INÚTIL
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Ainda Pirandelo: “Qual é o autor que poderá dizer alguma vez como e porquê nasceu na sua fantasia uma personagem? O mistério da criação artística é o mesmo mistério do nascimento natural. Uma mulher que ama pode desejar ser mãe; mas esse desejo apenas, por mais intenso que seja, não basta. Um belo dia ela descobrirá que vai ser mãe, sem uma advertência precisa de quando tenha acontecido. Assim também um artista, vivendo, acolhe em si germes inúmeros de vida, e nunca poderá dizer como nem porquê, em dado momento, um desses germes vitais, fecundado pela fantasia, se transforma numa criatura viva, situada num plano de vida superior ao da volúvel existência quotidiana.” “Posso apenas dizer que, sem tê-las de maneira nenhuma procurado, encontrei diante de mim aquelas seis personagens que ora se vêem em cena, vivas ao ponto de poder tocar-lhes e ouvir-lhes a respiração. E as seis, na minha frente, esperavam, cada uma com o seu tormento interior e secreto, irmanadas pelo nascimento e pelo entrelaçar das suas vicissitudes recíprocas, que eu as introduzisse no munda da arte e com as suas pessoas, as suas paixões e os seus casos compusesse um drama, um romance ou pelo menos uma novela. Nados vivos, aspiravam a viver.”
Luigi Pirandello, Prémio Nobel de Literatura em 1934, nasceu Agrigento, Sicília, Itália, a 28 de Junho 1867, e faleceu em Roma, a 10 de Dezembro 1936. Dramaturgo, poeta e romancista. Para lá de “Seis Personagens à Procura de Autor” outras obras importantes de Luigi Pirandelo são, “Para Cada um sua Verdade”, “Esta Noite Improvisa-se”, “Um, Ninguém e Cem Mil”, “Henrique IV”, “A Bilha”, “Ele Foi Mattia Pascal” (ou “O Falecido Mattia Pascal”), “O Marido de Minha Mulher”, entre muitos outras.
“Seis Personagens à Procura de Autor”, no Teatro de São Luiz. Texto: Luigi Pirandello. Tradução: Mário Feliciano e Fernando José Oliveira. Encenação: Jorge Silva Melo. Cenografia e Figurinos: Rita Lopes Alves. Luz: Pedro Domingos. Com: João Perry, Lia Gama, Sylvie Rocha, Pedro Gil, Cândido Ferreira, Pedro Luzindro, Alexandra Viveiros, John Romão, Vânia Rodrigues, António Simão, João Meireles, João Miguel Rodrigues, Joaquim Pedro, Miguel Telmo, Pedro Carraca, Pedro Lacerda, Rita Brütt, Diogo Correia, Jéssica Anne, João Delgado, Luís Godinho, Pedro Lamas, Ricardo Batista, Rui Rebelo, Sara Moura, e a participação especial de Mariema.



Falemos então da realização de “O Feiticeiro de Oz”. O arranque inicial é dado por Richard Thorpe, um realizador que no princípio da carreira se especializou em filmes de série B, ligado a quase toda a excelente série Tarzan, interpretado por Johhny Weissmuller, e que se tornará notado, nos anos 50, pelas suas aventuras históricas – “Ivanhoe”, “O Prisioneiro de Zenda” ou “Os Cavaleiros da Távola Redonda”. Richard Thorpe filma durante doze dias, mas nada do que registou em película seria aproveitado na versão definitiva. Segue-se-lhe George Cukor, que ainda está menos tempo à frente do projecto, mas que acaba por ter uma contribuição decisiva na forma como dirige Judy Garland, ou não fosse Cukor um excelente director de actrizes. Cukor sai da realização de “O Feiticeiro de Oz” para ir tomar conta de “E Tudo o Vento Levou” e traçar o perfil de Scarlet O’Hara. Para a direcção de “O Feiticeiro de Oz” vem então Victor Fleming que assina 90% do material filmado. Mas, quando começam igualmente a surgir problemas com George Cukor e Sam Wood na realização de “E Tudo o Vento Levou”, a MGM envia Victor Fleming para acabar este filme e coloca o seu amigo King Vidor a terminar as sequências de “Oz”. Curiosamente, todas as cenas filmadas por King Vidor são das mais célebres desta obra – o arranque no Kansas e a sequência do tornado, ou a despedida de Dorothy de Munchkindland.
