quarta-feira, novembro 22, 2006

CINEMA: O Perfume - Do Livro ao filme

“O Perfume”
Do livro ao filme

“O Perfume” ilustra bem alguns dos erros mais frequentes das adaptações cinematográficas de obras literárias.
O primeiro, será procurar ser muito fiel aos factos relatados no livro, esquecendo que muitas vezes os factos não são o mais importante, e que, mesmo sendo importantes, não são o essencial. Veja-se a abertura do romance e recorde-se a abertura do filme. Atente-se e compare-se nas duas escritas e perceba-se como cada uma delas transmite uma mensagem diferente, porque escolhe um estilo diferente. A adopção de um comentário off não aproxima as obras, apenas facilita a sua conversão factual, “relatando” o que no romance se conta. Mas obviamente de forma mais sucinta, logo retirando cor e “perfume” à descrição.

“O Perfume”, de Patrick Sunkind, 1985
Editorial Presença, Lx, 1986
(trad. Maria Emília Serros Moura)
"O Perfume"
Caso 1
(abertura)

No século XVIII viveu em França um homem que se inseriu entre os personagens mais geniais e mais abomináveis desta época que, porém, não escasseou em personagens geniais e abomináveis. É a sua história que será contada nestas páginas. Chamava-se Jean-Baptiste Grenouille e se o seu nome, contrariamente aos de outros grandes facínoras de génio, como, por exemplo, Sade, Saint-Juste, Fouché, Bonaparte, etc, caiu hoje em dia no esquecimento, tal não se deve por certo a que Grenouille fosse menos impado de orgulho, menos inimigo da Humani­dade, menos imoral, em resumo, menos perverso do que estes patifes mais famosos, mas ao facto de o seu génio e a sua única ambição se cingirem a um domínio que não deixa traços na História: ao reino fugaz dos odores.
Na época a que nos referimos dominava nas cidades um fedor dificilmente imaginável para o homem dos tempos modernos. As ruas tresandavam a lixo, os saguões tresandavam a urina, as escadas das casas tresandavam a madeira bolorenta e a caganitas de rato e as cozinhas a couve podre e a gordura de carneiro; as divisões mal arejadas tresandavam a mofo, os quartos de dormir tresandavam a reposteiros gordurosos, a colchas bafientas e ao cheiro acre dos bacios. As chaminés cuspiam um fedor a enxofre, as fábricas de curtumes cuspiam o fedor aos seus banhos corrosivos e os matadouros o fedor a sangue coalhado. As pessoas tresandavam a suor e a roupa por lavar; as bocas tresan­davam a dentes podres, os estômagos tresandavam a cebola e os corpos, ao perderem a juventude, tresandavam a queijo rançoso, leite azedo e tumores em evolução. Os rios tresandavam, as praças tresandavam, as igrejas tresandavam e o mesmo acontecia debaixo das pontes e nos palácios. O camponês cheirava tão mal como o padre, o operário como a mulher do mestre artesão, a nobreza tresandava em todas as suas camadas, o próprio rei cheirava tão mal como um animal selvagem e a rainha como uma cabra velha, quer de Verão quer de Inverno. Isto porque neste século XVIII a actividade destrutiva das bactérias ainda não encontrara fronteiras e não existia, assim, qualquer actividade humana, quer fosse construtiva ou destrutiva, qualquer manifestação da vida em germe ou em declínio, que estivesse isenta da companhia do fedor.
E era, naturalmente, em Paris, que o fedor atingia o índice mais elevado, na medida em que Paris era a maior cidade da França. E no seio da capital existia um lugar onde o fedor reinava de uma forma particularmente infernal, entre a Rua aux Fers e a Rua de la Ferronerie, na realidade, o Cemitério dos Inocentes. Durante oitocentos anos, tinham-se transportado para lá os mortos do Hôtel-Dieu e os das paróquias vizinhas; durante oitocentos anos haviam-se trazido até ali, dia após dia, em carroças, os cadáveres que eram atirados às dúzias para fundas valas; durante oitocentos anos, haviam-se acumulado camadas sucessivas de ossos nas carneiras e ossuários. E foi só mais tarde, em vésperas da Revolução Francesa, quando algumas destas valas comuns se abateram perigosamente e o fedor deste cemitério a abarrotar desencadeou entre os habitantes das margens do rio não apenas protestos mas verdadeiros motins, que acabaram por encerrá-lo e esvaziá-lo, tendo sido os milhões de ossos e crânios empurrados à pá na direcção das catacumbas de Montmartre e construído um mercado, em sua substituição, neste local.
Aqui, neste sítio mais fedorento de todo o reino, nasceu Jean-Baptiste Grenouille, a 17 de Julho de 1738. Foi um dos dias mais quentes do ano. O calor pesava como chumbo sobre o cemitério, projectando nas ruelas vizinhas o seu bafo pestilento, onde se misturava o cheiro a melões apodrecidos e a trigo queimado. Quando começou com as dores de parto, a mãe de Grenouille encontrava-se de pé, atrás de uma banca, na Rua aux Fers, a escamar as carpas que acabava de estripar. Os peixes, supostamente pescados no Sena nessa mesma manhã, já cheiravam pior do que um cadáver. A mãe de Grenouille não distinguia, no entanto, entre o cheiro a peixe e o de um cadáver, na medida em que o seu olfacto era extraordinariamente insensível aos cheiros, e, além disso, a dor que lhe apunhalava o ventre eliminava toda a sensibilidade às sensa­ções exteriores. Apenas desejava que a dor parasse; desejava pôr termo o mais rapidamente possível a este repugnante parto. Era o seu quinto. Todos os outros se haviam verificado atrás desta banca de peixe e sempre se tratara de nado-morlos, ou quase, porque a carne sanguinolenta que dela se escapava não se diferençava grandemente das miudezas de peixe que juncavam o solo, o também não possuiu, além disso, muito tempo de vida; à noite, tudo era varrido a trouxe-mouxe e levado nas carroças, em direcção ao cemitério ou ao rio. Era o que deveria passar-se, uma vez mais, naquele dia e a mãe de Grenouille, que ainda era jovem, vinte e cinco anos feitos, que ainda era bonita, que conservava quase todos os dentes e tinha ainda cabelos e que, independentemente da gota da sífilis, e de uma leve tuberculose não sofria de qualquer doença grave; que esperava viver ainda muito tempo, talvez cinco ou dez anos, e talvez até mesmo casar um dia e ter verdadeiros filhos na qualidade de respeitável esposa de um artesão viúvo, por exemplo,... a mãe de Grenouille desejava que tudo já tivesse acabado. E quando as dores de parto se fixaram, agachou-se, deu à luz debaixo da sua banca de peixe tal como das vezes anteriores e cortou com a faca de peixe o cordão umbilical do recém-nascido. Em seguida, porém, e devido ao calor e ao mau cheiro que ela não apercebia como tal mas como algo de insuportável e estonteante - um campo de lírios ou uma divisão demasiado pequena a transbordar de junquilhos -, desmaiou, caiu para o lado e rolou debaixo da banca até ao meio da rua, onde ficou estiraçada com a faca na mão.


