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quinta-feira, maio 22, 2008

Cinema: Cartas a uma Ditadura

CARTAS A UMA DITADURA
“Cartas a uma Ditadura”, novo filme de Inês de Medeiros, é uma obra documental com interesse óbvio, mas que fica um pouco aquém do documento que poderia ter sido, sobretudo pela forma como manipula o material iconográfico colocado à sua disposição.
A ideia de base é curiosa. Vejamos então do que trata. Aqui há tempos, foi encontrada, num alfarrabista, uma caixa de cartão contendo cerca de uma centena de cartas, escritas por mulheres portuguesas em 1958, respondendo, ao que tudo leva a crer, a uma circular enviada por um desconhecido “Movimento Nacional das Mulheres Portuguesas”, o qual procurava angariar apoio feminino para Salazar e o Estado Novo, que passara recentemente por uma provação difícil, durante a campanha eleitoral para as eleições presidenciais que opusera o general Humberto Delgado ao almirante Américo Thomaz. Não se encontrou até hoje referência alguma a este “movimento”, nem à circular a que respondem as cartas, e o alfarrabista desfez-se delas pensando que eram missivas amorosas sem outro interesse especial.
Mas eram cartas de mulheres dirigidas a um ditador, umas apoiavam Salazar, e prometiam toda a ajuda, outras diziam que sim, mas que estavam muito ocupadas com a lide da casa e da família. Todas elogiavam a paz, a ordem, e enalteciam a figura do "salvador da pátria". Segundo apuraram os responsáveis pelo filme, assinavam as cartas uma costureira, muitas professoras primárias, algumas donas de casa e também várias mulheres de importantes nomes do regime.
Algumas, cinquenta anos depois, ainda vivem e foram confrontadas com as palavras que então escreverem. Umas recordam-se, outras já nem sabem o que disseram. O olhar da realizadora não é, justificadamente, de recriminação perante a acareação, o que é bonito. Todas são tratadas com dignidade e muitas com algum carinho que a idade impõe. Quase todas sabem muito pouco do que quer que seja ou fazem-se passar por isso, por ignorantes que nem distinguem a democracia da ditadura. Uma ou outra assume que não gosta desta “democracia” (o que é mais um voto na democracia que lhe permite dizer isso, ao contrário da ditadura que apoiou!), uma olimpicamente afirma-se salazarista, a maioria não sabe, não viu, desconhece. Uma diz-se mais ou menos enganada pela ditadura.
Estes eram os tempos (1958), estes continuam a ser os tempos (2008), para quem sobreviveu à História. Interessante esta viagem pelo passado, por entre névoas que nos vão permitindo vislumbrar, por detrás das nuvens, o medo, a desinformação, a solidão, o sofrimento, o alheamento. Os planos rodados na actualidade são como postais de um passado agora colorizados, por entre cenários sombrios e românticos, velhos reposteiros, vasos de flores, cadeirões antigos e olhares mortiços. Inês Medeiros consegue um enquadramento condigno, sem nunca ultrapassar a fotografia de uma memória magoada. Cada plano assemelha-se a uma fotografia de álbum antigo.
Muito mais discutível é todo o aproveitamento de algumas imagens de arquivo da RTP e de cinema, sem estarem enquadradas e sem sequer ser referido o momento histórico a que se reportam, o que torna o filme uma argamassa insignificante (ou com um significado distorcido) da realidade histórica. As imagens do Estádio Nacional, apinhado de gente, transbordante de bandeiras e estandartes, as das grandes manifestações de apoio a Salazar, mesmo as da eleição de Humberto Delgado (as únicas vagamente contextualizadas) acabam por não ter uma leitura coerente e impedem a compreensão final da obra.
De resto, mesmo para quem as saiba enquadrar historicamente, não deixam de ser perturbantes: as ruas tão depressa estão pejadas de povo a orar á Senhora da Saúde como a saudar Salazar, como a acompanhar euforicamente Humberto Delgado, tudo com tempos ridículos de intervalo. O povo parece ir para onde vai a festa, parece ser a conclusão a extrair, entendendo-se por festa o que é diferente, o que quebra a rotina. Sem nenhuma consciência crítica, sem uma finalidade ou uma orientação esclarecida.

quinta-feira, março 29, 2007

VáVá.diando com Dacosta



Fernando Dacosta


e as “Máscaras de Salazar”


