segunda-feira, junho 11, 2007

PARADA GAY EM SÃO PAULO

Dizem os organizadores, que eram 4 milhões a desfilar.

Na avenida Paulista.

O segundo maior acontecimento no Brasil, depois do Carnaval no Rio.

Vimos tudo, bem no centro da av.Paulista, bem no meio da Parada, junto à Rua Haddock Lobo.

Depois conto. com fotos da MEC.

A CONSTRUÇÃO DO OLHAR, I


Uma imagem constroi-se, todos o sabem. Há mesmo quem se refira a uma arquitectura da imagem. "Uma imagem pode ser construída, possuindo uma arquitectura que se revela pelas linhas horizontais, verticais, oblíquas e diagonais que a sustenta." (1) Esse suporte arquitectural, esse esqueleto invisível, muitas vezes, senão mesmo a maioria delas, organizado de forma instintiva pelo autor, é um dos processos que ele tem à mão para conferir um significado, um sentido, à imagem.
A este trabalho de construção da imagem, corresponde depois, por parte do seu espectador, um outro trabalho, que se pode aqui designar como de "construção do olhar" para através desse olhar se poder mentalmente "dês_construir" a imagem, descodificá-la, analisá-la, criticá-la ou mesmo deixar-se levar pela sua sedução.
"Ler uma imagem" é, de certa forma, compreender como ela foi concebida, como ela foi orientada desde a sua génese e com que intenções. É procurar acompanhar o processo de criação, desvendar o sentido desse processo, mas é mais ainda. Cada novo olhar é um olhar novo, e por isso ler uma imagem é também recriá-la segundo o nosso olhar.
Toda a obra de arte é diferente porque representa um sentir e um olhar singulares. Que lhe são oferecidos pela complexidade da personalidade de quem a realiza. Mas cada olhar sobre essa obra é igualmente um olhar original e irrepetível. Cada espectador é um espectador diferente, como cada leitor de um livro é um leitor diferente. Ninguém realiza a mesma obra de forma semelhante. Por exemplo, de um mesmo romance é impossível extrair duas adaptações iguais, dirigidas por autores diferentes. Mas também ninguém interpreta (lê) da mesma forma um romance ou um filme. Cada olhar é um olhar com história pessoal, sensibilidade diversa, experiências culturais e estéticas diferentes, que irão interferir, moldar, essa leitura.
A mais simples fotografia é uma imagem construída: basta enquadrar para se intervir no motivo que está a nossa frente. Quando temos uma paisagem perante nós, e optamos por enquadrar uma árvore, estamos a isolar um tema, logo a influenciar a visão de quem irá futuramente ver essa foto. Mas também a distância a que nos colocamos da árvore é outra forma de influenciar o olhar, bem assim como o facto de colocarmos a árvore mais para a direita, para a esquerda ou no centro da foto. Cada opção, representa um olhar distinto. Uma opção de sentido. Se escolhemos muito céu ou muito terra, é outro tipo de escolha, deliberada ou inconsciente, que irá definir um olhar - o de quem foca - e posteriormente influenciar a visão de quem observa a fotografia.


No cinema, que são 24 fotogramas por segundo, ou no vídeo que são 25 frames por segundo, tudo se passa de forma idêntica, mas ainda mais acentuada, dado existirem outras maneiras de sugestionar, de manipular o espectador, para lá das já referidas. Basta escolher filmar um plano fixo ou fazer um movimento. Um movimento, que pode ser uma aproximação ou um afastamento do tema, ou uma deslocação “a varrer” da paisagem da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Tudo tem o seu significado, quer se saiba ou não que se está a mexer com matéria muita susceptível em termos de significado.
A ignorância da lei, também aqui não é desculpa. Ainda que haja diferentes graus de responsabilização.
Nenhum gesto humano é inocente. Fotografar o casamento da filha ou o baptizado do sobrinho, pode parecer uma actividade sem segundos sentidos, mas eles estão todos lá, ainda que de forma muito incipiente. Agora imagine-se uma outra situação. Numa viagem de turismo, um par de namorados quer ser fotografado em Londres com o Tamisa ao fundo. Pede a um inglês que vai a passar para fazer o favor de carregar no botão, depois de enquadrar. O inglês limita-se a ser o mais eficaz possível, e muitas vezes corta as cabeças, degolando logo ali o promissor futuro daquele provável idílio. Ou então coloca o par tão à direita ou à esquerda do enquadramento que se arrisca a ficar só o bem amado Tamisa no centro da fotografia. Mas não importa. O que gostaria de referir é que esta fotografia é uma obra desinteressada (quem fotografa não está ligado emocionalmente ao tema), mas mesmo assim há quem esteja e vá influir no resultado final.
Para já o casal de namorados escolheu o Tamisa como fundo para a foto - referência geográfica, é certo, mas também referência sentimental. Depois, irá certamente colocar-se em frente à câmara de uma determinada forma, estudada - enlaçados, beijando-se, olhando-se olhos nos olhos, etc. Quer dizer: o tema é encenado, antes de ser fotografado. Temos assim, que de uma forma muito rápida e sucinta, uma fotografia, ou um filme, podem ser manipulados em frente da câmara - no que chamamos encenação do motivo, mise-en-scéne, dizem os franceses com inteira propriedade - e manipulados também na própria câmara de fotografar ou filmar ou gravar.
Não há fotografias inocentes. Nem filmes. Nem vídeos. Todos eles, de uma forma ou de outra, manipulam a realidade.
E estamos ainda no momento de construir a fotografia (ou o filme). A simples passagem pelo laboratório não é inocente, ainda que por vezes tudo se passe no domínio do puro arbítrio. Mas, volte-se à foto do casal de namorados em Londres, com o Tamisa por cenário. Se o laboratório escurecer a foto, adensando as nuvens, conferirá à foto um dramatismo que certamente os seus protagonistas não pretendiam. Se o tempo de revelação for menor, a cor sairá muito mais clara, senão mesmo esbranquiçada. Num laboratório industrial de uma qualquer casa de fotografia, muitas vezes estes efeitos, quase sempre indesejáveis, são fortuitos. Num laboratório especializado para revelação de película de cinema, nada é deixado ao acaso, desde a etalonagem que procura criar uma continuidade cromática, até aos efeitos visuais mais sofisticados.
Vemos assim que muitas são as maneiras por que se constrói a imagem. Essa construção da imagem é uma das funções do artista e da arte. Quer ele seja pintor, fotógrafo, realizador ou desenhador de banda desenhada. E se muitas são as formas de construir a imagem, de erguer a obra, muitas serão também as formas como ela pode ser usufruída pelo espectador que a ela tem aceso. Falamos já do olhar de quem a vê.

Fotos: "Citizen Kane", de Orson Welles


(continua)

NOS TEMPOS DE "GABRIELA"


Fala-se tanto em telenovelas que me apeteceu recordar como tudo começou em Portugal. Há trinta anos atrás. Eramos jovens e virgens de telenovelas. Apareceu "Gabriela, Cravo e Canela."


