sexta-feira, agosto 31, 2007

Cinema: A ÚLTIMA LEGIÃO

A ÚLTIMA LEGIÃO

“A Última Legião” começa por ser um romance de Valerio Massimo Manfredi, o mesmo autor que já nos dera a trilogia dedicada a “Alexandre, o Grande” (e de quem se encontra ainda editado em Portugal um outro título, “Quimera”, todos pertença da colecção “Grandes Narrativas”, da “Presença”).
Valerio Massimo Manfredi (nascido em Piumazzo di Castelfranco, Itália, 1943) é arqueólogo de formação, formado pela Universidade de Bolonha, com especialização em topografia do mundo antigo pela Universidade Católica del Sacro Cuore, de Milão, onde iniciou a sua actividade docente, passando ainda pelas Universidade de Veneza, Universidade Loyola de Chicago, Ecole Pratique des Hautes Etudes da Sorbone, em Paris, e finalmente pela Luigi Bocconi, em Milão.
Publicou centenas de artigos em jornais e revistas de Itália (Il Messaggero, Panorama, Archeo, Focus, etc.) e internacionais, e escreveu diversos romances históricos (cerca de seis milhões de exemplares vendidos em todo o mundo), tendo ainda trabalhado no cinema e na televisão. No canal LA7, dirige um programa de televisão, "Stargate - Linea di Confine". Em 1999 foi considerado "Man of the Year" pelo "American Biographical Institute". Carreira de sucesso para um escritor de “best sellers” de cariz histórico, com alguma propensão para o êxito mais ou menos fácil. A sua escrita é escorreita, a sua imaginação fértil, mas pouco dada a voos de inspiração, os seus romances são longas descrições de fantasiosas intrigas de aventura, tendo por cenário um fundo histórico, entretecido com referências míticas e, quando estas não chegam, com extravagantes lucubrações sobre hipóteses muito pouco prováveis (como acontece neste caso de “A Última Legião”).
Devo reconhecer que tanto a trilogia sobre “Alexandre o Grande” como este “A Última Legião” os li mais na diagonal, do que na horizontal. A escrita não me prende, os pormenores históricos não me seduzem, tão emaranhados estão numa teia de aventura primária, com rodriguinhos de fácil manejo. Por exemplo, neste “A Última Legião”, confessadamente escrito a pensar numa provável adaptação ao cinema, o aparecimento de uma guerreira de nome Lívia, que ali se encontra unicamente para propiciar o “romance”, começa desde logo por indispor contra a obra e a sua seriedade. A partir desta cena começamos logo a pensar mais num “peplum” popularucho do que numa reconstituição histórica de seriedade assegurada. Acontece, porém, que o “peplum”, de vasta e honrosa tradição no cinema italiano (e que dá origem, depois de “Cabíria” e “Os Últimos Dias de Pompeia”, ainda no mudo, a uma torrente de obras divertidas e de assegurado entretenimento, nas suas limitadas e honradas intenções: honradas porque nunca pretendem ser mais do que são, e assim mesmo se apresentam), tem carta de nobreza no cinema e pouca credibilidade na literatura. Talvez por isso o filme seja suportável, ainda que relativamente medíocre, e o livro não tenha justificado leitura atenta.
Desta maneira chegamos ao filme de Doug Lefler, um antigo assistente de Sam Raimi, que aqui assina a sua segunda obra como realizador de longa metragens, depois de “Dragonheart: A New Beginning” (2000), e após longa passagem pela televisão, em séries de aventuras fantásticas, e vasta experiência no campo da direcção artística e na animação. Percebe-se o seu gosto por um imaginário de aventuras predominantemente popular. As cenas de guerra e de duelos apontam nesse sentido: nenhuma necessidade de credibilidade, apenas de espectáculo: um herói sozinho chega para dizimar uma companhia de inimigos, tanto mais que só defronta um de cada vez, quanto muito dois, enquanto os outros ficam a ver no que param as modas. Então se o herói for uma heroína, indiana, ex-Miss Mundo, lindíssima, estrela de Bollywood de nome Aishwarya Rai, com um corpo escultural, uns olhos faiscantes e uma desenvoltura notável, quem não fica a olhar até sofrer o golpe fatal? Ficam os companheiros e os adversários, neste caso os ingleses Colin Firth e Ben Kingsley, e os escoceses John Hannah e Peter Mullan, entre muitos outros.
A história conta-se rápido. Estamos em Roma, corre o ano de 476 d.C. O Império Romano está à beira da queda, sobretudo o Império Ocidental. No dia em que Rómulo Augusto (Thomas Sangster), um puto de 13 anos, é coroado Imperador, na presença dos pais, de Ambrosinus (Ben Kingsley), seu mentor e tutor, e de Aurélio (Colin Firth), comandante da quarta legião, ordenado guarda pessoal de Rómulo, o godo Odoacro e o seu exército invadem Roma e, após uma batalha devastadora, conquista a cidade, mata os pais do Imperador, captura Rómulo e Ambrosinus, que são mandados prisioneiros para a fortaleza da ilha de Capri. Aurélio consegue sobreviver e reunir um grupo de leais guerreiros, a que se acrescenta uma não menos leal Mira (a Lívia do romance) para tentar libertar o jovem Rómulo Augusto. O que se faz num ápice. Depois, como os únicos aliados são a Nona Legião que se encontra na Britânia, é para lá que vão, perseguidos por Wulfila, o vilão de serviço, de quem nem o seu general Odoacro gosta (corta-lhe um dedo a sangue frio). Em terras britânicas a saga continua, pois Ambrosinus tinha umas contas antigas a ajustar com um tal Vortgyn, de máscara dourada e muita maldade por detrás. Mais batalhas e cercos a castelos, a virtude triunfa e, no final, sabemos que Ambrosinus também é conhecido por Merlin, e o puto que consegue erguer a espada de César que estava reservada a um único libertador, vai talvez erguer também Excalibur, ligando-se assim os últimos dias da queda do Império Romano à lenda do rei Artur, de Excalibur, dos Cavaleiros da Távola Redonda e de Camelot. Uma tentativa que já fora ensaiada com maior credibilidade em “King Arthur”, filme de Antoine Fuqua.
Quanto aos actores, além da beleza exótica já referida da indiana Aishwarya Rai, há ainda a salientar a presença de Colin Firth, a quem a aguerrida indiana se atira por todas as formas conhecidas, do arco e flecha até literalmente para a cama, nunca parece deixar de pensar: “o que é que eu faço com isto?”, já que, obviamente, não está dentro do “seu” filme. Ben Kingsley, a quem convidaram a vestir uma batina branca de sacerdote para realizar esta “visita de estudo” pelos locais da História, lá vai passeando de varapau. Thomas Sangster, o puto César, é muito simpático. Irrequieto e ladino, mesmo assim é daqueles que apetece ter em casa. Já o mesmo não se dirá dos maus da fita, Peter Mullan (Odoacro), Kevin McKidd (Wulfila), ou Harry Van Gorkum (Vortgyn).
A ÚLTIMA LEGIÃO
Título original: The Last Legion ou La Dernière Légion ou L’ Ultima Legione
Director: Doug Lefler (EUA, Inglaterra, França, Eslováquia, Itália, 2007); Argumento: Jez Butterworth, Tom Butterworth, Carlo Carlei, Peter Rader, seundo romance de Valerio Massimo Manfredi; Música: Patrick Doyle; Fotografia (cor): Marco Pontecorvo; Montagem: Simon Cozens; Casting: Lucy Bevan, Lenka Stefankovicova; Design de produção: Carmelo Agate; Direcção artística: Roberto Caruso, Viera Dandova, Elio Luciano, Ján Svoboda; Decoração: Francesco Postiglione, Alberto Tosto; Guarda-ropa: Paolo Scalabrino; Maquilhagem: Jana Carboni, Giannetto De Rossi, Lorella De Rossi, Mirella De Rossi, Anna De Santis, Blazena Dollingerova, Alessandro Durante, Katka Horska; Direcção de produção: Amel Becharnia, Aziz Ben Chaabane, Viliam Richter, Piergiuseppe Serra, Stefano Spadoni, Milan Stanisic, Simona Vescovi; Assistentes de realização: Senda Anane, Moez Ben Hassen, Gerry Gavigan, Steve Griffin, Sallie Anne Hard, Peter Palka, Gemma Powley, Emma Stokes, Gareth Tandy, Paul Taylor, Paula Turnbull; Departamento de arte: Ron Downing, Giorgio Postiglione, Terry Royce, Fero Turna; Som: Andy Kennedy; Efeitos Especiais: Simon Cockren, Stefano Pepin, Trevor Wood; Efeitos visuais: Alain Carsoux, Séverine De Wever, Hamery Laurent, Jeremie Leroux, Rossi Sébastien; Produção: Tarak Ben Ammar, Dino De Laurentiis, James Clayton, Chris Curling, Martha De Laurentiis, Raffaella De Laurentiis, Lorenzo De Maio, Hester Hargett, Salvatore Morello, Duncan Reid, Phil Robertson, Lucio Trentini, Harvey Weinstein; Companhias de produção: Dino De Laurentiis Company, Ingenious Film Partners, Quinta Communications, Zephyr Films Ltd.
Intérpretes: Colin Firth (Aurelius), Ben Kingsley (Ambrosinus/Merlin), Aishwarya Rai (Mira), Peter Mullan (Odoacro), Kevin McKidd (Wulfila), John Hannah (Nestor), Iain Glen (Orestes), Thomas Sangster (Romulus Augustus), Rupert Friend (Demetrius), Nonso Anozie (Batiatus), Owen Teale (Vatrenus), Alexander Siddig (Theodorus Andronikos), Robert Pugh (Kustennin), James Cosmo (Hrothgar), Harry Van Gorkum (Vortgyn), Beata Ben Ammar (Flavia), Murray McArthur, Ferdinand Kingsley, Rory James, Lee Ingleby, Andrew Westfield, Alexandra Thomas-Davies, Zarrouk Brahim, Robert Brazil, Ouerghi Chedly, Kathleen Segal, Tasha Bertram, Igor De Laurentiis, Vladimir 'Furdo' Furdik, Trevor Lovell, Mark Sangster, etc.
Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: LNK; Locais de filmagem: castelo de Cerveny, Pezinok, Eslováquia, Tunísia; Data de estreia: 17 de Agosto de 2007 (EUA); 15 de Agosto de 2007 (Portugal); Classificação etária: M/12 anos;

domingo, agosto 26, 2007

O EPC E O SPORTING

É domingo, está quase na hora de mais um Porto-Sporting. O Sporting vai entrar em campo, daqui a nada. Muitas vezes o Eduardo Prado Coelho me confessava que não ia ao estádio ver o jogo, "porque parecia que não dava sorte à equipa." Ficava em casa a ouvir o relato, em tempos; a ver pela televisão, nos anos mais recentes. Às vezes telefonávamo-nos em situações extremas: um grande golo, um resultado, positivo ou negativo, que deixava marcas.
Acho que a última vez que foi ao estádio (um Sporting-Porto, na temporada passada), foi depois de uma reunião que tivemos os dois com a Comissão do Centenário para falarmos de actividades culturais ligadas ao nosso clube do coração. Afinal o concurso literário não se fez, apenas andou para a frente o Festival de Cinema. Não começaste a escrever no jornal do Sporting, e eu parei por lá apenas uns meses. Mas com estas ou outras pessoas, o nosso sportinguismo mantém-se. Vá-se lá saber por quê! É irracional. Nasce-se assim. Eu acho que é bom que seja assim. Acho perfeito não perceber esta cumplicidade, esta vontade de pertencer a, este “amor” que nos faz sofrer ou enlouquecer de alegria. Como tu dizias: "Nunca escondi essa característica da minha personalidade que é ter nascido sportinguista. Para falar verdade, não sei o que isto significa ao certo. Não consigo descobrir se se trata de um imperativo do destino, se de uma decisão racional (mas que racionalidade poderá existir aqui?). Sei apenas que sofro absurdamente quando o Sporting está a perder e que partilho a alegria de todas as vitórias, mesmo que seja sobre um clube da III Divisão: ganharam 4 a zero? São os melhores."
Hoje o Sporting vai entrar em campo e sabe-se lá onde estarás: Um lugar privilegiado lá em cima? Quem sabe? Quem sabe se saberás o resultado. Mas estaremos contigo a ver o jogo, e continuamos contigo qualquer que seja o resultado.
Poderia escrever sobre o muito que nos uniu e o que, por vezes, nos desuniu, os anos da Universidade, a nossa actividade de críticos de cinema no “Diário de Lisboa”, no final dos anos 60, o programa de televisão na RTP2 que ambos dirigíamos (com o Francisco Assis Pacheco), os colóquios, as revistas, os amores, as amizades, enfim… tanto que vivemos juntos, mesmo quando afastados. Mas apetece-me sobretudo, hoje, recordar-te sportinguista. Vamos para o estádio?
Um blogue sportinguista, “Leão da Estrela”, homenageou o EPC, com um bonito post. Aqui o transcrevo, com a devida vénia.
Um Leão na cultura portuguesa

