Quarta-feira, Maio 30, 2007

LIVROS: "CIDADE PROIBIDA", DE EDUARDO PITTA

“CIDADE PROIBIDA”


Devo confessar: comprei o livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase na íntegra, um bom blogue, “Da Literatura”, e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se Eduardo Pitta, o romance de estreia é “Cidade Proibida”, e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão catalogar de “literatura gay” e colocá-la na banca assim denominada. Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para facilitar vendas: os gays que procuram “literatura gay” vão àquela banca e escusam de se perder no meio da “literatura hetero”. Mas haverá “literatura gay”? Óscar Wilde e E.M. Forster são “literatura gay”? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura?
Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li “Cidade Proibida” de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Óscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o “Maurice”, de E.M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90, como Bret Easton Ellis (“Psicopata Americano”, entre outros), repleta de referências muito precisas a cidades, locais, marcas… Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página: “Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da Misericórdia.” Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma “Tábua de personagens” onde refere e sinaliza cada personagem e cada família: Martim, dos bem instalados Moncadas, português dos Estoris, que estuda em Inglaterra e encontra em Portugal Rupert, dos Davies, proleta inglês que dá aulas no British Council (e não no Instituto Britânico, pormenor que faz toda a diferença no tom do livro). Vivem juntos, são homossexuais, cruzam-se com um vasto elenco de personagens e não há muito a contar desta história que poderia ser igual a tantas outras se não a distinguisse o tom em que está contada. O que transforma este romance, para mim, numa das revelações dos últimos anos.
É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto.
Um excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário do jornal Público, escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2007 lançou oito livros de poesia, uma colectânea de contos, quatro volumes de ensaio e crítica, e um diário veneziano. Num desses ensaios, “Em Fractura, ensaio sobre a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea”, “sinaliza representações da homotextualidade nacional numa perspectiva que não elide a “negociação de identidade”. Colaborou em publicações literárias de vária índole. Entre 1994 e 2005 manteve na revista LER a coluna de crítica O Som & o Sentido. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Em ficção, Eduardo Pitta, editou, e reeditou agora, livro de contos “Persona”. Vou procurar.



Um excerto de “Cidade Proibida”

“Assim que decidiram viver juntos, Martim e Rupert procuraram casa num triângulo cujos vértices eram o Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha. A escolha recaiu num andar da Rua Mouzinho da Silveira, originalmente destinado a um arquitecto que desis­tira dele. Rupert continuava a achar absurdo o preço das casas portu­guesas, e não queria comprar, mas um dia Martim apareceu-lhe nas aulas com as chaves.
- Podes passar a vir a pé para o emprego...
Rupert vivera até então em Carcavelos, numa espécie de comuna que partilhara com professores ingleses de ambos os sexos. Apanhava o comboio todos os dias, seguindo depois a pé do Cais do Sodré para o Instituto.
- Anda, vem ver. Depois almoçamos no Pabe.
Com o skyline das colinas a toda a largura das janelas e o rio ao fundo, a vista do 4.° andar era magnífica. A casa estava vazia, só se mudaram ao fim de dez dias, mas Rupert ficou logo impressionado com a luminosidade, o soalho, o recorte dos estuques, o fogão de sala com sólidas guardas de bronze, o granito rosa das casas de banho e a tralha hi-tech da cozinha. Foi justamente na cozinha que Martim o comeu. A mesa era larga, tinha boa altura e um tampo surpreenden­temente macio. Não se lembra qual dos dois chupou primeiro o outro. Lembra-se da luz crua do sol, de ter arrancado as calças e os briefs de Rupert, obrigando-o a dobrar-se no tampo de pedra negra, ao mesmo tempo que com a mão aberta lhe apertava a garganta à medida que o penetrava. Nunca tinham fodido de pé. O orgasmo foi praticamente simultâneo, sem que Rupert tivesse necessidade de se tocar. Nessas ocasiões, Martim afrouxava a pressão dos dedos para melhor sentir estremecer o corpo do companheiro.
Quando entraram no restaurante, a mesa predilecta de ambos, no canto à esquerda de quem entra, estava vazia. Milagre! Martim largou a pasta junto ao vitral e dirigiu-se ao balcão.
- Farinha, prepare dois Bloody Mary. Também queremos almoçar, eu sei que é um pouco tarde, mas diga ao Lopes que somos nós.
- Então o senhor doutor não sabe?
- Não sei o quê? Era o 11 de Setembro.
Nessa manhã Martim não tinha ido à empresa, viera para Lisboa com o fito de mostrar a casa a Rupert. O telemóvel continuava na pasta, provavelmente desligado, e Rupert, com a pressa da saída, esquecera-se do seu no Instituto. A notícia provocou neles um estupor que durou dias. Esqueceram o almoço e foram para casa de Nora. A televisão repetia incessantemente as imagens dos aviões a embater nas torres. Quando a primeira desabou já eles estavam em casa. Martim julgou ouvir ranger os dentes de Rupert mas o eco da reportagem triturava tudo. Nora, que também tinha ido para o Estoril, entrou na biblioteca no exacto momento em que uma gigantesca onda de detritos engolia as ruas à volta do WTC. Ficou parada a ver de longe, as mãos apoiadas na mesa de jogo, e depois avançou devagar, colocando-se no meio dos dois e enlaçando-os pela cintura. Nenhum dos três falou, olhos vazados no ecrã.
Martim saiu de casa da mãe no dia 21.”
In “Cidade Proibida”, de Eduardo Pitta, pag. 33-34, Ed. Quidnovi, Matosinhos, Lisboa, 2007

Ver mais sobre Eduardo Pitta em: http://www.eduardopitta.com/index.html

Terça-feira, Maio 29, 2007

VAVA.DIANDO COM LÍDIA JORGE

6 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A V Á . V Á . D I A N D O
30.05’07: 20H
R E S T A U R A N T E - C A F É V Á V Á

CONVIDADO ESPECIAL:
LÍDIA JORGE
VOCAÇÃO DE ESCRITORA

DEPOIS DE RAUL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO e IVA DELGADO, CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, REATANDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.


LIDIA JORGE, ESCRITORA, UM DOS VULTOS DA CULTURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA, ESTARÁ NO CENTRO DE MAIS UM DEBATE. “COMBATEREMOS A SOMBRA”, SUA ÚLTIMA OBRA.

TODOS ESTÃO CONVIDADOS MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA SIMBÓLICA QUANTIA: 12,5 EUROS POR PESSOA.
COM DIREITO A SOPA (DE ALHO FRANCÊS), UM PRATO DO DIA, PEIXE (FILETES COM SALADA RUSSA) OU CARNE, (ARROZ DE PATO) SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

RECUPEREM O BOM GOSTO DE UM SABOROSO JANTAR E DE UMA RECONFORTANTE CONVERSA À RODA DA MESA.
[ LOTAÇÃO LIMITADA A 45 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]

Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO / [ Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/ ] [ mail: laproducine@gmail.com ]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761)

LIVROS, FILMES E HISTÓRIA

O VÉU PINTADO

“.. esse véu pintado a que os que vivem chamam Vida.”


“The Painted Veil” é um excelente romance de W. Somerset Maugham e resulta num agradável filme de John Curran (2006). O mesmo romance já merecera várias adaptações ao cinema, duas das quais bastante citadas, uma de 1934, interpretada pela divina Greta Garbo, ao lado de Herbert Marshall e George Brent, numa realização de Richard Boleslawski, outra dirigida por Ronald Neame, em 1957, com Eleanor Parker, Bill Travers, Jean-Pierre Aumont, George Sanders e Françoise Rosay, que nas salas de cinema se chamou, de forma bem mais picante,"The Seventh Sin".
O romance "The Painted Veil" encontra-se ao nível do melhor de W. Somerset Maugham, podendo colocar-se ao lado de “A Condição Humana” ou “O Fio da Navalha”, na mesma linha de “As Paixões de Júlia” ou “Um Gosto e Seis Vinténs”. W. Somerset Maugham é, aliás, escritor de múltiplos talentos que sempre entusiasmou os seus leitores e deixou uma marca profunda no cinema, onde muitos trabalhos seus tiveram vida prolongada e, por vezes, saudáveis adaptações. Durante algum tempo era dos escritores contemporâneos mais conhecidos do universo da escrita anglo-saxónica, dos mais traduzidos por esse mundo fora. Depois atravessou uma zona de obscuridade, durante a década que terminou o século XX, mas ressuscitou em força com o dealbar do século XXI, com clara intenção de se estabilizar novamente entre os nomes mais correntes da literatura e dos autores mais vistos no cinema. A sua obra tem não só qualidade como uma actualidade resistente, uma elegância de estilo que cativa, uma temática eterna.
Esta nova adaptação de “O Véu Pintado” parece ficar a dever-se essencialmente ao actor Edward Norton que, conjuntamente, com a colega Naomi Watts são co-produtores do filme. Ele vivia entusiasmado com a perspectiva de interpretar em cinema a personagem do bacteriologista Walter Fane. Boa aposta, diga-se desde já, pois a sua composição, de um rigor e disciplina inexcedíveis, é uma das bases do sucesso desta obra, encabeçando aliás um elenco muito homogéneo, onde se contam ainda os nomes de Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Diana Rigg ou Juliet Howland. Mas foi Edward Norton quem batalhou para que o realizador John Curran e o argumentista Ron Nyswaner conseguissem levar a sua ávante.

Em meados dos anos 20 do século XX, em Inglaterra, Kitty Fane (Naomi Watts), filha de família remediada, mas com problemas de afirmação social, mãe dominadora e pai demissionário, descobre que a única forma de se libertar dessa tentacular rede de humilhação familiar é mesmo aceitar casar com o primeiro pretendente que lhe apareça. Ele é Walter Fane (Edward Norton), um bacteriologista que trabalha num laboratório governamental inglês na China. Ela não gosta dele, para ser sincera ele é-lhe completamente indiferente, acha-o mesmo algo estranho, metido consigo e distante, mais tarde dir-lhe-á que sempre o achou “fisicamente repulsivo”, mas, talvez por todo esse conjunto de impressões, aceita o pedido de casamento e parte para Xangai.
Em Xangai não demora muito a afeiçoar-se a Charlie Townsend (Liev Schreiber), vice-cônsul, uma homem sedutor e galante que rapidamente leva Kitty para a cama, ainda por cima uma cama em casa do bacteriologista, onde são pressentidos, mas não descobertos. Walter prefere não abrir a porta do quarto, apenas rodar a maçaneta e deixar a mulher perante o dilema da dúvida: será que fui apanhada ou não? Mas tudo se precipita a partir daí: numa aldeia chinesa a cólera explode com intensidade inusitada, o médico local morre, é preciso alguém para o substituir e Walter, apesar de não praticar clinica, é especialista em epidemias, e oferece-se para o lugar. Mas é nesta altura que irá estabelecer a sua vingança. Kitty terá de o acompanhar. Ela protesta, “que loucura, não quero ir, já viste a situação em que me colocas?”, mas ele não desiste. “Julgas que não sei do teu adultério?”, pergunta. Kitty cai em si. Percebe que não terá nenhum divórcio amigável, fica desorientada. Walter faz-lhe uma proposta irrecusável: “Vai ter com Charlie Townsend, se ele se divorciar para casar contigo, no prazo de uma semana, eu dou-te o divórcio e parto sozinho para Mei-tan-Fu.” Kitty corre para Charlie Townsend mas este descarta-se do caso, não pode abandonar a mulher, a carreira, etc. Kitty percebe que investiu demasiado num homem que apenas se queria divertir. Regressada a casa, aceita partir para a morte: – “Suponho que não devo levar mais do que meia dúzia de roupas de Verão e uma mortalha, pois não?”
Partem, por terra, dez longos dias de sofrimento físico e moral, levados pelas montanhas em liteiras, cruzando-se com cadáveres em busca de sepultura, até chegarem ao âmago do desespero e do pânico. Mei-tan-Fu é no fim do mundo e o fim do mundo não poderia ter cenário mais apropriado. No convento local, improvisada enfermaria, morre-se às dezenas; no cemitério local, que bordeja o rio, não há já espaço para sepultar mais ninguém, os corpos invadem a água, que fica contaminada; nas ruas os enterros cruzam-se com grupos de revolucionários que mandam para casa os colonialistas ingleses. “Go home!” As lutas anti-colonialistas na China estão no seu auge, ninguém se sente seguro, mesmo na mais longínqua aldeia, mesmo o mais abnegado médico que tenta salvar vidas não olhando à cor da pele. O cenário é de majestoso caos. Como em muitos outros romances de W. Somerset Maugham o caminho é o da aprendizagem da redenção: Kitty vai aprender a olhar para o sofrimento alheio, vai deixar de ser a menina mimada que fora até ali, vai descobrir os outros e vai descobrir-se a si própria, e vai sobretudo “descobrir” Walter Fane. Esse percurso, que é a essência do livro, e deste filme, é o caminho que o espectador irá percorrer, acompanhado por uma pitoresca personagem, o comissário Waddington (Toby Jones, o mesmo de “Infame”), e por uma madre superiora de um convento de religiosas francesas (Diana Rigg, a mesma de “Os Vingadores”, de há trinta anos), sendo ambos figuras indispensáveis no amadurecimento intelectual e sobretudo espiritual de Kitty. A fotografia de Stuart Dryburgh (que assinara "The Piano") é outro elemento importante para a definição de um espaço geográfico e humano propício ao desenrolar do drama, bem assim como a partitura musical de Alexandre Desplat.


Assim se passa este melodrama que é uma trágica história de desencontros amorosos no alvorecer de uma China nacionalista. Acontece que tanto o livro como o filme reflectem não só esses aspectos intimistas e individuais como o fazem integrando-os em contextos colectivos, com base histórica e evidente interesse sociológico. Muito curioso será referir a forma como é esboçado o ambiente social inglês de início do século XX, que empurra a jovem Kitty a afastar-se de uma família asfixiante e gananciosa nem que, para tanto, tenha de aceitar um casamento de conveniência. Kitty pensa que Walter a ama e julga que esse amor bastará para ultrapassar a sua indiferença e crê que essa situação é muito melhor que o desamor da família. Engana-se parcialmente, mas só o descobre tarde de mais. É, no entanto, um interessante retrato de uma mulher que se procura impor numa sociedade cujas regras limitam a sinceridade e espontaneidade e apontam para a hipocrisia e os interesses materiais. Não tanto uma sociedade machista, curiosamente, pois a prepotência é exercida fundamentalmente por uma mulher, a mãe. Os homens até se mostram dóceis, nesta sociedade matriarcal. Vejam-se os casos do pai de Kitty, completamente dominado pela vontade da mulher, e posteriormente Walter que, apesar de ter um comportamento rigoroso e de poucas palavras, absorto sempre na sua vida científica e nos livros, se apresenta igualmente como um homem tranquilo e sensível. Mas a diferença de maneiras de ser revela-se fatal. Kitty é uma mulher-criança que gosta de reuniões sociais, bailes e festas, enquanto Walter aprecia o silêncio e o retiro. Transpostos para a longuínqua e misteriosa China, primeiro surge a leviana traição, depois cresce a maturidade, imposta pelo isolamento e pelas circunstâncias adversas. W. Somerset Maugham, cosmopolita na sua sociabilidade, mas espiritualista na essência, aponta o caminho da renúncia e da redenção como forma de descobrir o amor na convivência profunda das pessoas e não no usufruto de um prazer imediato, mas sem futuro. No sacrifício e na contrariedade se caldeiam os sentimentos. Visão religiosa e mística, obviamente, mas que a sobriedade e o rigor de escrita do escritor tornam legítima. Aliás, W. Somerset Maugham não defende uma religião, tanto que aponta o Tao oriental como um “Caminho” possível, ao lado da fé das freiras francesas. A ideia é, sobretudo, valorizar o conhecimento profundo em detrimento do efémero, a experiência por vezes traumática em vez da facilidade e do comodismo. O que, nos dias de hoje, não deixa de ser uma aposta contra a corrente do imediatismo. Aliás, o filme parece até sublinhar com alguma argúcia certos aspectos que no livro aparecem somente indicados. Deve dizer-se que globalmente a adaptação é boa e inteligente, mantendo, na sua essência, o espírito do romance, ainda que aqui e ali necessite de condensar certas passagens (sobretudo na parte final do romance, que é muito mais extensa que o filme) ou, noutros casos, alterar a ordem da sua apresentação. Um exemplo: o livro inicia-se já na China com a cena de adultério; o filme prepara-a com uma longa sequência em Inglaterra, durante a qual vamos assistir à aproximação de Walter de Kitty, e onde se descobre toda a teia de humilhações familiares que levam Kitty a tomar a decisão de casar para se libertar dessa tentacular opressão diária. É evidente que o livro também descreve estes acontecimentos, mas posteriormente, e a alteração da ordem, no filme, é sintomática de uma outra perspectiva.
De resto, o filme apresenta uma narrativa inteligente e ágil, há momentos de certa inspiração na montagem (como quando se ligam, através de uma mesma imagem, lugares e tempos distintos) e os contornos históricos e sociais saem reforçados no filme, à luz de uma compreensão contemporânea do colonialismo. Mas a este aspecto voltaremos mais tarde.

