quinta-feira, junho 14, 2007

POLITICAMENTE INCORRECTO

Saí de casa pela manhãzinha e logo ao pôr o pé no passeio dou de caras com um anúncio de todo o tamanho a informar: “Atenção! Andar na rua Mata!”, especificando mais abaixo, em letra miudinha, que “respirar é um perigo, dada a fortíssima poluição ambiente, e atravessar a rua pode matar, pela alarmante frequência de condutores assassinos”, continuando a lista de hipóteses fatais por aí fora. Desisti de ler até ao fim. As letras apareciam a negro, debruadas por uma discreta moldura, muito simples e enxuta, toda negra.
Confesso que hesitei antes de dar um passo na rua, mas tinha de ir ao supermercado, fazer compras inadiáveis. Atravessei a rua e sobrevivi. Assassino ao volante não fora desta que se cruzara comigo, mas sentia a garganta apertada pelo peso da poluição. Uma caravana de carros a alta velocidade, precedida e fechada por batedores da GNR, ia-me apanhando desprevenido, mas ainda consegui ver na porta de um dos carros um novo anúncio que me era obviamente destinado: ”!Atenção! Ministros a alta velocidade Matam!”.
Já do outro lado da rua, entrei no quiosque que frequento todos os dias e ao longo de todas as estantes, escaparates e palanques, anúncios idênticos, com letras negras, ocupando metade de cada artigo: “Atenção! os jornais mentem, manipulam, desvirtuam a verdade, são tendenciosos, um ou outro até diz mal do governo!”, e assim por diante, terminando: “Se comprar, não leia; se ler, tenha cuidado, pode Matar!” Ao lado, as caixas de fósforos e isqueiros mal se viam : “Atenção! Fósforos, isqueiros, detonadores, granadas da guerra das colónias, barris de pólvora, bidões de gasolina ou petróleo, etc. causam incêndios! Proteja-se a si e ao próximo.” As cassetes e os DVDs com filmes não escapavam: “Atenção! Ver muitos filmes na TV causa cegueira!” Quanto aos livros: “Atenção: Poupe a sua vista, não leia!.”
Na secção das pastilhas, rebuçados e brinquedos para crianças, o anúncio não era mais tranquilizante: “Atenção com quem compra: pastilhas, rebuçados e brinquedos e produtos afins podem causar actos de pedofília.” E, em letras pequeninas, continuava: “Se lhe quiserem oferecer algum destes produtos recuse. Atrás de um rebuçado ou pastilha elástica há um pedófilo.” (entre parentesis dizia-se: “Cuidado! Se leu isto pode cegar!”).
Recuei, preocupado e esbarrei num senhor de meia idade que ia a passar. Pedi desculpa pelo encontrão, mas o cavalheiro colocou o dedo indicador junto ao nariz e exigiu silêncio. Encolhi os ombros. Ele virou-me as costas, de forma desabrida, mas, colado na sua pasta de couro negro, lia-se um anúncio em letras bem grandes: “Atenção! Não fales com desconhecidos!” (em letras mais pequeninas, em rodapé, acrescentavam: “Também não é conveniente falar com o pai, o tio, o padrinho, a mãe, a tia, a madrinha, e todos os que te ofereçam rebuçados, pastilhas elásticas, brinquedos ou 50 mil reis” Em letras mínimas, daquelas que dão direito directo à cegueira instantânea, também se lia: “Não fales com a Catherine Deneuve!” Estranhei.
Entrei no supermercado e foi uma sensação de horror que me invadiu. Um cemitério, ou a página de anúncios da necrologia de um jornal da província bem interior, não seria mais aterrador: “Atenção!” “A Carne de Vaca Mata!” (olha as vacas loucas!), “A Carne de Porco Mata!” (olha a triquinose!), “A Carne de Frango Mata” (olha os nitrofuranos!), “O Peixe Mata!” (atenção ao mercúrio!), “Os Vegetais Matam!”, “O Vinho Mata!”, “A Cola Cola Mata!” (caganitas de rata na tampa, não perdoam!), “O Café Mata”, “O Açúcar causa a Diabetes e Mata!”, “O Sal Mata!” quando usado sem Conta, Peso e Medida”, mas “A Conta Mata!”, “O Peso Mata!”, “A Medida Mata!”. “Comer Mata!”, informa o Governo, “Não Comer Mata!,” divulga a Oposição.
Preparei-me para sair do supermercado, num silêncio tumular, sem nada comprar. Na caixa registadora, uma loira gira alentou-me a alma, antes de ver, preso na mini saia, o fatídico “O Sexo Mata!” (e lá vinha por baixo a lista de doenças, venéreas ou não, a começar pela SIDA!). Desviei o olhar... Mas, não resisti, e voltei a procurar os belos olhos da garota. Reparei então que, por cima da caixa registadora, um placard bem visível não deixava margem para dúvidas: “Não lhe dissemos já que fornicar Mata!?” (“além de ser pecado”, percebia-se em letras mais miudinhas). Paciência, pensei. Ainda aparecem por aí as quatro (4) santas mulheres de Bragança, com mais um abaixo assinado. Não é que tenha medo de morrer de apoplexia enterrado num corpo daqueles, mas as 4 (quatro) mulheres de Bragança é que não, por favor, livrai-me das mulheres de Bragança! Não há um anúncio a avisar: “Cuidado! As 4 Mulheres de Bragança Matam pelo Ridículo!” ? Não há?
Emigrar? Na agência de viagens, eram mais os anúncios da tarja preta, do que as indicações dos destinos turísticos: “Andar de Avião Mata!”, “Andar de Comboio Mata!”, “Andar de Barco Mata!”, “Andar de Carro Mata!”, “Atravessar Pontes em Portugal, Mata!”, “Passar por baixo de Viadutos, Mata!”, “Estar Parado Mata!”...
Que fazer? À saída da agência de viagens, um enorme cartaz colado na parede dava alguma esperança. Afinal nem tudo é mau. O rosto de George Bush, com a mão na nossa direcção e o dedo indicador apontando para mim, gritava-me: “Vive a Vida! Inscreve-te na GNR e viaja até ao Iraque!” Em segundo plano, em contraluz, percebia-se a silhueta de Durão Barroso.
Regressei a casa, sem nada ter comprado, nem sequer o maço de tabaco que também pretendia adquirir. Apenas me restava um cigarro, contei. Entrei no elevador, mas atras de mim, precipitadamente, entrou um indivíduo que nunca tinha visto antes e que, mal a porta correu, e nos encontrámos fechados no estreito cubículo, puxou de um revólver, e gritou: “A Bolsa ou a Vida!”. Os tempos são rigorosos, e a bolsa está vazia. Foi o que lhe fiz ver, esvaziando os bolsos. Apenas sobrava um cigarro no maço amarfanhado. Agarrou nele, acendeu-o, tocou no botão de parar, saiu do elevador, e deixou-me seguir caminho até ao oitavo andar. Entrei em casa, ainda sobressaltado e pensei: “Um cigarro salvou-me a vida!”.

quarta-feira, junho 13, 2007

UM CONTO COM UM CIGARRO NOS LÁBIOS



Aqui há anos ainda fumava e escrevi um conto. Há quatro anos deixei de fumar, cigarrilhas e charutos (já não fumava há muito cigarros). Não fiz nem promessa nem sacrifício. Simplesmente dexou de me apetecer fumar. Deixou de me dar prazer. Parei, obviamente, e ainda bem.

