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sábado, julho 06, 2013

FESTIVAL DE ALMADA: I.B.S.E.N.


I.B.S.E.N. 

de Miguel Castro Caldas

“I.B.S.E.N.” traz o nome do dramaturgo norueguês, mas é um original de Miguel Castro Caldas, que agarra nalgumas situações de peças do autor e as organiza a seu belo prazer, manipulando os textos, por vezes com alguma graça e ironia, por vezes desvirtuando-os. Dizem personagens da peça que Ibsen está velho e os seus textos não são para o público de hoje. Se esse é o pensamento de Miguel Castro Caldas o melhor seria deixar Ibsen em repouso. Este aspecto acho-o, portanto, muito controverso, no mínimo.
Mais discutível ainda é a apoteose final com uma manifestação contra as maiorias, exortando que são as minorias (“os sábios”, como se diz) quem deve dirigir a sociedade. Ora nós sabemos que por vezes as maiorias se enganam, mas temos a certeza de que as minorias erram sempre, para qualquer lado que se voltem. Começa-se logo por duvidar de quem é sábio. Quem o define? Quem é o sábio? O que defende o que nós queremos? Depois, os sábios podem ser historiadores e filósofos que proclamam a hegemonia da raça ariana, um grupo de economistas de superior inteligência que defendem o neo-liberalismo, ou uns iluminados defensores da ditadura do proletariado, temos para todos os gostos. Polémico é, portanto, no mínimo, o espectáculo. Que começa, aliás, com uma orientação curiosa, abordando a vida em família e a situação da mulher, para depois enveredar por caminhos ínvios.
De resto, os intérpretes são excelentes, tão bons que nos custa fazer distinções, mas Sara Carinhas é empolgante, e a encenação de Cristina Carvalhal bem inventiva e saborosa, acompanhada a rigor pela equipa técnica e artística ao seu serviço. Seria um belo espectáculo se….

I.B.B.S.M, de Miguel Castro Caldas; Encenação: Cristina Carvalhal; Cenografia e figurinos: Ana Vaz; Adereços: Stephane Alberto; Desenho de luz: José Álvaro Correia; Desenho de som: Sérgio Delgado; Apoio ao movimento: David dos Santos; Fotografia: Susana Paiva; Produção executiva: Mafalda Gouveia; Interpretação: André Levy, David dos Santos, Inês Rosado, João Lagarto, Luís Gaspar, Manuela Couto, Sara Carinhas, Sílvia Filipe, Stephanie Silva, e ainda Berta Bustorff, Carlos Colaço, Carmo Gelpi, Dora Martinez Pinto, Erica Rodrigues, Irene Sofia Vaz, Maria Angelina Mateus, Maria Helena Falé, Marisa Costa, Miguel Brinca, Miguel Viegas, Rita Pascácio, Sandra Cristina Chambel e Xavier Faria Lopes.

Teatro da Trindade, até dia 14 de Julho. Classificação: M/16 anos. 

sábado, julho 07, 2012

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA 2012 (1)


 O MERCADOR DE VENEZA
de William SHAKESPEARE
Encenação de Ricardo PAIS
Muito interessante a versão de Ricardo Pais de “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare, espectáculo recriado em Almada, na abertura do seu 29º Festival, com base num outro, estreado em 2008, no Teatro Nacional São João no Porto. Plasticamente é um trabalho magnifico, sumptuoso na sua austeridade, todo ele passado num palco quase nu, com um chão que relembra um estilizado tabuleiro de xadrez, uma parede de fundo que por vezes se rasga para dar passagem à luz e a algumas figuras, e um jogo de cordas caídas do tecto que funcionam quase como um labirinto, por vezes musical. De resto, o que brilha é o guarda-roupa de Bernardo Monteiro, o jogo de luzes de Francisco Leal, e, sobretudo, o trabalho de actores, com dois notáveis protagonistas, Albano Jerónimo e João Reis, bem secundados por quase todo o restante elenco, Sara Carinhas, Pedro Penim, Lígia Roque, Pedro Frias, Ivo Alexandre, Maria João Pinho, André Gomes, André Albuquerque, Daniel Fialho, Eduardo Breda e João Farraia Pedro Manana.
A peça cruza o drama e a comédia, é violentamente anti-semita, imolando em cena um judeu avaro e ganancioso, que acaba vítima da sua mesquinhez, tal como era uso e costume no tempo de Shakespeare (1564-1616), e se voltou a tornar moda neste período anti-Israel. O trabalho de encenação de Ricardo Pais tem aspectos muito estimulantes, sobretudo na forma como entrelaça os universos de uma Veneza mercantil e pré-capitalista e de uma Belmonte quase bucólica, mas muito mais aparente que real. Há como que a introdução de um flashback que recorda do segundo acto situações do primeiro e, na globalidade, o efeito é inteligente, eficaz e extremamente sedutor, na sua delicadeza e significado.
Claro que o aspecto mais oportuno desta revisitação actual de “O Mercador de Veneza” é constituir uma curiosa reflexão sobre o poder e o dinheiro, as religiões (aqui a dualidade cristãos-judeus), a diferenciação de classes, mas particularmente sobre uma realidade bem actual (desde esse tempo): a finança a procurar multiplicar-se, não pelo trabalho, mas pela usura e a agiotagem. 
Encenação de Ricardo Pais; Tradução Daniel Jonas; Versão livre de Ricardo Pais e Daniel Jonas; Cenografia Pedro Tudela; Figurinos Bernardo Monteiro; Música Vitor Rua; Desenho de som Francisco Leal; Desenho de luz Nuno Meira; Assistente de encenação Manuel Tur; Voz e elocução João Henriques; Intérpretes Albano Jerónimo, João Reis, Sara Carinhas, Pedro Penim, Lígia Roque, Pedro Frias, Ivo Alexandre, Maria João Pinho, André Gomes, André Albuquerque, Daniel Fialho, Eduardo Breda e João Farraia Pedro Manana. Repõe no Teatro Municipal de Almada no início da próxima temporada.

