terça-feira, junho 20, 2006
Procuro os teus lábios numa
vertigem pálida; a verdade é que
os encontro na água fresca
de um rio de palavras,
que subo por entre
o murmúrio das margens. E
esvazio o copo do teu amor,
para que o voltes a encher,
sabendo que este rio
não pára.
Nuno Júdice
(Nuno Judice, espero que não te importes de o "emprestar" para este blog.
Quem não quiser perder muitos outros poemas deslumbrantes de simplicidade e delicadeza, basta ir a http://www.aaz-nj.blogspot.com/).
Por outro lado, não esquecendo nunca que é uma ficção (o livro nunca se apresenta como um ensaio ou obra de erudição histórica ou religiosa), “The Da Vinci Code” joga com elementos de duas índoles (como qualquer policial): factos reais, históricos, comprovados, e especulações sobre esses factos e sobre outros já de si especulativos. Quer dizer: os Cavaleiros Templários existiram, foram poderosos, depois perseguidos, dizimados, estão desde aí associados a teorias e práticas exotéricas. Fala-se de um herança maçónica, fala-se da permanência do seu poderio, da sua influência, fala-se da sua perseguição do Santo Graal. Ou seja há uma simbiose perfeita entre factos reais, historicamente comprovados, e referências que são meras deduções, ainda que apoiadas, ou não, em conjecturas com alguma base de razoabilidade. Mas há outros factos que partem de premissas que elas próprias já são meras especulações. Por exemplo: o Priorado do Sião, os seus Grão Mestres, as alusões a Newton e Da Vinci, a simples existência desta associação secreta é uma mera hipótese que muito boa gente contraria formalmente e refuta com dados. Acontece que, numa ficção, ser verdade ou mentira não vem para o caso. Quantas seitas diabólicas, quantos vilões disformes não defrontou 007 sem nunca cair na ira dos pregadores da verdade histórica?
“O Código da Vinci” vem da mesma área e deverá ser assim lido, com uma ressalva apenas, que faz toda a diferença: seja um bom ou mau romance, fale de verdades ou de elucubrações, este romance mudou o mundo. Ficará na História para sempre. Não apenas por ser o livro mais vendido (certamente, depois da Bíblia, ironia das ironias!), mas porque veio mexer com convicções e dogmas que, a partir de agora, deixaram de o ser para muitos milhões de pessoas. Muitas perguntas o livro faz e deixa respostas em suspenso (ainda que muitas vezes tente responder, mas aí… ficção é ficção!), mas muitas dessas perguntaram nunca mais deixarão de bailar no espírito dos seus leitores. Quem foi Maria Madalena? Que se “arranjou” no Concilio de Niceia? Quem foi Judas? Que representam Os Evangelhos Gnósticos? Por que razão há evangelhos que “valem” e outros que “não valem”? Que se esconde por detrás de certas associações? Da Opus Dei? Da Maçonaria? Do Priorado?
Há muitos anos que estas perguntas eram feitas por alguns. “O Código da Vinci” transformou alguns em milhões. Ninguém mais calará a curiosidade universal. Depois do “Código”, muitas obras se escreveram sobre estes temas, umas de puro embuste, outras sérias, umas ingénuas, outras eruditas. Muitas mais irão surgiu e a hierarquia da Igreja Católica vai certamente penar. Há quem diga que se entrou na era do Aquário e do “Sagrado Feminino”. Algo que nada nos repugnaria, para equilibrar séculos de prepotência masculina, ditada sobretudo pela Igreja Católica. Nisso “O Código Da Vinci” acertou e desencadeou uma polémica que só pode ser saudável.
Respira-se a necessidade de outros tempos, de um “sagrado feminino”, quem sabe?, maternal, humano, sensível, feito de tolerância e amor. O “sagrado masculino” de Bin Laden e Bush (para só falar nos que temos à porta) já provou que sabe mandar matar os seus filhos, em nome de um Deus. O “sagrado feminino” comportar-se-ia do mesmo modo?
Passemos ao filme. Pouco a dizer. Bom exercício para se ver como não fazer uma adaptação literária. O guião é desastroso, reduzindo o romance a uma sucessão de explicações descosidas, sem coerência, sem suspense, sem personagens dignos desse nome (Tom Hans não sabe o que fazer, não acredita em nada do que diz, o seu Robert Langdon é lamentável e atraiçoa inclusive o espírito do romance; Audrey Tautou é uma Sophie Neveu atarantada e sem graça; apenas Ian McKellen se comporta à altura do empreendimento, compondo com ironia uma figura com chama interior).
O realizador Ron Howard já fez coisas aceitáveis e outras fracas. Terá tido aqui o seu cabo das tormentas. Nunca foi um ás. Faltou-lhe sempre o golpe de asa. Desta feita permitiu que o argumentista Akiva Goldsman lhe cortasse as asas, deixando-o a arrastar-se na mais profunda banalidade, quando não mesmo na mediocridade. O romance tinha a virtude de ir descrevendo factos e especulações históricas como puro suspense para o leitor. Akiva Goldsman e Ron Howard transformam o suspense num rol de mercearia ou num corriqueiro índice de uma obra provocatória que “vira” bem comportada e temente a Deus (e sobretudo aos seus servidores da Terra!). Limadas todas as arestas, cuidadosamente branqueada toda a trama, que resta deste “Código”? Nem um bom policial. Uma mistela mais ou menos intragável, que derrotou todos quantos se atreveram a lá entrar. De actores a técnicos.
Depois de ver o filme, percebo porque gostei do livro e nunca achei que ele fosse tão rasteiro como queriam fazer crer. Afinal Dan Brown teve o talento de construir sozinho, com palavras, o que uma equipa monstruosa não conseguiu sequer aproximar-se com sons e imagens, palavras e tudo o mais. A diferença entre escrita e palavreado.
domingo, junho 18, 2006
mesmo quando as cores não o amarelo e verde, o espírito é o mesmo:

os "aderentes" nos jogos em que não está presente a selecção de Portugal.
Scolari está quase a voltar a ser "genial". Mas tem passado por um mau bocado. Ainda bem que é forte, tem personalidade e não se deixa ir abaixo com meia dúzia de ditos verrinosos de ciumentos contumazes. Os portugueses por vezes sabem ser bem mesquinhos. Ainda não viram que o homem psicologicamente é brilhante? Em estilo formiguinha, a selecção lá vai fazendo o seu trabalho, sem as asneiradas de outras edições. Não estamos nem em Saltilho, nem na Coreia/Japão. Não vêem isso? Bandeiras nas janelas? Ainda bem. Camisolas nos peitos dos adeptos? Ainda bem. Orgulho em ser português? Ainda bem, mesmo que seja no futebol (há tantas outras actividades em que somos bons, e temos orgulhos de nós, por que não também no futebol?). Estamos em crise? Ainda bem que há algo que nos ajuda a viver com a crise.
Os idiotas que há anos diziam que o cinema era o ópio do povo, já se calaram (veja-se "A Rosa Púrpura do Cairo", de Woody Allen, e basta). Agora proliferam outros idiotas. O povo (nós todos!) não pode ser feliz nunca para esses velhos do Restelo. Uma ida ao Brasil faria bem a esses azarados do destino que só estão bem a carpir mágoas. Cá por mim, vou voltar a vestir a camisola nº 9 (a única XXL que encontrei!) nos dias dos jogos e continuarei a torcer pela selecção. Por todos, obviamente. Mas com um carinho muito especial pelas sucessivas fornadas de sportinguistas que andam ali pelo campo, reunidos sob a mesma bandeira, mas vindos dos quatro cantos do mundo: Ricardo, Caneira, Simão, Boa Morte, Hugo Viana, Figo (está excelente este Figo maduro!), Cristiano Ronaldo... Dá que pensar, não dá?
Força Portugal, falta o México. A seguir a Holanda.
