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quinta-feira, fevereiro 11, 2016

CINEMA 2015: A RAPARIGA DINAMARQUESA


A RAPARIGA DINAMARQUESA

Não sou definitivamente um entusiasta do estilo de Tom Hooper, o super laureado realizador que nos deu “Maldito United” (2009), “O Discurso do Rei” (2010), “Os Miseráveis” (2012), e agora “A Rapariga Dinamarquesa”. Não posso dizer que deteste. Todos os seus títulos são interessantes, o homem tem definitivamente jeito para casting e direcção de actores, os temas são ambiciosos e estimulantes, mas o tratamento visual dado aos seus filmes não me convence de maneira nenhuma. Muito rodriguinho desnecessário, muito efeito só para encher o olho, muita grande angular, muita profundidade de campo, mas sem grande justificação. Tudo mais decorativo que eficaz.
Posto isto, “A Rapariga Dinamarquesa” é um filme obviamente de assinalar por vários motivos e desde logo pela magnifica representação de Alicia Vikander e Eddie Redmayne que interpretam as figuras de Gerda Wegener e Einar Wegener (depois Lili Elbe), um casal de pintores dinamarqueses que existiu na realidade na década de 20 e que viveu uma experiência extraordinária e percursora de muitas outras que vieram depois.


O filme baseia-se no romance homónimo de David Ebershoff e este tem como ponto de partida a vida de Gerda Wegener, casada com Einar Wegener. Parece, todavia, que há muito (ou algum) romance excessivo na biografia literária e também no filme, tendo em conta algumas críticas lidas sobre esta pesquisa. O certo é que o casal vivia feliz em Copenhague dos loucos anos vinte quando, um dia, Gerda pede a Einar para vestir uma roupa feminina a fim de servir de modelo para um quadro que estava a acabar pintar. Einar veste essas roupas e elas colam-se-lhe ao corpo. Abrem a caixa de pandora até aí esquecida no seu íntimo. Einar sente-se mulher, e a partir daí vai reivindicar essa sua natureza enclausurada num comportamento de homem. Ele será Lili. As peripécias sucedem-se até o casal aceitar a intervenção cirúrgica, experimental, na Alemanha, na altura absolutamente invulgar.
Um dos aspectos mais curiosos desta história é a relação de completa (e complexa) cumplicidade que se mantem no casal. O que permite inclusive a Alicia Vikander e Eddie Redmayne dois desempenhos notáveis, ela mais discreta e contida, ele mais exuberante na sua transformação, mas sempre com um rigor e exigência grandes. Alicia Vikander já a tínhamos visto muito bem num filme de época, histórico, bastante curioso, “Um Caso Real” (e também em “Anna Karenina”). Quanto a Redmayne, depois de “A Teoria de Tudo”, onde revivia o cientista Stephen Hawking, volta a um trabalho de composição, daqueles que parecem destinados a arrebatar todos os prémios. Com “The Theory of Everything” (2014) levou para casa Oscar, Globo, Bafta e outros. Leonardo De Caprio não estará pelos ajustes para que ele repita a dose este ano.



