sábado, janeiro 19, 2008

CINEMA: JOGOS DE PODER

JOGOS DE PODER
Em “Jogos de Poder” aparece um agente da CIA que por várias vezes tenta contar uma história que nós só ouviremos, na integra, no fim do filme. Uma história metafórica, é óbvio, sobre uma criança e um mestre Zen. A criança conta que lhe ofereceram um cavalo, o que, diz, é óptimo. O mestre acrescenta: “Veremos!”. A criança caiu do cavalo e partiu uma perna e lamentou-se da desgraça. O mestre Zen: “Veremos”. As crianças foram chamadas para a guerra, excepto aquela que estava com a perna partida, e ficou feliz: “Veremos!”, voltou a concluir o mestre. Concluir, não, suspender, esta a verdade que o mestre Zen procurava difundir. Ou seja, nada é definitivo, ou se preferirem, nunca se sabe o eco dos nossos actos. Julgamos por vezes estar a fazer algo muito preciso, e as circunstâncias futuras se encarregarão de demonstrar que não é bem assim que as coisas serão nesse tal futuro.
Por exemplo: em inícios da década de 80, nos EUA, em pleno reinado do republicano Ronald Reagan, existiu (existiu mesmo, assim como existiram os actos descritos no filme, asseguram argumentista e demais responsáveis) um senador democrata do Texas, de nome Charlie Wilson, solteirão, pouco conhecido da comunicação social, mas não nos corredores do poder, dado a mulheres e álcool, e sem problemas de o assumir. Foi Tom Hanks quem explicou as pretensões de Charlie Wilson quanto á forma de ser apresentado no filme: “Não me importo que me mostrem bêbado, a consumir drogas ou a dormir com mulheres. Nada disso me importa porque, provavelmente, fiz essas coisas. Mas, acima de tudo, quero que se retrate de forma fiel a importância da missão." A “missão” era a sua assumida luta contra o comunismo internacional. Por essa altura os soviéticos estavam metidos no Afeganistão até às orelhas, mas a guerrilha “mujahidina” não desarmava, resistia, apesar dos milhares de baixas que a aviação moscovita provocava. Eram aviões e helicópteros de último modelo contra armas da I Guerra Mundial. Um massacre.
Charlie Wilson (Tom Hanks) dirigia uma comissão para apoio a guerrilhas anti-comunistas. Depois de falar e ser (duplamente) seduzido pelas palavras (e não só!) da multimilionária texana Joanne Herring (Julia Roberts), que organizava soirées muito concorridas para angariar fundos para a luta contra a URSS, Charlie compreende que a luta do povo do Afeganistão tem de ter um outro apoio e percebe igualmente que uma derrota soviética nas montanhas rochosas do Médio Oriente poderia ser o início do fim para o inimigo nº 1 dos EUA.
Com o apoio de Gust Avrakotos (Philip Seymour Hoffman), um irado e subaproveitado agente da CIA, consegue duplicar, quadruplicar, e voltar a quadruplicar o orçamento de apoio aos afegãos, permitindo-lhes um armamento à altura da situação, que inverteu por completo os dados da questão. Poucos anos passados, os soviéticos saem daquele País com o peso de um derrota humilhante, e não faltou muito para a queda do muro de Berlim, da própria URSS e do pacto de Varsóvia. O Leste Europeu desmoronava-se perante esta vitória em toda a linha de alguns falcões americanos. Verdade? “Veremos”, teria dito o mestre Zen. E viu-se. A URSS acabou-se, mas os americanos descobriram um novo 31, abastecido por armas por si oferecidas. Começou no 11 de Setembro, passou pelo Afeganistão, onde re-encontraram os “talibans”, antes por si armados e treinados, já vai no Iraque, nada dos diz que não atravesse o Irão e assim por diante. “Catastrófico?” “Veremos”, mas nada de bom se augura.
Esta história de três pessoas combativas e muito persuasivas parece ficção política, mas é verdade. Ao que nos dizem tudo aconteceu assim. O que mostra também de que forma se pode fazer (e se faz!) política. Se acontece assim nos EUA, por que não acontecer um pouco por todo o lado? Uma dama bonita e rica, muito dada a guerras em nome de Deus, um senador fogoso, um agente da CIA que se julga injustamente colocado na prateleira. Uma guerra por aí e uma louca necessidade de nela intervir. O que teria sido melhor para o futuro da Humanidade? “Veremos!”
O que já vimos foi uma brilhante comédia assinada por um realizador de fina ironia e de brilhante direcção de actores. O mesmo brilhante realizador que há anos era vilipendiado por alguma crítica que agora exulta. O mesmo que se iniciou no cinema, em 1966, com uma adaptação da peça de Edward Albee, “Who's Afraid of Virginia Woolf?”, a que se seguiram, entre outros, “The Graduate” (1967), “Catch-22” (1970), “Carnal Knowledge” (1971), “The Fortune” (1975), Silkwood (1983), Biloxi Blues (1988), “Working Girl” (1988), onde descobriu Julia Roberts, “Postcards from the Edge” (1990), “Regarding Henry” (1991), “Wolf” (1994), “The Birdcage” (1996), “
Primary Colors” (1998) “Angels in America” (TV) (2003), até chegar ao cintilante “Closer” (2004). Um homem de grande cultura e inteligência, com um humor corrosivo e uma ironia fina, um dos melhores encenadores de teatro americanos, e um fantástico director de actores.
Com argumento de Aaron Sorkin, Segundo obra de George Crile, “Charlie Wilson's War: The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History”, “Jogos de Poder” (que se chama no original, “Charlie Wilson’s War”, “A Guerra de Charlie Wilson”, numa tradução à letra) mostra a elegante eficácia do cineasta, e a mestria do seu trabalho com três actores de eleição, Tom Hanks, Julia Roberts, e Philip Seymour Hoffman. Se todos aparecerem nomeados nada espanta. São três interpretações magníficas, de um virtuosismo invulgar, marcadas por (quase) imperceptíveis expressões, por gestos e olhares esboçados, por sorrisos de um breve sarcasmo que nos enche de alegria e prazer. Representar assim é uma sublime arte. Mas todo o elenco é óptimo e todo o filme é um regalo para a inteligência e o espírito. Não é uma obra-prima? Pois talvez não. Mas que importa? Quanto ao resto: “veremos!”