(...) William Christened Somerset Maughan, um dos mais conhecidos e disputados escritores ingleses do século XX, nasceu a 25 de Janeiro de 1874, em Paris, França, de pais ingleses, e veio a falecer em Cap Ferrat, Nice, França, a 15 de Dezembro de 1965, vítima de pneumonia. Apesar de ter nascido em Paris, W. Somerset Maugham foi desde sempre um súbdito inglês. O pai, Robert Ormond Maugham, que era advogado da Embaixada inglesa na capital francesa, fez para que tal acontecesse, a fim de impedir que o filho fosse mais tarde considerado francês e tivesse de combater sob a bandeira deste país.
A mãe de Maugham, Edith Mary, morreu ainda nova, aos 41 anos, depois de um parto. Este facto traumatizou para sempre o jovem Somerset Maugham, levando-o a não mais se afastar de um retrato da mãe que manteve no seu quarto até ao dia da sua morte, com 91 anos. Mas dois anos depois da morte da mãe, morre o pai, vítima de cancro, e Wlllie é enviado para Inglaterra, para casa do seu tio Henry MacDonald Maugham, vigário de Whitstable, em Kent, um homem frio e cruel que transforma a juventude do futuro escritor num negro episódio de um romance de Charles Dickens. A sua fraca figura e o seu mau inglês (o francês tinha sido a sua primeira língua) foram argumentos suficientes para ser humilhado e perseguido nos seus tempos iniciais de estudante. Estuda na The King's School até que, aos dezasseis anos, recusa continuar ali, parte para a Alemanha, onde se inscreve na Universidade de Heidelberg. Estuda literatura e filosofia e conhece John Ellingham Brooks, um inglês mais velho dez anos, que o inicia na sua primeira experiência sexual. De regresso a Inglaterra, oscila entre a carreira de armas e a medicina, mas acaba por optar pela segunda. Durante cinco anos estuda medicina em Londres, no hospital de St. Thomas. Vários dos seus livros se refe­rem a essa época, nomeadamente a sua obra-prima “Servidão Humana” (Of Human Boundage, 1915).
O sucesso dos primeiros livros, “Liza de Lambeth” (Liza of Lambetll, 1897) e “Mrs Craddoek”, 1902, inscritos numa corrente de um certo realismo social, persuadiu-o a abandonar a medicina para se con­sagrar inteiramente à literatura. Durante uma década não voltou a ter um triunfo idêntico, mas, em 1907, a sua peça de teatro “Lady Frederick” obteve um êxito absolutamente invulgar. Viaja por Espanha e Capri, e, em 1914, tinha escrito 10 peças e outros tantos romances. Durante a I Guerra Mundial, Maugham serviu em França como membro da Cruz Vermelha inglesa, num grupo de 23 personalidades, conhecido por "Literary Ambulance Drivers", onde se incluíam nomes como os Ernest Hemingway, John Dos Passos, ou e. e. cummings. Foi nesse período que conheceu Frederick Gerald Haxton (1892 – 1944), um jovem de São Francisco, que se torna seu companheiro, secretário e amante, até à morte deste, em 1944 (Haxton surge mesmo na figura de Tony Paxton, na peça de Maugham, de 1917, “Our Betters”). Para fugir a perseguições puritanas como as que destruíram Oscar Wilde, o casal, terminada a guerra, instalou-se numa vivenda, “Mauresque”, na Riviera Francesa. Só dali saiu quando os alemães avançaram sobre a França, retirando-se para Nova Iorque, onde Haxton viria a falecer vítima de alcoolismo. W. Somerset Maugham dedica-lhe, em 1949, uma compilação de ensaios: “A Writer’s Notebook: In Loving Memory of My Friend Frederick Gerald Haxton, 1892 -1944”.
Apesar do seu assumido homossexualismo, S. Somerset Maugham teve vários “affairs” com mulheres, nomeadamente um que se tornou particularmente polémico, com Syrie Wellcome, filha de Thomas John Barnardo, fundador de um orfanato, e mulher do milionário farmacêutico Henry Wellcome, de quem teve uma filha, Liza (baptizada Mary Elizabeth Wellcome, 1915-1998). Henry Wellcome impôs o divórcio e, em Maio de 1917, Syrie, então uma decoradora de interiores de grande celebridade, e Maugham casaram-se. Em 1922 Maugham dedica a Syrie “On A Chinese Screen”, uma colectanea de 58 histórias reunidas depois de uma viagem pela China e Hong Kong. Divorciam-se de forma tempestuosa em 1928, em parte por causa das constantes viagens do escritor e do seu romance paralelo com Haxton.
Quer como romancista, quer como dramaturgo, Somerset Maugham sempre soube despertar a simpatia do público, permitindo-lhe esse seu constante êxito de vendas viver de harmonia com os seus gostos: viajou não apenas pela Europa como ainda pela América e pelo Oriente e, durante a primeira guerra mundial, foi encarregado de uma missão secreta na Rússia, donde resultou uma personagem de espião, “Ashenden”, que irá justificar a publicação de um volume de curtas histórias que muitos julgam estar na base da criação de Ian Fleming, James Bond.
“Of Human Bondage”, a sua obra de consagração, não foi inicialmente muito bem recebido nem pela críitica nem pelos leitores, mas tornou-se uma obra inquestionável a partir da altura em que o influente escritor norte americano Theodore Dreiser lhe chamou “obra de génio”, comparando-a a uma sinfonia de Beethoven.
Retirado em St. Jean-Cap Ferrat, na costa francesa, Somerset Maugham aproveitou as suas experiências pessoais e as observações que foi fazendo ao longo das viagens que o levaram a todos os cantos do mundo. Foi visto como o mais cosmopolita dos escritores ingleses contemporâneos e, sob certos aspectos, poderia considerar-se mais francês do que inglês (Somerset Maugham confessou que, antes de iniciar a escrita de uma nova história, lia invariavelmente “Cândido”). Somerset Maugham, como muitos outros romancistas anglo-saxónicos seus contemporâneos, vivia obcecado pelos problemas morais e religiosos: “O Véu Pintado” (The Painted Veil, 1925) é um bom exemplo dessa mensagem de regeneração e em “O Fio da Navalha” (Tlle Razor's Edge, 1944) faz a exaltação do misticismo ascético, não deixando no entanto de ser um homem mundano, tolerante mas, simultaneamente, um crítico austero e compadecido dos humanos pecados. Em 1938, Maugham confessou: "It must be a fault in me that I am not gravely shocked at the sins of others unless they personally affect me." Há quem veja nesta confissão uma forma do escritor absolver vícios privados, sobretudo o seu proverbial apetite sexual, desculpando fraquezas alheias. Muitas vezes transferia para o universo feminino a sua voluptuosidade homossexual, pois os tempos não lhe permitiam exprimir livremente a sua própria experiência. Isso explicaria a existência nas suas obras de tantas mulheres que se deixam seduzir pelas fraquezas da carne. Mas que, na maior parte das vezes, por elas são marcadas negativamente, apesar de haver invariavelmente um momento de regeneração e sublimação do pecado.
Escritor de grande saber oficinal e de requintada sensibilidade, ostentava uma malícia fina e cáustica, envolvida por uma ternura e compreensão humana igualmente invulgares. No “Dicionário dos Autores Universais”, pode ler-se: “Nos livros autobiográficos, “O Exame de Consciência” (The Summing Up, 1948) e “Apontamentos do Autor” (An Author's Notebook, 1949), Somerset Maugham fala franca­mente, embora de maneira desligada, das suas experiências, das suas leituras, das suas preocupações ético-filosóficas; as conclusões que tira da vida são, no fundo, as mesmas que colheria um protestante liberal, um moralista dramático. A crí­tica nem sempre lhe foi favorável, gostando de rotulá-lo de “superficial”, apesar de “competente”; porém, a sua habilidade de narrador, uma clareza de espírito quase francesa e a verosimilhança dos personagens e dos ambientes fizeram dele um ben­jamim do público.” É conveniente não esquecer que S. Somerset Maugham lutou contra titãs que impunham uma nova literatura e abriam caminho à modernidade, tais como William Faulkner, Thomas Mann, James Joyce ou Virginia Woolf, entre muitos outros.
Da sua produção devem citar-se ainda, entre alguns outros: “Um Gosto e Seis Vinténs” (The Moon and Sixpence, biografia de Gauguin, 1919); “Destino de um Homem” (Cakes and Ale, que retrata, apenas veladamente, certos personagens do mundo literá­rio contemporâneo, 1930); “Cavalheiro de Salão” (The Gentleman in the Parlor), belíssimo livro de viagens. Entre as obras teatrais, numerosas e varia­díssimas mas um tanto próximas, recordamos: “Os Nossos Superiores” (Our Betters, 1917); “The Cir­ele” (1921); “The Lelter” (1923). Das suas novelas, em grande número, existe uma colectânea: “As Novelas Completas” (The Complete Short Stories, 1951).” Na literatura de viagens também é de sublinhar a sua contribuição, sobretudo com dois títulos, “The Gentleman In The Parlour”, uma viagem pela Birmânia, Sião, Cambodja e Vietname, e o já citado “On A Chinese Screen”. Publicou igualmente, em 1949, uma selecção de apontamentos de diários pessoais, "A Writer's Notebook".

Durante a II Guerra Mundial refugiou-se nos Estados Unidos da América, inicialmente em Hollywood, onde escreveu vários argumentos e foi um dos primeiros escritores a viver desafogadamente de adaptações de romances seus. Depois passou para o Sul, onde permaneceu alguns anos. Após a morte de Gerard Haxton voltou a Inglaterra, mas em 1946 instalou-se definitivamente em França, alternado permanências e viagens até à data da sua morte.
A sua vida amorosa conheceu nova relação, mantendo-se agora ligado a Alan Searle, que conhecera em 1928, mas que se tornou seu novo secretário e companheiro, depois da morte de Haxton. Um amigo comum definiu a diferença entre Haxto e Searle do seguinte modo: "Gerald era colheita especial, Alan era vinho ordinário." A existência amorosa do escritor nunca foi simples. Num momento de maior sinceridade, escreveu: "I have most loved people who cared little or nothing for me and when people have loved me I have been embarrassed... In order not to hurt their feelings, I have often acted a passion I did not feel."
Em 1947 Maugham instituiu o “Prémio Somerset Maugham”, para o melhor jovem escritor publicado no ano anterior. Por este galardão já passaram vários escritores que se tornaram particularmente notados, como V.S. Naipaul, Kingsley Amis, Martin Amis ou Thom Gunn. Em testamento, Maugham ofereceu os seus direitos de autor à Royal Literary Fund.




excertos de um artigo sobre "O Véu Pintado" a aaprecer na revista História", de junho de 2007.

Segunda-feira, Maio 28, 2007

LIVROS: "PARAÍSO TRAVEL", DE JORGE FRANCO

Sobre Jorge Franco disse Gabriel Garcia Marques: “um dos autores colombianos a quem gostaria de passar o testemunho.” Não é elogio de somenos.
Nascido em 1962, em Medellín, cidade colombiana, mais conhecida por outros carteis, Jorge Franco estudou Literatura na Universidade Javeriana e mudou-se para Londres para estudar cinema na The London International Film School. De regresso à Colômbia, continuou estudos e técnicas de criação narrativa na Oficina de Escritores da Universidade Central de Bogotá. Em 2001 publicou “Rosário Tesouras” (Prémio de romance Dashiell Hammett Internacional em Gijón, Espanha), que foi assinalado por, de alguma forma, ter «quebrado em mil pedaços o realismo mágico que se impusera durante trinta anos na Colombia», transformando num bestseller esta obra. Antes tinha publicado uma recolha de contos e um romance, “Maldito amor” e “Mala Noche”. Posteriormente a “Rosario Tijeras”, lançou “Paraíso Travel” e “Melodrama”, todos três editados recentemente pela Quetzal Editora, em Portugal. Sobre o autor, Carlos Fuentes disse: “São tantos os que me falaram dele que não vou perder, por nada deste mundo, o prazer de o ler.” Mario Vargas Llosa afirmou no diário “El País”: “Recomendo dois romances que li de um fôlego durante a minha viagem [¿] um deles é “Rosário Tesouras”, de Jorge Franco”. Sobre “Paraíso Travel”, disse-se nos Estados Unidos: “Podemos festejar: escreveu-se o Grande Romance Americano (de todas as Américas), embora localizado muito longe da Macondo de García Márquez; na verdade, situado aqui mesmo.” (Victor Cruz Lugo, Hispanic). É a euforia da descoberta de uma voz nova latino americana, uma voz que não tem vergonha de ser colombiana, que exalta os valores do País natal e que, não desconhecendo as dificuldades por que passa a Colombia, não faz o choradinho da desgraça nacional. Opta por um registo pitoresco, por narrativas muito cinematográficas, uma escrita visual, uma montagem em “flash backs” de tempos diferentes, personagens de carne e osso num desenho onde impera humor e a ternura. Há que fale de uma certa influencia da literatura brasileira em Jorge Franco. Vão mais longe e apontam Robem Fonseca, sexo e violência. Curiosamente, para quem acabou de ler “Mundo Perdido”, de Patrícia Melo, há muitas analogias, na escrita, no ritmo da prosa coloquial, na própria intriga, com persoagens que procuram personagens, sendo toda a obra o acompanhar de uma busca insana.
Em “Paraíso Travel” há um protagonista, Marlon, que parte da Colômbia para Nova Iorque, em busca do Paraíso prometido. Não que a ele lhe interesse muito as melhorias de vida que lhe prometem e em que ela não acredita muito, mas sobretudo porque ama Reina, e esta só lhe promete o Paraíso em terras de gringos. Falam de Paraísos diferentes. Ela vai à procura de uma casa com vista sobre a Estátua da Liberdade, um quintal, um cão, talvez um filho. Uma vida melhor, com que sonha há muito e que tudo faz para alcançar, mesmo que tenha de roubar e enganar, emigrar a salto, chegar a Manhattan e perder-se de Marlon na primeira esquina. Quanto a Marlon o Paraíso são as perna de Reina, os seus olhos, um de cada cor, a forma como se desloca, a macieza da pele, e tudo isso ele só terá em Nova Iorque. Nem um nem outra atingirão o Paraíso. De Reina ficamos sem nada saber logo no inicio, tal como Marlon. Deste vamos acompanhando a perseguição de um sonho por terras americanas. A desilusão é tremenda, sofre que nem um cão, mas nada no livro é demagogia barata, Nova Iorque não é o Paraíso, mas também não é por isso que é um inferno. O inferno surge do facto de se procurarem Paraísos utópicos e não é a América quem os vai afastar da realidade em que viviam. Não basta atravessar fronteiras a salto para mudar a vida. Pode dizer-se que “Paraíso Travel” é a história de um amor louco que se transforma em pesadelo, mas acabará por reverter numa experiência positiva para quem a vive. Um belo romance de um autor que vou continuar a aprofundar. Já comprei igualmente “Rosário Tesouras” e “Melodrama”. Quanto a “Paraíso Travel”, anuncia-se adaptação para cinema numa co-produção colombiana e norte americana. O realizador será Simón Brand, conhecido sobretudo por dirigir videoclips, homem das relações de Mel Gibson e Jim Caviezel. Jorge Franco adaptou o seu livro, em colaboração com Juan Manuel Rendón. A mexicana Ana de la Reguera fará parte do elenco, enquanto cantora (interpretará entre outras canções, "Te busco", de Celia Cruz). Do elenco fazem ainda parte Aldemar Correa, Mateo Gómez e Margarita Rosa de Francisco.
Sobre a relação entre a sua escrita e o cinema, Jorge Franco disse: "Creo que hay mucha influencia, no sólo por mis estudios sino también porque pertenezco a esa generación de escritores que desde niños estamos altamente influenciados por los medios de comunicación audiovisuales, somos una generación que nos criamos viendo programas de televisión, con tele en el cuarto, casi teleadictos diría yo... y esa influencia se ha dejado ver en nuestra literatura. El uso de tres tiempos narrativos, flash-backs o los mismos diálogos tienen una clara influencia cinematográfica".


Excertos de “Paraíso Travel”

