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O MÁGICO,
UMA NOSTÁLGIA SERÔDIA
Final da década de 50 em França: um ilusionista de teatro e cabaret começa a ter algumas dificuldades em assegurar o posto de trabalho. Os tempos mudam, o público prefere os cabelos compridos de Juliette Greco ou, mais a norte, na Grã-Bretanha, os sons do rock e da irrequietude dos Baetles, aos magos que retiram coelhos brancos das cartolas. Nem os incondicionais da ópera o compreendem. O mágico vai andando de cidade em cidade e de fiasco em fiasco, apesar de, na Escócia, num pequeno pub de uma cidadezinha da província, tocar o coração de Alice, a jovem empregada que faz as limpezas e arruma os quartos. Quanto ele parte para Edimburgo, ela persegue-o. Coabitam num quarto de pensão, mas as dificuldades aumentam, o mágico tenta outros empregos, sem se fixar em nenhum. Compra vestidos a Alice, mas não lhe toca, olha-a de longe. Dir-se-ia um delicado e sensível cavalheiro a quem o mundo trocou as voltas e o fez viver num universo que já não é o seu. História de nostalgia e tristeza. Não é só o mágico que perde o comboio do tempo, apesar de muito andar de comboio. Ventríloquos, palhaços ou malabaristas estão no mesmo comboio, uns suicidam-se, outros acabam a pedir esmola pelas esquinas da vida. Triste. Sim, muito triste.
Sylvain Chomet, o mesmo que nos dera "Belleville Rendez-vous", o mesmo que não abandona a animação clássica, e que não adere ao digital (ainda que aqui e ali se sinta a cumplicidade disfarçada), foi buscar ao espólio de Jacques Tati um argumento que este nunca havia rodado, “L'illusionniste”, e transforma-o em animação com a intenção óbvia de ser ao mesmo tempo uma homenagem ao fabuloso cineasta que nos deu meia dúzia de obras-primas que para sempre ficarão na nossa memória (e mais forte ainda, no nosso coração): “Há Festa na Aldeia”, “As Férias do Senhor Hulot”, “O Meu Tio”, “Vida Moderna”, “Sim, Senhor Hulot” ou “Parade”. Jacques Tati era francês, mas de ascendência russa, o seu verdadeiro nome era Jacques Tatischeff. Sylvain Chomet constrói uma belíssima personagem que se chama precisamente Tatischeff, e que tem a aparência da mais célebre criação de Tati, o senhor Hulot. Por vezes chegamos a ter a sensação de que Hulot voltou, está ali à nossa frente e a homenagem é bonita.
Como muito bonita é a animação desta obra de cores nostálgicas e suaves, que nos restitui um pouco do universo de Tati. Mas aqui entronca então a questão essencial. O espírito deste “O Mágico” tem algo a ver com Tati, mas deturpa-o escandalosamente. Tati era crítico e mordaz, mas era terno e sensível. A mudança de tom não seria algo de profundamente errado, pois o realizador é outro, e imprime-lhe o seu próprio pensamento e sentir. Acontece que estes pensamento e sentir é que são, no mínimo, muito discutíveis.
O que ressalta desta obra? Que a marcha do tempo é inexorável e que há quem vá ficando pelo caminho, mesmo que de forma injusta? Essa seria talvez a visão equilibrada do problema, mas “O Mágico” opta por uma outra vereda: o mágico assume-se como o homem certo no lugar errado, rodeado de burgessos sem alma, todos vendidos ao dinheiro, à facilidade, à “monstruosidade” grotesca que são Greco, Beatles, Montserrat Caballé e etc., todos eles apresentados de forma caricatural, bem como o seu público. Depois há os patrões sem coração. O garagista que o despede por incompetente ou o dono da loja que o põe a fazer publicidade a produtos na montra do seu estabelecimento. Sylvain Chomet despreza o primeiro, não se percebendo bem porquê, dado que Tatischeff pode ser um bom mágico, mas revela-se um incompetente técnico, e mostra a indignidade dos segundos que colocam a arte ao serviço da venda dos produtos (o que também não é muito coerente com a sua própria actividade de animador que assinou diversas obras de publicidade, nomeadamente para a Renault, Swissair, Swinton, entre outras).
O fim de um tempo é sempre traumático para as suas vítimas, e pode ser um momento excelente para olhar para trás e elogiar esses homens e mulheres engolidos pela mudança. Sobre um tema semelhante, há um filme magnífico de Tony Richardson, "The Entertainer" (1960), que nos fala de um actor de vaudeville que vê a sua arte ser ultrapassada, ou uma outra obra de dolorosa nostalgia, “The Dresser” (1983), de Peter Yates, igualmente sobre um actor em fim de carreira.
