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sábado, abril 19, 2008

OS TUDORS CONTRA ATACAM


OS TUDORS – SEGUNDA TEMPORADA

Começou a emitir-se na América a segunda temporada da série “The Tudors” e estamos na posse de elementos que nos permitem dizer que vai haver muitas novidades. Para lá da aparição de Peter O’ Toole na figura de um Papa, surge a personagem de um tal Count António, de Portugal (ver imagem, e repare-se no anacronismo dos óculos e na falta de acento no António!), que se apaixona pela Rainha Virgem, Elizabeth, de quem, apesar do cognome, tem três filhos, acabando por se divorciar da monarca inglesa que, por causa disso, professa e vem para o Convento do Beato em Lisboa. Aqui chegada é desviada para a noite lisboeta, iniciando uma carreira de fadista que culmina com a edição de um vinil, “Count Antonio, my Perdition” (outra vez a falta de acento!). Na Grande Noite do Fado de 1532 consegue o galardão de “Revelação”, o que comove de tal forma o Count António que este a volta a querer de volta para dar uma volta na Volta a Portugal em Bicicleta que se anunciava para dai a uma semana, com partida da Quinta da Marinha.
Posto isto…. (alguém quer continuar esta saga? É só comentar com a leveza de espírito e a imaginação dos argumentistas da série)

TELEVISÃO: OS TUDORS RE-INVENTADOS


Teria D. João III sido assassinado pela mulher e nós não sabermos?
OS TUDORS E A PSEUDO-HISTÓRIA

Uma série sem nenhum rigor histórico e muito aberta a outras motivações.


“Os Tudors” é uma série de televisão que, produzida por canadianos e irlandeses (Peace Arch Entertainment / Showtime, Reveille Eire), e apresentada em Portugal pela RTP-2, no Outono passado, viu agora ser colocada no mercado a sua primeira série. À partida gosto de séries históricas e há que reconhecer que a BBC e alguns canais ingleses se têm notabilizado por certos bons empreendimentos. Se esteticamente podem ser por vezes demasiado convencionais, costumam ter algum rigor histórico e as liberdades ficcionais nunca ultrapassam o compreensível
Fui ver “The Tudors” com redobrado interesse, e acabei de os ver com redobrada irritação. Ainda podia compreender a flagrante transformação do reinado de Henrique VIII numa “quente” historieta de “Playboy”, com muita cena de sexo privilegiada em detrimento de uma análise histórica mais séria e rigorosa. Mas chegou uma altura em que a historieta descambou em palhaçada e não se percebe muito bem como em Portugal quase ninguém se revoltou publicamente com esta versão imbecil da História. Como é que a RTP-2 compra e exibe uma tal monstruosidade, não se percebe. Como historiadores, e portugueses em geral, não verberam esta versão televisiva de factos que têm a ver com Portugal e deturpam a verdade histórica de forma tão vil e deselegante, enfim, não compreendo.
Dos factos atraiçoados apenas comento um que julgo suficiente para mostrar o “rigor” desta série: em determinado momento, uma tal Margarida, irmã de Henrique VIII, é casada pelo rei, muito contra sua vontade, com um monarca português. Mandada para Lisboa, aqui descobre que o monarca tem avançada idade, nunca é tratado pelo nome, é esquelético e horroroso, escorre espuma libidinosa pelos olhos e a boca, atira-se à jovem rainha numa fornicação contínua, que lhe provoca um nojo convulsivo, até que, numa noite em que o rei se encontrava dormitando como um porco no seu real leito, a já rainha de Portugal e ainda Margarida de Inglaterra resolve abafar o esposo com uma pesada almofada até ao estertor final. Morto o rei de Portugal, a dita Margarida entrega-se ao abraço viril de um nobre inglês que tinha vindo de Inglaterra com o fito de a “auxiliar em tudo quanto a dama precise”. Ok, percebe-se.
Visto isto, eu que me formei em História, desconhecia por completo a existência deste rei português assassinado por uma malvada inglesa. Mas, tudo bem, deixa ver que rei será, fui vasculhar a cronologia e apenas D. João III poderia enquadrar-se na época. Cognominado O Piedoso ou O Pio pela sua devoção religiosa, nasceu 6 de Junho de 1502 e viria a falecer a 11 de Junho de 1557, tendo reinado desde 13 de Dezembro de 1521. Casado com Catarina da Áustria, infanta de Espanha (1507 - 1578), irmã mais nova do imperador Carlos V, dela teve nove filhos, tendo falecido todos. Este não foi de certeza. Teria sido o pai, e haveria um erro de datas? Dom Manuel I, nascido em Alcochete, a 31 de Maio de 1469, e falecido em Lisboa a 13 de Dezembro de 1521? Este foi mais casadoiro. Do primeiro matrimónio, com Isabel de Aragão, infanta de Espanha, teve um filho; do segundo casamento, com a sua cunhada Maria de Aragão, infanta de Espanha, teve dez filhos; do terceiro matrimónio, com Leonor da Áustria, igualmente infanta de Espanha, irmã do imperador Carlos V, teve mais dois filhos. Não consta que tenha sido casado com inglesa e menos ainda que tivesse sido assassinado. Chamavam-lhe O Venturoso, O Bem-Aventurado ou O Afortunado, pelos eventos felizes que ocorreram no seu reinado, designadamente a descoberta do caminho marítimo para a Índia e a do Brasil.
Ou seja, despudoradamente, inventam uma Margarida inglesa, irmã de Henrique VIII (existiram duas irmãs, uma era realmente Margarida, mas casou com um rei escocês) e inventam um rei Português e um assassinato que nunca existiu. E com base nestas invenções tratam Portugal como um reino de fim do mundo, bárbaro e mesquinho, troglodita na sua corte, com um rei idiota e etc. Não bastam já os reis idiotas que existiram em Portugal e Inglaterra, não bastam já os assassinatos que por essa altura se multiplicam pelas cortes europeias, era ainda preciso inventar?
Vergonhoso e indigno de ser visto numa qualquer série televisiva de um país civilizado em pleno século XXI. Não fossem estes (e outros) erros grosseiros, a série até era visível, boa fotografia, guarda-roupa e direcção artística aceitáveis, interpretações boas (com especial relevo para Sam Neill (Cardeal Wolsey) e Jonathan Rhys Meyers (Henrique VIII). O pendor sensacionalista e de apelo fortemente erótico não ajudava muito, mas ainda se poderia “compreender”, como “liberdade” poética que a ficção desculpa. Mas numa série que tem por base a História (e que por isso mesmo se chama “The Tudors”!), por favor, poupem-nos! É demais.

A segunda série já em exibição promete mais do mesmo.