“Pude haber muerto ese amanecer en que perdí mis pasos, no sólo porque la misma muerte me tocó el hombro sino porque lo deseé con rabia. Recordé y entendí las tantas veces que Reina decía: mejor matémonos, y que de tanto decirlo ya nadie le abría los ojos como al comienzo.
-Mejor matémonos -decía iracunda ante cualquier contrariedad.
Yo temía no sólo por la vida de Reina sino por la de todos, por la mía, que yo cuidaba sin explicación, o tal vez por ese amor pesimista que siempre le he tenido a la vida. Amor que me duró hasta esa noche en que fui el más desesperado de todos los vivos, cuando por primera vez pensé: mejor muerto, peor vivo y sin Reina. Aunque fue precisamente el recuerdo de sus ideas extrañas el que me llevó a considerar que podía dar unos pasos más.
Supe que al correr comenzaba a perderla, que también me perdía yo en lo que dura un parpadeo. Mientras huía de los policías pensé en ella, en su boca iracunda después del grito: ¡no salgas, Marlon!
Pero mi rabia también contaba y salí sin sospechar que esa noche me iba a perder en el más grande y enredado de los laberintos, resignado a tener como último recuerdo de Reina su gesto bravo, llamándome como de niño me advertía mamá: ¡no salgas a la calle, Marlon Cruz!
Le grité a Reina y salí. Nos gritamos el cansancio y el silencio que habíamos guardado desde que le dijimos sí al disparate de venir a buscar futuro a Nueva York.
-¿Nueva York? -le había preguntado.
-Sí, Nueva York.
-¿Y por qué tan lejos?
-Por que allá queda -me dijo Reina.
La idea fue suya. En general, todas las ideas eran de ella. Yo también las tenía a veces pero sólo las de Reina se echaban a andar. Y ésta ya la tenía andando. Cuando me lo dijo ya era una decisión. No me preguntó si yo estaba de acuerdo.
-Nos vamos los dos -dijo.
También habló de las oportunidades, de los dólares, de ganar bien, de vivir mejor, de salir de este pobre mierdero.
-Aquí no hemos hecho, ni estamos haciendo, ni vamos a hacer nada.
De tener por fin un sitio para los dos, de prosperar, y hasta de tener hijos, habló. Lo dijo con los ojos muy brillantes, y tan sinceros que le creí. Tan decididos que me asustaron.
-Pero eso está lejos y no conocemos -le dije.
Reina me apretó las manos y se pegó bien a mi boca. No vi sus ojos sino dos manchas vidriosas de colores diferentes que se movían rápido, como buscando el pavor detrás de los míos. También le cambiaba el aliento a Reina cuando hablaba con otro humor.
-Nos vamos los dos -repitió-. ¿O te vas a quedar aquí, igual a tu mamá, a tu papá, o al mío, jodido como todo el mundo?
Lo dijo bajito, con los labios pegados a mi cara, apretando el cuerpo, exhalando aire caliente por la nariz, sin rabia pero resuelta, clavándome los pechos en cada respiración, para que yo sintiera lo que me iba a perder si me quedaba.
-Nos vamos los dos.
No me dio un beso como pensé, sino que despegó la cara y metió la mano entre mi pelo. Ahí la dejó y siguió mirándome, como esperando a que yo le dijera algo diferente al sí que ella ya había asumido, tal vez una idea fresca que reforzara su plan, algo que le mantuviera el brillo a su mirada bicolor.
-Pero yo no hablo inglés, Reina -fue lo único que le dije, y ella sacó la mano de mi pelo.
La idea fue suya. Se lo reclamé cuando llegamos. Ya no nos quedaba dinero, no existía la dirección a donde teníamos que llegar y las cosas no habían salido como esperábamos. Habíamos aguantado y callado durante todo el trayecto. Casi no dormimos porque el sobresalto no nos dejaba, y en el día tampoco pudimos descansar, y muchas veces dudé si alguna vez llegaríamos adonde Reina quería llegar. Se lo saqué en cara:
-La idea fue tuya -le dije con rabia.
-Ya lo sé -me dijo ella-. Vos no tenés ideas.
Le reclamé que ese cuartucho nada tenía que ver con el sitio que ella me hizo soñar, el que me describió cuando imaginábamos la vida que llevaríamos. Ella era la que me contaba como si ya conociera todo, como si ya hubiera venido antes a preparar la llegada: es un apartamento blanco con vista al río y a la Estatua de la Libertad, en un piso alto con una terracita que tiene un jardín chiquito y dos sillas para sentarse a mirar el atardecer en Nueva York. Me habló de un perro que tendríamos y que sacaríamos a pasear después del trabajo y que cuidaría el apartamento mientras estuviéramos fuera. Me contó de una cocina muy limpia, llena de electrodomésticos, y de un baño blanco con bañera blanca y grande donde nos meteríamos todas las noches a hacer el amor. Vamos a hacer el amor todas las noches, me decía, y yo sentía mariposas en el sexo y pensaba: nos vamos los dos.
Pero el verdadero cuarto era como un calabozo que nos dejaron por los billetes que nos quedaron, y que tomamos porque no había otra opción. No encontramos a Gloria, su prima, la que le mandó las fotos, la que le dañó la cabeza, la que le dijo: vente, vente prima para acá, que aquí hay plata y trabajo para todos; y le mandó la foto de su apartamento, y sí, era mucho mejor, y otra foto al lado de un carro, que ahora dudo que fuera suyo, y otra foto con un perro y en la nieve junto a un muñeco también de nieve con dos ramas por brazos, una zanahoria por nariz y dos cosas negras por ojos, y todos en la foto riendo, pero extraños, ajenos, como unos micos en el polo norte.
-Vamos a conocer la nieve, Marlon -decía Reina abrazándose a sí misma, anticipándose al frío.
Yo pensaba: sí, vos podés pasar por gringa porque aunque tenés los ojos raros, son claros, y tu pelo también; con un poco de tinte quedarías rubia del todo. Pero yo soy muy de acá, pensaba pero no se lo decía. Tan de acá que no me quiero ir.
-Mirá las fotos que me mandó Gloria, mi prima. -Las mostraba como quien enseña la fortuna en un tarot.
Me las mostró todos los días porque las guardaba en su billetera, las sacaba en el bus, en la calle, para gozar con el apartamento, con el carro, el perro, con el muñeco de nieve de Gloria, su prima. Me las mostró en el aeropuerto, en cada sitio en que tuve miedo, en todo el trayecto desde que salimos hasta acá; las guardó como si fueran sus documentos, la visa que no nos dieron, el dinero que nos gastamos, el pasaporte que nos hicieron botar.
-Pero Gloria, tu prima -le dije ya en el cuartucho-, nos dio otra dirección.
-Tal vez la memorizamos mal -la defendió Reina.
-Y el teléfono, ¿también lo memorizamos mal?
Ahí nos gastamos las últimas monedas. Contestaron en inglés y Reina sólo dijo: Gloria, Gloria please, pero al otro lado le soltaron una retahíla que la llenó de miedo.
-Cogé vos a ver si entendés -me dijo.
A mí me dio hasta risa su ocurrencia. Ella dijo: Tal vez nos equivocamos, marquemos otra vez, y yo le advertí: Reina, esta es la última moneda, pero Reina me miró feo y después marcó, y otra vez lo mismo: Gloria please, y el mismo rollo en inglés. Reina se atrevió a admitir: creo que es una grabación.
-Mejor subamos -me dijo- y mañana volvemos a llamar.
Yo le pregunté: con qué, y ella me dijo: algún vecino nos prestará el teléfono, pero yo dudaba que en ese tugurio hubiera otro teléfono que no fuera ése del pasillo. Y cuando volvimos a entrar me sentí desesperado entre tanta dificultad.
-La idea fue tuya.
-¿Qué creías? -me dijo-, ¿que íbamos a llegar a un Hilton?
-No, pero sí adonde tu prima.
Tal vez era por el tamaño del cuarto pero todo lo que hablábamos sonaba a gritos. Reina me dijo: mañana llamo a Gloria, mejor durmámonos que hace días no dormimos. Entonces yo le pregunté: ¿qué vamos a hacer, Reina?, pero ella no me contestó, le pregunté de nuevo y más fuerte: ¡¿qué vamos a hacer?!, entonces ella con su mirada me mandó para la mierda, y como me quedaba un cigarrillo decidí que me lo fumaría afuera, ventilaría mi ira, pensaría, caminaría para pensar. Tiré la puerta y ella después la volvió a abrir.
-¡No salgas, Marlon! -gritó.
Bajé las escaleras oscuras saltando los escalones de dos en dos y todavía escuchaba a Reina vociferando: no conocemos, Marlon, no tenemos papeles; llegué al pasillo, miré con rabia el teléfono que nos robó el medio dólar y salí a la calle. No saqué la chaqueta y el viento frío me pegó en el cuerpo, pero cuando encendí el cigarrillo sentí un poco de calor. Miré hacia arriba buscando a Reina en alguna ventana, pero ni siquiera estaba seguro si la nuestra daba a la calle, o si acaso teníamos una. Miré al frente y vi una valla iluminada donde alcancé a distinguir la única palabra que entendí: Queen. La conocía porque significa Reina.
Comencé a caminar y a pesar del frío el aire fresco me cayó bien. Pensé que Reina podía tener razón: después de dormir veríamos las cosas más claras. Tal vez al otro día encontraríamos a Gloria y todo se arreglaría. Ya le había dado media vuelta a la manzana, el cigarrillo ya iba por la mitad y mi arrebato también. Decidí dar la vuelta completa y contarle lo tonto que había sido. Tiré la colilla y doblé la esquina para volver, pero una mano en el hombro me heló el corazón, la mano enojada de un policía.
Él habló y yo no le entendí. Señaló la patrulla que yo no había visto, o tal vez señaló a su compañero que hablaba por radio. Creo que balbuceé y también creo que él dijo algo que tampoco entendí pero que hizo que mis pies decidieran por mí. Y mientras él miró al otro para hablarle, yo eché a correr a grandes zancadas empujado por el pánico, atropellando a la gente pero sin caer; miré hacia atrás y los policías también corrían, no muy lejos, abriéndose paso con sus silbatos y con sus armas desenfundadas pero todavía sin apuntar. Mis pies volaban y a mis pies frenaban los carros en cada calle que cruzaba. Veía sus luces como si corriera dentro de un carrusel. Los policías siguieron persiguiéndome pero el miedo me hizo más veloz.
«¡No salgas, Marlon!».
Corría y recordaba el grito que debí atender. Corrí con los otros dos detrás y con los carros entre mis piernas, y las luces encandilándome, pero seguí corriendo, ¡no salgas, Marlon!, y doblé más esquinas y corrí sin saber si iba a poder, pero los bocinazos me acosaban, veía a los policías cada vez más cerca y pensaba en Reina y en Dios. De pronto, sentí un golpe seco al cruzar otra calle, me atropellaron, pensé, pero no fue a mí, fue a uno de ellos, uno de los policías voló cerca, casi a mi lado, entonces el otro se detuvo, miró a su compañero en el piso y me miró a mí, pero yo seguí corriendo, y corrí más entre muros inmensos con avisos luminosos y edificios que se perdían en lo alto, entre un mar de gente a la que poco le importaba la carrera de un perseguido sin perseguidor.
Corrí muchas calles hasta llegar a un sitio oscuro, o hasta donde me llevó el desaliento y obedecieron mis pies. No sabía cuánto había corrido. Fueron muchas calles y un puente largo; siempre lleno de pánico pero no con tanto como en ese instante después, cuando con los ojos aguados miré alrededor y no distinguí nada familiar; estaba en medio de unas bodegas y aunque había letreros yo no los podía entender. Todavía ahogado recordé lo que siempre le había dicho a Reina: yo no conozco, yo no hablo inglés.
Y después su grito: ¡no salgas, Marlon!, que con el tiempo se ha ido desvaneciendo entre los otros tantos que vocifera Nueva York; por el que luché para que no perdiera su eco porque fue lo único que me sostuvo para seguir buscando a Reina.
***
-Mi nombre es John Roberts y voy a manejar este bus durante las próximas ocho horas -dice el conductor, en inglés, a través del altavoz-. Tienen los reglamentos frente a ustedes pero voy a recordárselos?
John Roberts comienza la lista de prohibiciones pero nadie le pone atención; están acostumbrados a que en este país todo lo que se prohíbe se hace. NO smoking, NO drinking, NO fucking, NO killing.
-No quiero oír música, no me gusta -dice John Roberts. No quiere oír charlas ruidosas, no quiere desorden y aunque sobre decirlo lo va a decir-: no quiero saber de alcohol ni de cigarrillos en este bus.
Suspende las advertencias para echarse un caramelo en la boca.
-Tengo amigos en la Policía que se pondrían muy contentos de ayudarme a sacar a quien viole el reglamento -dice masticando el caramelo.
Un pasajero levanta el dedo que le gustaría meterle a John Roberts por el culo. Yo miro la reacción de mi compañera de banca, pero ella está concentrada en acomodar sus bolsas. Es una negra enorme, entrada en carnes y en años, que también intenta acomodar su gordura en el asiento.
-Por último -dice el conductor-, nuestra próxima parada es Baltimore. Si no hay problemas con el tráfico, llegaremos en tres horas.
-Pues yo ya tengo hambre -dice la mujer que viaja a mi lado. Y me pregunta-: ¿Usted no?
Con esto de ver otra vez a Reina me he olvidado de comer. Ni siquiera comí cuando estuve en la estación. No me moví de la puerta que me asignaron; no pasará otra vez, no me volveré a perder ahora que ya sé dónde está. Y comeré cuando llegue; tal vez ella también querrá comer algo, si la sorpresa la deja y si la emoción no nos cierra el apetito, como ahora me lo cierra a mí. Comeré con Reina un año y tres meses después. Un año, tres meses y cinco días después.
A la mujer que va a mi lado le digo:
-No, todavía no tengo hambre -y le aclaro-: voy a esperar hasta que llegue a Miami.
Suelta una carcajada que hace que los otros miren. John Roberts también mira por el espejo retrovisor. De ella me asombra el tamaño de sus dientes: son grandes para cualquier boca, pero los tiene blancos y limpios. Se sigue riendo mientras menea la cabeza de un lado a otro, seguramente sumando las treinta horas de este viaje.
-Ay, ay -se queja en medio de la risa. Se pone la mano en el pecho y se obliga a parar de reír.
Me asombra el tamaño de sus fosas nasales dilatadas en su afán por respirar. Me dice: ay, amigo. Luego no dice más. Cierra los ojos y comienza a ronronear. Yo recuesto la cabeza y miro hacia fuera, y me veo a mí mismo reflejado en el vidrio, viendo cómo se aleja Nueva York. Se aleja lento como si supiera que voy a encontrarme con ella, o tal vez para que recuerde lo que dejo atrás, lo que logré por mi cuenta y sin Reina, por la que dejé Colombia y me vine a este país.

Reina, la del barrio, así me hablaron de ella, o de la que se fue y volvió, al cabo de mucho tiempo. Se fue con su madre y regresó sin ella. Volvió con su padre, los dos con la cara larga.
-¿Qué les pasó? ¿Se murió la señora?
Nadie había muerto. La señora, la madre, se había ido. Mamá subió los párpados y torció la boca, no dijo nada pero todos supimos lo que hubiera querido decir. Pero al menos esa vez no dijo nada, no delante de nosotros. A mí me insistieron: Reina, la de los ojos de distinto color, pero yo no relacionaba a ninguna con la que había llegado.
-No la reconozco -dije.
-¡Reina! ¡La que tiene un ojo de un color y el otro de otro!
-Me rindo. No sé cuál es.
Cómo iba a identificarla si se fue niña y volvió mujer. Si se fue fea y volvió preciosa. No parecía la misma. Si no hubiera sido porque a su papá sí lo recordaba, hubiera pensado que me estaban molestando.
-¡¿La misma que??! Pero si no parece.
Sí volvió toda formada y toda hecha; así la veíamos subir, bajarse del bus, caminar a la tienda de la esquina, entrar a misa.
-Y uno durmiendo solo con un radio -decía Juancho Tirado, salivando.
Era ella, entonces. La que de muy niña jugaba con otras niñas del barrio, jugaban a la golosa, a la cuerda, a las escondidas. A ellas les robábamos los dulces, las monedas, y nunca les permitimos jugar con nosotros, entrar a nuestro clan; no se aceptan niñas, sólo mujeres, aclaraba Eduardo Montoya; nosotras somos niñas, decían las niñas en coro.
-Entonces bájense los calzones -decíamos, y ellas salían corriendo y gritando. Después volvían, a los pocos días, buscándonos otra vez:
-Nosotras somos mujeres.
-Entonces vengan y orinen con nosotros -y de nuevo corrían despavoridas, dando gritos como si fuéramos unos psicópatas.
Y entre las que gritaban y huían estaba Reina. De vestidito corto, rodillas sucias, pelo revuelto, con los dientes desproporcionados, fastidiosa y cruel como todas las niñas, odiosa como todos los niños, maloliente, bulliciosa, niña al fin de cuentas. Muy distinta a la Reina que volvió diez años después.
-Toda una reina -decía Carlitos apretándose el bulto.
-¿Y por qué volvió? -pregunté mientras la vimos cargar los paquetes de la tienda, mientras me inventé una respuesta porque Juancho Tirado, Carlitos y Eduardo Montoya salieron como tres rayos a ayudarle con las bolsas, y ella se dejó ayudar, un poco confundida al comienzo y más sonriente después. Yo me quedé recostado en el muro viendo cómo la atosigaban los tres perros, pensando que ya perdía puntos al quedarme quieto, que finalmente uno de ellos la conquistaría, pensando, mientras los veía alejarse en un corrillo de risas y zalamerías, aunque luego me quedé tieso, de una pieza, porque antes de doblar la esquina, cuando ya sólo veía sus espaldas y pensaba que todo estaba perdido, Reina se dio vuelta y me miró, no como se mira a cualquier cosa, no, sino como se mira a algo que uno quiere mirar.

-¿Quiere uno? -me pregunta mi compañera de viaje y pone una bolsa de papel, abierta, debajo de mis narices.
-No, gracias -rechazo sin siquiera preguntar qué es.
-Son muffins -me explica-. Muffins de blueberry.
Miro rápidamente dentro de la bolsa pero puede más el aroma que la visión, gana el olor porque me obliga a cerrar los ojos. Luego el recuerdo le gana al aroma y aparecen de pronto el olor de mi casa, el olor a patio o a la cocina de mamá, entonces el instinto le gana a la evocación, y siento, como tantas veces, unas ganas imparables de regresar.
-Yo misma los hice -me trae de vuelta la voz gruesa de la negra, y antes de que yo pueda decidir, ella insiste-: vamos, hombre, no ha comido nada desde que salió. Coja uno.
Tomo uno y al tacto lo siento parecido al olor. Me lo llevo a la boca y ella espera mi aprobación. Asiento con la cabeza y mastico mientras ella dice:
-Yo soy Charlotte.
Creo que me he perdido en el sabor. Dudo si lo que entendí fue su nombre, su lugar de origen o su destino; además, inmediatamente, le agrega a mi confusión más nombres de mujer:
-Soy Charlotte, soy de Virginia, y voy hasta Augusta, en Georgia.
Después de un año mi inglés no es tan malo, aunque lo aprendí a las patadas, para sobrevivir, por eso es que siempre relaciono este idioma con la necesidad.
-¿Y usted? -me pregunta.
Me doy tiempo para responder mientras mastico. Para decidirme por su nombre y para postergar lo que da tanto trabajo encarar, algo tan sencillo pero tan escabroso como decir: mi nombre es Marlon Cruz y soy de Medellín, Colombia. Porque luego viene siempre el gesto del otro: de interrogación, de asombro o de terror.
-Oh, qué interesante -dice Charlotte para disimular, como todos, su pasmo, su horror o su ignorancia, porque hasta el momento no he entendido qué puede tener de interesante ser de Medellín, Colombia. Y luego agrega como casi todos-: tengo una sobrina allá, en Bolivia -dice, y yo sonrío pensando que también podría ser en Asunción, Maracaibo o Panamá. Para ellos es lo mismo. Sin embargo, mi nacionalidad no espantó a Charlotte, porque me ofrece otro muffin, y pregunta:
-¿Tienen blueberries en??
Me dan ganas de decirle: dígalo tranquila, que ese nombre no explota. Pero me limito a sacarla de su apuro y le respondo: Medellín. Y me pregunto: ¿Blueberries en Medellín?, y hasta me río porque ni siquiera sé cómo se dice eso en español, y para que no vaya a pensar nada raro de mi risa, le explico:
-Sí, sí tenemos. Todo es posible en Medellín.
Pienso: todo menos el olvido. Yo que perdí mi ruta no he podido olvidar, por mucho que lo he intentado, lo que soy y de dónde he venido, no por renegar o por vergüenza, sino para poder empezar de cero, sin remordimientos y con los pies bien puestos sobre este lado de la tierra.
Pero olvidé precisamente lo que no debía: mis pasos huyendo, mis pasos despavoridos, frenéticos, atravesando demente una ciudad desconocida.
Creí que esa misma noche encontraría a Reina, que era cosa, simplemente, de deshacer los pasos corridos y buscar el rastro que dejó mi fuga, echar reversa, devolver el tiempo, o si tan sólo hubiera sido posible, perder el miedo y recobrar la calma. Me dije: no es tan difícil volver, es cuestión de tranquilizarse y recordar. Me repetí: no es tan complicado, no es imposible. Y cuando comencé a caminar, muy despacio, mirando hacia arriba para reconocer algo, recordé lo que me habían advertido:
-Allá todo es igual.
Me lo había dicho Carlitos, que se mosqueaba mucho siempre que se tocaba este tema. Él nunca estuvo de acuerdo con nuestro viaje. Me insistió hasta el cansancio: te vas a comer toda la mierda que no te has comido nunca.
-Pero mierda gringa -me dijo Reina, después.
-Tal vez Carlitos tenga razón.
-Entonces quedate con Carlitos -me sugirió Reina.
Le bregué mucho a la memoria para tratar de volver al lugar donde empecé a correr. Me exigí que tenía que recordar algo, una puerta, un letrero, tal vez la mancha de sangre que derramó el policía antes o en el instante de morir.
-Al menos un olor -me obligué.
Un color, un sonido, una idea de algún sitio, tantas cosas que tiene una ciudad para recordar. Tantas cosas, y yo no pude encontrar ninguna. Presentí, además, que caminaba en círculos, como quienes caminan perdidos en una selva.
Después me quedé quieto para ver si ella me encontraba, así como esa vez, sin buscarla, yo me encontré con su mirada, esa primera tarde cuando mis amigos corrieron tras ella y fue Reina la que haciendo caso omiso de ellos, se inquietó por quien se había quedado recostado en el muro, preguntándose por qué había vuelto Reina a nuestro barrio.
-Parece que la mamá los dejó -me contaron luego.
-¿Y por eso volvieron? -pregunté.
-A lo mejor quieren olvidar.
-Nadie vuelve para olvidar -contesté.
Ni siquiera yo, que meses más tarde quise encontrar el sitio exacto donde me vi perdido, el puro corazón del laberinto. Volver allí como se vuelve a una tumba para decirle a quien yace: tú estás muerto y yo estoy vivo, para decirle: déjame vivir, que no tengo otra opción. Volver para matar al muerto, para descartar el encuentro imposible y desechar el milagro. Busqué mucho ese lugar, ya no para recordar el camino perdido hacia Reina, sino para olvidarlo. Pero se me borraron para siempre esas calles donde, aterrorizado, vomité y por donde vagué congelado y aturdido, arrimado a las canecas y a las hogueras de otros callejeros.
No sé cuántos días estuve en ese trance, porque cuando uno se pierde también se pierden, entre muchas cosas, el tiempo y el espacio. Lo poco que recuerdo son momentos tan perdidos como yo, tan borrosos como la gente que me miraba con fastidio; algunos que me pasaron comida y hasta monedas que nunca les pedí. Después vi a Reina escondida en las esquinas, vi luces de sirena y policías, vi gatos flacos entre las canecas escarbando lo que yo también buscaba, oí voces en otro idioma y el grito de Reina, ¡no salgas, Marlon!, la voz de mamá y el rostro implorante de papá. Oí ruidos y vi sombras en desorden, y a la muerte de gancho diciéndome como me decía Reina: mejor matémonos, y otra voz, tal vez la mía, que me animaba: sigue caminando que ya la vas a encontrar. Entonces, por momentos lo creí, a ratos también fui consciente de mi desvarío, por eso no supe qué fue y qué no fue, y por eso dudé tanto cuando vi el letrero y leí lo que de acuerdo con la lógica no tenía por qué leer, pero que me hizo creer que yo no estaba ahí, que ni siquiera había salido, que muy cerca entonces tendrían que estar los míos y mi casa y los amigos y hasta Reina. Por eso pensé: estoy loco, cuando después de varios días de estar buscando, leí las letras rojas sobre fondo amarillo, que en un cartel muy grande decían: Tierra Colombiana.

