segunda-feira, abril 18, 2011

CINEMA: RIO

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 RIO 

Carlos Saldanha é brasileiro e assume-se hoje como um dos principais autores de animação dos estúdios norte-americanos Blue Sky, normalmente distribuídos internacionalmente pela Twentieth Century Fox. Ele foi um dos criadores da excelente série “A Idade do Gelo” e agora aparece, individualmente, a assinar “Rio”, um filme que obviamente lhe dirá muito. Objectam os brasileiros contra alguns aspectos do filme e protestam de alguma forma contra a sua tendência exótica, afirmando que ela é “mais uma visão de estrangeiro” sobre o Brasil, com samba, carnaval, futebol, favela, crime e animais excêntricos. Visão de clichés, carregada de chavões. Pois parece-me que sim, mas há que ter em conta que este é um filme para crianças (ou melhor: “para todos os públicos”, o que compreende ser também para crianças) e isso obriga a certas simplificações e reduções. O Brasil não é, obviamente, só este retrato que nos é dado aqui, este é o Brasil que os turistas procuram, o que lhes vendem. Mas este Brasil também existe. Certamente não se esperava um filme para crianças com o Brasil de “Tropa de Elite” ou o Brasil estético e depurado de João Moreira Salles ou de Júlio Bressane. Cada arara no seu galho.
Mas mesmo assim “Rio” não é o grande filme de animação que se podia esperar tendo o Rio de Janeiro como pano de fundo. Obviamente que tem uma cor exuberante e um ritmo vigoroso, é evidente que a animação é impecável, ao bom estilo da casa, é certo que a história tem todos (se calhar demasiados) condimentos para agradar. Vejamos:
O filme abre sobre um nascer do dia no Rio de Janeiro, em vista panorâmica sobre a cidade e a baía, as casas, o mar, a floresta. Com o nascer do dia, esta regurgita de vida. As plantas e as aves movimentam-se livremente até à chegada medonha das redes que aprisionam as aves e as encerram em gaiolas, com destino a terras desconhecidas. Entre os aprisionados, encontra-se Blu, uma arara bebé, de um intenso azul que, juntamente com as irmãs de espécie, lá vai para “Not Rio”, ou seja, o gélido estado de Minnesota, onde, apesar de tudo, tem a sorte de cair nas mãos da bondosa Linda, que o conserva cuidadosamente nos próximos quinze anos. Muito mimado e instruído, por entre livros e ricos pequenos almoços, Blu vive satisfeito da vida, não se importando nada com o facto de nem sequer saber voar. Nunca precisou. Mas um dia aparece Túlio, um ornitólogo que anda em perseguição de Blu para, através dele, tentar preservar a raça das araras azuis. No Brasil existe uma fêmea, única no mundo, de nome Jade, que quer “conhecer” Blu. Eles têm de levar Blu até Jade e esperar que a raça não morra. O que fazem, mas com péssimos resultados: Blu e Jade são apanhados pelo tráfico de animais, levados para as favelas, acorrentados um ao outro, até que conseguem fugir. O filme acompanha as peripécias dessa fuga, e são algumas. Temos, assim, Blu e Jade em fuga, Linda e Túlio a tentarem localizá-los, os traficantes no seu encalço, e o Rio em época de Carnaval com o sambódromo a transbordar de gente para ver a banda passar. Tudo isso e os macaquinhos ladrões e o falcão malvado e os amigos dos perseguidos tentando ajudá-los. História de amor que começa mal e acaba em “happy end” (faz lembrar os encontros da parelha Fred Astaire-Ginger Rogers), filme de aventura e perseguições com uma ave que não sabe voar acorrentada a uma intrépida moçoila, animal domesticado que não se adapta já à vida natural, metáfora ambientalista “politicamente correcta”, musical sambado em homenagem a Carmen Miranda, passeio turístico pela bela e romântica “cidade maravilhosa” (está lá tudo, o Cristo Redentor, o Pão de Açúcar, os arcos da Lapa com os ónibus a passar, as favelas, a já citada baía da Guanabara, a floresta da Tijuca, a avenida Atlântica, os desfiles no sambódromo, etc.), enfim “Rio” é um pouco de tudo isso, mas diverte, os miúdos gostam e os pais não se aborrecem. Apesar de muito musicado, nem por isso é muito feliz, com a partitura de John Powell (que conta com colaborações especiais de Carlinhos Brown e Sérgio Mendes). Não é, todavia, o grande filme que o Rio merece. 

RIO
Título original: Rio
Realização: Carlos Saldanha (EUA, 2011); Argumento: Carlos Saldanha, Don Rhymer; Produção: Bruce Anderson, John C. Donkin; Música: John Powell; Fotografia (cor): Renato Falcão; Montagem: Harry Hitner; Decoração: Melanie Martini; Direcção de Produção: Jacob Carlson, Gina Grasso, Mark Jacyszyn;  Departamento de arte: Nash Dunnigan, Rachel Tiep-Daniels; Som: Randy Thom; Efeitos visuais: Heather Brown, Taylor Shaw, Doug Spilatro; Animação: Nick Bruno, John E. Hurst, Sergio Pablos, Jason Sadler, Joshua Spencer, etc. Companhias de produção: Blue Sky Studios, Twentieth Century Fox Animation; Intérpretes (vozes originais): Jesse Eisenberg (Blu), Anne Hathaway (Jewel), Leslie Mann, Rodrigo Santoro, Wanda Sykes, Jane Lynch, Jamie Foxx, Will.i.Am, Bernardo de Paula, Carlos Ponce, Jake T. Austin, Thomas F. Wilson, George Lopez, Bebel Gilberto, Judah Friedlander, Tracy Morgan, Karen Disher, Jason Fricchione, Sofia Scarpa Saldanha, Kelly Keaton, Gracinha Leporace, Phil Miler, Carlos Saldanha, Renato D'Angelo, Jeffrey Garcia, Davi Vieira, Jemaine Clement, Cindy Slattery, Justine Warwick, Miriam Wallen, Tracy Morgan, Sergio Mendes, etc. Duração: 96 minutos; Distribuição em Portugal: Castello Lopes Multimédia; Classificação etária: M/ 6 anos; Estreia em Portugal: 14 de Abril de 2011.