A RAPARIGA DINAMARQUESA
Título original: The Danish Girl

Realização: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, Dinamarca, Bélgica, Alemanha, 2015); Argumento: Lucinda Coxon, segundo romance de David Ebershoff; Produção: Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Nina Gold, Anne Harrison, Tom Hooper, Ben Howarth, Ulf Israel, Deborah Bayer Marlow, Kathy Morgan, Gail Mutrux, Linda Reisman, Jane Robertson, Tore Schmidt; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Melanie Oliver; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Grant Armstrong, Céline De Streel, Tom Weaving; Decoração: Kristy Parnham, Michael Standish; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Jan Sewel; Direcção de Produção: Dorothée Baert, Tania Blunden, Laurent Hanon, Deborah Bayer Marlow, Faye Morgan, Jo Wallett, Claus Willadsen; Assistentes de realização: Baudouin du Bois, Ben Howarth, Charlotte Nichol, Vaughn Stein, Harriet Worth; Departamento de arte: Chester Carr, Darren Hayward, Megan Jones, Rebecca Pilkington; Som: Martin Beresford, Mike Prestwood Smith, Matthew Skelding, etc.; Efeitos especiais: Simon Davey, Paul Dimmer, Johannes Sverrisson; Efeitos visuais: Helen McAvoy; Companhias de produção: Working Title Films, Artémis Productions, Kvinde Films, Shelter Prod, Pretty Pictures, ReVision Pictures, Taxshelter. Be, Le Tax Shelter du Gouvernement Fédéral de Belgique, Copenhagen Film Fund, Senator Global Productions; Intérpretes: Alicia Vikander (Gerda Wegener), Eddie Redmayne (Einar Wegener / Lili Elbe), Tusse Silberg (velha senhora), Adrian Schiller (Rasmussen), Amber Heard (Ulla), Emerald Fennell (Elsa), Henry Pettigrew (Niels), Claus Bue, Peter Krag, Angela Curran, Pixie, Richard Dixon, Ben Whishaw, Pip Torrens, Paul Bigley, Nancy Crane, Nicola Sloane, Sonya Cullingford, Matthias Schoenaerts, Clare Fettarappa, Jake Graf, Victoria Emslie, Raphael Acloque, Alexander Devrient, Nicholas Woodeson, Philip Arditti, Miltos Yerolemou, Sebastian Koch, Cosima Shaw, Sophie Kennedy Clark, Rebecca Root, etc. Duração: 119 minutos; Distribuição em Portugal: NOS Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 31 de Dezembro de 2015.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

OS MISERÁVEIS DO MUSICAL AO CINEMA

 

OS MISERÁVEIS

Um musical como “Les Misérables”, ou “Les Miz” para os incondicionais, merecia uma obra-prima na sua adaptação ao cinema. O que Tom Hooper nos reserva não se aproxima de nada disso, infelizmente. O que há de bom na sua versão vem-lhe do próprio musical, e ele apenas acrescenta ao conjunto uma realização que tropeça a cada passo no seu exibicionismo de contorcionista estilístico, com uma ou outra boa excepção. Mas vamos por partes.

O romance de Victor Hugo é majestoso e brilhante, quer do ponto de vista de escrita, mil e duzentas páginas de uma tumultuosa epopeia humana em busca da liberdade, da igualdade e da fraternidade entre os homens, como do ponto de vista humanista, defendendo fracos e oprimidos contra a ditadura da opressão brutal e da iniquidade social. Uma obra que é certamente das mais adaptadas ao cinema, em versões muito desiguais mas todas elas demonstrando a perenidade e actualidade da mensagem. Miseráveis e injustiças proliferam pelos quatro cantos do mundo e, mesmo nesta tão apregoada Europa da abundância, cada dia se multiplicam os deserdados.

A versão musical que nasceu em 1985 nos palcos de Londres tem sido um sucesso por onde tem passado. Merecidamente, isto digo eu que sou um apaixonado por musicais e tenho “Os Miseráveis” como um dos melhores exemplos do género nos tempos mais próximos (ao lado de “Sunset Boulevard, de “O Fantasma da Ópera” ou de um “Martin Guerre”). Julgo a adaptação do romance notável, na forma como o condensa, sem o ferir na sua fidelidade, na forma como equilibra personagens e situações, na forma como concilia o individual e o colectivo, o romântico e o épico. Julgo a partitura musical das mais inspiradas, tendo em conta sobretudo a especificidade deste musical, todo ele cantado, aproximando-se em muito mais da ópera ou da opereta do que dos musicais da época de ouro (entre os anos 30 e os 50 do século passado). De resto este não é um musical dançando, é um musical essencialmente cantado, pelo que a sua adaptação teria de ter em conta este aspecto, o que julgo Tom Hooper tentou compreender, não dando tanta atenção ao plano de conjunto (para se apreciar a dança na sua globalidade) e mais ao plano aproximado (para se concentrar no canto, o que resulta muito bem nalguns casos, como por exemplo na canção de Fantine, "I Dreamed a Dream", admiravelmente conseguida por Anne Hathaway, e não tanto noutros, onde leva ao preciosismo esta aproximação).