Mike Nichols
JOGOS DE PODER
Título original: Charlie Wilson's War
Realização: Mike Nichols (EUA, 2007); Argumento: Aaron Sorkin, segundo obra de George Crile; Música: James Newton Howard; Fotografia (cor): Stephen Goldblatt; Montagem: John Bloom, Antonia Van Drimmelen; Casting: Ellen Lewis; Design de produção: Victor Kempster; Direcção artística: Maria-Teresa Barbasso, Brad Ricker, Alessandro Santucci; Decoração: Nancy Haigh, Alessandra Querzola; Guarda-roupa: Albert Wolsky; Maquilhagem: Luisa Abel, Janice Alexander; Direcção de produção: Moncef Belam, Gregg Edler, Nigel Marchant, Cristen Carr Strubbe; Assistentes de realização: Noureddine Aberdine, Rosemary C. Cremona, Antoine Douaihy, Basil Grillo, Mustapha Grumij, Michael Haley, Matthew Heffernan, Mohamed Nesrate, Mark Trapenberg, Nathalie Vadim; Departamento de arte: Martin Charles, Gina B. Cranham, Charlotte Raybourn, Marco Trentini, Bruce West; Som: Christopher Atkinson, Ron Bochar, Nourdine Zaoui; Efeitos especiais: Wesley Barnard, Caimin Bourne, John C. Hartigan, Andy Williams; Efeitos visuais: Richard Edlund, Helena Packer, Liz Radley, Liz Ralston, Robert Skotak, Sarah Vinson; Produção: Tom Hanks, Gary Goetzman, Michael Haley, Mary Bailey, Celia D. Costas, Edward Hunt, Ryan Kavanaugh, Paul A. Levin, Jeff Skoll; Companhias de produção: Good Time Charlie Productions, Universal Pictures, Playtone, Participant Productions, Relativity Media;
Intérpretes: Tom Hanks (Charlie Wilson), Amy Adams (Bonnie Bach), Julia Roberts (Joanne Herring), Philip Seymour Hoffman (Gust Avrakotos), Terry Bozeman, Brian Markinson ... Paul Brown), Jud Tylor ... Crystal Lee), Hilary Angelo, Cyia Batten, Kirby Mitchell, Ed Regine, Daniel Eric Gold, Emily Blunt, Peter Gerety, Wynn Everett, Mary Bonner Baker, Rachel Nichols, Shiri Appleby, P.J. Byrne (Jim Van Wagenen), John Slattery (Henry Cravely), Thomas Crawford, Joe Roland, Patrika Darbo, Amanda Loncar, Salaheddine Ben Chegra, Om Puri (Presidente Zia), Faran Tahir (Rashid), Rizwan Manji (Mahmood), Maurice Sherbanee, Salam Sangi, Navid Negahban,Mozhan Marnò, Habib Saba, Nadia Miller, Michelle Arthur, Shila Vossugh Ommi, Edward Hunt, Michael Haley, Denis O'Hare (Harold Holt), Michael Spellman, Russell Edge, Christopher Denham (Mike Vickers), Joseph Sikora, Gabriel Tigerman, Patrick Bentley, Marc Pelina, Ken Stott (Zvi), Tracy Phillips, Aharon Ipalé, Ned Beatty (Doc Long), Mary Bailey, Trish Gallaher Glenn, Ron Fassler, Enayat Delawary, Nancy Linehan Charles, Daston Kalili, Pavel Lychnikoff, Ilia Volokh, Alexander Lvovsky, Sammy Sheik, Moneer Yaqubi, Gabriel Justice, Siyal Mohammad, Quill Roberts, Jim Jnsen, Harry S. Murphy, Spencer Garrett, Kevin Cooney, Ambria Miscia, Dan Rather, Rachel Style, etc.
Duração: 97 minutos; Distribuição em Portugal: Lusomundo; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia:3 de Janeiro de 2008 (Portugal)

