quarta-feira, julho 29, 2009

VAVADIANDO COM IVAN LINS

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VÁ.VÁ.DIANDO
33 º J A N T A R D A T E R T Ú L I A
PRÓXIMA SEXTA-FEIRA
31.JULHO.2009

20,00 horas
VAMOS FALAR COM
IVAN LINS
AMÚSICA E A POESIA BRASILEIRA

Depois de RAÚL SOLNADO, FERNANDO DACOSTA, NUNO JÚDICE, TEOLINDA GERSÃO, IVA DELGADO, LÍDIA JORGE, MARIA DO CÉU GUERRA, EURICO GONÇALVES, PAULO PORTAS, LAURO ANTÓNIO, ROGÉRIO SAMORA, CARLOS DO CARMO, CELINA PEREIRA, OTELO SARAIVA DE CARVALHO, MARCELO REBELO DE SOUSA, IRENE PIMENTEL, PADRE FEYTOR PINTO, FERNANDO ROSAS, BÁRBARA GUIMARÃES, NICOLAU BREYNER, GONÇALO RIBEIRO TELLES, FRANCISCO MOITA FLORES, BAPTISTA BASTOS, ALICE VIEIRA, SÃO JOSÉ LAPA, INÊS LAPA LOPES, ANTÓNIO VICTORINO D’ALMEIDA, JOSÉ MANUEL ANES, ANTHÌMIO DE AZEVEDO e LAURO MOREIRA, LURDES NORBERTO, CONTINUAM OS NOSSOS ENCONTROS, MANTENDO UMA TRADIÇÃO DE TERTÚLIA DO CAFÉ-RESTAURANTE VÁVÁ.

ENTRADA: 17,5 EUROS POR PESSOA. COM DIREITO A ENTRADAS, SOPA, UM PRATO DO DIA, PEIXE OU CARNE, SOBREMESA, BEBIDA (VINHO É O DA CASA!) E CAFÉ. EXTRAS POR CONTA DO FREGUÊS.

[ LOTAÇÃO LIMITADA A 50 CADEIRAS. ACEITAM-SE INSCRIÇÕES NO BALCÃO DO VÁVÁ. ]

Para informações e marcações de lugares:
LAURO ANTÓNIO - Blogue Va.Va.diando (http://vava-diando.blogspot.com/][mail: laproducine@gmail.com]
RESTAURANTE - CAFÉ VÁVÁ AV. EUA, Nº 100 - 1700-179 – LISBOA (TELF 21.7966761).

Ivan Guimarães Lins (Rio de Janeiro, 16 de Junho de 1945) é um dos maiores músicos brasileiros da actualidade. Filho do militar Geraldo Lins, foi muito influenciado por diversos géneros musicais como jazz, bossa nova e soul e tem como principal instrumento o piano, que toca desde os dezoito anos. Formou-se em engenharia química no final dos anos 60, quando iniciou a carreira musical em festivais. O primeiro sucesso como compositor foi com “Madalena”, gravada por Elis Regina. No entanto, Simone é, de forma unânime, considerada a maior intérprete.
Teve inúmeros sucessos como cantor como “Abre Alas”, “Somos todos iguais nesta noite” e “Começar de novo” - todas em parceria com Vítor Martins. Começar de novo foi gravada por Simone no mesmo ano em que foi composta. Na voz de Simone, Começar de novo foi tocada como tema oficial de abertura do seriado Malu Mulher, tornando-se um grande sucesso da época e um marco na história da MPB.
Lançou inúmeros discos, muitos deles de inúmero sucesso, tendo trocado de gravadoras por diversas vezes. No decorrer dos anos 70, a obra ganha grande temática política. A partir da segunda metade dos anos 80, começa a enfatizar a carreira internacional, principalmente nos EUA, onde foi regravado por inúmeros astros da música internacional, como Quincy Jones, George Benson, Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan, Carmen MacRae e Barbra Streisand.
Foi destacado compositor, tendo músicas gravadas por nomes consagrados como Elis Regina (Cartomante, Madalena, Aos Nossos Filhos), Simone (Começar de Novo), Quarteto Em Cy (Abre Alas), Gal Costa (Roda Baiana) e Emílio Santiago (Velas Içadas). Comandou um programa televisivo na Rede Globo ao lado de Gonzaguinha e Aldir Blanc, o Som Livre Exportação. Foi casado com a cantora e actriz Lucinha Lins, com quem teve um filho que também é actor. Torce pelo Fluminense Football Club.
No fim no ano de 2007, Ivan Lins lançou o CD e DVD Saudades de Casa, com diversas colaborações, gravado em estúdio no Rio de Janeiro.

