segunda-feira, junho 09, 2008

FAIAL, IV

SOCIEDADE "AMOR DA PÁTRIA"

FAIAL, III

UMA ARQUITECTURA MUITO ESPECIAL
E A SOCIEDADE "AMOR DA PÁTRIA"

A arquitectura da cidade da Horta, no Faial, não será totalmente surpreendente (porque a influência, em diáspora, do português se nota um pouco por todo o lado), mas é muito característica e, sobretudo, belíssima. Andar simplesmente pelas ruas do Faial é um espectáculo. Cada casa encerra uma história, algumas um mistério, todas um encanto fortíssimo. Da mais humilde à mais trabalhada ou opulenta.A presença de portugueses de posses, que para ali foram por vontade própria ou exilados, ao lado de alemães, holandeses (ou os "flamengos"), ingleses e tantos outros oferecem à ilha, em especial à cidade da Horta, uma configuração admirável.Entre os vários edifícios, frente aos quais tive de parar e olhar com maior detença (e quase todos seriam, e quase todos mereceriam mais do que o olhar passageiro de quem descobre, ou redescobre, o prazer da cidade), um há que merece atenção muito especial.
Trata-se daquele que alberga a Sociedade “Amor da Pátria”, construído, ao que me informa um “Guia do Património Cultural”, entre 1931 e 1934, sob o traço do arquitecto Norte Júnior, obedecendo a toda uma simbologia maçónica que ali explode em magnificência. A Sociedade “Amor da Pátria” foi fundada em 1856, e veio a instalar-se neste edifício em finais da década de 30 do séc. XX. Encontra-se ao fundo da Rua D. Pedro IV, lado a lado com um Império ("Império dos Nobres" ou "Império de Reconhecimento e Beneficência”).A entrada da “Sociedade “Amor da Pátria” é fabulosa, com dois dragoeiros majestosos incrustados na recuada escadaria, existindo na fachada dois brasões em alto-relevo (um da “muy leal” cidade da Horta, outro o escudo de Portugal), aflorando ainda, a toda a volta do edifício, um friso, igualmente em relevo, de hortênsias que, não sendo flores autóctones dos Açores, agora funcionam como seu símbolo maior. O efeito é deslumbrante. No interior abundam os símbolos maçónicos, mas, infelizmente, espero vê-los numa outra oportunidade.
Ficam alguns exemplos desta visita, a merecer atenção redobrada numa próxima viagem:

afinal a "Fredonia", dos Irmãos Marx, existe: assim se chama este edificio

Secretaria Regional do Ambiente

escola primária

museu da cidade
teatro faialense
repartição de finanças

sábado, junho 07, 2008

VAMOS A ELES!

e fomos mesmo:
Portugal, 2; Turquia, O
Que venha o próximo e que continuemos a jogar bom futebol
(e a acertar menos na madeira e mais no fundo das redes!)

sexta-feira, junho 06, 2008

CINEMATECA PORTUGUESA?