sexta-feira, janeiro 18, 2008

CINEMA: JESSE JAMES



“O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES

PELO COBARDE ROBERT FORD”
Jesse James não é personagem de lenda. Existiu realmente na América do Far West e da “conquista da fronteira”. Chamava-se Jesse Woodson James, mas tinha vários pseudónimos, como o de Thomas Howard, viveu entre 5 de Setembro de 1847 e 3 de Abril de 1882, morreu com 35 anos de idade e, nesse curto espaço de tempo, ganhou fama de ser um dos mais temíveis fora-da-lei da história americana. Assaltou bancos e comboios, assassinou muita gente que se lhe opôs, e a perícia com que manejava o revolver trouxe-lhe fama acrescida. Nascido de uma família de agricultores, ele e o irmão Frank só se lançaram no caminho do banditismo depois de terem visto a mãe ser morta e o seu rancho destruído por uma arrogante companhia ferroviária que, para levar a bom porto o traçado da sua via intercontinental, passou por cima de interesses privados sem olhar a meios.
Jesse James durante a vida era já uma lenda, mas depois de morto tornou-se um mito, tanto mais que viria a ser assassinado, à traição, por um dos membros do seu gang, um tal Robert Ford, de que a História retém apenas a abominação do acto. Antes de morrer era cantado com temor e reverência, depois de morto passou a vítima suja de um qualquer Judas de má memória. “The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford”, produzido e interpretado por Brad Pitt, numa realização do neozelandês Andrew Dominik (que anteriormente havia só dirigido uma longa-metragem, “Chopper”, 2000, que o haveria de lançar internacionalmente), tem como tema precisamente este facto, retratando os últimos meses de vida de Jesse James (entre 7 de Setembro de 1881 e 3 de Abril de 1882) e o que restou de vida (amaldiçoada) do seu carrasco.
Com esta obra (e outras que se anunciam com idêntica inspiração), se diz que o western regressa ao cinema. Não tanto assim: o western nunca deixou de estar presente no cinema americano, constituindo um género que um dos mais célebres críticos e ensaístas cinematográficos de sempre, o francês André Bazin, considerou “o cinema americano por excelência.” Na verdade, o western é a História mais genuína de uma nação que nunca deixou de se reflectir neste género, com mais ou menos intensidade, é verdade. Mas a própria história do western cinematográfico acompanha a História dos últimos cento e tal anos dos EUA. Pode analisar-se a América através das suas componentes sociais, politicas, militares, psicanalíticas, olhando para os westerns que se foram realizando ao longo das décadas. Neles se espelha com uma nitidez insofismável o melhor e o pior de um povo, temores e esperança, vícios e virtudes, e nem sempre a virtude está do lado da lei.
Este “Jesse James”, de Brad Pitt, que se baseia num romance histórico de Ron Hansen, publicado em1983, é uma obra extremamente interessante, construída contra a narrativa dominante, procurando e recuperando olhares e silêncios, em detrimento de acções galopantes. Arrojada opção que nos permite surpreender uma obra diferente, sedutoramente intensa, vivendo sobretudo do olhar. Este é um filme que “olha” personagens que se “olham entre si”, criando uma floresta de íntimos e secretos relacionamentos que inquietam e criam o suspense.
Jesse James e Bob Ford, sobretudo, olham-se com insistência, analisam-se, estudam-se, reflectem-se um no outro (“queres ser como eu, ou queres ser eu”?, pergunta JJ), e pelo olhar tentam penetrar-se um no outro (sim, este é um filme de homossexualidade mal resolvida, obviamente: Bob Ford ama Jesse James e mata-o para fazer desaparecer dentro de si esse desejo que ele renega). Todo o filme está pautado por cenas que remetem para esse voyeurismo amoroso (JJ toma banho, nu, Bob Ford espreita-o e julga-o desarmado, mas JJ revela-lhe a arma, elemento fálico opor excelência, encoberta por uma toalha). Mas, para lá dessa vertente psicanalítica, há uma outra que se lhe cola: Jesse James é o protótipo que se procura copiar, mas, tal como acontece sempre que tal acontece, a atracção para a afirmação pessoal, passa pela “morte do pai”, a rejeição e separação do modelo, por forma mais ou menos violenta. Neste ponto a colagem ao cristianismo é óbvia: Bob é o Judas desta ceia familiar pouco católica, onde estão familiares e apóstolos, reunidos em conciliábulo. Antes de assaltar o comboio, uma das grandes cenas deste filme, reúnem-se numa floresta (que só por acaso não é o jardim das oliveiras), mas, pouco depois, a figura de Jesse James surge espectral, recortada em silhueta da luz intensa do comboio que avança. Também ele irá ter o seu Judas, que o matará à traição, pelas costas, quando sobe a uma cadeira para endireitar um quadro. Tal como Cristo, Jesse James é atraiçoado sabendo ao que vai. Assassinato ou suicídio? Não terá sido o cobarde Bob Ford apenas o meio encontrado por JJ para atingir os seus fins, que o cansaço da fama tornava inevitável?
Uma excelente meditação, madura e inesperada, sobre temas de enorme modernidade, a que um elenco fabuloso (Brad Pitt, melhor actor em Veneza, Casey Affleck, Sam Shepard são fulgurantes) empresta uma dimensão trágica, bem servida pela fotografia de Roger Deakins, e a inspirada banda sonora de Nick Cave e Warren Ellis. Se houver justiça, vão aparecer várias nomeações.
O ASSASSÍNIO DE JESSE JAMES PELO COBARDE ROBERT FORD
Título original: The Assassination of Jesse James by the Coward Robert Ford
Realização: Andrew Dominik (EUA, 2007); Argumento: Andrew Dominik, segundo romance de Ron Hansen; Música: Nick Cave, Warren Ellis; Fotografia (cor): Roger Deakins; Montagem: Curtiss Clayton, Dylan Tichenor; Casting: Mali Finn, Deb Green, Jackie Lind; Design de produção: Patricia Norris; Direcção artística: Martin Gendron, Troy Sizemore; Decoração: Janice Blackie-Goodine; Guarda-roupa: Patricia Norris; Maquilhagem: Brian Hillard, Gail Kennedy, Rochelle Pomerleau, Dave Snyder, Christien Tinsley; Direcção de produção: David Dresher, Ravi D. Mehta, Brian Leslie Parker, Brian Parker; Assistentes de realiazação: Megan Basaraba, Jesse Cooper, Richard Duffy, Martin Ellis, Lisa Jemus, Carole O'Brien, Scott Andrew Robertson; Departamento de arte: Ricardo Alms, Michael Madden, Brad Milburn, Grant Van Der Slagt; Som: Christopher S. Aud; Efeitos especiais: Diane Woodhouse; Efeitos visuais; Dick Edwards, Mark Edwards, Deak Ferrand, Bryan Hirota, Sophie Leclerc, Julie Orosz; Produção: Tom Cox, Jules Daly, Lisa Ellzey, Dede Gardner, Brad Grey, Murray Ord, Brad Pitt, Jordy Randall, Ridley Scott, Tony Scott, David Valdes, Ben Waisbren; Companhias de produção: Warner Bros. Pictures, Jesse Films Inc., Scott Free Productions, Plan B Entertainment, Alberta Film Entertainment, Virtual Studios.
Intérpretes: Brad Pitt (Jesse James), Mary-Louise Parker (Zee James), Brooklynn Proulx (Mary James), Dustin Bollinger (Tim James), Casey Affleck (Robert Ford), Sam Rockwell (Charley Ford), Jeremy Renner (Wood Hite), Sam Shepard (Frank James), Garret Dillahunt (Ed Miller), Paul Schneider (Dick Liddil), Joel McNichol, James Defelice, J.C. Roberts, Darrell Orydzuk, Jonathan Erich Drachenberg, Torben Hansen, Alison Elliott, Lauren Calvert, Kailin See, Tom Aldredge, Jesse Frechette, Pat Healy, Michael Parks, Ted Levine, Joel Duncan, James Carville, Stephanie Wahlstrom, Adam Arlukiewicz, Ian Ferrier, Michael Rogers, Calvin Bliid, Sarah Lind, Nick Cave, Matthew Walker, Zooey Deschanel, Michael Copeman, Laryssa Yanchak, Hugh Ross (Narrador), etc.
Duração: 160 minutos; Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Columbia / CTW; Locais de Filmagem: Alberta; Burton Cummings Theatre, Winnipeg, Manitoba; Calgary, Alberta; Canmore, Alberta; Edmonton, Alberta, Canadá; Hidden Hills, California, EUA.