Com a morte de Eduardo Prado Coelho (EPC) desaparece um vulto da cultura portuguesa. E o que é que um blog sobre o Sporting Clube de Portugal tem a ver com a morte de EPC? É que EPC tinha um coração que sofria pelo Sporting. Quando se diz que o Sporting é um clube das elites, isso também tem muito a ver com o facto de ter adeptos e simpatizantes intelectuais como EPC, sem pejo de assumir que gostam de futebol e que têm um clube. EPC, que cultivava uma atitude aristocrática, não tinha preconceitos pseudo-intelectuais. Era capaz de escrever sobre o “nosso” Sporting e, mesmo assim, ser lido por quem detesta futebol. Porque quando escrevia sobre futebol abordava o fenómeno como uma pessoa normal. Com coração, cabeça e estômago. Também por isso, sendo um homem assumidamente de esquerda, chegando, às vezes, a escrever como se de um “spin doctor” do PS se tratasse, era lido e respeitado em todos os quadrantes políticos. Porque era livre nas suas escolhas, nos seus elogios e nas suas críticas. Desde a fundação do jornal “Público”, em 1990, EPC escrevia diariamente sobre as grandezas e as misérias da cultura, da política e da sociedade portuguesas, a partir dos episódios do quotidiano. Tinha amigos de estimação. E inimigos também. Como qualquer ser humano marcante e perene. Nos últimos tempos cruzou-se com a doença. Em Abril passado regressava às páginas do “Público”. Mas a recuperação plena não aconteceu. Na sexta-feira publicava a última crónica "O Fio do Horizonte". FOTO: Ana Baião (Expresso)
ALGUMAS CRÓNICAS DE EDUARDO PRADO COELHO SOBRE FUTEBOL
30-05-2005 -
O jogo, antes e depois
21-06-2005 - O naufrágio (do Sporting na época 2004-2005)
10-08-2005 -
A pré-história da minha ida ao futebol
"Nunca escondi essa característica da minha personalidade que é ter nascido sportinguista. Para falar verdade, não sei o que isto significa ao certo. Não consigo descobrir se se trata de um imperativo do destino, se de uma decisão racional (mas que racionalidade poderá existir aqui?). Sei apenas que sofro absurdamente quando o Sporting está a perder e que partilho a alegria de todas as vitórias, mesmo que seja sobre um clube da III Divisão: ganharam 4 a zero? São os melhores." Leia mais..."
04-10-2005 -
Fado (sobre a crise no Sporting 2005-2006)
23-05-2006 -
A derrota
08-06-2006 - Dispersos
26-06-2006 - Jogos com fronteiras
27-06-2006 - O país em guerra
01-09-2006 - Crise no futebol
05-09-2006 - E viva o futebol!
14-09-2006 - Assim vale a pena
30-01-2007 - No terceiro lugar
publicada por LEÃO DA ESTRELA @ 25.8.07

P.S. (duas horas depois): Olha, perdemos por um erro infantil, mas o jogo foi bom. Temos equipa para o resto do campeonato e foi, sobretudo, um jogo limpo, jogado com lealdade e bem arbitrado (tenho dúvidas se se poderá interpretar aquele lance como "passe ao guarda-redes", mas, enfim...). Não foi um jogo do outro mundo, mas para o nosso nível, foi bom.

sábado, agosto 25, 2007

O VAVÁ.DIANDO QUE NÃO SE FAZ


EDUARDO PRADO COELHO

Ontem escrevi no PC o cartaz, numa folha de A4, para colocar nas portas do café Vávà a anunciar a próxima Tertúlia. Coloquei a informação no blogue do Vava.Diando. Seria dia 26 de Setembro. O convidado era o Eduardo Prado Coelho. Haviamos combinado ao telefone, na tarde do dia 18 deste mês, quando me telefonou a dar os parabéns. Estava bem disposto, dizia sentir-se bem, os maus tempos tinham passado. Teria muito gosto em vir ao Vava.diando.

Não vai aparecer. Fisicamente.

Hoje, às oito da manhã, morreu vítima de um ataque cardiaco fulminante. Tinha 63 anos, uma vida à sua frente. Tanto ainda para escrever e criar. As suas palavras fazem-nos falta, a partir de hoje, por muito que por vezes fossem polémicas (ou até por causa disso meso). É mais um da minha geração que vai. A última vez que falámos foi à saída de uma sala de cinema, há dias, quando ambos tinhamos visto o mais recente Tarantino.

Agora o silêncio e "a noite do mundo". Dia 26 de Setembro, estarás no Vavá.


Sobre Eduardo Prado Coelho


Eduardo Prado Coelho nasceu a 29 de Março de 1944, em Lisboa. Faleceu em Lisboa, a 25 de Agosto de 2007. Casado por diversas vezes. Uma filha. Um neto.
Licenciou-se em Filologia Românica, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Doutorou-se em 1983, na mesma Universidade, com uma tese sobre “A Noção de Paradigma nos Estudos Literários”. Foi assistente na Faculdade de Letras de Lisboa entre 1970 e 1983. Em 1984, passou para a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, onde é actualmente professor associado no Departamento de Ciências da Comunicação. Em 1975-76, foi Director-Geral de Acção Cultural no Ministério da Cultura criado com a Revolução de Abril. Em 1988, foi para Paris ensinar no Departamento de Estudos Ibéricos da Sorbonne-Paris 3. Entre 1989 e 1998 foi conselheiro-cultural na Embaixada de Portugal em Paris. Foi Comissário para a Literatura e o Teatro da Europália portuguesa (em 1990). Colaborou na área de colóquios na Lisboa Capital Europeia da Cultura 94. Em 1997, tornou-se director do Instituto Camões em Paris. Regressou a Portugal em Outubro de 1998, tendo voltado a ser professor na Universidade Nova de Lisboa. Foi o comissário da participação portuguesa no Salon du Livre /2000.
Tem ampla colaboração em jornais e revistas e publicava uma crónica semanal sobre literatura no diário “Público”, para além de um comentário político quotidiano no mesmo jornal (“O Fio do Horizonte”). É autor de uma ampla bibliografia universitária e ensaística, onde se destacam um longo estudo de teoria literária (“Os Universos da Crítica”), vários livros de ensaios (“O Reino Flutuante”, “A Palavra sobre a Palavra”, “A Letra Litoral”, “A Mecânica dos Fluidos”, “A Noite do Mundo”, “O Cálculo das Sombras”) e dois volumes de um diário (“Tudo o que não escrevi”). Publicou recentemente “Diálogos sobre a Fé” (com D. José Policarpo) e “Dia Por Ama” (com Ana Calhau), “Crónicas no Fio do Horizonte”, sendo “Nacional e Transmissível” (Guerra e Paz, 1ªedição 2006) o seu último livro editado.
Foto de EPC, homenagem do Famafest, em Março de 2007.

sexta-feira, agosto 24, 2007

TRANSGÉNICOS E ASSÉDIO SEXUAL

Coisas que não percebo muito bem

1. Sou director de um festival de cinema e ambiente e tenho visto, e feito ver, durante treze anos, muitos filmes sobre sementes manipuladas e transgénicos. Confesso que não sei ainda hoje se há algum perigo real nesta prática, de tal forma são contraditórias (e manipuladoras igualmente) as teses em confronto. Mas há dias um grupo de rufias fez mais pelos transgénicos do que muitos anos de pressões e discussões. Bastou invadirem a herdade de um cidadão que cultivava legalmente cereais, destruírem uma plantação, e virem depois ufanarem-se do feito, com o beneplácito de grupelhos ditos ecológicos e políticos. Como é possível num estado de direito? E ainda dizem que o Estado é ditatorial? Enfim.
Viver em democracia é difícil. Mas todas estas questões devem ser debatidas em local apropriado. A legislação discute-se na Assembleia e no Governo. O que é aprovado por maioria não pode ser rejeitado com alegações idiotas de partidos de terceiro mundo. Se formos por esse caminho não há democracia que resista. Tudo o que está legislado terá os seus opositores ideológicos (e não só ideológicos!) e toda a gente virá para a rua obter pela força o que lhe é sonegado pela lei. O Bloco de Esquerda não percebe isso? Se a sociedade é uma selva onde ecologistas despeitados podem fazer o que querem, nazis ressabiados também podem lançar o pânico entre negros e judeus, benfiquistas ou portistas fazem justiça por mãos próprias, católicos queimam em piras adversários de credo e o que mais adiante se verá.
Vamos ter juízo nessas cabeças?
Não sei se o conseguiremos.

2. No mesmo jornal (DN, de hoje, 24 de Agosto) Fernanda Câncio escreve um bom texto de opinião onde arrasa a imprensa cor-de-rosa e os tablóides que não sabem parar perante nada, e esgravatam a vida de carrascos e vítimas para vender jornais, não olhando a meios. Na capa dessa mesma edição, e numa página interior (inteira) desse diário, uma acusação gravíssima: “Macário Correia acusado de assédio sexual por uma funcionária da Câmara de Tavira”: O caso foi julgado e provado? Não. A referida funcionária é tida como “esquizofrénica e maluca” por outros funcionários da CMT. Foi devidamente fundamentada esta informação? Não, Tudo se passa no campo do "diz-se, diz-se".
Mas que é isto? Onde é que já chegámos? Um cidadão qualquer pode ser difamado na primeira página de um jornal, antes de ser julgado e condenado? Ora neste caso há de certeza um réu culpado e uma vítima, mas não se sabe quem. Nesta altura ambos se encontram inculpados e, como afirma a advogada de defesa da senhora que se diz "sexualmente molestada", este é um crime privado que não pode ser documentado por testemunhas. O que vale tanto para a senhora e para o senhor. O que quer dizer que qualquer pessoa pode acusar outra e ninguém está livre de ver o seu nome injustamente colocado na primeira página de um diário acusado do que quer que seja. Com ou sem razão.
Ainda por cima com o PSD em movimentações eleitorais, sabendo-se que Macário Correia é um apoiante de um candidato, não seria preferível um certo decoro nestes casos? Ou os jornais já se metem nestas disputas internas? Acontece que nunca fui do PDS, não tenho nada com qualquer dos candidatos, nem gostei do Macário Correia quando comparou beijos a cinzeiros, na sua cruzada anti tabagista, mas prezo muito alguns procedimentos democráticos, sem os quais qualquer dia estamos a chafurdar num nível "abaixo de cão".
A comunicação social devia saber que só se pode acusar alguém depois de julgado e condenado e não antes. Ganha-se vendas de exemplares com este sensacionalismo barato, mas também se perdem. E perde-se sobretudo credibilidade.