Mas a cruzada anti-tabagista, continua, a um ritmo cada vez mais demêncial, entrando nos terrenos da verdadeira loucura. Agora, os filmes americanos onde apareçam fumadores são classificados para "adultos", segundo a nova legislação do "novo Código Hayes". Matar, assassinar, violar, morrer de overdose, traficar, manipular, ir para o Iraque ou o Afeganistão metralhar, prostituir e etc, passa para maiores de 12 anos. Fumar é para adultos. Em Portugal ia-se fazendo algo parecido: fumar incorria em penas mais graves do que injectar-se. Preferivel mesmo vender droga, está visto.

Haja tento na cabeça.

Em homenagem aos tempos em que se fumava no cinema, aqui fica um conto inédito, escrito há mais de oito anos.




O SENHOR Y
O telemóvel tocou e ele estremeceu. Apressou-se a carregar na tecla Yes para que a leve campainha – que ele tivera o cuidado de previamente colocar no mínimo de volume – não fosse ouvida ao longo da casa.
- Esta?
- Sim, senhor...Y?
- Sou. Y ao telefone..
- Consegui o que queria. Posso passar agora por sua casa?
O aludido senhor Y olhou à sua volta e apurou o ouvido. Na cozinha ouvia-se a mulher a acabar os preparativos para o jantar. No quarto, o filho jogava vídeo games no computador. A velha mãe dormitava no sofá da sala.
- Acho que sim. Quanto tempo demora a chegar?
- Daqui a dez minutos estou aí.
- Espero por si à porta de casa. Eu desço...
- Ok, senhor Y...
E a chamada caiu.
O escritório estava em completo desalinho, contrastando com a rigorosa arrumação de todo o resto da casa. O senhor Y tinha à sua frente o computador onde passava o dia escrevendo, e que reunia o scanner, o fax, o vídeo telefone, o net meeting versão 2.003, a mais moderna versão aparecida no mercado. A anterior, do ano passado, era já completissima, mas a nova tornara obsoleta a placa de teclado. Todas as ordens podiam agora ser transmitidas oralmente. A última descoberta de Bill Gtes que assim mantinha e consolidava o seu império informático.
O senhor Y vestiu o casaco. Apesar de estarmos ainda em Setembro, àquela hora do dia, com o sol a descer já no horizonte, devia fazer algum fresco, pensou. O casaco era leve, beje. Y fechou atras de sai porta do escritório e dirigiu-se ao quarto do velho. Espreitou à porta.
- Pai, já consegui chegar ao nível 5...
- Vais ver que consegues. Tu és barra nisso...
Passou pela porta da sala: a mãe ressonava brandamente. Na cozinha, a mulher lutava com tachos e panelas, e cheirava a cozido à portuguesa.
- Vais sair?
- Vou lá baixo comprar... hesitou...Vou lá baixo apanhar um pouco de ar...
- O jantar está quase pronto... Vê lá não te demores...
- Cinco minutos... (olhou o relógio). Cinco minutos e estou de regresso....
Ela olhou para ele desconfiada:
- Que vais fazer?
- Apanhar um pouco de ar, já disse...
- Mesmo?... Vê lá o que fazes... Sentes-te bem?
- Sim, nada de especial... Apenas vontade de dar um passeio e apanhar ar puro na cara...
Y olhou e relógio e partiu. Apressado. Chamou o elevador, aguardou impaciente a descida dos doze andares, pautados pelos sons metalizados das passagens por cada patamar, passou os dedos pelos lábios. Estavam secos. Nervosismo certamente. Há dois dias que Y esperava este momento. Os contactos com o fornecedor estavam a ser cada vez mais difíceis. E mais raros. Tempos houve em que era fácil armazenar o suficiente para todo um mês. Mas agora tudo piorara de forma drástica. As campanhas na televisão tinham sido agressivas. O apelo aos familiares para denunciarem quem prevaricasse, em nome da defesa do ambiente, da saúde pública e mesmo da longevidade dos entes queridos, deu os seus resultados. Y sentia-se cada vez mais culpado, mas aos cinquenta e sete anos era difícil mudar. E não compreendia mesmo a histeria. De inicio brincara com a perseguição. Aceitara de bom grado algumas restrições: afinal a sua liberdade acabava quando começava a liberdade dos outros. Mas depois, lentamente, o clima de perseguição sistemática adensou-se. Começou a dizer que era o fascismo quotidiano, mas ninguém aparentemente o levava a sério. Os amigos iam cada vez mais furtando-se às conversas sobre o tema. Todos pareciam aceitar a proibição em nome do bem público. Mas Y sabia que alguns deles continuavam a ser abastecido pelo mesmo fornecedor.
Y estava já na rua há algum tempo, sem que ninguém aparecesse. Por debaixo do seu prédio havia uma floresta de colunas que lhe permitia esperar sem ser visto. Encostado a uma das colunatas, procurou sobretudo não dar nas vistas. Olhou para as varandas dos prédios que rodeavam a praceta. No nono andar do prédio em frente, vislumbrou uma fugaz chama. Um fósforo aceso? Um isqueiro? Tudo o que conseguia distinguir depois era um vulto de homem (ou seria mulher?) de costas para a rua. As luzes dessa varanda estavam apagadas, apenas penumbra e um vulto imóvel. Era o nono direito, pensou. Quem o habitaria? Pensava nisso quando sentiu um toque nas costas. Alguém lhe passou para as mãos um pequeno embrulho envolto num jornal dobrado em dois. Y levou a mão ao bolso, tirou um envelope e passou-o ao estranho que prosseguiu o seu caminho. Y encaminhou-se rapidamente para a porta do prédio. O elevador ainda se encontrava no rés-do-chão. Entrou, subiu, abriu a porta de casa, atravessou o corredor, ouviu a mulher gritar:
- O jantar está a arrefecer...
Dirigiu-se ao escritório, fechou a porta atrás de si, abriu uma gaveta da secretária, desdobrou o jornal, retirou o pequeno pacote. A curiosidade foi mais forte: que marca seria? Rasgou o papel que envolvia o volume. O filho abriu a porta do escritório e disse:
- Pai, a mãe chamou para jantar... Não vens?
Os olhos do filho centraram-se no pequeno volume que o pai tinha nas mãos. Y olhou o filho, segui-lhe o olhar, voltar a olhar os olhos do filho. Por instantes, ambos aguentaram esse olhar fixo. Depois o filho fechou a porta, Y fechou a gaveta da secretária, e foi jantar. À mesa ninguém abordou o assunto. Era cozido à portuguesa, e estava como sempre: delicioso. Mal acabou o jantar, Y foi ao escritório, regressou, passou pela sala onde todos viam televisão, e disse:
- Vou ao café...
A mulher e o filho entreolharam-se e não disseram nada, a mãe já voltara a cair no sono. Ressonava mesmo. Y saiu apressado. Mal a porta da rua se fechou, o filho levantou-se do sofá onde se encontrava sentado com a mãe e dirigiu-se ao hall. Ouviu o elevador descer. Pelo pequeno controlador de entrada, viu o pai sair do elevador no rés-do-chão e sair do prédio. Já de volta à sala, olhou a mãe, pegou no telefone e marcou o número das urgências do serviço de saúde e de apoio ao cidadão.
- Sim. Era para participar uma grave ocorrência. Um cidadão põe em causa o ambiente e arrisca mesmo a sua saúde... Sim, neste momento... Nas traseiras do edifício “Jardins do Éden”... Sim!...
E desligou.
Y passeava nas traseiras de sua casa, olhando em redor. Ninguém. A onda de violência que assolara a cidade impedia os habitantes de sair à noite. Poucos se afoitavam. Depois, os mais de duzentos canais de televisão disponíveis por cabo, tinham sempre algo de muito sedutor a oferecer ao público. O último grande sucesso de audiências era um concurso, com o sugestivo título de ”Apaga o Cigarro!” Os concorrentes perseguiam fumadores inveterados e “apagar o cigarro” era a finalidade. Cada fumador abatido valia mil pontos e a possibilidade de passar uma semana de verão na “Ilha Virtual” com todos os prazeres do mundo à descrição. O segredo era conseguir o “Capacete de Ouro”. Quem o lograva através do programa dispunha dele durante uma “semana de sonho”, “onde tudo lhe é permitido”. O concurso não tinha horário fixo, podia surgir a qualquer momento, em directo, e com o apoio dos Ministérios do Ambiente e da Tecnologia.
Y sabia o risco que corria, mas acendeu o cigarro.
Um holofote cruzou a noite e incidiu sobre Y. Dois policias vestidos de azul marinho, e de viseiras negras, abriram fogo. Y sentiu que as costas ficavam subitamente geladas, atravessadas por uma dor extrema, e caiu de bruços no chão. O cigarro saltou-lhe da boca. Y teve ainda forças para agarrar nele, levá-lo à boca e dar uma última fumaça. Olhou para as traseiras do décimo segundo andar do edifício “Jardins do Éden” mas não estava ninguém à janela. “Será que estão a ver o “Apaga o Cigarro!”, pensou ainda, numa altura em que sentiu a pesada bota de um dos agentes da ordem pisar o cigarro que tinha entre os dedos. O esmigalhar dos ossos já não o incomodou excessivamente, mas imaginou que a cena seria dada em “pormenor” pelo realizador destacado no canal de televisão de serviço público. O seu derradeiro pensamento, expressou-se em forma de dúvida: “Quem teria nessa noite direito ao “Capacete de Ouro”?

