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terça-feira, fevereiro 16, 2016

CINEMA 2015: O RENASCIDO


THE REVENANT: O RENASCIDO

O mexicano Alejandro G. Iñárritu conquistou definitivamente os americanos. Depois de no início de 2000 ter surpreendido com “Amor Cão” e “21 Gramas”, em 2006 iniciou uma cavalgada com “Babel”, seguida de “Biutiful” (2010), para culminar a sua ascensão para a glória em 2014, com “Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)” que triunfou nos Oscars de 2015 (Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento Original, Melhor Fotografia, além de mais cinco nomeações), voltando à ribalta e à passadeira vermelha de Los Angeles com “The Revenant: O Renascido” (nomeado agora para 12 estatuetas: Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Actor, Leonardo DiCaprio, Melhor Actor Secundário, Tom Hardy,  Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Guarda Roupa, Melhor Maquilhagem, Melhor Montagem Sonora, Melhor Mistura Sonora, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Direcção Artística).
“The Revenant” parte de um argumento assinado por Mark L. Smithe e pelo próprio Alejandro González Iñárritu, segundo romance de Michael Punke, que já estivera na origem de um filme de 1971, “Um Homem na Solidão” (Man in the Wilderness), uma realização de Richard C. Sarafian, com interpretação de Richard Harris, John Huston e Henry Wilcoxon, entre outros. Esta versão de inícios da década de 70 era já uma obra extremamente violenta e um exemplo mais da renovação que se procurava imprimir a um género a cair por essa altura no esgotamento, o western. Com algumas alterações, a estrutura da intriga é semelhante obviamente, mas o tratamento narrativo é substancialmente diferente nesta versão de Alejandro González Iñárritu. Se se podia falar de alguma crueza da versão protagonizada por Richard Harris, teremos de concluir que Leonardo DiCaprio, na sua composição de Hugh Glass, ultrapassa em muito o realismo anterior, colocando-se num clima de paroxismo de violência quase insuportável por vezes. Curiosamente, na versão de 71, o protagonista procura regressar a casa para conhecer o filho que, entretanto, nascera, na de 2015 o filho é um adolescente que acompanha em parte a sua aventura.
Esta é uma história de sobrevivência que tem como finalidade a vingança. No (hoje) estado do Dakota do Sul, nos EUA, corria o ano de 1823. Hugh Glass (Leonard Di Caprio), que funcionava como guia de um grupo de caçadores de peles, é apanhado por um urso que o ataca e atinge violentamente. Primeira anotação: reparar na trama que se estabelece entre caçadores de peles, índios, franceses ocupantes, todos eles trocando entre si matérias primas e armas, num jogo de traições onde só vigora o interesse monetário. Segunda referência obrigatória: a fabulosa luta corpo a corpo que se estabelece entre o homem e o urso, tudo filmado num plano único e com um realismo invulgar. 