TODA A NUDEZ SERÁ CASTIGADA
de Nelson Rodrigues
(nos palcos de São Paulo)
encenação de 1965
"Herculano, você me interessou de cara. Te confesso. Talvez porque havia uma morta. Uma morta entre nós dois. E a ferida no seio. Eu não sou como as outras. Eu mesma não me entendo. Aos seis, sete anos, eu vi um cavalo, um cavalo de corrida. Senti então que não há ninguém mais nu do que certos cavalos". - Geni"Se você contar, se disser que eu, eu. Tenho um filho, de dezoito anos. Um menino que nunca, nunca. Quando a mãe morreu quis se matar, cortando os pulsos. E meu filho não aceita o ato sexual. Mesmo no casamento. Não aceita. No dia do enterro, do enterro da minha mulher - quando voltamos do cemitério - ele se trancou comigo, no quarto. Quis que eu jurasse que nunca mais teria outra mulher. Nem casando, nem sem casar". - Herculano
"O ser humano é louco! E ninguém vê isso, porque só os profetas enxergam o óbvio". - Patrício
" (...) há entre nós e a loucura um limite que é quase nada!". - Herculano
"Assim como se nasce poeta, ou judeu, ou agrimensor - se nasceu prostituta!". - Herculano
"Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei". - Geni
encenação de 2006,
com Leonardo Miggiorin (Serginho) e Claudia Bertazzi (Geni).
Na conhecida Rua Augusta, numa das transversais da Avenida Paulista, bem no centro de São Paulo, no Teatro do mesmo nome, Augusta, uma nova encenação da “tragédia carioca” de Nelson Rodrigues, “Toda a Nudez será Castigada”, uma comédia de costumes e de humor negro, que foi escrita por encomenda de Fernanda Montenegro. Quando leu a peça, uma história de amor e traição vivida por Geni, uma prostituta, e o industrial Herculano, que o dramaturgo brasileiro considerou uma "obsessão em três actos", Fernanda Montenegro começou por protestar, dizendo que esta não era uma “comédia”. Conta-se que Nelson Rodrigues terá tentado convencer Montenegro: "Mas isto é a comédia humana, minha flor!". A actriz não se satisfez com as explicações do dramaturgo e recusou a peça, alegando gravidez. Digamos que se trata realmente de uma comédia de humor corrosivo, onde se abordam temas graves e vícios tradicionais das famílias convencionais. È no interior numa destas famílias, onde acaba de falecer a matriarca, que iremos encontrar Herculano, o marido, um homem puritano que só tinha tido uma mulher na vida, e que promete a Serginho, o filho, que nunca mais conhecerá outra, depois do passamento da esposa.
Mas Patrício, o irmão de Herculano, que vive à custa deste, quer tê-lo bem na mão, afastado de toda a possibilidade de um funesto suicídio, que lhe retirasse a mesada. Para tanto coloca-lhe na frente uma fotografia de Geni, uma “cantora de inferninho”, integralmente prostituta e mulher irrecusável. Depois de uma bebedeira monumental, Herculano cai na armadilha, entra no bordel, onde encontra Geni e passa a noite com ela. O que o leva a um arrependimento profundo, quando descobre o desespero do filho, entretanto preso e violado na cadeia por um “Bandido Boliviano” que deixa rasto na história. Geni entretanto afirma-se apaixonada por Herculano, promete casar-se com ela, mas para que tudo isto resultar, precisa de afastar Serginho e colocá-lo em viagem. Acontece que o amor como vem, vai, Geni apaixona-se por Serginho e atraiçoa Herculano, e ambos preparam uma vingança com a cumplicidade de Patrício. Todos contra Herculano é o lema. Depois de uma moral impoluta, de um puritanismo que chega a arrepiar, eis que ascende a completa imoralidade. Afinal o “Bandido Boliviano” joga a cartada definitiva e nada ficará como antes. Nesta sociedade de um falso moralismo e de uma decência muito indecente, basta uma fagulha (Géni é uma fagulha e tanto!) para incendiar o rastilho.
Diálogos magníficos, enredo bem construído, critica social acérrima, excelente desenho de personagens, humor de uma acidez e mordacidade invulgar fazem desta peça (e de muitas outras) de Nelson Rodrigues, uma obra invulgar na dramaturgia brasileira. Há quem diga que é obra de um profundo pessimismo. “O mais pessimista de todos os seus trabalhos para o teatro.” E exlica: “Há obsessão nos firmes propósitos das personagens, criando um clima denso para a peça. E há obsessão no ritmo opressivo dos acontecimentos e na força contrastante das paixões. Geni quer dignidade através de uma paixão, antes que morra do câncer que receia e, ao mesmo tempo, deseja. Herculano descobre sua hipersexualidade e quer justificá-la através do projeto de redimir uma prostituta. Patrício vive para a vingança, afinal nunca se conformou com a "avareza" do irmão. Serginho divide-se entre a paixão incestuosa pela mãe já falecida e uma homossexualidade ainda não assumida.” Mas há quem tenha opinião diferente: "Em Toda Nudez será Castigada”, Nelson Rodrigues repete um de seus temas perenes, a crença no amor eterno como um baluarte contra os desgostos da vida. Mas acredita também na fatalidade do amor: porque oferece uma espécie de salvação, o amor pode se transformar numa busca desesperada, obsessiva, mórbida, levando ao suicídio ou homicídio". - David George
imagens do filme de Arnaldo jabor (1973)
Em 1973, o realizador Arnaldo Jabor (Eu Te Amo) adaptou ao cinema esta história de um viúvo puritano que se apaixona por uma prostituta, o que desencadeia uma tragédia em sua família. Entre os actores contavam-se Paulo Porto (Herculano), Darlene Glória (Geni), Paulo Sacks (Serginho), Paulo César Pereio (Patrício), Isabel Ribeiro (Tia), Hugo Carvana (comissário), Orlando Bonfim, Henriqueta Brieba, Elza Gomes, Sérgio Mamberti. A música era de Astor Piazzolla, a fotografia de Lauro Escorel, e o filme, segundo recordo, excelente, tendo ganho mesmo o Urso de Prata no Festival de Berlim, e dois Kikitos de Ouro, no Festival de Gramado, nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz (Darlene Glória). Recebeu ainda uma menção especial para a trilha sonora.
“Toda Nudez Será Castigada”, conta-se, gerou uma situação insólita na época da sua estreia no Brasil, tendo sido um grande sucesso público e representado oficialmente o Brasil no Festival de Berlim. Entretanto, no auge da ditadura militar, o general António Bandeira, chefe do serviço de censura, viu o filme no cinema e achou-o imoral, ordenando a sua proibição. Assim o Brasil era representado por um filme que era proibido no país e, possivelmente, só foi novamente liberado em virtude de ter sido premiado no exterior.
Esta peça de Nelson Rodrigues foi encenada pela primeira vez em 1965, no Teatro Serrador(rj), com direção de Ziembinski, e Cleyde Yaconis no papel principal, tendo depois disso sido encenada diversas vezes, tornando-se um clássico absoluto.
25 anos depois da morte de Nelson Rodrigues (21 de Dezembro de 1980, no mesmo dia em que ganhou o totobola local!), o grupo Armazém Cia. de Teatro, do Rio de Janeiro, comemorava os seus 18 anos de existência com a montagem da peça “Toda Nudez Será Castigada”, no Centro Cultural do Banco do Brasil, numa homenagem a Nelson Rodrigues, com interpretação de Thales Coutinho, Patrícia Selonk, Fabiano Medeiros, entre outros. Paulo de Moraes e Maurício Arruda Mendonça, responsáveis pelo espectáculo, afirmaram em 2005: "Nelson Rodrigues é o maior génio da dramaturgia brasileira e isso justifica qualquer montagem".
Agora surgiu numa nova versão, uma montagem do diretor Josemir Kowalick que tentou suavizar o texto dramático de Nelson Rodrigues, inserindo momebntos de canto a dança como elementos do contexto da obra. Um casal de bailarinos de tango faz as ligações de cenas, pontuando a trajectória dos personagens. No elenco que apenas se pode considerar globalmente sofrível, sobressaem Leonardo Miggiorin (Serginho) e Claudia Bertazzi (Geni). Alexandre Contini, Cybeli de Thonet, Edney Veiga, Elisa Forsthofer, Fabio Capozzi, Joao Lima Junior, Neli Rodrigues, Nicolau Fares, Olayr Coan, Simone Guerra e Tiago Real nada acrescentam em particular a esta encenação sem grande brilho, que tenta adocicar o negrume de Nelson Rodrigues com passos de dança que se escusavam bem. Mas rever Nelson Rodrigues é sempre bom, sobretudo em su sitio: no Brasil. Dá vontade de rever o filme de Jabor.