Anda por ai a circular uma petição para a Cinemateca Portuguesa criar um extensão no Porto. Já assinei, claro. Mas acho estranho existir a Cinemateca Portuguesa há tanto tempo, e só agora se lembrarem dela como sendo “portuguesa” e não “lisboeta”, que é o que tem sido desde que o seu actual director a dirige a seu belo prazer. Acontece que o facto da Cinemateca Portuguesa não ter extensões no Porto, não é estranho, pois que não tem em mais parte nenhuma, e que há tantas outras anomalias no seu funcionamento e quase ninguém dizer nada. Uma cinemateca é um local onde se recolhe e se ajuda a fazer a história do cinema. Não de uma corrente histórica ou estética do cinema, mas de todo o cinema. A Cinemateca Portuguesa nunca o fez. Obedece aos ditames estéticos do seu director e só a esses. O senhor não gosta de 80 por cento do cinema português, que aliás já o disse e o escreveu, “não existe”. Quando morre um daqueles de quem não gosta, lá aceita passar um ciclozinho de homenagem, com o ar de que “deste já nos livrámos”, já não volta a chatear. E publica um opusculozinho de vinte páginas a preto e branco para celebrar a efeméride e arrumar com o caso. Mas depois há “os filhos” e “os amigos” para quem nunca são demais as benesses.
O senhor gosta de fazer ciclos para cem espectadores em Lisboa e ninguém se lembrou nunca de questionar esta característica. O senhor não gosta de emprestar os seus filmes a ninguém, nem em extensões, nem em festivais, nem em ciclos, nem em comemorações. Todos sabem isso, mas tudo continua na paz dos anjos. O senhor gosta de catálogos luxuosos, onde imprimir os seus textos e os trabalhos que os seus empregados coligem para ele. Com o orçamento de um catálogo, poderiam fazer-se dois ou três, mas que importa? O senhor acha que o cinema é uma arte, e esquece que o cinema não é só uma arte, é uma indústria, é um precioso espólio histórico, é uma fonte inesgotável de conhecimento e de ensinamentos, mas nunca o foi para a Cinemateca Portuguesa.
O senhor gosta de se julgar um reizinho que pode por e dispor, até de nomear sucessores e deixar descendência. E a malta aceita. Não se vêem manifestações na rua Barata Salgueiro. O senhor afinal pode dizer as asneiras que quiser, atropelar a História, inventar factos e personagens que está imune. Não se contraria um Prémio Pessoa. Quando se tenta repor a verdade dos factos e se escreve para um jornal e se pede publicação, se a pessoa visada for o senhor, nada a fazer. O texto cai no esquecimento e o senhor não será incomodado. Não se publica nem se dá qualquer explicação para o facto.
Há factos que concedo: o senhor escreve bem e tem, normalmente, bom gosto. Mas não são essas as características essenciais para dirigir uma Cinemateca. Numa Cinemateca não se exige bom gosto, exige-se competência histórica, exige-se igualdade de tratamento, exige-se isenção, exige-se um respeito idêntico por todos, para lá que qualquer “questão” de gosto pessoal. Exige-se que uma Cinemateca Portuguesa esteja ao serviço de todos quantos a sustentam. Que somos nós todos, portugueses, e não o grupinho de amigos fixes que se reúne para ver as obras que o mestre sanciona.
Exige-se mais. Exige-se alguém que percebe que o cinema não parou no tempo. Que a única maneira de ver filmes não é numa sala de cinema, onde corre uma película de 35 milímetros. Por muito que lhe custe, o cinema muda, como tudo na vida. É vergonhoso que a Cinemateca Portuguesa não tenha ainda colocado à disposição do público DVDs com clássicos do Cinema Português. Não há um único filme mudo à disposição do espectador, das escolas, das universidades. Deveria ser uma tarefa da Cinemateca. Todas as congéneres no mundo o fazem. Em Portugal, o cinema é para ver em sala, em 35 milímetros, e fundamentalmente na salinha da Barata Salgueiro.
Será que algo vai mudar?
Petição: Mais de 3.600 pessoas já assinaram. Aqui:


CINE ECO EM LISBOA. HOJE NO S.JORGE


CINEMA: O SABOR DO AMOR

O SABOR DO AMOR
Um filme menos conseguido de Wong Kar Wai não é um filme desinteressante. Devo dizer que este “My Blueberry Nights”, rodado nos EUA, com actores de língua inglesa, entre os quais a estreante Norah Jones, é tudo menos um filme desinteressante. Poderá não ter o fôlego e a densidade de situações e de ambientes que outros filmes seus anteriores nos ofereceram, mas ainda assim é um belíssimo retrato de meia dúzia de figuras que se cruzam e descruzam pelas paisagens da América, num bailado de emoções à superfície que deixa certamente um forte vestígio de presença em cada um que assiste à sua projecção. Depois há um factor curioso que convém desde já referir: apesar de trocar o seu Hong Kong tradicional pela América e de trabalhar com actores de língua inglesa, que não domina tão bem como os chineses, “My Blueberry Nights” mantém inalterável o estilo de Kar Wai. Este é um filme que só poderia ter sido rodado por este autor e isto é já dizer muito. Quando um cineasta consegue uma tal caracterização temática e estilística é porque é um grande cineasta, uma personalidade fortíssima, ostentando um poderoso universo pessoal inconfundível.
Os primeiros vinte minutos do filme centram-se num café de esquina numa rua de Nova Iorque, onde o jovem proprietário, Jeremy (Jude Law) encontra, numa noite de rotina vazia, uma rapariga em crise emocional, Elizabeth (Norah Jones). A relação desta com alguém falhara, ele partira, ela ficara, com as chaves de um apartamento na mão e o coração desfeito. As chaves esquece-as no bar, o coração leva-o consigo por meses, estrada fora. As chaves ficam ao lado de muitas outras esquecidas, num frasco de “perdidos e achados”, de amores esquecidos, de apartamentos abandonados, de sonhos desfeitos. Mas nunca se sabe se se deve, ou não, deitar fora uma chave, como afirma Jeremy. “Quando se deita fora uma chave, nunca mais se pode abrir aquela porta.” O drama que vive Elizabeth é, de certa maneira, o drama que vive Jeremy, que também acaba de assistir a uma separação dolorosa. Para tudo se assemelhar a espelhos que se reflectem uns nos outros, se Elizabeth é interpretada por Norah Jones, cantora, Katya, a ex-namorada de Jeremy, é Cat Power, cantora, ainda que aqui apresentada sob o seu verdadeiro nome, Chan Marshall.
Muito pouco sabemos das razões dos sofrimentos. Nem interessa. Basta olhar as chaves perdidas e os olhos chorosos para se sentir a solidão de uns e o sofrimento de outros. Isso chega a Wong Kar Way. Como quase sempre nos filmes deste cineasta, é noite. Passam comboios em carris de alta velocidade, há néons e muitas palavras escritas nos vidros do café, há cores garridas e sentimentos intensos, há ruas encharcadas de água que reflecte luzes e sons de uma vida agitada e tumultuosa que está para lá dos limites do plano. Há rostos enquadrados de forma a ler-se a textura da pele, há uma câmara que regista, do alto da porta do café, todos os movimentos dos clientes, e até os beijos roubados em momentos de relaxe, ou de íntima aproximação. Há o cinema de Hong Kar Wai por terras americanas, carros e avenidas, restaurantes de fast food, bares, o jogo, Las Vegas, par ou impar, a companhia ou a solidão, ganhar e perder. Guardar a chave para entrar de novo aquela porta, ou …?
Wong Kar Wai sempre foi um autor de intensos amores, carnais, voluptuosos, ardentes, interpretados por mulheres sensuais vestidas da cor do desejo, e de um certo desencanto das relações. Que morrem. Que se destroem lentamente. Que fenece, como tudo na vida. Mas em “My Blueberry Nights” o seu cepticismo parece dar lugar a algum optimismo. Elizabeth vai percorrer uma longa estrada, 300 dias de viagem, milhares de quilómetros, trabalhar de dia num restaurante, à noite num bar, ambos em Memphis, amealhando dólares para comprar um carro, e olhando em redor, vendo o amor e o desamor, a vida e a morte, o desinteresse e o ciúme que passam à frente dos balcões que serve, e se cristalizam na fabulosa história de uma fulgurante casal de actores, David Strathairn, o polícia de giro que se recusa a aceitar que a mulher, Rachel Weisz, o abandonou de vez. Este episódio é dos momentos mais conseguidos desta obra, sobretudo pelo que carrega de dramatismo e tragédia, tonalidades que Wong Kar Wai maneja com extrema contenção e rigor. Elizabeth vai continuando a sua iniciação e o esquecimento do amor antigo, enquanto vai escrevendo postais sem remetente, ao seu ocasional amigo do café de Nova Iorque que incessantemente a tenta localizar, nem que para tanto tenha de telefonar a 90 bares de Memphis e redondezas. Sem resultados práticos. Mas igualmente sem desistir.