Hugh Glass é socorrido por companheiros, mas o seu estado é agonizante. O grupo tem de continuar, numa paisagem inóspita, mas o capitão Andrew Henry (Domhnall Gleeson) indica dois homens para ficarem para trás para acompanhar os últimos momentos do Glass. Um deles é John Fitzgerald (Tom Hardy) que, tempos depois, e perante a resistência do ferido, resolve abandoná-lo à sua sorte, depois de ter assassinado o seu filho, um mestiço, filho de uma índia. Em confronto com a natureza nesse inverno impiedoso, martirizado pela neve e a chuva, perseguido por brancos e índios, contando aqui e ali com uma ou outra cumplicidade humana, encobrindo-se em covas ou protegendo-se da inclemência do tempo no interior da carcaça de um cavalo morto (“o renascido”), Glass consegue sobreviver até à vingança final. A luta é animalesca, Glass assume o papel de urso (ao longo do filme ele vai vestindo cada vez mais essa pele, assemelhando-se de forma deliberada ao urso que o atingira), a violência do tom é invulgar. Glass é um resistente, mas será um humano? Ou será que os humanos não passam de animais a que se junta um imperioso instinto de vingança?
Duas horas e meia a acompanhar um homem quase sempre só, quase não falando, ferido e mal podendo rastejar, é obra. Essa é uma das primeiras proezas do realizador Alejandro González Iñárritu que consegue prender a atenção do espectador, no que é bem acompanhado pela interpretação de Leonard Di Caprio (mas também do restante elenco, nomeadamente Tom Hardy) e pela equipa técnica, da fotografia esplendorosa à montagem, à direção artística, à própria sonoplastia que consegue uma envolvência brilhante, criando um clima hostil e agressivo, no entanto por vezes de grande beleza espetacular. 
“The Revenant: O Renascido” é, seguramente, um grande filme e um dos premiados do ano com justeza. Tecnicamente é um prodígio e as condições de rodagem devem ter sido tormentosas. Daí a falar em Terrence Malick ou Andrei Tarkovsky vai um longo passo, muito embora a fotografia de Emmanuel Lubezki (que assinou igualmente a fotografia de “O Novo Mundo”, 2005) possa levar a algumas comparações. Novo sublinhado: muitas vezes a câmara de Lubezki enquadra a floresta de baixo para cima, deixando os troncos das árvores formar jaulas ou celas onde o protagonista (e o espectador, que no final é directamente invocado) sente essa claustrofobia no interior (ou no exterior?) da natureza.
De resto, há um ou outro ponto mais discutível neste filme. A referência ao transcendente, com o aparecimento de uma igreja em ruínas é um deles e uma placa colocada no corpo de um índio enforcado (“Somos todos selvagens”) também me parece redundância excessiva. O filme falaria por si só, sem placa explicativa.


THE REVENANT: O RENASCIDO
Título original: The Revenant

Realização: Alejandro González Iñárritu (EUA, 2015); Argumento: Mark L. Smith, Alejandro González Iñárritu, segundo romance de Michael Punke; Produção: Steve Golin, Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, Mary Parent, Keith Redmon, Música: Carsten Nicolai, Ryuichi Sakamoto; Fotografia (cor): Emmanuel Lubezki; Montagem: Stephen Mirrione; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Jack Fisk; Direcção artística: Laurel Bergman, Michael Diner, Isabelle Guay;  Decoração: Caitlin Jane Parsons, Hamish Purdy; Guarda-roupa: Jacqueline West;  Maquilhagem: Anthony Gordon, Adrien Morot, Michael Nickiforek, Robert A. Pandini, Vicki Syskakis, Jo-Dee Thomson, Sharon Toohey, etc. Direcção de Produção: Bruce L. Brownstein, Juan Pablo Colombo, Evan Godfrey, Douglas Jones, Drew Locke, James W. Skotchdopole, Skye Stolnitz, Valerie Flueger Veras, Gabriela Vázquez; Assistentes de realização: Scott Robertson, Jasmine Marie Alhambra, Silver Butler, Stéphane Byl, Scott Catolico, Darius de Andrade, Robin K. Flynn, Matt Haggerty, Stephen Kievit, Jeremy Marks, Josh Muzaffer, Brett Robinson, Megan M. Shank, Jerry Skibinsky, Adam Somner, Trevor Tavares, Kasia Trojak;  Departamento de arte: Cameron Chapman, Shannon Courte, John Dale, Craig Henderson, Karen Higgins, Dennis Simard, Olena Skorokhod, Joe Wolkosky; Som: Lon Bender; Efeitos especiais: David Benediktson, Stewart Bradley, Pau Costa, Cameron Waldbauer, Brad Zehr, Douglas D. Ziegler; Efeitos visuais: Tom Barber, Daniel Charchuk, Nicolas Chevallier, etc. Companhias de produção: Anonymous Content, Appian Way, Monarchy Enterprises S.a.r.l., New Regency Pictures, RatPac Entertainment; Intérpretes: Leonardo DiCaprio (Hugh Glass), Tom Hardy (John Fitzgerald), Domhnall Gleeson (Capitão Andrew Henry), Will Poulter (Bridger), Forrest Goodluck (Hawk), Paul Anderson (Anderson), Kristoffer Joner (Murphy), Joshua Burge (Stubby Bill), Duane Howard (Elk Dog), Melaw Nakehk'o (Powaqa), Fabrice Adde (Toussaint), Arthur RedCloud (Hikuc), Christopher Rosamond (Boone), Robert Moloney (Dave Stomach Wound), Lukas Haas (Jones), Brendan Fletcher, Tyson Wood, McCaleb Burnett, Vincent Leclerc, Stephane Legault, Emmanuel Bilodeau, Cole Vandale, Thomas Guiry, Scott Olynek, Amelia Crow Show, Peter Strand Rumpel, Timothy Lyle, etc. Duração: 156 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 14 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Janeiro de 2016.