LIVROS E FILMES: UM GOSTO E SEIS VINTÉNS


UM GOSTO E SEIS VINTÉNS
ou
MESMO ASSIM, ELAS AMAVAM-NO

Nesta onda de súbito interesse por obras de Somerset Maugham e por filmes delas retirados, tenho mandado vir, via Amazon, algumas dessas películas impossíveis de encontrar no mercado português. Uma delas foi “The Moon and Sixpence”, que Albert Lewin adaptara, em 1942, do romance homónimo do escritor, e que conta com dois bons desempenhos de George Sanders e Herbert Marshall.
Lembrava-me muito bem de ter lido esse romance quando era muito jovem, numas férias que já não recordava se foram na Praia das Maçãs ou na Ericeira, praias para onde habitualmente ia com os meus pais na adolescência. Eu era miúdo pouco dado a areia e calor (por aqueles lados também nunca havia muito disso), preferia ficar numa qualquer esplanada a ler jornais e livros, a falar com amigos, a namoriscar ou a ensaiar escritos de tom diverso. Coisas amarguradas de quem já começava a descobrir estes “eternos problemas” que, desde sempre, desesperam a Humanidade e tornam os putos dessa idade portadores de toda a desdita do mundo. E também de toda a esperança em transformar tudo para muito melhor. Enfim, coisas por que passam quase todos e por onde também andei.
Resta dizer que fui procurar a edição, o número 49 da magnífica “Colecção Miniatura” dos “Livros do Brasil” (que devorei quase toda, à medida que ia sendo publicada). Ia agrupando “As grandes obras em pequenos volumes” e “Pequenas jóias literárias dos maiores autores” (era verdade, não era “publicidade enganosa”!), e foi nessa colecção, que tinha primorosas capas desenhadas pelo Bernardo Marques, que li, pela primeira vez, Hemingway, Bernard Shaw, Maugham, André Gide, Virgínia Woolf, Huxley, Roman Roland, Erskine Caldwell, Steinbeck, Pratolini, e tantos outros. Ao abrir o muito manuseado livrinho, descobri uma dedicatória que me lançou numa peregrinação pelo tempo cheia dos bons cheiros da memória. Iz assim a dedicatória: “Do pai muito amigo, Para o Lató, com um grande abraço de parabéns pelo dia de hoje, 18 de Agosto de 1955. ERICEIRA” (Lató, era a forma como os meus pais me chamavam em miúdo, contracção de La(uro)(An)tó(nio)). Descobri pois que lera “Um Gosto e Seis Vinténs” na Ericeira, corria o ano de 1955, acabara de fazer 13 anos. Veio-me à memória a praia, o passeio nocturno pela estrada, as esplanadas, as Arribas, e lembro-me de meu pai a pintar várias telas, uma das quais ainda retenho na minha casa, com a praia dos pescadores, numa perspectiva “picada” (vista cá de cima).
Julgo que nunca tinha visto este filme, apesar de George Sanders ser um actor de minha muito particular estima. Depois de o ver, pego no livrinho e releio-o de um fôlego. Primeira conclusão a retirar: ao ver o filme senti-o muito palavroso, demasiado dependente de uma vez off, a do narrador, isto é a do escritor. Relendo o romance percebe-se o escrúpulo do adaptador, Albert Lewin, que também realizou o filme. Seguiu à letra o romance, em peripécias e em palavras, o que raras vezes resulta bem. Albert Lewin foi um realizador que fez dois ou três filmes muito interessantes, depois de um período como assistente de realização de alguns cineastas de mérito e de filmes que permanecem vivos. Começou a sua carreira de realizador precisamente com este “The Moon and Sixpence” (que em português recebeu o título, imaginem só, “Mesmo Assim, Elas Amavam-no”!), e continuando sempre nos domínios da literatura prossegui-a com “The Picture of Dorian Gray” (1945), “The Private Affairs of Bel Ami” (1947) e, finalmente, com “Pandora and the Flying Dutchman” (1951). Obras muito interessantes, dirigidas por um cineasta de sólida formação cultural e artística, com visíveis influências das vanguardas artísticas dos anos 20 e, sobretudo, dos surrealistas.
“The Moon and Sixpence” não é obra isenta de erros, o maior dos quais terá sido a obediência estrita a uma narrativa literária. Albert Lewin não teve coragem para se libertar das amarras da escrita de W. Somerset Maugham. Diga-se que, como muitos outros do mesmo autor este é um romance magnífico, onde mais uma vez um indivíduo é posto à prova pelas circunstâncias da vida e, implacável quanto ao caminho a percorrer, atinge a sua meta. Mais uma vez é uma aventura interior que está na base desta obra. Desta feita a base da intriga é a vida do pintor francês Paul Gauguin (1848-1903), que no livro de W. Somerset Maugham se chama Charles Strickland (George Sanders), nasce inglês e o vamos encontrar no início da história bem instalado na vida como corretor de banca, casado e pai de dois filhos. Vida pacata, portanto, e nenhuma inquietação transparece no rosto. Até que um dia, de súbito, deixa tudo para trás das costas, e parte para Paris, onde pinta obsessivamente em busca de uma inspiração. A sua arte não é imediatamente reconhecida, mas nada o impede de continuar, sem olhar ao que quer se seja: os rogos da antiga mulher, a interferência de amigos, amantes que o procuram prender, colegas de profissão que o desprezam, críticos que não o apreciam… Tudo isto nos é relatado no romance por W. Somerset Maugham, no filme por uma personagem que toma o seu lugar, Geoffrey Wolfe (Herbert Marshall, que, anos mais tarde, desempenhará o papel do próprio W. Somerset Maugham em “ O Fio da Navalha”) que vai acompanhando a espaços o percurso de Strickland, mesmo quando este corta com Paris e parte para o Taiti, onde encontra alguma paz de espírito e finalmente aceita de alguma forma integrar-se numa comunidade, partilhar amor com uma nativa, e morrer de peste, imolando numa derradeira fogueira parte da sua obra pictórica que mais tarde será consagrada. É evidente que esta trama não acompanha literalmente a vida de Gauguin, mas é claro igualmente que o escritor se baseou neste pintor para arquitectar a sua intriga. À semelhança de quase todas as obras que conheço de W. Somerset Maugham, aqui também o autor acompanha uma personagem que o fascina pela obstinação numa procura, também existe um protagonista que se tenta encontrar, enquanto ensaia caminhos para alcançar a sua verdade e o seu rumo, também a viagem para paragens distantes – paradisíacas - ajuda a resolver a questão primordial, também a oposição entre individuo e sociedade, entre liberdade individual e preconceito social se agudiza, também a demanda de uma paz espiritual é a preocupação maior, mesmo que para tanto tenha de se assumir como um ser asocial…
Diante da adversidade nada detém Strickland que, perante algumas objecções sobre a sua imperiosa necessidade de pintar, responde: “Já lhe disse que tenho de pintar. É qualquer coisa mais forte do que eu. Quando um homem cai na água tem de nadar, bem ou mal, não importa: precisa é salvar-se.” A questão para Strickland é de simples sobrevivência: tem de pintar, tem de percorrer um calvário que pode parecer totalmente incompreensível para os outros, mas não o é para si, o que lhe basta. Pode parecer desumano aos olhos de todos, não o é aos seus próprios, o que lhe basta. Não sequer o reconhecimento dos seus iguais lhe importava. Quando atingiu a genialidade na pintura, não procurou a posteridade, antes incumbiu a sua mulher nativa de incendiar as telas e de destruir a perfeição que alcançara. Bastava-lhe a sua própria certeza. Pintara para atingir uma meta interior. Não para colher louros vindos de fora.
O filme de Albert Lewin é demasiado palavroso, mas contém argumentos suficientes para se manter visível: excelentes desempenhos, nomeadamente de George Sanders; uma boa partitura musical de Dmitri Tiomki, que esteve nomeada para Oscars; uma boa fotografia a preto e branco, com uma iluminação que por vezes roça o expressionismo e se mostra influenciada igualmente pelo surrealismo. Dentro da carreira de Albert Lewin é ainda um bom início de caminhada, que tornará possíveis outras obras interessantes como já vimos.
Há outros aspectos curiosos nesta obra, um deles que se manifesta em várias obras do escritor e nas suas respectivas adaptações: é possível descobrir uma certa misoginia por detrás de alguns retratos de mulheres. Não por caso, ainda que a citação adquira tons de ironia, o filme apresenta no cartaz original uma frase publicitária estranha: "Women are strange little beasts" que representa um pouco de alguns diálogos existentes: “As mulher não são muito inteligentes”, afirma a certo passo, Strickland. E o comportamento de algumas a isso poderia fazer pensar. A sua mulher inglesa desculpava a fuga do marido se fosse “por causa de outra mulher, mas nunca para prosseguir uma carreira de pintor. Por isso, odeia-o até à morte e deseja-lhe uma morte tormentosa” (o que acaba por acontecer, helás!). A nativa do Taiti não anda muito longe do “quanto mais me bates, mais gosto de ti.” “Olha que ainda te bato”, diz Strickland, ao que lhe responde Ata: "De que outra forma eu saberei que tu gostas de mim?”
Finalmente uma curiosidade: respeitando a vontade de Strickland, o filme nunca apresenta obras deste pintor na versão original que correu nos cinemas, até à derradeira sequência do incêndio. Nessa altura, viam-se, a cores, os quadros que as labaredas consumiam. Infelizmente na versão divulgada no DVD este pormenor não foi acautelado, passando toda a obra a preto e branco.
Esta não foi a única versão de “The Moon and Sixpence” em cinema e televisão. Em 1967, com realização de Donald McWhinnie (Inglaterra, Canadá, e argumento de Clive Exton, surge, na BBC, uma versão integrada na série “Play of the Month”, com Charles Gray (Strickland), e Ronald Hines (Dirk Stroeve). Anteriormente, Laurence Olivier fazia a sua estreia na televisão norte-americana, em 1959, numa excelente direcção de Robert Mulligan, ao lado de Judith Anderson (Tiare) e Hume Cronyn (Dirk Stroeve).
Falando agora de Paul Gauguin, o próprio, não há muito a registar em cinema. Uma obra de Fielder Cook (EUA, 1980), “Gauguin the Savage: Overview”, com David Carradine, Lynn Redgrave e Ian Richardson; um “Paul Gauguin”, de Roger Pigaut (França, 1975), em mini série de sete episódios, de 50 minutos cada, para TV, com Maurice Barrier (Gauguin), Nadine Alari (Aline Gauguin), Georg Marischka (Gustave Arosa), Gabriel Jabbour (Picasso), ente outros; e um documentário, “Paul Gauguin”, do italiano Folco Quilici (1957). Pouco, para tamanho talento e tão grande sede de absoluto.

MESMO ASSIM ELAS AMAVAM-NO
Título original: The Moon and Sixpence
Realizador: Albert Lewin (EUA, 1942); Argumento: Albert Lewin, segundo romance de W. Somerset Maugham; Música: Dimitri Tiomkin; Fotografia (p/b): John F. Seitz; Montagem: Richard L. Van Enger; Design de produção: Gordon Wiles; Direcção artística: Frank Paul Sylos; Maquilhagem: Ern Westmore; Direcção artística: Ray Heinz; Guarda-roupa: Albert Deano; Departamento de arte: Nina Saemundsson, Dolya Goutman; Som: Ferrol Redd; Coreografia: Devi Dja; Produção: Stanley Kramer, David L. Loew; Companhia de produção: David L. Loew-Albert Lewin.
Intérpretes: George Sanders (Charles Strickland), Herbert Marshall (Geoffrey Wolfe), Doris Dudley (Blanche Stroeve), Eric Blore (Capt. Nichols), Albert Bassermann (Dr. Coutras), Florence Bates (Tiare Johnson), Steven Geray (Dirk Stroeve), Elena Verdugo (Ata), Robert Greig, Rondo Hatton, Kenneth Hunter, Molly Lamont, Mike Mazurki, Gerta Rozan, Irene Tedrow, Heather Thatcher, etc.
Duração: 89 minutos; Estreia: 27 de Outubro de 1942 (EUA)

Outros filmes adaptados do mesmo romance ou tendo Gaugin como protagonista:
Título original: Play of the Month - The Moon and Sixpence
Série de TV: "Play of the Month" (1965- ?)
Realizador: Donald McWhinnie (Inglaterra, Canadá, 1967); Argumento: Clive Exton, segundo romance de W. Somerset Maugham; Design de produção: Eileen Diss; Produção: Cedric Messina; Companhia de produção: British Broadcasting Corporation (BBC).
Intérpretes: Charles Gray (Strickland), Ronald Hines (Dirk Stroeve), Barry Justice (Willy), Sylvia Kay (Blanche Stroeve), Elisabeth Welch (Tiare Johnson), Pamela Ruddock (Rose Waterford), Sally Home (Amy Strickland), Frederick Peisley (Colonel MacAndrew), Nicolette Bernard (Mrs. MacAndrew), Job Stewart, Imogen Hassall, Austin Trevor, etc.
Data de emissão: 12 de Novembro de 1967 (3ª Temporada, Episódio 2);

Título original: The Moon and Sixpence
Realizador: Robert Mulligan (EUA, 1959) (TV); Argumento: segundo romance de W. Somerset Maugham;
Intérpretes: Laurence Olivier (Charles Strickland), Judith Anderson (Tiare), Hume Cronyn (Dirk Stroeve), Cyril Cusack (Dr. Coutras), Denholm Elliott, Geraldine Fitzgerald (Amy Strickland), Jean Marsh (Ata), Murray Matheson, Jessica Tandy (Blanche Stroeve), etc.
Companhia de produção: National Broadcasting Company (NBC)
Data de emissão: 30 de Outubro de 1959 (EUA)

Título original: Gauguin the Savage:Overview
Realizador: Fielder Cook (EUA, 1980)
Intérpretes: David Carradine, Lynn Redgrave, Ian Richardson
Duração: 125 minutos: Estreia: 1980 (EUA).

Título original: Paul Gauguin
Realizador: Folco Quilici (Itália,1957)
Documentário

Título original: Paul Gauguin
Realizador: Roger Pigaut (França, 1975) (mini série de TV)
Intérpretes: Maurice Barrier (Gauguin), Nadine Alari (Aline Gauguin), Georg Marischka (Gustave Arosa), Claudia Butenuth (Marguerite Arosa), Catherine Ménétrier (Marie Gauguin, Laurence Mercier (Mme Arosa), Gabriel Jabbour (Picasso), Anne Lonnberg (Mette Sophie Arosa), Ruth-Maria Kubitschek (Ingebord), Pierre Lafont (Emilse Schuffenecker), Karine Lafabrie (Marie Heegard), Jean Reney (Bertin), Bernard Musson, Jean-Marie Lancelot, Gérard Caillaud, etc.
Duração: 50 minutos (7 episódios); data de emissão: 23 de Maio de 1975.

quarta-feira, agosto 22, 2007

AINDA NO RESCALDO

Passados alguns dias do VaVá.Diando de 18.08.07, continuam a chegar palavras que não posso esquecer. Para elas vão o meu agradecimento. Muitas em "comments", é certo, mas sobretudo em alguns "posts" que me calaram bem fundo.

1. O primeiro, tem parentesco declarado, por isso é o primeiro, com o olhar embebecido de sempre. A referência vem do Frederico, no blogue "Não há Nada Como o Realmente" e fala de "já lá vão alguns anos". Por essa altura o jogo eram conchinhas. E já lá vão alguns anos, sim!