Domingo, Maio 27, 2007

LIVROS: "MUNDO PERDIDO", DE PATRICIA MELO

Patrícia Melo


Patrícia Melo é, nos últimos anos, uma das explosões brasileiras em termos de literatura. Rubem Fonseca é o seu mestre confessado. O que deixa garantia de bom gosto, não de génio. Mas o génio descobre-se por detrás deste seu último romance, “Mundo Perdido” (Ed. Campo das Letras, Porto, 2007).
“O Matador” era um dos seus romances de início de carreira, tinha Máiquel como protagonista, alguém que se transformava em assassino pelas contingências da vida e de uma sociedade marcada pela violência. Máiquel regressa agora neste “Mundo Perdido”, assumidamente assassino profissional, que mata por encomenda, mas que percorre as quase duzentas páginas da obra em busca da filha Samanta, que Erika, sua ex-companheira, e o pastor Marlénio, de uma seita neopentecostal, raptam e levam consigo, ao longo de uma tortuosa fuga que passa por todo o Brasil e ainda entra e sai da Bolívia.
Numa escrita forte, incisiva, nervosa, popular na sua terminologia, utilizando o calão com à vontade e propriedade, Patrícia Melo dá-nos um retrato de um pistoleiro aparentemente sem escrúpulos, que mata com um simples dedilhar de gatilho e vai embora sem problemas de consciência, mas que também se toma de amores por um cão vadio, feio, sujo e doente, que leva consigo até ao inferno sem pestanejar igualmente. Para lá desses retratos individuais, de Máiquel, mas também de algumas mulheres (como Eunice) que com ele se cruzam, e de alguns outros detectives privados que o servem, o que mais impressiona é a descarnada panorâmica de um país onde a violência se entranhou em todo o seu tecido social, onde ela é física, despudorada e animalesca, é certo, mas sobretudo psicológica, em seitas religiosas, em chefões policiais ou políticos, numa onda de capitalismo selvagem que mergulha até ao mais ínfimo, e onde o sucesso económico se basta como projecto de vida, desde o capitalista de São Paulo ao sem-terra da Rondonia.
A loucura homicida de Máiquel é um símbolo da loucura homicida de uma sociedade que se autodestrói sem futuro, sem alma, sem perspectivas. O humor e a ternura de algumas passagens só serve para estabelecer um confronto e agigantar a falta de uma perspectiva moral ou, melhor ainda, apenas humana.
Patrícia Melo tem a paixão do cinema. Já escreveu argumento para Rubem Fonseca e este já adaptara em 2003, o “Matador” de patrícia ao cinema, num filme chamado "O homem do ano", com realização de José Henrique Fonseca, filho de Rubem Fonseca. Tudo leva a crer que “Mundo Perdido” lhe siga o rasto e não nos tomamos por videntes excepcionais se preconizarmos matéria fértil para um bom thriller. Os americanos de 40 (Walsh, Fuller, Hawks, Huston, etc.) chamavam-lhe um figo. Que lhe chamarão os brasileiros de 2000?

Excertos de “Mundo Perdido”

(…) Estrada é bom pra pensar. Você engata a quinta, os pensamentos nascem do nada, de um buraco negro, você vê uma propaganda de seguro de vida para toda a família, uma família na mesa de jantar, sorrindo, papai, mamãe e filhinhos, e você pensa que a melhor hora de atacar é essa mesmo, quando todos estão se empanturrando, e depois os pensamentos continuam, um atrás do outro, e, quando você vê, você já está lá, pensando coisas, pum, o dia em que eu vou morrer, vermes, podrião, fim, ninguém mais mora aqui, só casca, esse carro vira lixo, sucata, as pessoas vão todas morrendo, as que você conhece, não sobra quase nada, e você continua com seus pensamentos, remexendo lá atrás, com raiva, adorando, odiando, esquecendo, e a coisa vai crescendo, ou nãoi, porque a Eunice atrapalha muito, ela tem mania de ler placas em voz alta e fala sem parar, desde pequena, sabe?, Máiquel, quando aprendi a ler, vi que não tinha volta, eu saía na rua com minha mãe e lia tudo o que aparecia na minha frente, preços, faixas, listas, placas, cartazes, propagandas, tudo, minha mãe, analfabeta, queria que eu lesse para ela alguma informação, nome de linha de ônibus, essas coisas, eu me sentia na obrigação de ler tudo o que aparecia na minha frente, era uma sensação ruim, como se as letras me atacassem, às vezes eu fechava os olhos, só para ter paz. Até hoje eu sou assim. Quer dizer, não fecho os olhos, leio tudo. Mas não sofro. Se está escrito, leio. Mas não dá para ler baixo?, perguntei. Não, não dava, ela precisava ler em voz alta. Porque era costume. Olha essa. Vendo esse terreno e outros melhores que este. Caramba, Máiquel, quem vai comprar este se eles vendem outros melhores? E depois você fala que Nova Iguaçu é feia. Osasco é de matar, hein? Poluída. Entulhada. Porra. Assim, eu não conseguia pensar . (p. 45-46)

(…) Eu ando pensando em virar pastor, também, disse Anderson, isso é que dá dinheiro no Brasil. Além do mais, você não precisa de faculdade, é só blábláblá mesmo, sabendo ler e escrever, o Espírito Santo cuida do resto.
Estávamos no escritório do Anderson, ele fumando, eu ouvindo. Pago tanto imposto, ele dizia, agora esses safados, esses macacos animadores de auditório, porque é isso que eles são, no começo sem as câmeras, sem os estúdios, e depois conseguem tudo, concessões do governo, viram donos de televisão, você já viu a quantidade de programa religioso na TV? Eu quase não ligava mais a televisão desde que a Eunice tinha se mandado. Só para ver futebol. Uísque, cigarro, cartão de crédito, antigamente eu adorava assistir essas propagandas, mulheres lindas, felizes, com jóias, homens com copos de bebida na mão, gargalhando, cheios de dentes, fumando, com cada carrão, andando na praia, de calça branca, em câmera lenta, agora isso quase não existia mais. Você nem via mais mulherão na TV. Só executivas, donas de casa, preocupadas em economizar. O Ministério da Saúde adverte, eles dizem, cigarro provoca câncer. Agora é assim. E oferecem frango a granel, coxão mole, boneca Susi pesquisadora de borboletas, três vezes de dez e noventa, aparelho de jantar dezesseis peças Duralex, quatro pratos rasos, quatro fundos, três vezes de seis e sessenta, e cortina em algodão cru, panela de pressão, tudo baratinho, a prazo, em vinte vezes ou mais, as Casas Nahia não te deixam em paz, propagandas feias, gente feia, tudo para você e seu lar, eles dizem. Quem não tem lar, como eu, não se interessa.
Para abrir uma seita, continuou Anderson, a única coisa que você precisa é cara-de-pau. Você vai no cartório e pronto, vira ministro. E não paga nada. É por isso que hoje tem igreja para cada tipo de fiel, bicha, empresário, surfista, até para os que querem falar com Deus em inglês. Neguinho mata dois coelhos com uma só cajadada, fala com Deus e aprende inglês. Mas e a Érica?, perguntei. Impressionante como o Anderson fugia do assunto. Érica se mandou, e você está perdendo seu tempo aqui em Campo Grande, ele disse. Pode fazer a mala e se picar. Ela deixou a cidade faz quatro dias. O safado do marido foi junto. (pág. 83-84)

(…) Fazia três dias que a gente estava na farra. Ela gostava de cheirar, a Lúcia. E de beber. Trazia pó para a pensão, trazia uísque também, e a gente se divertia.
Lembro ainda da primeira vez que ela subiu para o quarto. Fodemos de roupa e tudo. Agarrei Lúcia na porta. Levantei a saia dela, enfiei meu pau pela lateral da calcinha, segurando-a pela bunda. Ela sussurrou no meu ouvido, vou gozar, e aquilo me deixou com as pernas bambas. Deitei Lúcia na cama e passei o resto do dia fodendo. Lúcia era escandalosa, ria alto, gargalhava, falava palavrão, mas, na hora de gozar, sussurrava.
Outra coisa boa de Lúcia é que ela gostava de pau. Logo notou que eu tinha uma estrela tatuada ali. Nem toda mulher notava. Tem mulher que gosta de foder, gosta de um caralho no meio das pernas, mas não gosta de pau. Digo, não gosta de pegar. Nem de chupar. Não era o caso de Lúcia.
Por que você fez essa tatuagem?
Contei que tinha sido por causa de Érica. Sou mais velha que você, ela disse, vou te ensinar um segredinho: quando você está na cama com uma mulher, uma mulher bonita como eu, não fale de outra mulher. É chato, entendeu? Inventa qualquer merda. Minta. Diga que foi promessa. Para Nossa Senhora Aparecida.
Você perguntou, eu disse.
Isso não significa que eu queria saber a verdade. Não sou cientista. Nem sua mulher. Estamos aqui curtindo, entendeu?
Entendi. Foi promessa. (pág. 141)

EM SEIA

Um dia e meio em Seia, terra que bem conheço. Foi ali que instalei o quartel-general quando andei a filmar “Manhã Submersa” na Serra da estrela, corria o invernoso Dezembro de 1979. Foi ali que, há 13 anos, me convidaram a dirigir o Cine Eco. Foi ali que voltei sexta-feira para reunir com a equipa do Cine Eco, para continuarmos a preparar a edição deste ano, para visitar o CISE, e para corresponder a um amável convite da Escola Superior de Turismo e de Telecomunicações para acompanhar, ainda que só parcialmente, a “OdiSeia 77”.
Gosto da Serra e gosto de Seia. Gosto da gente de Seia, boa gente beirã que não é de muitas falas nem de hipocrisias, mas que sabe distinguir quem lhe quer bem de quem a quer apenas enganar, gente que progressivamente se vai abrindo aos que começa a saber serem amigos. São muitos os que me tratam já por “senense”, e eu gosto de ser “senense”, apesar de lisboeta por nascimento.
Julgo que, nesta altura, doze edições passadas, o Cine Eco é um dos mais populares e considerados festivais de cinema e vídeo portugueses. O único de temática ambiental. Internacionalmente era muito mais conhecido e conceituado que internamente, mas, no ano de 2006, deu finalmente o salto a nível nacional, quando foi distinguido com o Prémio Nacional do Ambiente, e igualmente com a atribuição do seu Prémio da Lusofonia a “Ainda Há Pastores”, de Jorge Pelicano, que salientou dois factos interessantes de sublinhar: a importância e independência de um festival que teve a coragem de aceitar (e abrir oficialmente o concurso) com uma obra que tinha sido recusada num conceituado festival de Lisboa, e o facto do prémio da Lusofonia ali conquistado ter permitido “arrancar” com o filme para uma carreira gloriosa, a nível nacional e internacional. Depois, o inverso também foi verdade: o caminho do próprio filme projectou também o certame que o estreou. Nunca se estabeleceram tantas extensões do Cine Eco, de Norte a Sul de Portugal. Nunca tanta gente falou do Cine Eco em Portugal. Nunca tantos “MILHARES” de espectadores viram os filmes a concurso do Cine Eco da Madeira ao Algarve.
Na reunião de sexta-feira foi estabelecida a data definitiva da XIII edição, que irá decorrer entre 22 e 27 de Outubro próximo. Este ano uma novidade de peso: as sessões a concurso irão acontecer no excelente auditório, do ainda não inaugurado CISE (Centro de Interpretação da Serra da Estrela), uma estrutura criada para desenvolver actividades de educação ambiental e de valorização do património ambiental da Serra da Estrela. São várias as acções científicas, artísticas e educativas que já se vão podendo ali criar e apreciar. Em Outubro, os jurados internacionais e os jovens, e público em geral, ali estarão, em sessões às 15, 18 e 22 horas, a ver o que de melhor se fez em todo o mundo sobre ambiente em audiovisual. Muitas outras iniciativas se preparam, mas a reunião foi “à porta fechada”. Há que manter o segredo até ao momento oportuno.

Uma sala de jantar preparada pelos alunso da ESTTS

Não se deve fazer o mesmo em relação às actividades da Escola Superior de Turismo e de Telecomunicações de Seia, integrada no Instituto Politécnico da Guarda. Trata-se de uma escola jovem, instalada num excelente edifício desenhado e construído para o efeito, que funciona ainda há poucos anos, mas que se tem afirmado de forma fulgurante na sua área. Nos últimos três anos, para assinalar o aproximar do fim do ano lectivo, a ESTTS leva a efeito um curioso evento denominado OdiSeia. Já houve OdiSeia55, OdiSeia66 e este ano foi a OdiSeia77. 77 horas consecutivas de actividades ligadas ao Turismo e à Hotelaria. Iniciada às 19, 30 horas de 23 de Maio, prolonga-se sem intervalo até às 00,30 do dia 27. Mais de uma centena de alunos e muitos professores asseguram actividades, do entretenimento á cultura, do cinema á gastronomia. Ali almoçámos principescamente na sexta-feira, ali jantámos no mesmo dia com uma ementa que só de ler aguça o apetite. Todo elaborado pelos alunos, para degustação dos convidados, alunos que nos intervalos das refeições agarram nos visitantes e os levam a percorrer os corredores da escola, mostrando o seu orgulho na instituição da na OdiSeia.
Para fazer inveja aos meus leitores, veja-se o que se comia na noite de sexta, num “Jantar Jardim dos Aromas”. A ementa rezava assim: A abrir: Estaladiço de morcela da Beira com agridoce de maçã brava de Esmoífe e salada de rebentos. Seguia-se o prato de peixe: Naco de bacalhau braseado sobre batata cartão e couves salteadas. Emulsão de coentros e pimentos vermelhos. A intervalar: Sorvete de limão. Prato de carne: Lombinho de porco recheado com farinheira e cogumelos em crosta de ervas frescas e legumes da Beira. Como sobremesa: Trufo de chocolate, morangos com pimenta rosa e tomilho, espuma de alfazema. Que tal? Digo-vos que delicioso. Sem qualquer favor.

Com a excelente “agravante” de ser saboreado o jantar dos aromas numa mesa de aprazíveis companheiros de conversa, senenses da velha guarda e outros de guardas mais recentes que tornaram muito agradável esta noite que passaria ainda por um auditório, onde se viu desfilar outros alunos com o último grito da moda para a hotelaria. Já imaginaram?
A noite acabou mesmo no já muito nosso conhecido Hotel Camelo. Um must durante o festival.

LISBOA A SÉRIO? SÓ AGORA?

Apareceram por Lisboa, cartazes do PSD com foto do candidato Fernando Negrão, com o slogan: "LISBOA A SÉRIO".
Quer isto dizer, como parece (e já calculavamos), que "LISBOA FOI A BRINCAR ATÉ AGORA PARA O PSD" ?
Ou trata-se apenas de uma frase infeliz?
Ou já estão a tentar queimar o candidato dentro do próprio PSD?

Além disto, o candidato do PS à autárquia do Seixal em 2005, acusa o de Lisboa de plágio.
Veja-se notícia do "Portugal Diário":
"O candidato do PS à Câmara do Seixal nas autárquicas de 2005, Menezes Rodrigues, acusou hoje o candidato do PSD à autarquia de Lisboa, Fernando Negrão, de plagiar o seu slogan de campanha «Seixal a sério».
«Fiquei espantado quando vi o outdoor da campanha de Fernando Negrão, porque tem exactamente o mesmo slogan: Lisboa a sério», disse à agência Lusa o dirigente socialista e do Sporting Clube de Portugal.
Segundo Menezes Rodrigues, «poderemos estar perante um caso de violação dos direitos de autor», mas também perante «uma dupla infelicidade da parte do PSD».
«Além da questão do plágio, o PSD também devia tomar nota que, no Seixal, em 2005, não ganhei as eleições autárquicas e a CDU teve maioria absoluta. Se calhar Fernando Negrão e o PSD em Lisboa vão agora pelo mesmo caminho», disse o dirigente sportinguista."

Sexta-feira, Maio 25, 2007

SOBRE O NOSSO FUTURO

Uma jovem canadiana de 12 anos fala sobre o seu e o nosso futuro.
Conferência das Nações Unidas (Brasil).

