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domingo, julho 11, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 3

:

CARMEN. EUNICE. MARIA:
CANTOS NO PALCO DE ALMADA

Um acontecimento. Que apenas o público presente na sala esgotada, a rebentar pelas costuras, do Teatro Municipal de Almada teve oportunidade de presenciar. Eram muitos, mas deviam ser milhões. Acontecimentos como este deviam ser abertos a todos, a toda a Humanidade.
Era o dia 10 de Julho de 2010, passava pouco das 20 horas e 30 minutos, e o pano subiu sobre um vasto e austero palco deserto e negro, apenas habitado por uma mesa comprida, onde se pressentiam, sentados, três vultos que outros tantos holofotes, pendentes da teia, irão lentamente iluminar.
Percebemos o que esperávamos perceber, e ao que íamos, mas a força do primeiro impacto causa surpresa e emudece a plateia: estavam ali as três maiores actrizes vivas do teatro e do cinema português. Apenas Carmen Dolores, Eunice Munoz e Maria Barroso.
Um dos focos de luz sobe de intensidade, os outros quase se abafam. Carmen recita o seu primeiro poema, Depois outro. O foco seguinte incendeia Eunice, dois poemas. Finalmente uma terceira projecção de luz isola a voz e os gestos de Maria Barroso. Cada uma escolheu os “seus” poemas. Sem conhecimento das restantes. Curiosamente, ao fim de pouco mais de uma hora, cada uma delas deu corpo a uma personalidade, uma sensibilidade, um projecto de vida e de poesia. A emoção mais lírica de Carmen, o surrealismo desconcertante de Eunice, a poesia solidária das grandes causas de Maria.
Em todas elas, a mesma forma de encantar pela magia da palavra, pela perturbada e pura emoção, pelo primor da dicção, pela ofuscante presença. São três divas, que o seriam em qualquer parte do mundo. Mas são portuguesas, nossas, falam a nossa língua, dizem de nós e dos nossos problemas, passados, presentes, futuros. Das suas bocas sai o eco do humano absoluto. Da alegria e da angústia de existir, de existir poeticamente.
Estão juntas pela primeira vez, as três. Joaquim Benite e o seu Festival de Teatro de Almada conseguiram mais este feito. Ele as dirigiu discretamente, pontuando a ordem do espectáculo, criando o cenário, e libertando as vozes. O essencial. Depois, deixar jorrar livremente a corrente do talento, secreto, íntimo, aqui pudico, ali avassalador, segredado muitas vezes, gritado quase nunca, versos de poetas vários, dos mais célebres a alguns menos conhecidos, dos amargurados pela ansiedade da solidão, aos revoltados pela opressão. Do eu ao nós. Redescobrindo a nossa voz de cidadãos do mundo e de poetas das nossas próprias vidas. Mesmo que as palavras sejam de poetas.
Um momento único na história do teatro português. Posso dizer: eu estive lá e vi e ouvi. Obrigado Carmen Dolores, Eunice Muñoz e Maria Barroso.

Carmen.Eunice.Maria. Cantos no palco de Almada
Direcção: Joaquim Benite; Intérpretes: Carmen Dolores, Eunice Muñoz, Maria Barroso
Duração: 1H00 (aprox.); Classificação M/ 12; Teatro Municipal de Almada, Sala Principal

Carmen Dolores iniciou a sua carreira na rádio, ganhando grande visibilidade no cinema: foi primeiro Teresa de Albuquerque, no filme “Amor de perdição” (1943) de António Lopes Ribeiro, e, três anos mais tarde, interpretou Catarina de Ataíde (Natércia) em “Camões”, de Leitão de Barros. Entretanto, estreia-se em palco em 1945, no Teatro da Trindade, em “Electra, a mensageira dos deuses”, de Jean Giraudoux, ao lado de actores como Lucília Simões, Francisco Ribeiro (Ribeirinho) ou João Villaret, num espectáculo de Os Comediantes de Lisboa. Em 1959 ganhou o Prémio de Melhor Actriz pelo seu desempenho da «enteada», na montagem que Gino Saviotti fez da peça “Seis personagens à procura de um autor”, de Luigi Pirandello, no Theatro Avenida. Juntamente com Armando Cortez, Fernando Gusmão, Costa Ferreira, Rogério Paulo, Armando Caldas e Ruy de Carvalho, Carmen Dolores funda em 1961 o inovador Teatro Moderno de Lisboa. Protagonizou centenas de peças do melhor reportório português e internacional, permanecendo D. Madalena, de “Frei Luís de Sousa”, como uma das suas mais memoráveis criações.