2. Não sei se sabem, mas acabei de realizar um filme sobre a pintora Maria Sobral Mendonça. No dia 18 apresentei-o, em ante-estreia, à Maria, juntamente a mais alguns amigos. Finda a projecção, conversou-se até às tantas, o que é sempre agradável. A Maria disse que gostara, mas que me daria uma opinião mais concreta, por palavras, no seu blogue "Lapis Exilis". Esperei e apareceram as palavras e as imagens. Que não resisto a transcrever. E agradecer. É não abdicando de sermos nós próprios que poderemos chegar aos outros, de nós diferentes. Esse era o desafio. Aqui ficam as palavras:


[...a paredes meias...]
http://mp3.juno.co.uk/MP3/SF262851-01-02-02.mp3

{... a paredes meias foi onde estive no dia de aniversário de lauro antónio. há em LA imagens, viagens, diálogos, ideias... longe daki. daki é aquela cidade para onde todos desejam partir quando cansados de viver aqui estão. não, não me refiro aos Céus... nem aos anjos, nem tão pouco aos arcanjos que habitam mil noites sem fim. daki, fica em outro continente. há manhãs submersas de espanto e esperança para os que vivem em daki. agora aqui, neste continente onde se encalha por prazer, há apenas horizontes pintados de verdes invejas em todos os sorrisos orfãos de si. estranho sentimento esse... que morde grande parte dos habitantes que aqui vivem... em terras de Portugal. mas, foi em casa de lauro antónio que vi pela primeira vez imagens da sua viagem à minha cidade das tintas. foi de lá também que veio comigo seu filme "manhã submersa". há neste homem imagens que acontecem... gente sem peneiras... e cenários vivos retirados de quadros jamais aqui pintados!... há em LA, os meus sinceros agradecimentos, por tudo o que fez e por tudo o que está ainda por fazer. e quando o tema "Deus" o visita e o convida, a captar essa Luz... lauro antónio capta a dúvida, os homens e a ele mesmo... com sublime sucesso. só aos humildes lhes é dado semelhantes abrigos assim. é talvez por isso que nada acontece por acaso. e quando o acaso acontece... e a luz não se entristece no ecran da nossa vida... acendem-se velas no mais alto altar do mundo e simplesmente se agradece. da manhã submersa ao alentejo, a Deus e a tudo o resto... obrigado Lauro António!... } Obrigado, Maria.

3. O "Pai", a "Ouriço" e demais família são daquelas pessoas que dá mesmo gosto conhecer. Basta olhar uma vez para eles e não nos enganamos quanto ao íntimo. São de boa cepa. De trazer quentes junto ao coração. A Ouriço já tinha referido o 18.8 no seu "Branco & Azul", agora o Pai reafirma a amizade no "A Espuma do Dia". Um grande abraço ao Pai e beijinhos para tão simpática (restante) família.

4. Também a Rita Almeida, do blogue "Cinerama" fez uma referência que me deixa sem palavras. Fala da Tertúlia e foi recuperar uma foto minha do tempo da realização de "Manhã Submersa". Um beijo Rita.

5. Entretanto, prepara-se, à semelhança das outras tertúlias anteriores, um blogue com fotos do evento do dia 18. Pode aceder por aqui (entá em fase de construção ainda).

segunda-feira, agosto 20, 2007

LIVROS E FILMES: NOW, VOYAGER

NOW, VOYAGER


Na “Manhã Submersa” há um momento em que o jovem protagonista, quando volta do seminário para a sua aldeia natal, lá nos picos da serra da Estrela, pára por momentos na esquina de uma ruela, olhando os cartazes que anunciam dois filmes para proximamente no cinema da terra. Um é bíblico, “O Sinal da Cruz”, de Cecil B. de Mille, o outro é um melodrama admirável de Gorge Cukor, “A Dama das Camélias” (“Camille” no original, o que terá a sua futura importância para este comentário). Enquanto vê as fotografias cartonadas ouve-se o fabuloso tema musical que Max Steiner criou para “Now Voyager”, um outro melodrama da época (este de 1942), realizado por Irvin Rapper, segundo romance de Olive Higgins Prouty (que também escrevera com muito sucesso “Stella Dallas”). Interpretado muito superiormente por Bette Davis, Paul Henreid, Claude Rains e Gladys Cooper, “A Estranha Passageira”, que revi agora, é mesmo uma das mais poderosas e fascinantes histórias de amor que o cinema nos deu e um dos retratos de mulher mais intrigante, complexo, perverso e ao mesmo tempo generoso que me lembro de ver. Que procurava eu ao colocar o miúdo de “Manhã Submersa” a ver a sua atenção ser solicitada por dois melodramas de sentido contrário, o melodrama bíblico e o melodrama de perdição amorosa? Tornar visível, em imagens que funcionassem pela sua própria simbologia, o drama interior de António, dividido entre a vida no seminário e o apelo do exterior.
“Now Voyager” adquiria assim, para mim, mas também para milhões de espectadores no mundo todo, o estatuto de referência mítica de uma obra onde o amor, nas suas mais diversas facetas, era tratado de forma sublime.
A América pode ter muitos defeitos, que têm; podemos estar muito zangados com algumas atitudes de muitos americanos, e invariavelmente estamos; mas, de repente, há um romance, um filme, um tema musical, uma peça de teatro, um quadro, uma declaração política, um gesto que nos mostra a grandeza desse povo. “Now, Voyager”, realizado em 1942, é uma obra admirável, que não deixa de surpreender ainda hoje, que ostenta uma modernidade, uma complexidade de análise, um intrincado jogo de sentimentos, de emoções, de situações que mostra bem a grandeza do romancista, do realizador, dos técnicos (fotografia a preto e branco magnífica, partitura musical inesquecível) e dos actores (todos brilhantes, mas uma Bette Davis de talento arrebatador) e impõe a grandeza do país onde foi criado. Em pleno regime pesado do malfadado Código Hayes, lançar-se no mercado um filme como este é obra que merece ser sublinhada.

Falemos então um pouco deste filme, ainda sob os efeitos do encantamento provocado pela sua visão. Não é uma obra-prima, não é um filme perfeito, tem arestas agrestes e uma ou outra sequência que deixa a desejar (mais uma vez o folclorismo do exótico de papelão, com uma passagem pelo Rio de Janeiro onde se fala um espanhol italianizado que escandaliza pela ligeireza, onde as transparências rodadas em estúdio chocam, onde apenas um ou outro plano tem autenticidade mínima). Mas, não sendo um filme perfeito, é uma daquelas obras que arrebata de principio a fim, que não nos deixa soltar os olhos do ecrã, que de quando em vez nos rasa os olhos de lágrimas de felicidade, que nos faz acreditar na beleza superior da arte, e que nos faz sentirmos felizes por existirmos. Mesmo quando se vêem exemplos do que se podem considerar fraquezas humanas e vícios sociais que, por vezes, destroem vidas impunemente.
Charlotte Vale (Bette Davis) é a filha não querida de Mrs. Henry Windle Vale (Gladys Cooper) que, por isso, a trata de forma despótica e a transforma numa mulher amarrotada pela vida e angustiada, tímida e fugitiva, sempre à beira de uma depressão. Nasceu fora de prazo, e muito embora no seio de uma família rica e das mais reputadas de Boston, Charlotte vive no andar de cima, fechada num quarto que é refugio e prisão, cabelo agarrado, vestido de tia solteirona, óculos de freira laica, olhar mortiço e uma única lembrança a ligá-la ao amor: um cruzeiro, uma fugaz história de amor com o oficial das comunicações, apanhados os dois em flagrante numa noite de luar no interior de um carro no porão das mercadorias. A vergonha, pelos olhos e a voz da mãe e do capitão do navio.
Daí em diante tem sido o exílio imposto e assumido. Até ao dia em que surge na família o Dr. Jaquith (Claude Rains), “o mais famoso psiquiatra do país”, que vem analisar o caso de Charlotte e descobre que a “a tirania é, por vezes, a expressão de instinto maternal.” Ao que Charlotte responde: “Se isso é o amor maternal, não quero colaborar nisso.” Jaquith leva Charlotte para uma casa de repouso e sanatório que dirige em Vermont, onde a rapariga rapidamente recupera a alegria de viver e a espontaneidade dos gestos. Foi necessário apenas desenvolver a auto estima e estimular a vontade própria para florescer uma mulher completamente diferente, confiante e divertida, extrovertida e sequiosa de amor. O que acontece durante a prova final do desafio superado, uma viagem a bordo de um cruzeiro, onde conhece e se apaixona por Jerry Durrance (Paul Henreid), um arquitecto, casado e pai de duas filhas.
As noites de amor existem, apesar de pudicamente elididas no filme (há elipses que tornam ainda mais fortes e intensas as imagens que apenas se pressentem e intuem), e, durante uma paragem no Rio de Janeiro, a voz do coração (e do desejo do contacto físico) fala mais alto. (Ficam por estas zonas as sequências estereotipadas sobre o Brasil, que mancham de alguma forma a coerência do projecto, mas adiante). Findo o cruzeiro, cada um parte para seu lado, mas Charlotte passa a ser para sempre a Camille de Jerry Durrance, recebendo camélias brancas directamente de Nova Iorque. Camille é a heroína de “Dama das Camélias”, vale a pena recordar, a mulher do prazer que se imola por amor, e Charlotte aceitar este labelo tem muito que se lhe diga.