Quinta-feira, Maio 24, 2007

ESTARREJA: UM PASSEIO EM FOTOS

na Av. Visconde de Salreu

uma esquina
O FCPorto em festa

Cafés e esplanadas
a praça central
O monumento aso mortos da I GG
a Biblioteca Municipal
Frente á capela de Santo António,
a caminho do Cine Teatro
Cine-Teatro de Estarreja
fotos do autor e de MEC

"SEMANA DO AMBIENTE" EM ESTARREJA

Salto rápido a Estarreja, perto de Aveiro, onde o Município local leva a efeito uma Semana do Ambiente. Gosto desta zona de Portugal, passeio com frequência por Aveiro (já expliquei aqui), Avança (claro, o festival e os amigos a ele ligados), Ovar (hei-de falar da casa museu Júlio Dinis), Espinho (pois, também o Casino, mas toda a cidade). Estarreja e Cacia tem graves problemas ambientais, no primeiro caso o parque industrial, no segundo as indústrias da celulose que libertam um cheiro intolerável à passagem. No caso de Estarreja, a cidade vai procurando minimizar os problemas, resolvendo os casos mais agudos, e quer criar uma Eco cidade. Apontam-me muitas causas ganhas, oferecem-me um DVD sobre a BioRia, levam-me a ver o percurso pedonal no parque da cidade, falam-me da descida do Rio Antuã, mostram-se visivelmente interessados não só em mudar a imagem que se tem de Estarreja, como sobretudo transformar e melhorar a vida em Estarreja. Para isso imaginaram esta Semana do Ambiente que querem prolongar a partir daqui, todos os anos. Convidam-me, enquanto director do Cine Eco de Seia, a falar sobre Cinema e Ambiente e pedem-me para eu indicar um filme do Festival, para ser projectado. Avanço com o “Ainda Há Pastores”, de Jorge Pelicano, que, como eu calculava, é bem recebido.
O Cine Teatro de Estarreja tem capacidade para mais de 500 espectadores, marca a recuperação de uma sala antiga, tem uma boa programação de cinema e de outro tipo de espectáculos. Cinema comercial, bem escolhido, mais uma sessão de cinema alternativo por semana. Não se percebe, por vezes, qual o comercial, qual o alternativo. “O Bom Pastor”, “Cartas de Iwo Jima” ou “A Vida dos Outros”, por exemplo, estão programados para sessões ditas comerciais. Há ainda concertos com Jorge Palma e Vitorino, entre algumas outras propostas. Por aqui estamos bem.
Tomo um café na confeitaria Miranda ou no Café Brasília, na praça central, onde se encontra o belo edifício da Câmara (com uma exposição sobre ambiente, no hall de entrada). Nesta praça, de nome Francisco Barbosa, a limpeza e o cuidado são extremos. O mesmo acontece em toda a cidade. Quando subo a Av. Visconde de Salreu, depois de ter comprado na estação da CP bilhetes para o regresso a Lisboa, vou anotando os esplêndidos edifícios que se erguem de um lado e do outro. No século XIX deve ter sido aprazível local para endinheirados do Norte, que ali deixaram vestígios do seu gosto arquitectónico.
Muitas casas com escritos apontam que é difícil fixar as populações por aqueles sítios. Com Aveiro a 18 quilómetros, o Porto a meia hora e Lisboa a duas horas no Alfa, nem por ser litoral ali se fica de bom grado. A cidade, no entanto, oferece infra-estruturas suficientes. A Biblioteca Municipal é não só um belo edifício como uma aposta ganha. Vou lá dentro dar uma vista de olhos pelos jornais da terra, e vejo que tem frequência, tanto jovem como “sénior” (ah, esta terminologia!).
Mas o ritmo é dolente, saboreiam-se as passadas na rua, uma ou outra pessoa corre e é logo notada pela vizinhança (“Que tem ela, para ir assim a correr?”, - “Cortou-se, vai à farmácia!”). Aqui todos se conhecem (“-Então ainda aqui está Senhor Lauro António?”, perguntam-me, na manhã seguinte, no meio da rua, com evidente amizade. “Ontem estive no cinema a ouvi-lo falar!”). Passo pela mais antiga igreja do concelho, ao que me dizem, a Capela de Santo António, na esquina da praça central. Ninguém lá dentro, um paz que transborda do altar para as ruas, elas também silenciosas e desertas no cair da noite. No restaurante, ouve-se o telejornal. Somos únicos por ali, àquela hora, numa terça-feira normalíssima.
Depois da sessão no cinema, levam-me lá cima ao hotel, um Eurosol que merece ser referido. Aparentemente, não se percebe um hotel assim naquele local, com piscina, ténis e mini golf, jacuzzi, health club, SPA e um serviço muito agradável. Dizem-me que conta com 65 camas, alguma em vivendas. Passam-se férias por aqui. O motorista de táxi lembra um belga, “senhor de posses, que vinha todos os anos, e dividia as férias em dois períodos, um deles dedicado à caldeirada de enguias e à lampreia.”
“Coitado, já não aparece há uns anos. Deve ter morrido. Toca a todos, é assim mesmo.”
É assim mesmo, mas agradecido a enguias e lampreias que o ajudaram a levar desta boas recordações.

Terça-feira, Maio 22, 2007

ELES DIZEM QUE EU SOU ASSIM

Experimentem e não façam batota.

Segunda-feira, Maio 21, 2007

BLOGUES AMIGOS

Foi a "Bandida" quem teve a ideia e a concretizou.
Creio ser uma bonita homenagem a blogues amigos,
que se cruzam quase todos os dias por estes caminhos da blogosfera.
Aqui fica a versão "Bandida".
Com os agradecimentos por fazer parte dos seus eleitos.
Vem aí uma nova "corrente":
Escolha a música e
faça a sua montagem de blogues preferidos. lol


AMÓS OZ - VIDA E OBRA


Sobre Amos Oz a “Newsweek” disse: “Eloquente, humano, até religioso no sentido mais profundo da palavra, (Oz) emerge como uma espécie de Orwell sionista: um homem complexo, obcecado com a decência e determinado, acima de tudo, em contar a verdade, independentemente de quem possa ofender.”

Amós Oz, nascido em Jerusalém em 1939, com o nome de Amos Klausner, é um dos mais respeitados e premiados escritores israelitas. Romancista, ensaísta e jornalista, é um dos fundadores, em 1977, do Movimento “Peace Now”. Professor de Literatura na Universidade Ben-Gurion, em Be'er Sheva, tem sido um fervoroso defensor de uma Solução de Dois Estados para o conflito israelita-palestiniano, desde 1967.
Cresceu em Jerusalém, na Rua Amós, 18, no bairro de Kerem Avraham. Por isso muita da sua ficção se situa num raio de 2 km em redor do lugar onde foi criado pelos pais, emigrantes judeus da Europa Oriental: Yehuda Ariaeh Klausner e Fania Klausner. O pai estudou História e Literatura, em Vilna, Lituânia. Em Jerusalém era livreiro e escritor.
Aos 14 anos juntou-se ao Kibutz Hulda. Por essa altura mudou o apelido para Oz, palavra hebraica que quer dizer força. Tel Aviv não era cidade para si, muito conservadora, diria mais tarde. Sentia-se melhor no kibutz. Casou e mudou-se com Nily, em 1986, Arad, por causa da asma do filho Daniel. Serviu no Exército de Israel, quer no tempo da guerra com a Síria, no final da década de 1950, quer durante a Guerra dos 6 Dias (1967) ou a Guerra de Yom Kipur (1973). Desde há muito que procura uma solução pacífica para o conflito israelita-palestinianos. Em 1967, escreveu um artigo, com o título “Terra dos Ancestrais”, no jornal trabalhista Davar. Procurava demonstrar que “mesmo uma ocupação inevitável é uma ocupação corruptora”. Em 1978, foi um dos fundadores do Movimento “Paz Agora”, que defende negociações com os palestinianos. Participou nas conferências e negociações com parceiros israelitas e palestinianos que levaram à assinatura da “Declaração Conjunta Israelense-Palestina” de Agosto de 2001 e da “Iniciativa Conjunta de Paz”, firmada em Genebra em 1º de Dezembro de 2003.
Amós Oz é talvez um dos expoentes da literatura contemporânea israelita. Em 1991 foi eleito membro da Academia de Letras Hebraicas; Em 1992, recebeu o Prémio de Frankfurt pela Paz, e ganhou o Prémio Israel de Literatura, o mais prestigioso do país. Em 1998 (50º ano da Independência de Israel), recebeu o Prémio Femina em França e foi indicado para o Prémio Nobel de Literatura em 2002. Em 2004 recebeu o Prémio Internacional Catalunya, junto com o pacifista palestino Sari Nusseibeh, e também Prémio de Literatura do jornal alemão Die Welt, por “Uma História de Amor e Escuridão”. Publicou cerca de duas dezenas de livros em hebraico, e mais de 450 artigos e ensaios em revistas e jornais israelitas e internacionais (muitos dos quais para o jornal do Partido Trabalhista “Davar” e, desde o encerramento deste na década de 1990, para o "Yediot Achronot").
Tem livros e artigos seus traduzidos por todo o mundo e quase toda a sua obra se encontra traduzida em Portugal.


Bibliografia:
A Terceira Condição, Ed. Asa, 1996
O Mesmo Mar, Ed. Asa, 2004
Não Chames à Noite Noite, Ed. Asa, 1997
O Meu Michael, Ed. Asa, 2002
Uma História de Amor e Trevas, Ed. Asa
Uma Pantera na Cave, Ed. Asa, 1998
Conhecer uma Mulher, Dom Quixote, 1992.
A Caixa Negra, Dom Quixote, 1990.
Ailleurs peut-être, Calmann-Lévy, 1972.
The Land of Israel
Under This Blazing Light
Where the Jackals Howl
The Hill of Evil Counsel 1991
Touch The Water, Touch The Wind 1991
A Perfect Peace - Harvest Books
Contra O Fanatismo, Asa, Público

AMOS OZ: CONTRA O FANATISMO


CONTRA O FANATISMO

Li de um fôlego, numa manhã que acordei mais cedo. Livrinho pequenino, editado pela asa e distribuído gratuitamente com o jornal “Público”. Uma preciosidade. Escrita ágil, inteligente, clara, daquela se vai pegando aos olhos e que nos obriga a não deixar as páginas. É uma compilação de três conferências realizadas no Fórum de Literatura da Universidade de Tübingen, na Alemanha. Todas são excelentes. As duas últimas chamam-se “Da necessidade de chegar a um compromisso e da sua natureza” e “Do Prazer de escrever e do compromisso”. A ideia base da primeira, “Contra o Fanatismo”, é que a crise actual no mundo, sobretudo no Oriente Médio, em Israel e na Palestina, não diz respeito essencialmente aos valores do Islão, nem á mentalidade dos árabes no seu conjunto, mas resulta da antiga entre fanatismo e tolerância.
Eu que prezo a liberdade acima de tudo, não a posso conceber sem tolerância. Não se é livre se os outros o não forem também. Logo, o exercício da liberdade é um exercício conjunto de tolerância. O que equivale a dizer que a nossa liberdade termina quando a dos outros é posta em causa. O que no mundo actual não é muito bem visto, e ainda menos respeitado.

Para ilustrar as ideias o autor (de que vou ler agora a ficção com imensa curiosidade), aqui ficam excertos escolhidos, que julgo transmitirem um pouco do seu pensamento e que acredito abrirem o apetite para se ler mais do mesmo:


Da natureza do fanatismo


“Como curar um fanático? Perseguir um punhado de fanáticos através das montanhas do Afeganistão é uma coisa. Lutar contra o fanatismo, outra muito diferente. Receio não saber muito bem como perseguir fanáticos pelas montanhas, mas talvez possa apresentar uma ou duas reflexões ácerca da natureza do fanatismo e sobre as formas, se não de curá-lo, pelo menos de controlá-lo. A chave do ataque de 11 de Setembro contra os Estados Unidos não deve ser apenas procurada no confronto existente entre pobres e ricos. Esse confronto constitui um dos mais terríveis problemas do mundo, mas estaríamos errados se concluíssemos que o 11 de Setembro se limitou a ser um ataque de pobres contra ricos. Não se trata apenas de “ter e não ter”. Se fosse assim tão simples, deveríamos esperar que o ataque viesse de África, onde estão os países mais pobres, e que talvez fosse lançado contra a Arábia Saudita e os emirados do Golfo, que são os estados produtores de petróleo e os países mais ricos. Não. É uma batalha entre fanáticos que crêem que o fim, qualquer fim, justifica os meios, e os restantes de nós, para quem a vida é um fim, não um meio. Trata-se de uma luta entre os que pensam que a justiça, o que quer que se entenda por tal palavra, é mais importante do que a vida, e aqueles que, como nós, pensam que a vida tem prioridade sobre muitos outros valores, convicções ou credos. A actual crise mundial, no Médio Oriente, em Israel e na Palestina, não é uma consequência dos valores do Islão. Não se deve à mentalidade dos Árabes, como proclamam alguns racistas. De forma alguma. Deve-se à velha luta entre fanatismo e pragmatismo. Entre fanatismo e pluralismo. Entre fanatismo e tolerância. O 11 de Setembro não é uma consequência da bondade ou da maldade dos Estados Unidos, nem tem a ver com o capitalismo ser perigoso ou esplendorosa. Nem tão-pouco com ser oportuno ou com a necessidade de travar ou não a globalização. Tem a ver com a típica reivindicação fanática: se penso que alguma coisa é má, aniquilo-a juntamente com aquilo que a rodeia.
O fanatismo é mais velho do que o Islão, do que o Cristianismo, do que o Judaísmo. Mais velho do que qualquer Estado, governo ou sistema politico. Infelizmente, o fanatismo é um componente sempre presente na natureza humana, um gene do Mal, para apelida-lo de algum modo. Aqueles que fazem explodir clínicas onde se pratica o aborto, nos Estados Unidos, os que incendeiam sinagogas e mesquitas na Alemanha, só se diferenciam de Bin Laden na magnitude, mas não na natureza dos seus crimes. Naturalmente, o 11 de Setembro produziu tristeza, raiva, incredulidade, surpresa, abatimento, desorientação e, é certo, algumas respostas racistas - antiarabes e antimuçulmanas - por todo o lado. Quem teria ousado pensar que ao século XX se seguiria de imediato o século XI?”
(…) “Talvez seja chegado o momento de todas as escolas, todas as universidades, facultarem pelo menos um par de cursos de Fanatismo Comparado, pois este está em toda a parte. Não me refiro tão-só ás óbvias manifestações de fundamentalismo e fervor cego. Não me refiro apenas aos fanáticos natos que vemos na televisão entre multidões histéricas que agitam os punhos contra as câmaras, ao mesmo tempo que gritam slogans em línguas que não entendemos. Não, O fanatismo está em todo o lado. Com modos mais silenciosos, mais civilizados. Está presente à nossa volta e talvez também dentro de nós. Conheço bastantes não-fumadores que o queimariam vivo por acender um cigarro ao pé deles! Conheço muitos vegetarianos que o comeriam vivo por comer carne! Conheço pacifistas, alguns dos meus colegas do Movimento de Paz israelita, por exemplo, desejosos de dispararem directamente a minha cabeça só por eu defender uma estratégia ligeiramente diferente da sua para conseguir a paz com os Palestinianos. No entanto, não afirmo que qualquer um que levante a voz contra alguma coisa seja um fanático. Não sugiro que qualquer um que manifeste opiniões veementes seja um fanático, claro que não. Digo que a semente do fanatismo brota ao adoptar-se uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos. É uma praga muito comum que, certamente, se manifesta em diferentes graus. Um ou uma militante ecologista pode adoptar uma atitude de superioridade moral que impeça a obtenção de consensos, mas causara muito pouco dano se o compararmos, por exemplo, com um depurador étnico ou um terrorista. Mais ainda, todos os fanáticos sentem uma atracção, um gosto especial, pelo kitsch. Muito frequentemente, o fanático só consegue contar até um, já que dois é um número demasiado grande para ele ou para ela. Ao mesmo tempo, descobriremos que, com alguma frequência, os fanáticos são sentimentais incuráveis: preferem, muitas vezes, sentir do que pensar, e têm uma fascinação especial pela sua própria morte. Desprezam este mundo e estão impacientes por trocá-lo pelo “Paraíso”. No entanto, o seu Paraíso é geralmente imaginado como o final de um mau filme.”

(..) “Quem são os bons? É essa a principal preocupação de todos os Europeus bem-intencionados, de todos os esquerdistas europeus, de todos os intelectuais europeus, de todos os liberais europeus. Quem são os bons e os maus da fita? Neste sentido, o Vietname era muito fácil. Sabia-se perfeitamente que os Vietnamitas eram as vítimas e os Norte-Americanos os maus. O mesmo se passava com o apharteid: podia-se discernir com facilidade que o apartheid era um crime e que a luta pelos direitos civis, pela libertação nacional, pela igualdade e pela dignidade humana, era um direito. A luta entre colonialismo e imperialismo, por um lado, e as vítimas do colonialismo e do imperialismo, por outro, parece relativamente simples: é fácil dizer quem são os bons e os maus. Quando se trata dos fundamentos do conflito israelo-palestiniano, as coisas não são tão lineares. E receio muito que não os facilitaria se eu dissesse simplesmente estes são os anjos e aqueles os demónios; bastará apoiar os anjos e o Bem prevalecerá sobre o Mal. O conflito israelo-palestiniano não é um filme do Faroeste selvagem. Não é uma luta entre o Bem e o Mal, mas antes uma tragédia no sentido mais antigo e rigoroso do termo; um choque entre quem tem razão e quem tem razão, um choque entre uma revindicação muito convincente, muito profunda, muito poderosa, e outra reivindicação muito diferente mas não menos convincente, não menos poderosa, não menos humana.”
(…) "Hoje lembro-me de uma velha história em que um dos personagens - de Jerusalém, está claro, de que outro sítio poderia ser? - está sentado num café em frente de um velho com quem entabula conversa. Ora, o velho é Deus em pessoa. Bem, o personagem não acredita logo, mas, após alguns sinais inconfundíveis, convence-se de que quem se senta do outro lado da mesa é Deus. E tem uma pergunta a fazer-Lhe, uma pergunta crucial, sem dúvida. «Querido Deus, por favor, diz-me de uma vez por todas: qual é a fé verdadeira? A católica romana, a protestante, talvez a judaica, acaso a muçulmana? Qual fé é a verdadeira?» E nesta história, Deus responde: “Para te dizer a verdade, meu filho, não sou religioso, nunca o fui, nem sequer estou interessado na religião.”

Amos Oz, Contra o fanatismo, tradução de Henrique Tavares e Castro, Edições Asa/Público, Lisboa, 2007.