segunda-feira, junho 11, 2007

A CONSTRUÇÃO DO OLHAR, II

Muitas são as formas de olhar e de ver. É conveniente estabelecer desde já uma distinção entre olhar (que pode ser uma forma passiva de assistir a algo) e ver (que pressupõe uma vontade). Pode olhar-se uma paisagem, pode ver-se a mesma paisagem. Pode olhar-se distraidamente para uma paisagem, pode ver-se com atenção a mesma paisagem. Olhar implica somente o sentido da visão (o sujeito desse olhar assiste passivamente). Ver corresponde a um outro nível de comprometimento pessoal. A distinção que vai da recepção de uma sensação à da recolha de uma percepção.
Quando se olha para um quadro, percebe-se o que ele representa. Mas o olhar pode ficar simplesmente pela superfície. Ver representa um acto de vontade, que tende a aprofundar o que se olha. Todos se devem recordar de uma foto célebre - considerada recentemente um dos melhores instantâneos do século que passou - e que se refere à Guerra do Vietname (2). Uma jovem vietnamita corre nua por uma estrada, rodeada por outros miúdos e alguns soldados norte americanos. Ao fundo um céu ameaçador, com o fumo das explosões de napalm a envolver tudo. Olha-se essa imagem e retemos estas informações. Mas se virmos com mais atenção todo o dramatismo da situação ressalta. O rosto da rapariga relembra um quadro de Munk, o pintor expressionista que conseguiu aprisionar numa tela um "grito" perfeitamente audível pelo espectador. A figura desamparada - nua - aparece numa total fragilidade perante a brutalidade de tudo o que a rodeia, simbolizado de forma evidente pelo clima de guerra. O sofrimento das crianças, contrasta com a indiferença de um soldado que acende um cigarro e com as nuvens. Trata-se de um instantâneo de reportagem. Não há encenação "artística" prévia. A encenação existe, mas é a que a própria realidade dos factos impôs. Não há também trabalho de enquadramento especial por parte do fotógrafo. Há apenas o resultado da captação de um momento de vida.
Mais adiante atentemos numa fotografia de publicidade. Qualquer fotografia ou filme de publicidade é um exemplo excelente para se perceber o trabalho que pré-existe: toda a obra publicitária pretende deliberadamente manipular o espectador e levá-lo a ter uma reacção determinada - normalmente adquirir o produto a que se faz menção. Por isso nada é deixado ao acaso. Tudo é previamente planificado, pensado, experimentado. Todos os efeitos causados no espectador devem ser previstos - não se pode correr o risco de fabricar um fotografia ou um filme de resultados contraproducentes. Numa imagem publicitária tudo deve ter um sentido, uma orientação precisa.
Começa-se por saber quem é o público alvo. Estuda-se depois a forma de cativar esse público. E estrutura-se a imagem tendo por base essas premissas. O espectador desprevenido olha, e deixa a mensagem funcionar no seu subconsciente. O espectador atento procura ver o que está a sua frente, e reagir de forma consciente.
Para o conseguir terá de adestrar o olhar. Este adestramento do olhar devia começar a ser feito na escola. Tal como se aprende a ler, deveria aprender-se a olhar. Toda a comunicação se faz através de signos, símbolos. A leitura todos aceitam que se ensine nas escolas. Ninguém nasce a saber ler. Ninguém nasce a saber falar. Ninguém nasce a saber ver. Falar pode aprender-se com a experiência. A criança à força de ouvir a mãe e o pai disseram "mãe" e "pai" associa o som à imagem e tenta reproduzir o som. Aprende a falar, como aprende a andar. É uma aprendizagem rudimentar da utilização dos símbolos. Em lugar da mãe, a criança diz "mãe". A palavra substitui o objecto. O mesmo se passa na escrita. A criança aprende a utilizar segundo regras pré estabelecidas as letras, as palavras, as frases. É a aprendizagem da escrita. O mesmo se deveria passar com o olhar. A sua utilização eficaz deveria ser aprendida na escola. O que acontece é que a aprendizagem faz-se no dia a dia, de forma empírica.
A criança começa a consumir imagens logo que abre os olhos. Antes de associar o som da palavra "pai" á presença da personagem do pai, a criança já sabe, porque vê, que aquela figura que está à sua frente todos os dias é o pai (mesmo que não saiba ainda o que significa pai). Depois, sentada em frente ao écran da televisão vai lentamente descodificando códigos. Haverá uma altura em que, sem o saber de forma consciente, sabe o que significa uma fusão. Quando uma cena de um filme fecha a negro, o espectador percebe que a que lhe sucede dista da anterior algum tempo. Sem saber o que é uma fusão, percebe a função da fusão. Empiricamente vai aceitando os códigos. Não os sabe porém por em causa, porque não conscencializa essa função. Não existe possibilidade de crítica.


