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sábado, julho 19, 2008

ELEVADORES PARA TODOS OS GOSTOS

O elevador é um tema excelente para exercitar a escrita e a imaginação. O tempo de férias também pode ser um convite para escrever. Estão todos convidados a participar nesta viagem ao mundo da imaginação. Passem por "O Elevador" para saber como funciona. Depois... é só escrever um conto, um poema, um texto ao vosso gosto! Ou simplesmente passar por lá para ler...! Também podem contribuir com imagens, desenhos, pinturas, etc...
MORTE NO ELEVADOR
Há quase vinte anos que andava para cima e para baixo naquele elevador, subindo e descendo para regressar a casa ou partir para qualquer destino, já estivera parado entre andares diversas vezes, já sentira a angústia do espaço fechado, já saíra, escorregando através de frechas abertas entre patamares pelos técnicos salvadores, já estava, por isso, mais ou menos “formado” nesta matéria, mas só agora olhara realmente para a verdadeira constituição física deste elevador, todo revestido a metal, metal cinzento recoberto de uma tinta de cor esverdeada, porta igualmente metálica, da mesma cor, com uma curta abertura a meio, onde tinha sido incrustado um estreito rectângulo, disposto ao alto, de vidro lapidado com uma estrutura de fios de arame no interior, que não permitia que o olhar o atravessasse.
Sentiu-se mal, obviamente quando o elevador estancou de súbito, balouçando ligeiramente. Nunca estudara nada sobre elevadores, mas sabia que estavam suspensos por cabos, movidos por roldanas, conhecia de ver por fora a “casa do motor”, lá em cima, no décimo terceiro andar, ao lado da porta que conduzia ao terraço. A situação não tinha nada de surpreendente, num prédio com mais de cinquenta anos, que raramente entrara em obras, apesar da robustez da sua construção, nos bons velhos tempos em que os construtores civis não roubavam tanto no material e os donos dos prédios faziam questão de erguer obras que os perpetuassem. Hoje nada disso acontecia, os prédios eram o que eram, abanavam as paredes quando se batia com a porta, e ouviam-se claramente os gemidos de prazer ou de dor do outro lado da parede. No sétimo direito todos ouviam e sabiam, palavra por palavra, os arrufos do casal de masoquistas que habitava o sétimo esquerdo, contara-lhe a Sílvia, uma noite. Mas aqui não, as paredes eram robustas, as portas de sólida madeira, os elevadores de aço inoxidável, resistentes a toda a prova. O que teria sido excelente noutras eras, mas que era agora algo inquietante.
A mulher que estava a seu lado olhou para ele, interrogando-se. Com os olhos. Não ousou uma palavra.
Ele respondeu que não havia perigo, que já conhecia de longa prática os usos e costumes do elevador, podia ter sido apenas uma paragem ligeira, tocou nos vários botões mas o elevador não disse nem que sim nem que não, permaneceu não tão ledo quanto seria desejável e muito quedo para o seu gosto.
Havia um botão para fazer ouvir a sirene, e tocou-o.
- “Vai ver que é rápido, o senhor Augusto, o porteiro, não demora a aparecer.”
Esquecera-se que era domingo de Páscoa, o senhor Augusto fora com a mulher a casa do cunhado, nos arredores de Lisboa, e o prédio era predominantemente de escritórios, logo vazios neste dia do ano. Lá para cima havia uns inquilinos velhotes, que estavam ali desde a fundação do imóvel, uns saíram para casa dos filhos, levados como robots obrigados a divertirem-se, outros não iam para lado nenhum, e também não ouviam a sirene do elevador a gritar. Surdos como pedras.
Voltou a tocar no botão de alarme, mas os únicos alarmados eram eles os dois, presos no interior daquele elevador metálico que não os conduzia a lado nenhum. Estavam fechados ali, e sabia-se lá quando alguém os viria libertar de tamanho cativeiro em domingo de Páscoa.
- Não mora aqui?, perguntou ele, e acrescentou: Nunca a vi por aqui.
- Não moro, não. Venho visitar a minha tia-avó que mora no décimo terceiro, num daqueles ateliers, sabe?
- Claro que sei. Você é então família da Dona Felícia? Conheço-a bem, mas não a tenho visto ultimamente.
- Pois, está acamada com um violento ataque de reumático. Já tem mais de setenta anos e não quer sair daqui, diz que “é a sua casa”. Por isso a venho visitar. Mas não sabe de nada, é surpresa.
Queria aparentar um ar despreocupado, mas nada disso transparecia quer da expressão do rosto, quer da agitação do corpo. Estava nervosa. Via-se. Sentia-se.
- Não se pode fazer mais nada?
- Temo que não, disse ele. Esperar que alguém passe nas escadas, ou ouça o pedido de socorro do alarme. Mas não se ouve nada nas escadas, não vale a pena tocar mais. Ninguém nos vai ouvir… Por enquanto.
Ela tinha cerca de trinta e cinco, quarenta anos, vestia de forma discreta, secretária de administração, professora, algo assim… Solteira, sem aliança, talvez divorciada. Bonita? Vistosa, mas atraente. Ele olhava-a de alto a baixo, o cabelo escuro, próximo do preto, o rosto quase sem pinturas, um leve toque de batom nos lábios, uma camisa creme com os botões de cima displicentemente abertos, até se descobrirem os seios, ia jurar que sem soutien, um casaco castanho escuro por cima dos ombros, uma saia rodada da mesma cor, as pernas torneadas e tostadas pelo sol ou por drogas de farmácia, uns bonitos sapatos de saltos altos.