sábado, abril 16, 2011

TEATRO: AS TRÊS IRMÃS

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 AS TRÊS IRMÃS
Depois de “Platonov” (2008), e de “A Gaivota” (2010), Nuno Cardoso encerra o ciclo dedicado a Anton Tchekhov, fechando a trilogia com a encenação de “As Três Irmãs”, uma das obras mais célebres e mais representadas do dramaturgo russo, um dos expoentes do teatro moderno do século XIX. Em jeito pessoal, devo confessar que este é um dos meus autores preferidos. Julgo que a forma como analisa certos microcosmos da sociedade e das relações humanas nunca foi superada em teatro. “As Três Irmãs” é um óptimo exemplo disso: três irmãs, herdeiras órfãs de uma aristocracia rural em decadência, vivem perdidas nos confins gelados da Rússia. Sonham com Moscovo, a cidade, a metrópole, a aventura, o improvável. Uma vai dando aulas, outra casou com um bom homem que a não satisfaz, outra, a mais nova, quer trabalhar e sonhar com Moscovo. Os tempos estão a mudar. Nas reuniões que todas as noites promovem em sua casa, os militares que as visitam falam e filosofam sobre a natureza humana que para uns é imutável e para outros se vai aprimorando. Um deles chega mesmo a afirmar, convicto, de que agora elas as três são apenas um exemplo, mas que, amanhã, o número se multiplicará e a Humanidade viverá feliz. Não é todavia o que a peça demonstra, pois um a um os sonhos vão morrendo, Moscovo está cada vez mais longe e a felicidade não é decididamente daquele mundo. E o que vem aí não deixa também muitas dúvidas: o irmão de Olga, Macha e Irina perde-se de amores por uma recém chegada, sem escrúpulos e com febre de subir na vida, com quem casa e que lentamente toma conta da família e impõe a sua nova ordem. Serão estes os novos tempos que se adivinhavam na Rússia de fim do século XIX, início do XX? O desespero e o desencanto, a angústia que sobra desta peça genial não deixa margens a muitas dúvidas, por muito optimistas que possam parecer algumas frases finais.
Trata-se de um texto primoroso que é conveniente nunca abastardar com encenações descuidadas ou provocações inúteis. O que mais se vê por aí, em palcos portugueses, são elencos que nem sequer sabem “dizer” um texto. Actores que comem as palavras, com uma dicção impossível, que nem num balcão de atendimento público se safavam, mas que tentam a sua sorte nos palcos, impunemente. Primeira vitória deste elenco de Nuno Cardoso: irrepreensível. Terá os seus altos e baixos quase imperceptíveis, mas globalmente é de uma segurança (e talento) notável. O texto é belissimamente reproduzido, interiorizado, vivido.
Segundo trunfo desta encenação: procura recriar o texto de Tchekhov sem nunca o destruir. A encenação é brilhante nalguns momentos, discutível aqui e ali (sobretudo na abertura, com a coreografia, para mim excessiva, do bailado das irmãs e das cadeiras), mas sempre inteligente, tentando dar uma nova forma mas procurando que esta seja sempre coerente com o texto e as suas intenções, e sublinhando bem a sua contemporaneidade. É de um tempo de crise que se fala, é de pessoas à deriva por entre cadeiras que assinalam lugares, pontos, referências, símbolos. A encenação é neste aspecto criativa e estimulante, oferecendo momentos de grande intensidade dramática e de incentivadora originalidade. A forma como Nuno Cardoso encena o duelo é particularmente brilhante, mas há muitos outros momentos brilhantes num espectáculo que é, todo ele, imperdível.
A tradução de António Pescada do texto de Techekhov é muito boa. A cenografia de F. Ribeiro é verdadeiramente notável, pela instabilidade que cria num palco desenhado em suaves colinas. Os figurinos de Storytailors são igualmente excelentes, bem como o desenho de luz de José Álvaro Ribeiro. O elenco é constituído por Daniel Pinto, Isabel Abreu, João Grosso, José Neves, Luís Araújo, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Maria do Ceú Ribeiro, Micaela Cardoso, Sara Carinhas, Sérgio Praia, Tonan Quito, Vitor d’ Andrade. Lamentavelmente o programa não apresenta o elenco com a identificação de personagens e assim só me permito destacar os que conheço (erro meu, eu sei!), Sara Carinhas, Isabel Abreu, Maria Amélia Matta, João Grosso, muito bem.
Se gosta de teatro, não perca estas “Três Irmãs”, até 22 de Maio na sala Garrett do D. Maria II. É um prazer ver teatro assim. Em português. 


AS TRÊS IRMÃS
“As Três Irmãs”, de Anton Tchekhov; tradução: António Pescada; encenação: Nuno Cardoso; assistência artística e movimento: Victor Hugo Pontes; cenografia: F. Ribeiro; figurinos: Storytailors; desenho de luz: José Álvaro Correia; desenho de som: Rui Dâmaso; Intérpretes: Daniel Pinto, Isabel Abreu, João Grosso, José Neves, Luís Araújo, Manuel Coelho, Maria Amélia Matta, Maria do Ceú Ribeiro, Micaela Cardoso, Sara Carinhas, Sérgio Praia, Tonan Quito, Vitor d’ Andrade. Uma co-produção TNDM II e AO CABO TEATRO; Classificação etária: M/12 anos; Sala Garrett, de 14 de Abril a 22 de Maio 2011.