quinta-feira, janeiro 29, 2015

OS FILMES PARA OS OSCARS (4)


BIRDMAN 
OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)


Riggan Thomson (Michael Keaton) é um actor a sair da meia-idade e que, nos anos 90 do século passado, tivera algum fulgor no cinema como intérprete sobretudo de filmes de super-heróis. Birdman era a sua personagem. Agora procura regressar à fama e sobretudo granjear algum reconhecimento como actor de obras de um outro fôlego. Num teatro de Nova Iorque, bem no centro da Broadway (precisamente o St. James Theatre, de muita tradição e prestígio, sobretudo no campo das produções musicais), Riggan prepara-se para a estreia de uma peça inspirada num conto de Raymond Carver, "What We Talk About When We Talk About Love". São dois casais em palco, diálogos fortes a relembrar “Quem tem Medo de Virginia Woolf”, e um dos actores a sair de cena, depois de um estranho acidente, o que Riggan aproveita para o substituir por Mike Shiner (Edward Norton), um nome que garante bilheteira e boas críticas, mas igualmente alguma instabilidade no elenco. Enquanto decorrem os ensaios, vamos conhecendo outras personagens e apercebendo-nos do clima de ansiedade, por vezes rondando a loucura, que envolve o projecto, extravasando numa ou noutra ocasião do interior do teatro para as ruas que o circundam. Entre as figuras que se movimentam nesta teia (teatral e emocional) surgem Lesley (Naomi Watts), uma das actrizes, Laura (Andrea Riseborough), outra das intérpretes e ainda namorada do protagonista, Jake (Zach Galifianakis),  além de amigo pessoal de Riggan, o produtor do espectáculo, Sam (Emma Stone), a filha e assistente pessoal, acabada de sair de uma clínica de reabilitação, além de Sylvia (Amy Ryan), ex-mulher, que vai aparecendo de vez em quando, e ainda uma crítica teatral, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), que, na véspera da estreia, assegura ao actor que vai destruir o espectáculo, mesmo sem o ter visto ainda.


Alejandro González Iñárritu, o mexicano adoptado por Hollywood, que ganhou fama internacional com obras como “Amores perros” (2000), “21 Grams” (2003), “Babel” (2006) ou “Biutiful” (2010),tem caracterizado o seu cinema por um emaranhado de situações, um puzzle de personagens que normalmente confluem para um drama central. A sua narrativa sofre alguma simplificação de processos neste novo título, ainda que permaneça perfeitamente reconhecível. Mas deixa de haver a multiplicidade de acções em cenários variados, para se central tudo num mesmo décor, tendendo mesmo para uma unidade de teatro clássico, com local, tempo e personagens muito definidas. Mas o lado encadeante da sua narrativa troca agora a montagem por uma continuidade que, por vezes, parece querer dizer-nos que o filme foi todo rodado num plano sequência, de câmara à mão, acompanhando actores por longos corredores, espaços fechados e uma ou outra escapadela para o céu, nomeadamente quando Riggan Thomson recorda, é assombrado ou sonha com a figura de Birdman. 