Eunice Muñoz estreou-se em 1941 no Teatro Nacional D. Maria II, com a peça “Vendaval”, de Virgínia Vitorino, num espectáculo dirigido e também interpretado por Amélia Rey Colaço (além de actrizes como Palmira Bastos ou Maria Lalande). A rápida afirmação do seu talento – em espectáculos como “Raparigas modernas”, de Leandro Navarro, ao lado de Irene Isidro, ou “Frei Luiz de Sousa”, de Almeida Garrett (foi Maria, sob direcção de Amélia Rey Colaço) – abre-lhe as portas do cinema, participando em “Camões” (1946), ao lado de Carmen Dolores (o desempenho de Beatriz da Silva valeu-lhe o Prémio de Melhor Actriz Cinematográfica do Ano), o que mais tarde voltaria a ganhar, em “Manhã Submersa” (1980), de Lauro António. Trabalha com importantes renovadores do teatro, destacando-se António Pedro, na Companhia do Teatro Ginásio, e Ribeirinho, no Teatro Nacional Popular. Se a protagonista de “Joana d’Arc” (1955), de Jean Anouilh, e Claire de “As criadas”, de Jean Genet – ao lado de Glicínia Quartin e Lourdes Norberto, na estreia da peça em Portugal, em 1972, com o Teatro Experimental de Cascais e sob direcção de Victor Garcia – são marcos fundamentais da sua carreira, ficou célebre o seu desempenho da personagem principal de “Mãe coragem e os seus filhos” (1986), de Bertolt Brecht, sob a direcção de João Lourenço.

Maria Barroso também fez a sua estreia na Companhia Rey Colaço/Robles Monteiro, em 1943, deixando o Teatro Nacional D. Maria II ao fim de quatro anos, por imposta proibição de exercer a profissão, durante o regime de Salazar. Nessa breve passagem pelo Teatro Nacional destacou-se o seu desempenho em “A casa de Bernarda Alba”, de Federico García Lorca (1948), “Paulina vestida de azul”, de Joaquim Paço D’Arcos (1948) e – sobretudo – na protagonista de “Benilde ou a Virgem Mãe” (1946), de José Régio (Manoel de Oliveira baseou-se na peça para o seu filme homónimo de 1975, no qual Maria Barroso participou, interpretando desta vez a governanta Genoveva). Regressou apenas duas vezes aos palcos nos anos 60, em espectáculos da companhia Teatro do Nosso Tempo, dirigidos por Jacinto Ramos (em 1965, participou em “Antígona”, de Jean Anouilh, e em “O Segredo”, de Henry James e Michael Redgrave). As conhecidas vicissitudes familiares desta incansável resistente política e cívica não lhe permitiram a prossecução de tão prometedora carreira teatral, decidindo Maria Barroso tornar o seu enorme gosto pela declamação de poesia – nomeadamente dos autores que integraram o movimento impulsionado pela publicação do Novo Cancioneiro, em 1941 – uma poderosa arma de resistência à ditadura e de educação pela arte, que cultivou
apaixonadamente.

sábado, abril 11, 2009

COM VOTOS DE BOA PÁSCOA

:

TRÊS "OVOS DE PÁSCOA" PARA
AS AMIGAS E OS AMIGOS DA BLOGOSFERA

(Duas cantigas de “amor” e uma de “maldizer” certas existências,
nesta "bloglândia" por vezes tão filatelista)

REFERÊNCIA
(Maria Teresa Horta)

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

O que chega primeiro
e só parte, por vezes
antes de eu perceber
que já tinhas voltado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Aquele que me beija
e me possui,
me toma e me deixa
ficando a meu lado

Quantas vezes te digo
quantas vezes...
que és para mim
o meu homem amado?