Gritos, correrias, a multidão de basbaques à roda e alguém que vai chamar a Polícia. A mulher mantém-se prostrada no chão com a faca na mão e volta lentamente a si.
Perguntam-Ihe o que se passou.
— Nada.
E o que faz ali com a faca?
— Nada.
E de onde vem o sangue que lhe corre por baixo das saias?
— Dos peixes.
Ela levanta-se, atira a faca para o lado e afasta-se para se lavar. Mas eis que, contra todas as expectativas, a coisa por baixo da banca de peixe põe-se a chorar. As pessoas acorrem, e, sob um enxame de moscas, no meio das tripas e cabeças cortadas de peixe, descobri e liberta-se o recém-nascido.
“O Perfume”
Caso 2

Grenouille é levado para o patíbulo, mas em vez de ser justiçada barbaramente pela populaça em transe, liberta odores do seu perfume e enfeitiça os gentios. Veja-se o poder da descrição, tanto da personagem de Grenouille, como das situações, particulares e gerais, da população em bacanal para se perceber, de imediato, que a descrição literária tem poderes que a descrição cinematográfica ilude por completo. A descrição do ódio que Grenouille sente pelos gentios, nunca é sentida no filme, e mesmo a embriaguez com o sucesso passa muito pela rama. O livro triunfa em toda a linha, e tudo me leva a crer que o faz porque o filme utiliza (mal) meios excessivos. Não é pasoliniano quem quer, nem basta por corpos nus a reboar uns sobre os outros para se dar a sensação de caos voluptuoso. O que o filme faz é destruir toda a carga emotiva e simbólica que o livro encerra.

(…)
O povo, que se encontrava por detrás da barricada, abandonava-se, porém, de uma forma cada vez mais ostensiva, à espantosa embriaguez afectiva que o aparecimento de Grenouille desencadeara. Aqueles que, ao visitá-lo, apenas haviam sentido piedade e ternura, mostravam-se agora invadidos pela concupiscência; aqueles que, inicialmente, tinham admirado e desejado, entravam, agora, em êxtase. Todos consideravam o homem da casaca azul como o ser mais belo, mais sedutor e mais perfeito que poderiam imaginar: as freiras viam nele o Salvador em pessoa; os adeptos de Satã, o radioso príncipe das trevas; os filósofos, o Ente supremo; as jovens, um príncipe encantado; os homens, um reflexo ideal de si próprios. E todos se sentiam postos a nu e tocados no ponto mais sensível, no próprio centro do seu erotismo. Era como se este homem possuísse dez mil mãos invisíveis, e, em cada uma das dez mil pessoas que o rodeavam, tivesse colocado a mão no sexo acariciasse exactamente da forma que todos eles, homens e mulheres haviam desejado nas suas fantasias mais secretas.
Aconteceu, assim, que a execução prevista de um dos criminosos mais abomináveis da sua época degenerou na maior bacanal que o mundo havia conhecido desde o século ir antes de Cristo; esposas virtuosas arrancavam os corpetes, desnudando os seios com gritos histéricos e atiravam-se para o chão, com as saias erguidas; os homens avançavam aos tropeções de olhos alucinados neste campo de carne voluptuosa, retiravam das calças, com dedos trémulos, os sexos como que endurecidos por qualquer geada invisível, deixavam cair um gemido onde quer que fosse, copulavam nas posições e configurações mais inacreditáveis, o velho com a virgem, o jornaleiro com a mulher do advogado, o pequeno aprendiz com a freira, o jesuíta com a franco-maçónica, tudo à mistura, como ali se encontrava. A atmosfera com o suor adocicado do gozo e transbordava de gritos, gemidos e grunhidos das dez mil bestas humanas. Era infernal.
Grenouille mantinha-se de pé e sorria. Ou melhor, aos olhos das pessoas que o viam, parecia sorrir da forma mais inocente, mas afável, mais maravilhosa e mais sedutora do mundo. Nos lábios não desenhava, porém, um sorriso mas um terrível esgar cínico, reflectindo toda a amplitude do seu triunfo e do seu desprezo. Ele, Jean-Baptiste Grenouille, nascido sem odor no lugar mais fedorento do mundo, saído do lixo, da lama e da podridão, ele que crescera sem amor, sem o calor de uma alma humana, meramente impulsionado pela revolta e pelo nojo, pequeno, corcunda, coxo, feio, mantido à distância, abominável tanto por dentro como por fora - ele havia conseguido tornar-se simpático aos olhos do mundo. O que era isso de “tornar-se simpático”? Ele era amado! Venerado! Adorado! Tinha levado a cabo esse feito prometaico. A centelha divina que os outros homens recebem logo no berço e da qual só ele fora desprovido, conquistara-a mediante uma imensa luta efectuada com extraordinária subtileza. E mais! Fizera-a brotar no seu próprio íntimo. Era maior ainda do que Prometeu. Criara para si próprio uma aura mais radiosa e eficaz do que alguém po ssuíra antes dele. E não a devia a ninguém, a um pai, a uma mãe, e menos ainda a uma divindade benfeitora; devia-a apenas a si próprio. Ele era,na realidade, o seu próprio deus e um deus mais glorioso do que esse deus tresandando a incenso que habitava as igrejas. Aos seus pés encontrava-se prostrado um bispo em carne e osso e que gemia de prazer. Os ricos e os poderosos, as damas e os cavalheiros arrogantes morriam de admiração, ao passo que toda a gente em redor, inclusive os pais, as mães, os irmãos e as irmãs das suas vitimas, celebrava orgias em sua honra e em seu nome. Bastava um sinal para que todos renegassem o seu deus e o adorassem a ele, o Grande Grenouille.”
Sim, ele era o Grande Grenouille! Era bem visível neste momento. Era-o agora, na realidade, como nunca o fora nos sonhos em que se amava a si próprio. Neste momento, via o maior triunfo da sua vida. E sentia que este triunfo se tornava assustador.
Tornava-se assustador, na medida em que não podia usufruí-lo um segundo que fosse. No momento em que descera da carruagem para a praça inundada de sol, revestido do perfume capaz de causar amor nas pessoas, do perfume no qual trabalhara dois anos, do perfume que toda a vida ansiara por possuir... desde esse momento em que vira e cheirara como ele actuava irresistivelmente, e, espalhando-se à veloci­dade do vento, cativava a gente em seu redor; desde esse momento, voltara a ser invadido pelo seu nojo pelos homens, o que lhe estragava tão profundamente o seu triunfo que não sentia qualquer alegria, nem sequer o mínimo sentimento de satisfação. Aquilo que desde sempre tinha constituído a sua ambição, ou seja, que os outros o amassem, tornava-se-lhe insuportável no instante do sucesso, porque ele não os amava, odiava-os. E apercebeu-se, subitamente, de que jamais encon­traria a sua satisfação no amor mas no ódio, o ódio que transmitisse aos outros e que os outros lhe transmitissem.
Contudo, o ódio que sentia pelos homens não encontrava corres­pondência. Naquele instante, quanto mais os odiava, mais eles o adoravam como a um deus, porque dele apenas captavam a aura de que se revestira, a sua máscara odorífera, o seu perfume roubado e este era, na verdade, digno de adoração.
Neste momento, agradar-lhe-ia soberanamente varrê-los a todos da superfície da terra, a estes estúpidos seres humanos, fedorentos, erotizados, tal como outrora havia eliminado os odores hostis do país da sua alma negra como o carvão. E desejaria que eles se apercebessem a que ponto os odiava e que, por este motivo, em prol do único senti­mento que alguma vez experimentara, o exterminassem, como aliás havia sido a sua primeira intenção. Queria exteriorizar-se uma vez na vida. Queria uma vez na vida ser como todos os outros homens e exteriorizar o que lhe ia no íntimo: eles exteriorizavam o seu amor e a sua imbecil veneração e ele exteriorizaria o seu ódio. Queria que, por uma vez, uma só vez, tomassem em atenção o seu verdadeiro eu e receber de um outro ser humano uma resposta ao seu único sentimento verdadeiro: o ódio.