CINEMA: TROPA DE ELITE 2

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 TROPA DE ELITE 2 
- O INIMIGO AGORA É OUTRO

“Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro” prolonga “Tropa de Elite”, lançado em 2007 com enorme sucesso no Brasil e no mundo. Sucesso e polémica. Sobretudo para todos aqueles que pensam que polícia é sempre o vilão da fita e o criminoso a vítima do poder estabelecido. O filme de José Padilha mostrava que tanto polícias como criminosos se igualavam por vezes em métodos, e erguia uma figura de herói violento, mas impoluto ao nível da corrupção, o chefe do esquadrão da BOPE, Nascimento de seu nome (excelente criação de Wagner Moura).
“Tropa de Elite 2” também se poderia chamar “agora o filme é outro”, apesar do protagonista e o cenário serem os mesmos. Nascimento é agora coronel e, no início do filme, continua à frente da tropa de elite que instruiu como uma verdadeira máquina de guerra, mas por pouco tempo. A tentativa de apaziguar a revolta na cadeia Bangu 2 transforma-se num massacre, aproveitado pelo pacifista Diogo Fraga (Irandhir Santos) para denunciar mais este atentado aos direitos do homem. Nascimento torna-se não já um problema policial, mas político, sobretudo para os responsáveis do estado do Rio de Janeiro, que o resolvem afastar do comando do BOPE e “promovê-lo”, já que o pulsar popular a isso obrigava, a Secretário de Segurança, uma forma de o afastar da acção directa e colocá-lo a enfeitar mais uma prateleira de prestígio.
Aqui, digamos, começa “Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro”, quando Nascimento descobre os podres políticos da situação, os conluios que se estabelecem entre políticos preocupados com o voto e a reeleição, senadores e publicitários de campanha, alguma polícia, alguns meios de comunicação social, os bandidos das favelas, etc. Uma teia de interesses que se estabelece com base no dinheiro que circula e gera poder, poder esse que oferece votos, que garantem eleições e a permanência no poder. Nada que não se saiba em qualquer país do mundo, nada que o cinema de qualquer canto democrático não tenha já denunciado, por vezes com grande vigor e talento (relembram-se vários filmes americanos, italianos, franceses, espanhóis e etc.), por vezes com grande tibieza e mesquinhez de olhar (e estou a recordar alguns portugueses recentes que abordavam a corrupção local deixando muito a desejar, procurando sobretudo o sucesso de bilheteira e não a denúncia aberta das questões abordadas).
O filme de José Padilha aproxima-se muito dos melhores exemplos italianos dos anos 60 e 70, com algumas cenas de violência muito bem conduzidas, e uma leitura muito “mais politicamente correcta” para as mentes inquietas com os direitos humanos do banditismo organizado. É óbvio que estes filmes de José Padilha só existem porque o Brasil vive realmente em democracia e, sobretudo, porque muito brevemente vão organizar dois eventos à escala mundial que impõem uma “limpeza” nas favelas (o que já aconteceu e vai continuar) e alguma atenção à corrupção institucionalizada. Neste aspecto, “Tropa de Elite”, 1 e 2, tranquilizam de alguma forma a população, uma forma inteligente de tranquilizar igualmente a política local.
Mas o filme tem efectivamente muitos aspectos positivos, ainda que ao nível da narrativa não tenha a fluência e a unidade do original. O facto de a acção passar, em grande parte, da rua para os escritórios e as salas oficiais, retira-lhe alguma espectacularidade, mas ganha outro empenhamento. A denúncia do apresentador de televisão que exorta o seu público para a violência policial como forma de atenuar conflitos, dos senadores comprados, dos chefes policiais vendidos, das campanhas eleitorais subsidiadas pelo crime, tudo isso resulta transparente e bem enunciado. Nascimento é visto, neste “opus 2”, como uma personagem nuanceada, que tem dúvidas, que hesita, humanizada sobretudo pela presença de um filho que o rejeita e que ele tenta conquistar (muito boa a cena de karate em que pai e filho se “abraçam” da única forma que Nascimento sabe abraçar, em luta, mas numa luta que aqui simboliza amor).
O ritmo é nervoso e bem conseguido, a fotografia densa e “vivida”, a interpretação brilhante por parte de todos os intervenientes, muito bem escolhidos para as personagens.

TROPA DE ELITE 2 - O INIMIGO AGORA É OUTRO
Título original: Tropa de Elite 2 - O Inimigo Agora é Outro
Realização: José Padilha (Brasil, 2010); Argumento: Bráulio Mantovani, José Padilha, Rodrigo Pimentel; Produção: Marcos Prado, James D'Arcy, Leonardo Edde, Malu Miranda, Carlos Eduardo Rodrigues; Música: Pedro Bromfman; Fotografia (cor): Lula Carvalho; Montagem: Daniel Rezende; Direcção artística: Tiago Marques Teixeira; Decoração: Odair Zani; Guarda-roupa: Claudia Kopke; Maquilhagem: Martin Macias; Direcção de Produção: Katiuscha Mello, Edu Pacheco; Assistentes de realização: Luiz Henrique Campos, Daniel Lentini, Paula Lima, Marianne Macedo Martins, Rafael Salgado, Jim Shreim; Departamento de Arte: Cristina Cirne; Som: Eduardo Virmond Lima, Alessandro Laroca; Efeitos Especiais: William Boggs, Rene Diamante, Bruno Van Zeebroeck; Efeitos visuais: Andre Waller; Companhias de Produção: Globo Filmes, Feijão Filmes, Rio Filmes, Zazen Produções; Intérpretes: Wagner Moura (Tenente-Coronel Nascimento), Irandhir Santos (Diogo Fraga), André Ramiro (Capitão André Matias), Pedro Van-Held (Rafael), Maria Ribeiro (Rosane), Sandro Rocha (Major Rocha / Russo), Milhem Cortaz (Tenente-Coronel Fábio), Tainá Müller     (Clara), Seu Jorge (Beirada), André Mattos (Fortunato), Fabrício Boliveira (Marreco), Emílio Orciollo Neto, Bruno d'Elia, Rod Carvalho, etc. Duração: 116 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 7 de Abril de 2011.