HORÓSCOPO

segunda-feira, janeiro 14, 2008

sábado, janeiro 12, 2008

1958 A SAGA DELGADO


REVELADO "MISTÉRIO" DA CADEIRA
E DOS SEUS OCUPANTES
No "Diário de Notícias" de hoje (12.1.2008), primeira página do suplemento "Gente", texto de Pedro Correia:

Lauro António filma
saga de Delgado
Personalidades dos mais diversos quadrantes políticos - de Jaime Nogueira Pinto a Otelo Saraiva de Carvalho - integram um documentário que o cineasta Lauro António está a rodar para a RTP sobre a figura de Humberto Delgado (1906-65). Obviamente, Demito-o é o título deste filme, que deverá ser exibido no canal público a 10 de Maio - precisamente na data em que se completa meio século sobre a polémica conferência de imprensa em que o "General sem Medo" admitiu pôr fim ao longo consulado de Salazar. Esta frase, que ficou para a história, marcou o arranque da campanha presidencial de 1958, que observadores insuspeitos consideram ter sido ganha por Delgado contra o candidato oficial do regime, Américo Tomás. A fraude eleitoral então registada impediu-o de assumir a Presidência.Centrado no período entre o início da campanha e a ida às urnas, a 8 de Junho de 1958, o documentário inclui depoimentos de cerca de 30 personalidades - nomeadamente a filha do general, Iva Delgado. E também de Ramalho Eanes, Maria Barroso, Marcelo Rebelo de Sousa, Irene Pimentel, Fernando Rosas, Vasco Lourenço, Pezarat Correia, Varela Gomes e Maria Barroso, entre outras. Um dos poucos depoimentos que faltam gravar é o de Mário Soares, que chegou a ser advogado da família Delgado após o general ter sido assassinado pela PIDE, em 1965."É um documentário que tem um grande valor pessoal para mim", disse ao DN Lauro António, assumido admirador do general, que com a campanha de 1958 "abriu horizontes a toda uma geração de portugueses", como sublinha o realizador, que tinha então 15 anos. "Foi um grande abalo no País", lembra por sua vez Iva Delgado. Logo após a conferência de imprensa, a PIDE passou a vigiar a residência da família do general, na Rua Filipe Folque, em Lisboa.Com Carlos Cunha como director de fotografia e Frederico Corado como assistente de realização, este é o regresso de Lauro António à RTP, onde já assinou diversos trabalhos, de ficção e documentais. O cineasta destacou-se sobretudo pela longa- -metragem "Manhã Submersa".

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A AMÉRICA VAI MUDAR?


Hillary Clinton e Barak Obama,
vencedores em New Hampshire,
vão discutir o candidato democrático até ao fim.
A política americana vai mudar?

RUA LAURO CORADO

Código Postal de
Rua Lauro Corado
Distrito: Aveiro
Concelho: Aveiro
Freguesia: Vera Cruz
A morada postal deverá ter os seguintes parâmetros:
Rua Lauro Corado
Aveiro
3800-019 AVEIRO

Quadro de Lauro Corado: Aveiro. cais

PAOLO CONTI, em ritmo de milonga

Paolo Conte - Alle Prese Con Una Verde Milonga lyrics
Album: Paris Milonga (1981)
Alle Prese Con Una Verde Milonga

Alle prese con una verde milonga
Il musicista si diverte e si estenua…
e mi avrai, verde milonga che sei stata scritta per me,
per la mia sensibilità, per le mie scarpe lucidate…
per il mio tempo e per il mio gusto
mi avrai, verde milonga inquieta
che mi strappi un sorriso di tregua ad ogni accordo,
mentre fai dannare le mie dita…
…io sono qui, sono venuto a suonare,
sono venuto ad amare, e di nascosto a danzare…
e ammesso che la milonga fosse una canzone,
ebbene io l’ho svegliata e l’ho guidata ad un ritmo più lento…
così la milonga rivelava di sé molto più di quanto apparisse…
la sua origine d’Africa, la sua eleganza di zebra,
il suo essere di frontiera, una verde frontiera…
una verde frontiera tra il suonare e l’amare,
verde spettacolo in corsa da inseguire…
da inseguiere sempre, da inseguire ancora,
fino ai laghi biancchi del silenzio
fin che Atahualpa o qualque altro dio
non ti dica: descansate niño, che continuo io…
…io sono qui, sono venuto a suonare,
sono vinuto a danzare, e di nascosto ad amare…

quinta-feira, janeiro 10, 2008

UM CENTENÁRIO


Lauro Corado, meu pai

10 de Janeiro de 1908

10 de Janeiro de 2008

nunca esquecido, um beijo

Lauro Corado
(1908-1977)
BIOGRAFIA

Lauro da Silva Corado - Professor e artista plástico, nasceu em Aveiro em 1908 e morreu em Lisboa a 1 de Setembro de 1977. Estudou na sua cidade natal (Escola Industrial de Fernando Caldeira) e depois na Escola Superior de Belas Artes do Porto onde concluiu o Curso Superior de Pintura. Foi discípulo de António Carneiro e de Joaquim Lopes. Fez concurso de provas públicas para professor de Pintura da Escola Superior de Belas Artes, tendo ficado aprovado em «mérito absoluto» (1933). Nesse ano partiu para Itália, França e Espanha como bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, regressando em 1945 a Espanha patrocinado pelo mesmo Instituto. Como professor começa a leccionar na Escola Industrial e Comercial Infante D. Henrique (Porto), e, a partir de 1941, na Escola Industrial e Comercial Dr. Azevedo Neves (Viseu). Em 1942 transfere-se para a Escola António Arroio. Em 1949 faz Exame de Estado para professor efectivo do Ensino Técnico, instalando-se no ano seguinte em Portalegre, onde lecciona até 1958 na Escola Industrial e Comercial local. Aí conviveu com José Régio, colaborou em A Rabeca e expôs diversas vezes: 1955, Escola da Corredoura; 1958, Salão Nobre do Governo Civil.De regresso a Lisboa, em 1958, é colocado na Escola Técnica Elementar Nuno Gonçalves e depois na Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde se encontrava à data da sua morte. A sua primeira exposição individual efectuou-se na Associação Comercial de Aveiro, a que se seguiu uma segunda no Salão Silva Porto (Porto). Concorreu a inúmeras exposições individuais e colectivas no país e no estrangeiro, obtendo 1.ª e 2ª medalhas da S.N.B.A. de Lisboa, os 1.º e 2.º prémios e Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Lisboa, o prémio José Malhoa e o 1.º prémio da Exposição Antoniana do Estoril. Encontra-se representado em museus e colecções particulares de Portalegre, Espanha, Brasil, Canadá, EUA e Alemanha.