“O Perfume”
Caso 3

A sequência final, que encerra parcialmente a moral do livro, e conseguida no romance de forma abstracta e simbólica. No filme, mais uma vez se perde o poder evocativo das imagens, para se trocar por uma locução preguiçosa, que vem explicar tudo em meia dúzia de linhas, não vá o espectador sair sem perceber o que se tinha para dizer. A verdade é que o realizador nunca o disse ao longo do filme, e esta “explicação final” parece cair do céu aos trambolhões. “Ah, afinal era isso!”, pensam os espectadores. Veja-se como a escrita de Suskind tem um outro “perfume” e não procura inculcar de forma fácil uma lição final.

(…)
Precipitaram-se para o anjo, caíram-lhe em cima, prostram-no por terra. Cada um queria tocar, cada um pretendia a sua parte, possuir uma pequena pluma, uma pequena asa, uma centelha do seu fogo radioso. Arrancaram-lhe as roupas, os cabelos, arrancaram-lhe a pele, cravaram-lhe as unhas e os dentes na carne, atacaram-no como hienas.
Contudo, um corpo humano é duro e não se esquarteja facilmente; os próprios cavalos têm dificuldade em fazê-lo. Não tardou, igualmente, a divisar-se o brilho dos punhais que se abateram e cortaram; machados e facas silvaram ao atingir as articulações, ao quebrar os ossos que estalavam. Num curto espaço de tempo, o anjo foi desmantelado em trinta bocados e cada membro da horda empunhou o seu bocado, e, cheio de uma gula voluptuosa, afastou-se para o devorar. Meia hora depois, Jean-Baptiste Grenouille havia desaparecido da superfície da terra até à última fibra.
Quando, após terminarem o seu repasto, os canibais se reencon­traram à volta da fogueira, ninguém pronunciou palavra. Um ou outro soltava um arroto, cuspia um bocadinho de osso, produzia um estalido discreto com a língua, empurrava com o pé para as chamas um minús­culo pedaço de tecido que restava da casaca azul. Estavam todos pouco à vontade e não se atreviam a encarar-se. Aqueles homens e mulheres tinham já na consciência um assassínio ou qualquer crime ignóbil. Mas comer um homem? Nunca na vida se teriam julgado capazes de uma coisa tão horrível. E admiravam-se, mesmo assim, por terem cometido aquele acto com tanta felicidade e não sentirem, à excepção da falta de à-vontade, o mínimo peso na consciência. Pelo contrário! Tinham o estômago um pouco pesado, mas o coração alegre. Nas suas almas tenebrosas surgiu um repentino palpitar de alegria. E nos rostos pairava-lhes um virginal e suave brilho de felicidade. Era indubitavelmente esse o motivo por que receavam erguer os olhos e fitarem-se.
Contudo, quando se arriscaram a fazê-lo, primeiro de fugida e depois abertamente, não conseguiram reter um sorriso. Sentiam-se extraordinariamente orgulhosos. Era a primeira vez que faziam qualquer coisa por amor.