O aparecimento da telenovela “Gabriela” em Portugal foi um acontecimento único, a vários níveis. Desde logo, porque marcou a estreia do formato telenovela diária nos écrans portugueses. Depois porque, sendo uma obra adaptada de um romance de Jorge Amado, garantia à partida uma qualidade e interesse acima da média (não o sabíamos nessa altura, mas viemos a confirmá-lo posteriormente: “Gabriela” foi, se não a melhor, uma das melhores telenovelas produzidas no Brasil). Depois, tanto criadores e técnicos, a começar pelo realizador Walter Avancini, como o elenco, eram de primeiríssima grandeza, com Sónia Braga, José Wilker, Armando Bogus, Dina Sfat, Paulo César Pereio, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, e tantos outros, em plena forma e carreiras ascensionais.
Era uma delícia descobrir estes actores e vê-los trabalhar com o sabor de uma língua portuguesa re-criada, re-inventada. A história era magnífica, a forma como as situações se multiplicavam e se entrechocavam um modelo criativo brilhante, os cenários naturais espantosos, descobrindo-nos, a nós portugueses, uma cultura e uma civilização irmãs, onde nos víamos igualmente reflectidos com nitidez.
Portugal parava diariamente à hora da telenovela, o parlamento fechou mais cedo nos derradeiros dias da sua exibição, todos os programas se organizavam em redor do episódio do dia - não era alienação colectiva, era apenas o sedutor poder do espectáculo no seu melhor. A sociedade portuguesa transformou-se obviamente assistindo a esta obra: adoptou o sotaque brasileiro como segunda língua, adoptou as actrizes e os actores brasileiros como vedetas indispensáveis em qualquer festejo fraterno, adoptou usos e costumes, expressões idiomáticas, e começou a rebolar a bunda ao som do samba. Calmamente. Ao ritmo nacional.
Depois, houve algumas outras telenovelas que quase roçaram o céu (estou a lembrar-me por exemplo de “Roque Santeiro”), mas o milagre não voltou a surtir o mesmo efeito. “Gabriela” foi o estado de graça irrepetível. Como será revê-la, hoje em dia, quase trinta anos depois? Certamente um prazer, mas não um prazer igual ao primeiro. Saravah!


sexta-feira, junho 08, 2007

A ESCOLA DE VILA NOVA DE POIARES

Leio e pasmo.
Aliás há anos que pasmo com o que acontece com as chamadas praxes académicas, invenções brutais e verdadeiramente aberrantes que anualmente se renovam perante o olhar cúmplice de autoridades, académicas e outras. A praxe, e tudo o que está relacionado com esse mau costume medieval, há muito que deveria ter sido erradicada, numa sociedade moderna. Mas não foi até hoje, e todos os anos há mais motivos para preocupação.
Agora em Vila Nova de Poiares, leio nos jornais, um aluno, dois alunos, sofreram de um costume (há dez anos que ocorre, claro que é um costume, uma tradição a preservar, como todas as boas tradições!) que consiste em ser colocado na horizontal pelos colegas, ver, obviamente contrariado, as suas pernas abertas, e ser atirado violentamente contra o tronco de uma árvore ou um poste. Provoca "ligeiras" escoriações nos órgãos genitais do indivíduo que está a ser agarrado pelas bestas e é por elas atirado contra o poste, mas nada que não faça soltar umas valentes e alarves gargalhadas que tudo justificam. Há dois alunos hospitalizados, ou a receber tratamento. Um deles teve de sair dessa escola e agora anda na de Penacova, para não sofrer represálias dos colegas que denunciou. Como é possível? O agredido teve de sair da escola, para os agressores não o continuarem a maltratar? Os prevaricadores continuam impunes, a vítima é sancionada? Estado de direito? Uma ova!
Mais: há dez anos que esta prática se cumpre. Que fazem as autoridades de Vila Nova de Poiares? Assobiam para o ar? Aquilo é terra de faroeste? Não há lei? Que fazem as autoridades escolares? Refugiam-se atrás das bestas que inventaram este “saudável” costume (que é já uma tradição da terra!)? Que fazem as demais autoridades, civis e militares? Anda tudo distraído? Há dez anos e nunca ninguém viu ou soube da existência de tão estranho costume? Ou, perante tal prática, não há ninguém nesta terra com tomates para acabar com este costume que transforma os ditos cujos em polpa de tomate?
Os professores que fazem greve por isto e por aquilo (algumas vezes com razão, é certo!), não se incomodam com estes casos? Não fazem nada? O Conselho Executivo da referida escola não explica o que fez, nem quais os castigos aplicados, se os houve, nem quais as medidas tomadas para impedir futuros casos. Parece que se vive nos domínios da KKK. Até quando?

alunos de Vila Nova de Poiares, preparam novas tradições.

CINEMA: "DIAS DE GLÒRIA"

“DIAS DE GLÓRIA” PARA “INDIGÉNES”


História comum em países colonialistas, mas história pouco contada, tanto por colonizadores como por colonizados, esta do recrutamento e intervenção militar de milhares de cidadãos das colónias na defesa “das Pátrias mães”, quando estas se encontram em risco e entram em guerra. Com “Dias de Glória” (Indigènes), de Rachid Bouchareb, olha-se o caso dos soldados africanos do Magreb que lutam contra os alemães na Europa invadida, em defesa da Mãe-França. Em Portugal poderia estudar-se e documentar-se fenómeno idêntico, sobretudo nas Guerras Coloniais, a partir de 1961, quando milhares de africanos, recrutados nas diferentes “províncias ultramarinas”, são instruídos e enquadrados nos contingentes militares portugueses para defender “a integridade do território nacional”. Esta é uma situação vulgar em quase todos os países com colónias, mas uma situação que deixa certamente um travo bem amargo em todos os participantes, o que tem levado a que seja tema a evitar. Um sentimento de culpa deve estender-se a todos os campos intervenientes que parecem preferir esquecer os factos a abordá-los frontalmente. A polémica que o filme de Rachid Bouchareb provocou em França, antes mesmo da estreia oficial, e posteriormente (depois da sua apresentação no Festival de Cannes, onde o elenco masculino conquistou, em bloco, o Prémio de Melhor Interpretação), não deixa de ser significativa. Falou-se um pouco de tudo e falou-se quase sempre mal, não deixando de vir ao de cima ressentimentos e fantasmas. Por seu turno, a maioria da crítica cinematográfica portuguesa, remetendo o filme para a banalidade académica das obras de guerra que não ficam na História, e dedicando-lhe pouco mais do que meia dúzia de linhas a despachar o filme, acabou por prestar um mau serviço ao público em geral: o filme passou despercebido na voragem dos “blockbusters” de Verão que o engoliram por completo entre um “Homem Aranha” e um “Piratas das Caraíbas”. Na noite em que o vi, numa sala do “El Corte Inglés”, estavam 5 pessoas na plateia. A obra, não sendo esteticamente um produto brilhante, nem de arrojada concepção, merece todavia muito mais e vai figurar, desde já, entre os filmes que fizeram História, não apenas História do Cinema, mas História na sua acepção mais vasta. O cinema tem essa vantagem, a de não ser apenas arte e estética, mas poder ser olhado sob muitos outros prismas.

