sábado, julho 18, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 12

: “DEMO, UM MUSICAL PRAGA”
Criação Teatro Praga
“Demo” é o título escolhido para a nova criação do Teatro Praga. Sugestão que dá pano para muitas mangas. “Demo” pode ser abreviatura de “demónio” ou “demoníaco”, mas também de “demonstração” (algo a ser experimentado pelo espectador da dita), ou de “democracia”, de “manifestação” (em inglês “demonstration”), de “sample” no mundo musical, de “versão incompleta ou limitada” de um programa informático.
“As pessoas são uma merda!” é a frase com que termina a primeira parte e abre a segunda deste espectáculo. Uma conclusão demonstrativa, numa linha demoníaca, ainda que em versão reduzida, mas numa manifestação que, sendo musical, não deixa de tocar a fundo no conceito de democracia. Acontece que sendo os autores e actores de “Demo” pessoas, nem por isso o espectáculo é uma merda. O que anula desde logo e por completo a conclusão que os autores procuram retirar deste “Demo”. Mas há outras reflexões que esta obra motiva. Aliás, enquanto obra provocatória e agressiva, é um nunca acabar de reflexões a que ela dá origem.
“Demo” é um musical, que se afirma uma viagem pela Índia, sendo a Índia o contrário da Europa, ou se calhar nem isso, dado que se diz igualmente que a Índia procura ser a Europa e a Europa a Índia. Ou seja, para todos os lados que nos voltemos, neste mundo globalizado a mesma merda, e o melhor mesmo é atirar com os homens para a piscina (em que transformaram o fosso de orquestra do São Luiz) para os dar a comer aos crocodilos. Situação em si muito divertida, como quase todo o espectáculo o é, na sua aparência, mas que denuncia também a existência de umas almas iluminadas que, estando no domínio dos eleitos, se podem dar ao luxo de definirem quem deve ou não ser atirado aos crocodilos. O que em si não é um princípio muito democrático, mas, curiosamente, como em quase todas as vanguardas inspiradas, uma forma das vanguardas se colocarem ao lado do aparecimento das mais violentas ditaduras. Veja-se Mussolini e os futuristas, Lenine e os modernistas e os construtivistas, Salazar e os modernistas de Pessoa a Almada. O curioso é de que início eles caminham em uníssono, ditadura de gosto estético, ditadura de índole social, sempre contra a burguesia, que acusam de instalada, propondo “viver perigosamente”, quer na estética, como na política, mas depois o político abafa o estético e o divórcio concretiza-se entre artistas e ditadores. As ditaduras aproveitam-se pois do escândalo provocado pelos artistas, para criarem o caos e desunirem o tecido social, anularem e subverterem os valores, para uma vez instalados no poder, os anularem por completo. Enquanto o pau vai e vem, neste caso não folgam as costas, mas instala-se o folguedo. “Demo” é isso mesmo, um folguedo cheio de imaginação, inventivo, divertido, musicado e cantado como uma ópera pop alternativa (a norte-americana Kevin Blechdom, Christopher Fleeger e o estónio Andres Lõo são os compositores de serviço), com vagas referências à Índia (a maior das quais pela música de Rao Kyao, que aparece no palco pessoalmente, e do facto de Savitri, a protagonista, se chamar assim em honra do poema “Savitri: A Legend and a Symbol”, de Sri Aurobindo, segundo mito de “Mahabharata”), e instalando sobretudo um mau estar evidente contra tudo e contra todos. O que não é de todo mau: ficamos a saber que chegaram os salvadores da Humanidade. Pela morte violenta ou o suicídio: “Acabaram-se as merdas, água com eles! O que é preciso é gesticular. Não há ideologias.” O que lido de outra forma pode querer dizer: não há ideologias, só há acção. Gesticular é preciso, como forma de mostrar – demonstrar – que se está vivo. Ou de demonstrar o contrário: que se mata, se destrói, se aniquila o presente. Em nome de quê? Não nos é dito.
É o próprio grupo que explica o espectáculo: “’Demo’ tem uma narrativa. É uma história de amor (mas também pode ser um drama histórico ou um conto de fadas, um remake sem original de referência, uma tragédia política, uma biografia desactualizada, um pesadelo...). Não a contamos muito bem, porque já lá vai o tempo em que isso se fazia. Mas há uma protagonista. Baptizámo-la de Savitri. Vem das águas onde moram os crocodilos. Regressa à terra natal após longa ausência. E propõe, desculpem, impõe uma nova ordem. Há quem goste. Até porque quem não gosta é lançado aos crocodilos.
Embrulhamos questões filosóficas, éticas, sociais e culturais em chansons-papel-de-rebuçado. O rebuçado é para todos: colorido e agradável ao paladar, mas duro de trincar e letal para a dentição. É democrático, demente e demolidor.”
O Teatro Praga trabalha “sem deus nem chefe” desde 1995. Colectivo de co-criadores e intérpretes, instilando uma filosofia niilista, provocatória, transdisciplinar, fascinada por epifenómenos pop, defende a morte do dramaturgo, do texto e da personagem. Afirmam apostar “num teatro político de vanguarda”. Não ficam dúvidas, depois de vermos esta “demonstração”. Criativamente tão estimulante, quanto socialmente inquietante.

“DEMO, UM MUSICAL PRAGA” – Criação: Teatro Praga; Intérpretes: André e. Teodósio, André Godinho, Andres Lõo, Carlos António, Christopher Fleeger, Cláudia Jardim, Joana Barrios, Joana Manuel, Kevin Blechdom, Luís Madureira, Miguel Bonneville, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Rita Só; Participação Especial: Rão Kyao; Colaboração José Vieira Mendes, Vasco Araújo; Crocodilos: André Campino, Diogo Bento e mulher bala; Apoio Vocal: Luís Madureira; Apoio Coreográfico: João Galante; Desenho de luz: Daniel Worm d’Assumpção; Música original: Kevin Blechdom,Christopher Fleeger, Andres Lõo; Produção: Cristina Correia, Joana Gusmão, Pedro Pires; Uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga; Duração: 1h40; Classificação: M /12 anos.

6 comentários:

V. disse...

Isso faz-me dizer: É a merda da cultura, estúpido!

Lauro António disse...

Bom slogan. Ou é mesmo um insulto?
LOL

none disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lauro António disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
V. disse...

O slogan não era bem assim. Era "É a cultura, estúpido!" e foi o nome utilizado para uma série de tertúlias que se realizaram no teatro São Luiz, as quais debatiam matéria cultural num país em que a mesma é preterida.

Visto que o espectáculo se passou no S. Luiz e tendo em conta a expressão "as pessoas são todas uma merda", pareceu-me por bem que o slogan passe a ser:

É a merda da cultura, estúpido!

Obviamente que não é um insulto. Insultar é, também, uma arte.

Lauro António disse...

Claro que sei dessas sessões no S. Luiz. Apenas brinquei com o facto.