Elizabeth segue para o Nevada, onde se emprega num casino, onde encontra a loura Leslie (Natalie Portman) que joga desde criança, que aposta forte no tudo ou nada, que julga que valete é o numero que vem a seguir a 10, que não acredita em ninguém, aprendeu a apostar sozinha, mas acaba por ter de contar com Elizabeth para recuperar a esperança. Dirá que teve “de aprender a viver não acreditando em ninguém”, para concluir: “Ainda bem que falhei”. Elizabeth não sabia ficar no mesmo lugar, mas Jeremy tinha essa máxima, “Não saias do teu lugar, para que te encontrem”. Assim foi, 300 dias depois, a tarte de mirtilo estava no balcão, pronta a ser comida, tal como outrora acontecera, numa noite que terminara num beijo furtivo, visto e revisto até a fita da cassete desaparecer sob o efeito da erosão. Da erosão da espera. Da erosão do amor. Da erosão de um passado, de que se libertam, em direcção a um futuro que tudo permite.
A escolha de Norah Jones para protagonista parece-me certa, sem ser brilhante. Não acredito que possa vir a interpretar muitos outros papéis, diferente deste, mas esta figura de uma mulher dorida e frágil, mas resoluta, julgo-a bem conseguida, sem deslumbrar. Brilhantes são David Strathairn, Rachel Weisz, Natalie Portman ou Jude Law. Brilhante é a banda sonora, a fotografia e a montagem que, na voragem do tempo e dos espaços percorridos, deixa entrever rostos humanos que sofrem e esperam algum amor da vida. È pouco? Julgo que é tudo. O resto, são as formas mais ou menos evidentes e eficazes de se atingir a felicidade. Ou de a perseguir, com esperança. Esquecendo chaves, se necessário for, mas tendo sempre alguma nova porta para abrir. Os estando “aqui”, se acaso alguém nos quiser encontrar. Afinal o amor pode ter muitos sabores e haverá sempre muitas formas de saborear a tarte de mirtilo, aquela que nunca ninguém faz esgotar no café de Jeremy.
MY BLUEBERRY NIGHTS - O SABOR DO AMOR
Título original: My Blueberry Nights
Realização: Kar Wai Wong (Hong Kong, China, França, EUA, 2007); Argumento: Kar Wai Wong, Lawrence Block, segundo história de Kar Wai Wong; Música: Ry Cooder; Fotografia (cor): Darius Khondji; Montagem: William Chang; Casting: Avy Kaufman; Design de Produção: William Chang; Direcção artística: Judy Rhee; Guarda-roupa: Sharon Globerson; Maquilhagem: Janice Byrd, Sandy Jo Johnston, Persefone Karakosta, Mandy Lyons, Nuria Sitja; Direcção de Produção: Kim Surowicz, Pamela Thur; Assistentes de realização: H.H. Cooper, Cary Jones, Jamie Sheridan, Peter Thorell, Xan Valan; Departamento de arte: Katya Blumenberg, Sheila Bock, Jackie Glisson, Laurel Kolsby, Thomas Machan, Leann Murphy, Jane Shirkes, Rodney Sterbenz; Som: Michael Baird, Michael Feuser, Claude Letessier; Efeitos Especiais: Lisa Reynolds, Bob Shelley; Efeitos visuais: Nicholas Kay; Produção: Stéphane Kooshmanian, Jean-Louis Piel, Pamela Thur, Jacky Pang Yee Wah, Wang Wei, Kar Wai Wong; Companhias de produção: Block 2 Pictures, Jet Tone Production, Lou Yi Ltd., Studio Canal.
Intérpretes: Jude Law (Jeremy), Norah Jones (Elizabeth), Rachel Weisz (Sue Lynne Copeland), David Strathairn (policia Arnie Copeland), Natalie Portman (Leslie), Chad R. Davis (amigo de Elizabeth), Katya Blumenberg (rapariga, amiga de Jeremy), John Malloy (dono do bar), Demetrius Butler (freguês), Frankie Faison (Travis), Adriane Lenox (Sandy), Benjamin Kanes (Randy), Cat Power (Katya), Michael Hartnett, Michael May (Aloha), Jesse Garon (jogador de poker), Sam Hill, Tracy Elizabeth Blackwell, Michael Delano (Cowboy), Audrei Kairen jogador de poker), Bill Hollis, C. Clayton Blackwell, Hector A. Leguillow, Nate Bynum (Harlan), Naseera Lewis, Kenon Walker, Jan Falk, Laurie Johnson, Donald Meyers, etc.
Duração: 90 minutos; Classificação etária: M/12 anos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Data de estreia:1 de Maio de 2008 (Portugal); Locais de Filmagem: Caliente, Ely, Las Vegas, McGill, Nevada; Los Angeles, Califórnia; Memphis, Tennessee; New York City, New York (EUA).