Que sempre me enlouquece
e só aí percebo
como estava perdida
sem te ter encontrado

PRINCÍPIOS
(Nuno Júdice)

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor, Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

ZEITGEIST
(Fernando Pino do Amaral)

Os meus contemporâneos falam muito
e dizem: “Então é assim”,
com o ar desenvolto de quem se alimenta
do som da própria voz, quando começam
a explicar longamente as actuais tendências
das artes ou das letras ou das sociedades
a pouco e pouco iguais umas às outras
neste primeiro mundo em que nascemos,
agora que o segundo deixou de existir
e que o terceiro, mais guerra, menos fome,
continua abstracto, em folclore distante.

Parece que está morta a metafísica
e que a verdade adormeceu, sonâmbula,
nos corredores vazios, onde às escuras
se vão cruzando alguns milhões de frases
dos meus contemporâneos. Todavia,
falam de tudo com o entusiasmo
de quem lança «propostas» decisivas
e percorre as «vertentes» de novos caminhos
para a humanidade, enquanto saboreiam
a cerveja sem álcool, o café
sem cafeína e sobretudo
o amor sem amor, pra conservarem
o equilíbrio físico e mental.

Os meus contemporâneos dizem quase sempre
que não são moralistas, e é por isso
que forçam toda a gente, mesmo quem não quer,
a ser livre, saudável e feliz:
proíbem o tabaco e o açúcar
e se por vezes sofrem, tomam comprimidos
porque a alegria é uma questão de química
e convém tê-la a horas certas, como
o prazer vigiado por preservativos
e outros sempre obrigatórios cintos
de segurança, pra que um dia possam
sentir que morrem cheios de saúde.
Quando contemplo os meus contemporâneos
entre as conversas trendy e os lugares da moda,
«tropeço de ternura», queria ser
pelo menos tão ingénuo como eles,
partilhar cada frémito dos lábios,
a labareda vã das gargalhadas
pela madrugada fora. No entanto,

assedia-me a acédia de ficar
assim, mais preguiçoso do que um Oblomov
à escala portuguesa — ó doce anestesia
a invadir-me o corpo, a libertar-me
desse feitiço a que se chama o “espírito
do tempo” em que vivemos, sob escombros
de um céu desmoronado em mil pequenos cacos
ainda luminosos, virtuais
estrelas que se apagam e acendem
à flor de todos os écrans
que os meus contemporâneos ligam e desligam
cada dia que passa, nunca se esquecendo
de carregar nas teclas necessárias
para a operação “save”
e assim alcançarem a eternidade.

in, Colecção “Poesia e Prosa” Ed. Publicações Dom Quixote, Visão, Lisboa 2009
Ao preço de 50 cêntimos cada (e ainda dizem que o livro está caro!).
Nesta colecção de 8 volumes, Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Fernando Pinto do Amaral, Mário Cláudio, Manuel Alegre, Mia Couto, João de Melo e Ondjaki. A não perder.

quarta-feira, dezembro 03, 2008

THE RAVEN, 2 VERSÕES e 4 TRADUÇÕES

THE RAVEN
"O Corvo", o mais célebre poema de Edgar Allan Poe, teve duas versões e inúmeras traduções. Reunimos no blogue "Meia Noite Fantástica" as duas versões do autor e quatro traduções brilhantes, todavia, cada uma delas tão representativa de Edgar Allan Poe como de cada um dos escritores que as traduziram (Baudelaire, Malharmé, Fernando Pessoa e Machado de Assis). O que demonstra bem que quem lê, o faz segundo a sua experiência e sensibilidade, pelo que não há duas "leituras" iguais, e que quem traduz pode não trair, mas nunca reproduz a experiência do original.

THE RAVEN

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
" 'Tis some visiter," I muttered, "tapping at my chamber door —
Only this, and nothing more."

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; — vainly I had tried to borrow
From my books surcease of sorrow — sorrow for the lost Lenore —
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore —
Nameless here for evermore.