VAVADIANDO COM MRB

MARCELO REBELO DE SOUSA EM TERTÚLIA
Foi um prazer ouvir Marcelo Rebelo de Sousa falar
na noite de 9.1.2007 no Jantar-Tertúlia do Restaurante Vavá.
A disponibilidade (e o prazer) para a conversa,
a comunicação, o diálogo é contagiante.
A inteligência brilhante.
A cultura é algo que o habita, não precisa de ser demonstrada.
A ironia é fina mas, quando (lhe) calha, arrazadora.
Sabe bem concordar (e discordar) com pessoss assim.
Saberá bem, certamente, tê-los como amigos.
Pelo Vava.diando passaram até hoje
Raúl Solnado, Fernando Dacosta, Nuno Júdice,
Lidia Jorge, Iva Delgado, Teolinda Gersão, Maria do Céu Guerra,
Eurico Gonçalves, Paulo Portas, Rogério Samora,
Carlos do Carmo, Celina Pereira, Otelo Saraiva de Carvalho...
Neste início de um novo ano apetece agradecer
tanta amizade e tão generosa dávida.
A seguir virão:
Irene Pimentel (Prémio Pessoa, 2007) (30 de Janeiro)
Fernando Rosas (5 de Março)

quarta-feira, janeiro 09, 2008

MANHÃ SUBMERSA NO YOU TUBE

Andava eu de blogue em blogue quando fui cair a um com uma bem documentada homenagem a Vergílio Ferreira. O blogue chama-se "Jaguar - Ao Ritmo de Cada Um", e, no post dedicado a "O Intimismo na Literatura - VERGÍLIO FERREIRA", encontrei uma cena da "Manhâ Submersa", onde o Amilcar dá uma lição de "boa literatura". Apeteceu-me registar:

segunda-feira, janeiro 07, 2008

ROAD HOME



























Andava eu à procura, no Google, de fotos de um filme chinês, de Zhang Yimou, que em inglês se chamou "Road Home", quando me aparecerem várias "Road Home", a que não resisti. Aqui ficam algumas, espero que para deleite de muitos. Pintura, fotografia, música, cinema, há um pouco de tudo, e em tudo alguma nostálgica poesia de quem regressa a casa.

domingo, janeiro 06, 2008

ÀS VEZES SURREALISTA...

MORREU O LUÍS PACHECO
Eu gostava do Luiz Pacheco. Sei de muita gente que não o tolerava e de alguns outros que o mitificaram. Eu estimava o ar irreverente deste "enfant terrible" e dei-me sempre muito bem com ele. Durante uns tempos víamo-nos com regularidade, sobretudo na época de um saudoso “E Etc.”, do suplemento do “Jornal do Fundão”, da direcção o Victor Silva Tavares. Nalguns dos seus livros sou (sempre) simpaticamente citado, como naquele em que ele relembra uma ida minha e da Lia Gama ao hospital ver como ele estava de saúde e levar-lhe uns livros, ao que me recorda.
Nunca fui de lhe passar para as unhas mais do que uma nota de cem. Não o comprei, que ele não era de ser comprado, aceitava a nota e continua a dizer mal, cara a cara, se fosse caso disso. Ou à socapa. Com um sorriso de puto reguila, que achava que todos o deviam aceitar tal como ele era. As nossas relações foram sempre cordiais, tenho a quase totalidade das suas edições, muitas dedicadas com carinho, por este homem que de lambe botas nada tinha.
Cada vez mais são precisos (e preciosos) homens como o Luiz Pacheco. Com o seu quê de frontal, com o seu quê de ratice sábia, com o seu quê de "filhadeputice" crónica. Estamos a ficar todos muito "politicamente correctos", muito higienizados, muito CE, empacotados em celofane, muito hipócritas, muito diz mal de tudo porque é moda. Pacheco não era nada disso. Não criticava por criticar, não bajulava, mas atirava os tijolos (muitos injustos, mas quem é perfeito?) a quem os julgava dignos de os receber. Vão faltando Pachecos nesta terra.
Adeus, Luiz, até um dia, numa qualquer “comunidade” em Braga, onde “o Libertino Passeia a Idolátrica, o Seu Esplendor”.
Nota sobre o Luiz Pacheco, retirada da Wikipédia
Luíz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (Lisboa, 7 de Maio de 1925 — Montijo, 5 de Janeiro de 2008) foi um escritor, editor, polemista, epistológrafo e crítico de literatura português.
Nasceu no seio de uma família da classe média, de origem alentejana, com alguns antepassados militares. O pai era funcionário público e músico amador. Na juventude, Luiz Pacheco teve alguns envolvimentos amorosos com raparigas menores como ele, que haveriam de o levar por duas vezes à prisão [1].
Desde cedo manifestou enorme talento para a escrita. Chegou a frequentar o primeiro ano do curso de Filologia Românica da Faculdade de Letras de Lisboa, onde foi óptimo aluno, [2] mas optou por abandonar os estudos. A partir de 1946 trabalhou como agente fiscal da Inspecção Geral dos Espectáculos, acabando um dia por se demitir dessas funções, por se ter fartado do emprego. Desde então teve uma vida atribulada, sem meio de subsistência regular e seguro para sustentar a família crescente (oito filhos de várias mulheres), chegando por vezes a viver na maior das misérias, à custa de esmolas e donativos, hospedando-se em quartos alugados e albergues. (Esse período difícil da vida inspirou-lhe o conto Comunidade, considerado por muitos a sua obra-prima.) Nos anos 60 e 70, por vezes viveu fora de Lisboa, nas Caldas da Rainha e em Setúbal.
Começa a publicar a partir de 1945 diversos artigos em vários jornais e revistas, como O Globo, Bloco, Afinidades, O Volante, Diário Ilustrado, Diário Popular e Seara Nova. Em 1950, funda a editora Contraponto, onde publica escritores como Raul Leal, Vergílio Ferreira, José Cardoso Pires, Mário Cesariny, António Maria Lisboa, Natália Correia, Herberto Hélder, etc., tendo sido amigo de muitos deles [3]. Dedicou-se à crítica literária e cultural, tornando-se famoso (e temido) pelas suas críticas sarcásticas, irreverentes e polémicas. Denunciou a desonestidade intelectual e a censura imposta pelo regime salazarista [4].
A sua obra literária tem um forte pendor autobiográfico e libertino, inserindo-se naquilo a que ele próprio chamou de corrente "neo-abjeccionista".
Alto [5], magro e escanzelado, calvo, usando óculos com lentes muito grossas devido a uma forte miopia, vestindo roupas muitas vezes andrajosas e abaixo do seu tamanho, hipersensível ao álcool, hipocondríaco sempre à beira da morte, cínico impenitente, é sem dúvida, como pícaro personagem literário, um digno herdeiro de Luiz de Camões, Bocage, Gomes Leal ou Fernando Pessoa.
Debilitado fisicamente e quase cego devido às cataratas, mas ainda a dar entrevistas aos jornais, nos últimos anos passou por três lares de idosos, tendo mudado para casa do seu filho Paulo Pacheco [1] em 2006 e daí para um lar, no Montijo, onde viria a falecer.
Um ano após a morte de Mário Cesariny, a 26 de Novembro de 2007, Comunidade foi editada em serigrafia/texto com pinturas de Cruzeiro Seixas. Nessa efeméride, Luiz Pacheco foi entrevistado pela RTP, encontrando-se num lar do Montijo. Morreu a 5 de Janeiro de 2008.
Notas
1,0 1,1 Entrevista ao Correio da Manhã
Vitorino Nemésio, na sua cadeira, atribuiu-lhe 18 valores (de 0 a 20).
Luiz Pacheco foi um compagnon de route dos surrealistas portugueses e o seu primeiro e apaixonado editor ("sacristão do surrealismo", chamou-lhe o crítico João Gaspar Simões). Foi amigo íntimo de António Maria Lisboa e de Mário Cesariny, tendo este cortado definitivamente relações com Pacheco, devido a desavenças intelectuais e pessoais (vd. Pacheco versus Cesariny, de Luiz Pacheco e Diário do Gato, de Mário Cesariny).
Depois do 25 de Abril de 1974, Pacheco tornou-se militante do Partido Comunista Português.
1,77 m, cf. bilhete de identidade.