Sobre Nelson Rodrigues e “Toda a Nudez Será Castigada” pode ver:
http://www.opalco.com.br/foco.cfm?persona=autores&controle=8
http://www.opalco.com.br/foco.cfm?persona=textos&controle=86
http://www.jornalismo.ufsc.br/nelson_rodrigues/toda_nudez.htm
http://www.telacritica.org/Nudez.htm
http://www.apetesp.org.br/campanha/todanudezseracastigada/
sábado, junho 17, 2006
Tudo muito interessante, mas as fotografias, tiradas quase todas com o recurso à Câmara Escura, são fabulosas, de imaginação, de sensibilidade, de mestria técnica, de domínio.
Há ao longo da sua obra várias séries temáticas. Algumas estão expostas no MAM de São Paulo. A série dedicada aos livros é magnífica. Mas “Alice in Wonderland”, “Primeiros Trabalhos”, “Gardner Museum”, “Câmara Obscura” são outras séries a não perder.
Num preto e branco luminoso e mágico, com a utilização de uma luz absolutamente notável, de recorte, de definição, de expressividade. O gosto pela multiplicidade de jogos de reflexos - a câmara a ser fotografada, como elemento da própria fotografia, as sobreposições de imagens, para criar anacronismos (na série “Gardner Museum”), a justaposição de imagens no mundo maravilhoso de Alice - , tudo faz desta obra uma referência única.
esta é especial para a MEC
Para visitar o site pessoal:
Outros Links:
Bowdoin Campus News
Remarks made by Abelardo Morell upon receiving his
Honorary Doctor of Fine Arts degree from Bowdoin
Boston Museum of Fine Arts
Identity Theory - The Narrative Thread
Abelardo Morell talks with Robert Birnbaum
News Hour with Jim Lehrer
Interview with Abelardo Morell: A Book of Books
Out of Place: A Documentary on Abelardo Morell
Filmmaker Allie Humenuk's ongoing documentary project
Whitney Museum of American Art
Abelardo Morell makes camera obscura
at the Whitney Museum of American Art
For more information about camera obscura, visit:
The Magic Mirror of Life: A Search for Camera Obscura Rooms
BOM CINEMA
E BOM AMBIENTE
Para o belissimo album de "recordações" do FICA este ano editado, e que faz o balanço das oito edições anteriores e projecta o futuro do certame, escrevi um texto que resume, em palavras que infelizmente pouco dizem do muito que se sente, um texto memorialista que a seguir transcrevo.
Desde o ano I do FICA que eu e o CineEco, de Seia, mantemos com este festival uma ligação de colaboração intensa e, mais do que isso, uma relação de amizade profunda. “Bom Cinema e Bom Ambiente” costuma ser o slogan do CineEco, e ele também se pode e deve aplicar a Goiás, onde o bom ambiente não se fica pelo que é saudavelmente exigível ao homem na sua relação com o meio geográfico e animal, mas vai ao mais profundo da alma humana: um bom ambiente entre humanos, um respeito profundo pela diferença e uma amizade sólida que a afinidade de interesses e de carácter cimenta.O FICA é o maior festival de cinema ambiental do Brasil e da América Latina, já vai na sua oitava edição, afirma-se em importância e prestígio de ano para ano, sempre radicado na belíssima e histórica Vila Boa de Goiás, que já foi capital de distrito de Goiás, e “tombou” Património da Humanidade, via UNESCO. Várias vezes estivemos presentes, quer como membro do Júri Internacional, quer como parceiro já de um convénio oficial assinado pelos dois festivais, e este ano conto estar aí para assistir à assinatura final do protocolo que une Seia, em Portugal, a Goiás, no Brasil, como cidades gémeas. Assumindo-me desde sempre como um dos pais desta ideia, honra-me saber que as cidades se podem unir por fenómenos culturais, como a existência de festivais de cinema dedicados à defesa do ambiente, e por aspectos humanos que relevam da amizade, da fraternidade, das causas comuns.Um Festival de Cinema sobre Ambiente é uma causa imperiosa nos dias que correm. O FICA tem honrado a causa, julgo que Seia também. Outros haverá que irão sublinhar o interesse indesmentível do cinema, da defesa do bom ambiente, estou certo. Permitam-me falar de coisas que me são mais íntimas, mas reputo cada vez mais essenciais.Numa terra que dista tantos milhares de quilómetros da minha, sempre me senti em casa, quer pela afabilidade do povo, quer pelo cultivo de tantas amizades que de ano para ano crescem e se alimentam do que há de mais puro no ser humano, esse gosto de estar junto quando juntos nos queremos bem. Há muitos vestígios, bons e maus, de uma história com contou com a marca do gene português. As casas relembram o Alentejo nuns casos, o Minho noutros, a Madeira e os Açores noutros ainda, mas a presença portuguesa está viva, reconhecível, perene. Nos palácios senhoriais e nas igrejas, nas ruas e nas casas rústicas. Mesmo na mescla racial, onde fomos únicos (intrépidos na aculturação sexual, indiferentes a diferenças rácicas ou culturais), e sobretudo na língua, nesse português bailado em lábios tropicais, recheado de neologismos, de vocábulos estrangeirados, mas, ainda e sempre, bem português. Mas há, para lá das afinidades que a História recorda, algo de muito genuinamente único, que o brasileiro construiu com amor e milenar sabedoria de proveniências tão diversas. É esse dom de bem receber, de ter sempre a porta e a janela da casa abertas, de saber oferecer um sorriso, de estender a mão, de falar palavras de poetas que se amam, de cantar músicas que não se esquecem, de recordar filmes que ficaram nos olhos, de sambar como Pelé ou Garrincha… é esse dom de reunir durante um festival amigos já tão íntimos como Washington Novais, Nasr Fayad Chaul, Lisandro Nogueira, Paulo Neto, Ismail Xavier, Mário Borgneti, Jaime Sautchuk, Eduardo Benfica, Armando Bulcão, Lucélia Santos, Lisa França, Tânia Montoro, Lucivânia Fernandes (ah, estas mulheres brasileiras!), e tantos e tantas outros e outras que enumerar seria impossível. Não esquecendo, obviamente, o Governador Marconi Perillo, sem o qual a aventura deste belo festival nunca teria sido possível. Nem a realidade da geminação Seia-Goiás. / Fevereiro, 2006
sexta-feira, junho 16, 2006
Vila Boa de Goiás, velha capital estatal, hoje "tombada" património mundial, via Unesco, é cidade mágica, onde perduram as marcas da arquitectura colonial portuguesa, onde se juntam culturas e continentes vários numa harmoniosa orquestração de cores e raças, onde o cair da noite traz da Serra Dourada os seus raios luminosos, onde o Rio Vermelho abre caminho por entre o casario, beijando de relance a casa de Cora Coralina, poetisa e lenda maior do burgo.
É aqui que, há oito anos já, se realiza o FICA, Festival Internacional de Cinema Ambiental, uma iniciativa da Agepel, Agência Goiana de Cultura, sob o patrocinio de uma equipa aguerrida, comandada por Nasz Chaul, Washington Novaes e Lizandro Nogueira.
Desde o seu primeiro ano que o FICA estabeleceu com o CineEco de Seia (a caminho do seu décimo segundo ano) uma fraternal relação que nos tem permitido seguir de perto as sucessivas edições do festival goiano, cimentando laços de colaboração e de forte comunhão.
Este ano, o FICA inaugurou uma nova parceria com outros festivais internacionais para, conjuntamente, criarem o "Festival dos Festivais", que anualmente irá premiar uma obra entre todas as que foram distinguidas pelos festivais de Portugal (Seia), Itália (Turim), Grécia, Espanha (Barcelona) e Brasil (Goiás).
Foram dez os títulos revistos em competição, dos quais sobressaiu, para os membros doi Júri Internacional (Lizandro Nogueira, do Brasil, Gaetano Cappizi, de Itália, e Lauro António, de Portugal), "Carpatia", de Andrej Klant e Ulrich Rydzewsky, uma viagem pelos rostos e as paisagens que habitam os Cárpatos, um região que cobre países como a Ucrânia, a Roménia e a Eslováquia. Contemplativo, poético, vigoroso na pincelada e discreto na aproximação, "Carpatia" ultrapassou na votação final outras obras igualmente importantes e muito interessantes, como "Estamira", do brasileiro Marcos Prado, "The Sharpe of the Moon', de Leonard Retel Helmrich (Holanda),"Dutch Light", de outro holandês, Pieter-Rim de Kroon, "Conflit Tiger", de Sasha Snow (Inglaterra), "O Coro das Palavras", do português Carlos Brandão Lucas ou "Shipbreakers", de Michael Kot (Canadá).