(...)

(continua AQUI)
(imagem "roubada" a IMF)


segunda-feira, julho 23, 2007

LIVROS: POESIA DE SARA

“Quando desapareceres
Escreverei uma história épica
Com o que restar das palavras.”


A Sara (F. Costa) teve um dia a gentileza de transcrever uma nota minha, aparecida neste blogue, sobre uma escritora japonesa (“Serpentes e Piercings”, de Hitomi Kanehara), no seu blogue “Bungaku!”, apoiado pelo “Centro de Estudos Orientais” (ela estuda esse tema na Universidade do Minho).
Depois eu agradeci, em comentário, ela respondeu, falámos via mail, soube que tem 20 anos e um livro de poesia já publicado, “Uma Devastação Inteligente” (em homenagem ao seu mestre, Herberto Hélder). Conversa daqui e dali, com muito cinema japonês e chinês à mistura (Zhang Yimou, por exemplo!), eis que a Sara me manda o seu belo livro de estreia com dedicatória e tudo.
Leio e gosto muito. Rigor na palavra, exigência nas imagens, uma maturidade de escrita que faz esquecer os seus 20 anos (ou os faz recordar ainda mais!). Jorge Listopad, no “Jornal de Letras” disse que "Sara na minha imaginação parece a Agustina na sua idade, sabendo já o que quer!" e Jorge Reis-Sá, no “Magazine Artes” faz a pergunta "...quantos poetas puderam assegurar o manejo das formas como Sara Costa o faz já?"
Por mim desejo-lhe as maiores felicidades e muitos poemas para encantar noites cálidas ou quentes dos verões da vida, as dela e as nossas, seus leitores. Não é todos os dias que se descobre um talento a despontar com a força amadurecida de quem domina as palavras, mas conserva o abençoado viço da adolescência (que nunca se deveria perder). E no intervalo de tudo isto, a disciplina rígida do ai kai. Vale a pena apreciar devidamente.



Sobre adolescência:

A adolescência é um murmúrio oco,
Um oceano estendido por baixo da insónia.
Repara como se move na poeira da fuga,
Como envolve as faces da terra
(talvez do universo)
E como cospe a escrita
Para dentro da voz calejada do sonho.

Outro exemplo:

passos de zinco atravessam-se nas estradas.
dizes trazer o terror preso na garganta
e o amor de lado,
de um qualquer lado.
densas insónias circulam
nos músculos das imagens,
colam-se às feições pouco nítidas
dos meus reflexos.
e a solidão incinerada nas beiras dos passeios
emana um odor turvo.
tu prossegues por dentro dos versos poluídos.
o silêncio surge-te a vermelho
enquanto o mundo vira a sua carne raspada
para os holofotes.

Ou este ainda:

Anoitecia por dentro do corpo,
Lembro-me bem.
As imagens corriam para junto de uma fogueira
Espalhada por todo o comprimento do sonho.
Esperei mas a espera derretia-se
Com o café.
Trazia em m im um sono ferido
E as mãos agarradas à febre. Soube que morreste, sem,
Soube-o entre dois versos.

A terminar:

tudo se ergue pela febre dos seios,
nas carícias afiadas das palavras.

a tua língua a percorrer a minha nudez
e a saliva de veludo a estender-se
pelo suor do desejo.
….
«Uma Devastação Inteligente» foi Prémio Literário João da Silva Correia."

sexta-feira, julho 13, 2007

ENCANDESCENTE

Sou no verso como sou!
Impertinente
Irascível
Excessiva
Desabrida
Exagerada.
Inoportuna
Inconveniente
Desmedida
Descomedida
Descompassada.
Sou puro desatino
Irregularidade
Desacerto,
Que eu não acerto
Que eu sou erro
Contratempo
E incorrecção.
Sou pergunta e resposta
Certeza convicta
Dúvida permanente
E contradição.
Sou crack rasca
Nunca heroína
Droga marada
Não cocaína
Pêlo na venta
Cavalo à solta
Anomalia
Aberração
Ou besta presa
Fera amansada
Domesticada
Aprisionada
Pouco me importa
Que pensem ou não!
*
Pois é um belo poema da "Encandescente", de que gostei.
Aqui fica o retrato. Sem mais.
Pode ser tudo isso, e ainda uma simpatia.

