domingo, agosto 05, 2007

CINEMA: BELLE TOUJOURS

DIÁLOGO ENTRE DOIS CINÉFILOS,
À SAÍDA DE “BELLE TOUJOURS”
À saída da projecção de “Belle Toujours”, de Manoel de Oliveira, dois espectadores, cinéfilos de longa tradição, trocavam opiniões acaloradas. Os dois eram objectivamente adeptos fervorosos de Luis Buñuel, sendo que um deles não o seria tanto de Oliveira. Mas a conversa decorria animada, começando logo à porta do cinema, e continuando num café da esquina onde ambos se sentaram para a bica da praxe e a troca de impressões que a seguir relato, sem a hipótese de a transcrever palavra a palavra. Socorro-me da memória, que já não é o que foi, mas que ainda vai segurando as pontas do que se ouve.
Cinéfilo Um – … mas, para quê ir buscar uma obra como “Belle de Jour” para ainda por cima a transfigurar através de uma sequela que nunca seria a de Buñuel? Se há filme transgressor, representativo da melhor fase francesa de Buñuel, é este. Se há obra-prima indiscutível que se notabilizou pelo mistério que deixou no ar, atrás de si, que levou o indizível a um plano de perfeição, é esta…
Cinéfilo Dois - … referes-te ao caso da misteriosa caixa de que nunca se soube o conteúdo no filme de Buñuel? Aquela caixa que o cliente asiático abria, na deslumbrada presença de Catherine Deneuve, donde saía um estranho silvo, e que deixava antever prazeres indizíveis, possivelmente sado-masoquista, uma onda que aquecia todo o filme?
Cinéfilo Um – Esse é o aspecto mais marcante, mas todo o filme do Buñuel deixa quase tudo sem explicação, tudo embrenhado nos domínios do subconsciente, do sonho ou do pesadelo psicanalíticos, do mais inquietante que a narrativa automática do surrealismo já nos deu… Ora Manoel de Oliveira parece vir procurar dar respostas ao que não tem respostas. Onde não se deve sequer procurar respostas racionais e inteligíveis. Arranjar soluções para o filme de Buñuel seria aniquilar a obra.
Cinéfilo Dois - O que nunca acontece, nota. A caixa aparece, e o conteúdo continua desconhecido, Severine quer saber de Henri Husson o que o marido conhecia realmente sobre ela e a sua dupla vida, e também não o consegue saber, nem nós, espectadores…
Cinéfilo Um - Pois, é verdade. Mas as conversas entre Henri Husson e o barman são uma explicação demasiado primária da história de “Belle de Jour”. Aquele arrazoado sobre sadismo e masoquismo parece saído das Selecções do Reader’s Diggest. Tudo muito simplista, quando o filme de Buñuel é tudo menos simplista.
Cinéfilo Dois – Acontece que o filme de Oliveira não belisca de qualquer forma o filme de Buñuel (ambos existem por si próprios, com valorização intrínseca, e não é por haver uma sequela que o original se diminui), e o português consegue algumas boas malhas.
É sabido desde sempre, mas sobretudo desde “A Caça” (mas já era visível em “Douro, Faina Fluvial”) o parentesco entre Buñuel e Oliveira, parentesco “à contre coeur”, mas parentesco real. Há muitas afinidades entre o cinema de um e de outro, apesar de Buñuel ser profundamente anti-clerical e Oliveira nunca desdizer a sua costela cristã. Mas as aparências iludem: nem Buñuel era o ateu por que se queria fazer passar, nem Oliveira o cristão exemplar que muitos julgam ver à transparência. Um e outro se referem a uma mesma religiosidade, ambos ostentam uma imagética muito particular, o cinema opaco de Buñuel tem muito a ver com a representação obsessiva de Oliveira. Repara que neste filme não há um plano que não seja objectivamente uma “representação” de actores, logo desde o plano inicial, da orquestra tocando Dvorak no auditório da Gulbenkian. Tudo é “representação”, tudo se passa num palco (ou num décor), até os passeios de Henri Husson por essa Paris outonal, com a estátua de Joana d’Arc sempre no horizonte, as colunatas de pedra, as portas dos hotéis, culminando nessa magnífica cena de jantar num quarto de hotel, à luz das velas, em que quase nada se diz, onde apenas se pensa e repensa o filme de Buñuel, “à luz” do olhar de Oliveira. Eu sei que este não é um filme qualquer, é um filme de Oliveira, o que pressupõe logo uma estética muito determinada que, ou se aceita ou se rejeita, de que se gosta ou não se gosta. Eu por vezes gosto muito, doutras não tanto, desta feita fico hesitante, a meio caminho, mas sou incapaz de recusar integralmente. Não esqueço que este homem tem 97 anos, uma lucidez desarmante, uma inesperada vitalidade, uma austeridade de processos e, ao mesmo tempo, uma ironia que me tocam profundamente. Acho uma bonita homenagem ao filme do mestre, feita com muito amor e alguma perversidade. Penso que Buñuel teria gostado.