Domingo, Maio 20, 2007

HOJE (H)Á NOITE

Sábado, Maio 19, 2007

NA RTP:

HOMENAGEM A MILÚ
A RTP transmitiu hoje a homenagem a Milú, realizada há dias no Teatro São Luiz. Foi uma festa bonita, com alguns excelentes momentos ("Xutos e Pontapés" a tocarem emocionados "Minha Casinha", o depoimento apaixonado de Raul Solnado, o entusiasta de António Pedro Vasconcelos, o bem humorado de Artur Agostinho ou o vivíssimo de Carmen Dolorers, e até Cavaco Silva esteve bem a entregar a comenda). Muitos tiraram-me palavras da boca, mas acho que tive mais sorte que muitos deles. A Milú foi também uma paixão minha de juventude (quem não estava apaixonado pela Milú por essa altura?). Ela nasceu a 24 de Abril de 1926, eu em 1942, leva-me alguns anos de vantagem, quando eu tinha para aí 10 anos, estava ela no esplendor da sua glória, nos seus 26 anos fulgurantes, era uma star, e os meus pais que se davam com alguns nomes das artes plásticas, do teatro e do cinema, eram visitas frequentes da casa da Milú, que então vivia, ao que me recordo, para os lados da Almirante Reis (se a memória não me falha). O que não me falha de certeza na memória é a recordação da excitação absolutamente anormal de estar na presença na vedeta, dela me afagar os cabelos, de me dar ternos beijinhos de boas vindas e despedidas (oh!, como eu gostarias que aquelas visitas fossem continuas entradas e saías de casa!). Quando os meus pais encontravam o Manuel Paião ou o Eduardo Damas, ou o Manuel de Lima, com quem invariavelmente visitávamos Milú, para mim era dia grande. Depois comecei a vê-la com muito maior atenção no cinema, e nunca um filme era mau por causa dela. Ela dava sempre um raio de luz, de elegância, de alegria, de modernidade em todos os filmes onde aparecia. Muitos anos depois, um dos meus amigos diários foi o Manuel Guimarães que tinha pela Milú uma admiração enorme. Trabalhara com ela num filme tragicamente transfigurado pela censura, mas que, mesmo assim (ou também por causa disso), me emocionou muito (“Vidas Sem Rumo”, 1956). Muito falámos da Milú então.
Maria de Lurdes de Almeida Lemos apareceu no final, em palco, com radiosos 80 anos e a pose de diva que nunca perdeu. Lembrou Gloria Swanson a descer a escadaria da glória passada. Em vez de chamar por Cecil B. De Mille chamou por António-Pedro Vasconcelos, agradecendo o que o cineasta por ela fizera. Foi bonito.
Milú foi cançonetista, actriz de cinema e de teatro de revista, tendo-se estreado aos doze anos em "Aldeia da Roupa Branca", ao lado de Beatriz Costa. Em 1942, quando eu nasci, e enquanto Orson Welles dirigia “Citizen Kane”, nos EUA, Milú é a "Luisinha" de "O Costa do Castelo", de Artur Duarte, e a sua voz imortalizou a música "Minha Casinha" mais tarde recriada pelos "Xutos e Pontapés". Outro sucesso seu foi "Cantiga da Rua". Casou pela primeira vez, em Dezembro de 1943, aos dezassete anos, e dizem que “Lisboa se despovoou para ir ver a noiva à igreja de São Sebastião da Pedreira.” Interrompeu então a carreira, mas foi obrigada a regressar, para novos sucessos, "Cantiga da Rua","O Leão da Estrela", em 1947, "O Grande Elias", em 1950, entre outros. As revistas de cinema e quase todas as outras escolhiam-na para capa, pois a sua beleza deslumbrava. Fez teatro de revista no Teatro Avenida, nomeadamente em "Ó Rosa Arredonda a Saia" e no Teatro Variedades com "A Vida é Bela" e entrou em alguns filmes em Espanha, nos anos de 1943 e 1946. Casou, pela 2ª vez em 1960, com Luís Nobre Guedes, e viveu no Brasil até 1968, tendo actuado na televisão brasileira, esporadicamente. A sua última aparição deu-se em cinema, em "Kilas o Mau da Fita", de José Fonseca e Costa, em 1980.
Os filmes de Milú: Aldeia da Roupa Branca (1939), O Costa do Castelo (1943), Doce lunas de miel ou Doze Luas-de-Mel (1944), Barrio ou Viela (Rua Sem Sol) (1947), O Leão da Estrela (1947), A Volta de José do Telhado (1949), O Grande Elias (1950), Os Três da Vida Airada (1952), Agora É Que São Elas (1954), Vidas Sem Rumo (1956), Dois Dias no Paraíso (1958), O Diabo Era Outro (1969) e Kilas, o Mau da Fita (1981).

Sexta-feira, Maio 18, 2007

AUGUSTO BOAL



A PAIXÃO E A ARTE
[…] A arte pode ser entendida de muitas maneiras. Eu prefiro dizer que a Arte, qualquer arte, é sempre um conjunto de sistemas sensoriais que permitem aos seres humanos – e só a eles! – fazer representações do real!
[…] Mesmo os primeiros pintores rupestres que, nos tetos de suas cavernas, pintavam bisontes, leões e outros animais, mesmo eles sabiam que uma coisa é o real e outra, diferente, sua representação pictórica: sem medo, o pintor cavernícola se aproximava do chifre e do dente da fera, quando pintada, mas fugia assustado do seu modelo, solto no descampado.
As artes são representações do real, não são o real: mas, que real é este que elas representam? Existem artes, como a pintura, que organizam a forma e a cor, no espaço. E existem artes, como o teatro, que organizam ações humanas, no espaço e no tempo.
Se nisto consiste a Arte – na organização e na representação do real – e se o teatro representa ações humanas, quais destas ações serão dignas da representação teatral?
Evidentemente, só aquelas nas quais os seres humanos revelam suas paixões. Lope de Vega, escritor espanhol do Século de Ouro, costumava dizer que o essencial ao teatro são dois atores, um tablado e… uma paixão.
Mas… o que é a Paixão? A Paixão, como a Arte, pode ser definida de muitas maneiras; eu prefiro dizer que a paixão é cada um dos sentimentos extremos dos quais o ser humano é capaz. O amor e o ódio, a busca de um ideal e a solidariedade fraterna, a curiosidade científica e a realização esportiva podem ser paixões, se forem extremos. O artista, quando o é de verdade, é um apaixonado.
É preciso reabilitar a Paixão, restaurar seu sentido primeiro de força vital, danificado pela semântica que faz da palavra grega pathos a origem de paixão e patologia.
Paixão não é sofrimento, não é doença: é vida! A Paixão de Cristo não foram doze quedas, percalços no caminho do Calvário: Paixão era a sua determinação em realizar o desejo do Pai e salvar o ser humano do pecado original.
Quem vos fala não é um religioso: é um apaixonado! Sou um homem apaixonado pelas paixões, e juro que não são elas que causam meu sofrimento: são os obstáculos que entre mim e elas são erguidos.
Não é a paixão de Romeu e Julieta que os faz sofrer e lhes traz a morte: é o ódio voraz entre Montequios e Capuletos, suas famílias latifundiárias, seus sequazes e capangas, que lutam por mais terra e mais poder.
O obstáculo faz sofrer: a paixão vivifica! Foi a paixão de Che Guevara que o levou à felicidade cubana; foram os obstáculos imperialistas que o levaram à morte boliviana. Foi a paixão do Tiradentes que o levou à Inconfidência Mineira; foi D. Maria, a Louca, que o levou à forca!
A paixão faz sofrer, é certo; não, porém, porque seja paixão, mas por ser libertária!
O ser humano, na sua luta inclemente contra a Natureza, luta pela sobrevivência e pelo gozo, pelo seu legítimo desejo de fruir a vida, que é tão fugaz – desejo que é nosso direito e dever!
Augusto Boal, in “O Teatro como Arte Marcial”

AVISOS IMPORTANTES

VÁVÁ.DIANDO
Almoço de sábado sobre BLOGOSFERA
ADIADO
a pedido de diversas familias bloguistas
Para uma próxima ocasião
(dado muitos interessados em assistir
não o poderem fazer amanhã, sábado, 19, às 14,00).
Oportunamente será indicada nova data.
***






(os últimos avisos foram-me enviados por mail, pelo Fred. Alguns são deliciosos).

TEATRO: A HERANÇA MALDITA





HERANÇA MALDITA

Augusto Boal chama-lhe “Boulevar Macabro”, Hélder Costa traduz por “Comédia Negra”, ou “Black Comedy”, e acrescenta, citando Boal, pela boca de uma das saus personagens: “hoje só se fala inglês, acentos, parágrafos, etc., tudo é em inglês”.
O encenador explica: “A história fala das relações actuais, familiares ou não, totalmente dominadas pelo dinheiro; digamos que se trata de um “close up” da ideologia económica neo-liberal que conduziu à globalização universal.” De novo Boal: “Esta peça trata de famílias: nela, a família genética é apenas metáfora que esconde e revela outras famílias – a que já foi pátria, tribo, etnia, cor, clube, bairro; a que teve um chefe, profeta, santo ou herói. O belo, na família, é que ela incorpora, une, amalgama – às vezes, algema! O feio: expulsa, afasta, repele, separa, condena.” Ataca forte e feio a globalização, no seu estilo de guerrilha política e artística: “A epidemia da globalização, hoje – pior do que a peste espanhola que matou milhões de pessoas pelo mundo afora, faz cem anos; pior que a cólera e outras pestes que devastaram a Europa na Idade Média; - a globalização infecta a parte maior da Humanidade e divide-a em três grandes famílias: primeira, a daqueles que controlam o “Mercado”; segunda, a dos que nele estão inseridos; terceira, infeliz, que reza nos corredores da morte, do desemprego e da fome: esta é a Humanidade descartável, vítima do moderno Holocausto. Esta Família Econômica sobrepõe-se à raça, ao credo e à cor, ao tempo e ao espaço. Seus vínculos sanguíneos são as acções das multinacionais; seu coração é a Bolsa. Eu quis falar destas três Humanidades e desta pena: para que exista família, é necessária a exclusão; necessário expulsar aqueles que a ela não pertencem. E a mesma violência, necessária para excluir os outros, pode se voltar contra os próprios membros da mesma família! Falei metaforicamente.” Augusto Boal escreveu no Rio de Janeiro, em Fevereiro de 2004.
Quatro irmãos, e a mãe de todos, reúnem-se num andar desconhecido de um edifício previamente assinalado a uma meia-noite de um dia determinado. Vêm tratar da herança que o pai lhes deixou, muito embora todos os filhos tenham muitas dúvidas sobre o verdadeiro pai, dada a promiscuidade da mãe. Um dos filhos é um advogado que frequentou as três melhores universidades do mundo e chumbou em todas, um outro é lixeiro no Vaticano, casado com uma freira arrependida, o terceiro é galã e amante do desporto, a quarta é uma solteirona virgem que ficou para tia depois de ter tratado de todos os irmãos até uma altura em que ninguém já olhava para ela.
Todos querem a herança milionária, até ao momento em que descobrem que não há herança nenhuma do pai. Na penúria exercitam a imaginação, passam pela herança da freira, filha renegada de um milionário italiano, mas acabam por focalizar a atenção no mano que tem massa e julga chegada a altura de um suicídio, para assim não envelhecer, nem enrugar o seu belo corpo de Adónis. Suicídio que é aplaudido com ambas as mãos por todos os familiares, mãe e irmãos. Coisa feia, descrita com frieza, um humor eriçado, com sangue nas mãos e culpa nas almas, mas a cobiça do dinheiro e a falta de escrúpulos fazem da moral um vazio de comportamento. Vale tudo para ter, mostrar, ostentar, subir na vida. Passa-se por cima de todos, mesmo de um cadáver de irmão que é preciso fazer desaparecer depois. Se até ai se comem uns aos outros, por que não continuar?
Uma comédia negra, divertida e caustica, sobre a maldade, com escorreita encenação de Hélder Costa e divertidas interpretações de João D’Ávila, Maria do Céu Guerra, Rita Fernandes, Pedro Borges, Ruben Garcia e Sérgio Moras.

Dois últimos dias (18 e 19 de Maio de 2007) no Cinearte, Teatro de A Barraca, às 21,30 horas; M/12 anos; Bilhetes: 12,5 €; Menores 25, Maiores 65, Estudantes, Reformados e Grupos (+ 15 pessoas): 10 €; Marcações pelo 213965360/213965275 ou pelo e-mail barraca@mail.telepac.pt.

Quinta-feira, Maio 17, 2007

BLOGUES DEFENDEM LIBERDADE

No "Diário de Notícias" de hoje, texto de Helena Tecedeiro:



Iranianas apostam no 'bloguistão'

para resistir ao regime islâmico

Apesar de poderem votar, conduzir e de até estarem em maioria nas universidades, as mulheres do Irão continuam a poder ser presas apenas porque não estão vestidas segundo o código islâmico imposto pelo regime. Discriminadas, apesar de menos do que noutros países islâmicos, as iranianas encontraram na blogosfera um último reduto que lhes permite resistir ao ultraconservadorismo do Presidente Mahmud Ahmadinejad, longe da repressão da polícia.
Críticas ao regime ou desabafos sobre a vida sexual, tudo é possível no "bloguistão", a palavra que os iranianos usam para designar a blogosfera. Actualmente existem mais de 700 mil blogues em farsi - língua oficial do Irão - metade dos quais escritos por mulheres. "É uma forma de as iranianas dizerem 'resistimos e vamos continuar a mobilizar-nos' apesar das detenções e pressões", disse ao Le Figaro a socióloga iraniana Masserat Amir Ebrahimi.
Especialmente apreciado pelas defensoras dos direitos humanos, o "bloguistão" revela-se uma boa forma de fugir à censura: quando esta encerra um site, basta ao seu autor abrir um novo noutro endereço. Mas a liberdade dos cibernautas revela-se por vezes tão virtual como a realidade em que se movem.
Num artigo sobre a importância da blogosfera para as iranianas, o diário espanhol El Mundo revelava há dias que, em Março, quatro feministas foram condenadas por terem defendido nos seus sites a melhoria da condição da mulher no Irão. Responsáveis pela campanha "um milhão de assinaturas para a alteração das leis que discriminam as mulheres", as quatro foram acusadas de atentado à segurança nacional. E podem ser condenadas a penas de seis meses a dois anos e meio de prisão.
Tendo gozado de uma liberdade pouco comum num país muçulmano durante o regime do xá Reza Pahlevi - que nomeou várias ministras, juízas e autorizou as mulheres a usarem roupas ocidentais -, as iranianas viram o seu estatuto mudar com a Revolução Islâmica de 1979 e a chegada ao poder do ayatollah Khomeini. Hoje, podem ser apedrejadas por cometer adultério, a custódia dos filhos é automaticamente entregue ao homem em caso de divórcio e apenas têm direito a herdar metade daquilo que os homens herdam. Mesmo assim, as iranianas têm melhor acesso à educação do que outras muçulmanas e são jornalistas, médicas ou advogadas - situação impensável, por exemplo, na Arábia Saudita.
Igualdade
Se aos olhos da charia (lei islâmica) a vida de uma mulher vale metade da de um homem, na blogosfera as cibernautas sentem-se iguais aos colegas do sexo masculino. É verdade que têm de usar pseudónimos - Dona Sol, A Ameixa, A Esposa, por exemplo -, mas, quer sejam mães de família ou estudantes, estas iranianas têm online a oportunidade de se exprimirem livremente, que o regime lhes nega. "O movimento feminista não é homogéneo. Há laicas, islamitas e mulheres de vários extractos sociais. Mas todas estão unidas para conseguir a igualdade de direitos", explicou ao El Mundo María Jesús Merinero, professora na Universidade da Extremadura e autora do ensaio Resistencia creadora en Irán.
Para além das críticas de cariz político, os diários virtuais são o único local onde as iranianas podem falar de assuntos tabus como o sexo. E algumas delas não escondem mesmo nada. "Dormir com um homem qualquer? Não é um problema", confia uma cibernauta que recorre a um pseudónimo. O seu blogue é, segundo Le Figaro, inteiramente dedicado aos seus encontros amorosos, desmistificando a questão da perda da virgindade antes do casamento.
Já este ano, o Governo de Teerão ordenou o encerramento de todos os sites cujos autores não estejam identificados. Mas muitas bloguistas continuam a resistir e garantem: "A censura torna-nos mais criativas".

texto transcrito com a devida vénia do "Diário de Notícias" de hoje, 17 de Maio de 2007.

Quarta-feira, Maio 16, 2007

AS PEDRAS


As Pedras

Semi-despida aguardas a pedrada no charco
Quando ela vem sentes um pouco do fim
Antecipado na fé e na crença do inútil

Uma outra chega e bate no teu rosto
O amor agora está tingido de sangue
Cada pedra a mais é um beijo proibido
E o céu já não é tecto da tua vida

Morre-se aos poucos atirada aos cães
Morre-se de vez devorada nos olhares

Os olhos consomem-te, agora aos milhares
Como se em visão postiça
Se fizesse justiça

Se eu fosse Deus só por um segundo
Velava por ti espalhada p'lo mundo
Mas eu não sou Deus nem por um segundo...
Adeus!

(Imagem: Pollock, War, 1947)
Posted by Ana Paula at 00:22 3 comments

Belissima contribuição da Ana Paula, no Blogue "Música do Acaso". Espero que compreenda esta transcrição como uma homenagem à sua indignação e à sua sensibilidade. a obra de Pollock, de 1947, parece ter sido feita de encomenda. Inspiradissima escolha.

AINDA O HORROR: VER OU NÂO VER

Ainda
Du’a Khalil Aswad


Sobre o caso de Dua Khalil Aswad, a jovem de 17 anos, assassinada à pedrada no Norte do Iraque, para desagravo da honra dos familiares, a amiga Ana Paula, do Blogue “Música do Acaso”, deixou aqui um comentário que rezava assim: “Em casos destes, tão graves, geralmente acho todas as palavras vãs. No entanto, em memória desta rapariga que desaparece do mundo de modo tão absolutamente indigno, quero dizer alguma coisa.
Sinceramente, é tudo duplamente asqueroso: o fanatismo religioso que mata impunemente (renego qualquer forma de fanatismo), aliado à extrema indignidade de filmar este acto vil e colocar na internet para exploração do voyeurismo doentio das sociedades ocidentais e de outras pró-ocidentalizadas. Pessoalmente, repugna-me a ideia de filmar um tal acontecimento. E explico: terá sido para divulgação do horror e iniciativa de luta contra... ou terá sido para gáudio de tantos sádicos cobardes que existem pelo mundo fora? A ser verdadeira a primeira hipótese, admite-se pela boa intenção. Infelizmente, apostaria em que como se deveu à segunda. E, por isso, não leve a mal, mas recuso-me a ver esses supostos "filmes". É uma questão de pudor, sinónimo de respeito pelo sofrimento indescritível dessa jovem. Não sei se isto é racional, não sei. Há questões que são da sensibilidade. É assim que sinto.
Sinto-me céptica em relação a este tipo de movimentos de petições, online ou outras. Na verdade, aqui e noutros casos, seria preciso agir. Ou seja: onde está a intervenção militar do mundo ocidental nestes lugares do mundo? Existiu para quê? Existe para quê? Não era aqui, nesta precisa hora, que deveriam estar? Fazendo alguma coisa! Na impossibilidade de evitar, indo atrás dessa multidão criminosa!! Mas não... Aposto que ficará tudo pelas vozes. A substância do acto ficará por eliminar. Trata-se de uma rapariga anónima. É assim. Hoje em dia, é preciso acrescentar aos selvagens o aparato tecnológico. É isto o surrealismo!
Peço desculpa pelo comentário tão longo. Acabei por me inflamar com tal atentado aos tão proclamados Direitos Humanos!
Para si, o meu elogio: a blogosfera também serve para pensar e alertar. Fica o alerta, sem dúvida. Mas como mudamos, de facto, tudo isto?!! É muito complicado.”
Realmente é tudo muito complicado, mas este comentário, merece-me algumas considerações. Divulgar actos monstruosos, pode ou não ser um dever. Depende de muita coisa, e é conveniente raciocinar sobre o tema.