terça-feira, novembro 21, 2006

CINEMA - O Perfume

O PERFUME

Ou eu estou muito enganado ou “O Perfume”, de Patrick Süskind, era (é) um excelente romance, um dos que mais perduram na minha memória entre os lidos nos últimos vinte anos. Creio que o que mais me impressionou não foi o enredo histórico, vagamente policial, mas a descrição de uma cidade de Paris do século XVIII, cujo cheiro, os vários odores, pestilentos quase todos, se me entranharam no nariz, no corpo, na memória. Ainda hoje, recordando o livro, me parece quase impossível que uma obra literária tivesse conseguido lograr esse efeito físico de transportar os cheiros dentro de si de forma tão evidente.
Ora bem, essa foi a primeira e logo mais grave decepção que o filme de Tom Tykwer trouxe consigo, logo desde o início, desde essa cena no mercado de peixe de Paris, onde nasce o protagonista, Jean-Baptiste Grenouille, que a mãe prontamente abandona no chão, como fizera a quatro anteriores crias que depois atirara ao rio. Há muita porcaria pelo chão, há muita brutalidade a cortar o peixe na bancada, mas não há a sensação de cheiro, por muito que recém-nascido levante a narina a procurar um cheiro que o guie. É ele e somos nós. Não é por colocar um nariz em grande plano que se atinge e se propaga a sensação de cheiro. O livro, que me lembre, nunca andou de narina erguida, mas descrevia cenas que, uma acrescentando a outra, criavam essa ilusão de cheio que tudo abafava.
Depois, durante a puberdade e a juventude, Grenouille percorre o mesmo calvário de Oliver Twist, empregado numa tinturaria e pelaria onde era açoitado e explorado, mas sempre a exercitar um olfacto bastante apurado. Olfacto que o leva até à perfumaria de Giuseppe Baldini, onde começa por aprendiz, mas rapidamente se mostra mestre na arte de identificar e misturar odores, copiando e criando perfumes raros e cada vez mais sofisticados.

Traumatizado desde infância, Grenouille quer que as pessoas gostem dele, o amem à força, e para isso vai procurando criar uma essência que seja o supra sumo dos perfumes, e não hesita perante nada. Ele, que nunca soube amar, que apenas procura ser adulado, e, como qualquer tiranete populista em busca do aplauso fácil dos gentios, não olha a meios para atingir resultados, vai de assassinato em assassinato, de virgem em virgem, até possuir a quinta essência da fragrância que o aproxima dos anjos. Engano, que não há anjos na terra.
O livro possui um misterioso impacto, detectado nos muitos milhões (12) que o leram até hoje e dele fizeram um dos mais importantes best sellers das últimas décadas. O filme reduz tudo a um cinzentismo sem relevo ou densidade simbólica ou mítica: uma primeira parte piegas e decorativa, no pior sentido da palavra, com rodriguinhos manhosos, e cenas de um “realismo” pretensamente insuportável, para na segunda parte se transformar num thriller mais suportável, é certo, com uma linguagem bem mais ritmada, mas sem qualquer essência subjacente. No final, para que os espectadores percebam que se trata de um “filme com moral”, o locutor de serviço vem-nos explicar o que devíamos ter percebido ao longa das duas horas e meia de projecção, mas a arte do realizador não conseguiu transmitir.
“O Perfume – História de um Assassino” procura jogar com uma reconstituição histórica “convincente”, mas nem consegue enfiar uma peruca com arte e engenho a um Dustin Hoffman aqui completamente perdido. Quer criar grandes painéis, “murais” de personagens, mas fica-se pelo amontoado bacoco de figurantes, na linha de um “peplum” italiano de quinta categoria. A sequência na praça central da cidade de Grasse, com a multidão a preparar-se para assistir a uma execução bárbara que se transforma num bacanal, é simplesmente lamentável.
Se a imagem é, ora estereotipada, ora lamechas, a banda sonora é sempre intragavelmente lamechas. Dizem que esta foi a produção alemão mais cara de sempre, e que o realizador foi escolhido pela sua direcção em “Corre, Lola, Corre!” Cheira-me que nem tudo corre bem, lá para os lados da cinematografia alemã. A verdade é esta: este ano tivemos já dois “best sellers” históricos assassinados no cinema. Apesar de provirem de obras literárias de qualidade e valores desiguais (eu até gosto de Dan Brown, mas Suskind é outra música!); tanto “O Código Da Vinci” como “O Perfume” se arrastam numa mediocridade de tom que irrita. Salvam-se duas ruivas bonitas e um Alan Rickman de boa voz, mas não sei se chegam só por si para colmatar a terrível machadada em Dustin Hoffman que deve ter o pior papel da sua carreira.
Parece que muitos realizadores se recusaram a adaptar “O Perfume” (fala-se nos casos de Milos Forman, Tim Burton, Martin Scorsese, Ridley Scott ou Stanley Kubrick, que declarou que o mesmo era “infilmável”), mas o produtor alemão Bernd Eichinger (que se especializou em obras como “Resident Evil”, “Der Untergang” ou “Fantastic Four”) comprou os direitos do romance por quase 10 milhões de euros e gastou mais 50 milhões na sua produção. "Perfume: The History of a Murderer” não é a história de alguém que não se consegue adaptar à realidade, mas apenas a história de um filme que nunca consegue transmitir a essência, pode mesmo dizer-se a fragrância, da obra literária onde se inspira.
(Agora vou reler um pouco de "O Perfume", de Suskind.
Fiquei com saudades da obra. Da que eu conhecia.)

O PERFUME — HISTÓRIA DE UM ASSASSINO (Perfume: The Story of a Murderer), de Tom Tykwer (Alemanha, França, Espanha, 2006), com Ben Whishaw, Dustin Hoffman, Alan Rickman, Rachel Hurd-Wood, Corinna Harfouch, Birgit Minichmayr, etc. 147 min; M/ 12 anos.

segunda-feira, novembro 20, 2006

BLOGUES DE CINEMA - WORK SHOP

1º ENCONTRO NACIONAL
DE BLOGUES DE CINEMA
Novas informações

Pela reacção de muitos blogues que aqui vieram depor, e por outros que se manifestaram por email, parece que o 1º Encontro Nacional de Blogues de Cinema, previsto para o fim de semana de 9, 10 e 11 de Março, em Famalicão, a abrir o próximo Famafest (Festival sobre Cinema e Literatura), está a encontrar boa recepção e aderência.