A publicidade de forma evidente e deliberada joga com esse desconhecimento. Os políticos, os jornalistas, os artistas, os vendilhões do templo jogam com essa falta de preparação. Os artistas utilizam-na para criar um mundo fantástico e maravilhoso, manipulam em nome de uma nova realidade criada por eles. São os que têm alguma justificação ética para o fazerem. À partida não enganam. Ficcionam. Inventam. Re-criam. O público sabe ao que vai, quando vai ver Matrix, Tudo Sobre a Minha Mãe, Magnólia ou O Sabor da Cereja. Toda a obra de arte é uma manipulação que se aceita enquanto tal.
O público vai ao cinema para ser manipulado. O grande filme é uma sábia conjugação das imagens e dos sons que tende para isso mesmo, para criar a emoção, para acordar as consciências, para apontar erros, para mobilizar o público. Há também filmes, a sua grande maioria, que manipulam em função de outros valores- o lucro fácil, a ideologia que se procura vulgarizar, o apelo aos mais baixos instintos do Homem. Educar o olhar, ensinar a ver, é essencial para distinguir a verdadeira obra de arte, ou o simples e honesto divertimento, da obra de fácil, ou subtil, sedução mal intencionada.
Com a televisão passa-se o mesmo, agravado pela desenfreada corrida às audiências. Utilizam-se muitas vezes técnicas só aceitáveis na ficção, na reportagem, no documentário, agora nos "reality shows" ou nos concursos. O espectador necessita de estar atento, de saber ver, para ultrapassar as ciladas. As novas tecnologias agravam as possibilidades de mistificação. As imagens digitais permitem criar universos virtuais com a mesma força persuasiva dos reais. "Gladiador", de Ridley Scott, é fabuloso a reconstituir Roma antiga e nunca viramos o Coliseu com a força majestática com que esta obra nos apresenta. Mas se é possível reconstituir Roma antiga, também se podem forjar documentos ou anular outros. Toda o público sabe, quando vai ver "Gladiador", que se encontra perante um obra de ficção. Mas, quantos saberão, olhando para uma foto dos anos 40, "retocada" anos depois, que ao lado de Lenine e Estaline se encontrava Trotski, entretanto anulado por razões de Estado?
O olhar educa-se, constrói-se. Protesta-se por a juventude consumir apenas produtos de fácil consumo e de apelo aos mais baixos instintos. Mas os jovens a quem não se der a ouvir ópera, jazz, música clássica, blues, fazem o seu ouvido ao que vão escutando. O mesmo se passa no campo das artes visuais, ou audiovisuais, quer se trate do cinema, da televisão, do vídeo, da fotografia...
Numa civilização que se baseia na comunicação, e fundamentalmente na comunicação audiovisual, esquecer isso é esquecer algo de profundamente essencial. "O pior cego é o que não quer ver", diz a sabedoria popular, que inventou o provérbio numa altura em que não havia ainda audiovisuais. Dramático mesmo é querer ver e não poder, porque não se possuem as ferramentas adequadas. Dramático é impedir os outros de ver plenamente, conscientemente, criticamente a imagem que se lhe coloca à frente.
Ver uma imagem, ler uma obra audiovisual é, hoje em dia, um poder tão grande como ler um livro o era no tempo de "O Nome da Rosa" em que a torre da biblioteca era a local mais bem guardado do mosteiro - o "segredo dos deuses".
(1) - Pierre Fougeyrollas, prefácio a "Lire Une Image"
(2) - "Nick Ut", de Kim Plut, Associated Press, Vietname, 1972

nas imagens: três versões de "As Meninas", de Velasques a Picasso, passando por Whitkin

PARADA GAY EM SÃO PAULO

Dizem os organizadores, que eram 4 milhões a desfilar.

Na avenida Paulista.

O segundo maior acontecimento no Brasil, depois do Carnaval no Rio.

Vimos tudo, bem no centro da av.Paulista, bem no meio da Parada, junto à Rua Haddock Lobo.

Depois conto. com fotos da MEC.