Se durante a primeira parte do filme se vive na perversidade de um jogo de poder, com a mãe a dominar a filha de forma repulsivamente tirânica, a partir daqui a perversidade é outra. Não que a filha se volte contra a mãe, apesar de ignorar as suas pressões e chantagens, mas sobretudo nas relações que se prolongam entre Charlotte-Camille e Jerry Durrance. Ele habita longe, raramente se encontram, mas vivem um para o outro, num amor secreto que é um pacto de silêncio pejado de desejos. Charlotte chega mesmo a ficar noiva de uma pretendente de Boston. Uma noite, o casal de noivos vai a um concerto, na companhia de Jerry Durrance. Charlotte-Camille oferece a sua mão ao noivo e ostensivamente olha para Jerry Durrance. O plano é de uma obsessiva violência de significado. Charlotte não só sabe muito bem o que quer como quer libertar-se das peias que a amarram. Num outro plano fabuloso, pela sua encenação, vê-se a mãe de Charlotte de costas, com um braço a atravessar o enquadramento, enquanto a filha, oculta atrás de uma parede, vai discorrendo sobre o que quer para si e, sobretudo, sobre o que não quer que se mantenha, essa opressão sinistra exercida em nome de um amor maternal que não pode existir.
A história repete-se depois. A filha mais nova de Jerry Durrance, Tina, passa pelo mesmo calvário que Charlotte havia conhecido, vai parar à mesma casa de repouso, Charlotte serve-lhe de enfermeira e adopta-a como filha. Finalmente ela e Jerry Durrance têm algo em comum, uma filha, o resultado de um amor que não morre, que se estende para lá do impossível. “Para que queremos a Lua, se temos as estrelas?” é a frase final desta obra que materializa de forma brilhante o poder hipnótico do melodrama levado à sua essência, sem que, no entanto, por esse facto se deixem de abordar e tratar temas de uma gravidade e complexidade notáveis. “Now, Voyager” é o cinema no seu mais extremado limite de repensar o humano na sua vastidão e multiplicidade.
Na década de 40 a psicanálise ganha adeptos e impõe-se na América, nomeadamente. O filme é o reflexo dessa crença nas novas possibilidades desta terapia, mas fá-lo sempre com uma nobreza e seriedade invulgares. A figura do Dr. Jaquith é perfeita no registo, de uma compreensão e “sagesse” raras. O desdobramento de personalidades e de comportamento de Charlotte (de Charlotte para Camille) é particularmente brilhante. Bette Davis é uma actriz espantosa, que o público nem sempre compreendeu. Não era especialmente bonita ou escultural (como Garbo ou Marlene), mas esses handicaps tornam mais relevante a sua carreira, ainda por cima carregada de personagens sinistras e viciosas que afastam as actrizes da fácil simpatia das plateias. O retrato de Charlotte é uma das mais soberbas representações femininas da história do cinema.
Mesmo nos momentos mais depressivos, uma ponta de humor atravessa a obra. Quando perguntam a Charlotte se é menina ou senhora, ela responde com raiva, mas também algum orgulho, “Sou tia. Em todas as famílias há uma “tia”. Eu sou a tia dos Vale.”
De resto, psicanaliticamente, o filme desdobra-se em significações múltiplas. Será o Dr. Jaquith, a responder à mãe de Charlotte com uma frase que terá conotações pessoais, mas que poderá igualmente ter um leitura política e social (veja-se o caso português, o salazarismo, por exemplo): “Minha querida Mrs. Vale, se planeou deliberada e maliciosamente destruir a sua filha, não o poderia ter feito mais completamente.” Mrs. Vale, indignada, reage: “Como? Exercendo os direitos de mãe?” Jaquith volta ao ataque: “Os direitos da mãe? Uma criança tem os seus direitos, uma pessoa tem os seus direitos, tem de ser ela a descobrir os seus erros, a construir o seu caminho, a crescer e florir no seu próprio terreno.” Mrs. Vale, ironicamente, responde: “Agora fala-me de botânica, doutor? Nós somos flores?”
Outro dos aspectos muito curiosos desta obra parte de algo que hoje em dia se tornou um fantasma e uma obsessão: o cigarro. A lenda não sabe a quem atribuir um dos gestos que tornariam célebre este filme e que contribuiu igualmente para a criação do mito em redor desta obra e da sua simbologia erótica. A bordo do cruzeiro, a determinada altura do convívio de Charlottte com Jerry, este acende dois cigarros de uma só vez e estende um deles à companheira de conversa, que o aceita e leva aos lábios. A partir desta primeira cena, outras haverá ao, longo do filme, que assinalam momentos de maior proximidade afectiva ou intimidade. Essa troca de cigarros que passam de uma boca para a outra, esses beijos consentidos através de um prazer proibido (os cigarros estavam proibidos em casa dos Vale; Charlote fumava, fechada no seu quarto, às escondidas da mãe) são fogo que se alumia na noite do desejo, de um desejo que se compartilha, de uma solidão que se rejeita, de uma cumplicidade que se instala.
Ninguém sabe quem imaginou esta cena, o realizador chama-a a si, o autor do romance assinala que algo de semelhante era descrito do romance (cada um acende um cigarro e trocam-nos depois), mas é Paul Henreid quem vai mais longe, referindo que foi ele que teve a ideia de trazer para o filme algo que era costume ser feito em sua casa, entre ele e a mulher. Sem se saber quem foi realmente o autor da inspiração, fica o momento único desse cigarro que passa de boca em boca. Num filme onde o indizível tem tamanha forma e presença, esse gesto carregado de sentido é penas um entre muitos outros momentos de magia que fazem de “Now, Voyager” um clássico que permanece imaculável 55 anos depois. Tal como “Casablanca”, filme do mesmo ano e da mesma produtora, onde se descobrem igualmente dois dos mesmos actores, Claude Rains e Paul Henreid.
O título deste épico dos sentimentos, foi retirado de uma poema de um dos maiores escritores norte-americanos de sempre, o poeta Walt Whitman, que, em 1892, lançou “Leaves of Grass”, onde se encontra o citado “The Untold Want”: “The Untold Want / By Life and Land Ne'er Granted / Now, Voyager / Sail Thou Forth to Seek and Find.”
A ESTRANHA PASSAGEIRA
Título original: Now, Voyager
Realização: Irving Rapper (EUA, 1942); Argumento: Casey Robinson, segundo romance de Olive Higgins Prouty ("Lisa Vale"); Música: Max Steiner; Fotografia (p/b): Sol Polito ; Montagem: Warren Low; Montagens de sequência: Don Siegel; Direcção artística: Robert M. Haas; Decoração: Fred M. MacLean; Guarda-roupa: Orry-Kelly; Maquilhagem: Perc Westmore; Som: Robert B. Lee; Efeitos especiais: Willard Van Enger; Produção: Hal B. Wallis; Companhia de produção: Warner Bros. Pictures
Intérpretes: Bette Davis (Charlotte Vale), Paul Henreid (Jerry Durrance), Claude Rains (Dr. Jaquith), Gladys Cooper (Mrs. Henry Windle Vale), Bonita Granville (June Vale), Ilka Chase (Lisa Vale), John Loder (Elliot Livingston), Lee Patrick (Deb McIntyre), Franklin Pangborn (Mr. Thompson), Katherine Alexander (Miss Trask), James Rennie (Frank McIntyre), Mary Wickes (Dora Pickford), Janis Wilson (Tina Durrance), Michael Ames (Dr. Dan Regan), Charles Drake (Leslie Trotter), Frank Puglia (Manoel), David Clyde (William), Tod Andrews, Brooks Benedict, Frank Dae, Yola d'Avril, Donald Douglas, Claire Du Brey, Elspeth Dudgeon, Bill Edwards, Mary Field, Bess Flowers, Reed Hadley, Sheila Hayward, Bill Kennedy, George Lessey, Lester Matthews, Corbet Morris, Tempe Pigott, Hilda Plowright, Constance Purdy, Georges Renavent, Dorothy Vaughan, Isabel Withers, Ian Wolfe, Charlotte Wynters, etc.
Duração: 17 minutos; Estreia: 22 de Outubro de 1942 (EUA); Distribuição em Portugal (DVD): Warner

domingo, agosto 19, 2007

NO DIA SEGUINTE

"(...)Ainda se os desfizesse,
mas fazê-los não parece
de quem tem muito miolo"


No dia seguinte, apetece agradecer a todos os que permitiram tão agradável dia 18. Os que estiveram presente, os que enviaram mensagens (telefone, msn, comments, etc), e os cinco blogues (ou melhor: as cinco blogas!) que me deram a honra de ter um comentário especialmente dedicado. E que foram (por ordem alfabética):

A Ana, no "221-b Baker Street", "Parabéns ao Lauro António!"

A Ida, no "Sulburbio", "Um Aniversário Hoje"


A Ouriço, no "Branco & Azul", "Para o Lauro"

A S. do "NonBlog", "LA by S"

Finalmente, já hoje, no rescaldo, a MEC, do "Detesto Sopa", "Foi Bonita a Festa, Pá"



A todas o meu obrigado e um beijo.

sexta-feira, agosto 17, 2007

VAVA.DIANDO SOBRE A MEMÓRIA

VÁ.VÁ.DIANDO
10 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A
VÁVÁ.DIANDO / ESPECIAL


18.08’07: 20H
R E S T A U R A N T E - C A F É V Á V Á
CONVIDADO ESPECIAL:
LAURO ANTÓNIO

MEMÓRIAS DA VIDA, DO CINEMA E DO VÁVÁ

DEPOIS DE RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES e PAULO PORTAS, CONTINUAM OS JANTARES-ENCONTROS NA MEHOR TRADIÇÃO DAS TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

LAURO ANTÓNIO, FORMADO EM HISTÓRIA, REALIZADOR DE CINEMA E TV, CRÌTICO, DRAMATURGO, ENCENADOR, PROFESSOR, ESCRITOR, BLOGUISTA E MUITO MAIS, FALA DE MEMÓRIAS.

TODOS ESTÃO CONVIDADOS MEDIANTE O PAGAMENTO DE UMA SIMBÓLICA QUANTIA: 12,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

RECUPEREM O BOM GOSTO DE UM SABOROSO JANTAR E DE UMA RECONFORTANTE CONVERSA À RODA DA MESA.
[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]
HÀ 5 LUGARES DISPONIVEIS (HOJE 17.8.2007)
Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO / [ Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/ ]
[ mail: laproducine@gmail.com ]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761)

LIVROS E FILMES: CHUVA




W. SOMERSET MAUGHAM:
“CHUVA”, EM TRÊS TEMPOS

“Miss Sadie Thompson” (Chuva), uma realização de Curtis Bernhardt, com interpretação de Rita Hayworth, José Ferrer, Aldo Ray e Charles Bronson (em início de carreira), é a terceira versão (reconhecida enquanto tal) da adaptação de um conto de William Somerset Maugham, “Rain”, publicado na antologia “Contos dos Mares do Sul” (The Trembling of a Leaf), aparecida em 1921. Esta obra mereceu inicialmente (logo dois anos depois) uma adaptação ao teatro, “Rain”, escrita por John Colton e Clemence Randolph e estreada no Garrick Theatre de Londres, em 12 de Maio de 1925.


Em 1928, o cinema iria interessar-se pela primeira vez por esta pequena história. Raoul Walsh e C. Gardner Sullivan (autor dos inter títulos) adaptam a peça teatral com uma destinatária óbvia, que, aliás, produziria o projecto: Gloria Swanson (a mesma de “O Crepúsculo dos Deuses”). O filme de Raoul Walsh (que aparecia igualmente como actor, contracenando com a grande vedeta) mereceu duas nomeações para os Oscars da Academia, uma para a melhor actriz (Gloria Swanson), outra para melhor fotografia.
Parece que a representação da actriz era altamente escandalosa ao nível dos diálogos (diz quem consegue ler nos lábios dos outros sem ouvir os sons da palavras, estávamos em finais do cinema mudo!), mas como não transparecia para as legendas (ou inter títulos) o filme passou sem grande moléstia da censura. Refira-se ainda que estávamos também numa altura em que o código Hayes não funcionava em pleno. (o código, instituído pela The Motion Pictures Producers and Distributors Association (MPPDA), mais tarde conhecida por The Motion Picture Association of America (MPAA), só foi criado em 1930, tornando-se efectivo em 1934, vindo a ser abandonado unicamente em 1967, quando foi substituído pela classificação etária promovida pela MPAA, que ainda hoje vigora, com alterações ligeiras ao longo das últimas quatro décadas).
A obra, pensada para glória de Gloria Swanson, é contada com a eficácia de estilo de um clássico da aventura, com a secura narrativa de um cineasta tradicionalista como Raoul Walsh, com o talento e a elegância descritiva de uma realizador em plena fase de criativa maturidade. A representação de Gloria Swanson é excelente, uma das melhores da sua carreira. O filme, que esteve desaparecido, conta ainda com algumas cenas perdidas, mas foi recuperado recentemente para edição em DVD e oferece magnificas imagens e uma reconstrução das sequências finais, partindo de fotos e de material de estúdio. É uma ocasião quase única para surpreender a grande vedeta no apogeu da sua fase gloriosa, descobrir a sua sensualidade vulcânica, o seu olhar fatal, a sua forma de representar, contracenando com um brilhante Lionel Barrimore e um Walsh de olhos claros (ainda distante do famoso pala negra de Hollywood).


Pouco depois, em 1932, seria Joan Crawford a interpretar o papel de Miss Sadie Thompson, num elenco que a colocava ao lado de Walter Huston, Guy Kibbee e Beulah Bondi. A adaptação (partindo do conto e da mesma peça teatral) era do dramaturgo Maxwell Anderson, e a realização de Lewis Milestone. O filme chamava-se “Rain” e surgiram diversos problemas com a censura, apesar do Código ainda estar em período de instalação. Joan Crawford era a prostituta que chega a Pola-Pola e desencadeia a cólera do austero (e hipócrita) missionário (criado a preceito pelo fabuloso Walter Huston).
A realização de Lewis Milestone altera radicalmente o tom da adaptação, numa mistura de cinema de vanguarda com algumas experiências documentais que relembram Flaherty. Enquadramentos estranhos, montagem muito ritmada, uma representação expressiva, vivendo muito do grande plano e da eloquência do trabalho dos excelentes actores, alternam com planos de uma duração invulgar na época e mesmo um ou outro hesitante plano sequência. Há cenas notáveis, como a que opõe Walter Huston, o irredutível missionário, à escandalosa Joan Crawford, com o religioso no cimo de uma escada e a devassa em plano inferior, ambos falando em simultâneo, discursos paralelos que se anulam e nem um nem outro ouve, até que lentamente a demagogia do prior se acentua, domina Sadie que se cala e se afasta, se “apaga”, se intimida e se converte. Mas o trabalho de Joan Crawford é também ele de uma qualidade e força impares, mostrando bem como deveriam ser, por essa altura, os seus duelos com Bette Davis.
As interpretações ficaram na memória de muitos, de tal forma que a dupla Sonny and Cher, no seu programa de televisão "The Sonny and Cher Comedy Hour" (1971-1974) tinha um apontamento que surgia, de tempos a tempos, inspirado nesta dupla Crawford-Huston, a que dava o nome de "The Vamps." Também em “Road to Bali” (1952) há uma referência a esta versão, de que, curiosamente, Joan Crawford não gostava muito. Dizem as más-línguas que não se sentia a representar, que era a sua verdadeira maneira de ser que vinha ao cimo. Mas há também quem diga que é uma das películas mais inteligentes produzidas na América na década de 30, e quem refira a qualidade da realização de um grande cineasta, Lewis Milestone, que havia rodado, pouco antes, o brilhante “All Quiet on the Western Front” (1930). O filme denunciava um puritanismo hipócrita que tanto actores como realizador não procuraram dissimular. Por isso nunca conseguiu entrar no circuito comercial português, certamente “protegido” por uma forte censura dos costumes. Nesta versão a chuva e a paisagem atingem a importância de personagens, interferindo e condicionando psicologicamente figuras e situações.


Em 1946, aparece um filme curioso, de visão difícil hoje em dia, “Dirty Gertie from Harlem U.S.A.”, com Francine Everett e Don Wilson, escrito por True T. Thompson, e realizado por Spencer Williams. Trata-se de um versão, não creditada oficialmente, do mesmo conto de W. Somerset Maugham, mas desta feita inteiramente rodado com actores negros, em cenários condizentes. Não vimos nem conseguimos grandes informações suplementares.
Na comédia “Love Happy”, de 1949, imaginada pelos Irmãos Marx, aparece uma sequência coreografada, na qual Vera-Ellen dança com um grupo de Marines, regressados da II Guerra Mundial, bailado que cita directamente a obra de Lewis Milestone.