Cinéfilo Um – Meu caro, a integridade de Oliveira nunca a ponho em causa. Se há homem íntegro no cinema actual, último avatar de uma floresta de génios de que restam poucas árvores, será ele. Mas esta sua deliberada invasão dos terrenos do surrealismo não me parece conseguida, surge-me algo parecido com a visão iconoclasta de Buñuel, revista pelo olhar “culpado” de um católico que por vezes “pecou”, ao longo da vida, por “pensamentos, palavras e actos”, mas no final da mesma se mostra subitamente “arrependido”. Não contente em se arrepender sozinho para descansadamente ir para o Céu, quer levar consigo, postumamente, o seu amigo Buñuel... Catherine Deneuve terá tido razão em não querer embarcar na aventura.
Cinéfilo Dois – Não o vejo assim, além de que Bulle Ogier a substitui à altura. Aliás, ela e Michel Piccoli vão muito bem (o que já não direi do restante elenco, aí dou a mão à palmatória).
Nesta altura o Cinéfilo Dois levanta-se, vai ao balcão e pede um whisky, “duplo!”. O empregado, em vez de um “tout de suite”, diz-lhe que o servirá de imediato. Quando chega à mesa, já os dois cinéfilos reataram a conversa sobre “Belle Toujours” que o empregado, “sem querer ser intrometido”, disse que também já vira (“O cinema fica mesmo aqui à frente!”) e que não compreendera uma coisa:
Empregado – Parece que este filme é baseado num outro, dos anos 60, de Buñuel… Ora eu tenho 29 anos, não o vi nunca. Como posso saber de que tratava, se nem existe em versão DVD (já me fui informar na Fnac!)? Peço desculpa pela intromissão, mas os senhores são clientes habituais…
Cinéfilo Um – Nenhum problema com isso. É sempre bom descobrir pessoas que gostam de cinema. Você não tem Internet? É fácil procurar por “Belle de Jour”, ler umas coisas sobre o filme. Na verdade este de Oliveira, procura ser uma homenagem a esse outro filme, a Buñuel e Jean-Claude Carrière, ambos argumentistas que adaptaram inicialmente o romance de Joseph Kessel …
Cinéfilo Dois – …mas posso dar-lhe uma ideia num minuto. Este é daqueles filmes que, ou se demoram dias a tentar descrever, ou se resumem, de forma muito simplista, em meia dúzia de linhas. A história do filme de Buñuel fala de um casal de burgueses bem instalados na vida: ele é Pierre Serizy (Jean Sorel), médico, ela é Severine (Catherine Deneuve).
Só para lhe dar uma ideia da complexidade da narrativa, o filme começa com o casal passeando de carruagem. De repente o marido pára e ordena aos cocheiros que dispam a mulher, a amarrem a uma árvore, a torturem e a violem a seu belo prazer. Estamos no domínio mais puro do sado-masoquismo ou do bondage, mas afinal tudo não passa de um sonho. Severine acorda e descobre que sonhara, que tivera um pesadelo…
Cinéfilo Um – Terá sido mesmo um pesadelo? Não seria a realidade sonhada? Os desejos mais íntimos satisfeitos?
Cinéfilo Dois – Ora aí está toda a complexidade da obra. Nunca se saberá nada. O que é sonho, o que é realidade, o que se deseja, o que se teme, ou mesmo quando se teme o que se deseja ou se se deseja o que se teme. Puro surrealismo, aqui atravessando zonas de um freudianismo de profunda pulsão libidinal.
Empregado – estou a ver… quer dizer… procuro ver…
Cinéfilo Dois – Continue a procurar, enquanto não aparecem mais clientes. Eu também vou continuar: Severine percebe-se que ama o marido, mas que está sexualmente descontente. Para dar satisfação a si própria e ao marido (só sexualmente feliz dará prazer ao marido), e aceitando o conselho de um amigo, Henri Husson (Michel Piccoli), que lhe indicara o endereço de uma casa de prostituição fina, resolve procurar Madame Anaïs (Geneviéve Page) para aceitar clientes diurnos. Passará a ser, de dia, uma puta de luxo, para clientes de estimação, e de noite a bela e amantíssima esposa de Pierre.