quarta-feira, julho 13, 2011

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA 2011 - 3

 
A “Commedia dell’Arte” no cinema
 
Pode dizer-se que as relações entre o teatro e o cinema têm sido muito frequentes, desde o aparecimento do cinema, mas sobretudo, e compreensivelmente, desde o sonoro. Diga-se que nem sempre com bons resultados, pois se desde sempre o teatro foi considerado arte nobre, o cinema iniciou-se como divertimento de feira que foi buscar alguma legitimidade cultural ao adaptar, ou melhor dizendo “ilustrar”, peças de renome para este novo meio de expressão. Mas se o teatro sempre esteve de mãos dadas com o cinema, a verdade é que a “Commedia dell’ Arte” nunca despertou um verdadeiro entusiasmo entre os cineastas, com raras e honrosas excepções. A que se deve este divórcio, não se percebe totalmente, mas talvez se possa encontrar alguma explicação no facto da “Commedia dell’ Arte” ter algumas características que a afastam do cinema. Enquanto a “Commedia dell’ Arte” parte do fixo (texto e personagens) para a improvisação, o cinema parte da representação para a fixar num registo inalterável.
Sendo popular e vivendo do improviso, itinerante e taxativa nas suas personagens típicas, a “Commedia dell’ Arte” não parece enquadrar-se bem no que costuma ser “a adaptação cinematográfica de uma peça de teatro”. Não existindo propriamente peças, antes temas que as personagens vão desenvolvendo ao longo de cada representação, muitas vezes interagindo directamente com o público, difícil será haver adaptações ao cinema, com excepção de uma ou outra obra de Molière ou Goldoni.
Mas o tom e o espírito da “Commedia dell’ Arte” não deixou de estar patente, e ao seu jeito ser homenageado, nalguns títulos inesquecíveis da sétima arte. Desde logo em “Os Rapazes da Geral” (Les Enfant du Paradis), de Marcel Carné (França, 1945), com Arletty, Jean-Louis Barrault, Pierre Brasseur, onde o tema permitia abordar a Ocupação Nazi da França, o que transformou os três anos de rodagem quase clandestina numa verdadeira epopeia. Obra-prima incontestável, que Truffaut um dia disse trocar a realização dos seus trinta e tal filmes pela possibilidade de assinar este, acaba por ser um hino ao amor e ao teatro. Como se diz na obra, “Les Enfants du Paradis” ne sont pas beaux, ils sont heureux, tout simplement ».
Outra obra-prima chama-se “A Comédia e a Vida” (Le Carrosse d’ Or), de Jean Renoir (França, 1953), com Anna Magnani, magnífica reconstituição da vida de uma companhia teatral por terras da América Latina, inspirada livremente em “Carrosse du Saint Sacrement”, de Prosper Mérimée. Renoir lança-se num retrato voluptuoso e feérico, visualmente esplendoroso, tendo como base o teatro e, sobretudo, a “Commedia dell’ Arte” com as suas convenções e liberdade, interpelando a sempre sugestiva dualidade entre a arte e a vida. Anna Magnani resplandece, num papel feito à sua medida.
“Scaramouche”, de George Sidney (EUA, 1952), com Stewart Granger, Janet Leigh e Eleanor Parker, é outro clássico que não se pode esquecer. Integrando-se no género do filme de aventuras, de capa e espada, tão popular nos anos 50, “Scaramouche” não deixa de evocar uma companhia de teatro da “Commedia dell’ Arte”, sendo a personagem central um epígono de uma das figuras típicas desse género teatral.
“Cyrano de Bergerac”, do francês Jean-Paul Rappeneau (França, 1990), com Gérard Depardieu, Anne Brochet e Vincent Perez, é seguramente a melhor versão da vida aventurosa do célebre poeta e actor Hercule-Savinien de Cyrano de Bergerac (6.III.1619 – 28.VII.1655), que Edmond Rostand tornaria imortal com a sua peça de 1897. Anteriormente já Mel Ferrer, nos EUA, havia interpretado o papel, numa obra homónima de 1950. O mesmo herói inspirara “Roxanne”, que Fred Shepsi (EUA, 1987) actualizaria para os nossos dias, numa versão curiosa, interpretada por Steve Martin e Daryl Hannah.
Molière conta igualmente com duas criações da sua vida que se cruza obviamente com a “Commedia dell’ Arte”. Uma dirigida pela encenadora Ariane Mnouchkine (França, 1978), que depois de montar o seu espectáculo nos palcos franceses o levou ao cinema com igual sucesso. Interpretado por Philippe Caubère, Marie-Françoise Audollent e Jonathan Sutton, este “Moliére” é indispensável para quem goste de cinema e teatro. Uma nova obra sobre o mesmo dramaturgo surgiu em França em 2008, com assinatura de Laurent Tirard e Roman Duris no papel de Molière.
Para os interessados, pode ainda citar-se algumas incursões operáticas. “Cyrano de Bergerac”, ópera de Fraco Alfano, com libreto de Henri Cain, segundo Edmond Rostand, de que conhecemos com a interpretação de Roberto Alagna (França, 2005) e a celebérrima “Cosi Fan Tutti”, de Mozart, ópera bufa em dois actos, numa curiosa versão do “Teatro de Marionetes de Salzburgo”, com a Orquestra Sinfónica de Londres, apresentação de Peter Ustinov, com Teresa Berganza e Pelar Lorengar.

sexta-feira, julho 08, 2011

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA 2011 - 1

 
Notas rápidas

1. FÁBULA BUFA (Fabula Buffa), a partir de Dario Fo, com Ciro Cesarano e Fabio GORGOLINI, e a colaboração artística de Carlo Boso.

Inauguração em grande da 28ª edição do Festival de Teatro de Almada, com a apresentação de ”Fábula Bufa”, a partir de um belíssimo texto de Dario Fo, que recria, em termos de actualidade, a estrutura cénica da “Commedie dell’Arte”. Dois excelentes actores, Ciro Cesarano e Fabio Gorgolini, que contaram com a colaboração artística de Carlo Boso, formado no Piccolo Teatro di Milano, onde trabalhou com Peppino de Filippo, Giorgio Strehler e Ferruccio Soleri, e encenou mais de quarenta obras. Boso foi director do Carnaval de Veneza entre 1983 e 1994 e dirigiu companhias em Veneza, Milão e Treviso. Em 2004, fundou nos arredores de Paris, nos estúdios criados em 1904 por Charles Pathé, a Académie Internationale des Arts du Spectacle. São dele estas palavras sobre “Fábula Bufa”: “quisemos dar vida a uma forma espectacular destinada a acordar a esperança numa sociedade enfraquecida por um vazio existencial e relembrar, ainda assim, que o teatro, sob todas as suas formas, mesmo as mais burlescas, permanece uma arma poderosa”.
O espectáculo, que conta apenas com dois actores em cena, recria um burlesco de enganos onde um cego e um paralítico invocam o milagre da cura, para depois se revoltarem contra ela, “pois assim terão de trabalhar” e ninguém lhes dá esmolas. Jesus é evocado na cruz e vilipendiado pelos pedintes, mas é dele a última palavra de esperança numa sociedade nada pacífica, mas onde o lugar do actor e do cómico permanece inalterável e essencial para manter o alento do cidadão comum e lhe dar o conforto de uma alegria.
Segundo a documentação do Festival, “Ciro Cesarano e Fabio Gorgolini, formados por Carlo Boso na sua Escola de Montreuil e licenciados em História do Teatro pela Universidade de Bolonha, criaram em Paris, em 2006, a companhia Teatro Picaro com o objectivo de encontrar uma linguagem teatral capaz de conciliar a herança tradicional com as temáticas contemporâneas na concretização de um teatro simultaneamente popular, social, burlesco e poético”.  Conseguem-no plenamente com um trabalho de altíssima qualidade, quer ao nível da palavra, quer no do gesto, da pantomima ou da acrobacia.
Um espectáculo para recordar e que introduziu da melhor forma o tema central da edição deste ano do Festival de Teatro de Almada, que presta homenagem à “Commedie dell’ Arte”-


2. SANTA JOANA DOS MATADOUROS, de Bertolt Brecht, com encenação de Bernard Sobel Colaboração artística de Francis Seleck e Eric Castex