A CONSTRUÇÃO DO OLHAR, I


Uma imagem constroi-se, todos o sabem. Há mesmo quem se refira a uma arquitectura da imagem. "Uma imagem pode ser construída, possuindo uma arquitectura que se revela pelas linhas horizontais, verticais, oblíquas e diagonais que a sustenta." (1) Esse suporte arquitectural, esse esqueleto invisível, muitas vezes, senão mesmo a maioria delas, organizado de forma instintiva pelo autor, é um dos processos que ele tem à mão para conferir um significado, um sentido, à imagem.
A este trabalho de construção da imagem, corresponde depois, por parte do seu espectador, um outro trabalho, que se pode aqui designar como de "construção do olhar" para através desse olhar se poder mentalmente "dês_construir" a imagem, descodificá-la, analisá-la, criticá-la ou mesmo deixar-se levar pela sua sedução.
"Ler uma imagem" é, de certa forma, compreender como ela foi concebida, como ela foi orientada desde a sua génese e com que intenções. É procurar acompanhar o processo de criação, desvendar o sentido desse processo, mas é mais ainda. Cada novo olhar é um olhar novo, e por isso ler uma imagem é também recriá-la segundo o nosso olhar.
Toda a obra de arte é diferente porque representa um sentir e um olhar singulares. Que lhe são oferecidos pela complexidade da personalidade de quem a realiza. Mas cada olhar sobre essa obra é igualmente um olhar original e irrepetível. Cada espectador é um espectador diferente, como cada leitor de um livro é um leitor diferente. Ninguém realiza a mesma obra de forma semelhante. Por exemplo, de um mesmo romance é impossível extrair duas adaptações iguais, dirigidas por autores diferentes. Mas também ninguém interpreta (lê) da mesma forma um romance ou um filme. Cada olhar é um olhar com história pessoal, sensibilidade diversa, experiências culturais e estéticas diferentes, que irão interferir, moldar, essa leitura.
A mais simples fotografia é uma imagem construída: basta enquadrar para se intervir no motivo que está a nossa frente. Quando temos uma paisagem perante nós, e optamos por enquadrar uma árvore, estamos a isolar um tema, logo a influenciar a visão de quem irá futuramente ver essa foto. Mas também a distância a que nos colocamos da árvore é outra forma de influenciar o olhar, bem assim como o facto de colocarmos a árvore mais para a direita, para a esquerda ou no centro da foto. Cada opção, representa um olhar distinto. Uma opção de sentido. Se escolhemos muito céu ou muito terra, é outro tipo de escolha, deliberada ou inconsciente, que irá definir um olhar - o de quem foca - e posteriormente influenciar a visão de quem observa a fotografia.


No cinema, que são 24 fotogramas por segundo, ou no vídeo que são 25 frames por segundo, tudo se passa de forma idêntica, mas ainda mais acentuada, dado existirem outras maneiras de sugestionar, de manipular o espectador, para lá das já referidas. Basta escolher filmar um plano fixo ou fazer um movimento. Um movimento, que pode ser uma aproximação ou um afastamento do tema, ou uma deslocação “a varrer” da paisagem da direita para a esquerda ou da esquerda para a direita. Tudo tem o seu significado, quer se saiba ou não que se está a mexer com matéria muita susceptível em termos de significado.
A ignorância da lei, também aqui não é desculpa. Ainda que haja diferentes graus de responsabilização.
Nenhum gesto humano é inocente. Fotografar o casamento da filha ou o baptizado do sobrinho, pode parecer uma actividade sem segundos sentidos, mas eles estão todos lá, ainda que de forma muito incipiente. Agora imagine-se uma outra situação. Numa viagem de turismo, um par de namorados quer ser fotografado em Londres com o Tamisa ao fundo. Pede a um inglês que vai a passar para fazer o favor de carregar no botão, depois de enquadrar. O inglês limita-se a ser o mais eficaz possível, e muitas vezes corta as cabeças, degolando logo ali o promissor futuro daquele provável idílio. Ou então coloca o par tão à direita ou à esquerda do enquadramento que se arrisca a ficar só o bem amado Tamisa no centro da fotografia. Mas não importa. O que gostaria de referir é que esta fotografia é uma obra desinteressada (quem fotografa não está ligado emocionalmente ao tema), mas mesmo assim há quem esteja e vá influir no resultado final.
Para já o casal de namorados escolheu o Tamisa como fundo para a foto - referência geográfica, é certo, mas também referência sentimental. Depois, irá certamente colocar-se em frente à câmara de uma determinada forma, estudada - enlaçados, beijando-se, olhando-se olhos nos olhos, etc. Quer dizer: o tema é encenado, antes de ser fotografado. Temos assim, que de uma forma muito rápida e sucinta, uma fotografia, ou um filme, podem ser manipulados em frente da câmara - no que chamamos encenação do motivo, mise-en-scéne, dizem os franceses com inteira propriedade - e manipulados também na própria câmara de fotografar ou filmar ou gravar.
Não há fotografias inocentes. Nem filmes. Nem vídeos. Todos eles, de uma forma ou de outra, manipulam a realidade.
E estamos ainda no momento de construir a fotografia (ou o filme). A simples passagem pelo laboratório não é inocente, ainda que por vezes tudo se passe no domínio do puro arbítrio. Mas, volte-se à foto do casal de namorados em Londres, com o Tamisa por cenário. Se o laboratório escurecer a foto, adensando as nuvens, conferirá à foto um dramatismo que certamente os seus protagonistas não pretendiam. Se o tempo de revelação for menor, a cor sairá muito mais clara, senão mesmo esbranquiçada. Num laboratório industrial de uma qualquer casa de fotografia, muitas vezes estes efeitos, quase sempre indesejáveis, são fortuitos. Num laboratório especializado para revelação de película de cinema, nada é deixado ao acaso, desde a etalonagem que procura criar uma continuidade cromática, até aos efeitos visuais mais sofisticados.
Vemos assim que muitas são as maneiras por que se constrói a imagem. Essa construção da imagem é uma das funções do artista e da arte. Quer ele seja pintor, fotógrafo, realizador ou desenhador de banda desenhada. E se muitas são as formas de construir a imagem, de erguer a obra, muitas serão também as formas como ela pode ser usufruída pelo espectador que a ela tem aceso. Falamos já do olhar de quem a vê.

Fotos: "Citizen Kane", de Orson Welles


(continua)

NOS TEMPOS DE "GABRIELA"


Fala-se tanto em telenovelas que me apeteceu recordar como tudo começou em Portugal. Há trinta anos atrás. Eramos jovens e virgens de telenovelas. Apareceu "Gabriela, Cravo e Canela."