Soldados africanos na Europa
Em 1943, muitos milhares de homens são recrutados em territórios magrebinos para ingressarem nas fileiras do exército francês e defenderem a divisa da Revolução Francesa, “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, contra a invasão nazi da Europa. Nos acontecimentos que nos são relatados, essas tropas entram na Europa por Itália, passam por Marselha, onde têm uns dias de descanso, voltam a intervir na Provença e mais tarde defendem uma aldeia nos Voges até à chegada dos americanos. São já apenas quatro soldados (um deles promovido a cabo, em desespero de causa) e um sargento, ferido e acamado. Lutam até à morte, com pistolas e espingardas contra bazucas. Sobrevive um que conta o feito e o preserva para a História.
Com argumento escrito pelo próprio realizador Rachid Bouchareb, de colaboração com Olivier Lorelle, “Dias de Glória” centra a sua atenção particularmente em cinco personagens precisamente aquelas com que o filme termina no episódio de Voges: Abdelkader (Sami Bouajila), um soldado corajoso e determinado que sabe enfrentar e vencer os obstáculos e tenta ultrapassar os preconceitos de superiores e da própria instituição militar. Facilmente assume a situação de um comandante e, por isso mesmo, quando o sargento é gravemente ferido, passa a ser o cabo que chefia o reduzido grupo e aceita defender uma aldeia da investida dos “boches”, resistindo até à chegada dos americanos. Não hesita também, anteriormente, em confrontar-se com o sargento Roger Martinez (Bernard Blancan), um árabe que passa por francês, mas que, apesar da sua aparente conduta desapiedada e fria, procura sempre defender “a sua gente”, ainda que não colocando em jogo a sua situação de assimilado. Para além destas duas figuras que predominam pela personalidade há ainda a referir os outros três companheiros sobre que repousa igualmente a obra: Messaoud (Roschdy Zem), um romântico que se apaixona por uma belíssima francesa durante a licença que passa em Marselha, e que irá desencadear uma das mais conseguidas cenas desta obra; Yassir (Samy Naceri), que perde o irmão quando são surpreendidos num campo minado, e cuja grande meta é ganhar dinheiro com os despojos deixados nas trincheiras pelos inimigos mortos; finalmente, Saïd (Jamel Debbouze), homem complexado e carente (que faz toda a guerra sem um braço), que deixa na terra natal um mãe que o não quer deixar partir, e que será “adoptado” pelo sargento Martinez, advindo daí situações complexas nem sempre resolvidas de forma airosa. Said oscila entre uma dedicação que roça o amor e o desejo de morte, que rapidamente contradiz e que o leva ao acto de generosidade total. São estas figuras e a forma como argumentistas, realizador e, sobretudo, actores as defendem com um brio inexcedíveis que consolidam um dos trunfos da obra, precisamente essa forma convicta de crer na veracidade das personagens e no seu comportamento psicológico.
Julgo que a personagem central de “Dias de Glória” é o sargento Martinez que é desenvolvido a vários níveis e numa multiplicidade de direcções que o tornam verdadeiramente fascinante, por ser contraditório, nada simplista, inesperado, complexo: tão depressa é o sargento brutal de uma recruta desapiedada, como o companheiro nos momentos difíceis, tão rápido é o arrogante e brutal muçulmano cujas raízes são descobertas pela sua ordenança, que logo desanca e expulsa do seu convívio, como é o arauto dos direitos ofendidos (veja-se a cena dos tomates, que se destinam somente a soldados continentais, os muçulmanos não os podem comer, e que o sargento Ramirez resolve com a ajuda de um superior hierárquico).

Indígenas
De resto, o filme não traz efectivamente nada de novo a nível de estrutura narrativa, de estilo, de arrojo formal. Plasticamente interessante a forma como evolui de uma foto a preto e branco para uma paisagem a cores, de cada vez que se introduz um novo capítulo nesta sequência que avança à base de episódios históricos que se sucedem cronologicamente, “Indigènes” fala-nos precisamente de “Indígenas” que, segundo os dicionários, são seres oriundos de uma determinada região, mas que, na gíria militar e colonialista, se referem de forma depreciativa a seres oriundos de uma determinada região colonizada.
Explique-se ainda que o termo tem proveniência biológica: indígena representa inicialmente em biologia “um adjectivo que qualifica uma espécie endémica cuja evolução se faz no local onde nasceu.” Mas os franceses, no seu dia a dia, chamavam “indigène” a "um indivíduo não civilizado" ou "alguém que não era cidadão de pleno direito da República". Também militarmente o termo teve conotações pejorativas. Para identificar o mesmo, sem carregar o peso depreciativo, usa-se “natural”, “autóctone”, “local”, “aborígene” ou “nativo”, por exemplo.
“Indígenas”, no filme a que nos referimos, são aqui os muçulmanos do Norte de África, os negros de África, os asiáticos do Vietname. Ou seja, todos os povos colonizados, então a lutarem pela França. Nós por cá também falávamos dos “indígenas” de Angola, de Moçambique ou da Guiné. Os “Indígenas” forneciam trabalho braçal barato em tempo de Paz, serviam de “carne para canhão” na guerra: eram eles que iam à frente, que abriam caminho, que saltavam pelos ares com as minas, que eram dizimados pelo fogo inesperado dos inimigos entrincheirados, eram eles os mais sacrificados, em suma. À distância, os coronéis e os generais seguiam as operações de binóculos, avançavam com o campo já mais livre, desbravado, passeavam de jeep por entre as tropas a quem dirigiam palavras de apreço quando colhiam os louros da operação coroada de sucesso. Quando um jornalista pergunta o número de baixas, eles desviam sabiamente a conversa para o sacrifício que esta heróica gente acabou de cometer, e insistem: “Não se esqueça de escrever isso! Não se esqueça!” Mas também os jornalistas levam a lição bem sabida: quando ao americanos chegam a Voges, as fotografias para a posteridade são tiradas aos “bravos franceses”, brancos e continentais, esquecendo-se totalmente os muçulmanos que deram a vida por aquele monte de terra que não era a sua, mas que defenderam em nome da França. Até á morte. Quem vai comprar o “Paris Match” são franceses continentais que poderiam chocar-se com fotos de árabes.
Neste ponto há ainda um episódio que merece ser sublinhado, pelo seu significado: como já vimos, um dos soldados magrebinos tem uma fugaz história de amor com uma marselhesa. Prometem esperar um pelo outro, e escreverem-se. Mas nenhum deles recebe as cartas que um e outro sistematicamente vão escrevendo. Uma censura intermédia anula o diálogo. Com que intenção? Possivelmente a primeira será evitar que se dêem a conhecer pormenores secretos das operações militares. Mas haverá uma segunda, seguramente: eliminar qualquer hipótese de se prolongarem “romances” de todo em todo mal vistos futuramente, depois da guerra acabar. “Franceses” sim, mas só até certo ponto.