Bernard Sobel, encenador francês de créditos firmados, regressou ao Festival de Almada para dirigir um espectáculo com interpretação de alunos finalistas da Escola Superior de Teatro e Cinema e alunos recém-formados da ACT – Escola de Actores. Uma experiencia inédita e particularmente sugestiva. Creio que não inteiramente lograda, mas ainda assim muito estimulante, tanto mais que deu a conhecer uma nova geração de aspirantes a actores portugueses, onde se vislumbra muita qualidade para futuros voos.
Brecht é um dramaturgo genial, criador de um teatro didáctico de intenções declaradamente comunistas, mas que ultrapassa esse circunstancialismo histórico com a grandeza da sua palavra, vigorosa e poética, e pela clareza das suas intrigas, que procuram desmontar jogos de poder e de interesses criados. As lutas de classe entre os poderosos e os explorados do mundo podem ser acusadas de algum esquematismo, mas são fascinantes de acompanhar. “Santa Joana dos Matadouros” não será das suas obras-primas (“Mãe Coragem e seus filhos”, “O Círculo de Giz Caucasiano, “A Alma Boa de Tzé Chuan”, “A Mãe” ou “Ascensão e Queda da Cidade de Mahagonny”), mas é muito interessante, sobretudo por trazer para o palco um tema violento e agressivo como o da exploração do comércio da carne, numa Chicago em plena crise de 1929.
Acontece que a forma escolhida por Bernard Sobel para encenar este espectáculo, um longo e largo corredor no meio de duas bancadas de espectadores, por onde evoluem duas dezenas de actores, que vão trocando de papéis, não terá sido a melhor para clarificar as intenções da peça. Mas revela-se estimulante como experiência, e revela um bom conjunto de promessas.
Santa Joana é uma jovem que ingressou no Exército de Salvação para aliviar a miséria dos trabalhadores dos matadouros de Chicago, e que acaba vítima das contradições de um capitalismo selvagem que só olha ao lucro.
Citando fontes do Festival, Bernard Sobel (n. 1935) é o criador do Teatro de Gennevilliers, uma cidade da periferia de Paris, onde desenvolveu a sua acção de director e encenador entre 1963 e 2006. Foi em 1963, depois de fazer a sua formação no Berliner Ensemble, então dirigido por Helene Weigel, viúva de Brecht, que Sobel se instalou em Gennevilliers, onde começou por fundar o Ensemble Théâtral de Gennevilliers (ETG), um grupo de jovens actores e investigadores que adoptou um estatuto amador, cuja intenção era contribuir para o nascimento de uma forma teatral diferente das que existiam nessa época. Entre os autores que apresentou, contam-se Vichnevski, Koplov, Volokhov, Erdman, Heiner Müller, Kleist, Schiller, Lessing, Lenz, Heinrich Mann, Grabbe e, naturalmente, Brecht. Mas é também um especialista de Molière, de quem encenou várias obras, e o seu repertório inclui muitos outros autores clássicos e modernos, como Eurípedes, Marlowe ou Sarah Kane. Após deixar a direcção do Teatro de Gennevilliers, por ter atingido o limite de idade, Sobel fundou a sua própria companhia, tendo dirigido textos de Olecha, Mayenburg e Kleist.

Intérpretes: Alice Medeiros, Ana Cris, Bartolomeu Paes, Carlos Gomes, Catarina Rosa, Daniel Fialho, Diogo Tavares, Eduardo Breda, Elisabete Pedreira, Joana Campos, Joana de Verona, José Mata, José Redondo, Mafalda Jara, Marco Trindade, Rita Miranda, Sara Reis, Sofia Vitória, Tomás Tojo, Vera Barreto; Tradução: Manuel Resende; Cenário: Pierre Setbon, Guilherme Frazão; Figurinos: Mina Ly; Música e canções Olivier Bernaux; Desenho de luz: Guilherme Frazão; Som: Bernard Vallery; Fotografia: Rui Carlos Mateus; Ass. de figurinos: Bárbara Pinto, Inês Pereira, Lydia Neto; Ass. de dramaturgia: Miguel Curiel, Nuno Pontes; Duração: 2H40.


3. MOI, RODIN (Eu, Rodin), de Patrick Roegiers, com encenação de Mihai Maniutiu. Criação do Teatro Nacional Radu Stanca Sibiu (Roménia).

As relações entre Rodin e a sua discípula e amante Camille Claudel estiveram na origem de “A Paixão de Camille Claudel”, um belíssimo filme de Bruno Nuytten, com Gérard Depardieu e Isabelle Adjani. Soube agora que, em 2002, o Museu Guggenheim de Bilbau convidou o coreógrafo belga Marc Bogaerts para criar uma performance com interpretação de Esther Cloet. Um ano depois, o dramaturgo francês Patrick Roegiers juntou-se ao projecto, escrevendo o monólogo “Eu, Rodin”. A fusão da dança com as palavras deu-se no Teatro Nacional Radu Stanca de Sibiu, sob a direcção do encenador romeno Mihai Maniutiu, com interpretação de Constantin Chiriac.
Nada de mais decepcionante. A peça é um monólogo sem qualquer dramaticidade. A encenação é antiquada, obsoleta, de um gosto estético deprimente. A representação tonitruante e o bailado que a acompanha um apêndice sem graça nem convicção. “Eu, Rodin” afirma-se “um espectáculo sobre o amor e o poder, sobre a criação e a destruição, que coloca em cena, e em confronto, a escultora Camille Claudel (1864-1943) e o seu mestre e paixão, o escultor Auguste Rodin (1840-1917). Trata-se de uma criação em que Camille “dança” a sua relação com Rodin, e em que este “fala” através de um monólogo. Infelizmente, para mim, não passou de uma enorme maçada apesar de só durar uma hora.

Intérpretes: Constantin Chiriac, Esther Cloet; Tradução: Anca Maniutiu; Cenário: Iuliana Vîlsan, Mihai Maniutiu; Figurinos: Iuliana Vîlsan; Coreografia: Marc Bogaerts; Língua: Romeno, legendado em português; Duração: 1H00.


4. THE JEW (O Judeu), a partir de “The Jew of Malta”, de Christopher Marlowe; criação colectiva de Mundo Perfeito | Dood Paard | Maria Matos Teatro Municipal (Lisboa, Amesterdão).

Deve ser uma heresia o que vou dizer, dado que muitos consideram “O Judeu de Malta” “uma das obras-primas da dramaturgia universal”, Mas a verdade é que acho esta peça de um racismo aviltante, de um anti semitismo sem desculpa, só comparável ao “Judeu Juss”, filme aberrante do período nazi. Christopher Marlowe (1564-1593) é um dos grandes dramaturgos do período isabelino, contemporâneo de Shakespeare. Pode ter sido um mestre no sec. XVI, mas encenar esta peça no sec. XXI não me parece muito sensato. Mesmo que a mesma tente actualizar a mensagem (o que se calhar ainda a torna mais odiosa).
Retirando este aspecto, a encenação do colectivo é magnífica com um primeiro tempo em que, à vista dos espectadores, se constrói todo o cenário, sobrecarregando-o de elementos dispersos até à exaustão, para num segundo momento, se assistir à sua desagregação. Numa peça de mentiras e embustes, a relação entre o texto e a sua encenação é perfeita, ainda que à primeira vista o possa não parecer. Os actores são excelentes, quase todos portugueses a debitarem um texto inglês. Fica o senão, essencial, do significado racista desta história de ganância e vingança que se situa em Malta, ponto de cruzamento de religiões, de culturas e entreposto de rotas de comércio.
Parece ter estado na origem de “O Mercador de Veneza”, de William Shakespeare.
Socorrendo-me das notas do Festival, “Mundo Perfeito”, companhia que nasceu em 2003, tem apresentado o seu trabalho na Europa, Médio Oriente e América do Sul. Além de promover o trabalho artístico de Tiago Rodrigues, que partilha a direcção com Magda Bizarro, esta companhia tem apostado na nova dramaturgia, na criação colectiva e nas colaborações entre artistas portugueses e internacionais. Quanto ao grupo “Dood Paard” (em português, “Cavalo Morto”) foi fundado em Amesterdão em 1993. O seu trabalho, frequentemente politizado e de tom provocatório, inclui dramaturgos como Ésquilo, Shakespeare, Oscar Wilde, Edward Albee, Arthur Schnitzler ou Thomas Bernhard. Sem director, o trabalho colectivo e a autonomia são as principais características deste grupo.