quarta-feira, junho 04, 2008

FAIAL, II

A MULHER DE PORTO PIM

Ler é uma actividade apaixonante, e nunca se lê duas vezes o mesmo livro de idêntica maneira. Assim como não há duas pessoas a ler de forma semelhante o mesmo romance. Mas há obras que sofrem oscilações vibrantes e inesperadas. “A Mulher de Porto Pim” (1) foi, para mim, uma delas. Li-a quando saiu na tradução portuguesa e gostei. “Donna di Porto Pim e Altre Storie” assinalava a passagem do escritor pelos Açores e reunia num pequeno volume vários textos sobre este arquipélago que marcou decisivamente a sua vida. “Naufrágios, Destroços, Passagens, Distâncias” era uma das partes em que a obra se subdividia, a outra era “De Baleias e Baleeiros” e aí aparecia “Mulher de Porto Pim. Uma história”. Uma história de amor e morte, trágica, sensual, com cantos de encantar moreias e mulheres. Coisa que me enfeitiçou, na época.
Anos depois, visitei o Faial, e descobri o verdadeiro Porto Pim. Não tinha levado comigo o livro, mas de regresso a Lisboa, rebusquei na incongruente biblioteca até descobrir o tímido volume, e a história de Tabucchi teve um outro sabor. Apaixonei-me mesmo por ela. Comecei a sonhar fazer dele um filme. Não uma longa-metragem, não, mas uma curta de vinte ou trinta minutos, curta como o conto, mas densa e trágica como as palavras no-lo restituem. Percebi ao relê-lo, depois de conhecer o cenário natural, que o conto era muito melhor do que pressentira de início. Tabucchi tinha tido a percepção plena da magia do lugar e nele tinha inscrito uma daquelas histórias mágicas que transformam um lugar num mito. Mas só se descobre isso, lendo o conto e “estando” fisicamente no local. Hoje não se vai à Horta sem se visitar Porto Pim. E não se passa por ali sem se evocar Tabucchi.
É uma baía de águas claras, que tem na memória noites de pesadelo na caça à baleia e que recolhe no fundo do mar o vermelho vivo do sangue de baleias e de pescadores, que guarda destroços de outras eras, que deixa passar a aragem quente de fins de tarde na fina areia da praia ou nas esplanadas de tabernas e cafés que a rodeiam.
Ao lado, transformada em museu, conserva a última “fábrica de baleia”, cuja existência e história resguardada o “Patrão Manel” zelosamente vai contando aos visitantes com o olhar azul de uma nostalgia compreensiva para com os tempos modernos. Vemos as fotos, e nelas como que se trancava o cachalote, se matava e se rebocava a baleia em botes ou baleeiras de cerca de doze metros de comprido por dois de largo (quando as baleias oscilavam entre os quinze e os dezoito, por vezes atingindo os vinte e dois metros de comprimento). Vemos e sentimos a carne da baleia a ser cozida, ser espremida pela maquinaria, ser transformada em farinha, o óleo a escorrer, a alimentar uma população pobre e dorida, que retirava do mar quase todo o sustento.