Ela sentiu-se olhada, e perguntou:
- Mora aqui?
- Há quarenta anos, certos. Os meus pais inauguraram o prédio, eu apareci dez anos depois. Vivo aqui desde sempre…
- Com os pais?
- Não, agora sozinho. Os meus pais já morreram. Herdei a casa. Casei, divorciei. Sem filhos. Chamo-me Ernesto…
- A importância de ser Ernesto… e sorriu. Um sorriso bonito, pensou ele, e ela:
- Eu chamo-me Lara
- O tão conhecido “tema de Lara”… Do “Doutor Jivago”, a minha mãe adorava-o. A conversa levou-os a esquecer o elevador durante uma fracção de minutos, mas a angústia instalara-se. Isto está preto. Não vamos desesperar, o pior que pode acontecer são os nervos, não vamos entrar em histerias, o que é preciso é manter a calma… Levou a mão ao bolso e retirou um maço de tabaco. Ela colocou a mão sobre a mão dele…
- Não pode fumar agora… O que me preocupa mais é o facto deste elevador ser tão pouco ventilado. Só entra ar pelas frestas… Não temos ar respirável por muito tempo…
Ele voltou a colocar o maço no bolso do casaco. Verdade, a falta de ar… Agora que ela falara disso, lembrou-se que era dado a ataques de falta de ar, frequentes, sobretudo nas mudanças de estação, entre a Primavera e o Verão, entre o Outono e Inverno, rinite alérgica, por vezes quase parecia asfixiar, a tosse seca invadia-o, tinha de correr ao centro de enfermagem e levar uma injecção de cortisona, para acalmar, para a garganta perder o inchaço, para o ar circular, para os pulmões se abrirem ao ar limpo… A falta de ar era um problema, realmente. Os médicos diziam-lhe que grande parte do problema era psicológico, era o pavor que desbloqueava a crise aguda, era a ideia da falta de ar que criava a falta de ar…
O ideal seria pensar noutra coisa. Naquela bonita mulher, ali a seu lado. Ele começava a suar. Não se dava bem em lugares fechados. Tirou o casaco (Dá-me licença?”, “Faz favor, está calor!”), dobrou-o e colocou-o a um canto do elevador.
- Esqueci o telemóvel em casa, senão…, disse ele.
- Nunca uso, não preciso, disse Lara.
Silêncio pesado entre ambos.
Ela perguntou então:
- Que faz na vida quando não está fechado num elevador?
- Jornalista, escrevo, sobre a cidade. Pequenas notas sobre o dia a dia na cidade.
- Sobre lisboetas presos em elevadores?
- Também. Se houver uma boa história associada…
- Amanhã “poderia” ter uma boa história para contar sobre esta paragem de elevador…
- Quem sabe. Mas gostaria mesmo de não ter nada para contar sobre esta paragem de elevador entre o terceiro e o quarto …
Ela olhou para ele com um olhar trocista, ou seria provocador?
- Preferia ter chegado ao quarto?
- Muito melhor certamente, respondeu e sorriu. E você que faz na vida quando não vem visitar a tia-avó?
- Hum, não acredita, se eu lhe disser: adivinhação.
- Feiticeira? A bruxa da “Branca de Neve”?
- Chamemos-lhe vidente.
- Estamos salvos então. A que horas chegará o porteiro, ou alguém que nos tire daqui?
- Hummm, não se deve brincar com coisas sérias. Pode dar mau resultado…
- Mas não prevê nada?
- Sim, estou descansada, nada de mau me trará esta paragem. Será uma fracção de tempo onde aparentemente nada acontecerá… Cada um seguirá o seu rumo, o seu destino.
Olhou fixamente Ernesto. Despiu o casaco castanho, que dobrou e colocou sobre o casaco do jornalista. Abriu mais um botão da blusa, e os seios pareciam soltar-se igualmente. A pele era ali clara, leitosa, dir-se-ia macia. Os olhos de Ernesto denunciavam a direcção. Não sei estar assim, à espera, sem nada que fazer… Há sempre tanto que fazer, disse ela, e aproximou-se dele. Ele olhou-a nos olhos, desceu até ao peito, ela aproximou-se mais, ele abraçou-a, ela deixou-se abraçar, ele beijou-a, ela abriu a boca para o deixar entrar, ele desceu a boca pelo pescoço, a língua percorreu os ombros desnudados, a camisa meia caída, os seios libertos, o mamilo na boca, duro, a língua que o rodeia com lassidão, ela a descer as mãos pelos quadris dele, a acariciar as ancas, a virar súbito de percurso e seguir até às virilhas, a mão a agarrar-lhe o sexo, ele a sentir o seu desejo e o desejo dela, ambos num mesmo abraço, a mão dela que sobe até ao cinto, que destramente o abre, que corre o fecho “éclair“, a mão dele que procura a bainha da saia, que levanta até à cintura, para depois descer novamente em busca de um calor húmido mais intenso, por onde abre caminho e penetra, escorregando lentamente para o interior desse poço, onde o desejo os enrola. No chão do elevador, corpos, mãos, sexos, o arfar da paixão que se satisfaz, a sofreguidão dos amantes, as bocas coladas sorvendo-se um ao outro, o ar que se inspira, o ar que falta, a sensação de asfixia que se instala, a necessidade de gritar, de pedir auxilio, socorro, a cabeça que volteia, sem tino, a garganta apertada, o ar que falta, as portas fechadas, as unhas que tentam rasgar superfícies metálicas intransponíveis, os pés a bater desordenados na porta metálica, o silêncio em redor, as unhas a estalarem em sangue, arranhando as paredes esverdeadas, a garganta a sufocar, o ar cada vez mais pesado, já sem o brilho da vida, apenas com o peso da morte.