segunda-feira, abril 11, 2011

SIDNEY LUMET (25.VI.1924 - 9.IV.2011)

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 SIDNEY LUMET 
(25.VI.1924-9.IV.2011)
Foi um dos maiores cineastas norte-americanos da segunda metade do século XX, um sólido narrador, um autor sensível e, sobretudo, um homem de ideias. De boas ideias que sabia expressar com justeza e elegância, com vigor e clareza. Nisso se distinguia de muitos outros, porque em si o equilíbrio entre o que se dizia e o como se dizia era invariavelmente muito conseguido e participava de uma coerência total que nunca nos fazia arrepender de ver mais um título com a sua marca. Podia acertar mais ou menos, ser mais ou menos vigoroso e contundente, mais denso ou mais ligeiro, abordar o drama ou a comédia (muitas vezes negra), mas a sua marca estava lá e valia sempre a pena.

Sidney Lumet nasceu a 25 de Junho de 1924, em Filadélfia, Pensilvânia, nos EUA, onde viria a morrer, a 9 de Abril de 2011 (com 86 anos), em Nova York. Foi casado com Rita Gam (1949–1954), Gloria Vanderbilt (1956–1963), Gail Jones (1963–1978) e Mary Gimbel (1980–2011). Dirigiu mais de uma centena de filmes, entre obras para televisão, onde começou a sua carreira, como para o cinema, onde se notabilizou, a partir de 1957, com uma fabulosa adaptação ao ecrã da peça teatral de Reginald Rose, “12 Angry Men” (Doze Homens em Fúria). Rodado em tempo real, o filme reúne doze jurados numa sala de tribunal, onde vão rapidamente julgar da culpabilidade de um réu. Mas um dos jurados tem dúvidas e leva os outros onze a votarem “inocente”, porque a justiça pode errar, mas mais vale inocentar um culpado que culpar um inocente. Este é um dos mais importantes filmes sobre o funcionamento da justiça que se rodaram até hoje. “O Veredicto”, que o mesmo Lumet dirigiu anos depois, é outro.

Mas o cineasta, que principiou a trabalhar como director teatral nos palcos off-Broadway, e conseguiu depois um prestígio invulgar na sua carreira na televisão, que lhe permitiu a ele (e a muitos da sua geração, conhecida depois como a geração-televisão) dar o salto para o cinema, sempre se interessou por temas fulcrais da sociedade norte-americana e mundial, como a justiça, a corrupção, a polícia, o crime. Sempre teve sobre esses temas um olhar generoso, solidário, integro, justo.

Muito ligado à literatura e ao teatro, fez diversas adaptações de clássicos e modernos, com resultados no mínimo interessantes, pela fidelidade e rigor do olhar. Homem que viveu e trabalhou quase sempre em Nova Iorque, era um representante lídimo de um cinema que olhava para Hollywood com alguma desconfiança, mas que sabia lidar com ela, impondo-se ao respeito. Mas era Nova Iorque que ele sentia pulsar nas suas veias e que tão bem transmitiu nos seus filmes.

Em 2005, recebeu um Oscar de carreira pelos "brilhantes serviços prestado como argumentista e realizador ao serviço da arte do cinema". Foi várias vezes nomeado para o Oscar de melhor realizador ("12 Angry Men", "A Dog Day Afternoon", "Network" e "The Veredict") e uma como argumentista ("O Príncipe da Cidade").

Todos os actores gostavam de trabalhar com ele, pois ele conseguia resultados perfeitos. A Turner Classic Movies referindo-se ao cineasta, relembrou a sua capacidade de atrair os principais actores para seus projectos, "devido à sua economia visual, à sua forte direcção de actores, às narrativas vigorosas e ao seu uso da câmara para acentuar os temas". E foi mais longe: "Lumet produziu um catálogo de obras que só pode ser definido como extraordinário."

Morreu um grande cineasta com uma obra realmente importante, quer de um ponto de vista artístico, como sociológico. “Network” fica, até hoje, como o retrato mais implacável na televisão.