Mesmo no plano emocional, Sylvain Chomet se mostra injusto para a personagem Alice (a que gosta de passar para o outro lado do espelho, atrás de um coelho branco que aqui sai da cartola de Tatischeff), quando a acusa de ser interesseira, aproveitando-se da bondade do mágico, mas trocando-o pelo primeiro duplo de Jack Palance que lhe aparece na janela da frente. Mas que se poderia esperar daquela relação compartimentada entre sala e quarto senão um tal desfecho?
Por estes motivos todos parece-me que com “L'illusionniste” se perdeu um bom momento para o elogio da animação tradicional, que pode e deve coabitar com as novas tecnologias. Não com este arzinho enraivecido que Sylvain Chomet destila, pessimista, derrotista, serôdio. Mas mostrando que sempre há e sempre houve lugar para todos. “Toys Story” pode muito bem conviver com "Belleville Rendez-vous".
No final, Tatischeff parte de comboio, depois de deixar um bilhete a dizer a “Alice” que a magia não existe. O que Alice não deve compreender muito bem, numa altura em que encontrou o seu “príncipe encantado”. Mas Tatischeff parece ter finalmente aprendido a lição. No comboio, uma miúda deixa cair um pequeno lápis com que desenha. Tatischeff encontra-o e compara-o com o seu: o da criança está gasto, e seu está novo. Por um gesto de prestidigitação vai trocá-los? Não, apenas fazer o que é justo: dar à miúda o lápis dela. Tatischeff perdeu a magia. Outros a encontrarão. Acho muito irritante aqueles que julgam ter a verdade consigo, e que todos os outros estão errados. “O Mágico” entra abertamente por esses caminhos e o que de bom e muito bom há no filme acaba por sucumbir a este espírito que roça o mesquinho.
O MÁGICO
Título original: L'illusionniste ou The Illusionist
Realização: Sylvain Chomet (França, Inglaterra, 2010) ; Argumento: Sylvain Chomet, segundo argumento original de Jacques Tati; Produção: Philippe Carcassonne, Sally Chomet, Jake Eberts, Jinko Gotoh, Bob Last; Música: Sylvain Chomet; Direcção artística: Bjarne Hansen; Direcção de Produção: Fiona Hall, Michael Solinger, Pierre Tissot; Assistentes de realização: Paul Dutton; Departamento de arte: Pierre-Henri Laporterie, Emma McCann, Rhiannon Tate, Evgeni Tomov; Som: Carl Goetgheluck; Efeitos visuais: Jean Pierre Bouchet; Animação: Paul Dutton, Victor Ens, Toby Schwarz, Mike Swofford, Yann Tremblay; Companhias de produção: Django Films Illusionist, Ciné B, France 3 Cinéma, Canal+, CinéCinéma, France 3; Intérpretes (vozes): Jean-Claude Donda (Tatischeff, o mágico), Eilidh Rankin (Alice), Duncan MacNeil, Raymond Mearns, James T. Muir, Tom Urie, Paul Bandey, etc. Duração: 80 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 23 de Dezembro de 2010.















Inicialmente assiste-se à vida de Carl Fredricksen, vendedor de balões, casado, feliz, até que a morte da mulher o vai encontrar com 78 anos, e desejoso de realizar o sonho da sua vida (e da mulher, que tem até um álbum dedicado à “Grande Aventura”: uma fabulosa viagem que o levará (e à sua casa) até às Cataratas do Paraíso. Prende então milhares de balões à sua modesta vivenda e consegue voar à descoberta do sonho. Que é também o pesadelo. Ou mesmo dois pesadelos: a presença de um intrometido escuteiro, mas bom rapaz, preocupado com a harmonia ecológica, e a chegada à terra onde o perigoso Charles Muntz persegue e cataloga ossadas de animais extintos ou em via de extinção. O filme é delicodoce até ao aparecimento de Muntz, torna-se uma vertiginosa aventura daí em diante. De início arrasta-se em fotografias de álbum de família a puxar ao choradinho, depois lança-se numa aventura estilo Indiana Jones. 

Esse amigo confessa a Ari Folman que não percebe o significado dos cães com que sonha e não recorda nada da guerra. Ari Folman também não se lembra da guerra por onde passara há vinte anos atrás e que ficou conhecida como Guerra do Líbano. O filme será uma procura dessa memória, invocando testemunhos de outros combatentes que tinham estado ao lado de Ari nesse conflito, sobretudo quando as tropas israelitas invadiram o Líbano e chegaram a Beirute, passando de caminho pelos massacres de Sabra e Chatila, que se tornaram tristemente célebres na altura e agora serviram de base de apoio para esta magnífica película de animação (que não é para crianças, mas sim “para adultos”, sem que a designação contenha qualquer referência a “sexo explicito”).