Vemos lá em cima, no Monte da Guia, em noites de bonança ou tempestade, nas coloridas palavras do Patrão Manel, o vigia a perscrutar o horizonte, em busca de um qualquer jacto de água que denunciasse a presença de uma baleia ou de um grupo delas, ouvimos o foguete a estalejar no ar, vemos os pescadores, alertados, a reunirem-se para se lançarem ao mar na perseguição de uma presa vital, o arpão que voa em direcção à vitima desejada, a lâmina a enterrar-se na carne, a baleia a mergulhar até ao fundo do oceano, a baleeira cá em cima à espera do regresso do animal ferido, que vem à tona da água respirar e ganhar fôlego, e ser novamente arpoado, uma e outra vez, e mais ainda, até doer as mãos e os dedos ficarem em ferida, e assiste-se às tentativas da presa para se libertar das cordas que a tolhem, a resistência cada vez menor, mais rarefeita, a perca das forças, a entrega à faca até sentir já a carne retalhada, o sangue a explodir em jactos e a tingir o oceano, e a baleia ainda viva, a respirar na areia da praia, com os costados golpeados, a pele metalizada, a carne rubra, o sangue, as vísceras a descoberto, o âmbar escondido no interior dos intestinos, os ossos a esfarelarem-se no mecanismo triturador… A gesta trágica e violenta de uma caçada que foi legalmente extinta por decreto em 1984, mas que ainda hoje se pratica nalguns países. Furtivamente. A fábrica do Faial fechou, porém, dez anos antes, em 1974.
Nesta baía lutou-se, sofreu-se, amou-se, e houve mesmo uma mulher que ouviu um antigo pescador cantar numa voz de menino, como outrora cantara às moreias e as trazia ao engodo para a morte. Desta feita o pescador cantou, e uma mulher que provocava os seus desejos numa taberna do porto, abriu-lhe a porta de casa, deixou-o entrar e, encostada ao varandim da janela, deixou-se amar. Promessas que não cumpriria. Mais tarde, seria baleia arpoada ou moreia assassinada. Diz no final o pescador: “Só numa coisa não me tinha mentido, descobri-o no processo. Chamava-se mesmo Yeborath. Se isso pode ter importância. “
Por aqui passou a magia de mulheres fatais, de Casablanca ou Gilda.
Uns amigos do Cine Clube da Horta emprestaram-se, para ver no portátil, num quarto de hotel que acordava ao som de um galo insistente, o dvd de “Dama de Porto Pim” (2), uma realização do espanhol José Antonio Salgot, sobre o conto de Tabucchi. Emma Suárez (Lucía), Antonio Resines (Español) e Sergio Peris-Mencheta (Lucas) são os protagonistas desta tragédia cinematográfica que não tem ponta por onde pegar, a começar desde logo pelo desperdício de uma história que só pode mesmo ser filmada em Porto Pim, no Faial, e que o desinspirado realizador transladou para uma inexpressiva Tazones, nas Astúrias, o que retira qualquer ressonância mágica a esta fabulosa história de cantores-pescadores de moreias, de baleias e de mulheres, por onde perpassa um tom de destino que se cumpre, guiado pelo olhar cativante de um misterioso rosto feminino. O que fica não é nada de tão provável suculenta ementa.
No interior da Taberna do Pim (que quer dizer “abrigo” em flamengo), com a porta aberta sobre a baía, imagino a São José Lapa no papel da fatal desconhecida que destroça corações, vestida de branco, e o Rogério Samora no pescador que troca a caça à baleia por cantigas de amor numa taberna do porto, o “Bote”. E revejo a cena do encontro inicial. Ele olha-a e sente-se perdido. “Dei-lhe os bons-dias e perguntei-lhe em que podia ser-lhe útil. Indicou-me a mala que estava a seus pés. Leva-a ao “Bote”, disse-me na minha língua. O “Bote” não é um lugar para senhoras, disse eu. Eu não sou uma senhora, respondeu, sou a nova patroa. “
Situação digna de um clássico de culto. A mulher de porto Pim. A magia de porto Pim. Cai a noite. Corta!


(1) “Donna di Porto Pim” saiu em Itália em 1983. António Tabucci, italiano de Vecchiano (localidade perto de Pisa), nascido em 1943, era então director do Instituto Italiano di Cultura em Lisboa. Depois passou a professor de Literatura Portuguesa na Universidade de Génova, e continua a ser um escritor muito bem recebido pelos portugueses, que dele conhecem a obra de ficcionista, onde se destacam, para lá de “A Mulher de Porto Pim”, “Notturno Indiano” (Nocturno Indiano, 1984), “Piccoli Equivoci Senza Importanza” (Pequenos Equívocos sem Importância, 1985), “Il Filo dell' Orizzonte” (O Fio do Horizonte, 1986), excelente adaptação ao cinema por Fernando Lopes, “I Volatili del Beato Angélico” (Os Voláteis do Beato Angélico, 1987), “I Dialoghi Mancati” (Chamam ao Telefone o Senhor Pirandello, 1988), “L'Angelo Nero” (O Anjo Negro, 1991), “Requiem: un'Allucinazione” (Requiem, 1992), “Sogni di Sogni” (Sonhos de Sonhos, 1992), “Sostiene Pereira” (Afirma Pereira, 1994), que deu também origem a um filme homónimo, realizado por Roberto Faenza, com Marcello Mastroianni, e igualmente rodado em Portugal, “Gli Ultimi Tre Giorni di Fernando Pessoa” (Os Três Últimos Dias de Fernando Pessoa, 1994) ou “La Testa Perduta di Damasceno Monteiro” (A Cabeça Perdida de Damasceno Monteiro, 1997) ou “La Gastrite di Platone” (1998), “Marconi, se Ben mi Ricordo” (1997), “Si sta facendo sempre più tardi. Romanzo in forma di lettere” (2001), “Tristano muore. Una vita” (2004).
Apaixonado por Portugal, crítico e tradutor italiano de Fernando Pessoa. Tabucchi apaixona-se pela poesia de Pessoa nos anos 60, ainda na Sorbona, e no regresso a Itália frequenta aulas de português para melhor perceber melhor o poeta. Sobre Pessoa escreveu obra variada, para lá de ensaios: “Pessoana mínima” (1987), “Un baule pieno di gente. Scritti su Fernando Pessoa” (1990), (1994), “Dove va il romanzo” (1995, essay), “Carlos Gumpert, Conversaciones con Antonio Tabucchi” (1995), L'Automobile, la Nostalgie et l'Infini” (1998), “Gli Zingari e il Rinascimento” (1999), “Ena poukamiso gemato likedes (Una camicia piena di macchie. Conversazioni di A.T. con Anteos Chrysostomidis”, 1999), “Autobiografie altrui. Poetiche a posteriori” (2003), etc.