excerto de um artigo a aparecer no número de Julho da revista "História"

terça-feira, junho 05, 2007

EXPOSIÇÃO: JOÂO CONCHA NO CARTAXO

ALICES, SEM TÍTULO
Não é a primeira vez que falo dele neste meu blogue. Já noutras ocasiões escrevi sobre o Intruso, blogue de João Concha, arquitecto, designer, ilustrador, pintor, e afável bloguista, de traço elegante e sóbrio, aparentemente homem tímido e reservado, mas senhor de uma forte personalidade que se esconde por detrás de uma discreta bonomia e transmissível simpatia. Pois o Intruso inaugurou no passado sábado, dia 2 de Junho, na Casa da Cultura do Cartaxo, uma exposição chamada “Alices, sem título”, que é uma excelente afirmação do seu talento, para quem não o conhecia ainda.
João Concha nasceu em 1980, em Évora, e aos 18 anos vem para Lisboa, onde se licencia em Arquitectura. Agora esta exposição afirma-o como ilustrador e pintor sensível, inventivo, iconoclasta. A ter em conta, a partir de hoje. Por mim, já o tinha em conta há mais tempo, descoberto que foi nas ilustrações do seu blogue, onde vi e assinalei os esboços iniciais destas “Alices”. A partir desse contacto, convidei-o para um projecto comum (que talvez se concretize, ele o dirá!), por acreditar obviamente na justeza do seu traço. Mas estas “Alices” confirmam-no, para quem o não conhecia.
João Concha pega na personagem de Alice, tal como a conhecemos das gravuras de Sir John Tenniel (que ilustrou a primeira edição da obra de Lewis Carroll), e coloca-a nos mais diversos contextos, muitas vezes a fugir aos contextos, outras quase só pressentida nos contextos, e relança-a para novas leituras. Ou para nenhuma leitura outra que não seja a do seu diálogo com a matéria gráfica, as texturas, as tintas, a plasticidade da matéria, as cores, as formas, as proporções, a miniatura aqui, o gigantismo acolá, o pulsar de um coração, a presença de um botão que o deixa de ser ou de um pente que se metamorfoseia, uma porta a abrir para o mistério, a ameaça desconhecida, uma fuga de um campo verde (este é meu, cheguei tarde para optar por outros, mas gosto muito deste, para que estou a olhar na foto que a MEC me tirou).

Boa a exposição e muito boa a Casa da Cultura do Cartaxo (que tem acoplado um Auditório, onde cheguei tarde para ver o Bruno Schiappa no seu novo espectáculo, mas ele não perde pela demora, que o apanho por aí, noutra ocasião).
“Terra do Vinho”, como aparece escrito por cada canto da cidade, o Cartaxo já foi minha passagem regular quando ia visitar o João Maria Tudela, a Filomena e as crianças, que por ali perto têm casa, na Lapa, e quando o Frederico gravava “A Estrela” na Eireira (com a amigável colaboração da Maria do Céu Guerra e do Camacho Costa, saudade Camacho!). Mas há muito que por lá não passava e está uma terra bonita, na meia hora de entardecer que deu para ver a percorrer as ruas à volta da Câmara Municipal. Come-se razoavelmente bem no “Batalhoz”, onde vi Portugal ganhar à Bélgica, e, de volta, a excursão que regressou a Lisboa por estradas de um Portugal profundo, deu certamente por bem empregue esta fuga à rotina, esta viagem ao outro lado do espelhos destes citadinos empedernidos que, todavia, não se cansam de procurar “Alices” um pouco por todo o lado, mesmo “sem titulo”, quiçá mesmo sem títulos para melhor a compreenderem e adoptarem.
Assim foi, e ficam algumas fotos para o documentar.

Casa da Cultura do Cartaxo. Ex. Noite

Fotos de MEC, LA e S.

domingo, junho 03, 2007

PRENDA DE ANOS

PEDRO ROLO DUARTE ESCOLHE
"O BLOG DA SEMANA" NA RDP
Um bom presente de aniversário.
A A. envia-me um link para ouvir o programa do Pedro Rolo Duarte,
na RDP ("Janela Indiscreta" de 18.5.2007)
dedicado ao blogue da semana: "Lauro António Apresenta".
Quem tiver curiosidade de ouvir, aqui fica o link:
Obrigado à A. (eu não sabia da referência).
Ao Pedro Rolo Duarte não agradeço.
Não se agradecem referências destas,
que não se fazem para serem agradecidas.
Mas vai daqui um abraço.
É sempre bom ouvir uma voz a reconhecer
um trabalho que se faz com muita paixão.

sábado, junho 02, 2007

PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

Há um ano "no ar".

Um abraço a todos os que visitam este blogue.

WOMEN IN ART

Ela diz sobre "Women in Art": "Para quem gosta de arte, de mulheres ou simplesmente de boas idéias, bem concretizadas."
Ok. É isso mesmo. Roubei para aqui. Pelas imagens passam quase todos os rostos de mulheres que conheci. Atentem e verão se não é verdade.

sexta-feira, junho 01, 2007

VAVA.DIANDO COM LIDIA JORGE

LÍDIA JORGE


Jantar e tertúlia inesquecíveis com Lídia Jorge, no passado dia 30, no VáVá.Diando. Quase setenta convivas (e se mais espaço houvera, mais seriam), para ouvir a escritora e conviver. Aqui ficam algumas fotos, muitas das quais para satisfazer a curiosidade de quem não foi. Vários autores de blogues se encontravam por ali. Pintores, escritores, juízes, publicitários, designers, professores, bailarinas, engenheiros, advogados, gente dos jornais, da televisão, da rádio, e etc., e etc. Muitos frequentadores habituais do VàVá, muito bloguistas, muitos amigos atraídos de outras bandas. Um encontro excelente, magistral por parte de Lídia Jorge, que falou da escrita, da inspiração e do suor, da construção da obra, de como esta nasce por vezes mercê de um acontecimento banal ou de uma inspiração de momento, da “pedra que se atira para o longe assinalando o fim, e com a qual se tem de ir ter”, enfim o mistério da escrita tornada canção de embalar na voz suave e rigorosa de uma das maiores escritoras portuguesas contemporâneas.









fotos: MEC

quarta-feira, maio 30, 2007

LIVROS: "CIDADE PROIBIDA", DE EDUARDO PITTA

“CIDADE PROIBIDA”