Entretanto, na Mostra Competitiva, vimos também filmes particularmente curiosos, chamando a atenção para alguns dos mais prementes problemas que assolam a Humanidade ao nível do meio ambiente. “White Gold:The True Cost of Cotton”, de Sam Cole, “Plages and Pleasures on the Salton Sea”, de Chris Metzier, “The Last Atomic Bomb”, de Robert Ritcher, “O Amendoim da Cutia”, de Komoi e Paturi Panara, “The Real Dirt on Farmer John “, de Taggart Siegel, “Gottes Plan un Menschen Hand”, de Dominik Wessely, “Peixe Frito”, de Ricardo Geortge de Podestá, e “O Profeta das Águas”, de Leopoldo Nunes, e “Ovas de Oro”, de Manuel Gonzáles (estes dois últimos a dividiremn ex-aequo o Grande Prémio do certame goiano deste ano) são obras seguramente a merecerem uma mais atenta visão, o que poderá acontecer para muitos deles no próximo CineEco a decorrer em Seia, no mês de Outubro.
Atendendo a este facto, o melhor é preparar desde já uma semana em Seia por essa altura, para se poder ver estes (e muitos outros) filmes que alertam de forma dramática, mas lúcida e corajosa, para algumas das pragas que afligem o nosso planeta. E não falamos de "pragas de gafanhotos", mas de outras pragas muito mais dolorosas de suportar, as que têm a ver com a violência quotidiana, a exploração feroz, a injustiça, o despotismo das grandes potências sobre os mais fracos e indefesos, o recurso abusivo a um lucro venenoso que não se detém perante nada para ampliar receitas e beneses.
sábado, junho 03, 2006
Há dois anos escrevi este texto (“Jornal do Fundão”), de volta do Brasil, de Goiás. Este ano, no regresso a Goiás e ao fascínio dos trópicos cruzados de português, de africano e de índio, para lá de tantas outras raças que se lhe juntaram, antevejo o prazer de rever amigos e de sentir o pulsar de uma terra realmente mágica, onde a violência existe, a corrupção existe, a injusta social existe, onde tanta coisa ruim mesmo existe, mas onde a alegria do povo e a beleza da paisagem calam mais fundo. Aí vou Brasil.
“De novo na cidade de Goiás, no planalto central do Brasil, de novo membro do Júri Internacional, de novo um bom conjunto de obras a concurso, muitas das quais estão desde já asseguradas para passarem no Cine Eco, neste ano da sua décima edição, a decorrer em Outubro, em Seia.
Interessante é assistir a um festival de cinema e audiovisual sobre temática ambiental, procurando detectar aí as linhas de força que sobressaem do conjunto das obras projectadas, e que têm origem um pouco em todos os continentes. As preocupações são também elas cada vez mais ser globalizantes, respondendo ao desafio de uma sociedade globalizada que tende cada vez mais para uma homogeneidade consumista alarmante. Essa será a primeira conclusão a tirar: ambientalistas e artistas, intelectuais e homens de bem de todo o mundo, sentem cada vez mais na pele os perigos de uma sociedade do desperdício, quando ao lado as carências humanas e sociais se agravam dia a dia. O audiovisual ambientalista está cada vez mais centrado em aspectos fulcrais e decisivos, detendo-se no essencial das questões ambientalistas, que se prendem com a ordem económica e política do mundo, que analisam e criticam de forma profunda e desapiedada.
O mundo está a atravessar uma crise violentíssima que põe em causa o seu futuro a curto prazo, e o poder económico e político de muitos Estados parecem alhear-se por completa desse facto a troco de um bem estar mais aparente que real e de uma hegemonia perigosa. A denúncia destes factos é cada vez mais corajosa, ainda que muitos desses documentos vejam a sua divulgação dificultada ou mesmo coarctada em salas de cinema e canais de televisão generalistas, controlados pelo mesmo poder económico e político que põe em causa o bem estar de todos em nome do lucro de alguns. O momento é de alerta geral, e é esse alerta angustiado, revoltado, já violento na sua expressão que vemos na maioria das obras projectadas no VI FICA.
Um dos mentores deste festival é Washington Novaes, um dos mais reputados ambientalistas mundiais, que vive em Goiania, mantém respeitadas colunas no “Estado de S. Paulo” e n’ “O Popular”, sendo um forte impulsionador de todas as actividades em prole da harmonia ambiental mundial. Este ano fez 70 anos no decorrer do certame, e foi por isso homenageado com uma festa íntima para amigos de toda uma vida, colhidos um pouco por todo o lado. No recato de uma noite meigamente amena, no pátio da “Pousada do Bacalhau”, ouvindo-se a goiana Cláudia Viera cantar, Washington Novaes, um belo rosto de velho marinheiro, emoldurado por fartos cabelos e barba branca, de olhos cintilantes de viperina inteligência, escutou palavras de apoio e admiração e amor, e um poema de Reynaldo Jardim, enviado em primeira mão, antes de aparecer no “Pasquim”, que começava assim: “Washington entrou na mata, o rio disse: obrigado. Mergulhou nas águas limpas, o peixe disse: obrigado. Rasgou a rede-armadilha, o índio disse: obrigado. Fez da palavra sua flecha, a vida disse: obrigado.”
Passemos aos filmes: duas séries de televisão, uma brasileira, outra franco-holandesa. “Memórias do Meio Ambiente”, produção da TV Cultura, com realização de Anna Terra e Ricardo Carvalho, ocupa-se, ao longo de 10 programas, da trajectória pessoal e profissional de personalidades que dedicaram sua vida à defesa do meio ambiente. Viu-se “Ailton Hrenak, um líder indígena em defesa da vida”, “José Lutzemberger: um pioneiro em Gaia” e “Virgílio do ABC, um fugitivo ambiental”. Uma série que poderia e deveria ser uma referência para Portugal. A outra série, “Pas d’Eau Potable”, de Marina Galimberg, fala-nos dos problemas da água, colhendo exemplo em duas zonas degradadas neste campo: o Sri Lanka e a Roménia.
“Life Runing Out of Control”, dos alemães Bertrand Verhaag e Gabriel Krober, evoca outra das grandes ameaças dos nossos dias: os alimentos transgénicos, manipulação de plantas, animais e seres humanos e sua progressiva patenteação. Em nome o lucro das grandes multinacionais, criam-se patentes que impedem o cultivo de sementes, reduzem o vasto manancial das variedades, atiram para a ruína os pequenos e médios agricultores, e ameaçam a saúde pública. Alguns cientistas anteriormente ligados a projectos nesta área, desafiam e combatem a indústria.
Arne Sucksdorff, cineasta sueco, viveu durante muitos anos no Brasil, foi professor de cinema e ambientalista na zona do Pantanal. A brasileira Bárbara Fontes dedica-lhe um documentário em jeito de homenagem merecida, divulgando vida e obra. Muito semelhante é o trabalho “Franz Kracjaberg, Portrait d’une Vie”, desta feita dirigido pelo francês Maurice Dubroca, testemunhando a vida e obra do artista plástico Kracjaberg, um homem que consegue revitalizar a natureza queimada e morta em esculturas e instalações que valem não só como documentos de arte moderna, iniciando de certa forma os caminhos da “land art”, como também como gritos de revolta contra a agressão à Natureza perpetrada pela ganância.
Outro título particularmente bem recebido foi “La Loi de la Jungle”, de Philippe Lafaix (já premiado no ano passado no Cine Eco) e que nos fala da exploração dos trabalhadores (quase escravos) brasileiros como garimpeiros na extracção de ouro na Guiana Francesa. Exploração de mão de obra e contaminação pelo efeito do mercúrio. De Cuba, uma obra de Judith Grey, “Sin Embargo”, que mostra o engenho e a arte dos cubanos para combater o embargo norte americano, reciclando materiais e lixo. Nada se perde, tudo se transforma, em caso de necessidade extrema. “100% Cotton”, da alemã Inge Altermeier, aborda a contaminação do algodão por pesticidas tóxicos que põem em risco os agricultores, operários e público em geral. Inquietante. “Roque Pereira: Mobiliário Eco-Sustentável”, de Lice Antunes, traça o retrato de um humilde construtor de móveis que aproveita restos de madeira para os rentabilizar plenamente nos seus trabalhos. “O Cordel dos Atingidos”, do brasileiro Ricardo Sá, descreve a situação de cinco mil pessoas que são obrigadas a deixar as suas terras no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, pela construção de uma nova barragem.