Bibliografia
História antiga e conhecida in Bloco (vários autores). Reeditado em Crítica de circunstância e em 2002 com o nome "Os doutores, a salvação e o menino Jesus" (1946)
Caca, cuspo & Ramela (1958?)(com Natália Correia e Manuel de Lima)
Carta-Sincera a José Gomes Ferreira (1958)
O Teodolito (1962)
Surrealismo/Abjeccionismo (antol.org: Mário Cesariny, c/versão abreviada d'O Teodolito (1963)
Comunidade (1964)
Crítica de Circunstância (1966)
Textos Locais (1967)
O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o Seu Esplendor (1970; 1992)
Exercícios de Estilo (1971)
Literatura Comestível (1972)
Pacheco versus Cesariny (1974)
Carta a Gonelha (1977)
Textos de Circunstância (1977)
Textos Malditos (1977)
Textos de Guerrilha 1 (1979)
Textos de Guerrilha 2 (1981)
Textos do Barro (1984)
O Caso das Criancinhas Desaparecidas (1986)
Textos Sadinos (1991)
O Uivo do Coiote (1992)
Carta a Fátima (1992)
Memorando, Mirabolando (1995)
Cartas na Mesa (1996)
Prazo de Validade (1998)
Isto de estar vivo (2000)
Uma Admirável Droga (2001)
Os doutores, a salvação e o menino Jesus - Conto de Natal (2002)
Mano Forte (2002)
Raio de Luar (2003)
Figuras, Figurantes e Figurões (2004)
Diário Remendado 1971-1975 (2005)
Cartas ao Léu (2005)

A caricatura é de André Carrilho, a foto não sei de quem.

sábado, janeiro 05, 2008

FUMAR OU NÃO FUMAR



A "Operação Antitabagista" foi um sucesso.
Dia 4 de Janeiro de 2008.
Pouco antes das onze da noite,
na esplanada do Café Vavá,
onze pessoas fumavam.
Em pé ou sentadas em mesas.
No interior do café havia um único freguês, sentado.
Entrei, tomei o meu café ao balcão e voltei a sair
(deixei de fumar espontaneamente ha cinco anos).
Vai morrer muito menos gente por fumar em Portugal.
Já não há "fumadores passivos".
Esta operação foi um sucesso.
Agora vem aí a nova “Operação”
– evitar a morte por pneumonia e gripes.
Ou optar por outra via:
deixar morrer de frio os fumadores activos.