quarta-feira, abril 11, 2007

POESIA, NUNO JUDICE, HOJE

NUNO JÚDICE

Falar de Nuno Júdice é difícil. Falar de Poetas é sempre difícil. Há elementos factuais que se podem dizer.
Nasceu em 1949, em Mexilhoeira Grande (Algarve). Formou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e é Professor Associado da Universidade Nova de Lisboa, onde se doutorou em 1989 com uma tese sobre Literatura Medieval.
Tem publicado estudos sobre teoria da literatura e literatura portuguesa. Publicou antologias, como a da Poesia do Futurismo português, edições críticas como a dos Sonetos de Antero de Quental e tem uma colaboração regular em jornais e revistas com críticas de livros e crónicas.
Colaborou em acções de divulgação cultural, como as "Letras Francesas" (1989), com uma apresentação de autores franceses contemporâneos, e organizou a "Semana Europeia de Poesia" no âmbito de Lisboa Capital Europeia da Cultura (1994).
Foi o comissário para a área da Literatura de "Portugal como país-tema da 49ª Feira do Livro de Frankfurt", em 1997.
O seu primeiro livro de poesia data de 1972. Daí para cá tem publicados mais de quarenta títulos, entre poesia, ficção, teatro, ensaísmo.
Recebeu os mais importantes prémios de poesia portugueses: P.E.N. Clube, em 1985; D. Dinis, da Fundação Casa de Mateus, em 1990; da Associação Portuguesa de Escritores, em 1994, este com o livro "Meditação sobre ruínas".
Em 1999 arrecadou o prémio Bordalo da Casa da Imprensa com o romance «Por todos os séculos».
Em 2001 recebeu o Prémio da Crítica, da Associação Portuguesa dos Críticos Literários.
Em 2002 obteve o prémio Ana Hatherly com o livro «O estado dos campos».
Está representado em numerosas antologias, tendo participado nos mais importantes festivais de poesia, como o de Roterdão e o de Medellin.
Dirigiu a revista "Tabacaria" da Casa Fernando Pessoa até ao número 8, publicado em 1999.
Foi nomeado em 1997 Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Director do Instituto Camões, em Paris, cargos que exerceu até Fevereiro de 2004.
É um dos responsáveis pelos Seminários colectivos de tradução de poesia, que se realizam duas vezes por ano no Palácio de Mateus, no Norte de Portugal, e membro permanente do júri do Prémio D. Dinis da Fundação Casa de Mateus.
É autor de uma peça de teatro, «Flores de estufa», representada no Porto e em Lisboa, tendo traduzido as peças «Sertório» (representada pelo Teatro da Cornucópia com encenação de Luís Miguel Cintra), «A Ilusão Cómica», (representada no Teatro nacional S. João com encenação de Nuno Carinhas) e «O Cerco» de Armand Gatti (representado no festival de teatro de Almada com encenação de Michel Simonot).
Em 2007, a Câmara Municipal de Aveiro criou o Prémio de Poesia Nuno Júdice.
Enumerados os elementos biográficos, fica quase tudo por dizer. Fica pelo menos o mais importante. Eu que o julgo um dos maiores poetas portugueses de sempre, um dos mais importantes poetas líricos da nossa História, na linha de um Camões e de um David Mourão Ferreira, e ficam muito poucos por citar da mesma grandeza, acho que o melhor mesmo é ouvir a sua poesia.

Dois exemplos:

ATÉ AO FIM

Mas é assim o poema: construído devagar,
palavra a palavra, e mesmo verso a verso,
até ao fim. O que não sei é
como acabá-lo; ou, até, se
o poema quer acabar. Então, peço-te ajuda:
puxo o teu corpo
para o meio dele, deito-o na cama
da estrofe, dispo-o de frases
e de adjectivos até te ver,
tu,
o mais nu dos pronomes. Ficamos
assim. Para trás, palavras e versos,
e tudo o que
não é preciso dizer:
eu e tu, chamando o amor
para que o poema acabe.