“War and Peace”, do indiano Anand Patwardhan, filmado na Índia, Paquistão, Japão e EUA, aborda o tema da crescente militarização internacional e da proliferação nuclear, ameaças para a Paz e para o Ambiente de todos nós. “Chernobyl Heart”, da norte americana Maryam De Lea, Óscar de melhor curta metragem em 2004, viaja até à região de Chernobyl, para verificar in loco, os efeitos da tragédia de 1998, nos nossos dias. O resultado é brutal, as imagens aterradoras, sobretudo as colhidas durante visitas a hospitais onde se encontram crianças vítimas do desastre. Cidades e vilas em estado de calamidade total, numa incúria total. O facto de aparecer um equipa de médicos norte americanos a salvarem vidas levou o filme a ser entendido também como propagandista, sobretudo tendo em conta que, ao lado da ex-URSS, são os EUA os principais construtores de fábricas nucleares e por isso mesmo um dos maiores responsáveis pela sua ameaça.
Finalmente “Surplus”, do sueco Erik Gandini, ataca sem piedade o consumismo: um quinto da população mundial consome quatro quintos dos recursos do planeta e produz 86% de todo o desperdício. Com uma montagem nervosa e uma manipulação grotesca de discursos de chefes de Estado, intercalando protestos violentos com a violência dos poderosos este documentário, por vezes perigoso na forma como assume o combate, ganhou o primeiro prémio do certame que durante uma semana animou as ruas de Goiás, em duas salas de cinema, com lotação para mais de mil espectadores, muitas vezes esgotadas. “
(Junho de 2004)

Sugestões, entre o que vi, até à data de 1/06/2006
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O Novo Mundo, de Terrence Malick
Maria Madalena, de Abel Ferrara
Infiltrado, de Spike Lee
A Comédia do Poder, de Claude Chabrol
Movimentos Perpétuos. Tributo a Carlos Paredes, de Edgar Pêra
Syriana, de Stephen Gayhan
Colisão, de Paul Haggis

leccionados por Lauro António
O Expressionismo (anos 20)
Análise de um período histórico: O que foi o expressionismo, em literatura, artes plásticas, teatro e cinema.
Visão e análise de 18 obras essenciais de Murnau, Fritz Lang, Pabst, Robert Wiener, como O Gabinete do Dr. Caligari, Metropolis, Os Nibelungos – 2 jornadas, Golem, Fausto, Testamento do Dr. Mabuse, Nosferatu, Die Liebe der Jeanne Ney, O Último dos Homens, M Matou, O Anjo Azul, etc.
Permanência do expressionismo no cinema actual. Ilustração com alguns exemplos.
Textos de apoio.
Julho/Agosto / 2 vezes por semana (4 horas cada)
64 horas no total (mínimo de 20 alunos)
Inscrição até dia 1 de Julho de 2006
Um realizador contemporâneo:
Quem é e qual a importância de Tim Burton.
Exibição de 12 filmes de Tim Burton: OS FANTASMAS DIVERTEM-SE, EDUARDO, MÃOS DE TESOURA, ED WOOD, BATMAN, BATMAN REGRESSA, O ESTRANHO NUNDO DE JACK, A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA, O PLANETA DOS MACACOS, MARTE ATACA!, O GRANDE PEIXE, CHARLIE E A FÁBRICA DE CHOCOLATE, A NOIVA CADÁVER, etc.
Textos de apoio.
Julho ou Agosto ou Setembro / 2 vezes por semana (4 horas cada: 2 + 2)
32 horas no total (mínimo de 15 alunos)
Inscrição até dia 1 de Julho de 2006
Um realizador clássico:
Quem é e qual a importância de Orson Welles.
Exibição de 12 filmes de Orson Welles: O MUNDO A SEUS PÉS, O QUARTO MANDAMENTO, A JORNADA DO MEDO, O ESTRANGEIRO, RELATÓRIO CONFIDENCIAL, MACBETH, A DAMA DE XANGAI, O PROCESSO, HISTÓRIA IMORTAL, etc.
Textos de apoio.
Julho ou Agosto ou Setembro / 2 vezes por semana (4 horas cada: 2 + 2)
32 horas no total (mínimo de 15 alunos)
Inscrição até dia 1 de Julho de 2006
David W. Griffith
Quem é e qual a importância de David W. Grffith.
Exibição de 12 filmes de e sobre David W. Grffith: D.W. GRIFFITH: FATHER OF FILM, CURTAS DE 1909 – 1913, THE GIRL AND HER TRUST, BIRTH OF A NATION (Nascimento de uma Nação), INTOLERANCE (Intolerância), DREAM STREET (A Rua dos Sonhos), BROKEN BLOSSOMS (O Lírio Quebrado), ABRAHAM LINCOLN, com Walter Huston, Una Merkel, etc. (EUA, 1930), WAY DOWN EAST (As Duas Tormentas), ORPHANS OF THE STORM (As Duas Orfãs), etc.
Textos de apoio.
Julho ou Agosto ou Setembro / 2 vezes por semana (4 horas cada: 2 + 2)
32 horas no total (mínimo de 15 alunos)
Inscrição até dia 1 de Julho de 2006
Um género:
Os filmes de vampiro ao longo da história do cinema. Sua representatividade como elemento de estéticas relevantes, do expressionismo ao pós-modernismo.
Exibição de 18 filmes de vampiros, com base em “Drácula”.
Textos de apoio.
(mês e meio) Julho ou Agosto ou Setembro / 2 vezes por semana (4 horas cada: 2 + 2)
48 horas no total (mínimo de 15 alunos)
Inscrição até dia 1 de Julho de 2006
sexta-feira, junho 02, 2006
Chabrol
O bom e velho Chabrol continua imparável. Nada o demove há quase 50 anos de fazer o cinema que quer. Há títulos melhores, outros menos bons, mas não filmes maus e sobretudo desinteressantes na carreira deste veterano que se iniciou na “Nouvelle Vague”, em finais da década de 50, e que daí até hoje não pára de nos surpreender com as suas análises ácidas, cínicas e bem-humoradas sobre os bons (raros) e maus (muitos) costumes da burguesia francesa. Chabrol lá continua, “bon vivant”, comendo e bebendo muito bem, fumando e catrapiscando mulheres bonitas, fazendo filmes inteligentes pelo meio e julgando os seus contemporâneos, não por aquilo que muitos julgam, mas por aquilo que ele mais abomina: a hipocrisia, o puritanismo, o falso moralismo.
Neste aspecto, “L’ Ivresse du Pouvoir” (“A Bebedeira do Poder” e não “A Comédia do Poder” como aparece traduzido - por alguma razão Chabrol abandonou este título, que era o que funcionava durante a rodagem) é um manancial de sugestões e só quem não percebe nada de Chabrol pode deixar-se enganar e levar para outros terrenos. “L’ Ivresse du Pouvoir” não é um filme sobre a corrupção do poder, sobre as ligações entre o poder político e o poder económico. Isso seria muito directo e muito fácil para Chabrol, que já tocou no tema vezes sem fim. Agora esse não é o tema, ainda que ele esteja presente como pano de fundo. Mas o tema aqui é a bebedeira de poder de uma juíza de instrução que se julga a mulher mais poderosa de França porque pode mandar prender e torturar psicologicamente à sua frente esses “Presidentes” que não valem nada ao pé da sua intransigência, da sua moral incorrupta, da sua decência imaculada.
Jeanne Charmant-Killman (admirável Isabelle Huppert, que se presta a um jogo de uma frieza e de um rigor de composição sem paralelo) é uma juíza que tem entre mãos uma investigação explosiva que irá mandar para a cadeia um conjunto de administradores e políticos corruptos. Nada de muito especial, pois que eles mesmo admitem que é precisos besuntar as mãos, que as “luvas” fazem parte dos negócios, que as percentagens por baixo da mesa são o que são. De resto, bons jantares, amantes, charutos (que divertido é Chabrol a ostentar charutos, e a mostrar cigarros um pouco por todo o lado, até parecer uma vingança contra o politicamente correcto!), viagens, férias, boa vida, quem a não quer, podendo ter à sua disposição cartões de crédito fornecidos pela empresa?