O aparecimento da telenovela “Gabriela” em Portugal foi um acontecimento único, a vários níveis. Desde logo, porque marcou a estreia do formato telenovela diária nos écrans portugueses. Depois porque, sendo uma obra adaptada de um romance de Jorge Amado, garantia à partida uma qualidade e interesse acima da média (não o sabíamos nessa altura, mas viemos a confirmá-lo posteriormente: “Gabriela” foi, se não a melhor, uma das melhores telenovelas produzidas no Brasil). Depois, tanto criadores e técnicos, a começar pelo realizador Walter Avancini, como o elenco, eram de primeiríssima grandeza, com Sónia Braga, José Wilker, Armando Bogus, Dina Sfat, Paulo César Pereio, Paulo Gracindo, Ary Fontoura, e tantos outros, em plena forma e carreiras ascensionais.
Era uma delícia descobrir estes actores e vê-los trabalhar com o sabor de uma língua portuguesa re-criada, re-inventada. A história era magnífica, a forma como as situações se multiplicavam e se entrechocavam um modelo criativo brilhante, os cenários naturais espantosos, descobrindo-nos, a nós portugueses, uma cultura e uma civilização irmãs, onde nos víamos igualmente reflectidos com nitidez.
Portugal parava diariamente à hora da telenovela, o parlamento fechou mais cedo nos derradeiros dias da sua exibição, todos os programas se organizavam em redor do episódio do dia - não era alienação colectiva, era apenas o sedutor poder do espectáculo no seu melhor. A sociedade portuguesa transformou-se obviamente assistindo a esta obra: adoptou o sotaque brasileiro como segunda língua, adoptou as actrizes e os actores brasileiros como vedetas indispensáveis em qualquer festejo fraterno, adoptou usos e costumes, expressões idiomáticas, e começou a rebolar a bunda ao som do samba. Calmamente. Ao ritmo nacional.
Depois, houve algumas outras telenovelas que quase roçaram o céu (estou a lembrar-me por exemplo de “Roque Santeiro”), mas o milagre não voltou a surtir o mesmo efeito. “Gabriela” foi o estado de graça irrepetível. Como será revê-la, hoje em dia, quase trinta anos depois? Certamente um prazer, mas não um prazer igual ao primeiro. Saravah!


sexta-feira, junho 08, 2007

A ESCOLA DE VILA NOVA DE POIARES

Leio e pasmo.
Aliás há anos que pasmo com o que acontece com as chamadas praxes académicas, invenções brutais e verdadeiramente aberrantes que anualmente se renovam perante o olhar cúmplice de autoridades, académicas e outras. A praxe, e tudo o que está relacionado com esse mau costume medieval, há muito que deveria ter sido erradicada, numa sociedade moderna. Mas não foi até hoje, e todos os anos há mais motivos para preocupação.
Agora em Vila Nova de Poiares, leio nos jornais, um aluno, dois alunos, sofreram de um costume (há dez anos que ocorre, claro que é um costume, uma tradição a preservar, como todas as boas tradições!) que consiste em ser colocado na horizontal pelos colegas, ver, obviamente contrariado, as suas pernas abertas, e ser atirado violentamente contra o tronco de uma árvore ou um poste. Provoca "ligeiras" escoriações nos órgãos genitais do indivíduo que está a ser agarrado pelas bestas e é por elas atirado contra o poste, mas nada que não faça soltar umas valentes e alarves gargalhadas que tudo justificam. Há dois alunos hospitalizados, ou a receber tratamento. Um deles teve de sair dessa escola e agora anda na de Penacova, para não sofrer represálias dos colegas que denunciou. Como é possível? O agredido teve de sair da escola, para os agressores não o continuarem a maltratar? Os prevaricadores continuam impunes, a vítima é sancionada? Estado de direito? Uma ova!
Mais: há dez anos que esta prática se cumpre. Que fazem as autoridades de Vila Nova de Poiares? Assobiam para o ar? Aquilo é terra de faroeste? Não há lei? Que fazem as autoridades escolares? Refugiam-se atrás das bestas que inventaram este “saudável” costume (que é já uma tradição da terra!)? Que fazem as demais autoridades, civis e militares? Anda tudo distraído? Há dez anos e nunca ninguém viu ou soube da existência de tão estranho costume? Ou, perante tal prática, não há ninguém nesta terra com tomates para acabar com este costume que transforma os ditos cujos em polpa de tomate?
Os professores que fazem greve por isto e por aquilo (algumas vezes com razão, é certo!), não se incomodam com estes casos? Não fazem nada? O Conselho Executivo da referida escola não explica o que fez, nem quais os castigos aplicados, se os houve, nem quais as medidas tomadas para impedir futuros casos. Parece que se vive nos domínios da KKK. Até quando?

alunos de Vila Nova de Poiares, preparam novas tradições.

CINEMA: "DIAS DE GLÒRIA"

“DIAS DE GLÓRIA” PARA “INDIGÉNES”


História comum em países colonialistas, mas história pouco contada, tanto por colonizadores como por colonizados, esta do recrutamento e intervenção militar de milhares de cidadãos das colónias na defesa “das Pátrias mães”, quando estas se encontram em risco e entram em guerra. Com “Dias de Glória” (Indigènes), de Rachid Bouchareb, olha-se o caso dos soldados africanos do Magreb que lutam contra os alemães na Europa invadida, em defesa da Mãe-França. Em Portugal poderia estudar-se e documentar-se fenómeno idêntico, sobretudo nas Guerras Coloniais, a partir de 1961, quando milhares de africanos, recrutados nas diferentes “províncias ultramarinas”, são instruídos e enquadrados nos contingentes militares portugueses para defender “a integridade do território nacional”. Esta é uma situação vulgar em quase todos os países com colónias, mas uma situação que deixa certamente um travo bem amargo em todos os participantes, o que tem levado a que seja tema a evitar. Um sentimento de culpa deve estender-se a todos os campos intervenientes que parecem preferir esquecer os factos a abordá-los frontalmente. A polémica que o filme de Rachid Bouchareb provocou em França, antes mesmo da estreia oficial, e posteriormente (depois da sua apresentação no Festival de Cannes, onde o elenco masculino conquistou, em bloco, o Prémio de Melhor Interpretação), não deixa de ser significativa. Falou-se um pouco de tudo e falou-se quase sempre mal, não deixando de vir ao de cima ressentimentos e fantasmas. Por seu turno, a maioria da crítica cinematográfica portuguesa, remetendo o filme para a banalidade académica das obras de guerra que não ficam na História, e dedicando-lhe pouco mais do que meia dúzia de linhas a despachar o filme, acabou por prestar um mau serviço ao público em geral: o filme passou despercebido na voragem dos “blockbusters” de Verão que o engoliram por completo entre um “Homem Aranha” e um “Piratas das Caraíbas”. Na noite em que o vi, numa sala do “El Corte Inglés”, estavam 5 pessoas na plateia. A obra, não sendo esteticamente um produto brilhante, nem de arrojada concepção, merece todavia muito mais e vai figurar, desde já, entre os filmes que fizeram História, não apenas História do Cinema, mas História na sua acepção mais vasta. O cinema tem essa vantagem, a de não ser apenas arte e estética, mas poder ser olhado sob muitos outros prismas.