Conheci Fernando Dacosta não me lembro já quando. Ambos andámos pelo “Diário de Lisboa", numa época de boas e más recordações. As boas são as que agora interessam, o jornal era um farol de resistência num período de cinzentismo e opressão, ali se tentava escrever aspirando à Liberdade. Ele era jornalista encartado, eu crítico de cinema (ao lado de uma super equipa de críticos de que faziam parte também Mário Castrim, na Televisão, Carlos Porto, no Teatro, Mário Vieira de Carvalho, na Música, por exemplo). Depois coabitámos na Pró-Jornal, ele jornalista em “O Jornal”, eu crítico numa boa época do “Sete”. Um dia, João Soares convidou-nos para, ao lado de outros nomes, integrarmos ambos um Júri para avaliarmos umas duas dezenas de peças de teatro, encenadas por grupos de amadores na região de Lisboa. Excelente iniciativa, noites sucessivas de demanda de teatros, teatrinhos e casas pessoais, onde com amor e por vezes muito talento de fazia teatro. Foi nessas noites de deambulação por bairros de Lisboa que a amizade se estreitou, para se cimentar, mais e mais, há semanas, durante o “Famafest 2007”, de que Fernando Dacosta aceitou fazer parte como presidente do Júri Internacional.
Mas também nos últimos tempos ele tinha sido minha companhia diária, enquanto dele lia “Máscaras de Salazar”, um magnifico trabalho literário, difícil de catalogar num género pré-definido, pois tanto é biografia de Salazar (para o que convoca dados novos e interpretações complexas, afastadas dos maniqueísmos redutores habituais), como auto biografia, sendo sobretudo um retrato panorâmico de uma época de que muito se fala, sem todavia se ter dela conhecimento certo e vivencial. Dacosta mostra que viveu os tempos, conviveu com as personagens, e não se fica pela radiografia facilitista, tirado do lado esquerdo ou do lado direito do enquadramento. Se a imparcialidade não é deste mundo, a sua procura é-o. Dacosta fala de décadas de opressão, de ditadura paternalista, de provincianismo misantropo, de apagada e vil tristeza, de censura e perseguição, mas não deixa de iluminar também alguns aspectos que muitos querem esquecidos. A História só se faz depois de ultrapassados preconceitos. Os fantasmas só se enterram depois de, por alguma forma, terem sido psicanalizados, isto é, assumidos e apagados da memória colectiva enquanto tal: fantasmas, ou seja mitos. Se muitos mais já tivessem realmente “compreendido” Salazar ele não teria sido seguramente o mais votado dos “portugueses maiores”. Lá teria o seu lugar num cantinho da História, dedicado àqueles que, por virtudes que tenham, as defendem com vícios indesculpáveis. Para quem ama a Liberdade e por ela se bateu, a entronização de quem não soube nunca viver com ela é um facto preocupante. Mas mais preocupante ainda é ver uma esquerda histérica a dar mais votos a quem quer ver reduzido ao seu verdadeiro lugar na História, de cada vez que fala ou espuma pela boca.

Dito isto sobre “Máscaras de Salazar”, seu último trabalho e o de maior sucesso de público e de crítica, deve acrescentar-se que Fernando Dacosta não é autor de uma única obra.
Romancista, dramaturgo, jornalista, conferencista, Fernando Dacosta nasceu em Luanda a 12 de Dezembro de 1945 de onde foi, ainda criança, para o Alto Douro. Após frequentar o liceu na cidade de Lamego fixa-se em Lisboa, cursa Letras e inicia-se no jornalismo e na literatura. Foi director dos “Cadernos de Reportagem” e co-editor da “Relógio d´Água”.
A sua primeira peça de teatro, "Um Jipe em Segunda Mão ”, sobre a guerra colonial, vale-lhe o Grande Prémio de Teatro RTP, o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos e o Prémio Casa da Imprensa. “A Súplica ” (monólogo de uma mulher em ruptura com a realidade pós 25 de Abril), “Sequestraram o Senhor Presidente” (obra localizada no período revolucionário), “A Nave Adormecida ” (oratória do Portugal colonialista) e “A Frigideira” (inédito), são outros dos seus trabalhos dramatúrgicos.
“Os Retornados Estão a Mudar Portugal”, narrativa da integração dos portugueses regressados de África, obtém o “Prémio Clube Português de Imprensa”. “Moçambique, todo o sofrimento do mundo ”, vence os prémios “Gazeta” e “Fernando Pessoa” de 1991. “O Despertar dos Idosos ” recebe o prémio “Gazeta” de 1994.
Com “O Viúvo”, metáfora sobre a perda do império, conquista o Grande Prémio de Literatura Círculo de Leitores. “Os Infieis”, parábola à volta dos que ousam trair o estabelecido, como os navegadores de quinhentos, e "Máscaras de Salazar", crónica memoralista, são, respectivamente, os seus últimos romances e narrativa.
Apresentou durante 1991 e 1992 uma rubrica sobre livros na RTP-1. Integrou os júris dos principais prémios literários portugueses. Foi agraciado em 2005 pelo Presidente da República com a Comenda da Ordem do Infante D. Henrique.