SIDNEY LUMET
FILMOGRAFIA

1951 Crime Photographer (série de TV)

1952 CBS Television Workshop (série de TV)
– Don Quixote (1952)

1951-1953 Danger (série de TV)
– Subpoena (1953)
– No Room (1953)
– Car Pool (1953)
– The System (1952)
- The Lady on the Rock (1951)
- Marley's Ghost (26 June 1951) - Director 
- Love Comes to Miss Lucy (25 September 1951) - Director 
- The Face of Fear (26 August 1952) - Actor 

1953-1955 You Are There (série de TV)
– The Liberation of Paris
– The Gettysburg Address
– The Recognition of Michelangelo
– The Dreyfus Case
– The Death of Socrates
- The Capture of Jesse James
- The Discovery of Anesthesia
- The Conquest of Mexico

1954-1955 The Best of Broadway (série de TV)
– Stage Door (1955)
– The Show-Off (1955)
– The Philadelphia Story (1954)

1955 The Elgin Hour (série de TV)
– Mind Over Momma (1955)
– Crime in the Streets (1955)

1955 The United States Steel Hour (série de TV)
– Incident in an Alley (1955)
– The Meanest Man in the World (1955)

1955 Frontier (série de TV)
– In Nebraska (1955)

1956 The Alcoa Hour (série de TV)
– Finkle's Comet (1956)
– Man on Fire (1956)
– Tragedy in a Temporary Town (1956)
– Long After Summer (1956)

1956 Goodyear Television Playhouse (série de TV)
– The Sentry (1956)

1957 Omnibus (série de TV)
– School for Wives (1957)

1957 12 Angry Men (Doze Homens em Fúria)

1957 Mr. Broadway (série de TV)

1957 Producers' Showcase (série de TV)
– Mr. Broadway (1957)

1957 Studio One (série de TV)
– The Deaf Heart (1957)

1957 The Seven Lively Arts (série de TV)
– The Changing Ways of Love (1957)

1958 Hallmark Hall of Fame (série de TV)
– Hans Brinker and the Silver Skates (1958)

1958 Stage Struck (Lágrimas da Ribalta)

1958 All the King's Men (série de TV)

1957-1958 The DuPont Show of the Month (série de TV)
– The Count of Monte Cristo (1958)
– Beyond This Place (1957)

1958 Kraft Television Theatre (série de TV)
– All the King's Men: Parte 2 (1958)
– All the King's Men: Parte 1 (1958)
– Fifty Grand (1958)
– Three Plays by Tennessee Williams: Moony's Kid Don't Cry
– Three Plays by Tennessee Williams: The Last of My Solid Gold Watches
- Three Plays by Tennessee Williams: This Property Is Condemned
- Dog in a Bus Tunnel

1959 That Kind of Woman (Uma Certa Mulher)

1960 Playhouse 90 (série de TV)
– The Hiding Place (1960)
– John Brown's Raid (1960)

1959 The Fugitive Kind (O Homem na Pele da Serpente)

1960 Sunday Showcase (série de TV)
– The Sacco-Vanzetti Story: Parte 2 (1960)
– The Sacco-Vanzetti Story: Parte 1 (1960)

1960 John Brown's Raid (Teledramático)

1960 The Iceman Cometh (Teledramático)

1960 Rashomon 1960 The Iceman Cometh (Teledramático)

1960 Play of the Week (série de TV)
– Rashomon (1960)
– The Iceman Cometh: Parte 2 (1960)
– The Iceman Cometh: Parte 1 (1960)
– The Dybbuk (1960)

1961 A View from the Bridge (Do Alto da Ponte)

1962 Long Day's Journey Into Night (Longa Jornada para a Noite)


1964 The Pawnbroker (O Agiota)

1964 Fail-Safe (Missão Suicida)

1965 The Hill (A Colina Maldita)

1966  The Group

1967 The Deadly Affair (Duas Plateias para a Morte)

1968 Bye Bye Braverman

1968 The Sea Gull (A Gaivota)

1968 "The Dick Cavett Show"  convidado

1969 The Appointment (O Rendez-Vous)

1970 King: A Filmed Record... Montgomery to Memphis (documentário)

1970 Last of the Mobile Hot Shots            

1971 The Anderson Tapes (O Dossier Anderson)

1972 Child's Play              

1972 The Offence

1974 "Film '72" convidado

1973 Serpico (Serpico)      

1974 Lovin' Molly     

1974 Murder on the Orient Express (Um Crime no Expresso do Oriente)


1975 Dog Day Afternoon (Um Dia de Cão)

1976 Network (Escândalo na TV)


1977 Equus (Equus)  

1978 The Wiz (O Feitiço)

1980 Just Tell Me What You Want  (Queres ou não Queres?)       

1980 "The British Greats" - Peter Finch  convidado

1981 Prince of the City (O Príncipe da Cidade)

1982 Deathtrap (Armadilha Mortal)


1982  The Verdict (O Veredicto)

1983 Daniel (Daniel, Passado Sem Resgate)

1984 Garbo Talks     

1986 Power (As Chaves do Poder)

1986 The Morning After (A Manhã Seguinte)

1988 Running on Empty (Fuga sem Fim)

1989 Family Business (Negócios de Família)

1990 Q & A (Inquérito Escaldante)

1992 A Stranger Among Us (O Assassino Está Entre Nós)

1993 Guilty as Sin (Culpa Formada)

1995 "Inside the Actors Studio" - Sidney Lumet  convidado

1997 Night Falls on Manhattan (O Lado Obscuro da Lei)

1997 Critical Care (Cuidados Intensivos)    

1999 Gloria (Glória)

2001-2002 100 Centre Street (série de TV)
(32 episódios, como realizador, produtor excutivo, argumentista), entre os quais “Bobby & Cynthia”, “My Brother's Keeper”, “Hostage”, “Things Change”, “A Shot in the Dark”, “Passion”, “Joe Must Go”, “The Bug”, “Domestic Abuses”, “Let's Make a Night of It”, “Queenie and Joe”, “And Justice for Some”, “No Good Deed Goes Unpunished”, “Kids”, “Love Stories”, “Queenie's Tough”, “The Fix”, “Daughters”, “Lost Causes”, “Queenie's Running”, “Andromeda and the Monster”, “Bottlecaps”, “End of the Month”, “Give Up or Fight”, “Babies”, “Zero Tolerance”, “Justice Delayed”, “Hurricane Paul”, “Fathers” ou “It's About Love”.