(2) Titulo original: Dama de Porto Pim
Realização: José Antonio Salgot (Espanha, 2001); Argumento: Jacobo López-Vilasaló, José Antonio Salgot, segundo conto de António Tabucchi; Música: Mario de Benito; Fotografia (Cor): Javier G. Salmones; Montagem: José María Biurrún; Casting: Julio Gavilanes; Design de produção: Gil Parrondo; Guarda-roupa: Gumersindo Andrés; Maquilhagem: Cristóbal Criado, Viuda de Ruiz; Direcção de produção: Salvador Ginés; Departamento de arte: Jose Antonio Mateos; Som: Jorge Lerner, José Nogueira; Efeitos visuais: El Khadir Palomo Yusef; Produção: Eduardo Campoy, Juan Gona; Companhias de produção: Creativos Asociados de Radio y Televisión, Gonafilm S.L.;
Intérpretes: Emma Suárez (Lucía), Antonio Resines (Español), Sergio Peris-Mencheta (Lucas), José Manuel Cervino (Eduino), Ismael Martínez (Miguel), May Heatherly (Mrs. Burnes), Armando del Río (Hans), Olegar Fedoro (Pierre), Bea Segura (Maria), Oriana Bonet (Mercedes), Denis Rafter (Mr. Perrin), Maite Blasco (Madame Perrin), José Antonio Izaguirre, Xavier Sandoval, Patricia Mendy, Pep Guinyol, Teresa del Olmo, etc.
Duração: 90 minutos, Estreia em Espanha: 9 de Novembro de 2001; Locais de filmagem: Tazones, Astúrias, Espanha.
(todas as fotos são do autor, com a compreensível excepção da baleia)

