segunda-feira, janeiro 11, 2016

TEATRO: POUCO BARULHO


POUCO BARULHO

“Pouco Barulho” é uma excelente comédia inglesa, da autoria de Michael Frayn, e que tem sido encenada um pouco por todo o lado com resultados brilhantes. Em Londres “Noises Off”, no seu título original, recebeu o prémio de melhor comédia do ano de 1982, o mesmo acontecendo em Nova Iorque, em 1984.
O que tem de tão especial esta comédia? Parte de uma ideia brilhante, que é muito bem estruturada. Não se trata de um texto de tese, não procura modificar o mundo, apenas divertir os espectadores de uma forma inteligente, ao mesmo tempo que põe a descoberto os cordelinhos de uma produção teatral. O primeiro acto é ocupado com o ensaio geral, ou ensaio técnico, vá-se lá saber qual é o ensaio, de uma peça de teatro que irá estrear no dia seguinte. Nem tudo corre bem. Ou quase tudo corre mal. O que num ensaio geral nem costuma ser mau sinal. Dizem por aí os vaticinadores do futuro que um mau ensaio geral prenuncia uma boa estreia. No segundo acto não vemos o que os espectadores do suposto teatro veem, mas sim o que acontece nos bastidores, a parte detrás do cenário. Se as coisas correm mal pela frente, por detrás são ainda mais calamitosas. Finalmente, no terceiro acto, a companhia já rodou por várias salas e cidades, e está a dar o seu último espectáculo. Pode dizer-se que é a bandalheira geral.

Em 1985, vi no Teatro Villaret, numa produção Vasco Morgado um “Pouco Barulho” de boa recordação, com um elenco de luxo, Nicolau Breyner, Manuela Maria, Henrique Santos, Morais e Castro, Guida Maria, Victor de Sousa, Rosa de Canto, Isabel Mota, Jorge Nery. A tradução era de César de Oliveira e Barry Scraig e a encenação de Varela Silva, com cenários de Octávio Clérigo. Gostei bastante, mas tive uma desilusão de peso. Por essa altura andava eu a escrever uma peça de teatro que tinha mais ou menos a mesma ideia inicial. Depois de ver esta, desisti.


Em 2013, o Centro Cultural Malaposta, apresentou a mesma peça, agora sob a designação de "Tudo a Nu", com nova tradução de Paulo Oom, encenação de Fraga e música original de Adriano Filipe. O elenco era composto por Ângela Pinto, Gonçalo Ferreira, Hélder Gamboa, Inês Castel-Branco, Isabel Ribas, Mónica Garcez, Paulo Oom, Rui Raposo e Rui Sérgio. Não vi esta versão, mas tinha razões para ser interessante.
Agora surge no Cartaxo, no Centro Cultural, numa produção “Área de Serviço”, uma nova tradução da mesma peça, assinada por Frederico Corado, Vânia Calado e Maria Eduarda Colares, por sinal bastante boa, com encenação de Frederico Corado, que também assina a concepção cenográfica e ainda integra o elenco, ao lado de Hugo Rendas, Margarida Leonor, Vânia Parente, Mário Júlio, Carlos Ramos, Sara Inês, Mauro Cebolo e Mónica Coelho. A “Área de Serviço” é uma companhia comunitária, onde todos trabalham por amor à arte, e se veem e desejam para pagar os custos dos cenários e dos adereços. Nenhum apoio substancial, apenas algumas generosas dádivas, e uma vontade férrea de fazer teatro.  Ambiciosos. Já encenaram Oscar Wilde, Bernando Santareno, William Shakespeare, Eduardo De Filippo, Nikolai Gogol, Alice Vieira, Robert Thomas, George S. Kaufman e Moss Hart, entre outros.
Esta encenação de “Pouco Barulho” é extremamente divertida, inteligente e consegue manter um ritmo endiabrado. Trata-se de uma peça dentro de outra peça, de uma daquelas comédias com muitas portas, por onde entram e saem personagens que não se devem encontrar, com pratos de sardinhas, malas e caixas com fichas das finanças, arranjinhos amorosos, fugas ao fisco, ramos de flores trocados e tudo o mais que se possa imaginar. Reservam-se algumas surpresas. O cenário é bonito, sóbrio, mas bem imaginado, e o elenco, quase todo constituído por amadores sem grande experiência, porta-se à altura de algumas companhias profissionais (para não falar de outras, igualmente profissionais, que é melhor esquecer!). É um excelente divertimento, daqueles que não envergonham ninguém, e que devia, isso sim!, fazer corar de vergonha algumas peças e filmes, ditos cómicos, que abundam nas nossas salas nos últimos tempos.
Para os mal-intencionados tenho uma declaração de princípios a fazer. O Frederico Corado é meu filho. Mais uma razão para irem ver, no próximo fim de semana, sexta e sábado às 21,30, e domingo às 16 horas, para ficarem a saber se sou parcial. Eu julgo que não, mas vão lá e vejam. Depois digam.


Pouco Barulho (Noises Off). Texto de Michael Fryan | Encenação: Frederico Corado | Tradução: Frederico Corado, Vãnia Calado e Maria Eduarda Colares | Concepção Cenográfica: Frederico Corado | Intérpretes: Hugo Rendas, Margarida Leonor, Vânia Parente, Frederico Corado, Mário Júlio, Carlos Ramos, Sara Inês, Mauro Cebolo e Mónica Coelho | Execução Cenográfica: Mário Júlio | Produção da Área de Serviço: Frederico Corado, Vânia Calado e Mário Júlio com a assistência de Florbela Silva e Carolina Viana | Assistente de Encenação: Carolina Viana | Direcção de Cena: Mário Júlio | Técnica: Miguel Sena | Contra-Regra: Carolina Viana | Fotografia: Vitor Neno | Montagem: Mário Júlio | Construção de Adereços: Rosário Narciso | Uma Produção da Área de Serviço com o Centro Cultural do Cartaxo e Câmara Municipal do Cartaxo

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