quinta-feira, janeiro 03, 2008

CINEMA: PEÕES EM JOGO

PEÕES EM JOGO

"Lions for Lambs", sétima longa-metragem de Robert Redford como realizador, é um título que parte de uma consideração elogioso de um general alemão, durante a II Guerra Mundial, que afirmou “raras vezes ter visto tal combatividade de leão como a dos soldados ingleses, quando os seus chefes militares se mostravam tão cordeiros” (citado de memória). Partindo desta premissa, calcula-se facilmente onde queria chegar o liberal e democrata Robert Redford ao realizar este filme, de colaboração com Tom Cruise (aqui também produtor), Meryl Streep e Matthew Michael Carnahan, argumentista (que já assinara “Reino dos Céus”).
O filme não lembra nada do que por ai se vê ao nível da produção de Hollywood. Em vez de acção a rodos temos diálogo, em lugar de figuras estereotipadas temos personagens, densas e de uma humanidade gritante, em lugar de uma superprodução cheia de efeitos especiais, uma câmara atenta aos actores e ao que eles dizem. Em lugar de fácil manipulação de gostos e de ideologias, um ping pong de ideias. Não é muito vulgar no cinema actual, mas sabe bem regressar a este cinema que se quer consciência de uma nação que atravessa hoje um dos piores momentos da sua História. É Meryl Streep, no papel de uma jornalista de televisão, quem o afirma: “A seguir ao 11 de Novembro de 2001, tínhamos quase todo o mundo connosco; seis anos depois, atravessamos a pior crise desde há muito.”
Pois bem, é sobre isso que “Peões em Jogo” se joga. Durante 88 minutos, uma montagem em paralelo acompanha, em tempo real, três centros de decisões: em Wasginton, um senador republicano, Jasper Irving (Tom Cruise), que afiança que não se quer candidatar no futuro à presidência, oferece a Janine Roth (Meryl Streep), uma jornalista democrata e liberal, um furo jornalístico, apresentando-lhe como nova uma estafada estratégia militar para ganhar a guerra do Afeganistão; enquanto tal, no terreno, essa operação inicia-se, com baixas, nas altas montanhas geladas do Afeganistão; finalmente, numa universidade de Los Angeles, um professor, o Dr. Malley (Robert Redford), tenta convencer Todd, um seu actual aluno (Andrew Garfield), que ele julga poder vir a ser brilhante, a não hipotecar essas possibilidades, confrontando-o com o caso de dois antigos alunos seus, Arian (Derek Luke) e Ernest (Michael Peña), que desistiram de estudar para se oferecerem como voluntários para combater no Afeganistão. Todd, que estuda politica, está desiludido com os políticos e a sua actividade e acha tudo uma trampa sem sentido, parecendo preferir afastar-se e alhear-se do que enfrentar o que julga errado.
Não direi que cinematograficamente o filme seja perfeito. Este tipo de montagem em paralelo chega a incomodar por vezes. O diálogo é excessivo, nalguns momentos, concordo. Mas de um modo geral a análise da política norte-americana da era Bush é brilhantemente dissecada, apresentando argumentos de vários quadrantes, deixando as respostas em aberto (nunca se saberá qual a resolução do aluno, se irá perseguir o A, ou satisfazer-se com o B), mostrando como se estabelecem estratégias, como se conquista tempo de antena nos canais de televisão, como se exerce a coacção psicológica, como o poder se impõe perante as consciências, como se nivelam por baixo as esperanças e aspirações dos cidadãos.
O filme documenta igualmente como os EUA se envolveram num conflito sem saída aparente, e como o orgulho humilhado de alguns pode por em risco o curso da História. Na verdade, nesta altura, depois de terem invadido o Afeganistão e o Iraque, olhando de soslaio para o Irão, que se interpõe entre ambos os países (ou que serve mesmo de passagem e ligação entre guerrilheiros muçulmanos, vindos de um lado e do outro), sair e ficar são soluções que, qualquer delas, comporta riscos altíssimos, não só para os EUA, como para os respectivos países ocupados, como ainda para todo o mundo. Neste aparente dilema, Robert Redford diz-nos que é preciso fazer qualquer coisa, e para isso mobiliza consciências. Consciências que não se deixem dobrar tão facilmente como a jornalista de 57 anos, que aceita por no ar o que acha notícia de duvidosa credibilidade, mas que tem sobre a cabeça a ameaça de despedimento e uma carreira cortada, numa idade em que mais ninguém a iria contratar.
Se o principal mérito deste filme de Robert Redford é tratar o espectador como pessoas adultas, e não apenas como adolescentes acéfalos, os maiores obreiros deste projecto são os actores. Meryl Streep convoca a desilusão, a amargura, o cansaço dos velhos combatentes de um jornalismo digno, que se vão perdendo, um a um; Tom Cruise consegue ser convincente na personagem de um senador, tu cá, tu lá com Dick Cheney, Bush ou Condoleezza Rice, cínico e sagaz; Robert Redford é o idealista, cansado já, é certo, mas que não se entrega e procura que os seus alunos, em lugar de robots industrializados para profissões bem pagas, sejam homens autênticos que não deixem morrer em si o élan da humanidade. Vê-los representar sem pressas, ouvi-los falar, é um prazer. Tom Cruise, depois de ter sido despedido pela Paramount, começa aqui uma nova carreira, desta feita como patrão da United Artists, um estúdio fundado em 1919, por Charlie Chaplin, Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D.W. Griffith, depois comprado pela MGM em 1980, finalmente quase abandonado e agora revitalizado.
Quanto a Robert Redford, o seu papel no cinema americano e internacional não esmorece. Depois de um conjunto de dezenas e dezenas de actuações inesquecíveis, como actor; depois de vários filmes por si dirigidos e igualmente memoráveis, convocando temas que vão desde a intervenção cívica, ao empenhamento pela liberdade de imprensa, pela defesa do ambiente, pela dignidade humana (desde “Gente Vulgar” (Ordinary People), 1981, Revolta em Milagro (The Milagro Beanfield War), 1988, “Duas Vidas e o Rio” (A River Runs Through It), 1992, “Quiz Show”, 1994, “O Encantador de Cavalos” (The Horse Whisperer), 1998), “A Lenda de Bagger Vance” (The Legend of Bagger Vance), 2000, até este “Peões em Jogo” (Lions for Lambs), 2007); depois de ter lançado o Sundance Festival, onde se têm revelado tantos e tantos jovens realizadores independentes, continua uma personalidade sedutora e um incentivador de talentos. Este filme só demonstra que não é jovem quem quer, mas quem efectivamente sempre o soube ser. Mesmo com rugas na cara.
PEÕES EM JOGO
Título original: Lions for Lambs
Realização: Robert Redford (EUA, 2007); Argumento: Matthew Michael Carnahan; Música: Mark Isham; Fotografia (cor): Philippe Rousselot; Montagem: Joe Hutshing; Casting: Avy Kaufman; Design de produção: Jan Roelfs; Direcção artística: François Audouy; Decoração: Leslie A. Pope; Guarda-roupa: Mary Zophres; Maquilhagem: Mustaque M. Ashrafi, Leo Corey Castellano, Gabriel De Cunto, J. Roy Helland, Dennis Liddiard; Bunny Parker; Director de produção: Will Weiske, Lila Yacoub; Assisten tes de realização: Jenny Nolan, Adam Somner, Ian Stone, Mike Topoozian; Departamento de arte: Eddie Grisco, Jourdan Henderson, P.K. MacCarthy, Clint Schultz, Mark Robert Taylor; Som: Frank E. Eulner, Richard Hymns; Efeitos Especiais: Steve Cremin, Durk Tyndall; Efeitos visuais: Evrim Akyilmaz, Erik Behar, Daniel Cavey, Grady Cofer, Anna Fields, Mark Freund, Andrew Gardner, Joseph Grossberg, Scott Liedtka, Courtney Ward, Eric Withee; Produção: Matthew Michael Carnahan, Tom Cruise, Tracy Falco, Andrew Hauptman, Bill Holderman, Daniel Lupi, Robert Redford, Paula Wagner; Companhias de produção: Andell Entertainment, Brat Na Pont Productions, Cruise/Wagner Productions, United Artists, Wildwood Enterprises, Metro-Goldwyn-Mayer.
Intérpretes: Robert Redford (Professor Stephen Malley), Meryl Streep (Janine Roth), Tom Cruise (Senador Jasper Irving), Michael Peña (Ernest Rodriguez), Andrew Garfield (Todd Hayes), Peter Berg (Ten. Col. Falco), Kevin Dunn (Howard), Derek Luke (Ten. Arian Finch), Larry Bates, Christopher May, David Pease, Heidi Janson, Christopher Carley, George Back, Kristy Wu, Bo Brown, Josh Zuckerman, Samantha Carro, Christopher Jordan, Angela Stefanelli, John Brently Reynolds, Paula Rhodes, Muna Otaru, Clay Wilcox, Sarayu Rao, Amanda Loncar, Richard Burns, Kevin Collins, Candace Moon, Chris Hoffman, Louise Linton, Jennifer Sommerfield, Wynonna Smith, Babar Peerzada, Wade Harlan, Rick Margaritov,
Duração: 88 minutos, Classificação etária: M/ 12 anos; Distribuição em Portugal: Filmes Castello Lopes; Data de Estreia: 1 de Novembro de 2007 (EUA); Locais de filmagem: Claremont, Los Angeles, Ren-Mar Studios, Los Angeles, (estúdio), Rocky Peak Park, Simi Valley, Califónia (EUA);