Devo confessar: comprei o livro sem grandes esperanças, nem desesperanças. Nada sabia do autor a não ser que era nosso companheiro da blogosfera, que assinava e escrevia, quase na íntegra, um bom blogue, “Da Literatura”, e que lera dele, aqui e ali, críticas literárias interessantes. Chama-se Eduardo Pitta, o romance de estreia é “Cidade Proibida”, e, pelo que percebi ao folheá-lo na Fnac, é uma obra daquelas que muitos vão catalogar de “literatura gay” e colocá-la na banca assim denominada. Esta classificação parece-me de todo inqualificável, a não ser para facilitar vendas: os gays que procuram “literatura gay” vão àquela banca e escusam de se perder no meio da “literatura hetero”. Mas haverá “literatura gay”? Óscar Wilde e E.M. Forster são “literatura gay”? E Somerset Maugham? E Jean Cocteau? Ou serão simplesmente literatura?
Para mim basta-me que seja boa literatura, muito boa mesmo. Ora Eduardo Pitta surpreendeu-me em toda a linha. Li “Cidade Proibida” de um fôlego, e não por ser gay, e não também pela história que conta, mas sobretudo pelo estilo, pela vertigem da narrativa, imparável, pelo toque blasé, mesmo um pouco snobe que impõe e mantém com uma frescura notável ao longo de toda a obra, e que relembra o magnífico dandismo de Óscar Wilde, aqui retocado por um look muito pós-moderno. Óbvio que também se pode chamar à conversa o “Maurice”, de E.M. Forster, mas curiosamente a escrita lembrou-me mais a de alguns escritores americanos da década de 90, como Bret Easton Ellis (“Psicopata Americano”, entre outros), repleta de referências muito precisas a cidades, locais, marcas… Há um gosto pelo rigor matemático na escrita que poderia ser fastidioso, mas funciona precisamente ao contrário, é exaltante. Não há muitos pormenores, a escrita corre ágil, mas há uma precisão insuspeitada. Um exemplo à sorte do abrir da página: “Nessa tarde não voltou ao Instituto. Andou a pé horas a fio e só quando o corpo cedeu descansou num banco do Campo dos Mártires da Pátria. Depois foi à Trindade comer um prego e a seguir meteu-se na sauna do Largo da Misericórdia.” Um rigor que leva o autor a abrir o seu romance com uma “Tábua de personagens” onde refere e sinaliza cada personagem e cada família: Martim, dos bem instalados Moncadas, português dos Estoris, que estuda em Inglaterra e encontra em Portugal Rupert, dos Davies, proleta inglês que dá aulas no British Council (e não no Instituto Britânico, pormenor que faz toda a diferença no tom do livro). Vivem juntos, são homossexuais, cruzam-se com um vasto elenco de personagens e não há muito a contar desta história que poderia ser igual a tantas outras se não a distinguisse o tom em que está contada. O que transforma este romance, para mim, numa das revelações dos últimos anos.
É evidente que temos de fazer uma referência ao teor homossexual do livro. Obras “maricas” é o que há cada vez mais. Escritas amaricadas, “poéticas”, como que a desculpar “a coisa” com o sentimentalismo balofo das “emoções em êxtase.” Aqui não há nada disso, esta é uma história de amor e sexo igual a qualquer outra, o realismo de certas situações quase faz esquecer que os amantes são do mesmo sexo. São pessoas que fazem sexo. Assumidamente. Sem má consciência. De resto as descrições deste tipo são as que são, as precisas, as indispensáveis, não se especula com o facto.
Um excelente romance de um autor nascido em Lourenço Marques a 9 de Agosto de 1949, e que viveu em Moçambique até Novembro de 1975. Poeta, ficcionista, ensaísta e crítico literário do jornal Público, escreve e publica desde 1967. Entre 1974 e 2007 lançou oito livros de poesia, uma colectânea de contos, quatro volumes de ensaio e crítica, e um diário veneziano. Num desses ensaios, “Em Fractura, ensaio sobre a condição homossexual na literatura portuguesa contemporânea”, “sinaliza representações da homotextualidade nacional numa perspectiva que não elide a “negociação de identidade”. Colaborou em publicações literárias de vária índole. Entre 1994 e 2005 manteve na revista LER a coluna de crítica O Som & o Sentido. Mantém desde 2005 o blogue Da Literatura. Em ficção, Eduardo Pitta, editou, e reeditou agora, livro de contos “Persona”. Vou procurar.



Um excerto de “Cidade Proibida”

“Assim que decidiram viver juntos, Martim e Rupert procuraram casa num triângulo cujos vértices eram o Príncipe Real, a Praça das Amoreiras e o Saldanha. A escolha recaiu num andar da Rua Mouzinho da Silveira, originalmente destinado a um arquitecto que desis­tira dele. Rupert continuava a achar absurdo o preço das casas portu­guesas, e não queria comprar, mas um dia Martim apareceu-lhe nas aulas com as chaves.
- Podes passar a vir a pé para o emprego...
Rupert vivera até então em Carcavelos, numa espécie de comuna que partilhara com professores ingleses de ambos os sexos. Apanhava o comboio todos os dias, seguindo depois a pé do Cais do Sodré para o Instituto.
- Anda, vem ver. Depois almoçamos no Pabe.
Com o skyline das colinas a toda a largura das janelas e o rio ao fundo, a vista do 4.° andar era magnífica. A casa estava vazia, só se mudaram ao fim de dez dias, mas Rupert ficou logo impressionado com a luminosidade, o soalho, o recorte dos estuques, o fogão de sala com sólidas guardas de bronze, o granito rosa das casas de banho e a tralha hi-tech da cozinha. Foi justamente na cozinha que Martim o comeu. A mesa era larga, tinha boa altura e um tampo surpreenden­temente macio. Não se lembra qual dos dois chupou primeiro o outro. Lembra-se da luz crua do sol, de ter arrancado as calças e os briefs de Rupert, obrigando-o a dobrar-se no tampo de pedra negra, ao mesmo tempo que com a mão aberta lhe apertava a garganta à medida que o penetrava. Nunca tinham fodido de pé. O orgasmo foi praticamente simultâneo, sem que Rupert tivesse necessidade de se tocar. Nessas ocasiões, Martim afrouxava a pressão dos dedos para melhor sentir estremecer o corpo do companheiro.
Quando entraram no restaurante, a mesa predilecta de ambos, no canto à esquerda de quem entra, estava vazia. Milagre! Martim largou a pasta junto ao vitral e dirigiu-se ao balcão.
- Farinha, prepare dois Bloody Mary. Também queremos almoçar, eu sei que é um pouco tarde, mas diga ao Lopes que somos nós.
- Então o senhor doutor não sabe?
- Não sei o quê? Era o 11 de Setembro.
Nessa manhã Martim não tinha ido à empresa, viera para Lisboa com o fito de mostrar a casa a Rupert. O telemóvel continuava na pasta, provavelmente desligado, e Rupert, com a pressa da saída, esquecera-se do seu no Instituto. A notícia provocou neles um estupor que durou dias. Esqueceram o almoço e foram para casa de Nora. A televisão repetia incessantemente as imagens dos aviões a embater nas torres. Quando a primeira desabou já eles estavam em casa. Martim julgou ouvir ranger os dentes de Rupert mas o eco da reportagem triturava tudo. Nora, que também tinha ido para o Estoril, entrou na biblioteca no exacto momento em que uma gigantesca onda de detritos engolia as ruas à volta do WTC. Ficou parada a ver de longe, as mãos apoiadas na mesa de jogo, e depois avançou devagar, colocando-se no meio dos dois e enlaçando-os pela cintura. Nenhum dos três falou, olhos vazados no ecrã.
Martim saiu de casa da mãe no dia 21.”
In “Cidade Proibida”, de Eduardo Pitta, pag. 33-34, Ed. Quidnovi, Matosinhos, Lisboa, 2007

Ver mais sobre Eduardo Pitta em: http://www.eduardopitta.com/index.html

terça-feira, maio 29, 2007

VAVA.DIANDO COM LÍDIA JORGE

6 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A V Á . V Á . D I A N D O
30.05’07: 20H
R E S T A U R A N T E - C A F É V Á V Á

CONVIDADO ESPECIAL:
LÍDIA JORGE
VOCAÇÃO DE ESCRITORA

DEPOIS DE RAUL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO e IVA DELGADO, CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, REATANDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.


LIDIA JORGE, ESCRITORA, UM DOS VULTOS DA CULTURA PORTUGUESA CONTEMPORÂNEA, ESTARÁ NO CENTRO DE MAIS UM DEBATE. “COMBATEREMOS A SOMBRA”, SUA ÚLTIMA OBRA.