Não o quer a incorruptível Charmant-Killman (Charmant, não se esqueçam!) que não deixa fumar na sua presença (mas ela fuma), não permite as investidas do marido na cama (está cansada, fica para amanhã), não aceita a sua apetência pelo sobrinho (apesar de passar os dias com os lábios a centímetros dos dele – Chabrol é terrível!), não confia em ninguém, a não ser no seu fiel colaborador de longa data (verão com que resultados!), não recebe uma caixa de vinhos como oferta, apesar de não desdenhar de um aperitivo durante a noite, movimenta-se com discrição, trabalha até altas horas da noite, enfim, um verdadeiro exemplo para todos, mas que Chabrol acha que ultrapassa todas as marcas de humanidade. Afinal a Charmant juíza Killman irá cruzar-se no hospital com o marido que se tentou suicidar e o desgraçado do “Presidente” que sofre de uma depressão profunda. E tudo para quê? Em nome de quê? Com que resultados? Assim volta tudo ao princípio e a juíza encolhe os ombros e confessa que se está nas tintas para tudo. Afinal o seu poder não é real, é virtual, é o poder que os outros lhe entregam, lhe permitem usar e ostentar, mas que só usa e ostenta enquanto outros o permitirem. Este é um jogo viciado por muitos lados e o encontro final de Charmant-Killman e do “Presidente” Michel Humeau, mais não é do que o cruzar de duas vítimas de um mesmo processo. Com a agravante de, como diz Chabrol, “Jeanne nos aparecer progressivamente como uma espécie de Robespierre de saias, à medida que vamos tendo cada vez mais compaixão por Humeau…”
Resumindo: Chabrol pode compreender alguns delitos, mas não compreende os que se querem sobre humanos de pés de barro. Charmant-Killman só começa a ser simpática quando desce do pódio onde ela própria se colocara e começa a perceber o desastre da sua vida pessoal. Quando descobre que a felicidade pode ser Félix, sem outras ambições que um bom poker. Quando descobre que o Sibeau afinal era tão ambicioso como ela, ainda que em campos opostos. Quando percebe afinal a fragilidade do ser humano.
Excelente fotografia de Eduardo Serra, que combate todos os rodriguinhos e nos oferece um quotidiano sem magia, magnificas sequências (como o plano sequência inicial, com a saída de Michel Humeau do escritório, acompanhado pela câmara à mão até ser detido pela polícia fora do edifício), notáveis actores (além da já referida Isabelle Huppert, há ainda a referir François Berléand, Patrick Bruel, Jean-François Balmer ou Thomas Chabrol) fazem de “A Comédia do Poder” uma triste comédia a não perder, assinada por um dos maiores cineastas europeus vivos.
A COMÉDIA DO PODER (L’Ivresse du Pouvoir), de Claude Chabrol (França, 2006), com Isabelle Huppert, François Berléand, Patrick Bruel, Jean-François Balmer, etc. 110 min, M/ 12 anos.

Devo dizer que “The Producers”, aparecido em 1968 (com o título “O Falhado Amoroso”, e também “Por Favor não Matem as Velhinhas!”), numa criação de Mel Brooks, que escrevia o argumento (oscarizado) e realizava o filme, foi uma das comédias mais divertidas que vi por essa altura, e diga-se que a época era farta em boas comédias. Depois disso, no início do novo século, Mel Brooks adaptou o argumento do filme a peça de teatro musical que explodiu na Broadway num sucesso estrondoso, com encenação de Susan Stroman e um elenco em muito semelhante ao que hoje vemos na nova versão cinematográfica (apenas se descobrem as novidades – benvindas! - de Uma Thurman e Will Ferrell). Assim se chegou à pescadinha de rabo na boca: do cinema para o palco, do palco para o cinema. Com resultados que quase rondam o catastrófico, neste último lance.
Esta nova versão de “The Producers” é por vezes lastimável, raramente tem graça, nunca foge ao confronto com o clássico de 68, Zero Mostel e Gene Wilder são inesquecíveis como actores (Nathan Lane é um desastre, Matthew Broderick mais interessante, mas longe de Wilder também), e Mel Brooks mostrava-se um mestre na comédia ao lado desta noviça sem graça, que resolve passar da encenação teatral (onde possivelmente retirou bons resultados) para a realização cinematográfica (onde baqueia estrondosamente).
A história de “Os Produtores” é conhecida: Max Bialystock é um produtor da Broadway que vai amealhando fracasso atrás de fracasso até que se reúne com um contabilista, Leo Bloom, que lhe sugere uma ideia fantástica: um fracasso teatral pode dar muito mais lucro que um êxito. Poderão assim reunir dois milhões de dólares com patrocinadores que ultrapassem em muito os 100% do orçamento do espectáculo. Como este irá resultar num fiasco, ninguém pedirá contas e os dois poderão empochar todo o dinheiro recolhido e partir de férias para o Rio de Janeiro. Essa era a ideia, que não resulta porque o péssimo “Primavera para Hitler” acaba por resultar num sucesso. Uma peça horrenda escrita por um idiota nazi, saudoso de Hitler, encenada por um director “gay” de péssimo gosto, com os piores actores do mundo, acaba por funcionar como uma paródia que deixa em delírio os espectadores da Broadway e atira para a cadeia com os produtores sem escrúpulos.
O drama do filme é a falta de graça dos actores, a inépcia da realização, a duração desmedida de um espectáculo que se arrasta (apesar de lhe terem cortado vários “números”), que se repete (o “número de Max Bialystock na cadeia, repisando todo o filme serve para quê?) e que cansa. O positivo? Uma Thurman, belíssima e cheia de talento, Matthew Broderick, curioso numa composição divertida, e Will Ferrell, turbulento, entre os actores. Alguns bons números musicais (as velhinhas, a “Primavera de Hitler”, a prisão) que transitam do “musical” no palco para o ecrã, sem a necessária conceptualização cinematográfica, mas que, mesmo assim, se salvam. Algumas piadas, e pouco mais. A graça saborosa dos anos 60 passou mesmo a uma vulgaridade quase obscena em 2005. As citações de tantos e tantos filmes, de “Serenata à Chuva” a “A Gaiola das Malucas” ou “Chicago”, ficam-se por piscadelas de olho inconsequentes.
Os Produtores (The Producers), de Susan Stroman (EUA, 2005), com Nathan Lane, Matthew Broderick, Uma Thurman, Will Ferrell, Gary Beach, Roger Bart, etc. 134 min; M/ 12 anos.

Num momento da história do homem em que o que não é representado (mesmo se documentário) parece não existir, o mundo do espectáculo no epicentro de “Mary” oferece visibilidade ao tema: um realizador, Tony Childress (Matthew Modine, cuja composição recorda em muito o próprio Abel Ferrara), acaba de rodar "This Is My Blood", um filme com uma nova leitura da vida de Cristo e das suas relações com Maria Madalena; uma actriz europeia, Marie Palesi (Juliette Binoche), que interpreta a figura de Maria Madalena e se deixa impregnar de tal forma pela personagem que abandona a carreira e segue para Jerusalém em busca de um caminho e um sentido para a sua vida; o apresentador de um programa de televisão, Tedodore Younger (Forrest Withaker) que procura também ele, através de várias entrevistas com teólogos e ensaístas reais (Jean-Yves Leloup, Amos Luzzatto, Elaine Pagels, entre outros) respostas para as dúvidas que o assaltam, a ele e a milhões de espectadores, sobre alguns aspectos da vida de Cristo, que os testamentos gnósticos, ultimamente revelados, não se cansam de fazer multiplicar.
A culpa e a redenção assumem-se como os temas centrais desta obra de um peso e de uma densidade dramática absorventes. Uma das características do cinema de Abel Ferrara é a facilidade com que cria ambientes sombrios, carregados, nocturnos. Dir-se-ia que isso era mais fácil em obras onde a violência e o crime se instalam (a quase maioria dos títulos deste cineasta que se especializou em “thrillers” de uma agressividade rasante). Mas, abordar a vida de Cristo, as dúvidas sobre a identidade de Maria Madalena (prostituta, apostolo eleito, mulher de Jesus?) e as hesitações espirituais e religiosas de várias personagens, perdidas num mundo onde a violência explode a cada segundo (quer seja nas ruas de Nova Iorque, quer seja numa casa de Jerusalém ou numa rua de Bagdad), e conseguir por igual criar esse clima de ameaça latente, de confronto permanente, é obra de evidente mestria. Nesse aspecto, Ferrara é um verdadeiro “autor”, um cineasta com um universo pessoal singular e uma forma de o apresentar muito particular. Tem não só um “estilo” (as suas filmagens das ruas de Nova Iorque e dos edifícios, focados em “contra picado”, em travelings envolventes que se vão diluindo uns nos outros) como também um olhar, um sentir, uma temática muito própria, ainda que muito próxima também de alguns outros ítalo-americanos (como Scorsese, cuja carreira se aproxima de termas muitos semelhantes, inclusive com uma “Última Tentação de Cristo” que provocou igualmente grande celeuma).