Actores e criadores do espectáculo: Carla Maciel, Gillis Biesheuvel, Gonçalo Waddington, Kuno Bakker, Manja Topper, Tiago Rodrigues e ainda os técnicos André Calado, Julian Maiwald, René Rood; Adaptação: Paul Evans; Tradução: Joana Frazão; Comunicação: Raymond Querido; Produção; Dood Paard Marten Oosthoek; Produção: Mundo Perfeito Magda Bizarro; Residência artística: Espaço Alkantara; Língua: Inglês, legendado em português; Duração: 2H00.

quarta-feira, julho 21, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS,16

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Casimiro e Carolina, de Odon von Horvath
“Casimiro e Carolina”, peça escrita por Odon von Horvath, em 1931, foi apresentada em Portugal, ao que creio pela primeira vez, em 1976, pelo Teatro da Cornucópia, numa excelente encenação de Luís Miguel Cintra, Cristina Reis e Jorge Silva Melo. A versão agora vista, com encenação de Emmanuel Demarcy-Mota (filho da actriz portuguesa Teresa Mota e do dramaturgo e encenador francês Richard Demarcy, e actualmente director de um dos mais prestigiados espaços teatrais europeus, o Théâtre de la Ville, em Paris), é bastante diferente, mas igualmente muito estimulante.
A peça, escrita entre 1931 e 1932, oferece um retrato da época conturbada que então se vivia, resultado da grande crise económica de 1929 (o que acaba por ser uma mais valia para a sua muito actual revisitação). O cenário é uma feira da cerveja, na Alemanha, numa altura em a austeridade era já uma realidade e Hitler se perfilava no horizonte. A louca euforia é ainda a dos anos 20, mas a angústia apossa-se já de todos, o desemprego e a degradação dos valores, a corrupção e a violência começam a explodir, pouco falta para o II Reich impor as suas regras a uma sociedade manietada pela impotência em transformar democraticamente a ordem estabelecida. O “ovo da serpente” era acalentado diariamente por disputas e agressões. Os jovens divertiam-se, bebiam e procuravam esquecer a dureza da jornada, enquanto alguns conspiravam na sombra para instaurar uma das mais brutais ditaduras da história da humanidade. Collette Godard, crítica teatral, fala de uma “lucidez gelada” da parte de Horvath, que “põe em cena um zoo humano prestes a mergulhar na inconsciência e na irresponsabilidade, antes de se deixar submergir pelo nazismo que, dois anos mais tarde, conquista o poder.”
Casimiro e Carolina são dois jovens que se amam e que a agrura da vida separa. Emmanuel Demarcy-Mota fala da “sinceridade deste amor que se desmorona” na barafunda geral, nos protestos inconsequentes, na violência que é despoletada com intuitos muito precisos. É esta humanidade à deriva, por irresponsabilidade própria, e por manipulações diversas, que irá dar origem à nova ordem que aí vem e que muitos saúdam sem pressentirem (ou sabendo muito bem) o que daí adviria.
Imaginativa, criativa, misturando a frivolidade e a inconsciência, cheia de momentos magníficos de inspirada encenação e cenografia (desde logo o início, com a estrutura metálica de uma bancada a descer da teia do teatro e colocando em palco o elenco, desenhado em sombras na parede de fundo, passando por muitas outras, intercalando números musicais e cenas de um dramatismo intenso, a cervejaria, o cavalo de ferro, etc.), “Casimiro e Carolina” justifica bem o interesse do muito público que aplaudiu de pé as representações, bem defendidas por um grupo de actores maioritariamente jovem, mas eficaz.

Odon von Horvath, que nasceu em 1901, em território do império austro-húngaro (agora croata) e morreu em Paris em 1938, é um dos mais importantes dramaturgos de língua alemã do século XX. Autor de numerosas peças de teatro e de vários romances, von Horvath viveu em Berlim a partir de 1922 e, em 1931, com “Contos da floresta de Viena”, ganhou o prestigiado Prémio Kleist. Em 1933, com a chegada ao poder dos nazis, foi para Viena e, depois, para vários locais da Europa. Em 1938, a 26 de Maio, chegou a Paris, onde se instalou. Mas acabou por morrer tragicamente alguns dias depois – com efeito, a 1 de Junho, e quando passeava nos Champs Elysées, uma tempestade derrubou um castanheiro que caiu sobre ele, mesmo em frente ao Théâtre Marigny, e matou-o. A cultura popular, a política e a história são os temas centrais da sua obra. Escreveu, ainda, entre outras, “Meurtre dans la rue des Maures » (1923), « Le funiculaire » (1928), « Sladek, soldat de l’Armée Noire » (1929), « Foi, amour, espérance » (une petite danse de la mort) e « Don Juan retourne de guerre » (1935).
Emmanuel Demarcy-Mota, que nasceu nos arredores de Paris em 1970, é filho da actriz portuguesa Teresa Mota e do dramaturgo e encenador francês Richard Demarcy. Iniciou a sua actividade teatral em 1989, criando um grupo de teatro no Liceu Rodin, em Paris, onde teve oportunidade de criar espectáculos de autores como Luigi Pirandello, Frank Wedekind e Nicolai Erdman. Depois de ter feito estudos de filosofia e teatro, fez o seu primeiro trabalho profissional no Théâtre de La Commune d’Aubervilliers, em 1992 – “A história do soldado, de Stravinski-Ramuz”. Em 1999, recebeu o Prémio Revelação do Sindicato Francês da Crítica.
Em 2001 foi nomeado director da Comédie de Reims, que dirigiu até 2007, altura em que passou a dirigir um dos mais importantes teatros de Paris – o Théâtre de la Ville. Em 2003, a apresentação de “Seis personagens à procura de um autor”, de Pirandello, com encenação de Emmanuel Demarcy-Mota, constituiu um dos momentos altos do Festival de Almada desse ano. Em 2007 encenou em Portugal, no Teatro Nacional D. Maria II, a peça “Peines d’amour perdues”, de Shakespeare, em co-produção com a Comédie de Reims e com actores portugueses e franceses.

Casimiro e Carolina, de Odon von Horvath
Tradução: François Regnault; Encenação: de Emmanuel Demarcy – Mota; Théâtre de La Ville, Paris; Intérpretes: Alain Libolt, Ana das Chagas, Céline Carrère, Charles-Roger Bour, Constance Luzzati, Cyril Anrep, Elodie Bouchez, Gaëlle Guillou, Gerald Maillet, Hugues Quester, Jauris Casanova, Olivier Le Borgne, Pascal Vuillemot, Sandra Faure, Sarah Karbasnikoff, Stéphane Krähenbühl, Thomas Durand, Walter N’Guyen ; Assist. de encenação: Christophe Lemaire; Cenografia e luz: Yves Collet; Ambiente sonoro: Jefferson Lembeye; Figurinos: Corinne Baudelot; Caracterização: Catherine Nicolas; Adereços: Clémentine Aguettant; Vídeo: Mathieu Mullot; Trabalho vocal: Maryse Martines; Escultura: Anne Leray; Teatro Nacional D. Maria II – Lisboa Sala Garrett; Duração: 1H40; Classificação: M/ 12.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS,15

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Ode Marítima, de Fernando Pessoa