Ao fim da noite, o senhor Augusto, enfim regressado, percebeu que o elevador estava parado entre o terceiro e o quarto andar. Subiu lentamente a pé até ao terceiro, bateu na metade da porta descoberta e perguntou:
- Está aí alguém?
Ninguém lhe respondeu, mas ele ia jurar que vira vultos estendidos no chão. Desceu a sua casa para ir buscar a chave que permite destravar a porta do elevador, e assim o fez. Descobriu, enroscado no chão, o corpo sem vida de Ernesto, o inquilino do quinto direito. Tinha a roupa em desalinho, o casaco dobrado a um canto, a camisa uma rodilha à volta das costas, as calças abertas, meio descidas, um sapato descalço, os olhos desmesuradamente fora das órbitas, a boca escancarada num esgar que deixou o senhor Augusto impressionado.
No dia seguinte, a Dona Felícia, dobrada sobre o seu reumatismo crónico, perguntou-lhe o que havia acontecido no elevador no domingo de Páscoa. Ele contou-lhe tudo, com requintes de masoquismo nas descrições mais dramáticas e acrescentou que vira sair do elevador uma borboleta de asas negras quando abrira a porta.
- Coitado do senhor Ernesto. Tão novo. E eu que brincava tanto com ele quando o vai no elevador. “A importância de ser Ernesto”?
A Dona Felícia fora toda a vida bibliotecária e continuava a gostar muito de Oscar Wilde.

quarta-feira, junho 13, 2007

UM CONTO COM UM CIGARRO NOS LÁBIOS



Aqui há anos ainda fumava e escrevi um conto. Há quatro anos deixei de fumar, cigarrilhas e charutos (já não fumava há muito cigarros). Não fiz nem promessa nem sacrifício. Simplesmente dexou de me apetecer fumar. Deixou de me dar prazer. Parei, obviamente, e ainda bem.

Mas a cruzada anti-tabagista, continua, a um ritmo cada vez mais demêncial, entrando nos terrenos da verdadeira loucura. Agora, os filmes americanos onde apareçam fumadores são classificados para "adultos", segundo a nova legislação do "novo Código Hayes". Matar, assassinar, violar, morrer de overdose, traficar, manipular, ir para o Iraque ou o Afeganistão metralhar, prostituir e etc, passa para maiores de 12 anos. Fumar é para adultos. Em Portugal ia-se fazendo algo parecido: fumar incorria em penas mais graves do que injectar-se. Preferivel mesmo vender droga, está visto.