Deve dizer-se, aliás, que este “Mary” não é um filme perfeito, mas se aproxima muito da obra-prima, mesmo contando com os seus desequilíbrios e aparentes deslizes. Num filme onde se reivindica a condição e a fragilidade do “humano”, em oposição à perfeição do “divino”, nada mais natural e coerente que um filme “humano”, deixando a descoberto as suas asperezas, mas igualmente a sua busca de perfeição. Há neste filme uma procura desesperada da Fé e da Graça de um Sinal que dê aos homens algo a que se agarrarem num momento de particular incerteza na condição humana. Por isso são de tal forma tocantes as buscas, por caminhos tão diversos, de Marie Palesi, Tedodore Younger, Elizabeth Younger e Tony Childress. Sem uma resposta absoluta, sem fazer vingar uma tese, antes derivando entre várias respostas que umas às outras parecem suceder. Já repararam na designação de cada personagem, onde o jovem e a criança transitam de nome em nome, enquanto do ecrã se assiste ao dramático nascimento de um bebé que vem doente, mas que todos tentam salvar, como se da sua vida dependesse a salvação individual de cada personagem e também a salvação da espécie? Repararam ainda que uma das personagens se chama Gretchen, possível alusão à Gretchen do “Fausto” de Goethe, “a perfeição encarnada em mulher, um princípio metafísico, uma criação idealizada pela sua simplicidade e beleza, a inspiração de um amor divino.”
Sobre este filme de uma admirável simplicidade de escrita e de uma invulgar complexidade de percepção (que grande parte da critica portuguesa demonstrou estar acima da média, pois nem de perto nem de longe a atingiu), gostaria de terminar com uma citação de João Lopes. “No limite, trata-se de filmar uma arquitectura de solidões em que cada um procura a maneira mais justa de dizer “eu”. Não há muitos filmes contemporâneos tão puros e tão radicais.”
MARIA MADALENA (Mary), de Abel Ferrara (EUA, Itália, França, 2005); com Juliette Binoche, Forest Whitaker, Matthew Modine, Heather Graham, e ainda Jean-Yves Leloup, Amos Luzzatto, Elaine Pagels, eles próprios. 83 min; M/ 12 anos.

Digamos que a desilusão não é tão grande como esperávamos. Ninguém no seu juízo perfeito pode pensar que jamais algum actor fará do “Inspector Closeau” um Inspector Closeau à altura daquele que nos deram, nos seus primeiros filmes, Blake Edwards e Peter Seller. Estamos no início da década de 60, e essa série de comédias elevou-se rapidamente à categoria de culto (culto que pode hoje em dia ser reavivado em edição DVD). Depois, morto Peter Seller, muitos tentaram re-editar o sucesso. Imagine-se, caso quase único na história do cinema, que Blake Edwards rodou um filme com Seller já cadáver, aproveitando cenas que tinham sido retiradas de outros filmes. O resultado não foi brilhante. Depois surgiram Alan Arkin, Roger Moore e Robert Begnino a tentarem ser o que nunca poderiam ser. Passaram-se mais umas décadas e eis que voltam a tentar ressuscitar a personagem, não retirando do túmulo o inigualável Peter Seller, mas colocando no seu lugar outro actor de igual envergadura, o norte-americano Steve Martin.
Steve Martin é um óptimo intérprete, já o sabíamos, mas não consegue fazer esquecer Peter Seller. Kevin Kline, na figura de outro imortal (o inspector- chefe Dreyfuss), também não faz esquecer Herbert Lom. Defeitos ou virtudes de quem tem memória. “Last, but not least”, o realizador Shawn Levy não faz esquecer Blake Edwards. A visão deste “A Pantera Cor-de-Rosa” parece assim uma romagem de saudade. Vemos este filme, e recordamos outros. Quase vemos este e rimo-nos do que não esquecemos dos antigos, dos genuínos. Estranho fenómeno, tanto mais que esta “Pantera” versão 2006 tem algumas qualidades: bons actores, já o dissemos (mas falta acrescentar um excelente Jean Reno e ainda as belas e talentosas Beyoncé Knowles e Emily Mortimer), uma realização escorreita e tecnicamente apurada, uma boa fotografia de Paris e Nova Iorque, e alguns “gags” à altura da hereditariedade. Petter Sellers era desastrado a brincar com o globo terrestre, Steve Martin não o é menos, e o seu globo metálico que desce escadarias e escorrega pelas ruas parisienses, é um bom gag Os encontros de Steve Martin com a secretária Emily Mortimer não são só prometedores, mas mais do que isso. A fúria destruidora de Clouseau não desarma (toda a sequência que começa com o “viagra” saltitante é excelente), e há cenas que vão beber a clássicos, como “Serenata à Chuva” (a lição de dicção) ou “Jerry, Enfermeiro sem Diploma” (a cama de hospital que se desloca sozinha com um doente lá dentro), que funcionam muito bem.
Ao contrário de uma sequela, esta “Pantera” de 2006 vai rebuscar o primeiro caso de Clouseau. Tal como a série “Guerra das Estrelas”, regressa ao passado. Vai desenterrar Clouseau, antes dele ser o Clouseau que já conhecemos. A história começa num campo de futebol, durante um jogo do campeonato de mundo, França-China. O treinador de França, uma pedante vedeta de “jet set”, que tem como namorada uma célebre cantora, é assassinado em plena euforia da vitória e o seu valioso anel, que ostenta o famoso diamante “Pantera Cor-de-Rosa”, desaparece. Enquanto o Inspector-chefe Dreyfuss faz tudo para colher pessoalmente os louros, chama o incompetente Inspector Clouseau para tapar os olhos dos media, e assim poder investigar na sombra e no silencio. Mas as contas saem-lhe furadas, como acontece quase sempre nas comédias.
Não sendo uma comédia genial, esta nova “A Pantera Cor-de-Rosa” consegue ser divertida, mesmo para um espectador que entra na sala de pé atrás. O genérico de animação adoça as expectativas. O que vem a seguir é o que de mais aproximado se viu até hoje do verdadeiro Clouseau. Chega? É pouco? É muito? Steve Martin tem a vantagem de não procurar imitar, decalcando, Peter Seller. Recria a personagem, imprimindo-lhe novos traços e mantendo alguns. Esperemos por novas aventuras deste Clouseau.
A PANTERA COR-DE-ROSA (The Pink Panther), de Shawn Levy (EUA, 2006), com Steve Martin, Kevin Kline, Beyoncé Knowles, Jean Reno, Emily Mortimer, etc. 93 min; M/ 12 anos.

Há muitas décadas que Woody Allen (tal como Manoel de Oliveira) nos presenteia com um filme por ano. Melhor ou menos bom, é sempre um “presente” anual. Com maior ou menor originalidade, vem sempre dali uma obra muito pessoal (“o mesmo filme”, afinal, fazem quase sempre os grandes realizadores, porque fazem o filme da “sua” vida, que não podem alterar, porque é a “sua”). Mas, tal como o filme diz, os mesmos ingredientes, o mesmo talento, a mesma dedicação, fazem de A uma obra-prima, e de B, no ano seguinte, um filme apenas interessante. Lá vem o acaso que torna a maionese consistente ou não. Uma mistura de sorte e saber, que nem sempre resulta da mesma forma. O que torna a vida tão apetecível de viver: nunca se saber o resultado certo, matemático, “científico” deste jogo de fim incerto. Desta feita, “Match Point” é um dos grandes filmes de Woody Allen, rodado longe da sua Nova Iorque, mas sim numa Londres que ele parece conhecer bem e sentir melhor ainda.