Certamente um dos momentos mais aguardados no Festival de Teatro de Almada 2010, e também dos mais polémicos. Com tradução de Dominique Touati, encenação de um dos mais falados encenadores da actualidade em língua francesa, Claude Régy, e interpretado por um actor suíço de grande reputação, Jean-Quentin Châtelain, esta “Ode Marítima” é seguramente um ponto alto pelo rigor da encenação, atenta ao mais ínfimo pormenor, das luzes à ambiência cromática, da austeridade do cenário ao rigor da quase passividade do actor.
O cenário é deslumbrante no seu minimalismo. Um vasto ciclorama, de uma matéria que faz lembrar uma superfície metálica, em forma de onda, que desce desde a teia até ao proscénio, formando uma imensa curva e evocando oceanos e mares presentes e sonhados, é apenas interrompido por uma breve plataforma que recorda um cais. É aí que Jean-Quentin Châtelain nos irá oferecer, durante cerca de duas horas, e numa quase imobilidade corporal, a sua versão do magnífico poema de Pessoa. O intimismo é total, o discreto foco sobre o actor apenas sublinha a sua presença. As palavras jorram num discurso que alterna vários registos. Há quem ache sublime a forma como o intérprete nos restitui esta “Ode Marítima”. Aceito a magnificência da encenação, não aderi à interpretação. Erros meus, má fortuna, mas não me senti tocado pela dicção do actor. Talvez a localização imprópria (foi uma das raras vezes em que a tão grande procura de bilhetes me obrigou a ficar numa das últimas filas do vasto auditório de Almada, tornando muito deficiente a visão e a audição) tenha contribuído para essa falha.
De uma maneira ou de outra, a verdade é que a releitura da “Ode Marítima”, em versão portuguesa, entregue à porta do teatro, foi outra, depois do espectáculo.
Claude Régy (Nîmes, 1923), encenador com uma vastíssima carreira na área do teatro, é um dos nomes maiores da encenação em França e na Europa, tendo contribuído para a renovação do papel do actor e da estética teatral contemporânea.
Na adolescência, a leitura de Dostoievski “agitou-o, como uma machadada que quebra o mar gelado”. Depois de estudar Ciências Políticas, estudou arte dramática com Charles Dullin e, depois, com Tania Balachova.
Em 1952, a sua primeira encenação foi a criação, em França, de Dona Rosita a solteira, de Federico García Lorca. Rapidamente se desviou do realismo e naturalismo psicológicos, da mesma forma que renunciou à simplificação do teatro dito “político”. Nos antípodas do entretenimento, decidiu aventurar-se em direcção a outros espaços de representação, outros espaços de vida: os espaços perdidos.
Foram os textos dramáticos contemporâneos – textos que fez descobrir mais frequentemente – que o guiaram ao encontro das experiências-limite, onde se dissipam as certezas sobre a natureza do real.
Assistente durante alguns anos de André Barsacq no Théâtre de L’Atelier, Claude Régy encenou ao longo da sua vida teatral obras de autores como Heinrich von Kleist, Harold Pinter, Margueritte Duras, Nathalie Sarraute, Edward Bond, Peter Handke, Botho Strauss, Maurice Maeterlinck, Gregory Motton, David Harrower, Jon Fosse, Sarah Kane e Arne Lygre.
Dirigiu actores e actrizes como Philippe Noiret, Michel Piccoli, Delphine Seyrig, Michel Bouquet, Jean Rochefort, Madeleine Renaud, Pierre Dux, Maria Casarés, Alain Cuny, Pierre Brasseur, Michael Lonsdale, Jeanne Moreau, Gérard Depardieu, Bulle Ogier, Christine Boisson, Valérie Dréville, Isabelle Huppert, entre outros. (Nota do FTA).

Jean-Quentin Châtelain é um prestigiado actor suíço, formado em Arte Dramática em Genebra e na Escola do Teatro Nacional de Estrasburgo, e com uma longa carreira na área da interpretação.
Representou importantes textos de autores tão relevantes quanto Shakespeare, Dostoievski, Heiner Müller, Botho Strauss, Fritz Zorn, Musset ou Eugene O’Neill. Fez numerosos trabalhos para cinema e televisão, tendo nomeadamente sido dirigido por realizadores como Andrzej Wajda, Robert Kramer e Alain Tanner.
Jean-Quentin Châtelain é um colaborador habitual das criações teatrais de Claude Régy. Tendo trabalhado juntos pela primeira vez em 1988, esta Ode Marítima é a sexta vez que encenador e autor se encontram. Além de Claude Régy, trabalhou ainda com alguns dos mais destacados criadores da cena francesa como Joël Joanneau, Bruno Bayen, André Engel, Bernard Sobel, Jorge Lavelli e Jacques Lassalle. (Nota do FTA).

Ode Marítima, de Fernando Pessoa
Encenação de Claude Régy, Les Ateliers Contemporains, Paris; Co-Produção: Festival d’Avignon, Théâtre Vidy-Lausanne, Théâtre de la Ville, Théâtre des Treize Vents – CDN de Montpellier-Languedoc-Roussillon; Intérprete: Jean-Quentin Châtelain; Texto francês (Editions La Différence): Dominique Touati; Cenário e figurinos : Sallahdyn Khatir; Desenho de luz: Rémi Godfroy, Sallahdyn Khatir, Claude Régy; Som: Philippe Cachia; Assistente de encenação: Alexandre Barry; Maquinistas: Emilie Larrue, Zvezdan Miljkovic; Direcção de produção: Bertrand Krill; Duração: 1H50; Classificação: M/ 12; Teatro Municipal de Almada – Almada Sala Principal.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS,14

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“A Balada do Amor e da Morte do Alferes Cristóvão Rilke”
e “Façade, an Entertainment”
Curioso recital para leitura de textos e música. Os textos são de William Walton e Viktor Ullmann, respectivamente, e muito contrastantes entre si. O primeiro foi escrito antes do autor ser enviado para Auschwitz, onde morreu (1944). O segundo, uma obra vanguardista, escrita em 1921, e encenada dois anos depois, pressupunha uma aproximação diversa. A experiência vivida no Auditório Fernando Lopes-Graça, no Fórum Romeu Correia, em Almada, produzida especialmente para este festival, foi muito curiosa, sem deslumbrar. Os textos são interessantes, a encenação sóbria, o trabalho de actores e músicos de sublinhar. Entre o dramatismo romântico e o esteticismo dândi.

Viktor Ullmann (1898-1944) escreveu “Die Weise von Liebe und Tod” (1944) em Terezin, onde se encontrava prisioneiro. Estaria provavelmente a trabalhar nesta sua última obra quando foi enviado para Auschwitz, onde foi morto. Escrita para piano e recitante, o compositor não chegou a ter tempo para completar a sua orquestração. A música, apesar da sua modernidade, conserva-se fiel aos propósitos dos melodramas do século anterior: ora cria o ambiente e a cor justa para a declamação, ora ilustra sonoramente os acontecimentos evocados nos poemas em prosa de Rilke. (Nota do FTA).

William Walton (1902-1983) escreveu “Façade”, em 1921, e originou um pequeno “succés de scandale” quando da sua primeira audição pública em 1923, chamando a atenção para o jovem autor Criada como um divertimento, uma espécie de contraponto burlesco ao “Pierrot lunaire”, de Schönberg, para os salões dos Sitwell, de quem era amigo íntimo, “Façade” opõe ou justapõe, executada por 6 músicos, uma música ora melancólica ora jovial, impregnada de todas as «modas» dos anos 20. Através desse desencontro entre música e texto realça o carácter absurdo dos poemas de Edith Sitwell, mais preocupados com o ritmo e o som das palavras do que com o seu sentido. (Nota do FTA).