1º O que é notícia neste caso? O facto destes vídeos terem sido filmados e colocados na Internet. Vejamos porquê:
Título da notícia do Publico é significativo: “Apedrejamento de curda filmado com telemóvel e divulgado na Net.” E explica logo a seguir: “Adolescente de uma minoria religiosa mantinha relação com jovem muçulmano; multidão assistiu e gravou o crime em que participaram familiares da rapariga.”
No final da noticia pode ler-se uma reacção da directora da secção portuguesa da Amnistia Internacional, Cláudia Pedra, que “observa que este tipo de violência é muito comum na região, mas muitos casos não chegam a ser conhecidos, porque são normalmente levados a cabo pelas famílias, "de forma encapotada". Mas este é o primeiro caso de que Cláudia Pedra tem conhecimento a ser filmado e depois colocado na Internet.”
Como se vê, este é um crime silencioso que se multiplica por aqueles lados, mas que não chega ao conhecimento público porque a lavagem da honra se faz pela calada da noite, entre familiares e amigos (realmente entre cúmplices). O que há de novo aqui, é que o crime pode ser comprovado, visto, pois foi registado. Não o querer ver é aceitar a comodidade da cumplicidade com a “lavagem da honra” dos familiares.
Voltando à notícia do Publico: “Uma jovem curda, de 17 anos, foi apedrejada até à morte por querer casar-se com um homem de religião diferente. O incidente deu-se a 7 Abril, nos arredores de Mossul, no Norte do Iraque. O caso, contudo, só teve eco na comunidade internacional depois de vídeos do espancamento e apedrejamento, filmados com telemóveis, terem sido colocados na Internet.”
Que acrescentava: “Os seis pequenos vídeos, de baixa qualidade e muito violentos, foram postos on-line, no início deste mês, no conhecido YouTube. Acabaram por ser retirados pelos administradores do site, mas estão já disponíveis noutros locais. As imagens mostram uma rapariga deitada no chão, semidespida e rodeada por uma multidão de várias dezenas de homens. A jovem é pontapeada e várias pedras e um bloco de cimento são-lhe atirados à cabeça. Muitos homens estão a fotografar e a filmar com telemóveis. Um dos vídeos mostra mesmo dois polícias (perto da zona das agressões e aparentemente indiferentes aos acontecimentos), que parecem ser chamados a intervir. A imprensa local indica que o episódio durou meia hora. Mais tarde, o Exército iraquiano acabou por tomar conta do local.”
Quando existe uma prova de um crime, de um crime horrendo contra a Humanidade, não nos podemos alhear, não podemos olhar para o lado, em nome do “bom gosto”. Sim, todos nós, os que temos alguma decência na cara, somos a jovem Dua Khalil Aswad, sim, todos nós morremos um pouco com as pedras e os blocos de cimento que “irmãos e tios” lhe despejaram na cabeça até a rebentarem em sangue vivo, que rapidamente se tornou sangue morto, sim, todos nós fomos apedrejados por uma bando de assassinos sem nome, comandado espiritualmente por sacerdotes que pregam ódio e o fanatismo, que exortam à violência e à morte, em nome da “lavagem da honra” e da tradição de uma qualquer religião ou moral. Nojento. Qualquer que seja a seita de malfeitores que se oculta sob o disfarce de uma religião. Não pode haver religiões assim. Só arremedos de religiões.
Os vídeos, e a sua difusão, foram o elemento, o único elemento que permitiu denunciar esta prática. Os vídeos, neste caso, são a nossa consciência, a certeza da nossa certeza.

2º O que se deve mostrar e ver, o que não de deve mostrar e ver?
Tema de grande actualidade, numa altura em que tudo é espectáculo.
Mas parece-me muito fácil discernir o que deve ser visto do que não deve ser visto, sem atentar contra a moral. Devem ou não mostrarem-se imagens do horror do holocausto, dos campos de concentração nazis e soviéticos? Devem ou não mostrarem-se as imagens de Hiroshima e Nagasaqui? Devem ou não mostrarem-se imagens do 11 de Setembro ou da invasão do Afeganistão e do Iraque?
Podem dizer-me que esses são acontecimentos de dimensão colectiva, mas por vezes há acontecimentos individuais que, infelizmente, se tornam acontecimentos simbólicos, de repercussão colectiva, mais ainda, universal. A defesa dos mais elementares direitos humanos (o direito à vida, em primeiro lugar, o direito ao amor, o direito à escolha de uma religião ou de um parceiro) deverá estar à frente de tudo. Aqui, nos EUA, no Afeganistão ou no Sudão.
Uma outra coisa muito diferente é especular com os sentimentos mais fáceis e primários do público, dando-lhe, em doses maciças, o que ele quer ver sobre a pequena história. Por muito que custe dizer isto, sobretudo aos pais da menina desaparecida, o caso de Madeleine é o da pequena história quotidiana, o caso da jovem Dua Khalil Aswad diz respeito à grande História. O raptor de Madeleine pertence a um grupo humano patológico que sempre irá existir, por muito que nos custe aceitar esta certeza; os que mataram em alcateia de duas mil mãos a projectarem a morte com pedras e blocos de cimento têm de ser eliminados da face da Terra. Rapidamente. Os primeiros pertencem ao domínio da psicologia e da anormalidade, os segundos pertencem aos domínios da sociologia, da política, da religião. Uns isolam-se, outros anulam-se. Uns são casos de polícia, outros são casos de Estados, ou de Humanidade.
Reconheço que é tudo muito difícil, mas com um pouco de lucidez vamos tentar discernir e ver o que se deve ver para educação de todos, e o que se deverá evitar ver, para equilíbrio da vida de todos.
Quanto ao que se deve ou não fazer, para que servem petições e posts em blogues, eis o que a notícia do Publico conforma: “O Governo regional do Curdistão emitiu a 1 de Maio, poucos dias após uma manifestação de mulheres curdas na cidade de Erbil, um comunicado em que condena o assassinato de Dua Khalil Aswad. O comunicado sublinha que a lei iraquiana pune os chamados "crimes de honra" e que vários homens estão a aguardar julgamento por casos semelhantes. Pede ainda que o sistema judicial iraquiano puna os responsáveis pelo assassinato. As autoridades dizem que foram presas duas pessoas por causa do apedrejamento, mas que outras quatro fugiram. A divulgação dos vídeos na Internet suscitou também reacções por parte da imprensa internacional e de vários grupos de defesa dos direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional.”
Como se vê, a reacção regional, nacional e internacional dá os seus frutos. É preciso um protesto cada vez maior. Fazer ouvir o nosso protesto com cada vez mais força. Mais alto. Mais longe.

sobre Camopanha Internacional contra os Crimes de Honra:
http://www.stophonourkillings.com/index.php?name=News

International Campaign against killings and stoning of women in Kurdistan
http://www.petitiononline.com/kurdish/petition-sign.html
ainda um texto português. Uma mulher, Fernanda Cancio, do blogue "Glória Fácil"

e os deuses não se levantam
hoje andei à procura do vídeo da morte dela, na net. nunca tinha procurado uma coisa assim. nunca procurei os vídeos das execuções da al qaeda. não procurei o vídeo da morte de saddam -- embora o tenha visto, na tv. nunca tive sequer a ideia de fazer isso, de procurar um vídeo assim.
não o encontrei. na verdade, não sei se queria mesmo encontrá-lo. das duas ou três vezes que abri um site e fiz download do vídeo que dizia 'death by stoning of 17 year old iraqi girl' ou 'horrifying video' ou 'dua khalil aswad death' fi-lo com pavor. o pavor de quem não sabe se vai aguentar ver e o pavor, muito mais pavor, de quem receia aguentar bem de mais.
de todas as vezes, o vídeo não estava lá. foi retirado. foi retirado do you tube e de mais uma série de sítios. vai voltar sempre, claro. é uma espécie particular de snuff movie. há quem aprecie snuff movies. mas esse não é o ponto. o ponto era o porquê da minha busca.
podia dizer que tinha de ver para acreditar que uma rapariga de 17 anos pode ser lapidada hoje, no século xxi. mas eu acredito. já sabia que estas coisas acontecem. com pedras, com gasolina, com o que vier à mão, e pela mão daqueles em quem estas raparigas e mulheres mais confiam: os irmãos, os pais, os tios.
não, não é isso.
quando vi na tv aquelas imagens rápidas, indistintas, dos filmes de telemóvel, esses filmes instantâneos de todas as atrocidades que agora se servem fresquinhos na net, quis vê-la. ela não se via, ali, e eu quis vê-la. quis dar um rosto e uma dor a este nome, dua khalil aswad. quis gravá-la na minha memória, a rapariga curda de nome arrevezado. reconhecê-la como quem reconhece um corpo na morgue -- porque tem de ser, porque é, de algum modo, uma forma de respeito.
quis estar ali, uns segundos, um minuto, até aguentar. como testemunha. como irmã.
quis chorar por ela, quis ter raiva por ela, quis odiar por ela.
não há mais nada. f., 02:27

Segunda-feira, Maio 14, 2007

HUMANIDADE OU BARBARIDADE?

Eis uma demonstração de Humanidade no Curdistão,
em vingança religiosa, que mete um pouco de tudo,
mas sobretudo é uma demonstração de absurda desumanidade.
Como é possível que isto aconteça no Iraque,
ou noutro pais qualquer do mundo.
Como se pode matar à pedrada uma rapariga de 17 anos,
só porque gosta de um rapaz de outra religião?
Esta monstruosidade não pode ficar calada.
Não se pode dormir o sono dos justos se nada se fizer.
O Público deu a conhecer.



Aqui fica o texto com a devina vénia:
Apedrejamento de curda filmado com telemóvel e divulgado na Net
14.05.2007
por João Pedro Pereira

Adolescente de uma minoria religiosa mantinha relação com jovem muçulmano; multidão assistiu e gravou o crime em que participaram familiares da rapariga

Uma jovem curda, de 17 anos, foi apedrejada até à morte por querer casar-se com um homem de religião diferente. O incidente deu-se a 7 Abril, nos arredores de Mossul, no Norte do Iraque. O caso, contudo, só teve eco na comunidade internacional depois de vídeos do espancamento e apedrejamento, filmados com telemóveis, terem sido colocados na Internet.
Os seis pequenos vídeos, de baixa qualidade e muito violentos, foram postos on-line, no início deste mês, no conhecido YouTube. Acabaram por ser retirados pelos administradores do site, mas estão já disponíveis noutros locais.
As imagens mostram uma rapariga deitada no chão, semidespida e rodeada por uma multidão de várias dezenas de homens. A jovem é pontapeada e várias pedras e um bloco de cimento são-lhe atirados à cabeça. Muitos homens estão a fotografar e a filmar com telemóveis.
Um dos vídeos mostra mesmo dois polícias (perto da zona das agressões e aparentemente indiferentes aos acontecimentos), que parecem ser chamados a intervir. A imprensa local indica que o episódio durou meia hora. Mais tarde, o Exército iraquiano acabou por tomar conta do local.
Dua Khalil Aswad pertencia à religião Yezidi, que é uma mistura de Islão, judaísmo e cristianismo, bem como algumas crenças gnósticas e do zoroastrismo. Falam curdo e não são mais que 600 mil pessoas, concentradas a norte e oriente da cidade de Mosul, no Iraque, e muitas vezes a comunidade teve de enfrentar perseguições por motivos religiosos - chamam-lhes "adoradores do Diabo".
Mas Dua Khalil Aswad mantinha um relacionamento e pretendia casar-se com um sunita muçulmano. A família da jovem opôs-se ao casamento e esta fugiu de casa. Esteve escondida durante quatro meses em casa de um líder religioso muçulmano.
Alguns relatos apontam que Aswad já se teria convertido ao Islão. A conversão foi negada pelas autoridades do Curdistão, que explicaram que o apedrejamento se tratou de vingar o que foi considerado pela família como uma desonra.
Os familiares da jovem tinham-na recentemente persuadido a regressar a casa, convencendo-a de que teria sido perdoada. Entre os responsáveis pelo apedrejamento - uma multidão com cerca de 2000 pessoas - estavam, pelo menos, os irmãos e dois tios da vítima. Muitas das pessoas que assistiam tinham telemóvel, e há múltiplos vídeos do acontecimento.
O Governo regional do Curdistão emitiu a 1 de Maio, poucos dias após uma manifestação de mulheres curdas na cidade de Erbil, um comunicado em que condena o assassinato de Dua Khalil Aswad. O comunicado sublinha que a lei iraquiana pune os chamados "crimes de honra" e que vários homens estão a aguardar julgamento por casos semelhantes. Pede ainda que o sistema judicial iraquiano puna os responsáveis pelo assassinato.
As autoridades dizem que foram presas duas pessoas por causa do apedrejamento, mas que outras quatro fugiram. A divulgação dos vídeos na Internet suscitou também reacções por parte da imprensa internacional e de vários grupos de defesa dos direitos humanos, incluindo a Amnistia Internacional.
A directora da secção portuguesa da Amnistia Internacional, Cláudia Pedra, observa que este tipo de violência é muito comum na região, mas muitos casos não chegam a ser conhecidos, porque são normalmente levados a cabo pelas famílias, "de forma encapotada". Mas este é o primeiro caso de que Cláudia Pedra tem conhecimento a ser filmado e depois colocado na Internet.
Os videos foram retitrados do You Tube, mas existem 6 videos aqui:
É PRECISO VER.
Aqui veja reacções internacionais:
assine uma petição contra a barbárie:

MANHÃ SUBMERSA NO QUARTETO

manhã submersa

Li Manhã Submersa há uns poucos anos, mas o meu Vergílio Ferreira já era (e continua a ser) outro, aquele onde aparece a magnífica Sofia. Foi portanto com uma memória difusa que entrei no Quarteto para ver a adaptação que Lauro António fez para cinema em 1980, e que se encontra em reposição.
Filmado na Serra da Estrela, “Manhã Submersa” segue os trilhos de António, um menino de uma família muito pobre que é encaminhado por uma senhora devota e abastada da região para um seminário. No seminário, mostrado com um espaço de extrema disciplina e autoritarismo asfixiante, António toma consciência de si enquanto homem, constatando a evidência da sua falta de vocação e ganhando finalmente coragem para o acto brutal que o conduz à libertação.
O filme consegue captar bem o ambiente de prisão do seminário (embora nunca caia na crítica sensacionalista à Igreja), pontuando-o com visões evasivas de António, que recorda a beleza imensa das paisagens e das gentes da sua terra. E apesar de estarmos perante um protagonista de pouca idade, nem por isso deixamos de o ver – também – como alguém que se está a tornar pleno, conhecendo, percebendo, superando-se.

Com uma banda sonora a cargo de trechos de Verdi, que confere ao filme um tom trágico, “Manhã Submersa” é um filme muito interessante sobre a infância, o crescimento e a forma como somos condicionados e como ousamos procurar uma forma de romper com as limitações que nos são impostas.
(e foi também uma forma de recordar a Serra, na boa companhia da Rita e do Miguel)
escrito por H. pelas 12:00 AM
Comentário escrito por H. no Blogue "
As Imagens Primeiro."

Domingo, Maio 13, 2007

UMA DIVA, PARA A ETERNIDADE

O QUE UMA DIVA VESTE



entrevista rara

SABEM O QUE É UMA DIVA?

DIVA, DIVA

OUTRA DIVA, A SUBLIME

OUTRA DIVA, MAIS DA MESMA

OUTRA DIVA, A MESMA CANÇÃO

UMA DIVA, 6

UMA DIVA, 5

UMA DIVA,4

UMA DIVA, 3

UMA DIVA, 2

UMA DIVA

Para amenizar as noites, com os melhores desejos

retirado de um blogue que "descobri":

CINE CLUBE DE FARO:SUITE PARA DOM ROBERTO

cineclube de faro said...
caro lauro antónio,


Desculpe a intrusão, mas é o “desespero” a falar :-) a comunicação social dita respeitável não nos liga muito... e dado o seu interesse pelo tema...
enfim, fica a informação!
obrigado.
a direcção do CCF


BERNARDO SASSETTI, EM CONCERTO QUE IGUALMENTE COMEMORA O 10º ANIVERSÁRIO DO SEU TRIO (Sassetti no piano, Carlos Barreto no contrabaixo e Alexandre Frazão na bateria, ESTREIA EM FARO A SUA ÚLTIMA COMPOSIÇÃO MUSICAL, "SUITE PARA DOM ROBERTO", uma encomenda do Cineclube de Faro.

6ªf, 18 DE MAIO, PELAS 21H30, NO TEATRO DAS FIGURAS (TEATRO MUNICIPAL DE FARO).

mais informações aqui

se o link não resultar, favor copiar e colar no browser este:
http://www.cineclubefaro.com/web/programacao/default.asp?p=e&s=3f&d=05&yr=2007

(abraço da anabela moutinho :-)
Anabela: Gosto do filme, gosto do Ernesto de Sousa, gosto dos actores que nele aparecem, gosto do Cine Clube de Faro, gosto do Bernardo Sasseti, gosto de si... logo...
Um abraço e boa casa (se puder lá estarei!)

Sábado, Maio 12, 2007

UM DESAFIO

Um "meme" é um " gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma".

resposta ao desafio da querida Bandida:

- "Posso resistir a tudo, menos às tentações".
- "Não tenho nada a declarar, exceto minha genialidade."
- "Vou morrer como vivi. Acima de minhas possibilidades".
- "O homem tem a idade da mulher que ele ama".
- "Para ser popular é necessário ser uma mediocridade."
- "Não sou exidente: só quero o melhor. "
- "Uma idéia que não é perigosa não merece ser chamada de idéia."
- "A verdade jamais é pura e raramente é simples."
- "Não há pecado, exceto a estupidez."
- "Todas as grandes idéias são perigosas."
- "O segredo da vida está na arte."
- "Estamos todos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas."
- "Quando as pessoas concordam comigo eu sinto sempre que devo estar errado."
- "Ser natural é a mais dificil das poses."
- “Escolho os meus amigos pela alma lavada e pela cara descoberta.”
Oscar Wilde, várias à escolha

passo agora a: Frederico, de Não há Nada como o Realmente, Ana, de Música do Acaso, Madalena, de Branco e Azul, Isabel, de Caderno de Campo, Maria, de Lapis Exilis, eIda, de Sulburbio.