Sendo um dos filmes mais célebres e citados da história do cinema, natural é que seja igualmente dos mais parodiados e homenageados noutras obras de cinema. The Muppet Movie (1979) é uma delas, com uma viagem iniciática de Kermit a Hollywood (a sua Terra de Oz), onde para lá de outras referências surge uma versão actualizada de “Somewhere Over the Rainbow”, “The Rainbow Connection”. Mas podem referir-se muitas outras citações: “Under the Rainbow” (1981), “Ozu no Mahotsukai” (1982), animação de Takayama Fumihiko, “Return to Oz” (1985) com Fairuza Balk na figura de Dorothy, numa produção não musical e em imagem real dos estúdios Disney, o belíssimo filme de David Lynch, “Wild at Heart” (1990), que refere Oz, tal como a superprodução de Jan de Bont, “Twister” (1996), onde Dorothy é o nome do tornado. Também Robert Zemeckis, em “Contact” (1997) não esquece Oz, nem a canção "Over the Rainbow", ou um balão de ar quente com a inscrição impressa “This Way To Oz". Em “Face/Off” (1997), de John Woo, "Over the Rainbow" é a canção que se ouve durante uma das cenas chave da película.
Agora pela mão de Filipe La Féria, lá vamos nós também, e de novo, a caminho de Oz. Ou a caminho do Politeama, em Lisboa, onde o musical acaba de subir a cena. Com o sucesso habitual.
O elenco muito jovem é bom e homogéneo. Cátia Garcia é Dorothy, trabalho que executa com graça natural, boa voz, e uma elegância muito especial. Ela e o cão Totó, encantam. David Ventura é um excelente e esforçado Leão, Ruben Madureira é o elástico Espantalho e Arménio Pimenta o couraçado Homem de Lata, os três a viver momentos de tortura no interior dos seus fatos, mas a justificarem plenamente as palmas finais. Helena Montês, a Tia Emily, Tiago Isidro, o Feiticeiro de Oz, Carla Janeiro, Glinda, a Bruxa Boa do Norte, e Sofia Cruz, a Bruxa Má do Oeste, completam o grosso da companhia que é, como já disse, jovem e se recomenda. La Féria encena, a coreografia é da responsabilidade de Inna LisniaK, a direcção musical de Telmo Lopes, a direcção vocal de Tiago Isidro. O assistente de La Féria é aqui de casa, Frederico Corado, que ali se iniciou no teatro, há dez anos, criando os vídeos para “Amália”.

SACANAS SEM LEI
Um desertor, Burl (Jackie Basehart), um ladrão, Nick Colasanti (Michael Pergolani), um assassino, Fred (Fred Williamson), um revoltado, Tony (Peter Hooten) e um tenente, Jaeger (Bo Svenson), constituem este grupo de soldados americanos condenados que partem de um acampamento nas Ardenas. Durante a viagem a coluna é bombardeada por aviões alemães e os prisioneiros conseguem libertar-se e fugir. Querem chegar à Suíça. Na deslocação encontram um desertor alemão que se junta ao grupo, formando os “Seis Gloriosos Patifes” da versão portuguesa. Mas, quando são encontrados por membros da resistência francesa são confundidos com um comando que vem efectuar uma perigosa missão de sabotagem, tendo que assaltar um comboio alemão com o objectivo de roubar um dispositivo que alimenta os famigerados V2. E o grupo aceita a missão e “gloriosamente” cumpre-a na íntegra.
Ao contrário do filme de Castellari, Tarantino constrói uma obra extremamente palavrosa, com diálogos infindáveis, onde – o próprio o confessa – testa o seu poder de criar suspense e de o manter. A sequência da taberna francesa com a actriz e os militares alemães é bem exemplar deste propósito. Esta alteração é particularmente significativa para se compreenderem as intenções de Tarantino e a sua base cultural, diversa da de Castellari. Este é um técnico competente para criar cenas de acção, Tarantino é um cinéfilo com uma preparação cinematográfica muito mais apurada. Castellari nunca foi seleccionado para Cannes (nem nunca concorreu, se calhar, é o mais certo), Tarantino é-o quando quiser e declararam-no desde logo o grande acontecimento do Festival desse ano. Um é olhado como um mero tarefeiro, o outro como um pós-moderno. Toda a diferença. O filme de Tarantino organiza-se em redor de uma sala de cinema e da história do cinema. A sala do cinema é o lugar físico onde irá acontecer o momento final, capital, da obra. É nessa sala de cinema, e através de bobines de filmes, que se irá construir a História. Uma História que tem pouco a ver com a verdadeira História, mas que marca bem a diferença entre a realidade (que existe) e a ficção (que tudo torna possível). Mas não será só nessa sala de cinema que o cinema constrói a História, pois o próprio filme é construído pelo cinema, pela sua História (raros filmes terão tantas citações de outros filmes, desde cenas, personagens, referências no diálogo, cartazes, fotografias, legendas, temas musicais, etc.). Este é um filme que vampiriza o cinema, como outrora o fizeram os cineastas italianos dos anos 60 e 70. Curiosamente nessa altura os italianos copiavam os americanos, agora é um americano que se volta para o cinema italiano e nele vai beber inspiração. Círculo fechado.