A Balada do Amor e da Morte do Alferes Cristóvão Rilke; Intérpretes (recitantes): Luís Madureira, Teresa Gafeira; Intérprete (piano): João Paulo Santos
Façade, an entertainment; Intérprete (recitante): Luís Madureira; Flauta: Nuno Ivo Cruz; Clarinete: Francisco Ribeiro; Saxofone: José Massarrão; Trompete: Pedro Monteiro; Violoncelo: Irene Lima; Percussão: Elizabeth Davis; Direcção musical: João Paulo Santos;
Produção: Festival de Almada; Duração: 1H30 (com intervalo); Classificação: M/ 12; Fórum Romeu Correia – Almada Auditório Fernando Lopes-Graça

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS,13

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“Cabaret Hamlet”,
segundo William Shakespeare
Alguns dos maiores encenadores mundiais estiveram presentes no Festival de Teatro de Almada, permitindo assim tomar o pulso ao que de mais importante e significativo se vai criando pelos palcos internacionais. Entre esses, Matthias Langhoff ocupa destacado lugar. O seu “Cabaret Hamlet . . .” é uma magnífico espectáculo que, tendo por base a peça de William Shakespeare (inteiramente reproduzida), a toma como ponto de partida para algo simultaneamente igual e diferente, recriando-a de forma muito imaginativa, partindo do cabaret alemão dos anos 20 e 30, passando por outras propostas, desde o Globo shakespeariano e a “Comedia dell’Arte” até aos entremezes populares. O palco não existe na sua formulação tradicional, mas sim dividido por várias áreas de representação, unidas por um estrado que invade o território do público. Os actores evoluem com um enorme à vontade por todo o espaço e o texto de William Shakespeare é trabalhado de forma muito liberal, entrecortado por canções, músicas, repetições, comentários, e mesmo alguma troca cronológica de tiradas. O que leva a representação para quatro horas e meia de duração, não cansativas, mas, pelo contrário, sugestivas e fascinantes.
Matthias Langhoff decidiu intitular este “Cabaret Hamlet” com uma nova designação: “En manteau rouge, le matin traverse la rosée qui sur son passage paraît du sang. Ou Ham. and ex by William Shakespeare”. Matthias Langhoff, que se formou no Berliner Ensemble e foi discípulo de Heiner Müller e admirador incondicional de Bertolt Brecht, tem por lema a ideia de “inversão” e de “organização do escândalo” (diz ele: “o teatro deve revelar o escandaloso e o obsceno que o mundo se esforça por esconder”). A sua leitura de “Hamlet” só pode ser provocadora a vários níveis. Começa logo por Hamlet ser interpretado por um actor (François Chattot, brilhante, diga-se), com mais de 60 anos, e Gertrud, a sua mãe na peça, não ter mais do que metade dessa idade (a igualmente notável Emmanuelle Wion). Mas toda a encenação obedece a este jogo irónico e subversivo, mantendo o essencial de Shakespeare, mas motivando novas abordagens, e sobretudo o efeito lúdico da novidade que obriga o espectador a uma atenção constante. Há também uma herança expressionista não negada, mas o todo afirma-se pela coerência, pela diversão simultaneamente popular e erudita, pelo gozo lúdico da mescla de registos. Cenários magníficos, actores excepcionais no seu conjunto, fazem de “Cabaret Hamlet” um dos pontos altos desta maratona teatral que teve Almada como principal destino (apesar deste espectáculo ter sido montado, igualmente de forma muito subversiva em relação ao espaço escolhido, o CCB, em Lisboa).
Matthias Langhoff entrou muito jovem para o Berliner Ensemble, de que foi co-director em 1992-1993, trabalhando também na Volksbühne. Apresentou as suas criações de Berlim a Barcelona, de Paris a Avignon, de Moscovo ao Epidauro, na Grécia, mudando constantemente de palcos e de público (foi um dos principais encenadores da obra de Heiner Müller, de quem estreou várias peças). De concepções nem sempre consensuais, alia rigor e um humor expressionista herdado do primeiro Brecht, criando uma linguagem imediatamente reconhecível, na qual a inovação dramatúrgica se alia a um acerado olhar político e estético, que combate qualquer espécie de vulgaridade ou repetição de lugares-comuns. A apresentação em 2009, no Festival de Almada, de “Dieu comme patient...”, de Lautréamont, com encenação de Matthias Langhoff, constituiu um dos momentos inesquecíveis da história do Festival de Almada.

François Chattot é um dos melhores actores franceses da actualidade. Estudou na Escola do Teatro Nacional de Estrasburgo (entre 1974 e 1977), trabalhou com grandes encenadores, como Jean-Louis Hourdin, Matthias Langhoff, Jean Jourdheuil, Jean-François Peyret e Jacques Nichet, em textos de primeira água, de autores tão diversos como Shakespeare (Rei Lear, também sob direcção de Matthias Langhoff), Thomas Mann, Rainer Werner Fassbinder, Bernard- Marie Koltès ou Valère Novarina. Foi actor da Comédie-Française, onde estreou “A praça dos Heróis”, de Thomas Bernhard. Com uma sólida carreira cinematográfica, foi dirigido por grandes realizadores franceses – em Parlez-moi d’amour, de Sophie Marceau, por exemplo –, destacando-se o filme que acaba de protagonizar Les aventures extraordinaires d’Adèle Blanc-sec, de Luc Besson.
O público do Festival de Almada teve oportunidade de apreciar este excelente actor já por duas vezes: a primeira interpretando “À espera de Godot”, de Beckett, com encenação de Luc Bondy (2000), e, em 2003, com direcção de Jacques Nichet, em “Combate de negro e cães”, de Bernard-Marie Koltès. (Notas FTA).

“Cabaret Hamlet”, segundo obra de William Shakespeare; Tradução Irène Bonnaud; Encenação de Matthias Langhoff, Théâtre Dijon-Bourgogne – Cdn; Dijon, França; Co-produção: Odéon-Théâtre de l’Europe, Théâtre de artrouville-CDN, Théâtre National de Strasbourg, Espace Malraux-Chambéry; Intérpretes Agnès Dewitte, Anatole Koama, Charlie Nelson, Delphine Zingg, Emmanuelle Wion, François Chattot, Frédéric Kunze, Gilles Geenen, Jean-Marc Stehlé, Marc Barnaud, Osvaldo Caló, Patricia Pottier, Patrick Buoncristiani, Philippe Marteau, Tobetobe-Orchestra Antoine Berjeaut Antoine Delavaud, Brice Martin, Jean-Christophe Marq, Osvaldo Calo; Cenário Matthias Langhoff; Telões : Catherine Rankl; Figurinos : Arielle Chanty; Desenho de luz : Frédéric Duplessier; Música: Olivier Dejours; Coreografia: Gladys Massenot; Centro Cultural de Belém – Lisboa Grande Auditório; Duração: 4H30 (com intervalo); Classificação: M/ 12.

terça-feira, julho 20, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 12ª

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Uma boa recordação de Charlotte Rampling

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS,12

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Yourcenar/Cavafy,
de Marguerite Yourcenar e Constantin Cavafy

Um dos momentos mais aguardados do Festival de Teatro de Almada deste ano foi seguramente “Yourcenar/Cavafy”, o espectáculo que trouxe até nós Charlotte Rampling, num encontro literário e poético (acompanhado por música de guitarra) entre o poeta grego Constantin Cavafy e a romancista Margueritte Yourcenar, que o descobriu e o deu a conhecer à Europa.
De Cavafy disse a escritora: “É um dos maiores, de qualquer forma o mais subtil, talvez o mais novo, e certamente o mais inspirado pela inesgotável substância do passado”. Margueritte Yourcenar foi a primeira a traduzir para francês as obras deste poeta e manteve com ele uma importante correspondência. Desaparecido cedo, nunca se conheceram em vida.
“Yourcenar/Cavafy”, com concepção de Jean-Claude Feugnet e cenário e figurinos de Lambert Wilson, procurava entrelaçar textos de uma e de outro, mas o resultado final não é muito convincente, nem de um ponto de vista literário, nem teatral. Salva a honra do convento o talento natural de Charlotte Rampling, com uma postura no palco de uma elegância e sobriedade inigualáveis, e com uma fabulosa dicção que transformava cada frase num prazer para o espectador. Toda a “entourage” não se encontrava à altura dessa mulher que, todavia, explode melhor no ecrã e se tem mostrado, ao longo de uma invulgar carreira cinematográfica, como um verdadeiro animal de cinema, com uma fotogenia absolutamente surpreendente, quer se fale dos seus tempos de juventude, onde arrasou em obras como “Os Malditos”, “O Porteiro da Noite” ou “Max, Mon Amour”, quer na sua fase actual, onde continua a deslumbrar, em “Swimming Pool”, “Sob a Areia” ou “Para o Sul”.