TODOS ESTÃO CONVIDADOS MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA SIMBÓLICA QUANTIA: 12,5 EUROS POR PESSOA.
COM DIREITO A SOPA (DE ALHO FRANCÊS), UM PRATO DO DIA, PEIXE (FILETES COM SALADA RUSSA) OU CARNE, (ARROZ DE PATO) SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

RECUPEREM O BOM GOSTO DE UM SABOROSO JANTAR E DE UMA RECONFORTANTE CONVERSA À RODA DA MESA.
[ LOTAÇÃO LIMITADA A 45 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]

Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO / [ Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/ ] [ mail: laproducine@gmail.com ]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761)

LIVROS, FILMES E HISTÓRIA

O VÉU PINTADO

“.. esse véu pintado a que os que vivem chamam Vida.”


“The Painted Veil” é um excelente romance de W. Somerset Maugham e resulta num agradável filme de John Curran (2006). O mesmo romance já merecera várias adaptações ao cinema, duas das quais bastante citadas, uma de 1934, interpretada pela divina Greta Garbo, ao lado de Herbert Marshall e George Brent, numa realização de Richard Boleslawski, outra dirigida por Ronald Neame, em 1957, com Eleanor Parker, Bill Travers, Jean-Pierre Aumont, George Sanders e Françoise Rosay, que nas salas de cinema se chamou, de forma bem mais picante,"The Seventh Sin".
O romance "The Painted Veil" encontra-se ao nível do melhor de W. Somerset Maugham, podendo colocar-se ao lado de “A Condição Humana” ou “O Fio da Navalha”, na mesma linha de “As Paixões de Júlia” ou “Um Gosto e Seis Vinténs”. W. Somerset Maugham é, aliás, escritor de múltiplos talentos que sempre entusiasmou os seus leitores e deixou uma marca profunda no cinema, onde muitos trabalhos seus tiveram vida prolongada e, por vezes, saudáveis adaptações. Durante algum tempo era dos escritores contemporâneos mais conhecidos do universo da escrita anglo-saxónica, dos mais traduzidos por esse mundo fora. Depois atravessou uma zona de obscuridade, durante a década que terminou o século XX, mas ressuscitou em força com o dealbar do século XXI, com clara intenção de se estabilizar novamente entre os nomes mais correntes da literatura e dos autores mais vistos no cinema. A sua obra tem não só qualidade como uma actualidade resistente, uma elegância de estilo que cativa, uma temática eterna.
Esta nova adaptação de “O Véu Pintado” parece ficar a dever-se essencialmente ao actor Edward Norton que, conjuntamente, com a colega Naomi Watts são co-produtores do filme. Ele vivia entusiasmado com a perspectiva de interpretar em cinema a personagem do bacteriologista Walter Fane. Boa aposta, diga-se desde já, pois a sua composição, de um rigor e disciplina inexcedíveis, é uma das bases do sucesso desta obra, encabeçando aliás um elenco muito homogéneo, onde se contam ainda os nomes de Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Diana Rigg ou Juliet Howland. Mas foi Edward Norton quem batalhou para que o realizador John Curran e o argumentista Ron Nyswaner conseguissem levar a sua ávante.

Em meados dos anos 20 do século XX, em Inglaterra, Kitty Fane (Naomi Watts), filha de família remediada, mas com problemas de afirmação social, mãe dominadora e pai demissionário, descobre que a única forma de se libertar dessa tentacular rede de humilhação familiar é mesmo aceitar casar com o primeiro pretendente que lhe apareça. Ele é Walter Fane (Edward Norton), um bacteriologista que trabalha num laboratório governamental inglês na China. Ela não gosta dele, para ser sincera ele é-lhe completamente indiferente, acha-o mesmo algo estranho, metido consigo e distante, mais tarde dir-lhe-á que sempre o achou “fisicamente repulsivo”, mas, talvez por todo esse conjunto de impressões, aceita o pedido de casamento e parte para Xangai.
Em Xangai não demora muito a afeiçoar-se a Charlie Townsend (Liev Schreiber), vice-cônsul, uma homem sedutor e galante que rapidamente leva Kitty para a cama, ainda por cima uma cama em casa do bacteriologista, onde são pressentidos, mas não descobertos. Walter prefere não abrir a porta do quarto, apenas rodar a maçaneta e deixar a mulher perante o dilema da dúvida: será que fui apanhada ou não? Mas tudo se precipita a partir daí: numa aldeia chinesa a cólera explode com intensidade inusitada, o médico local morre, é preciso alguém para o substituir e Walter, apesar de não praticar clinica, é especialista em epidemias, e oferece-se para o lugar. Mas é nesta altura que irá estabelecer a sua vingança. Kitty terá de o acompanhar. Ela protesta, “que loucura, não quero ir, já viste a situação em que me colocas?”, mas ele não desiste. “Julgas que não sei do teu adultério?”, pergunta. Kitty cai em si. Percebe que não terá nenhum divórcio amigável, fica desorientada. Walter faz-lhe uma proposta irrecusável: “Vai ter com Charlie Townsend, se ele se divorciar para casar contigo, no prazo de uma semana, eu dou-te o divórcio e parto sozinho para Mei-tan-Fu.” Kitty corre para Charlie Townsend mas este descarta-se do caso, não pode abandonar a mulher, a carreira, etc. Kitty percebe que investiu demasiado num homem que apenas se queria divertir. Regressada a casa, aceita partir para a morte: – “Suponho que não devo levar mais do que meia dúzia de roupas de Verão e uma mortalha, pois não?”
Partem, por terra, dez longos dias de sofrimento físico e moral, levados pelas montanhas em liteiras, cruzando-se com cadáveres em busca de sepultura, até chegarem ao âmago do desespero e do pânico. Mei-tan-Fu é no fim do mundo e o fim do mundo não poderia ter cenário mais apropriado. No convento local, improvisada enfermaria, morre-se às dezenas; no cemitério local, que bordeja o rio, não há já espaço para sepultar mais ninguém, os corpos invadem a água, que fica contaminada; nas ruas os enterros cruzam-se com grupos de revolucionários que mandam para casa os colonialistas ingleses. “Go home!” As lutas anti-colonialistas na China estão no seu auge, ninguém se sente seguro, mesmo na mais longínqua aldeia, mesmo o mais abnegado médico que tenta salvar vidas não olhando à cor da pele. O cenário é de majestoso caos. Como em muitos outros romances de W. Somerset Maugham o caminho é o da aprendizagem da redenção: Kitty vai aprender a olhar para o sofrimento alheio, vai deixar de ser a menina mimada que fora até ali, vai descobrir os outros e vai descobrir-se a si própria, e vai sobretudo “descobrir” Walter Fane. Esse percurso, que é a essência do livro, e deste filme, é o caminho que o espectador irá percorrer, acompanhado por uma pitoresca personagem, o comissário Waddington (Toby Jones, o mesmo de “Infame”), e por uma madre superiora de um convento de religiosas francesas (Diana Rigg, a mesma de “Os Vingadores”, de há trinta anos), sendo ambos figuras indispensáveis no amadurecimento intelectual e sobretudo espiritual de Kitty. A fotografia de Stuart Dryburgh (que assinara "The Piano") é outro elemento importante para a definição de um espaço geográfico e humano propício ao desenrolar do drama, bem assim como a partitura musical de Alexandre Desplat.