Será, todavia, em 1953, no filme “Miss Sadie Thompson”, com a exuberante Rita Hayworth, dirigida por Curtis Bernhardt, que o conto de W. Somerset Maugham adquire maior projecção no cinema, apesar de não ser talvez a sua melhor adaptação. O drama da prostituta que viaja pelos mares do Sul, e encalha em Pola-Pola, ficando aí retida pelas tremendas chuvas tropicais que assolam a ilha, sofre algumas alterações para contentar o espírito moralista da época (com o código a funcionar em pleno!). Sadie Thompson deixa, por exemplo, de ser prostituta e passa a ser uma cantora, animadora de cabarets baratos, em viagem entre dois empregos. Em Pola-Pola, no Hawai, base militar americana, fica instalada numa pensão decrépita, onde se recolhem igualmente um missionário e um médico e as respectivas esposas. O missionário é um irrequieto pregador da virtude, a quem o gramofone de Miss Thompson causa calafrios, bem assim como a boa disposição desta, o seu imoderado gosto pelo tabaco e a bebida, e a forma franca e descomplexada como recebe nos seus aposentos marines que curtem as folgas. Alfred Davidson (José Ferrer), o missionário, é o protótipo do pior que a América sempre teve, e tem, e que é uma herança de um certo puritanismo fradesco e fascistoide de inspiração europeia, óbvio. Mesmo um conservador, como o Dr. MacPhail (Russell Collins), não consegue entender a maldade que se esconde sob as vestes da prepotência espiritual do sacerdote, e chega timidamente a revoltar-se. Mas Alfred Davidson está na disposição de enviar Miss Sadie Thompson para fora da ilha, recambiá-la para São Francisco, e para um prisão infecta, denunciá-la ao governador e marcar passagem no primeiro navio que por ali passar, até que Miss Thomson se arrepende, e procura ter o conforto do missionário para a “libertar do demónio” nas longas, mas poucas noites que lhe restam em Pola-Pola. Afinal não será a voluptuosa Miss Sadie a ceder, perante a imagem do milagroso Davidson, mas este a revelar a sua verdadeira essência. Alfred Davidson referindo-se a Sadie Thomson dizia: “From now on you will be strong. There is to be no more fear. Radiant... beautiful... you will be one of the daughters of the kingdom. That's what you are now, Sadie, one of the daughters of the kingdom... radiant... beautiful.” Beautiful.


O filme oscila entre o drama social e o musical (as duas nomeações para os Oscars do ano vão para a partitura musical e a canção de Lester Lee e Ned Washington: "Sadie Thompson's Song - Blue Pacific Blues"), mas tem vastos motivos para ser visto. Desde logo pela presença de Rita Hayworth, vinda de “Gilda” e “A Dama de Xangai”, que aqui nos dá um bom retrato de mulher aventureira e rebelde. Também pela rigidez de actuação de José Ferrer, que consegue ser odioso nas suas acções e palavras. A realização não será particularmente brilhante, mas é eficaz. Mesmo o folclorismo da encenação numa ilha do Hawai não é totalmente desinteressante, marcando um bom contraste com a austeridade de uns poucos e a alegria de viver da maioria. Mas em qualquer dos casos a obra de W. Somerseth Maugham é definitivamente muito mais cáustica e arrasadora de preconceitos e hipocrisias que qualquer uma das suas adaptações. Creio poder mesmo dizer que com “Rain” nos deparamos com uma das obras-primas do conto que nunca teve a sorte de encontrar transposição para o ecrã à altura dos seus méritos. Apesar de nenhuma das adaptações ser menosprezável.



A SEDUÇÃO DO PECADO
Título original: Sadie Thompson
Realização: Raoul Walsh, William Cameron Menzies (EUA, 1928); Argumento: Raoul Walsh, C. Gardner Sullivan, segundo peça teatral “Rain”, de John Colton e Clemence Randolph, retirada do conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Fotografia (p/b): George Barnes, Robert Kurrle, Oliver T. Marsh; Montagem: C. Gardner Sullivan; Direção artística: William Cameron Menzies; Direcção de produção: Pierre Bedard; Assistente de realização: William Tummel; Produção: Raoul Walsh, Gloria Swanson; Companhias produtoras: Gloria Swanson Pictures Corporation;
Intérpretes: Gloria Swanson (Sadie Thompson), Lionel Barrymore (Alfred Davidson), Blanche Friderici (Mrs. Alfred Davidson), Charles Lane (Dr. Angus McPhail), Florence Midgley (Mrs. Angus McPhail), James A. Marcus (Joe Horn), Sophia Artega (Ameena), Will Stanton (Bates), Raoul Walsh (Sgt Timothy 'Tim' O'Hara), Charles Sullivan (Marinheiro), etc.
Duração: 91 minutos (97 minutos, na versão original); Estreia: 7 de Janeiro de 1928 (EUA); Locais de filmagem: Ilha de Santa Catalina, Channel Islands, California, EUA.

(Sem título em Portugal; não estreado comercialmente)
Título original: Rain
Realização: Lewis Milestone (EUA, 1932); Argumento: Maxwell Anderson, segundo peça teatral “Rain”, de John Colton e Clemence Randolph, retirada do conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Música: Alfred Newman; Fotografia (p/b): Oliver T. Marsh; Montagem: W. Duncan Mansfield; Direção artística: Richard Day; Assistente de realização: Nate Watt; Som: Frank Grenzback; Produção: Lewis Milestone, Joseph M. Schenck; Companhias produtoras: Lewis Milestone Productions Inc., United Artists, Feature Productions.
Intérpretes: Joan Crawford (Sadie Thompson), Walter Huston (Alfred Davidson), Fred Howard (Hodgson), Ben Hendricks Jr. (Griggs), William Gargan (Sgt. Tim 'Handsome' O'Hara), Mary Shaw (Ameena), Guy Kibbee (Joe Horn), Kendall Lee (Mrs. Robert MacPhail), Beulah Bondi (Mrs. Alfred Davidson), Matt Moore (Dr. Robert MacPhail), Walter Catlett (Bates), etc.
Duração: 92 minutos; Estreia: 12 de Outubro de 1932 (EUA); Locais de filmagem: Ilha de Santa Catalina, Channel Islands, California, EUA.

(Sem título em Portugal; não estreado comercialmente)
Título original: Dirty Gertie from Harlem U.S.A.
Realização: Spencer Williams (EUA, 1946); Argumento: True T. Thompson, Segundo conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"), não creditado; Fotografia (p/B): John L. Herman; Direcção artística: Ted Soloman; Maquilhagem: Frillia; Departamento de arte: J.L. Bock; Som: Richard E. Byers; Produção: Bert Goldberg, Alfred N. Sack; Companhia de produção: Sack Amusement Enterprises
Intérpretes: Francine Everett (Gertie La Rue), Don Wilson (Diamond Joe), Katherine Moore (Stella Van Johnson), Alfred Hawkins (Jonathan Christian), David Boykin (Ezra Crumm), L.E. Lewis (Papa Bridges), Inez Newell (Mama Bridges), Piano Frank (Larry), John King (Al), Shelly Ross (Big Boy), Hugh Watson, Don Gilbert, Spencer Williams, July Jones, Howard Galloway, etc.
Duração: 65 minutos; Locais de filmagem: Dallas, Texas, EUA; San Antonio, Texas, EUA.

CHUVA
Título original: Miss Sadie Thompson
Realização: Curtis Bernhardt (EUA, 1953); Argumento: Harry Kleiner, segundo conto de W. Somerset Maugham ("Miss Thompson"); Música: George Duning; Fotografia (cor): Charles Lawton Jr.; Montagem: Viola Lawrence; Direção artística: Carl Anderson; Decoração: Louis Diage; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Clay Campbell, Helen Hunt, Robert J. Schiffer; Assistente de realização: Sam Nelson; Departamento de arte: Harold Michelson; Som: George Cooper; Coreografia: Lee Scott; Produção: Jerry Wald; Companhias produtoras: Columbia Pictures Corporation.
Intérpretes: Rita Hayworth (Sadie Thompson, com a voz de Jo Ann Greer nas sequências cantadas), José Ferrer (Alfred Davidson), Aldo Ray (Sgt. Phil O'Hara), Russell Collins (Dr. MacPhail), Diosa Costello (Ameena Horn), Harry Bellaver (Joe Horn), Wilton Graff (Governador); Peggy Converse (Mrs. Davidson), Henry Slate (soldado Griggs), Rudy Bond (soldado Hodges), Charles Bronson (como Charles Buchinsky) (soldado Edwards), Frances Morris (Mrs. MacPhail), Peter Chong (Chung), John Grossett (padre), Robert G. Anderson, Elizabeth Bartilet, Erlynn Mary Botelho, Eduardo Cansino Jr., Johnny Duncan, Ben Harris, Harold 'Tommy' Hart, Charles Horvath, Ted Jordan, Al Kikume, Freddie Letuli, Joe McCabe, Dennis Medieros, Ted Pavelec, Frank Stanlow, Billy Varga, etc.
Duração: 91 minutos; Estreia: 23 de Dezembro de 1953 (EUA); Locais de filmagem: Kaua`i, Hawaii, EUA.

quarta-feira, agosto 15, 2007

UM FUTEBOL CHATINHO, A ABRIR

Sporting-Benfica, Sporting-Porto e Benfica-Copenhague já dão para se ter uma ideia do que vai ser a próxima época caseira. Fraquinha. Sou sportinguista sofredor, por isso descontem qualquer coisinha. Mas procuro sempre ser imparcial, depois de passados os 90 minutos. Não gostei francamente de nenhuma das equipas portuguesas. Muito medíocres para o confronto internacional, muito chatinhas para acompanhar mesmo pela TV. Oxalá me engane.
O Porto está mais fraco que no ano passado. Mesmo assim esperava muito mais. É uma equipa medrosa, titubeante, sem arrojo. Com pesos pesados, que são isso mesmo pesados. O Benfica, meu Deus!, que é aquilo? Uma manta de retalhos com 2 ou 3 fora de série. Rui Costa, sim senhor, Cardoso, David Luís… e depois? Luisão? Francamente, o seleccionador brasileiro nunca viu jogar Polga? Enfim, para um sportinguista, estão muito bem como estão. Até nos ganharam num jogo (a feijões) em que nunca o mereceram, mas tudo bem. Quando saem de portas (ou mesmo dentro de portas, na Luz), vê-se logo o que são capazes. Infelizmente.
Falando do Sporting, acho que é a equipa mais interessante, mas ainda não está a jogar bom futebol. Tem um conjunto jovem, muito jovem, cheio de talento, alguns mais tarimbados e bons de bola, que enquadram os noviços, é consistente a defender, tem bom meio campo, mas fraco a atacar, se Liedson não estiver em forma. Derlei, poupem-me! Os outros reforços, acho que sim, que podem ser reforços. A ver vamos.
Mas não é preciso ir muito longe para ver. Vi o Chelsea e o Manchester United a abrir lá o campeonato deles e, minha Nossa!, aquilo é mesmo outro campeonato. Quem é que se desculpa com o início de época, com os reforços a ambientarem-se, com as hesitações dos técnicos, etc., etc.? Aquilo sim, é jogar à bola que até faz esquecer as maleitas de fora do campo. Aquilo sim, é espectáculo que pode ser chamado “ópio do povo” (graças a Deus!). Aqui em Portugal, nada disso se passa: vemos um jogo e, ou adormecemos, ou pensamos em tudo o que vai mal cá no burgo. Os apitos dourados, os impostos, as prepotências, as falências técnicas…, a educação, a saúde, a Ota… Enfim, em Portugal, é tudo muito “neo-realista”, até nos campos de futebol. O joguinho nunca é muito exaltante para não alienar as massas. Oh como eu gostava de ser alienado por um Sporting galvanizante. Vamos a isso rapazes!

terça-feira, agosto 14, 2007

LIVROS E FILMES: O FIO DA NAVALHA

"O FIO DA NAVALHA":
O ROMANCE
E AS VERSÕES CINEMATOGRÁFICAS
“O Fio da Navalha” é um dos romances de maior sucesso de Somerset Maugham, só ultrapassado, ao que julgo, por “Servidão Humana”. De “The Raizor’s Edge” os americanos realizaram duas adaptações cinematográficas, uma de 1946, com realização de Edmund Goulding, e com um excelente elenco, onde se destacavam Tyrone Power (Larry Darrell), Gene Tierney (Isabel Bradley), John Payne (Gray Maturin), Anne Baxter (Sophie Nelson Macdonald), Clifton Webb (Elliott Templeton), Herbert Marshall (W. Somerset Maugham), Lucile Watson (Louisa Bradley), Frank Latimore (Bob Macdonald) e Elsa Lanchester (Miss Keith, secretária da Princesa). A fabulosa fotografia a preto e branco era assinada por Arthur C. Miller e a partitura musical da responsabilidade de Alfred Newman. Não se tratava de uma obra-prima, mas, com uma ou outra cedência a um exotismo de pacotilha nas sequências rodadas fora dos EUA (Paris e Índia, sobretudo), este “The Razor's Edge” aproximava-se muito do que se pode pedir a uma boa adaptação, com alguns aspectos arrojados e uma notável criação de personagens.
Nos anos 80, mais precisamente em 1984, foi a vez de John Byrum voltar ao clássico, desta feita com uma adaptação promovida e escrita por Bill Murray (de colaboração com o próprio John Byrum), que interpretaria o papel principal, Larry Darrell, ao lado de um elenco curioso: Theresa Russell (Sophie MacDonald), Catherine Hicks (Isabel Bradley), Denholm Elliott (Elliott Templeton), James Keach (Gray Maturin), Peter Vaughan (Mackenzie) e Brian Doyle-Murray (Piedmont), A fotografia, a cores, era da responsabilidade de Peter Hannan, e a música de Jack Nitzsche. O resultado, deve dizer-se, ficou muito aquém das expectativas, sobretudo porque Bill Murray “leu” o romance para o encaixar na sua pele de actor, fazendo deslizar os contornos de personagens e situações a seu belo prazer, colocando um certo acento demasiado visível numa faceta de humor que nunca existiu no romance de W. Somerset Maugham (ironia sim, mas nunca o humor quase burlesco de certas situações recriadas por Bill Murray). Mas haverá muito mais a dizer, o que faremos a seu tempo.