2004 Rachel, quand du seigneur (curta-metragem)

2004 Strip Search    

2005 Private Screenings" - Sidney Lumet (documentário) convidado

2006 Find Me Guilty (Mafioso Quanto Baste)

2006 "The American Experience" - Eugene O'Neill: A Documentary Film (documentário).

1995 – 2007 "The Charlie Rose Show" (5 episódios de TV) convidado


2007  Before the Devil Knows You're Dead (Antes que o Diabo Saiba que Morreste)

(a negro os filmes para cinema)

quinta-feira, abril 07, 2011

CINEMA: MANHÃS GLORIOSAS

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MANHÃS GLORIOSAS 

De novo a televisão nos ecrãs de cinema. Tema muito glosado, e quase sempre em tom crítico. Ou não tivessem sido, outrora, rivais. Agora já não. São parceiros, a tempo inteiro. Desta feita, o enfoque faz-se nos programas da manhã. “Morning Glory”, uma realização de Roger Michel (“Notting Hill”), com argumento de Aline Brosh McKenna (“The Devil Wears Prada”), conta com um bom elenco e cenas divertidas, mas falha o mais importante: a consequência. Ou então é mais grave: propõe e defende o que se mostra. 
Becky Fuller (Rachel McAdams), mercê da sua lábia incontinente, acaba de ser aceite como produtora executiva de uma importante cadeia de televisão norte-americana para um programa da manhã, “Daybreak”. A IBS tem problemas de audiências e quer multiplicar o seu público. Becky Fuller, a desenrascada, parece ser a mulher ideal para o conseguir. Mas os primeiros tempos não ajudam, tudo parece ir por água abaixo, os índices de audiência, em lugar de subirem, descem, e o patrão da estação (Jeff Goldblum) adverte-a: se dentro de alguns dias a tendência não se inverter substancialmente, acaba a experiência.
Becky Fuller descobre então uma saída para a crise. Ela tem no programa uma experiente pivot, Colleen Peck (Diane Keaton), com aquele penteado e modos que tanto agradam às donas de casa quando lhes fala, à hora do pequeno-almoço, de flores, cozinhados, electrodomésticos e outras questões tais. Vai tentar reuni-la a Mike Pomeroy (Harrison Ford), um jornalista veterano que já ganhou todos os prémios do jornalismo “sério” e agora se encontra mais ou menos arrumado na prateleira dourada. O risco é grande, é uma espécie de misturar água e azeite e esperar que a combinação resulte. Pomeroy não aceita este desafio de bom grado, não quer prostituir o jornalismo de investigação e Colleen Peck não se quer sentir ultrapassada, não quer deixar de ser ela a dizer um último “bom dia” do programa. Pomeroy também não. Os “bons dias” sucedem-se, o programa eterniza-se. As audiências não arrancam. Até ao dia em que Pomeroy tem uma “cacha”, resolve fazer jornalismo e apanhar em directo a prisão do governador do estado, acusado de corrupção. O “Daybreak” arranca, os espectadores do filme pensam que este quer dizer-nos que aquelas chachadas matinais, que põem em perigo de vida o esforçado meteorologista, não são assim essenciais, mas que o jornalismo sério o é, mas não. Bom, bom mesmo, é Pomeroy executar com brilhantismo uma omeleta matinal. Triunfo do programa, “humanização” do jornalista “sério”, triunfo da produtora executiva, que até se dá ao luxo de ter uma noite de vida privada.
Posto isto, o filme é divertido, bem interpretado, escorreito, eficaz. Discutível, no mínimo, é a sua defesa do conceito de televisão espectáculo onde vale tudo. Mesmo nas manhãs familiares.

MANHÃS GLORIOSAS
Título original: Morning Glory
Realização: Roger Michell (EUA, 2010); Argumento: Aline Brosh McKenna; Produção: J.J. Abrams, Bryan Burk, Sherryl Clark, Udi Nedivi, Lindsey Paulson, Guy Riedel; Música: David Arnold; Fotografia (cor): Alwin H. Kuchler; Montagem: Daniel Farrell, Nick Moore, Steven Weisberg; Casting: Marcia DeBonis, Ellen Lewis; Design de produção: Mark Friedberg; Direcção artística: Alex DiGerlando, Kim Jennings; Decoração: Alyssa Winter; Guarda-roupa: Frank L. Fleming, Bernie Pollack; Maquilhagem: Tarsha Marshall, Mary Anne Spano; Direcção Assistentes de realização: Tudor Jones, Maurice Sessoms, Michael E. Steele; Departamento de arte: Nick Miller, Nell Tivnan, Frank-Joseph Frelier; Som: Brady Nelson, Warren Shaw; Efeitos visuais: Ivan Moran; Companhias de produção: Bad Robot, Goldcrest Pictures; Intérpretes: Rachel McAdams (Becky Fuller), Noah Bean (First Date), Harrison Ford (Mike Pomeroy), Jack Davidson (Dog Walking Neighbor), Diane Keaton (Colleen Peck), Vanessa Aspillaga (Anna), Patrick Wilson (Adam Bennett), Jeff Goldblum (Jerry Barnes), Jeff Hiller, John Pankow, Linda Powell, Mike Hydeck, Joseph J. Vargas, Mario Frieson, Kevin Herbst, Jerome Weinstein, Steve Park, David Wolos-Fonteno, Patti D'Arbanville, Ty Burrell, Adrian Martinez, J. Elaine Marcos, Matt Malloy, Rizwan Manji, Jay Russell, Finnerty Steeves, Elaine Kaufman, Bob Schieffer, Morley Safer, Chris Matthews, 50 Cent, Tony Yayo, DJ Whoo Kid, Lloyd Banks, etc. Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 24 de Março de 2011.

terça-feira, abril 05, 2011

NO RESCALDO DO ESTÁDIO SEM-LUZ

  
UM BENFICA-PORTO 
QUE DÁ QUE PENSAR!