Empregado – O Michel Piccoli aparece então nos dois filmes a fazer o mesmo papel…?
Cinéfilo Dois – Pois aí está outro dos argumentos de Oliveira: ver o que aconteceu àquelas personagens 38 anos depois. O Piccoli aceitou participar na sequela, a Catherine Deneuve não, foi substituída pela Bulle Ogier. Ambos são Henri Husson e Severine quase quarenta anos depois. Encontram-se ocasionalmente num teatro, ouvindo a 8ª Sinfonia de Dvorak, ela foge ao confronto, vai-se esgueirando ao destino, até que o que tem de acontecer, acontece e jantam juntos num quarto de hotel, rodeados de criados…
Empregado – Cena pouco real… Se queriam estar sós, não seria preferível jantarem sós, sem aquela gente toda à volta?
Cinéfilo Um – Meu caro, este casal não quer sexo, quer relembrar o passado. Na impossibilidade de viverem o presente, querem reviver o passado. E acertar contas. Ele vingar-se dela, ela acertar contas consigo própria. Ambos querem a paz possível para a inquietação que os atormenta. Ela afirma-se mesmo “uma outra mulher”. Quer “entrar para um convento”, talvez para se martirizar por um passado de culpa. Mas a inquietação permanecerá: nenhum alcançará os seus intentos. Tanto ela como ele não conseguirão acalmar o seu íntimo, saber o que não sabiam, ir além da realidade mais aparente. Este não é um filme para resolver as dúvidas do outro filme, mas para as prolongar, 38 anos depois. Buñuel levantou as questões, Oliveira manteve-as.
Empregado – Qual a vantagem? Se não resolve nada, nem levanta as questões que já tinham sido colocadas numa obra anterior?
Cinéfilo Um – Essas são as virtudes e os limites do filme. O olhar é diferente. Buñuel nunca pensaria em mandar Severine para o convento, expiar as culpas. Era mais provável manter Severine aos 70 anos a frequentar ainda a casa de Madame Anais. Por isso Oliveira prolonga as dúvidas, mas numa outra direcção: a sua. Curioso este entrelaçar de caminhos, este cruzar de olhares.
Cinéfilo Dois – Traga aí a conta. Tenho de ir. Sabem que mais? Dois velhos sabidos, é o que é!
Ambos pagam, e saem para a luz coada da noite. Cruzam-se com duas garridas senhoras que segredam entre si, antes de entrarem no café.
Cinéfilo Um – Olha lá, estas não são…?
Cinéfilo Dois - … se não são, são tão parecidas!...
Ambos riram. Corre o pano e ouve-se Dvorak em fundo. Não é Paris, não chove. Passa um galo no corredor de um hotel, por entre as portas dos quartos. Uma está aberta.
Lisboa, 20 de Julho de 2007

in "O Progresso", nº 1, Agosto de 2007

5 comentários:

Ana Paula disse...

Gostei imenso do texto. Revisitar Buñuel é sempre um prazer e a sua grandeza permite e exige que seja reinterpretado (como acontece com toda a autêntica arte).
Bjs

take.it.isa disse...

Muito bom!
Revejo-me no empregado ("não mexa mais...")
Mas a curiosidade é muita, portanto, lá terei que ir ver (os dois)
Um abraço

isabel victor disse...

Obrigada *** **

Belle Toujours ...

Tudo por aqui sabe bem !

i*

belinha disse...

Olá! Estive sem computador quase durante um mês!!!Já andei a ver o muito que escreveu...Até breve!:-)

Lauro António disse...

isa, do take it, isabel victor, belinha: e que tal os dez filmes * das vossas cidas? Beijos