quinta-feira, agosto 08, 2013

CINEMA: A MELHOR OFERTA



A MELHOR OFERTA


Perdi-o aquando da estreia em salas. Recuperei-o agora, em DVD. Um dos melhores filmes de 2013, seguramente. Giuseppe Tornatore, o autor de “Cinema Paraíso”, seu grande triunfo internacional, parece ter sido amaldiçoado em terras nacionais, pois nunca mais um filme seu teve um notório sucesso crítico, e mesmo de público. No entanto, depois de 1988 (data de "Nuovo Cinema Paradiso") ele dirigiu um significativo número de obras dignas de referência, como “Estão Todos Bem”, “Uma Simples Formalidade”, “O Homem das Estrelas”, “A Lenda de 1900”, “Malèna”, “A Desconhecida” ou “Baarìa”.
De todas as formas, “A Melhor Oferta” é um belíssimo filme, original no tema, elegante no estilo, tenso no ritmo. Fascinante na forma metafórica como aborda uma história de amor invulgar. Não por acaso o protagonista chama-se Oldman, é um antiquário e avaliador de objectos de arte, director de uma das mais conceituadas casa de leilões da Europa, situada em Viena. Frio, distante, solitário, este homem que conserva as mãos sempre envolvidas em luvas e comemora os aniversários nos melhores restaurantes, mas sempre só, ignora aparentemente os sentimentos. Nunca conheceu mulher ou o amor e as emoções, encerra-as numa sala cofre da sua casa, onde colecciona retratos de mulheres de todas as épocas da história da arte. Esta galeria privada, de valor incalculável, e adquirida ao longo de toda uma vida, com a colaboração de um amigo que vai licitando as peças desejadas, é o seu local de repouso do guerreiro, afastado do mundo, resguardado, defendido do exterior por uma porta blindada.


Um dia, porém, esta calma é perturbada pela aparição de um fantasma que desencadeia a sua curiosidade. Uma mulher jovem, Claire, vive sozinha num velho palacete quase em ruínas, recusando-se a sair à rua, negando-se a qualquer contacto com outras pessoas. Aparentemente trata-se de um caso de agorafobia. Mas Claire possuiu uma vasta colecção de obras de arte e quer desfazer-se delas. Chama Oldman para preparar o leilão, sem todavia nunca se mostrar. O que começa por uma questão incómoda passa a curiosidade, depois a obsessão, finalmente a paixão. Oldman vive obcecado por aquela mulher misteriosa, que ele começa por espiar e que, finalmente, se desvenda a seus olhos. Senhor de uma fortuna imensa e de uma honorabilidade profissional inquestionável, acaba por descuidar a vida privada e o trabalho, procurando a cumplicidade de um jovem restaurador de objectos de arte, que se entretém a recuperar um robot metálico do século XIX, com peças que Oldman vai descobrindo na cave da mansão de Claire.
Por aqui nos temos que deter, mas há que sublinhar que toda esta intriga serve para estabelecer curiosas afinidades entre o amor e arte, a verdade e a mentira, a falsificação e o original. Oldman é um obstinado coleccionador de originais, mas declara que existe sempre algo de autêntico, “mesmo numa falsificação”. Em Claire, ele encontra um duplo de si próprio: ela vive afastada de todos, com terror das multidões, ele vive fechado sobre si próprio, com medo da mulher (excepto daquelas que ele consegue aprisionar no seu cofre forte). O tema do velho sábio ou artista que se deixa seduzir pela “femme fatal” é velho e repetitivo na história da literatura (e do cinema, claro), mas Tornatore consegue torná-lo novo, refrescando-o com sugestivas ideias e imagens. Um homem que quase não se engana a descobrir uma obra de arte autêntica e a identificar uma falsificação, como se desembaraça quando se depara com idênticas opções na vida real? Sim, porque como lhe diz o seu amigo e cúmplice, “os sentimentos humanos são como as obras de arte, podem também ser o resultado de uma simulação.”


Extremamente bem conduzido, com elegância e eficácia narrativa, criando um ambiente de crescente tensão psicológica, “A Melhor Oferta” renova o tema do velho “filme negro” de inspiração sentimental, para o que conta com uma fabulosa interpretação de Geoffrey Rush (em Virgil Oldman), bem acompanhado por Donald Sutherland (o cúmplice e amigo Billy Whistler), e a quase desconhecida Sylvia Hoeks (uma misteriosa e sedutora Claire, que relembra Simone Simon, de “Cat People”). A partitura musical de Ennio Morricone é magnífica e belíssima a fotografia de Fabio Zamarion. Finalmente, há que referir as escolhas dos cenários. O velho palacete onde decorre grande parte do filme é um décor absolutamente deslumbrante, que muito contribui para o sucesso desta bela obra de suspense psicológico que volta a trazer à ribalta o nome de Tornatore.



A MELHOR OFERTA
Título original: La Migliore Offerta

Realização: Giuseppe Tornatore (Itália, 2013); Argumento: Giuseppe Tornatore; Produção: Isabella Cocuzza, Arturo Paglia, Guido De Laurentiis, Enzo Sisti; Música: Ennio Morricone; Fotografia (cor): Fabio Zamarion; Montagem: Massimo Quaglia; Casting: Reg Poerscout-Edgerton; Design de produção: Maurizio Sabatini; Direcção artística: Andrea Di Palma; Decoração: Raffaella Giovannetti; Guarda-roupa: Maurizio Millenotti; Maquilhagem: Stefano Ceccarelli, Santoro Domingo, Luigi Rocchetti, Matteo Silvi; Direcção de produção: Alice Marchitelli, Daniela Masciale, Erik Paoletti, Andrea Tavani; Assistentes de realização: Livio Bordone, Alberto Mangiante, Barbara Pastrovich; Departamento de arte: Silvia Fontana; Som: Gilberto Martinelli; Efeitos especiais: Stefano Corridori; Efeitos visuais: Francesca Baiardi, Mario Zanot; Intérpretes: Geoffrey Rush (Virgil Oldman), Jim Sturgess (Robert), Sylvia Hoeks (Claire), Donald Sutherland (Billy Whistler), Philip Jackson (Fred), Dermot Crowley (Lambert), Kiruna Stamell, Liya Kebede, Caterina Capodilista, Gen Seto, Klaus Tauber, Maximilian Dirr, Laurence Belgrave, Sean Buchanan, John Benfield, Miles Richardson, James Patrick Conway, Brigitte Christensen, Jacqueline Hopkins, Amanda Walker, Sylvia De Fanti, Victoria Chapman, etc. Duração: 124 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Pris Audiovisuais; Data de estreia em Portugal: 11 de Abril de 2013.

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