Para esses três dias, e para lá da programação própria do Festival, vai organizar-se um “work shop”, aberto a todo o público, mas dirigido preferencialmente aos bloquistas presentes. Sendo jovens a grande maioria destes, com dificuldade de acesso a filmes clássicos, sobretudo do período mudo, e dada a importância desta época, proponho três temas, todos eles profusamente ilustrados por obras a serem projectadas:

1º DAVID W. GRIFFITH E O NASCIMENTO DA LINGUAGEM AUDIOVISUAL.

2º O EXPRESSIONISMO, HISTÓRIA E PERMANÊNCIA.

3º AS VANGUARDAS NAS DÉCADAS DE 20 A 40.

Aguardo votação de bloguistas. Podem fazê-la, um por autor de blogue (blogues colectivos podem votar os vários autores), nos comentários deste blogue ou por email (ver no “profile).
Aceitarei votos até 30 de Novembro, pois terei de definir o tema do "work shop" com bastante antecedência, para o preparar.

Atendendo a várias sugestões, e como já antes havíamos escrito, o Encontro será aberto a blogues de cinema, blogues generalistas de cultura, com forte componente cinematográfica, mas também a bloguistas de outras áreas da cultura que queiram ter um depoimento sobre o cinema e a blogosfera.
Boas votações!
(o "Lauro António Apresenta" só vota no final, se houver empate)

UM ALBUM DE BD QUE SE ANUNCIA

NOVO ALBUM PORTUGUÊS
DE B.D.
Vi e li no belissimo "Piano", da Isabel Mendes Ferreira, que vai surgir um novo album de banda desenhada, português, com argumento escrito por José António Barreiros, e desenhos de Carlos Barradas. Tudo indica ser obra a não perder, e vai aparecer lá para Fevereiro. Aqui ficam as imagens que a Isabel "descobriu" para nós, para aguçar o apetite. Com dois teatros de Lisboa por pano de fundo:

sexta-feira, novembro 17, 2006

BLOGUES DE CINEMA

1º ENCONTRO NACIONAL

DE BLOGUES DE CINEMA

Durante o recente Cine Eco, que terminou no fim de Outubro, na cidade de Seia, lancei a ideia de um Encontro Nacional de Blogues de Cinema (e mais genericamente de Cultura, que tenham uma forte componente Cinematográfica). Estavam presentes vários autores de blogues, e a iniciativa pareceu despertar muito interessante, tendo em conta vários aspectos:
- A crescente importância dos blogues na comunicação social contemporânea;
- A decisiva influência que os blogues podem ter na criação de uma verdadeira cultura cinematográfica – os blogues são locais privilegiados de criação crítica, de debate de ideias, com a característica de o serem de forma imediata e sem qualquer tipo de "edição" prévia a cargo de outrém, de censura, de manipulação;
- Os blogues podem, e devem, ter uma função informativa e divulgadora, com uma capacidade de interferência no real absolutamente única – uma notícia pode atingir milhares de leitores em minutos;

Posto isto, e tudo o mais que se poderá debater num Encontro Nacional, aberto a todos quantos queiram aparecer, começámos a idealizar um tempo e um espaço, e tudo se conjuga para que o I Encontro Nacional de Blogues de Cinema tenha lugar em Famalicão, durante o próximo "Famafest" (Cinema e Literatura), entre 9 e 17 de Março (o Encontro ocupará sexta, sábado e domingo, 9, 10 e 11). Os participantes terão direito a um livre transito para todo o festival, se assim pretenderem, e a organização do festival vai providenciar, junto de hotéis, residenciais e restaurantes para obter “preços módicos” para os inscritos. Para lá das sessões de trabalho e debate, o festival vai organizar sessões especiais com obras particulalmente dedicadas ao evento.

A reunião terá apenas um propósito: debater ideias e criar condições de uma maior eficácia de comunicação. Não será aceite qualquer tipo de condicionante, quer tenha a ver com sexo, idade, raça, credo político, religioso, estético, cinematográfico. Não será tolerada qualquer tipo de tentativa de manipulação dirigista. Uma voz, um blogue, uma possibilidade de expor as suas ideias. Não será tolerada qualquer tentativa de coarctar a liberdade individual, a não ser aquela que reponha a liberdade dos restantes, se ela estiver ameaçada. Nesta perspectiva, poderá sair deste primeiro encontro uma Associação Portuguesa de Blogues de Cinema (e afins), cuja regra número um terá de ser o escrupuloso respeito pela liberdade de pensar e de se expressar de cada associado.

Caros amigos, bloguistas de cinema (e afins): comecem a pensar na ideia e dar sugestões.
Por exemplo: sugestões de temas a debater nos quatro painéis que se anunciam.

Bloguistas de cinema: divulguem esta iniciativa entre amigos e outros bloguistas. Passem palavra e link este post para possível correspondência.

A trabalho que Março já está ali, ao dobrar da esquina.

O LADRÃO DE IMAGENS (E DE POESIAS)

Em meados de Outubro, roubei esta imagem de um quadro (conhecido). Arquivei-a com um "sem legenda" que agora me deixa completamente em branco. Nem sei donde roubei, nem o nome do que roubei. Se alguém souber que me diga, colocarei aqui "A Origem do Mundo", de Gustave Courbet (informação de MRF, e de LA!), com agradecimentos.

De resto, é um belissimo quadro, que fala mais do amor e da vida que tudo o que se pudesse colocar em legenda.



Para acoplar a esta imagem, apeteceu-me recordar um poema de Nuno Júdice:

"Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.

Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor."

Nuno Júdice

Anexo (22.11.2006)

Tania Ostojic

Depois de ter colocado esta imagem, e este texto, no meu blog, a Leonor Areal, que me ajudou a identificar o autor do quadro, voltou a enviar-me "material suplementar". Uma obra de Tanja Ostojic que, partindo do quadro de Gustav Coubert, o re-inventa numa perspectiva diferente, vanguardista. Aqui fica a reprodução. Eu, pessoalmente, não gosto, e nem a ironia da bandeira me cativa. Uma "adaptação" que fica muito áquem do original, e nada lhe acrescenta de originalmente significativo. De um quadro que transmite algumas das mais sublimes emoções, passa-se para uma imagem que tem algo de pornográfica, apesar de mais "tapada". Questão de olhares de quem cria e de quem vê (que também cria).