A estrutura por vezes resulta hábil, outras denota um pouco de artificialismo pomposo, mas de um modo geral o produto final é interessante, conseguindo criar um torvelinho de percursos e emoções que se julga estar nas intenções do cineasta. Alejandro González Iñárritu é definitivamente um realizador a acompanhar, tendo chamado, juntamente com alguns outros, a atenção para a produção mexicana mais recente. A sua integração na indústria norte-americana foi rápida e brilhante, tanto no que diz respeito à crítica como a público. Claro que há quem fique com os cabelos em pé com este tipo de cinema, mas julgamos injusta esta reacção. “Birdman” é um curioso filme sobre pessoas, aflorando alguma crítica aos blockbusters de verão povoados por heróis da Marvel e quejandos, mas uma crítica nuanceada: afinal Riggan não deixa de ansiar voar e planar nos céus de Nova Iorque, com as suas proezas aéreas que o elevam do chão e das asperezas da complexa vida quotidiana.
Se “Birdman” tem pontos fortes, é quanto ao seu brilhante elenco, onde ninguém destoa e onde Michael Keaton se reinventa a si próprio, ele que foi Batman sob as ordens de Tim Burton. A sua interpretação é notável, e se o seu personagem não terá totalmente conseguido superar-se na sua incursão pelo teatro dramático, ele sim, ganha o estatuto de grande actor com este papel de uma vida. Mas Edward Norton, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Zach Galifianakis,  Emma Stone, Amy Ryan, e mesmo Lindsay Duncan, dão replica à altura. Há sequências admiráveis, onde Alejandro González Iñárritu acerta a câmara com a justeza da interpretação dos seus actores. Lembro uma fabulosa conversa de Edward Norton e Emma Stone, na varanda do teatro, que é um momento de grande cinema, inesquecível.



BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)
Título original: Birdman or (The Unexpected Virtue of Ignorance) 
Realização: Alejandro González Iñárritu (EUA, Canadá, 2015); Argumento: Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo; Produção: Armando Bo, Molly Conners, Alexander Dinelaris, Nicolás Giacobone, Alejandro González Iñárritu, Drew P. Houpt, Sarah E. Johnson, John Lesher, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, Christina Won, Christopher Woodrow; Música: Antonio Sanchez; Fotografia (cor): Emmanuel Lubezki; Montagem: Douglas Crise, Stephen Mirrione; Casting: Francine Maisler; Design de produção: Kevin Thompson; Direcção artística: Stephen H. Carter; Decoração: George DeTitta Jr.; Guarda-roupa:  Albert Wolsky; Maquilhagem: Judy Chin, Kat Drazen, Jerry Popolis, Rondi Scott; Direcção de Produção:  Eric Bergman, Robert Graf, Erica Kay, Jim Kontos, Alex G. Scott, James W. Skotchdopole, Michael Tinger; Assistentes de realização: Catherine Feeny, Peter Kohn, Amy Lauritsen, Adam Somner; Departamento de arte: Michael Acevedo, Joseph A. Alfieri Jr., Gerald DeTitta, Eric Helmin, Gay Howard, Jane Wuu; Som: Aaron Glascock, Martín Hernández, Bradford Bell, Dave Bergstrom, Thierry J. Couturier; Efeitos especiais: Conrad V. Brink Jr., Louis Craig, Lewis Gluck, Johann Kunz; Efeitos visuais: Ivy Agregan, Ashley Bettini, Jake Braver, Edison Carter, Tyler Cordova; Companhias de produção:New Regency Pictures, M Productions, Le Grisbi Productions, TSG Entertainment, Worldview Entertainment; Intérpretes: Michael Keaton (Riggan Thomson / Birdman), Edward Norton (Mike Shiner), Emma Stone (Sam Thomson), Naomi Watts (Lesley), Zach Galifianakis (Jake), Andrea Riseborough (Laura), Amy Ryan (Sylvia Thomson), Lindsay Duncan (Tabitha Dickinson), Merritt Wever (Annie), Jeremy Shamos (Ralph), Katherine O'Sullivan, Damian Young, Keenan Shimizu, Akira Ito, Natalie Gold, Michael Siberry, Clark Middleton, Amy Ryan, William Youmans, Paula Pell, David Fierro, Hudson Flynn, Warren Kelly, Joel Marsh Garland, Brent Bateman, Donna Lynne Champlin, Valentino Musumeci, Taylor Schwencke, Craig muMs Grant, Kyle Knauf, Dave Neal, Kelly Southerland, Roberta Colindrez, Frank Ridley, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: Big Picture 2 Films; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Janeiro de 2015.