Cada vez mais Woody Allen se afasta, aliás, da América que não o entende, para se passear por esta Europa que o compreende muito melhor, ou não fosse o cineasta-actor um autor de cultura e inteligência europeias. Filho de Freud e de Marx, como tantos da sua geração, culto, sensível, atormentado pelos demónios da psicanálise, grande “amigo” de Bergman e dos seus dilemas existenciais, com o sexo e a morte sempre no horizonte, Woody Allen vai fazendo e refazendo o mesmo filme desde o final dos anos 60, tecendo uma teia de uma coerência notável. Por vezes mais trágica, por vezes aparentemente mais ligeira. Sempre com uma ironia mordaz, um humor judeu muito típico, e um ajuste de contas com a vida.
Em “Match Point” estamos muito, muito perto de “Uma Tragédia Americana”, de Theodore Dreiser, adaptada ao cinema por George Stevens num fabuloso “ Um Lugar ao Sol”, com Elisabeth Taylor e Montgomery Clift. Estamos também perto de “Crime e Castigo” e “O Jogador”, de Dostoievsky (que aliás aparece citado filme). Estamos no universo do suspense à Hitchcock (há tanto de “A Corda” neste filme!) como no da análise metafisica de Bergman. O que conduz Woody Allen aos seus terrenos do “filme negro” (“Crimes e Escapadelas”).
Chris (Jonathan Rhys Meyers), mestre de ténis, faz amizade com o aluno Tom (Matthew Goode), vindo das melhores famílias londrinas, cheirando a dinheiro e a poder à distância. Arrivista por convicção, Chris vai subir na vida nem que para isso tenha de aceitar o deslavado amor de Chloe (Emily Mortimer), desajeitada irmã de Tom. Casam-se, mas é pela sensual e sôfrega Nora (Scarlett Johansson), que já estivera noiva de Tom, que Chris se interessa. Com quem tem um quente “affair”. Até que um dia uma delas é empecilho para o seu triunfo social. Não haverá uma viagem de bote no lago local, mas outros cometimentos mais consentâneos com a actualidade. Depois intervém a sorte, ou o acaso, para deslindar a investigação policial e deixar a moral a contento com a época.
“Match Point” tem a precisão de um relógio topo de gama, e a elegância formal de uma pedra preciosa, lapidada com agilidade e sensibilidade. Para trabalhar este tema, Woody Allen fez bem em optar por Londres, onde o “struggle for life” é muito mais subtil e se calhar mais feroz do que na América, onde tudo se passa mais às claras. Londres está linda de morrer, sente-se o cheiro das suas ruas e o Tamisa visto do alto da casa de Chris (que os pais de Chloe lhe oferecem) é deslumbrante. Nesta cidade de conto de fadas, há no entanto um lado obscuro que coexiste, uma luta de classes que se insinua e se adensa na personagem de Chris, dividido entre o Bem e o Mal, entre os instintos primários e a civilização que reprime o que de mais agressivo há no homem.
Como sempre, um elenco de luxo, privilegiadamente dirigido por um mestre em momento de inspiração: Jonathan Rhys Meyers é notável na sobriedade intensa com que compõe uma figura que apenas se vai descobrindo, Scarlett Johansson é de uma sensualidade feroz, na exuberância do desenho físico e psicológico, os pais Hewett (Emily Mortimer e Matthew Goode), perfeitos nas suas curtas anotações. Um exercício brilhante de inteligência e acidez crítica.
Quem ganhará a partida, não o revelamos, mas sabe-se desde já que Woody Allen ganhou o seu “Match Point”, mesmo que arredado dos “Oscars”.
MATCH POINT, de Woody Allen (Inglaterra, EUA, Luxemburgo, 2005); com Jonathan Rhys Meyers, Scarlett Johansson, Matthew Goode, etc. 124 min; M/12 anos.

Já foi estreado há algum tempo, mas os Oscars e o breve lançamento em DVD voltam a chamar a atenção para “O Fiel Jardineiro” (The Constant Gardener), uma realização do brasileiro Fernando Meirelles (“A Cidade de Deus”), adaptando um romance forte e brutal de um dos mestres do “thriller” contemporâneo, John Le Carré (o mesmo que já nos havia dado um excelente e perturbante “O Alfaiate do Panamá”, este dirigido por John Boorman). John Le Carré não se limita a escrever “policiais”, escreve libelos violentos sobre as realidades sociais e políticas do mundo contemporâneo, toca com o dedo nas feridas menos expostas, ataca a diplomacia ocidental que permite (e incentiva por vezes) as mais dramáticas negações dos direitos humanos e dos princípios da democracia que diz defender. Falando da América Latina, “O Alfaiate do Panamá” já assim se impunha, abordando a África, “O Fiel Jardineiro” não esquece a lição, reforça-a.
No centro da trama, a industria farmacêutica, tida por milagrosa por salvar milhões de vidas humanas com os seus produtos, mas que encerra igualmente pecados graves, a maioria dos quais obviamente ligados ao desejo de lucros rápidos e cada vez mais avultados. Muitas vezes os produtos são lançados sem estarem suficientemente testados (podem citar-se vários casos: Talidomida, Vioxx, Celebra, Bextra, etc.) e provocam catástrofes sem limites, outras vezes experimentam os produtos de forma abusiva, contrariando todas as regras humanitárias e éticas. Na ânsia de procurarem produtos que combatam doenças e epidemias, e provoquem igualmente (ou sobretudo?) lucros imensos, não se eximem a testar os novos medicamentos de forma clandestina. “O Fiel Jardineiro”aborda um caso desses, no interior do miserável Quénia, onde populações esfomeadas, exploradas e doentes são vacinadas com um novo remédio contra a tuberculose, sem no entanto se saber bem quais as consequências desse teste. Um “responsável” dirá que “de qualquer maneira esta população estava condenada à morte”. Até pode ser verdade, o que não evita o arrepio deontológico e a falta de escrúpulos que a avidez do lucro provoca. Uma avidez que não pára perante nada, sequer o assassinato para calar as vozes incómodas. E o que acontece a Tessa Quayle (Rachel Weisz), uma activista de direitos humanos, casada com um diplomata inglês, Justin (Ralph Fiennes), que resolve investigar por conta própria o que uma empresa farmacêutica, a ThreeBees, anda a fazer nas favelas do Quénia, usando sem qualquer segurança os ignorantes e miseráveis habitantes desses “bidonvilles”. De posse de inquietantes informações resolve alertar as autoridades inglesas, mas, no entretanto, aparece morta, justamente com um médico local, Arnold Bluhm (Koundé), sendo o assassinato imputado a causas passionais. É nesta altura que o filme começa, e o que iremos acompanhar é a investigação levada a cabo pelo marido de Tessa, que quer saber o que aconteceu na realidade à mulher, e descobrir os responsáveis por mais aquele crime.
Justin é o diplomata por excelência, um homem “politicamente correcto” que não compreende certos “excessos” da mulher, mas os aceita em nome da paixão, até ter de enfrentar a realidade nua e crua de um corpo queimado numa casa mortuária do fim do mundo. A morte de Tessa vai alterar a visão do mundo de Justin e obrigá-lo a tomar partido, a optar, a enfrentar a injustiça, a lutar pela dignidade, a deixar o escritório e o ar condicionado e a sair para a rua, para o calor e a poeira.
Fernando Meirelles foi escolhido para esta obra em função da forma como retratara as favelas brasileiras, com um vigor e uma acidez invulgares. Aqui tinha um desafio idêntico, ao captar os “bidonvilles” do desespero de um Quénia onde coexistem, lado a lado, os campos de golfe dos “senhores” e as cidades de um sub mundo escravizado sem o saber. As longas panorâmicas numa fotografia granulada de cores densas, atravessando a paisagem africana, dão-nos essa vertigem do horror social que todos tendem a esconder e esquecer. Mas que o talento do olhar de Fernando Meirelles e a mestria da câmara de César Charlone revelam-nos essa realidade, sem demagogia e com um rigor de exposição que surpreendem. Um grande filme, a que as prestações de Rachel Weisz, justíssimo Oscar para melhor actriz, e de Ralph Fiennes, acrescentam uma sensibilidade discreta e uma envolvência emocional inesquecíveis.
O FIEL JARDINEIRO (The Constant Gardener), de Fernando Meirelles (Inglaterra, Alemanha, 2005), com Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Hubert Koundé, Danny Huston, Daniele Harford, etc. 129 min; M/ 16 anos.



