O LADRÃO DE IMAGENS: Hopper 2

Hopper
Uma imagem roubada daqui. Um belíssimo blog.

quinta-feira, novembro 16, 2006

MÚSICA: FADO



MARIZA EM BELÉM,
PARA SEMPRE

Em Setembro deste ano, Mariza cantou para Lisboa, junto à Torre de Belém. Acompanhava-a a Sinfoneta de Lisboa. Andei dias e dias a dizer que não me podia esquecer. Acabei mesmo por esquecer. Mas surgiu agora o DVD (e também o CD) e tive, finalmente, oportunidade de ver e ouvir Mariza nessa noite mágica. Sou fanático de Mariza. Acho que depois de Amália, poucas terão ido tão longe, ou chegado tão perto da perfeição. Ela tem tudo para ser o que é: uma voz impar, uma elegância de pássaro em voo rasante, o porte franzino que enche o palco mal o pisa, a modernidade do estilo, mas o classicismo da expressão, o olhar doce e gaiato de quem sabe que o fado é “tudo isto”, amargo e triste, amores infelizes e angústias latentes, mas também muito daquilo, alegria de viver e de amar, o olhar sobre as cidades e as pessoas, o quinhão de simpatia humana que nos toca a todos, esse beijo, esse sorriso, essa pele, essa cor, essa sensualidade boa e quente. Mariza é um regalo de ouvir, e sabe bem ser português, quando se descobrem poemas de Fernando Pessoa, Zeca Afonso, David Mourão-Ferreira, Reynaldo Ferreira, O´Neil, Florbela, Amália, e tantos e tantos outros, acompanhados por inspiradas melodias, tocadas por virtuosos nacionais, cantados por intérpretes como Mariza. Que querem mais, portugueses ingratos, filhos de um tão pequeno País, que tais glórias viu nascer? Mariza é um dos nossos orgulhos nacionais (mas reparem em Lisboa, seus filhos da mãe da desgraça coitadinha e da maledicência mediocre, vejam tão só Amadeu de Sousa Cardoso, Graça Morais, Cesariny, Noronha da Costa em Exposição, só para falar em pintura!, e isto é pouco?, é pouco?). Ouvi-la é um prazer total. O DVD não está mal captado, a direcção é correcta, o som só teve uma falha, é Mariza em Belém para a eternidade. Ouvir e voltar a ouvir, ver e rever.

Moçambicana por nascimento, mas lisboeta da Mouraria desde os três anos, Mariza tem atravessado no sangue esse Portugal que foi fado em África e morna na capital do Império. Em 2001, ainda menina e moça, lança o álbum “Fado em mim” que vende até ser platina e atira com Mariza para o estrelato. Amo-a desde aí. Sim, porque nestas coisas ou se ama ou não se ama. Parte para o estrangeiro e soma sucesso sobre sucesso. Diz que o palco é a sua “sala de estar onde recebo os amigos” e eu sinto-me isso, um amigo, que, ao fim de cada concerto, corre para ela e a beija. Afinal acaba de nos dar momentos de felicidade e, não raro, as lágrimas correm-me, a mim, quando a ouço cantar. Quebeque, Nova Iorque, Hollywood, Londres, Paris, Frankfurt, Lisboa, Moscovo, Madrid, Barcelona, Los Angeles, Cairo, São Francisco, Chicago, as principais casas de espectáculo do mundo esgotam para a ouvir cantar. Uma nova Amália? Possivelmente, mas sobretudo uma nova grande cantora de fado, que consegue o que Amália sempre conseguiu: uma voz inigualável e uma personalidade impar. Ou seja, para se ser uma nova Amália, tem que se ser sobretudo diferente, não uma cópia, porque Amália nunca copiou ninguém. Mariza é também assim. Por ela passou todo o fado, mas ela só reteve o “seu” fado. “Melhor Artista Europeia na área de World Music”, pela BBC, diz que não escolheu o fado, que foi o fado que a escolheu. Não a conheço pessoalmente (mas quero conhecer, sim quero muito conhecer!), mas não fico indiferente aquela humildade que só os muito grandes conseguem ter, porque não precisam de se por em bicos de pés para sobressaírem. Eles já voam por cima dos demais, naturalmente. "O fado é um sentimento e não propriamente uma música". Em 2003, aparece o segundo álbum, “Fado Curvo”, mais prémios, por todo o lado. Os jornalistas estrangeiros residentes em Portugal reconhecem-lhe “a excelência na divulgação da cultura portuguesa, na sua manifestação mais característica: o fado” e consideram-na “Personalidade do Ano 2003”. Em 2004, edita o DVD que encerra o concerto realizado na Union Chapel, em Londres, e logo a seguir surge o novo álbum, “Transparente”. Agora este DVD, precioso, “Mariza, concerto em Lisboa”. Não percam.

Nele se pode ouvir o seu fado preferido, como ela própria o confessa. Poema de David Mourão-Ferreira, pois claro!, um dos maiores poetas portugueses do amor. Aqui fica:
Primavera
David Mourão-Ferreira/Pedro Rodrigues

Todo o amor que nos prendera
Como se fora de cera
Se quebrava e desfazia
Ai funesta primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

E condenaram-me a tanto
Viver comigo meu pranto
Viver, viver e sem ti
Vivendo sem no entanto
Eu me esquecer desse encanto
Que nesse dia perdi

Pão duro da solidão
É somente o que nos dão
O que nos dão a comer
Que importa que o coração
Diga que sim ou que não
Se continua a viver

Todo o amor que nos prendera
Se quebrara e desfizera
Em pavor se convertia
Ninguém fale em primavera
Quem me dera, quem nos dera
Ter morrido nesse dia

para saber mais sobre Mariza aqui.

quarta-feira, novembro 15, 2006

TERESA SÁ NA FNAC CASCAIS

Não me custa nada dizer que ela já é um dos maiores fotógrafos portugueses contemporâneos.
Se não, vejam seis exemplos. Magníficos.













Muitos outros exemplos estão expostos na Galeria da Fnac do Cascais Shoping.
Vão ver e depois digam.