A história desta adaptação a musical é curiosa. Poucos sabem que a primeira versão é francesa, uma encenação de Robert Hossein, com texto de Alain Boublil e Jean-Marc Natel e música de Claude-Michel Schönberg. Estreou-se em 1980 no Palais des Sports, com um elenco encabeçado por Maurice Barrier (Jean Valjean) e Jean Vallée (Javert). Esteve três meses em cena, após o que se despediu sem grande euforia. Mas, passados três anos, o produtor inglês Cameron Mackintosh, que tinha acabado de estrear “Cats” na Broadway, recebeu um álbum deste concerto e ficou impressionado. Entregou a Herbert Kretzmer a versão inglesa que se estreou em Londres, a 8 de Outubro de 1985, no Barbican Centre. Pouco depois, estrearia na Broadway – ao lado de “Cats”, “The Phantom of the Opera”, “Miss Saigon”. Daí para cá transformou-se no maior sucesso de sempre de um musical – mais de 65 milhões de espectadores em todo o mundo.

A adaptação cinematográfica acompanha, pari passu, a versão musical, com uma ou outra liberdade, que todavia não interfere com a partitura. Mas os meios que o cinema põe à disposição da história libertam-na do espaço fechado de um palco, o que é desde logo visível na sequência inicial, com Jean Valjean em trabalhos forçados, numa grandiosa reconstituição do porto militar de Toulon, no sul de França, pouco antes de ser libertado, depois de cumprir uma pena de 19 anos de prisão nas galés, por ter roubado um pão para matar a fome à família (cinco por esse crime, mais 14 por várias tentativas de fuga). Jean Valjean, com uma força sobre-humana e um ódio feroz a quem o aprisionou, tem pela frente Javert, o chefe da polícia que não lhe irá dar tréguas ao longo de toda a existência. É ele quem lhe põe na mão um passaporte amarelo que o irá causticar para sempre como ex-condenado. Todos o afastam até chegar a casa de um padre que o acolhe, lhe dá comida e cama, e lhe desculpa um roubo de pratas, com a promessa de Valjean tornar um honesto cidadão. Este, tocado pela graça na sua empedernida consciência, acaba por se regenerar, transformar a prata em ouro, multiplicando o capital, através de um fábrica que administra, sendo nomeado “maire” da cidade de Montreuil. Estamos em 1823.

Na sua fábrica trabalha Fantine, mãe (solteira) de Cosette, que um dia é despedida e cai de degrau em degrau até à mais profunda desgraça, que a conduzirá à morte. Muitas são as peripécias, mas perto do fim, Valjean que, como maire assumira a identidade de Madeleine, promete a Fantine tomar conta da sua filha que se encontra sob a guarda de uns taberneiros, contumazes na rapina e avidez, de nome Thénardier. A miúda é tratada como uma escrava, Valjean liberta-a a troco de uma considerável quantia, mas Javert anda por perto e quer fazer regressar às galés o seu inimigo de estimação, pois este furtara-se à apresentação obrigatória perante a policia, dada a sua liberdade condicional. Javert é filho de um condenado e jurou cumprir a lei e impor a ordem custe o que custar. Para ele, não há regeneração possível. Victor Hugo tem uma ideia diferente da justiça e quer demonstrá-lo nesta sua obra. Por isso a oposição Javert-Valjean é tão intensa, complexa, insistente e obsessiva. São duas concepções do mundo que se opõem. A velha sociedade absolutista a que a Revolução Francesa tinha posto cobro, a nova ordem do mundo que nascia desse movimento libertador.