Haja tento na cabeça.

Em homenagem aos tempos em que se fumava no cinema, aqui fica um conto inédito, escrito há mais de oito anos.




O SENHOR Y
O telemóvel tocou e ele estremeceu. Apressou-se a carregar na tecla Yes para que a leve campainha – que ele tivera o cuidado de previamente colocar no mínimo de volume – não fosse ouvida ao longo da casa.
- Esta?
- Sim, senhor...Y?
- Sou. Y ao telefone..
- Consegui o que queria. Posso passar agora por sua casa?
O aludido senhor Y olhou à sua volta e apurou o ouvido. Na cozinha ouvia-se a mulher a acabar os preparativos para o jantar. No quarto, o filho jogava vídeo games no computador. A velha mãe dormitava no sofá da sala.
- Acho que sim. Quanto tempo demora a chegar?
- Daqui a dez minutos estou aí.
- Espero por si à porta de casa. Eu desço...
- Ok, senhor Y...
E a chamada caiu.
O escritório estava em completo desalinho, contrastando com a rigorosa arrumação de todo o resto da casa. O senhor Y tinha à sua frente o computador onde passava o dia escrevendo, e que reunia o scanner, o fax, o vídeo telefone, o net meeting versão 2.003, a mais moderna versão aparecida no mercado. A anterior, do ano passado, era já completissima, mas a nova tornara obsoleta a placa de teclado. Todas as ordens podiam agora ser transmitidas oralmente. A última descoberta de Bill Gtes que assim mantinha e consolidava o seu império informático.
O senhor Y vestiu o casaco. Apesar de estarmos ainda em Setembro, àquela hora do dia, com o sol a descer já no horizonte, devia fazer algum fresco, pensou. O casaco era leve, beje. Y fechou atras de sai porta do escritório e dirigiu-se ao quarto do velho. Espreitou à porta.
- Pai, já consegui chegar ao nível 5...
- Vais ver que consegues. Tu és barra nisso...
Passou pela porta da sala: a mãe ressonava brandamente. Na cozinha, a mulher lutava com tachos e panelas, e cheirava a cozido à portuguesa.
- Vais sair?
- Vou lá baixo comprar... hesitou...Vou lá baixo apanhar um pouco de ar...
- O jantar está quase pronto... Vê lá não te demores...
- Cinco minutos... (olhou o relógio). Cinco minutos e estou de regresso....
Ela olhou para ele desconfiada:
- Que vais fazer?
- Apanhar um pouco de ar, já disse...
- Mesmo?... Vê lá o que fazes... Sentes-te bem?
- Sim, nada de especial... Apenas vontade de dar um passeio e apanhar ar puro na cara...
Y olhou e relógio e partiu. Apressado. Chamou o elevador, aguardou impaciente a descida dos doze andares, pautados pelos sons metalizados das passagens por cada patamar, passou os dedos pelos lábios. Estavam secos. Nervosismo certamente. Há dois dias que Y esperava este momento. Os contactos com o fornecedor estavam a ser cada vez mais difíceis. E mais raros. Tempos houve em que era fácil armazenar o suficiente para todo um mês. Mas agora tudo piorara de forma drástica. As campanhas na televisão tinham sido agressivas. O apelo aos familiares para denunciarem quem prevaricasse, em nome da defesa do ambiente, da saúde pública e mesmo da longevidade dos entes queridos, deu os seus resultados. Y sentia-se cada vez mais culpado, mas aos cinquenta e sete anos era difícil mudar. E não compreendia mesmo a histeria. De inicio brincara com a perseguição. Aceitara de bom grado algumas restrições: afinal a sua liberdade acabava quando começava a liberdade dos outros. Mas depois, lentamente, o clima de perseguição sistemática adensou-se. Começou a dizer que era o fascismo quotidiano, mas ninguém aparentemente o levava a sério. Os amigos iam cada vez mais furtando-se às conversas sobre o tema. Todos pareciam aceitar a proibição em nome do bem público. Mas Y sabia que alguns deles continuavam a ser abastecido pelo mesmo fornecedor.