ANTÓNIO GEDEÃO: OBRA COMPLETA


Há dias ouvi o Victor de Sousa recitar António Gedeão, e lembrei-me do professor Rómulo do Carvalho, que nós víamos passar pelos corredores do Liceu Pedro Nunes, por vezes vestido de bata branca, mas que nos inspirava uma admiração indescritível: “Lá vai o António Gedeão!, ” dizíamos entre dentes, como quem aponta o poeta e descobre o enigma. Todos gostavam do Rómulo de Carvalho, mas eu, que nunca o tive por professor, pois andava em “Letras”, gostava mesmo era do poeta António Gedeão.
Saiu agora, na "Relógio de Água", uma cuidada “Obra Completa” de António Gedeão. Comprei-a e vim pela Av. de Roma a folhear o calhamaço. Por sorte, abriu-o logo no poema que Victor de Sousa recitara na véspera e que me ficara no ouvido. Continuamos a falar de amor:

AMOR SEM TRÉGUAS

É necessário amar,
qualquer coisa, ou alguém;
o que interessa é gostar
não importa de quem.

Não importa de quem,
nem importa de quê;
o que interessa é amar
mesmo o que não se vê.

Pode ser uma mulher,
uma pedra, uma flor,
uma cosa qualquer,
seja lá o que for.

Pode até nem ser nada
que em ser se concretize,
coisa apenas pensada,
que a sonhar se precise.

Amar por claridade,
sem dever a cumprir;
uma oportunidade
para olhar e sorrir.

Amar como o homem forte
só ele o sabe e pode-o;
amar até á morte,
amar até ao ódio.

Que o ódio, infelizmente,
quando o clima é de horror,
é forma inteligente
de se morrer de amor.

Vou continuar com António Gedeão
(entre outras coisas)

FADOS NO SAMOUCO

Malhoa, "O Fado"

Gosto de fado. Gosto de fado em casas populares, e tascas, em restaurantes de província. Fado cantado por populares, “espontâneos”. Ontem fui aos fados, ao Samouco, que fica do outro lado do Rio, entre Alcochete e Montijo, por aí (não fui eu que conduzi!). Iam cantar dois jovens da ”baby generation” do fado, a Cátia Garcia e o David Ventura. Conheço ambos de espectáculos vários do La Féria, conheço melhor a loirinha, que apresentou ontem o meu filho Frederico à dona do restaurante “Cinco e ½” com um expressivo, “Este é Frederico, o meu namorado!” Percebem, portanto, porque fui aos fados? No Samouco. Não, foi mesmo porque quis. Gosto de fado, gosto da voz destes dois jovens, gosto da Cátia, gostei de ouvir três espontâneos, daqueles que aparecem nos intervalos das actuações dos “fadistas convidados”, um dr. João que cantou magnificamente fado de Coimbra, uma Maria do Carmo bem castiça e a Dina, dona do restaurante, que já trazia consigo um miudinha de três ou quatro anos, sua filha, que, se não canta ainda o fado, já cruza o xaile a preceito.
O fado está entranhado na alma portuguesa. É nestes pequenos restaurantes, espalhados por aqui e por ali, e nas tascas, que se percebe que o fado não morre. Pelas mesas, e no minúsculo palco, havia gente de todas as gerações, até um velho construtor de guitarras, perdido lá ao longe, num recanto solitário. Ouviu-se coisas novas e a Samaritana, o Zé Cacilheiro ou recordou-se Amália. O fado não morre. Faz parte desta gente que, de pescadores a doutores, não perde o tom, não esquece a toada nostálgica, “porque tudo isto existe, tudo isto é fado.” “… e deu-me esta voz a mim,” cantou a Cátia. E não está mal, não senhor!

domingo, novembro 12, 2006

O AMOR

O amor, sabem o que é?
Pode fotografar-se?
Está tudo aqui, basta ir ao post do dia 16.10.06.
Ou aqui, no post do dia 18.10.06.
Um abraço, Walter e Teresa.
E Nelson (a testemunha).
(apetecia-me roubar para aqui as fotos,
mas vão lá,
vejam na intimidade)

sábado, novembro 11, 2006

LAURO CORADO, meu pai

Coisas da Blogosfera


Há dias recebi um inesperado mail. Respondi, e voltaram a responder. A felicidade às vezes faz-se de tão pouco. Transcrevo a correspondência, como a autorização de ambas as partes, e antes de a transferir para o blog de meu pai.

November 07, 2006 11:48 PM

Olá!
Não sei como descobri o seu blog mas talvez porque eu escreva o meu blog mas, de facto, não faço ideia como vim aqui parar. Ao que interessa: nesta deriva que a internet e os blogs nos proporcionam descobri o seu nome, claro, e o do seu pai de quem fui aluna na António Arroio. Sem querer roubar-lhe muito tempo vou direita à memória prazenteira que tenho do meu professor Lauro Corado que um dia me disse tranquilamente: o teu trabalho é muito bom, o teu mau feitio também. Na altura fiquei furiosa, não percebi nada e saí porta fora deixando saco e tudo no meu lugar. A meio do caminho, corredor fora, dei-me conta do meu disparate e do elogio que, burra e cega e surda, não tinha compreendido. Voltei atrás e entrei tal como tinha saído: orgulhosa, teimosa e apressada. Junto à janela estava o seu pai que me olhou e sorriu: «Então?» E eu, malcriadona e parva resolvi responder: «Então o quê? Eu vim só para pegar nas minhas desculpas e...» Lapso freudiano! O seu pai já não sorria mas ria e eu humilhada em causa própria não tive outro remédio senão pedir desculpa e rir de mim. Uma boa lição de Lauro Corado que, obviamente, nunca lhe agradeci. Sei que chego tarde mas peça lá desculpa ao seu pai da parte desta aluna arrependida pelo eterno mau génio que alguém me deu.
Obrigada.
Fátima Rolo Duarte

November 08, 2006 12:19 AM

Fátima,
Foi um prazer ler estas palavras. Só por elas já valeu a pena ter um blog e ter sido "descoberto".
Sabe? Estou a construir um blog sobre o meu pai. Teria muito prazer em lá colocar esta sua missiva. Com a sua autorização.
Não precisarei de levar a mensagem ao meu pai. Ele "sabia" o que você valia. Às vezes o mau feitio é bom conselheiro.
Obrigado.
Lauro António