De fuga em fuga, Cosette cresce ao lado do seu pai adoptivo, e assim chegamos a 1832, às barricadas nas ruas de Paris, contra o novo rei. Entre os estudantes revoltosos vamos encontrar Marius, filho de um nobre, que renega as origens e que, de bandeira em punho, é um dos chefes do movimento que faz frente aos soldados do rei. No entretanto, Marius e Cosette encontram-se e apaixonam-se e surge a história de amor que irá ocupar grande parte da segunda metade da obra, intercalada com a revolução e a persistente perseguição de Javert a Valjean. Estão reunidas as condições para um final que irá reunir as diferentes linhas de acção, voltando o filme a algumas sequências de grande espectacularidade, sobretudo com as barricadas e confronto final de Javert e Valjean nos esgotos de Paris.

O que, portanto, sobressai no filme vem do musical: a estrutura dramática e a partitura musical. O que Tom Hooper traz de novo é, no mínimo, discutível: o filme nunca tem um tom próprio, oscila entre algumas sequências bem conseguidas e outras insustentáveis, pelos rodriguinhos e um estilo quase grotesco de enquadramentos e lentes mal utilizadas. Há um plano de Valjean no cimo de uma escada que é o paradigma deste estilo arrebicado e pomposo do realizador. Que não é de agora e já lhe mereceu Oscars da Academia. Num texto meu dedicado a “O Discurso do Rei” (Fevereiro de 2011) disse: “(..) a realização, que é verdadeiramente desastrosa, com um recurso insano à utilização da grande angular, que transforma personagens e ambientes em grotescas caricaturas, sempre que é usada. Creio ter percebido a intenção de Tom Hooper, um realizador que vem da televisão e nos dera um interessante “Maldito United” (2009). Ele terá pensado que esta era a melhor maneira de traduzir em imagens a perturbação e a claustrofobia do rei gago, mas apenas optou pela facilidade e o resultado é por vezes simplesmente grotesco. Em lugar de traduzir a gaguez do rei, afirma a gaguez do seu realizador”. O que eu tinha acusado em 2011 mantém-se em 2012. Talvez lhe volte a conferir estatuetas, para mim de todo imerecidas. Mas a Academia parece andar virada para esse tipo de realização acrobática e excêntrica, pois “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky, enfermava da mesma doença e também foi muito ovacionado.

Há, no entanto, aspectos positivos nesta obra que certamente não sairá de mãos a abanar da cerimónia dos Oscars que se aproxima. A direcção artística, cenários, guarda-roupa e adereços é bastante boa, e a interpretação merece alguns destaques. Sem surpreender, Hugh Jackman é um eficaz Jean Valjean, Russell Crowe deixa um pouco a desejar como Javert, Anne Hathaway é magnifica como Fantine, Amanda Seyfried não desmerece como Cosette, Sacha Baron Cohen e Helena Bonham Carter, como Thénardiers, são deslumbrantes de graça comedida, Eddie Redmayne é um Marius que foge ao rodriguinho do galã, Aaron Tveit  é um bom Enjolras, Samantha Barks uma Éponine que se afasta um pouco da imagem habitual e Daniel Huttlestone é dos melhores Gavroches de uma extensa lista. Tom Hooper resolveu fazer os actores cantarem em directo, em vez de serem dobrados como era habitual neste género, e não parece que tenha ganho nada com este feito. De resto, quase todos os actores secundários que têm anterior experiência vocal noutros musicais sobressaem pela voz.

Finalizando, quem gosta de musicais e deste em particular deve preferir ficar em casa a ver e ouvir pela enésima vez o concerto do 25º aniversário. Mas quem mesmo assim queira ir ao cinema, haverá certamente quem no final deteste e quem tenha suportado com alguma galhardia. Este último foi o meu caso.  