Convém, no entanto, recuar um pouco e situar historicamente os acontecimentos de que falamos. O Líbano tinha-se tornado, a partir de 1948, um país em constante estado de guerra civil, dado que possuía uma população muito heterogénea, composta por cristãos maronitas e muçulmanos, com entrada no conflito de países como a Síria ou Israel e a OLP, de Yasser Arafat. Cada um com ideias definidas sobre quem devia governar, e com os palestinianos furiosos pela sua expulsão da Jordânia, às ordens de Hussein. As alianças faziam-se e desfaziam-se, tão depressa era a Síria a aliada, como Israel, e no meio desta onda de violência descontrolada, que causava massacres de inocentes dos dois lados das barricadas, o próprio país se viu dividido em áreas de influência delimitadas. A luta levou a que a OLP se instalasse no sul do Líbano. Pode considerar-se que a guerra teve quatro momentos decisivos: entre 1975 e 1977, com combates e massacres entre as comunidades religiosas, e uma intervenção síria, a pedido do Parlamento Libanês; entre 1977 e 1982, caracterizada por uma intervenção de Israel no sul do Líbano, através do que ficou conhecido como “Operação Litani”; entre 1982 e 1984, com a invasão de Israel, a tomada de Beirute e a posterior intervenção das Nações Unidas; e entre 1984 e 1990, culminando com os Acordos de Taif, assinados na Arábia Saudita, onde foram criadas condições para o cessar-fogo em 1990.
Massacres de católicos e de muçulmanos foi acontecimento que se tornou infelizmente banal, e poucos sabem quem começou esta guerra de guerrilha e de terrorismo insano. Cada facção aponta o inimigo como principal culpado e um observador isento tem dificuldade em julgar. Mas isso pouco importa para a análise do filme de Ari Folman, que é sobretudo um olhar retrospectivo sobre a entrada das tropas israelitas no Líbano, em 1982, e os massacres do sul da capital libanesa, entre 16 e 18 de Setembro. O massacre de Sabra e Shatila imolou centenas ou milhares (os números vão de 300 a 3.500, consoante o quadrante) de refugiados civis palestinos, numa acção perpetrada por milicianos cristãos maronitas, nos campos de Sabra e Shatila, então sob protecção de Israel. A opinião mundial voltou-se mais uma vez contra Israel e culpou o então ministro da defesa, Ariel Sharon, de ser pessoalmente responsável pela chacina, tendo falhado na protecção aos refugiados.
Neste processo de recuperação de memória, Ari Folman, conhecido documentarista israelita, entrevista nove pessoas, sete das quais aceitam dar a cara, sendo que as duas restantes deram os seus depoimentos a ler a actores. A animação parte então da imagem real, trabalhada como desenho por uma equipa de técnicos de animação. Há quem precipitadamente afirme que se trata de um documentário em animação. Nada de mais errado, não pela técnica, mas pela pesquisa que o filme encerra. Não há nada de mais subjectivo do que a memória, logo não há nada que possa ser mais ficcionado do que esta obra. O que vemos e ouvimos são recordações traumáticas, muitas vezes recalcadas, logo possivelmente distorcidas, de experiências pessoais que não têm nada de comum e de objectivo. Esse possivelmente um os fascínios desta experiência, essa procura de uma objectividade possível, esse ressuscitar da história pessoal num quadro de História colectiva que se processa através de depoimentos que nem sempre coincidem, mas que lentamente se vão ajustando na memória de Ari Folman. A memória deste homem é reavivada por testemunhos exteriores a si, filtrados por experiências privadas diversas, que ele, todavia, vai de certa forma assimilando, fazendo suas. A recordação da chegada a uma praia, por exemplo, num oceano juncado de cadáveres, vai sendo progressivamente reavivada. Mas nada nos diz que se trate de uma reconstituição histórica correcta, mas sim de um puzzle cujas peças se vão ajustando com base em palavras ouvidas que encontram eco no subconsciente de Ari Folman. Nada de mais pessoal e intimista, nada de menos documental. Mas esse é seguramente um dos aspectos mais estimulantes desta pesquisa. Sobre essa cena da praia, que funciona como um “leit motiv”, o próprio realizador afirmou (ao “Sight & Sound”): "It should be hallucinatory but also realistic," e mais adiante, "We wanted to make a realistic scene in a very dreamy way, so that you would be confused until the very end about whether it really happened." "Waltz With Bashir'" é, por isso mesmo, um trágico documento “pessoal” sobre o horror da guerra, que um israelita assume com invulgar coragem e desassombro. Coragem que vai até final, quando, na derradeira sequência, a animação cede perante as imagens reais do brutal massacre. Da incansável procura do passado ressurge finalmente o passado.
Um belíssimo filme de uma actualidade gritante. Quem nos dera que os palestinianos tivessem do seu lado a oportunidade, ou o desejo, de criarem obra idêntica. Razões não lhes faltarão certamente. E só da assunção das culpas por ambas as partes se poderá chegar a um entendimento possível, que reponha a paz na região. Que o cinema pode ser uma arma, “Valsa com Bashir” atesta-o.










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