PRINCÍPIOS

Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.

Nuno Júdice, in “Pedro, Lembrando Inês”, ERD. Dom Quixote, 2001

Ouvidos os poemas, julgo que nos aproximámos do essencial do poeta: os mistérios da vida e da morte, a obsessão do amor, que é espírito e carne, a construção do poema. Estes são temas constantes da sua obra, desde os tempos mais formalistas da génese da sua obra até ao momento actual, em que as emoções se articulam harmoniosamente com a construção do poema.
Mas chega de aproximações, quando temos connosco o poeta.

(Hoje, no Vává.diando, pelas 20,00 horas).

segunda-feira, abril 09, 2007

BLOGUES - A TRADUÇÃO DA MEMÓRIA


na última noite em que morri. vi a curva da lua
sublinhar uma só palavra. ajoelhei-me à porta da
igreja. encostei a cabeça ao peito. depositei-me
na caixa das esmolas. eis onde repouso.

a essa hora do amor. o sino toca as lamentações.
vêm das campas os gatos mais sombrios. abrem-se
covas a músculo no cemitério. os mortos cantam
sempre a mesma canção. coro inaudível.

dou o braço a comer às múmias. tu queimas a vela
dentro do frasco. o papel evapora-se num anel de
cinza. dançam as tíbias como lume. chiam espadas
de fumo. comem-se os restos mortais. fome santa.

mas isso foi há muito tempo atrás. na véspera da
ira do senhor. a chave rompe o saco lacrimal das
jarras. fere o tímpano dos surdos. arde muda. os
mortos desistem de cantar. os gatos somem-se.

a solidão progride rua acima. detém-se junto ao
altar. mete uma moeda na caixa. acende-se a lua.


um blogue a não perder, assinado pela Alice.
Visitem-no que vale a pena.
A Alice ainda mora ali.
O fundo é cinza, a poesia triste,
mas a sensibilidade existe e mostra-se em tudo.

sexta-feira, abril 06, 2007

RODIN E KILKE.UM ENCONTRO

RODIN E RILKE: ENCONTRO

Na última edição do Famafest, Festival dedicado a Cinenma e Literatura, uma das obras que surgiu a concurso chamava-se “Rilke e Rodin, Um Encontro” (Rilke et Rodin, Une Rencontre), filme francês de Bernard Malaterre, uma ficção com Jacques Bondoux, Cyril Descours, Birgit Ludwig, Catherine Chauviere, etc, teledramático de 55 minutos, com uma curiosa sinopse. “Tudo começou com um encontro entre duas pessoas. Em 1902, Rainer Maria Rilke, um jovem desconhecido, ansioso e frágil, viaja até Paris para escrever uma monografia sobre Auguste Rodin que, por essa altura, era já um “velho” poderoso, famoso e fascinante. Este encontro levou a um relacionamento entre dois homens que iria variar entre a emoção e a violência. Rodin fez de Rilke o seu secretário pessoal, mas também um pouco o seu “brinquedo”, e Rilke aceitou a situação em parte por causa do fascínio intelectual e físico do “mestre” ou, como alguns disseram na época e ainda hoje confirmam, para mais facilmente “fazer um nome” para si mesmo junto da intelectualidade parisiense da época.
O filme era interessante e documentava um período da vida de Rodin e Rilke importante para ambos. Acabadinho de sair de Famalicão, cai-me nas mãos um livrinho da “Relógio de Água”, “Momentos de Paixão”, que testemunha igualmente essa época, mas através de textos de Rainer Maria Rilke e desenhos de Auguste Rodin.
Um encontro de génios, que aqui deixo num texto (de Rilke) e dois desenhos (de Rodin). O amor e a mulher, a voluptuosidade e o desejo, em ambos, ainda que por caminhos aparentemente muito diversos.