Y estava já na rua há algum tempo, sem que ninguém aparecesse. Por debaixo do seu prédio havia uma floresta de colunas que lhe permitia esperar sem ser visto. Encostado a uma das colunatas, procurou sobretudo não dar nas vistas. Olhou para as varandas dos prédios que rodeavam a praceta. No nono andar do prédio em frente, vislumbrou uma fugaz chama. Um fósforo aceso? Um isqueiro? Tudo o que conseguia distinguir depois era um vulto de homem (ou seria mulher?) de costas para a rua. As luzes dessa varanda estavam apagadas, apenas penumbra e um vulto imóvel. Era o nono direito, pensou. Quem o habitaria? Pensava nisso quando sentiu um toque nas costas. Alguém lhe passou para as mãos um pequeno embrulho envolto num jornal dobrado em dois. Y levou a mão ao bolso, tirou um envelope e passou-o ao estranho que prosseguiu o seu caminho. Y encaminhou-se rapidamente para a porta do prédio. O elevador ainda se encontrava no rés-do-chão. Entrou, subiu, abriu a porta de casa, atravessou o corredor, ouviu a mulher gritar:
- O jantar está a arrefecer...
Dirigiu-se ao escritório, fechou a porta atrás de si, abriu uma gaveta da secretária, desdobrou o jornal, retirou o pequeno pacote. A curiosidade foi mais forte: que marca seria? Rasgou o papel que envolvia o volume. O filho abriu a porta do escritório e disse:
- Pai, a mãe chamou para jantar... Não vens?
Os olhos do filho centraram-se no pequeno volume que o pai tinha nas mãos. Y olhou o filho, segui-lhe o olhar, voltar a olhar os olhos do filho. Por instantes, ambos aguentaram esse olhar fixo. Depois o filho fechou a porta, Y fechou a gaveta da secretária, e foi jantar. À mesa ninguém abordou o assunto. Era cozido à portuguesa, e estava como sempre: delicioso. Mal acabou o jantar, Y foi ao escritório, regressou, passou pela sala onde todos viam televisão, e disse:
- Vou ao café...
A mulher e o filho entreolharam-se e não disseram nada, a mãe já voltara a cair no sono. Ressonava mesmo. Y saiu apressado. Mal a porta da rua se fechou, o filho levantou-se do sofá onde se encontrava sentado com a mãe e dirigiu-se ao hall. Ouviu o elevador descer. Pelo pequeno controlador de entrada, viu o pai sair do elevador no rés-do-chão e sair do prédio. Já de volta à sala, olhou a mãe, pegou no telefone e marcou o número das urgências do serviço de saúde e de apoio ao cidadão.
- Sim. Era para participar uma grave ocorrência. Um cidadão põe em causa o ambiente e arrisca mesmo a sua saúde... Sim, neste momento... Nas traseiras do edifício “Jardins do Éden”... Sim!...
E desligou.
Y passeava nas traseiras de sua casa, olhando em redor. Ninguém. A onda de violência que assolara a cidade impedia os habitantes de sair à noite. Poucos se afoitavam. Depois, os mais de duzentos canais de televisão disponíveis por cabo, tinham sempre algo de muito sedutor a oferecer ao público. O último grande sucesso de audiências era um concurso, com o sugestivo título de ”Apaga o Cigarro!” Os concorrentes perseguiam fumadores inveterados e “apagar o cigarro” era a finalidade. Cada fumador abatido valia mil pontos e a possibilidade de passar uma semana de verão na “Ilha Virtual” com todos os prazeres do mundo à descrição. O segredo era conseguir o “Capacete de Ouro”. Quem o lograva através do programa dispunha dele durante uma “semana de sonho”, “onde tudo lhe é permitido”. O concurso não tinha horário fixo, podia surgir a qualquer momento, em directo, e com o apoio dos Ministérios do Ambiente e da Tecnologia.
Y sabia o risco que corria, mas acendeu o cigarro.
Um holofote cruzou a noite e incidiu sobre Y. Dois policias vestidos de azul marinho, e de viseiras negras, abriram fogo. Y sentiu que as costas ficavam subitamente geladas, atravessadas por uma dor extrema, e caiu de bruços no chão. O cigarro saltou-lhe da boca. Y teve ainda forças para agarrar nele, levá-lo à boca e dar uma última fumaça. Olhou para as traseiras do décimo segundo andar do edifício “Jardins do Éden” mas não estava ninguém à janela. “Será que estão a ver o “Apaga o Cigarro!”, pensou ainda, numa altura em que sentiu a pesada bota de um dos agentes da ordem pisar o cigarro que tinha entre os dedos. O esmigalhar dos ossos já não o incomodou excessivamente, mas imaginou que a cena seria dada em “pormenor” pelo realizador destacado no canal de televisão de serviço público. O seu derradeiro pensamento, expressou-se em forma de dúvida: “Quem teria nessa noite direito ao “Capacete de Ouro”?