Soldados africanos na Europa
Em 1943, muitos milhares de homens são recrutados em territórios magrebinos para ingressarem nas fileiras do exército francês e defenderem a divisa da Revolução Francesa, “Igualdade, Liberdade e Fraternidade”, contra a invasão nazi da Europa. Nos acontecimentos que nos são relatados, essas tropas entram na Europa por Itália, passam por Marselha, onde têm uns dias de descanso, voltam a intervir na Provença e mais tarde defendem uma aldeia nos Voges até à chegada dos americanos. São já apenas quatro soldados (um deles promovido a cabo, em desespero de causa) e um sargento, ferido e acamado. Lutam até à morte, com pistolas e espingardas contra bazucas. Sobrevive um que conta o feito e o preserva para a História.
Com argumento escrito pelo próprio realizador Rachid Bouchareb, de colaboração com Olivier Lorelle, “Dias de Glória” centra a sua atenção particularmente em cinco personagens precisamente aquelas com que o filme termina no episódio de Voges: Abdelkader (Sami Bouajila), um soldado corajoso e determinado que sabe enfrentar e vencer os obstáculos e tenta ultrapassar os preconceitos de superiores e da própria instituição militar. Facilmente assume a situação de um comandante e, por isso mesmo, quando o sargento é gravemente ferido, passa a ser o cabo que chefia o reduzido grupo e aceita defender uma aldeia da investida dos “boches”, resistindo até à chegada dos americanos. Não hesita também, anteriormente, em confrontar-se com o sargento Roger Martinez (Bernard Blancan), um árabe que passa por francês, mas que, apesar da sua aparente conduta desapiedada e fria, procura sempre defender “a sua gente”, ainda que não colocando em jogo a sua situação de assimilado. Para além destas duas figuras que predominam pela personalidade há ainda a referir os outros três companheiros sobre que repousa igualmente a obra: Messaoud (Roschdy Zem), um romântico que se apaixona por uma belíssima francesa durante a licença que passa em Marselha, e que irá desencadear uma das mais conseguidas cenas desta obra; Yassir (Samy Naceri), que perde o irmão quando são surpreendidos num campo minado, e cuja grande meta é ganhar dinheiro com os despojos deixados nas trincheiras pelos inimigos mortos; finalmente, Saïd (Jamel Debbouze), homem complexado e carente (que faz toda a guerra sem um braço), que deixa na terra natal um mãe que o não quer deixar partir, e que será “adoptado” pelo sargento Martinez, advindo daí situações complexas nem sempre resolvidas de forma airosa. Said oscila entre uma dedicação que roça o amor e o desejo de morte, que rapidamente contradiz e que o leva ao acto de generosidade total. São estas figuras e a forma como argumentistas, realizador e, sobretudo, actores as defendem com um brio inexcedíveis que consolidam um dos trunfos da obra, precisamente essa forma convicta de crer na veracidade das personagens e no seu comportamento psicológico.
Julgo que a personagem central de “Dias de Glória” é o sargento Martinez que é desenvolvido a vários níveis e numa multiplicidade de direcções que o tornam verdadeiramente fascinante, por ser contraditório, nada simplista, inesperado, complexo: tão depressa é o sargento brutal de uma recruta desapiedada, como o companheiro nos momentos difíceis, tão rápido é o arrogante e brutal muçulmano cujas raízes são descobertas pela sua ordenança, que logo desanca e expulsa do seu convívio, como é o arauto dos direitos ofendidos (veja-se a cena dos tomates, que se destinam somente a soldados continentais, os muçulmanos não os podem comer, e que o sargento Ramirez resolve com a ajuda de um superior hierárquico).

Indígenas
De resto, o filme não traz efectivamente nada de novo a nível de estrutura narrativa, de estilo, de arrojo formal. Plasticamente interessante a forma como evolui de uma foto a preto e branco para uma paisagem a cores, de cada vez que se introduz um novo capítulo nesta sequência que avança à base de episódios históricos que se sucedem cronologicamente, “Indigènes” fala-nos precisamente de “Indígenas” que, segundo os dicionários, são seres oriundos de uma determinada região, mas que, na gíria militar e colonialista, se referem de forma depreciativa a seres oriundos de uma determinada região colonizada.
Explique-se ainda que o termo tem proveniência biológica: indígena representa inicialmente em biologia “um adjectivo que qualifica uma espécie endémica cuja evolução se faz no local onde nasceu.” Mas os franceses, no seu dia a dia, chamavam “indigène” a "um indivíduo não civilizado" ou "alguém que não era cidadão de pleno direito da República". Também militarmente o termo teve conotações pejorativas. Para identificar o mesmo, sem carregar o peso depreciativo, usa-se “natural”, “autóctone”, “local”, “aborígene” ou “nativo”, por exemplo.
“Indígenas”, no filme a que nos referimos, são aqui os muçulmanos do Norte de África, os negros de África, os asiáticos do Vietname. Ou seja, todos os povos colonizados, então a lutarem pela França. Nós por cá também falávamos dos “indígenas” de Angola, de Moçambique ou da Guiné. Os “Indígenas” forneciam trabalho braçal barato em tempo de Paz, serviam de “carne para canhão” na guerra: eram eles que iam à frente, que abriam caminho, que saltavam pelos ares com as minas, que eram dizimados pelo fogo inesperado dos inimigos entrincheirados, eram eles os mais sacrificados, em suma. À distância, os coronéis e os generais seguiam as operações de binóculos, avançavam com o campo já mais livre, desbravado, passeavam de jeep por entre as tropas a quem dirigiam palavras de apreço quando colhiam os louros da operação coroada de sucesso. Quando um jornalista pergunta o número de baixas, eles desviam sabiamente a conversa para o sacrifício que esta heróica gente acabou de cometer, e insistem: “Não se esqueça de escrever isso! Não se esqueça!” Mas também os jornalistas levam a lição bem sabida: quando ao americanos chegam a Voges, as fotografias para a posteridade são tiradas aos “bravos franceses”, brancos e continentais, esquecendo-se totalmente os muçulmanos que deram a vida por aquele monte de terra que não era a sua, mas que defenderam em nome da França. Até á morte. Quem vai comprar o “Paris Match” são franceses continentais que poderiam chocar-se com fotos de árabes.
Neste ponto há ainda um episódio que merece ser sublinhado, pelo seu significado: como já vimos, um dos soldados magrebinos tem uma fugaz história de amor com uma marselhesa. Prometem esperar um pelo outro, e escreverem-se. Mas nenhum deles recebe as cartas que um e outro sistematicamente vão escrevendo. Uma censura intermédia anula o diálogo. Com que intenção? Possivelmente a primeira será evitar que se dêem a conhecer pormenores secretos das operações militares. Mas haverá uma segunda, seguramente: eliminar qualquer hipótese de se prolongarem “romances” de todo em todo mal vistos futuramente, depois da guerra acabar. “Franceses” sim, mas só até certo ponto.