Assim se passa este melodrama que é uma trágica história de desencontros amorosos no alvorecer de uma China nacionalista. Acontece que tanto o livro como o filme reflectem não só esses aspectos intimistas e individuais como o fazem integrando-os em contextos colectivos, com base histórica e evidente interesse sociológico. Muito curioso será referir a forma como é esboçado o ambiente social inglês de início do século XX, que empurra a jovem Kitty a afastar-se de uma família asfixiante e gananciosa nem que, para tanto, tenha de aceitar um casamento de conveniência. Kitty pensa que Walter a ama e julga que esse amor bastará para ultrapassar a sua indiferença e crê que essa situação é muito melhor que o desamor da família. Engana-se parcialmente, mas só o descobre tarde de mais. É, no entanto, um interessante retrato de uma mulher que se procura impor numa sociedade cujas regras limitam a sinceridade e espontaneidade e apontam para a hipocrisia e os interesses materiais. Não tanto uma sociedade machista, curiosamente, pois a prepotência é exercida fundamentalmente por uma mulher, a mãe. Os homens até se mostram dóceis, nesta sociedade matriarcal. Vejam-se os casos do pai de Kitty, completamente dominado pela vontade da mulher, e posteriormente Walter que, apesar de ter um comportamento rigoroso e de poucas palavras, absorto sempre na sua vida científica e nos livros, se apresenta igualmente como um homem tranquilo e sensível. Mas a diferença de maneiras de ser revela-se fatal. Kitty é uma mulher-criança que gosta de reuniões sociais, bailes e festas, enquanto Walter aprecia o silêncio e o retiro. Transpostos para a longuínqua e misteriosa China, primeiro surge a leviana traição, depois cresce a maturidade, imposta pelo isolamento e pelas circunstâncias adversas. W. Somerset Maugham, cosmopolita na sua sociabilidade, mas espiritualista na essência, aponta o caminho da renúncia e da redenção como forma de descobrir o amor na convivência profunda das pessoas e não no usufruto de um prazer imediato, mas sem futuro. No sacrifício e na contrariedade se caldeiam os sentimentos. Visão religiosa e mística, obviamente, mas que a sobriedade e o rigor de escrita do escritor tornam legítima. Aliás, W. Somerset Maugham não defende uma religião, tanto que aponta o Tao oriental como um “Caminho” possível, ao lado da fé das freiras francesas. A ideia é, sobretudo, valorizar o conhecimento profundo em detrimento do efémero, a experiência por vezes traumática em vez da facilidade e do comodismo. O que, nos dias de hoje, não deixa de ser uma aposta contra a corrente do imediatismo. Aliás, o filme parece até sublinhar com alguma argúcia certos aspectos que no livro aparecem somente indicados. Deve dizer-se que globalmente a adaptação é boa e inteligente, mantendo, na sua essência, o espírito do romance, ainda que aqui e ali necessite de condensar certas passagens (sobretudo na parte final do romance, que é muito mais extensa que o filme) ou, noutros casos, alterar a ordem da sua apresentação. Um exemplo: o livro inicia-se já na China com a cena de adultério; o filme prepara-a com uma longa sequência em Inglaterra, durante a qual vamos assistir à aproximação de Walter de Kitty, e onde se descobre toda a teia de humilhações familiares que levam Kitty a tomar a decisão de casar para se libertar dessa tentacular opressão diária. É evidente que o livro também descreve estes acontecimentos, mas posteriormente, e a alteração da ordem, no filme, é sintomática de uma outra perspectiva.
De resto, o filme apresenta uma narrativa inteligente e ágil, há momentos de certa inspiração na montagem (como quando se ligam, através de uma mesma imagem, lugares e tempos distintos) e os contornos históricos e sociais saem reforçados no filme, à luz de uma compreensão contemporânea do colonialismo. Mas a este aspecto voltaremos mais tarde.