OS MISERÁVEIS
Título original: Les Misérables
Realizador: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, 2012); Argumento: William Nicholson, segundo texto de Claude-Michel Schönberg e Alain Boublil, adaptando o romance de Victor Hugo, com poemas de Herbert Kretzmer, Alain Boublil, Jean-Marc Natel, James Fenton; Produção: Bernard Bellew, Raphaël Benoliel, Tim Bevan, Liza Chasin, Eric Fellner, Debra Hayward, Cameron Mackintosh, Angela Morrison, Thomas Schönberg; Música (não original): Claude-Michel Schönberg; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Chris Dickens, Melanie Ann Oliver; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Grant Armstrong, Gary Jopling, Hannah Moseley, Su Whitaker; Decoração: John Botton, Leigh Bryant, Stephen Doyle, Billy Edwards, Carrie Garner, James Hendy, Anna Lynch-Robinson, Sarah Whittle, Matt Wyles; Guarda-roupa: Paco Delgado; Maquilhagem: Nicola Buck, Karen Cohen, Julie Dartnell, Audrey Doyle, Patt Foad, Sarah Grispo, etc.; Direcção de produção: Kate Fasulo, Tom O'Shea, Jason Pomerantz, Bobby Prince, Matthieu Rubin, Patrick Schweitzer; Assistentes de Realizador: Ben Howarth, Mark Cockren, Gayle Dickie, Sid Karne, Vaughn Stein, Harriet Worth; Departamento de arte: Julia Castle, Malcolm Roberts; Som: Dominic Gibbs, Lee Walpole, John Warhurst; Efeitos especiais: Hugh Goodbody, David Holt, Paul McGuinness, etc.; Efeitos Visuais: Richard Bain, Fabrizia Bonaventura, Robert Connor, Izzy Field, Tim Field, Ali Ingham, Sean Mathiesen, Nathalie Mathé, Allison Paul, Natalie Reid, Adrian Steel; Animação: Ben Wiggs; Companhias de produção: Working Title Films; Cameron Mackintosh Ltd. Intérpretes: Hugh Jackman (Jean Valjean), Russell Crowe (Javert), Anne Hathaway (Fantine), Amanda Seyfried (Cosette), Sacha Baron Cohen (Thénardier), Helena Bonham Carter (Madame Thénardier), Eddie Redmayne (Marius), Aaron Tveit (Enjolras), Samantha Barks (Éponine), Daniel Huttlestone (Gavroche), Cavin Cornwall (preso 1), Josef Altin (preso 2), Dave Hawley (preso 3), Adam Jones (preso 4), John Barr (preso 5), Tony Rohr, Richard Dixon, Andy Beckwith, Stephen Bent, Colm Wilkinson, Georgie Glen, Heather Chasen, Paul Thornley, Paul Howell, Stephen Tate, Michael Jibson, Kate Fleetwood, Hannah Waddingham, Clare Foster, Kirsty Hoiles, Jenna Boyd, Alice Fearn, Alison Tennant, Marilyn Cutts, Catherine Breeze, John Albasiny, Bertie Carvel, Tim Downie, Andrew Havill, Dick Ward, Nicola Sloane, Daniel Evans, David Stoller, Ross McCormack, Jaygann Ayeh, Adrian Scarborough, Frances Ruffelle, Lynne Wilmot, Charlotte Spencer, Julia Worsley, Keith Dunphy, Ashley Artus, John Surman, David Cann, James Simmons, Polly Kemp, Ian Pirie, Adam Pearce, Julian Bleach, Marc Pickering, Isabelle Allen, Natalya Angel Wallace, Phil Snowden, Hadrian Delacey, Lottie Steer, Sam Parks, Mark Donovan, Lewis Kirk, Leighton Rafferty, Peter Mair, Jack Chissick, Dianne Pilkington, Robyn North, Norma Atallah, Patrick Godfrey, Mark Roper, Paul Leonard, etc. Duração: 157 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 3 de Janeiro de 2013.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