excerto de um artigo a aparecer no número de Julho da revista "História"

terça-feira, junho 05, 2007

EXPOSIÇÃO: JOÂO CONCHA NO CARTAXO

ALICES, SEM TÍTULO
Não é a primeira vez que falo dele neste meu blogue. Já noutras ocasiões escrevi sobre o Intruso, blogue de João Concha, arquitecto, designer, ilustrador, pintor, e afável bloguista, de traço elegante e sóbrio, aparentemente homem tímido e reservado, mas senhor de uma forte personalidade que se esconde por detrás de uma discreta bonomia e transmissível simpatia. Pois o Intruso inaugurou no passado sábado, dia 2 de Junho, na Casa da Cultura do Cartaxo, uma exposição chamada “Alices, sem título”, que é uma excelente afirmação do seu talento, para quem não o conhecia ainda.
João Concha nasceu em 1980, em Évora, e aos 18 anos vem para Lisboa, onde se licencia em Arquitectura. Agora esta exposição afirma-o como ilustrador e pintor sensível, inventivo, iconoclasta. A ter em conta, a partir de hoje. Por mim, já o tinha em conta há mais tempo, descoberto que foi nas ilustrações do seu blogue, onde vi e assinalei os esboços iniciais destas “Alices”. A partir desse contacto, convidei-o para um projecto comum (que talvez se concretize, ele o dirá!), por acreditar obviamente na justeza do seu traço. Mas estas “Alices” confirmam-no, para quem o não conhecia.
João Concha pega na personagem de Alice, tal como a conhecemos das gravuras de Sir John Tenniel (que ilustrou a primeira edição da obra de Lewis Carroll), e coloca-a nos mais diversos contextos, muitas vezes a fugir aos contextos, outras quase só pressentida nos contextos, e relança-a para novas leituras. Ou para nenhuma leitura outra que não seja a do seu diálogo com a matéria gráfica, as texturas, as tintas, a plasticidade da matéria, as cores, as formas, as proporções, a miniatura aqui, o gigantismo acolá, o pulsar de um coração, a presença de um botão que o deixa de ser ou de um pente que se metamorfoseia, uma porta a abrir para o mistério, a ameaça desconhecida, uma fuga de um campo verde (este é meu, cheguei tarde para optar por outros, mas gosto muito deste, para que estou a olhar na foto que a MEC me tirou).

Boa a exposição e muito boa a Casa da Cultura do Cartaxo (que tem acoplado um Auditório, onde cheguei tarde para ver o Bruno Schiappa no seu novo espectáculo, mas ele não perde pela demora, que o apanho por aí, noutra ocasião).
“Terra do Vinho”, como aparece escrito por cada canto da cidade, o Cartaxo já foi minha passagem regular quando ia visitar o João Maria Tudela, a Filomena e as crianças, que por ali perto têm casa, na Lapa, e quando o Frederico gravava “A Estrela” na Eireira (com a amigável colaboração da Maria do Céu Guerra e do Camacho Costa, saudade Camacho!). Mas há muito que por lá não passava e está uma terra bonita, na meia hora de entardecer que deu para ver a percorrer as ruas à volta da Câmara Municipal. Come-se razoavelmente bem no “Batalhoz”, onde vi Portugal ganhar à Bélgica, e, de volta, a excursão que regressou a Lisboa por estradas de um Portugal profundo, deu certamente por bem empregue esta fuga à rotina, esta viagem ao outro lado do espelhos destes citadinos empedernidos que, todavia, não se cansam de procurar “Alices” um pouco por todo o lado, mesmo “sem titulo”, quiçá mesmo sem títulos para melhor a compreenderem e adoptarem.
Assim foi, e ficam algumas fotos para o documentar.

Casa da Cultura do Cartaxo. Ex. Noite

Fotos de MEC, LA e S.

domingo, junho 03, 2007

PRENDA DE ANOS

PEDRO ROLO DUARTE ESCOLHE
"O BLOG DA SEMANA" NA RDP
Um bom presente de aniversário.
A A. envia-me um link para ouvir o programa do Pedro Rolo Duarte,
na RDP ("Janela Indiscreta" de 18.5.2007)
dedicado ao blogue da semana: "Lauro António Apresenta".
Quem tiver curiosidade de ouvir, aqui fica o link:
Obrigado à A. (eu não sabia da referência).
Ao Pedro Rolo Duarte não agradeço.
Não se agradecem referências destas,
que não se fazem para serem agradecidas.
Mas vai daqui um abraço.
É sempre bom ouvir uma voz a reconhecer
um trabalho que se faz com muita paixão.

sábado, junho 02, 2007

PRIMEIRO ANIVERSÁRIO

Há um ano "no ar".

Um abraço a todos os que visitam este blogue.

WOMEN IN ART

Ela diz sobre "Women in Art": "Para quem gosta de arte, de mulheres ou simplesmente de boas idéias, bem concretizadas."
Ok. É isso mesmo. Roubei para aqui. Pelas imagens passam quase todos os rostos de mulheres que conheci. Atentem e verão se não é verdade.

sexta-feira, junho 01, 2007

VAVA.DIANDO COM LIDIA JORGE

LÍDIA JORGE


Jantar e tertúlia inesquecíveis com Lídia Jorge, no passado dia 30, no VáVá.Diando. Quase setenta convivas (e se mais espaço houvera, mais seriam), para ouvir a escritora e conviver. Aqui ficam algumas fotos, muitas das quais para satisfazer a curiosidade de quem não foi. Vários autores de blogues se encontravam por ali. Pintores, escritores, juízes, publicitários, designers, professores, bailarinas, engenheiros, advogados, gente dos jornais, da televisão, da rádio, e etc., e etc. Muitos frequentadores habituais do VàVá, muito bloguistas, muitos amigos atraídos de outras bandas. Um encontro excelente, magistral por parte de Lídia Jorge, que falou da escrita, da inspiração e do suor, da construção da obra, de como esta nasce por vezes mercê de um acontecimento banal ou de uma inspiração de momento, da “pedra que se atira para o longe assinalando o fim, e com a qual se tem de ir ter”, enfim o mistério da escrita tornada canção de embalar na voz suave e rigorosa de uma das maiores escritoras portuguesas contemporâneas.









fotos: MEC