Falemos do romance, que data de 1944: Larry Darrell (curioso o facto de W. Somerset Maugham colocar como protagonista alguém com o nome de Lawrence Darrel, com uma única letra a separá-lo de Lawrence Durell, um escritor que tudo indica ser homenageado nesta referência) é americano, jovem, bem apessoado, esteve como piloto na I Guerra Mundial, regressa a Chicago, onde é bem recebido por vários amigos e uma namorada, Isabel Bradley, que está por ele apaixonada e o esperou com ansiedade. Isabel é filha de Louisa Bradley, sobrinha de Elliott Templeton, um “dandy” que fez fortuna a vender antiguidades, se passeia entre a América, Paris, Londres e estâncias de turismo muito in, e que não acha muita graça a Larry, por este, regressado da guerra, querer “vadiar” e não estar muito interessado em contribuir para o progresso da América, arranjando um bom emprego e desfrutando da sua condição de pertencer à melhor sociedade, aos endinheirados que tudo podem e tudo se permitem. Pelo contrário, Larry vive angustiado com uma recordação dolorosa da guerra, que evoca com discrição: foi salvo por um camarada de armas que morreu ao salvá-lo a ele. A sua viagem agora é uma longa procura espiritual: quer encontrar um sentido para a sua vida e um sentido para aquele acto de extrema generosidade e abnegação desse piloto que se atravessou entre o seu avião e o de um alemão.
Larry não quer casar já, quer passar um ou dois anos em Paris, para onde parte. Aí chegado, não aceita os préstimos de Elliot, que o procura apresentar à melhor sociedade, aluga um quarto manhoso numa pensão de quinta ordem, lê tudo o que pode, confraterniza em tertúlias de artistas, viaja e flaneia à sua maneira. Passa pela Alemanha, trabalha numa mina em França, onde cria amizade com um polaco, persegue gurus que o levam até à Índia, descobre-se iluminado por um saber interior que estimula a sua espontânea generosidade. Reencontra-se por várias vezes com Isabel, com quem aceita desfazer o casamento, mas nunca a amizade, troca carícias e amor com mulheres avulsas que o seduzem e de quem aceita o prazer, mas nunca se descobre um amante impulsivo e apaixonado. Recebe a notícia do casamento de Isabel com Gray Maturin com satisfação, assiste à derrocado emocional de Sophie, que vê marido e filho morrerem num acidente de automóvel, e que nunca mais se recompõe do terrível trauma, surpreende-a anos depois numa tasca imunda de Paris, bêbeda e promíscua, dependente do ópio e de uma angústia que a prostra e a levará à morte, pescoço cortado por uma fina lâmina que a atira, primeiro para o Sena e depois para a morgue. No meio de todo este drama, Larry tenta ainda salvar Sophie, oferece-lhe o seu amor (sobretudo o seu “calor”) e o seu quarto em Montparnasse, pede-a em casamento e tenta libertá-la do vinho e das drogas, mas uma “imprevidência” deliberada de Isabel provoca a queda no abismo e a tragédia da sua melhor amiga de infância, que, todavia, ela não consegue ver casada com Larry, o homem que ela sempre amou, e ainda ama, e sempre irá amar, mas que abandonou, perante a perspectiva de uma vida inquieta a seu lado, e o radioso futuro de uma existência tranquila e abastada ao lado de Gray.

Acontece que a fortuna dos Maturin se afundou com a grande recessão de 1929, e o casal volta a Paris na penúria, com duas filhas, aceitando a “esmola” de viverem no palácio de Elliot enquanto se regeneram socialmente. Larry terá mesmo a função de curar Gray de persistentes enxaquecas, com o milagroso saber que trouxera da Índia. Finalmente, um dia, depois de muitas aventuras e peripécias, de dramas e tragédias, com algumas alegrias pelo meio, Larry está pronto para voltar à sua terra, a América. Para ser taxista, talvez, mas agora com alguma possibilidade de entender um pouco melhor a vida e a sua finalidade. A procura terminou, Larry sabe-se um entre milhões, não será nunca um homem excepcional, não irá colocar em letra de forma a sua extraordinária aventura, basta-lhe viver o melhor que pode o resto da sua vida. W. Somerset Maugham assim pensa: “Não tem ambições, nem desejo de se tornar célebre; distinguir-se aos olhos do público ser-lhe-ia sumamente desagradável; é, portanto, admissível que se contente em levar a vida que escolheu e ser apenas ele próprio. É excessivamente modesto para se oferecer como exemplo aos olhos dos outros; mas é possível que julgue que algumas almas indecisas – para ele atraídas como borboletas para a chama - chegarão, com o tempo, a compartilhar da sua maravilhosa crença de que a verdadeira felicidade só pode ser encontrada nas coisas do espírito, e que esteja convencido de que, trilhando com abnegação e renúncia o caminho da perfeição, está praticando o bem tão positivamente como se estivesse escrevendo livros ou discursando a multidões.”
Toda esta intriga é acompanhada, portanto, pelo próprio W. Somerset Maugham que, assumindo-se como personagem do seu próprio romance, logo a abrir, confessa: “Não inventei coisa nenhuma.” E acrescenta: “Este livro parte das recordações que tenho de um homem com quem, em épocas muito espaçadas, tive íntimo contacto; mas pouco sei do que lhe aconteceu nos intervalos. Creio que, recorrendo à imaginação, eu poderia preencher plausivelmente as lacunas e tornar mais coerente a minha narrativa; mas a tal não me sinto atraído. Quero unicamente relatar factos de que tenho conhecimento.”
Pelos vistos assim será. Durante anos, após o lançamento do livro, e sobretudo após as adaptações ao cinema, muito se tem especulado sobre quem seriam na realidade as personagens em que se inspirara W. Somerset Maugham para escrever o seu romance. Elliot Templeton terá merecido alguma atenção, bem como o “holy man” que Lary visita na Índia e que para muitos estudiosos parece fácil de desvendar (fala-se em Sri Ramana). Mas a figura mais enigmática e aquela que tem feito correr mais tinta é obviamente a de Larry Darrell. Há um site na internet que ao longo de centenas de páginas procura explicar que Larry Darrell não é outro senão um tal americano de nome Guy Hague que terá percorrido um caminho idêntico ao de Darrell. Para os interessados fica aqui a chave de entrada nesse reino de pesquisa que não acaba mais:
http://www.geocities.com/upakaascetic/all_larry_darrell.html.

O Filme de 1946
George Cukor terá sido o primeiro a ser convidado a assinar a versão de 1946 de “The Razor’S Edge”, mas rapidamente o produtor Darryl F. Zanuck o despediu, em virtude do tipo de adaptação que o realizador sugeria e que não agradava de forma nenhuma ao boss da Twenty Century Fox. Acabou por ser Edmund Goulding, um realizador interessante, mas homem sem grande marca pessoal, a aceitar a encomenda de que se desembaraçou com satisfação geral.
Tyrone Power, que acabava de regressar da Europa e da intervenção na II Guerra Mundial, mostrava-se farto de interpretar a figura de aventureiros sem registo psicológico de assinalar, pretendia papéis com outra dimensão humana, e prometeu regressar a Zorro se lhe oferecem o desempenho de Larry Darrell. Por outro lado, W. Somerset Maugham, vivendo do sucesso dos seus romances mais falados, viajou até Hollywood em 1945 para escrever a adaptação do seu romance para cinema, de colaboração com Lamar Trotti, um argumentista da velha escola de Hollywood. Quando Darryl F. Zanuck lhe perguntou quanto levava pelo trabalho, três meses depois, o escritor declinou qualquer pagamento (bastavam-lhe os direitos que auferiu na concessão do livro para adaptação ao cinema, e que ascenderam a 150.000 dólares, recebidos em Outubro de 1944), aceitou apenas ser ressarcido das suas despesas nos EUA, mas acabaria por receber na volta um quadro de Matisse (dizem que no valor de 15.000 dólares). Darryl F. Zanuck mostrou-se generoso quanto ao pagamento, mas não usou uma linha dessa adaptação. W. Somerset Maugham não ficou nem surpreendido, nem aborrecido. Conta-se, aliás, que quando trabalhava com Lamar Trotti o descobriu tão zeloso na fidelidade à obra e na forma de a adaptar ao cinema, que lhe confidenciou: “Você ainda é mais respeitoso com Maugham, o escritor, do que eu mesmo!”
Na capa do guião escrevera mesmo: “Por favor, notem que, no fundo, isto é uma comédia, e deve ser interpretada enquanto tal por todos os actores, excepto nas passagens definitivamente sérias.”
A adaptação do escritor funcionou apenas como um esboço para a adaptação final. Maugham comentou: “Zanuck nunca utilizou uma única linha do meu guião…. Tomaram imensas liberdades com o meu romance original no guião que acabou por ser filmado. Mas Maugham sentiu-se satisfeito por “ter sido eliminado por $15,000" e admitia que “The Razor's Edge” tinha algumas qualidades de acção, de movimento ("pedestrian”) que convidavam à injecção de certos estímulos cinematográficos. “

Estreado a 20 de Novembro de 1946, no "Roxy", em New York City, numa soirée de gala, “O Fio da Navalha” dividiu opiniões críticas. Muitos apoiaram entusiasticamente, mas o crítico do “The New York Times” refere "diálogos vazios". O que não impediu o filme de galopar nas bilheteiras até uma receita de cinco milhões de dólares (tendo custado 1, 2 milhão).
Na cerimónia de atribuição dos Oscars do ano, “O Fio da Navalha” ganhou o “Oscar de Melhor Actriz Secundária (para Anne Baxter), além de ter sido nomeado em outras três categorias: Melhor Filme, Melhor Actor Secundário (Clifton Webb) e Melhor Direcção Artística (a preto e branco). Entretanto, nos Globos de Ouro, alcançou duas estatuetas: para os dois actores secundários (Clifton Webb e Anne Baxter).
Perante estes resultados, artísticos e sobretudo económicos, Zanuck pensou numa sequela, mas Maugham não aceitou: “A única sequela que conheço tão boa como o original é “Don Quixote”, e eu estaria louco se admitisse uma continuação para “The Razor's Edge".
O filme foi lançado com uma boa proposta: “Ele tinha tudo e não queria nada. Aprendeu que não tinha nada e queria tudo. Salvou o mundo e ficou devastado. O caminho para a salvação é tão cortante e fino como o fio da navalha.” O que se aproxima muito da frase de Katha-Upanishad que serve de citação inicial à obra literária: “Difícil é andar sobre o fio aguçado de uma navalha e árduo, dizem os sábios, é o caminho da salvação.”
Estas obras, tanto o romance de 1944, como o filme, de dois anos mais tarde, terão sido percursoras do movimento “hippie” que se desencadeou durante a década de 60, bem como instigadoras fundamentais das inúmeras peregrinações ao Oriente, em direcção a Kathmandu e outras paragens de inspiração budista e hinduísta. Foram igualmente importantes para modificar o olhar e a posição do Ocidente em relação ao Oriente, afastando a ideia de que por estas bandas asiáticas só imperava o mistério maléfico de Fu Manchu e parceiros. Rapidamente citem-se duas razões para avalizar uma boa adaptação: a primeira é que se não se quer ser fiel ao espírito da obra, então porque se adapta? A segunda é que nem sempre (ou melhor, quase nunca) uma adaptação fiel ao romance (ou à obra original) assegura uma nova obra de qualidade. Dito isto, tudo é possível. No caso da versão de 1946 de “The Razor’s Edge” há que referir desde logo algo que me parece muito original na altura: aparecer a personagem do escritor, enquanto tal (Somerset Maugham em pessoa) que convive com as outras personagens do seu romance em pé de igualdade. Ele funciona como no livro: um inquisidor que vai despoletando diálogos, recolhendo informações, inquirindo, procurando saber, ligando factos e figuras, dando algum sentido a uma história cheia de hiatos. Herbert Marshall é um W. Somerset Maugham plausível e correcto, não intervindo demasiado, olhando com alguma ironia esse "jet-set" que interpela, essa "beautifull people" com que se encontra, mas nunca deixando de os observar com alguma ternura e sensibilidade. Para Maugham, um mineiro e um dandy podem e devem ser vistos com a mesma delicadeza de olhar e igual afecto. Ambos participam de uma obra muito vasta, ambos se moldam com a mesma matéria, com fraquezas e vícios, virtudes e forças desconhecidas a uma primeira impressão. O que não quer dizer que todos sejam objecto da mesma fraternidade e simpatia. Ao longo do romance há personagens de sombreado mais carregado, de interpretação menos dúbia. Mas, obviamente, que o prazer da companhia vai direitinho para Larry Darrell, que dir-se-ia o “seu tipo inesquecível”.
A adaptação parece-me extremamente interessante, porquanto não se procura manter apenas fiel às peripécias do romance, mas procura “adaptá-lo” a um novo contexto narrativo, sem perder a essência da obra donde parte. Houve que concentrar situações e personagens, há figuras que desaparecem, como Suzanne Bouvier, outras que ganham mais força no filme, como Isabel Bradley, Sophie Nelson Macdonald ou Elliott Templeton (valorizadas, e muito!, pelos desempenhos notáveis de todos os actores que os vivem), há muita conversa em busca do Absoluto que é substituída por imagens que tendem a instalar a sugestão. Há uma soberba fotografia que acentua o lado espiritualista do projecto, sublinhando a riqueza dos cinzentos, num mundo que nunca é visto num agressivo e contrastado preto e branco.
Há infelizmente, como já procurei referir a abrir, algumas sequências de um exotismo de pacotilha, sobretudo nas “caves” de Paris, com parisienses de bigodinho e comportamento estereotipado. Mas existe, por outro lado, uma preocupação de verdade noutras cenas, quer nos ambientes requintados de Chicago ou Paris, quer nas minas francesas ou nas alturas das montanhas indianas.
Resumidamente, parece-me um filme plasticamente muito bem resolvido, sem o sopro do génio na realização, é certo, mas com o saber técnico e o rigor seguro de um profissional competente, servido aqui e ali por alguma respiração a rondar a excepção, o que torna o projecto ambicioso e exaltante. É o tipo de filme que se vê e se não esquece facilmente.