Yourcenar/Cavafy, segundo textos de Marguerite Yourcenar e Constantin Cavafy; Concepção de Jean-Claude Feugnet; Companhia Les Visiteurs du Soir, Paris
Intérpretes: Charlotte Rampling, Polydoros Vogiatzis, Varvara Gyra (guitarra); Cenário e figurinos: Lambert Wilson; Duração 1H00; Classificação: M/ 12; Teatro Nacional São João – Porto; Teatro Nacional D. Maria II – Lisboa.

sábado, julho 17, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 11


“Uma família Portuguesa”,
de Filomena Oliveira e Miguel Real

“Uma família Portuguesa”, de Filomena Oliveira e Miguel Real, numa encenação de Cristina Carvalhal, foi um êxito a quando da sua estreia no Teatro Aberto. Por razões diversas não a tinha conseguido ver então, e foi excelente poder recuperar este trabalho, agora em passagem pelo Festival de Teatro de Almada, dado tratar-se realmente de um espectáculo muito interessante, tendo por base uma família portuguesa de início do século XXI, que vive impregnada de fantasmas do passado, de Salazar à Virgem de Fátima, passando pela guerra colonial e pelo PREC. Uma casa antiga, onde coabitam três gerações e um espectro que a todos assombra, ainda que só à mulher “apareça”.
Marido e mulher, sogra e filhos, os dramas habituais da falta de dinheiro e da ausência de grandes horizontes, e o todo mesclado por referências musicais, literárias e plásticas da segunda metade do século XX, numa imaginativa encenação que, partindo de um cenário sarcástico e barroco, onde se amontoam sistematicamente adereços de todo o género, mas todos eles muito “significativos”, consegue criar uma marcação sugestiva e igualmente irónica.
A peça de Filomena Oliveira e Miguel Real, que não lemos, é certamente interessante e divertida nos seus apontamentos críticos e no clima que permite criar, que a encenação muito ajuda e os intérpretes, no seu todo, num estilo de discreta comédia, sublinham com graça e talento. Um bom espectáculo popular, mas exigente, na boa tradição do que normalmente se vê no Teatro Aberto.

Filomena Oliveira e Miguel Real escreveram em conjunto a adaptação de “Memorial do Convento” e as peças “Os patriotas”, “O umbigo régio”, “Liberdade, Liberdade”, “1755”. “O grande terramoto”, “Vieira – O céu na Terra” ou “Os Maias”. Formada em Filosofia, pela Faculdade de Letras de Lisboa, Filomena Oliveira lecciona no ensino secundário e é investigadora do Centro de Literatura de Expressão Portuguesa, tendo concluído em 2000 o Curso Superior Especializado de Teatro e Educação da ESTC. Também formado em Filosofia, Miguel Real especializou-se em Cultura Portuguesa, desenvolvendo actualmente o doutoramento sobre Eduardo Lourenço. Recebeu, entre outros, o Prémio Revelação Ensaio da Associação Portuguesa de Escritores e, com Filomena Oliveira, o Grande Prémio de Teatro Português 2008, da Sociedade Portuguesa de Autores/Teatro Aberto, com a peça agora apresentada.

Cristina Carvalhal iniciou os seus primeiros passos como actriz com João Lourenço. Com uma já longa trajectória, fez parte do núcleo fundador da “Escola de Mulheres – Oficina de Teatro”. Entre os espectáculos que encenou, destacam-se: “De que falamos quando falamos de amor”, de Raymond Carver, “Cosmos”, de Witold Gombrowicz, “Erva vermelha”, de Boris Vian, “Libração”, de Lluisa Cunillé, “Cândido”, de Voltaire e “A orelha de Deus”, de Jenny Schwartz (Prémio Autores 2010 Teatro – Melhor Espectáculo, atribuído pela Sociedade Portuguesa de Autores).

Uma Família Portuguesa, de Filomena Oliveira e Miguel Real; Dramaturgia e encenação de Cristina Carvalhal; Teatro Aberto; Intérpretes: Bruno Simões, Carlos Malvarez, João Maria Pinto, Luísa Salgueiro, Teresa Faria; Música: João Gil; Cenário: Ana Vaz; Figurinos: Ana Vaz, Maria Gonzaga; Luz: Melim Teixeira; Apoio ao movimento: Margarida Gonçalves; Duração: 1H10; Classificação: M/ 12.

quinta-feira, julho 15, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 10

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Todos os Grandes Governos Evitaram o Teatro Íntimo
de Daniel Veronese
“Todos os Grandes Governos Evitaram o Teatro Íntimo”, espectáculo do argentino Daniel Veronese, encenado em 2009, parte de “Hedda Gabler”, obra estreada em 1897, uma peça absolutamente fulcral no teatro moderno, assinada pelo norueguês Henrik Ibsen (1828-1906). Parte desse clássico para lhe conferir uma nova interpretação e a adaptar a actualidade. Não se trata de pegar no texto original e enformá-lo em vestes actuais. Trata-se antes de recuperar algumas personagens e o espírito da peça de finais do século XIX, e olhá-los numa perspectiva contemporânea, repensando sobretudo a condição da mulher que, apesar de ter evoluído muito desde então, ainda continua a conhecer graves e pesados condicionantes sociais e morais. Veronese disse mesmo que “continuamos a diferenciar a avaliação dos comportamentos em função do sexo de quem os pratica”.
O cenário e a encenação nada trazem de especialmente significativo, mas a interpretação é magnífica e o texto excelentemente explorado. O lado aparentemente banal do cenário, porém, despido de qualquer efeito, quase se assemelhando a um cenário de interior de casa de teatro amador, acaba por causar alguma estranheza e levar o espectador a concentrar-se no essencial: o texto e o comportamento das personagens.
Interessante, portanto, esta aproximação do teatro argentino actual, muito pouco conhecido entre nós.
Daniel Veronese parece ser um dos criadores mais destacados do novo teatro da América Latina. Dramaturgo, encenador, actor e manipulador de bonecos, Veronese desempenha também funções de cenógrafo e criador das bandas sonoras dos seus espectáculos. Membro fundador do grupo de teatro “El Periférico de Objetos”, os seus espectáculos e intervenções performativas participaram em diversos festivais em todo o Mundo. Reuniu as suas obras nos volumes “Cuerpo de Prueba” e “La Deriva”. Recebeu numerosos prémios, de entre os quais se destacam, na Argentina, o Prémio Nacional de Dramaturgia e o primeiro Prémio Municipal de Dramaturgia de Buenos Aires.