CINEMA: O DISCURSO DO REI

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O DISCURSO DO REI
“The King's Speech” conta a história real de um rei que era gago. E dos trabalhos por que passou para alinhavar um discurso perceptível num dia de particular gravidade para a sua nação. Mas há um pouco mais do que isso, por detrás desta pequena trama: há uma breve panorâmica sobre a História de Inglaterra nas décadas de 30 e 40 do passado século XX. A acção inicia-se na corte inglesa, durante o final do reinado de George V (Michael Gambon), que tinha dois filhos, o predestinado ao trono, Eduardo (Guy Pearce) e o tímido e gago George (Colin Firth).
Eduardo estava projectado para ser rei, mas não muito apostado em o ser. Tanto mais que convivia intimamente com uma mulher casada de nome Wallis Simpson (Eve Best), com quem, por divórcio desta, pretendia casar. Quando o velho rei morre, Eduardo é coroado, o VI da dinastia, mas por pouco tempo, pois acaba por abdicar para seguir o seu coração e a mulher que amava.
Quem fica com a batata quente na mão, e os berlindes na boca, é o mano mais novo, George, que não consegue articular duas palavras seguidas, sobretudo em momentos de stress. O filme inicia-se precisamente por um doloroso discurso seu, durante uma inauguração oficial, onde a dificuldade em articular palavras torna pungente a cerimónia. A sua gaguez passara já por todos os médicos e charlatães do reino, sem resultados práticos, até que Elizabeth, a sua abnegada esposa, depois mais conhecida por rainha-mãe (aqui muito bem representada pela bela Helena Bonham Carter), resolve seguir uma dica e consultar um tal terapeuta da fala, de nome Lionel Logue (Geoffrey Rush) que afiançava fazer milagres nesse domínio.
Lionel Logue não tinha créditos universitários, mas utilizava processos novos e pouco ortodoxos. Conhecia um pouco de psicanálise, acreditava encontrar na adolescência dos pacientes a razão para a sua gaguez, e pôs o rei a “libertar-se”, ao ser tratado por Bertie e a gritar palavrões, depois de passar pela prova dos berlindes e outras mais. Bertie nunca chegou a ter a eloquência de um orador do “speaker’s corner”, mas lá conseguiu desenvencilhar-se da proclamação de guerra contra os nazis e levantar a moral dos seus concidadãos. Temos dito. O filme não procura ser muito mais do que isto. Mas assume uma curiosa perspectiva, que não sabemos se foi ou não pretendida pelos responsáveis.
Enquanto, por um lado, temos na direcção do Eixo, a retórica efusiva e manipuladora de Hitler e Mussolini, que, com palavras e gestos, encenações grandiosas e o troar de cânticos bélicos, metiam no bolso os seus atordoados espectadores, do lado Aliado, a abrir as hostilidades, tínhamos um rei gago que a muito custo conseguia articular um discurso para mobilizar as suas tropas. O que leva a uma conclusão cautelosa. A demagogia não é boa conselheira, é melhor tentar perceber as palavras, mesmo quando mal pronunciadas, do que deixar-se levar pela demagogia de hábeis manipuladores. É verdade que os Aliados se iriam vingar com Churchil e De Gaule, entre outros, que também sabiam muito bem levar a água ao seu moinho.