O Filme de 1984
O mesmo não se poderá dizer de “O Fio da Navalha”, na sua versão de 1984, rodada por John Byrum, com a colaboração no argumento de Bill Murray, que é igualmente o protagonista. Nalguns aspectos, a história repetia-se. Bill Murray, apaixonado pelo projecto, teve de se impor à produtora, a Columbia, com argumentos idênticos aos de Tyroner Power, quarenta anos antes: “Se quiserem mais “Biggie Goes to College Movies" (tipo de filmes que interpretava com imenso sucesso), terei de fazer “The Razor's Edge”.
Inicialmente há que referir a adaptação que é, curiosamente, o inverso da de 1946: aqui tudo se transforma. Larry Darrell é visto abundantemente durante a sua contribuição na I Guerra Mundial (como elemento de uma ambulância da Cruz Vermelha, e não como piloto, o que desvia o filme do romance para o romancista: Maugham é que desempenhou semelhante tarefa durante esse conflito), o que permite várias sequências de movimentadas acções militares, que acenam à espectacularidade, mas acabam por sofrer de um decorativismo sem autenticidade, cheirando tudo a plástico e a vulgar guarda-roupa. Depois, o tratamento dado ao romance é discutível, não tanto por sublinhar umas situações e personagens e relegar para a sombra outras. Essa seria uma liberdade que se justifica, se os fins o confirmassem. Mas, infelizmente, nada se passa assim. Isabel é quase esquecida, para dar lugar a uma Sophie muito mais presente (a escolha das actrizes desde logo prenunciava tal: Theresa Russell é Sophie MacDonald, Catherine Hicks é Isabel Bradley), sem que se consiga nada de suplementar (muito pelo contrário, a obra fica coxa). A personagem de Larry Darrell é construída por Bill Murray na linha das suas composições na época (“Stripers” ou “Os Caça-Fantasmas”, por exemplo), e muito longe do que depois seria o seu trabalho num outro registo, em “Lost in Translation”, por exemplo. Demasiado humor de situação e pouca ironia. Parece que a ideia de Murray-Byrum era actualizar a mensagem do romance e levá-la as gerações mais jovens. Intenções malogradas, já que o insucesso foi completo e o filme um tremendo “flop”. Finalmente, todo o projecto enferma de um mesmo vício: um esteticismo “bonitinho” que passa da fotografia à música, da direcção artística aos cenários. Tudo muito bilhete-postal, desde as cenas rodadas no campo de batalha até aos interiores de Paris ou aos exteriores da Índia. John Byrum que se estreara em 1974, com uma obra profundamente interessante e surpreendente, “Inserts”, prosseguira-a depois com Heart Beat (1980), ainda muito estimável, mas daí em diante nunca mais se voltou a notabilizar. Construiu uma lenda de autor intratável que o lançou para raras contribuições na televisão e pouco mais. O seu “The Razor's Edge” (1984) é uma decepção que, todavia, mantém admiradores incondicionais (veja-se o site
http://www.theoldcorner.org.uk/exclusive.htm).
O FIO DA NAVALHA
Título original: The Razor's Edge
Realizador: Edmund Goulding (EUA, 1946); Argumento: Lamar Trotti, segundo romance de W. Somerset Maugham; Darryl F. Zanuck (sequências adicionais); Música: Alfred Newman; Fotografia (p/b): Arthur C. Miller; Montagem: J. Watson Webb Jr.; Direcção de arte: Richard Day, Nathan Juran; Decoração: Thomas Little; Maquilhagem: Ben Nye; Direcção de produção: Raymond A. Klune; Guarda-roupa: Oleg Cassini, Charles Le Maire, Sam Benson; Assistentes de realização: Saul Wurtzel; Departamento de arte: Paul S. Fox, Lady Elsie Mendl; Som: Alfred Bruzlin, Roger Heman Sr.; Efeitos especiais: Fred Sersen; Produção: Darryl F. Zanuck; Companhia produtora: Twentieth Century-Fox Film Corporation
Intérpretes: Tyrone Power (Larry Darrell), Gene Tierney (Isabel Bradley), John Payne (Gray Maturin), Anne Baxter (Sophie Nelson Macdonald), Clifton Webb (Elliott Templeton), Herbert Marshall (W. Somerset Maugham), Lucile Watson (Louisa Bradley), Frank Latimore (Bob Macdonald), Elsa Lanchester (Miss Keith, secretária da Princesa), Fritz Kortner (Kosti), John Wengraf (Joseph), Cecil Humphreys (Homem sagrado), Harry Pilcer (dançarino), Cobina Wright Sr. (Princesa Novemali), Dorothy Abbott, George Adrian, Demetrius Alexis, Olga Andre, John Ardell, Frank Arnold, Juan Arzube, Richard Avonde, Claude Avray, Louis Bacigalupi, Virginia Barnato, Robert Barron, Claude Bayard, Eugene Beday, Pati Behrs, Emile Bejaut, Stanislaw Belski, Wilson Benge, Evelyn Bennett, Carmen Beretta, Walter Bonn, Eugene Borden, Jacques Boyjan, George Brenner, Mary Brewer, Maurice Brierre, George Bruggeman, Frederic Brunn, Paul Bryar, Joseph Burlando, Peter Camlin, Renee Carson, Jaque Catelain, David Cavendish, André Charlot, Jack Chefe, Gordon Clark, Louise Colombet, Helene Copel, Robert Cornell, Franco Corsaro, Noel Cravat, Mary Currier, Adolph Damotte, Roberta Daniel, Eddie Das, Alexis Davidoff, John Davidson, George Davis, Jack Davis, Jean De Briac, Paul De Corday, Marcel De la Brosse, Gene De Liere, Jean Del Val, Harry Denny, Ray De Ravenne, Henri DeSoto, Marion de Sydow, Juan Duval, Gerald Echaverria, Gale Entrekin, Edward Equinet, Nestor Eristoff, Ben Erway, Joe Espitallier, Paul Everton, Fed Farrell, John Farrell, Bertha Feducha, Bess Flowers, Robert Ford, Leo Galitzine, Jack Gargan, George Gastine, Helen Giere, Fred Godoy, Sol Gorss, Dolores Graham, Don Graham, Fred Graham, Marcelle Grandville, Greta Granstedt, Edna Mae Harris, Susan Hartmann, Jamiel Hasson, Yvette Heap, Bert Hicks, Jackson Jordan, Wanda Karska, Dorothy Kelly, Frank Kerbrat, Hassan Khayyam, Ilia Khmara, Nicholas Kobliansky, Theodore Kompanetz, Edward Kover, Serge Krizman, Yolanda Lacca, Isabel La Mal, Raymond Largay, Robert Laurent, Tony Laurent, Eddie Le Baron, Henri Letondal, Arthur Little Jr., Manuel López, Jacques Lory, Charles Loyal, Tanya Lupeea, Maurice Marsac, Andre Marsaudon, Michael Mauree, George Mendoza, Louis Mercier, Ruth Miles, Rene Mimieux, Baldo Minuti, Frances Morris, Diana Mumby, Henri Muro, Forbes Murray, Joan Myles, George Navarro, Mayo Newhall, Barry Norton, Robert Norwood, Suzanne O'Connor, Peggy O'Neill, Alfredo Palácios, Manuel Paris, Helen Pasquelle, Marg Pemberton, Albert Petit, Alex Pollard, Albert Pollet, Marie Rabasse, Alfred Redgis, Frances Rey, Loulette Sablon, Cosmo Sardo, Leonardo Scavino, Suzanne Schwing, Shushella Shakari, Robert Shaw, Mario Siletti, Paul Singh, Dina Smirnova, George Sorel, Aldo Spoldi, Lillian Stanford, Ann Staunton, Hermine Sterler, Laura Stevens, Adele St. Mauer, Blanche Taylor, Dr. Ross Thompson, Olga Marie Thunis, Willy Thunis, Nanette Vallon, Roger Valmy, Tyra Vaughn, Odette Vigne, Jacques Villon, Betty Lou Volder, Jack Wagner, Basil Walker, Joe Warfield, Joanee Wayne, Barrett Whitelaw, Crane Whitley, Marek Windheim, Al Winters, Bud Wolfe, Frank Wolf, Jack Young, etc. Duração: 145 minutos; Locais de filmagem: Denver, Colorado (EUA); Data de estreia: Dezembro de 1946 (EUA).

O FIO DA NAVALHA
Título original: The Razor's Edge
Realizador: John Byrum (EUA, 1984); Argumento: John Byrum, Bill Murray, segundo romance de W. Somerset Maugham; Música: Jack Nitzsche; Fotografia (cor): Peter Hannan; Montagem: Peter Boyle; Design de produção: Philip Harrison; Direcção de arte: Malcolm Middleton; Decoração: Stuart Rose, Ian Whittaker; Guarda-roupa: Shirley Russell, Catherine Halloran, Michael Jeffery, Aperna Kasara; Maquilhagem: George Frost, Mike Jones, Mike Lockey; Direcção de produção: Atul Bhasin, John Comfort, Sudesh Syal, Serge Touboul; Assistentes de realização: Laurent Brégeat, Ray Corbett, Kieron Phipps, Kanwal Swaroop; Departamento de arte: Terry Apsey, Jean-Pierre Bazerolle, Arun Joglekar, Robert Le Corre, Marcel Simeon, Saba Zaidi; Som: Rene Borisewitz, Stan Fiferman, Leslie Hodgson; Efeitos especiais: Martin Gutteridge; Casting: Elizabeth Desouches, Jacqueline Perpere, Jennifer Shull, Maude Spector; Produção: Harry Benn, Rob Cohen, Jason Laskay, Robert P. Marcucci; Companhias produtoras: Columbia Pictures Corporation, Marcucci-Cohen-Benn Production.
Intérpretes: Bill Murray (Larry Darrell), Theresa Russell (Sophie MacDonald), Catherine Hicks (Isabel Bradley), Denholm Elliott (Elliott Templeton), James Keach (Gray Maturin), Peter Vaughan (Mackenzie), Brian Doyle-Murray (Piedmont), Stephen Davies (Malcolm), Saeed Jaffrey (Raaz), Faith Brook (Louisa Bradley), André Maranne (Joseph), Bruce Boa (Henry Maturin), Serge Feuillard (Coco), Joris Stuyck (Bob MacDonald), Helen Horton, Michael Fitzpatrick (Tyler), Robert Manuel (Albert), Sam Douglas, Nora Connolly, Jeff Harding, Richard Oldfield, Gordon Sterne, Mary Larkin, Christopher Muncke, Russell Sommers, John Moreno, Hugo Bower, Abbie Shilling, Cassie Shilling, Jean-François Soubielle, Claude Le Saché, Caroline John, Daniel Chatto, Louis Sheldon, Kunchuck Tharching, Derek Lyons, etc.
Duração: 128 minutos; Data de estreia: 19 de Outubro de 1984 (EUA).