(...) William Christened Somerset Maughan, um dos mais conhecidos e disputados escritores ingleses do século XX, nasceu a 25 de Janeiro de 1874, em Paris, França, de pais ingleses, e veio a falecer em Cap Ferrat, Nice, França, a 15 de Dezembro de 1965, vítima de pneumonia. Apesar de ter nascido em Paris, W. Somerset Maugham foi desde sempre um súbdito inglês. O pai, Robert Ormond Maugham, que era advogado da Embaixada inglesa na capital francesa, fez para que tal acontecesse, a fim de impedir que o filho fosse mais tarde considerado francês e tivesse de combater sob a bandeira deste país.
A mãe de Maugham, Edith Mary, morreu ainda nova, aos 41 anos, depois de um parto. Este facto traumatizou para sempre o jovem Somerset Maugham, levando-o a não mais se afastar de um retrato da mãe que manteve no seu quarto até ao dia da sua morte, com 91 anos. Mas dois anos depois da morte da mãe, morre o pai, vítima de cancro, e Wlllie é enviado para Inglaterra, para casa do seu tio Henry MacDonald Maugham, vigário de Whitstable, em Kent, um homem frio e cruel que transforma a juventude do futuro escritor num negro episódio de um romance de Charles Dickens. A sua fraca figura e o seu mau inglês (o francês tinha sido a sua primeira língua) foram argumentos suficientes para ser humilhado e perseguido nos seus tempos iniciais de estudante. Estuda na The King's School até que, aos dezasseis anos, recusa continuar ali, parte para a Alemanha, onde se inscreve na Universidade de Heidelberg. Estuda literatura e filosofia e conhece John Ellingham Brooks, um inglês mais velho dez anos, que o inicia na sua primeira experiência sexual. De regresso a Inglaterra, oscila entre a carreira de armas e a medicina, mas acaba por optar pela segunda. Durante cinco anos estuda medicina em Londres, no hospital de St. Thomas. Vários dos seus livros se refe­rem a essa época, nomeadamente a sua obra-prima “Servidão Humana” (Of Human Boundage, 1915).
O sucesso dos primeiros livros, “Liza de Lambeth” (Liza of Lambetll, 1897) e “Mrs Craddoek”, 1902, inscritos numa corrente de um certo realismo social, persuadiu-o a abandonar a medicina para se con­sagrar inteiramente à literatura. Durante uma década não voltou a ter um triunfo idêntico, mas, em 1907, a sua peça de teatro “Lady Frederick” obteve um êxito absolutamente invulgar. Viaja por Espanha e Capri, e, em 1914, tinha escrito 10 peças e outros tantos romances. Durante a I Guerra Mundial, Maugham serviu em França como membro da Cruz Vermelha inglesa, num grupo de 23 personalidades, conhecido por "Literary Ambulance Drivers", onde se incluíam nomes como os Ernest Hemingway, John Dos Passos, ou e. e. cummings. Foi nesse período que conheceu Frederick Gerald Haxton (1892 – 1944), um jovem de São Francisco, que se torna seu companheiro, secretário e amante, até à morte deste, em 1944 (Haxton surge mesmo na figura de Tony Paxton, na peça de Maugham, de 1917, “Our Betters”). Para fugir a perseguições puritanas como as que destruíram Oscar Wilde, o casal, terminada a guerra, instalou-se numa vivenda, “Mauresque”, na Riviera Francesa. Só dali saiu quando os alemães avançaram sobre a França, retirando-se para Nova Iorque, onde Haxton viria a falecer vítima de alcoolismo. W. Somerset Maugham dedica-lhe, em 1949, uma compilação de ensaios: “A Writer’s Notebook: In Loving Memory of My Friend Frederick Gerald Haxton, 1892 -1944”.
Apesar do seu assumido homossexualismo, S. Somerset Maugham teve vários “affairs” com mulheres, nomeadamente um que se tornou particularmente polémico, com Syrie Wellcome, filha de Thomas John Barnardo, fundador de um orfanato, e mulher do milionário farmacêutico Henry Wellcome, de quem teve uma filha, Liza (baptizada Mary Elizabeth Wellcome, 1915-1998). Henry Wellcome impôs o divórcio e, em Maio de 1917, Syrie, então uma decoradora de interiores de grande celebridade, e Maugham casaram-se. Em 1922 Maugham dedica a Syrie “On A Chinese Screen”, uma colectanea de 58 histórias reunidas depois de uma viagem pela China e Hong Kong. Divorciam-se de forma tempestuosa em 1928, em parte por causa das constantes viagens do escritor e do seu romance paralelo com Haxton.
Quer como romancista, quer como dramaturgo, Somerset Maugham sempre soube despertar a simpatia do público, permitindo-lhe esse seu constante êxito de vendas viver de harmonia com os seus gostos: viajou não apenas pela Europa como ainda pela América e pelo Oriente e, durante a primeira guerra mundial, foi encarregado de uma missão secreta na Rússia, donde resultou uma personagem de espião, “Ashenden”, que irá justificar a publicação de um volume de curtas histórias que muitos julgam estar na base da criação de Ian Fleming, James Bond.
“Of Human Bondage”, a sua obra de consagração, não foi inicialmente muito bem recebido nem pela críitica nem pelos leitores, mas tornou-se uma obra inquestionável a partir da altura em que o influente escritor norte americano Theodore Dreiser lhe chamou “obra de génio”, comparando-a a uma sinfonia de Beethoven.
Retirado em St. Jean-Cap Ferrat, na costa francesa, Somerset Maugham aproveitou as suas experiências pessoais e as observações que foi fazendo ao longo das viagens que o levaram a todos os cantos do mundo. Foi visto como o mais cosmopolita dos escritores ingleses contemporâneos e, sob certos aspectos, poderia considerar-se mais francês do que inglês (Somerset Maugham confessou que, antes de iniciar a escrita de uma nova história, lia invariavelmente “Cândido”). Somerset Maugham, como muitos outros romancistas anglo-saxónicos seus contemporâneos, vivia obcecado pelos problemas morais e religiosos: “O Véu Pintado” (The Painted Veil, 1925) é um bom exemplo dessa mensagem de regeneração e em “O Fio da Navalha” (Tlle Razor's Edge, 1944) faz a exaltação do misticismo ascético, não deixando no entanto de ser um homem mundano, tolerante mas, simultaneamente, um crítico austero e compadecido dos humanos pecados. Em 1938, Maugham confessou: "It must be a fault in me that I am not gravely shocked at the sins of others unless they personally affect me." Há quem veja nesta confissão uma forma do escritor absolver vícios privados, sobretudo o seu proverbial apetite sexual, desculpando fraquezas alheias. Muitas vezes transferia para o universo feminino a sua voluptuosidade homossexual, pois os tempos não lhe permitiam exprimir livremente a sua própria experiência. Isso explicaria a existência nas suas obras de tantas mulheres que se deixam seduzir pelas fraquezas da carne. Mas que, na maior parte das vezes, por elas são marcadas negativamente, apesar de haver invariavelmente um momento de regeneração e sublimação do pecado.
Escritor de grande saber oficinal e de requintada sensibilidade, ostentava uma malícia fina e cáustica, envolvida por uma ternura e compreensão humana igualmente invulgares. No “Dicionário dos Autores Universais”, pode ler-se: “Nos livros autobiográficos, “O Exame de Consciência” (The Summing Up, 1948) e “Apontamentos do Autor” (An Author's Notebook, 1949), Somerset Maugham fala franca­mente, embora de maneira desligada, das suas experiências, das suas leituras, das suas preocupações ético-filosóficas; as conclusões que tira da vida são, no fundo, as mesmas que colheria um protestante liberal, um moralista dramático. A crí­tica nem sempre lhe foi favorável, gostando de rotulá-lo de “superficial”, apesar de “competente”; porém, a sua habilidade de narrador, uma clareza de espírito quase francesa e a verosimilhança dos personagens e dos ambientes fizeram dele um ben­jamim do público.” É conveniente não esquecer que S. Somerset Maugham lutou contra titãs que impunham uma nova literatura e abriam caminho à modernidade, tais como William Faulkner, Thomas Mann, James Joyce ou Virginia Woolf, entre muitos outros.
Da sua produção devem citar-se ainda, entre alguns outros: “Um Gosto e Seis Vinténs” (The Moon and Sixpence, biografia de Gauguin, 1919); “Destino de um Homem” (Cakes and Ale, que retrata, apenas veladamente, certos personagens do mundo literá­rio contemporâneo, 1930); “Cavalheiro de Salão” (The Gentleman in the Parlor), belíssimo livro de viagens. Entre as obras teatrais, numerosas e varia­díssimas mas um tanto próximas, recordamos: “Os Nossos Superiores” (Our Betters, 1917); “The Cir­ele” (1921); “The Lelter” (1923). Das suas novelas, em grande número, existe uma colectânea: “As Novelas Completas” (The Complete Short Stories, 1951).” Na literatura de viagens também é de sublinhar a sua contribuição, sobretudo com dois títulos, “The Gentleman In The Parlour”, uma viagem pela Birmânia, Sião, Cambodja e Vietname, e o já citado “On A Chinese Screen”. Publicou igualmente, em 1949, uma selecção de apontamentos de diários pessoais, "A Writer's Notebook".

Durante a II Guerra Mundial refugiou-se nos Estados Unidos da América, inicialmente em Hollywood, onde escreveu vários argumentos e foi um dos primeiros escritores a viver desafogadamente de adaptações de romances seus. Depois passou para o Sul, onde permaneceu alguns anos. Após a morte de Gerard Haxton voltou a Inglaterra, mas em 1946 instalou-se definitivamente em França, alternado permanências e viagens até à data da sua morte.
A sua vida amorosa conheceu nova relação, mantendo-se agora ligado a Alan Searle, que conhecera em 1928, mas que se tornou seu novo secretário e companheiro, depois da morte de Haxton. Um amigo comum definiu a diferença entre Haxto e Searle do seguinte modo: "Gerald era colheita especial, Alan era vinho ordinário." A existência amorosa do escritor nunca foi simples. Num momento de maior sinceridade, escreveu: "I have most loved people who cared little or nothing for me and when people have loved me I have been embarrassed... In order not to hurt their feelings, I have often acted a passion I did not feel."
Em 1947 Maugham instituiu o “Prémio Somerset Maugham”, para o melhor jovem escritor publicado no ano anterior. Por este galardão já passaram vários escritores que se tornaram particularmente notados, como V.S. Naipaul, Kingsley Amis, Martin Amis ou Thom Gunn. Em testamento, Maugham ofereceu os seus direitos de autor à Royal Literary Fund.




excertos de um artigo sobre "O Véu Pintado" a aaprecer na revista História", de junho de 2007.