terça-feira, janeiro 01, 2008

CINEMA: CALL GIRL


CALL GIRL

“Call Girl”, de António Pedro Vasconcelos (o realizador de “Oxalá”, “Aqui D’ El Rey”, "O Lugar do Morto", “Jaime" ou “Os Imortais”, estes últimos alguns dos maiores sucessos do cinema português), volta a demonstrar o que já se sabia sobre o autor: bom director de actores e contador de histórias, homem apostado num cinema de fácil contacto com o público, pouco preocupado em questões de autoria ou de singularidades de um cinema ou de um autor. Critico radical e interveniente, de formação “cahierista” dos anos de capa amarela, APV não se converteu num realizador “autor”, mas sim num interessante “contador de histórias”, aparentemente mais ligado a aspirações de uma produção comercial continua do que a uma visão pessoal do cinema. “Call Girl” confirma-o. Não será, porém, preciso pugnar por um cinema de autor para se fazerem filmes de autor. Howard Hawks, Nicholas Ray, Jacques Tourneur, para só citar alguns nomes, nunca pensaram estarem a realizar “filmes de autor” quando rodavam “Ter ou não Ter”, “Party Girl” ou “Out of the Past” respectivamente. Acontece que tinham uma visão pessoal, única e inconfundível do mundo e do cinema e isso mesmo ficava à mostra nos seus filmes. Era não só cinema do melhor, denso, marcante, como obras carregadas de obsessões e fantasma de colheita própria.
Infelizmente ou não, o mesmo não se passa com APV. O seu cinema é eficaz, escorreito, tecnicamente correcto, mas pouco o distingue de uma qualquer produção televisiva de série B. Não falamos de “24”, “Ficheiros Secretos”, “CSI” ou “Prison Breack”. Falamos de banais séries americanas que conta uma história que se acompanha com algum suspense e pouco mais. É o caso de “Call Girl”.
Uma história aceitável: Carlos Meireles (Nicolau Breyner), presidente de uma autarquia alentejana, é homem incorruptível, tem lá pela terra uns sobreiros cobiçados por construtores de campos de “golf”, mas não cede ao interesse dos privados, em defesa do que sente ser o interesse público. Mas um empresário estrangeiro (Anton Skrzypiciel) não desarma enquanto o seu peão de brega, Mouros (Joaquim de Almeida), de conluio com o Ministro da Saúde (Virgílio Castelo), não lhe atira ao caminho uma prostituta de luxo, Maria (Soraia Chaves), que o deixa verdadeiramente obcecado. Entretanto, Madeira (Ivo Canelas) e Neves (José Raposo), polícias da Judiciária, cheiram no ar os fumos da corrupção e atiram-se ao assunto.
A investigação é do que consta o filme, bem condimentado com cenas de escaldante sedução por parte da “call girl”, que torna Meireles um sexodependente, e com diálogos recheados de vernáculos palavrões por parte da dupla de polícias, mas igualmente bem acompanhados por toda a gente que os rodeia. Entre seduções brejeiras em quartos de hotel e tonitruantes peixeiradas o filme conta a sua história e avança. Nada mau para um cinema que a pouco mais aspira.
Mas “Call Girl” merece atenção especial num outro aspecto, esse sim verdadeiramente fora de série. Refiro-me à interpretação, onde se destacam trabalhos notáveis de alguns actores. Desde logo o brilhante Nicolau Breyner, que chega a ser comovente, depois a fulgurante composição de Raúl Solnado, num trabalho genial, depois a dupla Ivo Canelas e José Raposo, que são igualmente notáveis na dupla de agentes da PJ. Joaquim de Almeida compõe com ironia e desenvoltura um mafioso gay que ilustra com especial sublinhado a sua filmografia. Virgílio Castelo destaca-se igualmente com um trabalho de composição divertido e saboroso. José Eduardo (Gomes), Maria João Abreu (Amália), Custódia Galego (Odete), Ana Padrão (Inês) e Luís Mascarenhas (Matos), entre muitos outros, cumprem com segurança o que lhes era pedido.
Falta uma última palavra para Soraia Chaves que, depois de ter dado nas vistas em "O Crime do Padre Amaro", voltar a sobressair nesta “Call Girl” escrita à sua medida. Digamos que neste tipo de trabalhos, onde expõe mais o corpo do que a alma, chega a ser convincente (sobretudo neste filme, onde APV a dirige muito bem). Resta saber o que se pode esperar mais desta bela e sensual mulher, quando for chamada a revelar mais a sua interioridade e menos a volptuosa aparência. Mas haverá muitos entre vós que me perguntam: e que interessa isso se o que hoje se vê é mais do que suficiente? Pois bem, interessa pouco para quem assim pensa, e “Call Girl” merece inteiramente uma visita, não tanto pela denúncia da corrupção (que se tornou um lugar comum que procura explicar tudo!), mas pelos actores brilhantes que lhe dão corpo. E pelo corpo que lhe dá corrupção.
Parece, pois, que depois de “Corrupção” e de “Call Girl”, o negócio da corrupção não vai tão cedo desaparecer do cinema nacional. Após a exploração dos “faits divers” no “vende-vende” dos jornais e na televisão, chegou a vez do cinema. A ameaça de uma longa fornada está eminente.

in "Conversas de Café"

A JUSTIÇA, REVISTA À PORTUGUESA