segunda-feira, junho 02, 2008

FAIAL, I

NO PETER CAFÉ SPORT

Um dos símbolos do Faial é o “Peter Café Sport”, local de romagem obrigatória para lobos-do-mar e turistas em peregrinação, mas também para os fiéis habitantes da ilha ou os simples apreciadores de referências gastronómicas.
Há cerca de uma dezena de anos estivera na Horta e daí para cá poucas diferenças senti. Neste caso não quer dizer que a terra não tenha evoluído. Apenas se manteve igual. Serena à superfície, com uma actividade sísmica intensa nos seus subterrâneos, mágica na sua paisagem, o límpido oceano a bordejá-la, o verde das pastagens e do (raro) arvoredo a subir encosta acima, as casas da cidade permanecem de um traçado nobre, da mais modesta à mais exuberante, a despertar a nossa curiosidade à medida que andamos, um comércio parado no tempo, cafés que recordam o passado, um porto de abrigo que se tornou escala entre a Europa e as Américas, a memória de milhares de viagens e de viajantes que deixam a sua colorida marca no chão e nas paredes deste ancoradoiro único onde nascem e morrem esperanças e se suspendem paixões. De paraísos perdidos, de mulheres ou homens de olhos faiscantes, de Moby Dicks que se perseguem até à morte. Assim é a história da Humanidade que aqui encontra registo miniaturista e “naif”.
Entre-se no “Peter Café Sport”. São velhas e sólidas cadeiras e mesas de madeira, estas com tampos de mármore, numa boa tradição de taberna reabilitada. Numa das paredes um mapa-mundo da “Cable and Wireless Limited”, e depois uma profusão imensa de estandartes e bandeirinhas que se sobrepõem, autocolantes, placas comemorativas, brasões de barcos, bilhetes escritos em todas as línguas, apelos, informações. Pedidos de “crew” para viagens. “Foi um prazer conhecer-te…”. “To Sophie”, ali se encontra um bilhete em papel fechado que todos aceitam como inviolável até à provável, ou improvável, chegada da anunciada Sophie. Uma enorme águia de madeira, num castanho-escuro e duro, de bem abertas e negras asas, segura nas fortes patas duas entrelaçadas bandeiras de Portugal. Está por cima do balcão principal, donde fumegam malgas brancas com uma excelente e forte sopa de peixe, mas também pastéis de bacalhau, rissóis, tartes várias, cervejas e gin tónico (o célebre “gin do mar” ou o “gin à memória”). Desse balcão sai e entra, com bandejas carregadas, uma empregada brasileira de olhos doces e t-shirt da casa, “Whale Whatching - Peter”, com as calças descaídas deixando entrever uma faixa da barriga, pele rosada e umbigo a descoberto. Há este balcão de bebidas e comidas ao fundo, e um outro, à esquerda de quem entra, este reservado a pagamentos, tabacos e “souvenirs.” O “Peter” não é só já um café, mas por cima do estabelecimento tem, no primeiro andar, um pequeno museu do mar, da pesca à baleia, da escultura em osso e dente de baleia, e, crescendo do seu lado esquerdo, estende-se também uma loja que vende um pouco de tudo, de t-shirts a brincos, de livros turísticos a objectos regionais.
No próprio café há pequenas vitrinas com as prateleiras repletas de objectos de dente de baleia, de madeira de figueira, alargando a recordação para o mar e os barcos, a caça à baleia, o horizonte do Atlântico. Um Atlântico que basta olhar através das portas para se vislumbrar para lá da esplanada.
A iluminação é discreta, mesmo de dia, mais clara do que à noite, onde impera o dourado velho das lâmpadas. Nas paredes e nas montras, lanternas antigas azuis e brancas, relógios e aparelhos vários da arte de marear. Nas mesas, a pausa para um café ou uma cerveja, os gins da tradição ou uma refeição mais demorada. Franceses, irlandeses, nórdicos à escolha, americanos e ingleses, uma babilónia de línguas, de olhares, de cabelos hirsutos ou de carecas rapadas à lamina, cabelos em rabo de cavalo, presos atrás, ou soltos, ou atados por uma fita vermelha em redor da testa. Há homens para todos os gostos, rostos tisnados pelo sol, barbas longas, ou simples bigodes, calções, calças militarizadas ou curtas, t-shirts lisas de cores claras ou escuras, ou estampadas com barcos e símbolos de companhias de navegação. Botas cardadas, chinelos, ténis, mais ligeiros ou mais carregados, sandálias, socas. Entra um casal que capta o olhar de todos: ele de cabeça rapada à máquina zero, de longos bigodes louros e farfalhudos, alto e espadaúdo, sacola às costas, ela loura, t-shirt azul-marinho a escorrer-lhe pelo corpo alto mas franzino, seios a anunciarem-se soltos por baixo do algodão, longos dias de travessia do oceano nos braços e nas mãos. No balcão pedem duas cervejas que trazem até à porta, onde se encostam confortavelmente, acendem cigarro e cigarrilha e ficam a olhar o mar e a beber.
Mas dentro do café, em diversas mesas, vão-se sucedendo os cabelos louros de mulheres de meia-idade e os grisalhos de homens que passaram grande parte da sua vida no mar ou em portos de abrigo como este. São velhos lobos-do-mar com muitas histórias para contar que as vão desfiando a mulheres louras, sempre louras, de longos cabelos escorridos, ou encaracolados, que os ouvem e os incitam com o olhar para novas aventuras. Marítimas ou não. Estes são os seres que vivem no habitat natural, onde se cruzam com burgueses de visita, burocratas em momentos de relaxe, artistas em busca de inspiração, turistas que registam o instante.
Lá ao fundo, ancorados no porto, os iates, os barcos de recreio, os botes de ilusão que atravessam os oceanos do mistério, de ondas encrespadas ou de cálidas marés que povoam os sonhos do homem, sonhos de conquistas e de aventuras que se estendem desde a “Odisseia” ou da “Ilíada” até “Moby Dick” ou “O Velho e o Mar”. Há ainda “Mau Tempo no Canal” que une o Faial ao Pico, mesmo ali à frente. E “Gente Feliz com Lágrimas”. Passando por “A Mulher de Porto Pim”. Mas esta fica para uma próxima história.