Todos os Grandes Governos Evitaram o Teatro Íntimo, de Daniel Veronese; Encenação: Daniel Veronese; Intérpretes: Claudio Da Passano, Elvira (Pipi) Onetto, Marcelo Subioto, Osmar Nuñez, Silvina Sabater; Cenário adaptado da cenografia da obra “Budín Inglês”, de Ariel Vaccaro; Assistente de encenação Felicitas Luna; Produção Sebastián Blutrach; Teatro Metropolitan, Buenos Aires, Argentina; Duração: 1H30; Classificação M/ 12.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 9


“Uma Lição dos Aloés”, de Athol Fugard

“Uma Lição dos Aloés”, do sul-africano Athol Fugard, com encenação de José Peixoto, da Companhia do Teatro dos Aloés, residente na Amadora, abriu o 27º Festival de Teatro de Almada.
A peça é bastante interessante, conjugando a denúncia social do tempo do apartheid, com uma linguagem poética e simbólica, onde o “aloés” desempenha papel essencial.
Athol Fugard, nascido em 1932, escreveu teatro e romances, foi actor, sendo conhecido pelas suas posições anti-apartheid. Um romance seu, “Tsotsi”, foi premiado em 2005, e haveria de ser adaptado a filme, numa realização de Gavin Hood, com argumento do próprio director (foi Oscar de melhor filme em língua não inglesa em 2006). No campo do teatro, Athol Fugard dirigiu o Departamento de Teatro e Dança da Universidade da Califórnia, em São Diego. Um dos seus textos, precisamente “Sizwe Banzi Morreu”, encenado por Peter Brook, fora acontecimento destacado no Festival de Almada de 2007.
Esta “Uma Lição dos Aloés” fala-nos de um africânder, Piet, que, enquanto aguarda pelo seu amigo Steve e família para um jantar de despedida, vai-se dedicando à sua actividade favorita, identificar aloés desconhecidos, de que possui uma vasta colecção. A mulher de Piet, Gladys, encontra-se profundamente desequilibrada, preocupada com uns diários seus que a polícia confiscou, e vive numa angustia permanente e na total descrença da sociedade sul-africana, onde as injustiças, a prepotência e o terror policial imperam. Entretanto, Steve, que é negro, aparece sozinho, pois a mulher não confia em Piet, julgando-o um delator. O jantar decorre entre a dúvida e a confiança nos laços de amizade e assim se fica a perceber que se é possível tentar catalogar os aloés, não é muito provável classificar de igual modo as pessoas.
A encenação (nela comportando cenário, desenho de luzes, som, etc.) não ultrapassa a mediania bem comportada, quando o que se poderia desejar seria algo mais arrojado e poético. Já se viu melhor de José Peixoto. O mesmo se pode dizer da interpretação, onde se destaca, todavia, a presença de Elsa Valentim, defendendo com sensibilidade a figura de Galdys.

“Uma Lição dos Aloés”, de Athol Fugard; Tradução: Angélica Varandas, Graça Margarido, Mick Greer; Encenação; José Peixoto; Companhia do Teatro dos Aloés; Intérpretes: Daniel Martinho, Elsa Valentim, Jorge Silva; Cenografia e figurinos: Ana Paula Rocha (sobre um projecto de José Carlos Faria); Desenho de luz: Jochen Pasternacki; Design gráfico: Rui Pereira; Assistente de encenação: Joana Vidal; Vídeo: Eduardo Silveira; Fotografia: Margarida Dias; Produção executiva: Gislaine Tadwald, Joana Pães; Duração: 2H00 (com intervalo); Classificação: M/ 12.

quarta-feira, julho 14, 2010

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, NOTAS, 8

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Um pouco de ternura, grande merda!
“Um Pouco de Ternura, Grande Merda!” (Un peu de tendresse, bordel de merde !) é um espectáculo particularíssimo, mescla de teatro e bailado, que tem no canadiano Dave St-Pierre o principal impulsionador de uma troupe desassombrada de bailarinos a rondar os acrobatas, que sustentam num palco nu quase duas horas de vertiginosa cavalgada.
Primeiramente, o nu. Não é só o palco que está nu, apenas com uma longa fila de cadeiras a limitar o fundo. Os intérpretes estão quase sempre totalmente nus, frente aos espectadores, o que causa desde início logo uma certa efervescência. Porque será que tal acontece? Porque será que a nudez provoca ainda um tal escândalo, a nudez que é o estado em que todos realmente nos irmanamos?
Antes ainda de o espectáculo principiar, um dos elementos da companhia já se encontra sentado numa das cadeiras, nu frontal, dirigindo-se ao público que vai ocupando os seus lugares, e mimando vários esgares e cantilenas. Muito público adere e corresponde, outro percebe-se que está intimidado.
Inicia-se o espectáculo, que de princípio parece um desconjuntado grupo de cenas provocadoras. Mas, lentamente, o significado global vem ao de cima, a coerência vai-se instalando, a crítica ao nosso descarnado (ou demasiado carnal) quotidiano ganha forma e, no final, a solidão de quem cruza o palco em total desencontro estabelece uma angústia profunda, retemperada pelo belo quadro final, onde finalmente, a ternura aparece, a ternura que é tão necessária ao equilíbrio do homem. Mas para que tudo isto ressalte, múltiplas são as peripécias, bailados de uma agressividade física estonteante, retrato de uma sociedade violenta e violentadora. O amor que se destrói e reconstrói. “Un peu de tendresse, bordel de merde!”
Entre o humor e violência verbal, e sobretudo física (raras vezes se vê em palco uma tal orquestração de violência corporal, que o nu acentua e dramatiza), “Um Pouco de Ternura, Grande Merda!” é certamente um espectáculo inesquecível para quem o viu. Mesmo dividindo a assistência, ou sobretudo por isso mesmo, porque divide a assistência e a leva a tomar posição, porque provoca qb a estabilidade dos instalados nas suas certezas.
O Festival de Teatro de Almada tem essa virtude: alberga experiências de índole diversa e de intenções diferentes. É bom ser visitado por essa diversidade reconfortante, como excelente é este confronto com novas perspectivas e tendências que, no final, nos mostram bem que o teatro está vivo e se recomenda.

Dave St-Pierre foi um dos momentos altos do Festival d’Avignon de 2009. O coreógrafo começou a dançar aos 5 anos de idade. Estudou sapateado durante sete anos. Estudou Literatura e Cinema, e inscreveu-se no grupo de dança “Mia Maure Danse”, dirigido por Marie-Stéphane Ledoux e Jacques Brochu. Em 1992 entrou para os “Ateliers de Danse Moderne” de Montréal como bolseiro e, em 1993, juntou-se à “Brouhaha Danse”. Colaborou com esta companhia durante mais de seis anos. Dançou, depois, sob a direcção de numerosos coreógrafos. Foi com as coreografias de Daniel Léveillé, “Amour, acide et noix” e “La pudeur des icebergs”, que se tornou uma figura de renome internacional. Em 2004, com “La Pornographie des ames”, conquistou o prémio Mouson Award 2005 em Franfkurt. Foi nomeado personalidade do ano 2004-2005 pela Radio-Canada.

Um pouco de ternura, grande merda!
Direcção e coreografia: Dave St-Pierre; Uma co-produção de Scène Québec ; Intérpretes/bailarinos: Alexis Lefebvre, Camille L. D’Aragon, Dave St-Pierre, Emmanuelle Beaudoin, Enrica Boucher, Eric Robidoux, Eugénie Beaudry, Eve Pressault-Chalifoux, Francis Ducharme, Gabriel Lessard, Geneviève Bélanger, Julie Carrier, Julie Perron , Karina Champoux, Sara Lefebvre, Simon-Xavier Lefebvre; Direcção técnica e desenho de luz: Alexandre Pilon-Guay; Direcção de cena e assistência técnica e administrativa: Benoît Bisaillon; Duração: 1H40; Classificação: M/ 16