November 08, 2006 9:44 AM

Olá de novo!
Claro que sim. Claro que pode publicar o meu testemunho. Eu adorava o seu pai e como eu todos os alunos dele. Penso que havia uma espécie de concordância geral. A «malta» gostava das aulas do Corado pela qualidade humana dele. A paciência e a atenção, o tom informal. A obra gráfica do seu pai tem pontos altos notáveis.
Creio que o que ele sabia sobre o meu mau feitio era o que ele sabia sobre as pessoas, os alunos. Tinha, de facto, uma relação de professor, sem dúvida, mas sem ansiedade ou medo. Ao contrário da maioria dos professores, o seu pai não tinha medo dos alunos adolescentes, tantas vezes inconvenientes e chatos como compete a um genuíno adolescente, não é?
Quem agradece sou mesmo eu.
Fátima
Obrigado, Fátima Rolo Duarte. Eu também gostava muito do seu pai.

UM QUADRO, UMA JANELA...

Com base neste quadro de meu pai, Lauro Corado, o meu filho, Frederico Corado, fez várias variações, para incluir algumas delas, como uma espécie de leit motiv, no espectáculo "Conversa de Camarim" (ver post abaixo).
Boa ideia e boa homenagem ao avô. Aqui ficam as experiência que julgo muito curiosas, e que dinamizam bem o epectáculo.
O quadro

Janela 1
Janela 2
Janela 3
Janela 4
Janela 5
Janela 6
Janela 7
Janela 8
Janela 9
Janela 10

DIÁRIO DE UM DIA BEM PASSADO

15,00 – 20,00
MARIA SOBRAL MENDONÇA

Pintora.

Almoço na rua de São Mamede, amena conversa, seguido de viagem por duas galerias da Zona do Chiado, para ver quadros seus. Já os conhecia de catálogos, de vídeos (um de Edgar Pêra), mas olhando a contextura da tinta é outra coisa. Gosto da pintura e gosto da mulher. Prepara nova exposição sobre a “Libertação do Pecado”, segundo a religião judaica. "Tikurt". Faz pesquisas, inicia os trabalhos, vi um quadro desta nova fase. Já havia falado dela, acerca de um blog belíssimo “LAPIS EXILIS”, onde os seus trabalhos convivem com textos escritos por ela, trechos musicais, colagens. Conheci-a agora pessoalmente. Uma mulher encantadora, uma boa pintora que me apetecia filmar no acto de criar. Finalmente, numa esplanada sobre Lisboa e o Tejo, um fim de tarde bem passado. Outros amigos se reuniram. A Eduarda chegou também para irmos ao São Luiz.

21 H:
“O ASSOBIO DA COBRA”
SÃO LUIZ

Diz a promoção do espectáculo:
“O Assobio da Cobra” parte do disco “O Assobio da Cobra”, um bom disco, diga-se, feito de canções de Manuel Paulo que permitem as mais diversas interpretações e narrativas. Optou-se por uma. E por um espaço: um bar. O tempo da acção, esse, é o tempo de uma noite. Uma noite que termina. E que recomeça. Para simplificar, é, pois, a história de uma noite num bar. Com as suas personagens residentes e com as outras. Com a sua atmosfera própria e o perfume trazido por quem chega de fora. Se fosse literatura seria mais um conto do que um romance. Um conto feito de micro-contos – que deixa muitas pontas soltas, de forma a poder desafiar o espectador. E que se constrói algures entre o lirismo das canções, o “realismo sujo” dos diálogos, os humores das coreografias e as pausas na acção. O Assobio da Cobra não quer inventar mundos. É uma história sobre aquilo de que todos somos feitos: cobardia, coragem, medo, esperança, feridas, máscaras. Porque, tal como os gatos, à noite todos os homens são pardos. Baços. Cinzentos. Complexos. Exactamente como de dia.
O que acontece na realidade: 20 actores a tropeçarem no palco em busca de personagens, que não existem, e de um autor, que não se vê. Num bar, o completo naufrágio (em água tépida) de uma equipa onde há talento e um elenco onde há gente muito capaz.
Responsáveis: Texto: Nuno Costa Santos; Encenação: Adriano Luz; Direcção Musical: Manuel Paulo; Cenografia e Figurinos: Nuno Carinhas e Ana Vaz; Coreografia: Marta Lapa; Interpretação: Adriana Queiroz, Ana João Silva, António Durães, Carla de Sá, Diogo Infante, Félix Lozano, Isabel Abreu, Isabel Ribas, João Cabral, João Reis, Lia Gama, Luís Amarelo, Meredith Kitchen, Patrícia Vasconcelos, Pedro Laginha, e Vítor Barbosa; Músicos: Manuel Paulo (Piano), Massimo Cavalli (Contrabaixo), Rui Alves (Percussão), Ruben Santos (Trombone).

22, 40:
SÃO LUIZ CAFÉ

Magnífico bife. .

23,30:
"CONVERSAS DE CAMARIM"

SÃO LUIZ – JARDIM DE INVERNO

Entre 10 e 25 de Novembro, às Sextas e Sábados.
Uma viagem através do livro de Varela Silva “Camarim com Janela para a Rua”. Um palco, duas cadeira, um piano, três personagens, hora e meia de espectáculo que vale a pena. Nenhuma pretensão, uma conversa solta, ilustrada com canções e poemas, histórias divertidas e recordações amargas. Tudo isto com muito talento à mistura e uma mulher de génio, de raça, de bravura. Um Vítor de Sousa em boa forma. O trabalho do Frederico cumpre muito bem o que lhe pediram. Uma boa ideia que irei repegar noutro post.
Interpretação: Simone de Oliveira e Vítor de Sousa; Piano: Nuno Feist; Projecção em Vídeo: Frederico Corado; Produção: Fátima Bernardo, Casa das Artes, Lda

sexta-feira, novembro 10, 2006

A Blog (como agora se diz, diz ela):



Não esqueçam de ler este texto. Muito bom.