A graça de “The King's Speech” está, no entanto, no confronto entre um inseguro e atrofiado rei e um australiano que gostava de representar Shakespeare, mas sem nenhum talento para tal, que tinha um descaramento de primeira, alguma sorte e uns conhecimentos rudimentares de psicologia e psicanálise. Colin Firth e Geoffrey Rush são magníficos, é certo, mas já o sabíamos. Colin Firth, por exemplo, dera-nos, no passado ano, um fabuloso trabalho em “Um Homem Singular” (este sim, merecedor de um Óscar), uma interpretação intimista, secreta e deslumbrante. Agora aparece num daqueles trabalhos que são feitos para agradar à Academia e que vai, de certeza, conquistar a estatueta. Mas, apesar do brio na composição, preferimos-lhe obviamente outros registos anteriores. Mas será a reparação de um injustiça, pois Colin Firth é seguramente um dos maiores actores vivos. Já que falamos de actores, justo é sublinhar ainda a curta aparição de um monstro, Michael Gambon (em George V), além de Derek Jacobi, Guy Pearce, Helena Bonham Carter e Claire Bloom, e espantarmo-nos com a ridícula presença de Timothy Spall (num insuportável Winston Churchill).
O filme aparece nomeado para doze Oscars, mas parece destinado a ser um perdedor nato. Estas nomeações foram a sua vitória. Além de Colin Firth, poucas mais irá arrebatar, apesar da excelência da reconstituição de época, do bom guarda-roupa, da cuidada fotografia, da inspirada banda sonora. Já o mesmo não se pode dizer da realização, que é verdadeiramente desastrosa, com um recurso insano à utilização da grande angular, que transforma personagens e ambientes em grotescas caricaturas, sempre que é usada. Creio ter percebido a intenção de Tom Hooper, um realizador que vem da televisão e nos dera um interessante “Maldito United” (2009). Ele terá pensado que esta era a melhor maneira de traduzir em imagens a perturbação e a claustrofobia do rei gago, mas apenas optou pela facilidade e o resultado é por vezes simplesmente grotesco. Em lugar de traduzir a gaguez do rei, afirma a gaguez do seu realizador. Mais um filme que se vê com algum agrado, mas que está longe de justificar outra atenção. 
O DISCURSO DO REI
Título original: The King's Speech
Realização: Tom Hooper (Inglaterra, EUA, Australia, 2010); Argumento: David Seidler; Produção: Paul Brett, Iain Canning, Charles Dorfman, Simon Egan, Mark Foligno, Peter Heslop, Phil Hope, Geoffrey Rush, Lisbeth Savill, Emile Sherman, Deepak Sikka, Tim Smith, Gareth Unwin, Bob Weinstein, Harvey Weinstein; Música: Alexandre Desplat; Fotografia (cor): Danny Cohen; Montagem: Tariq Anwar; Casting: Nina Gold; Design de produção: Eve Stewart; Direcção artística: Netty Chapman; Decoração: Judy Farr; Guarda-roupa: Jenny Beavan; Maquilhagem: Frances Hannon; Direcção de Produção: David Bell, Erica Bensly, Emma Zee; Assistentes de realização: Heidi Gower, Martin Harrison, Guy Heeley, Liam Lock, Chris Stoaling; Departamento de arte: Julia Castle; Som: Paul Hamblin, Martin Jensen, John Midgley; Efeitos especiais: James Davis III, Mark Holt; Efeitos visuais: Derek Bird, Duncan Holland, Thomas M. Horton, Zissis Papatzikis; Companhias de produção: See Saw Films, See-Saw Films, Bedlam Productions; Intérpretes: Colin Firth (Rei George VI), Geoffrey Rush (Lionel Logue), Helena Bonham Carter (Rainha Elizabeth), Derek Jacobi (Arcebispo Cosmo Lang), Michael Gambon (Rei George V), Guy Pearce (Rei Edward VIII), Claire Bloom (Rainha Mary), Timothy Spall (Winston Churchill), Robert Portal, Richard Dixon, Paul Trussell, Adrian Scarborough, Andrew Havill, Charles Armstrong, Roger Hammond, Calum Gittins, Jennifer Ehle, Dominic Applewhite, Ben Wimsett, Freya Wilson, Ramona Marquez, David Bamber, Jake Hathaway, Patrick Ryecart, Teresa Gallagher, Simon Chandler, Orlando Wells, Tim Downie, Dick Ward, Eve Best, John Albasiny, Danny Emes, Anthony Andrews, John Warnaby, Roger Parrott, etc. Duração: 118 minutos; Distribuição em Portugal: Zon Lusomundo Audiovisuais; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 10 de Fevereiro de 2011.
Classificação: ***