Quarta-feira, Maio 09, 2007

O CASTELO EM IMAGENS


O Castelo em Imagens
httP://casteloemimagens.blogspot.com

{... há castelos intactos, renovados, sonhos desenhados em esquiços de papel. há castelos inventados e projectados em grandes telas de cinema. há estórias repletas de emoções, canções e dilemas, representados por personagens com quem nos identificamos... por vezes! há castelos habitados por duendes, fadas, bruxas malvadas, principes e rainhas que governam ministérios de pedras encantadas. há também amores e desamores sofridos, vividos, perdidos, achados, amaldiçoados e até mesmo eternos, aqui em terras lusas. há impérios de imagens, puras colagens abstratas do teorema da vida que nos trazem aqui - a todos -, a este castelo de portel! Há também o cineasta Lauro António... há o alentejo que me acolhe quase por vocação, durante oito meses para que seja projectada uma nova exposição em 2007. há tudo isso e muito mais, neste País onde se encalha por prazer! é onde vamos estar, neste festival de cinema, a 10,11 e 12 de maio, realizado por Lauro António com a parceria da Câmara Municipal de Portel... sejam bem vindos!}

Referência retirada do blogue Lapis exilis, de musqueteira, que agradecemos.

DESAPARECIDA

DO QUARTO DOS SEUS PAIS DESAPARECEU
A blogosfera serve também para esta cadeia de solidariedade num momento de particular dor para uma família que perde o rasto da filha. Esperemos que a menina apareça o mais rápido possível. Sem traumas de maior. Esperemos também que os pais, estes da Maddie McCann, e todos os outros de idênticos meninos e meninas, aprendam a não ir jantar sozinhos, e deixar filhos de dois e três anos sozinhos no quarto. Ao menos que este caso sirva de lição.
Se a sociedade é tradicionalmente perigosa (sempre o foi, não é de agora!, sempre o será, infelizmente!), ao menos os pais minimamente instruídos e com algumas posses, como é o caso, deviam ter o cuidado de não cometer leviandades destas. Os pais da Maddie não calculam a que ponto compreendo o seu sofrimento (deve ser uma provação indescritível), mas depois da menina aparecer devia levar um bom puxão de orelhas.
Ninguém está longe de lhe acontecer alguma coisa medonha, mas há formas de tornar o medonho mais banal. Deixar crianças de tão tenra idade num quarto de hotel, sozinhas, não entra na cabeça de ninguém. Sobretudo para ir jantar romanticamente, sozinhos, no restaurante do canto. Sem nenhuma desculpa de falta de educação ou de formas de sobrevivência. Apenas desleixo.


Maddie McCann's
Desapareceu a MADDIE.
Com apenas 3 anos de idade,
desapareceu do seu quarto (na Praia da Luz - Algarve).

Quem tiver algum sinal desta menina,
ligue para um destes números de telefone:
289 884 500 , 282 405 400 , 218 641 000 , 112

EM KONTRASTES, ENTREVISTA

No Blogue KONTRASTES,
de João Ferreira Dias,
surge hoje uma entrevista
com o autor deste blogue,
sobre Blogosfera.
podem ler em
"Conversas de Café":
http://kontraste.wordpress.com/2007/05/09/420conversas-de-caf-cappuccino-no-cinema-conversa-109/#respond


Domingo, Maio 06, 2007

O MEU GATO "POKER" E OS OUTROS

A Eduarda fotografou o Poker, e acho que ficou bem. É o meu gato, o "nosso" gato.

Quando ele foi "adoptado", eu tinha para aí sete gatos (cheguei a ter nove, num sexto andar de Lisboa, mas com óptimas varandas para os suportar), depois uns foram dados (os mais novinhos, de uma ninhada recente), a seguir os mais velhos morreram (que saudades do Batman e do Spike, ambos pretinhos!), a Mariana morreu também de overdose de ninhadas, acho eu, e o castanhinho, o adorável e rebelde “Xarope” fugiu para a liberdade pela segunda vez e foi atropelado na avenida. Foi um desgosto imenso. Ficou o Poker. Falando do Poker apetece-me recordar os outros.
O primeiro de todos foi o Batman. Era noite escura, acabara de sair do Vává, seriam para aí três da manhã (nessa altura o café fechava às duas e ficávamos parados à porta a falar até às tantas), no estacionamento em frente ouvia-se um miar contínuo, desesperado, miudinho. Os amigos foram embora, e eu andei uma boa meia hora a espreitar por baixo dos carros, até descobrir um tufo de pelo preto, que apanhei, trouxe para casa, acordei a Eduarda que dormia, olha a surpresa que tenho aqui, ela olhou, e o Batman foi adoptado logo ali. Depois veio a Mariana, veio pequenina e magrinha, foi a Eduarda que a descobriu nas traseiras do prédio onde trabalhava. Era uma ninhada enorme, abandonada, ela e as amigas disputaram os rebentos, e chamou-lhe Mariana porque, justificou, tinha sido um “amor de perdição”. O Batman e a Mariana tiveram uma primeira ninhada, tempos depois, que eu ajudei a pôr no mundo. Quase todos cinzentinhos (“saíram” muito bem, os amigos disputaram-nos, eram lindos de morrer) e um preto que ninguém queria, a não ser o Frederico. Ficou o”seu gato”, e era o Spike (o Fred andava à volta de Spike Lee!). Depois houve ninhadas e mais ninhadas, os amigos ficaram saturados de ofertas, tivemos de pôr termo aquele despautério. Mas a Mariana entretanto morreu. Idade e total ausência de controlo de natalidade. Ficaram só o Batman e o Spike. A morte da Mariana causou profunda depressão cá em casa e para desanuviar a S. foi a casa da Tia Nena, que tinha lá uma ninhada, e trouxe-nos o “Xarope”, o mais irrequieto gato da minha vida. Uma gracinha! Uma coisa fofa! Isso mesmo: o gato a que se dizem todas as enormidades, a que se chama todos os estereótipos. Era mesmo fofo e arranhava, e brincava e fugia. Um dia fugiu e esteve dois meses desaparecido. Encontrei-o no jardim do porteiro, numa caixa de cartão, todo esventrado, carne à vista, certamente por uma dentada de cão. Aventura-se na rua, fugira escada abaixo, e fora dar a mau destino. O porteiro recolhera-o, mas não sabia que era meu. Recuperei-o, chamei de urgência um veterinário, e na cozinha, em cima do mármore da banca, com um lençol por baixo, foi operado e cozido durante horas. Recuperou de tal forma que ninguém diria que estivera no estado em que o recolhera. Mas, alguns anos depois, a vertigem da liberdade voltou a fazê-lo fugir escada abaixo, nunca soubemos quando, mas dois dias depois percebemos com que destino. Não me alongo em descrições pois não são boas de recordar.
Fiquou o Poker que também tem uma história para contar. Tinha eu nessa altura muitos gatos, apareceu-me na escada, a miar à minha porta, um gatinho já com uns mesinhos (reparem sexto andar de um prédio das avenidas novas, ou foi milagre ou foi ali posto por alguém). Miava e, quando o apanhei, esticou-se todo como uma madeira. Era difícil de agarrar. Bem procurei pelo dono, perguntei por todo o lado se alguém perdera o gato que estava à minha porta e nada. Ficou. Sempre com as unhas espetadas e o corpo hirto como um varapau. Um dia teve uma doença qualquer, já não recordo, ficou murchinho e perdido a um canto até ir a um veterinário. Ficou hospitalizado durante uma semana. Voltou rijo como um marmelo. Mas doce. A enroscar-se em nós, a procurar-nos, a andar atrás de nós como um cão (um cão daqueles chatos, que não largam o dono!). Ficou até hoje. É uma delícia de gato. Só tem um defeito, um mijinho de quando em vez em jornais, revistas e mesmo nalguns livros de estimação. Um dia mesmo, mijou-me as “frequências” dos meus alunos do Porto, que eu estava a corrigir e deixara em cima da mesa da sala. Foi muito envergonhado que tive de devolver frequências mijadas. Acho que o Poker não tinha nada contra os alunos e a sua manifestação de saber. Apenas adorou o cheiro do papel.
Está ali em cima, e é muito bonito, o meu gato. O nosso gato.

CADAVRE EXQUIS

"cadavre exquis", de Man Ray, em desenho.

ATENÇÃO, MALTA AMIGA
e desconhecidos em geral
No blogue NonBlog,
existe um "Cadáver Esquisito" (Cadavre Exquis) em progresso.
Coisa muito divertida, aberta à contribuição de todos.
Apareçam e escrevam.
Está em Cadavre-Exquis.


Boa sorte, e solte o surrealista que há em si.

Sábado, Maio 05, 2007

PRÓXIMOS VAVA.DIANDO



ATENÇÂO BLOGUISTAS DA ÁREA

DE LISBOA E ARREDORES

DIA 19.05.07

CONVERSA SOBRE BLOGOSFERA

ALMOÇO

E TARDE DE CAVAQUEIRA

NO VÁVÁ

Sexta-feira, Maio 04, 2007

IVA DELGADO VAVA.DIANDO

IVA DELGADO FALA
DAS ELEIÇÕES DE 1958
E DE SEU PAI, HUMBERTO DELGADO


Casa cheia para ver e ouvir Iva Delgado,
no Vává, em Lisboa, na noite passada.
Uma comunicadora nata,
numa lição de História ao vivo.
A simpatia e a eficácia
de uma contadora de histórias da História.

Quinta-feira, Maio 03, 2007

TERESA SÁ INAUGURA EXPOSIÇÃO


Teresa Sá inaugura exposição no Porto, no dia 4 de Maio, na galeria Lab.65. Estará patente até dia 2 de Junho. As fotografias da Teresa são excelentes, e tive o maior prazer em escrever um texto para mais esta apresentação pública da sua sensibilidade.
Não percam a exposição.
Lá estarei um dia destes. Não a 4 que não posso.
Ate lá: um beijo Teresa e "muita merda!"

Teresa do outro lado do espelho

Antes de tudo o mais as fotografias que se agrupam na série "My own private wonderland" são
encenações. Sendo encenações, são obviamente ficções. Ficções que nascem do imaginário interior de Teresa Sá e que ela concretiza na imagem exterior, depois de as concretizar em si - essas ficções são encenadas tendo como figura central, como protagonista a própria fotógrafa. São encenações que passam pelo subconsciente da artista, antes de se concretizarem em matéria visível. Não há, pois, nada de "realista" na visão de Teresa Sá, por muito realistas que possam parecer paisagens e interior.
Olhe-se uma menina/mulher caminhando por uma estrada fora, numa paisagem a perder de vista. Nada de mais realista se poderia conceber à partida, nem uma única anotação irrealista, surrealista, e … todavia, esse quase hiper-realismo conduz-nos para lá do realismo, a um realismo fantástico, a um maravilhoso que, ultrapassando o realismo, o renega. Todo o trabalho de Teresa Sá nos projecta nesse mundo imaginado/imaginário onde a artista, por vezes "performer" de si própria, se instala e se instala confortavelmente. Pode ser um mundo fantástico, mas é um universo apetecível, onde a figura humana se inscreve transgredindo as regras, mas fazendo-o de forma lúdica, brincando consigo e com a realidade circundante. Qual Alice, Teresa leva-nos para o outro lado do espelho, para o outro lado do "seu" espelho. Conduz-nos pela mão e leva-nos ao seu universo profundamente feminino e profundamente infantil. Mas cuidado. Tal como em Alice, esse universo infantil não é isento de uma certa perversidade, de um certo prazer em provocar, em esconder o rosto por detrás das mãos ou encostá-lo às paredes. A personagem esconde-se por detrás de um chapéu de sol, de um braço, de um feixe de luz, esconde a sua possível identificação fora do enquadramento, e este jogo de "esconde-esconde" é um jogo igualmente de "esconde-revela", pois é através dessa duplicidade de mostra e destapa que a artista se nos esconde e se nos revela no que tem de mais íntimo, de mais pessoal, de mais recôndito.
Há outro aspecto curioso neste conjunto de fotografias. A paragem do tempo. Sabe-se que fotografia fixa o movimento. É um "instantâneo". Mas muitas tendem à reprodução do movimento, por muito que a objectiva o tenha captado numa fracção de segundo imutável. No caso de Teresa Sá, as suas fotografias fixam o momento, mas o momento parece já estar fixado antes do disparo da máquina o fixar. São quadros imóveis que a câmara regista. A menina/mulher levanta as saias e olha de cabeça baixa para as pernas descobertas, mas este momento é um instante que já estava eternizado no tempo, antes de Teresa Sá o registar na imagem. Pelo menos, assim o vejo. A menina/mulher de rosa-velho não caminha numa paisagem de verdes e ocres (que bem utiliza as cores Teresa Sá!). Não. Tudo está fixo neste instantâneo. Teresa Sá limitou-se a registar essa paragem do tempo.
Mas há outras fotografias onde essa paragem é ainda mais objectiva. Nem uma aragem parece bulir na quieta melancolia das árvores do caminho. Mas não há drama nunca neste universo de casa de bonecas. Pode falar-se de solidão, mas esta é uma solidão pretendida. A protagonista faz sozinha esta viagem porque assim o quis. Sente-se em cada fotografia o prazer, o gozo da solidão. A solidão é a da procura individual, a viagem de iniciação que só pode ser feita a solo. Não há drama nesta solidão de paisagens reconfortantes, ou de velhas casas desabitadas, onde apenas se escutam vozes do passado quando os ouvidos se encostam ao desbotado papel da parede ou às tábuas do soalho. Nem mesmo quando o corpo jaz no chão, acreditamos no drama, apenas entrevemos disfarce, ocultação, vontade de prolongar o jogo.
Em todas as fotografias, somente uma vez se descortina o tempo, a acção, o movimento. É quando a personagem rasga a luz que a encadeia e a leva a atravessar o espelho e a saltar para o outro lado da realidade. Pela ordem que vejo as fotos, esta é a última da sequência, o que tem a sua lógica: Alice, que viajou pelo país das maravilhas, regressa contrafeita ao outro lado do espelho, o lado de cá, o lado de uma realidade sem maravilhoso, o lado donde nos encontramos, nós, espectadores de um sonho que percorremos, mas que temos de largar quando nos mergulhamos nessa realidade cinzenta.
Mas nada de desesperos, porque há sempre uma Teresa Sá a libertar-nos para o lúdico e o
maravilhoso da vida. Da sua, e nossa vida. Neste, e desse lado do espelho.
Lauro António
Lisboa, Abril, 2007

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Venham + 5

A magnifica Isabel Victor, de "Caderno de Campo" nomeou-me entre os blogues de que gosta, que fazem pensar, e que visita regularmente.
O importante é que nomeou porque gosta de frequentar o espaço, o que muito me satisfaz (Já o disse, e repito!).
Pelo facto em si, e porque assim posso nomear mais cinco, que, como já tinha deixado adivinhar no meu post anterior são:

LAPIS EXILIS
LETRAS DE BABEL
SULBURDIO
TALVEZ TE ESCREVA
A TRADUÇÃO DA MEMÓRIA

Todos eles imperdíveis.
Vejam links aqui ao lado.
Mas ficam tantos por nomear... E já vou nos 25
Obrigado Ouriço, S., Ana Paula, Bandida, Isabel Victor...

BALANÇO DAS NOMEAÇÕES:

Até agora nomeei 25 blogues (eu que não queria nomear nenhum, pois ia criar injustiças e levantar-me enormes problemas de consciência). Vejamos quais ( a ordem não tem qualquer significado):

1.
NÃO HÁ NADA COMO O REALMENTE
DETESTO SOPA
MÚSICA DO ACASO
BANDIDA
NONBLOG

2.
A a Z
CADERNO DE CAMPO
DA LITERATURA
HOJE HÁ CONQUILHAS
PIANO

3.
AMARCORD
CINERAMA
AS IMAGENS PRIMEIRO
PASMOS FILTRADOS
WASTEDBLUES

4.
BRANCO AZUL
CASA DE OSSO
ENCANDESCENTE
INOMINÁVEL
INTRUSO

5.
LAPIS EXILIS
LETRAS DE BABEL
SULBURDIO
TALVEZ TE ESCREVA
A TRADUÇÃO DA MEMÓRIA

À bica para serem nomeados:
REVISTA FIM
EM CENA e ARTE E LINGUA (ambos da M.M.)
LILACDAYS e RASPBERRIESANDBEDROOMS (ambos da Teresa Sá)
MINISCENTE
REPÚBLICA E LAICIDADE
LA MARÉE HAUTE
CLARAS EM CASTELO
EDUCAIMAGEM
RUA DA JUDIARIA
ALDINA DUARTE
E mais uns quantos ainda….

Terça-feira, Maio 01, 2007

LAURO CORADO, UM ILUSTRE AVEIRENSE





LAURO CORADO
UM ILUSTRE AVEIRENSE
O Teatro Aveirense, que comemora 125 anos, tem na sua frontaria uma tarja a recordar 18 aveirenses ilustres, que vão de Homem Cristo a Zeca Afonso, passando por Arlindo Vicente e Vasco Branco, entre muitos outros. Entre eles, Lauro Corado, pintor, meu pai.
Foi com orgulho, mas sem máquina fotográfica, que há dias passei frente à entrada do Teatro e descobri o retrato do meu pai.
Mão amiga fez-me chegar agora este conjunto de fotos que agradeço reconhecidamente.

VENHAM + CINCO


A simpática "Ouriço" nomeou-me entre os blogues de que gosta, que fazem pensar, etc e tal. O importante é que nomeou porque gosta de frequentar o espaço, o que muito me satisfaz. Pelo facto em si, e porque assim posso nomear mais cinco, que, como já tinha deixado adivinhar no meu post anterior são:

BRANCO AZUL
CASA DE OSSO
ENCANDESCENTE
INOMINÁVEL
INTRUSO

Todos eles imperdíveis. Vejam links aqui ao lado.
Mas ficam tantos por nomear... E já vou nos 20
Obrigado Ouriço, S., Ana Paula, Bandida...

MANHÃ SUBMERSA NO QUARTETO

"MANHÃ SUBMERSA"

REGRESSA AO QUARTETO

durante alguns dias o filme "Manhã Submersa",

retirado do romance de Vergílio Ferreiro,

vai estar no cinema Quarteto, em Lisboa.