Sou sportinguista, por isso vi o Benfica-Porto numa atitude de total imparcialidade. Numa de “que vença o melhor”. E o melhor foi, sem sombra de dúvida, o F.C. do Porto, tal como aconteceu ao longo de todo o campeonato. O Benfica teve momentos bons e outros maus, à semelhança do seu guarda-redes, e não se pode queixar de nada a não ser da sua falta de regularidade. Nem me venham falar em árbitros! Não foram os árbitros que compraram o Roberto para a baliza do Benfica. A realidade é só uma: em futebol jogado, o F.C. do Porto foi superior.
Em anti-desportivismo e atitudes alarves, o Benfica suplantou tudo e todos. Antes do início do jogo foi o que se viu, uma verdadeira batalha campal com a polícia, e, findo o jogo, foi a vergonha do apagão no estádio da sem-Luz e da rega automática do relvado.
Ora um jogo de futebol, além de dever ser um jogo e desportivo (o que ficou demonstrado não ter sido), é ainda um espectáculo sujeito a regras. Uma sala de cinema não pode fechar as luzes à saída do filme, uma tourada não apaga a luz das bancadas no fim das faenas, terminada uma ópera o São Carlos não desliga os interruptores. Gostava de saber o que aconteceria se tal ocorresse. Também vou gostar de saber o que vai acontecer aos responsáveis por terem posto em risco de vida espectadores, jogadores, agentes da ordem. Imagine-se uma cena de atropelos num estádio às escuras!
Lavando as coisas para a brincadeira, o F.C. do Porto deu um banho de futebol ao Benfica e no final foi regado. Foi o champanhe à Benfica. Mas quem apagou a Luz foram os de azul.
Ser mau perdedor é lixado. Mas com exemplos destes, cada vez vai haver menos gente nos jogos de futebol. Depois queixem-se da falta de público.

INÍCIO DE NOVA TEMPORADA "INVICTA FILMES"



O CINEMA AMERICANO NOS ANOS 30,
O CINEMA DA GRANDE DEPRESSÃO
*
PORTO - BIBLIOTECA ALMEIDA GARRETT
Entrada gratuita

CICLO FRED ASTAIRE /GINGER ROGERS - O MUSICAL NOS ANOS 30

7 de Abril de 2011
CHAPEU ALTO (Top Hat), de Mark Sandrich 
(EUA, 1935);
com Fred Astaire e Ginger Rogers, 101 min; M/ 6 anos.
Apresentação do ciclo por Lauro António.

FRED ASTAIRE E GINGER ROGERS
A INICIAR O CICLO
“O CINEMA AMERICANO NOS ANOS 30,
DA GRANDE DEPRESSÃO”

A iniciar o ciclo “O Cinema Americano nos Anos 30, da Grande Depressão”, a “Invicta Filmes” apresenta uma selecção de obras da dupla Fred Astaire e Ginger Rogers, durante o qual serão exibidas oito películas interpretadas por esta famosa dupla (e uma outra, a final, com a reunião de Fred Astaire e Rita Hayworth). Dos filmes previstos poderá referir-se rapidamente um, “Voando para o Rio de Janeiro” (Flying Down to Rio), de Thornton Freeland (EUA, 1933), cujo interesse maior reside no facto de ser a primeira obra onde aparecem Fred Astaire e Ginger Rogers a trabalharem em conjunto. De resto, o filme é relativamente desinteressante, bastante previsível e ainda pouco representativo do trabalho posterior da dupla, que aqui não ultrapassa o “apontamento” de secundários.
Outra película relativamente “insignificante” (no contexto da filmografia da dupla) é “Bailado da Saudade” (The Story of Vernon and Irene Castle), de H. C. Potter (EUA, 1939), que se resume a uma biografia de um casal de bailarinos célebres, Vernon e Irene Castle, concebida de forma convencional, não muito brilhante em cinema. O empreendimento não beneficiou ninguém. Nem os biografados, que viram as suas existências algo distorcidas e romanceadas para se encaixarem nas personalidades de Fred Astaire e Ginger Rogers, nem estes últimos, que foram forçados a um tipo de trabalho que não era efectivamente aquele em que eles melhor se afirmavam. Dito isto, restam algumas belas películas musicais com uma estrutura narrativa muito semelhante, mas possuindo uma agilidade e uma frescura indesmentíveis. Referimo-nos, sobretudo, a “Chapéu Alto” (Top Hat, 1935), “A Alegre Divorciada” (The Gay Divorcee, 1934), “Siga a Marinha” (Follow the Fleet, 1936), “Vamos Dançar?” (Shall we Dance?, 1937), “Quero Sonhar Contigo” (Carefree, 1938), todos de Mark Sandrich, “Ritmo Louco” (Swing Time), de George Stevens (1936)e a tal excepção, “Nunca Serás Rico” (You'll Never Get Rich), de Sidney Lanfield (EUA, 1941), com Fred Astaire e Rita Hayworth.

