barcos ficam abandonados, porque os mares já não têm peixe.
Os recursos são cada vez mais escassos. A água tem um valor cada vez maior. No deserto dá-se valor à água, e vive-se de água fóssil, extraída de poços. Mas esta água não é renovável e esgota-se. Na Arábia Saudita percebe-se o drama. Apostou-se numa agricultura industrial no deserto, irrigada pela água fóssil. O esgotamento provocou o abandono dos terrenos.
O rio Jordão, outrora um grande rio, é agora um riacho. Um em cada dez grandes rios já não desagua no mar. Perdeu caudal. O Mar Morto, que assim se chama por causa do seu elevado índice de salinidade, perde um metro de nível por ano, e concentra sal. Na Índia brotam palácios em lagos artificiais. Las Vegas é uma cidade construída sobre um deserto. Os seus habitantes são dos maiores consumidores de água em todo o mundo. Palm Spring e os seus campos de golfe consomem água de forma trágica. Tudo isto é uma miragem, afirma “Home” e pergunta até quando ela pode durar. Em 2025, as perspectivas apontam para dois mil milhões de pessoas vítimas de secas.
Os pântanos são essenciais ao equilíbrio da terra. Mas tendem igualmente a desaparecer. Bem como as florestas. Metade dos pântanos foi drenada. Pântanos e florestas são locais onde toda a matéria viva vive ligada entre si, mas ¾ da biodiversidade está ameaçada. Drenam-se os pântanos e derrubam-se florestas, porquê? Para construção, para fabricar papel, para monoculturas, para campos de concentração de gado. A Amazónia já foi reduzida em 20% da sua extensão, trocada por ranchos de gado, campos de soja (para alimentar gado ou aves exóticas, ou para biocombustível). A floresta transforma-se em carne. Muitas vezes incendeiam-se as florestas, libertando carbono em proporções inimagináveis, que vai provocar o aquecimento global, e o desaparecimento das espécies. Mas a desflorestação tem a ver sobretudo com as monoculturas. Não só a soja. Agora também o óleo de palma, utilizado na comida, mas também nos combustíveis e nos cosméticos. E na cultura intensiva do eucalipto, para alimentar de papel as rotativas de todo o mundo. “Home” prevê que nos próximos cinco anos se consuma cinco vezes mais papel. O cultivo do eucalipto consome imensa água, por outro lado, e liberta camadas tóxicas.
A vida das pessoas, apesar de toda essa ganância de uma vida insustentável, não é boa na maior parte do mundo. Vive-se em condições de extrema pobreza. Locais inóspitos, lixeiras com índices de poluição catastróficos. É necessário aproveitar a luz solar, as energias alternativas. Impedir que o dióxido de carbono se continue a libertar desta forma assassina. A calote de gelo nas regiões polares diminuiu 40%, iniciou-se o degelo no Árctico, criando icebergs, provocados pelo aquecimento. Estas alterações climatéricas têm consequências previsíveis: a água doce perde-se, aumenta a salinidade nos mares, a água do mar sobe, a harmonia quebra-se. As correntes de ar mudam, os ventos também. O que estará reservado à maioria das cidades que se localizam nas costas de todos os continentes, quando o nível dos mares subir? 70% da população mundial vive nas costas, junto ao mar. No Kilimanjaro, 70 % dos glaciares desaparecem. O Bangladesh, um dos países mais pobres do mundo, será dos mais afectados.
Restam pouco mais de dez anos para se inverter esta situação e para não se saber o que é a vida na Terra como nunca a imaginámos. Não se pode deixar quebrar a ligação tradicional entre o ar, a água e a terra. Este equilíbrio é fundamental. E as desigualdades gritantes também. 20% da população mundial consome 80% dos recursos da Terra. Gasta-se doze vezes mais em armas do que em ajuda humanitária a países em desenvolvimento. Morrem todos os dias cinco mil pessoas com falta de água potável. Mil milhões de seres humanos morrem de fome no mundo. 50% dos cereais são para alimentar gado ou para biocombustíveis. 40% da terra arável esta degradada. 13 milhões de hectares de floresta desapareceram. ¾ das zonas de pesca do mundo estão esgotadas, reduzidas ou em risco. Os últimos quinze anos foram os que registaram uma temperatura média mais alta. Em quarenta anos, 40% da calote de gelo foi consumida. Em 2050 prevêem-se 200 milhões de refugiados devido a alterações climatéricas.
Apesar de toda esta onda de ameaças que nos batem à porta, ou que já entraram pela porta dentro, “Home” termina num clima de confiança: “É tarde demais para se ser pessimista”. E dá exemplos: multiplicam-se os parques naturais, estabelece-se a reflorestação, luta-se pela reciclagem, nalguns pontos impõe-se o abate selectivo de árvores, “a Costa Rica que acabou com o exército”, incentiva-se um comércio justo que proporcione um rendimento decente para todos, exploram-se novas fontes de energia, painéis solares, eólica, etc. É tarde demais para se ser pessimista. Ou seja, já se passou o tempo em que se podia ser pessimista. Temos que ser obrigatoriamente optimistas, lançar mãos à obra, e mudar o que há que mudar.
Tanto mais que o filme de Yann Arthus-Bertrand nos permite percorrer paisagens admiráveis de uma Terra que dá gosto habitar, usufruir, amar. Para que tais imagens se possam perpetuar no presente e no futuro, ao natural, e não apenas em bancos de imagens do passado, é necessário intervir, agir, testemunhar. O que a equipa comandada por Yann Arthus-Bertrand faz de forma equilibrada, inteligente, sensível, inquietante. O seu filme é nesse aspecto um modelo, que nem os críticos radicais, que lhe reprovam o facto de andar a filmar de helicóptero e a provocar libertação de carbono, conseguem empalidecer.
HOME
Título original: Home
Realização: Yann Arthus-Bertrand (França, 2009); Argumento: Isabelle Delannoy e Yann Arthus-Bertrand; Isabelle Delannoy, Tewfik Fares e Yann Arthus-Bertrand (comentário); Conselheiro científico: Bruno Anselme; Produção: Luc Besson, Denis Carot; Música: Armand Amar; Fotografia (cor): Michel Benjamin, Dominique Gentil; Fotografia aérea: Richard Brooks Burton; Montagem: Yen Le Van; Direcção de Produção: Courau Camille, Claude Canaple, Jean de Trégomain, Emmanuel Sajot, Sidonie Waserman, Fabiola Claz, Juliette Jacobs, Stéphanie Melo, Sandrine Vitali; Assistentes de realização: Laurence Guérault, Dorothée Martin, Thomas Sorrentino; Som: Thomas Gauder, Olivier Walczak; Efeitos visuais: Anita Lech Bedez, Bénédicte Hostache, Julien Imbert ; Companhias de produção: Elzévir Films, Europa Corp., France 2 (FR2); Intérpretes: Glenn Close (Narradora, no original); Duração: 95 minutos (versão curta) EUA:118 minutos (DVD) Portugal: 114 minutos (DVD) 120 minutos (versão longa); Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 6 anos; Estreia em Portugal: 5 de Junho de 2009.

1 comentário:

Helder Magalhaes disse...

Finalmente tive oportunidade de ver o Home.

Acho que nunca nenhum filme me deixou tão sensibilizado para os problemas ambientais com que nos deparamos.

Há que começar a aprender a lição...

Um abraço, do
Helder