UM TEXTO DE RILKE

A voluptuosidade física é uma experiência dos sentidos, tal como o puro olhar ou a pura sensação com que um fruto se der­rete na língua — é uma grande e infindável experiência que nos é proporcionada, um conhecimento do mundo, a plenitude e o esplendor de toda a sabedoria. Não é nessa experiência que está o mal; o mal está em quase todas estas experiências serem mal usadas e desperdiçadas e adoptadas nas fases aborrecidas da vida como excitantes e distracções em vez de concentração numa caminhada para o cume. As pessoas também transformaram a comida noutra coisa: miséria de um lado e desperdício do outro turvaram a clareza dessa necessidade, e do mesmo modo ficaram turvas todas as necessidades vitais através das quais a vida se renova. Mas o indivíduo pode torná-las claras para si e vivê-las com clareza (e se não o indivíduo, que é demasiado dependente, pelo menos o solitário). Ele consegue reconhecer que toda a beleza dos animais e das plantas é uma forma silenciosa e dura­doura de amor e desejo, e consegue ver o animal do mesmo modo que vê a planta, unindo-se e reproduzindo-se de forma paciente c dócil e não por prazer físico, não por sofrimento físico, submetendo-se a uma necessidade que é maior que o pra­zer c o sofrimento e mais poderosa que a vontade e a resistência. Oh, se o ser humano fosse capaz de reconhecer este segredo, que preenche toda a Terra até às mais pequenas coisas, de uma forma mais humilde e séria, em vez de o encarar com ligeireza! Se tivesse um profundo respeito em relação à sua fecundidade, que é apenas uma, seja ela espiritual ou física; pois também a criação espiritual deriva da física, forma com ela um só ser e é apenas como que uma mais misteriosa, encantada e eterna repetição do prazer físico. «A ideia de ser criador, de conceber, de dar forma» não é nada sem a sua grande e permanente confirmação e reali­zação no mundo, nada sem a mil vezes concedida concordância dos objectos e dos animais — e o seu gozo só é tão indescriti-velmente belo e rico porque está cheio de recordações herdadas da concepção e do nascimento de milhões de seres. Num único pensamento criador revivem milhares de noites de amor esque­cidas que o tornam grande e sublime. E aqueles que se juntam e entrelaçam durante a noite, numa voluptuosidade embaladora, realizam uma obra séria e acumulam doçuras, profundidade e energia para o canto de um qualquer futuro poeta que se irá erguer para descrever indescritíveis venturas. E invocam o futuro; e mesmo que eles estejam errados e se abracem às cegas, o futuro vem, sim — uma nova pessoa se ergue e, sobre os ali­cerces do acaso que aqui parece consumar-se, desperta a lei pela qual um germe forte e resistente faz o seu caminho até ao óvulo que se abre ao seu encontro. Não se deixe enganar pelas aparên­cias; nas profundezas tudo se torna lei. E aqueles que vivem mal este mistério, que se enganam (e são bastantes), apenas o perdem para si próprios; mas transmitem-no como uma carta fechada, sem o saberem. E não se desoriente com a multiplicidade dos nomes e a complexidade dos casos. Talvez tudo isto seja regido por uma vasta maternidade, como uma saudade comum. A beleza de uma virgem — um ser que (como tão bem diz) «ainda nada deu», está na maternidade que se insinua e prepara, se deseja e receia. E a beleza daquela que já se tornou mãe reside na mater­nidade que serve, e que na velhice constituirá uma grande recor­dação. E também no homem há, segundo me parece, materni­dade — física e espiritual; criar é para ele também uma forma de dar à luz, e dar a luz é conceber a partir da mais íntima plenitude. E talvez os sexos sejam mais parecidos do que se pensa e a grande renovação do mundo venha talvez a consistir no facto de o homem e a mulher, libertos de todos os equívocos e repulsas, não se encararem como contrários mas como irmãos e como vizinhos e se juntarem como seres humanos para, apenas e só, suportarem de forma séria e paciente, juntos, o difícil peso da sexualidade que lhes foi atribuído.

Rainer Maria Rilke, in "Cartas a um Jovem Poeta" (16 de Julho de 1903)