1. Uma época - Os nove filmes apresentados neste ciclo (particularmente os de Sandrich e Stevens) reconstituem com certa justeza uma época da América. Indo de 1933 (Voando para o Rio de Janeiro) até 1939 (Bailado da Saudade), os filmes parecem reflectir uma década de alegria e inocência, de confiança no futuro e de descomplexada superficialidade que fica neles documentada. Não poderia ser mais enganosa esta imagem. Após o crash bolsista de 1929 a América entrara num período de completo desnorte económico e social, com falências e bancarrota, encerramento de fábricas e despedimentos, ruína rural, pobreza, miséria. O quase contemporâneo “As Vinhas da Ira”, de John Ford (1940), e o muito posterior “A Rosa Púrpura do Cairo”, de Woody Allen (1985), oferecem um bom retrato destes tempos. Este último explica mesmo o grande sucesso de obras como estas de Fred Astaire e Ginger Rogers: o cinema era (é) uma fábrica de sonhos que ajudava a suportar o cinzento da existência diária. A crítica marxista achou que esta “fábrica de sonhos” era a forma alienante da indústria “domesticar” as massas. O filme de Woody Allen, com uma visão mais moderna e compreensiva dos fenómenos sociais, não põe totalmente de lado esta hipótese, mas acredita que o cinema “fábrica de sonhos” é igualmente uma forma de ajudar a ultrapassar o negrume da crise.
Para além destes aspectos, destas histórias douradas de príncipes e princesas que encontram o seu par, e dançam de felicidade em ambientes de luxo e elegância, que referem o espírito de um tempo e de um espaço determinados, os filmes do presente ciclo testemunham ainda uma maneira idílica ou utópica de viver, com os seus hábitos e usos, e todos os elementos externos que a condicionam (e são por ela condicionados): arquitectura, moda, decoração, etc.
2. A decoração - Sob o ponto de vista de decoração é Wan Nest Polglasc quem domina nos dois filmes de Sandrích e ainda no de Stevens. Trata-se de um decorador pouco conhecido (hoje em dia), mas que possuía um estilo muito próprio, de inequívoco bom gosto, dentro da sumptuosidade de certos cenários (a “Veneza” de “Ritmo Louco”, o “cabaret” de “Chapéu Alto”, ou todo o bailado no interior do um navio, em “Vamos Dançar”), onde é visível uma grande ingenuidade de processos e uma estilização de formas quase sempre destinadas a se apagarem durante o “número” de dança. O cenário, tal como a realização, era ainda na década de 30 um elemento acessório que não procurava definir a personalidade do seu autor, mas sim “servir” o que era considerado essencial num “musical”, isto é, os “números” de dança.
3. A estrutura - Nesta época, num “musical”, todos os elementos se destinavam a “servir” o lado coreográfico do filme. A própria estrutura dramática se comportava da mesma forma. Quase todas as obras onde apareciam Fred Astaire e Ginger Rogers eram baseadas nos encontros e desencontros das duas personagens por eles interpretadas. A intriga era ligeira, em estilo de “vaudeville”, tendo como centro de interesse um equívoco que se prolongava ao longo de toda a obra e se esclarecia no final. O ritmo de comédia é lento, os “gags” espaçados e desenvolvidos pausadamente. Tudo concorre, portanto, para a criação de um clima que irá culminar num dos diversos “números” musicais que intercalam a acção. Por outro lado, é curioso referir a maneira como esses “números” surgem no interior da intriga de forma perfeitamente assimilada. O “número” não resulta isolado, mas é um elemento motor que faz progredir a acção.
4. O musical - O   filme   musical,   na   década   de 30, era ainda um espectáculo subsidiário de um outro — o “music-hall”. Desta forma, o elemento importante de uma película musical era efectivamente o “número” musical. A ele tudo o mais se deveria submeter. Argumento e realização serviam esses elementos, bem assim como a própria cenografia. Com Fred Astaire e Ginger Rogers o essencial eram os seus duetos dançados, diálogos de emoção que caminhavam, através da simetria, do entendimento perfeito, para a intimidade do casal. Com uma técnica de sapateado impecável, Fred Astaire ia por vezes mais longe e, em cada filme, ele próprio coreografava um “número” onde intervinha normalmente só. No máximo do seu talento, Astaire deslumbrava pela imaginação e elegância, em momentos de verdadeira antologia - em “Ritmo Louco”, Astaire dança com as suas próprias sombras, num bailado notável; em “Vamos Dançar”, Petrov ensaia com um disco riscado que não sai do mesmo sítio e o obriga a acompanhá-lo, etc. Mas é ainda nos momentos de grande entendimento da dupla que melhor se define a sensibilidade e invenção do Fred Astaire e Ginger Rogers. Em “Chapéu Alto”, um bailado a dois, com Ginger Rogers, saída de “Marienbad”, repleta de plumas que evoluem ao sabor da música; em “Ritmo Louco”, toda a sequência final, com Fred Astaire e Gínger Rogers descobrindo-se verdadeiramente num “cabaret” deserto; ou esse espantoso bailado final de “Vamos Dançar”, onde Fred Astaire descobre/destapa igualmente Ginger Rogers por detrás da sua própria máscara.
5. Os intérpretes: Astaire e Rogers não são só bailarinos impecáveis e insuperáveis. A dupla vai mais longe. Astaire, tal como Stan Laurel (o “Estica” de uma outra dupla famosa), é um cómico de uma delicadeza e de uma elegância impressionante. Os “gags” nascem com uma espontaneidade admirável, perante a estupefacta descontracção de Astaire e o ar sonhador de Ginger Rogers. Ambos irradiam um “charme” muito especial que os anos ajudam a cimentar, criando-lhe um certo ar de descoberta.
Nas suas melhores obras, Fred Astaire e Ginger Rogers aparecem enquadrados por um grupo de actores de belíssimos recursos que é justo destacar. Referimo-nos, sobretudo, ao “casal” Edward Everett Horton e Helen Broderick e também ao “mordomo” Eric Blode.