terça-feira, julho 28, 2009

CINEMA: AS PRAIAS DE AGNÈS

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AS PRAIAS DE AGNÈS

Agnès Varda parece gostar de praias, e foi precisamente numa praia portuguesa que a conheci, não recordo o ano, mas estava ela na Figueira da Foz a apresentar um filme seu. Eu a acompanhar o Festival de Cinema que ali se realizava. Vi-a caminhar solitária pelo passeio da marginal que ladeia a praia, falei demoradamente com ela (julgo mesmo que lhe fiz uma entrevista para o jornal onde então trabalhava, “Diário de Lisboa” ou “Diário de Notícias”, não tenho a certeza, depende do ano). Lembro-me de estarmos sentados numa das esplanadas dos cafés frente ao Casino, era uma mulher pequenina e roliça, de olhos faiscantes de vida, inquieta, doce e rebelde. Mais tarde, apresentei no Cinema Caleidoscópio (cuja programação eu dirigia, juntamente com a do Estúdio Apolo 70), um luminoso e belíssimo filme seu, “A Felicidade”, que na altura talvez não tenha compreendido muito bem (escrevi um texto sobre o filme de que hoje me penitencio, mas estávamos em plena euforia revolucionária e ela também me terá obliterado a visão, helás).
Mas desde muito novo que me apaixonara pelo cinema desta autora que nunca fez um filme parecido com algum outro já existente. Quando eu era estudante, e frequentava os cine-clubes da época, o Universitário, o ABC (e outros mais, o Imagem, por exemplo), descobrira as suas curtas-metragens que estiveram na génese da Nouvelle Vague. Eram magníficas (julgo que ainda são): “La Pointe-courte” (1954), “L'Opéra Mouffe” (1958), “La Cocotte d'Azur” (1958), “Du Côté de la Côte“ (1958), ou “O Saisons, ô Châteaux” (1958). Depois surgiu esse admirável “Cléo de 5 à 7” (1962) ou esse fabuloso e polémico “Le Bonheur” (1965), mas isto sou eu a recordar, porque vivi já com olhar critico os anos 60.
O problema hoje é outro. Por exemplo: saber quem é que vai ver “As Praias de Agnès", obviamente um filme “diferente”. Quem tem agora curiosidade para ver algo “diferente”, surpreendente? Se o olharmos como um todo, pode chamar-se uma autobiografia centrada sobretudo sobre o passado cinematográfico da autora. Mas, analisado, quadro a quadro, mescla memórias com documentarismo, ficção com realidade. Para a maioria dos espectadores de hoje, a primeira questão que se põe é mesmo saber de que Agnès estamos a falar. Quem é Agnès Varda?, que nunca foi uma cineasta de grande público (apesar de ter tido os seus sucessos, e de nem sequer ser uma autora “difícil”), mas é seguramente um dos grandes nomes do cinema de autor francês.
Varda é uma das figuras de proa da “Nouvelle Vague”, um movimento surgido em França em finais da década de 50 e que iria explodir durante os anos 60, revelando uma geração de cineastas que mudou toda a história do cinema (não só em França, como no mundo): Truffaut, Godard, Chabrol, Rivette, Demy (casado com Varda), Resnais, Vadim, Rohmer, e dezenas de outros. Não há grandes traços comuns entre eles, há sobretudo um enorme amor ao cinema, à liberdade de criação, à busca de caminhos individuais, pessoais e intransmissíveis.
Varda é um bom exemplo dessa busca, iniciada com um conjunto de curtas-metragens que fizeram as delícias dos cinéfilos desses anos, filmografia depois prolongada por obras essenciais, como “Duas Horas na Vida de uma Mulher” (62), “A Felicidade” (65), “Páginas Intimas” (Les Creatures, 66), “Lions Love” (69), “Daguerréotypes” (75), “Uma Canta a Outra Não” (L'Une Chante, l'Autre pas) (77), “Documenteur” (81), “Sem Eira nem Beira” (Sans Toit ni Loi, 85), “Jane B. par Agnès V.” (87), “Jacquot de Nantes” (90), “Les Cent et une Nuits de Simon Cinéma” (94), “L'Univers de Jacques Demy” (95), “Os Respigadores e a Respigadora” (Les Glaneurs et la Glaneuse, 2000) e, finalmente, “Les Plages d'Agnès” (2008). Tudo filmes muito pessoais, daqueles que seria impossível outra pessoa realizar, dado que em cada um deles se projecta por inteiro o sentir e o pulsar de uma autora. O que obviamente volta a acontecer em “As Praias de Agnès", uma aventura individual, que coloca em destaque algumas das obsessões e dos fantasmas da autora, desde o seu devotado amor ao cinema, até o seu gosto pelas praias, o seu amor por Jacques Demy, as suas preocupações políticas e sociais (feminismo, a revolução cubana, Maio de 68, movimentos de emancipação nos EUA, esquerda europeia, etc.), as suas pesquisas estéticas, a sua delicadeza de olhar e de sentir. O filme é um mosaico de recordações e de vivências que nos restituem uma personalidade e um olhar que fascinam. Uma obra inesperada, surpreendente, que nos mostra que o cinema pode ser algo de deslumbrante e de perturbador. Avisamos: não é um filme igual aos outros. É diferente. Por isso tão cativante.
“As Praias de Agnès" recorda a Varda da infância e de uma alegria de viver que se prolonga até hoje. Recorda a Varda da família, o seu amor por Demy (revelando em primeira mão a causa da morte do cineasta, o SIDA, que ele impusera que se mantivesse ignorada do grande público à data da morte), os filhos e os netos, a forma como os seus filmes eram não só artesanais, como familiares, filmados por vezes ao pé de casa, com o cabo da electricidade a ser puxado do seu quintal. Recorda a forma de filmar de Varda, nos antípodas da grande indústria, com os adereços cuidadosamente dispostos pela cineasta, as cores escolhidas pela emoção pessoal, os actores de coração e de amizade, os temas que lhe fervilham na cabeça e no coração. Uma vida entregue ao cinema, um cinema alimentado pela vida.
Um grande filme, de uma cineasta única. Não percam. A experiência é igualmente única.
AS PRAIAS DE AGNÈS
Título original: Les Plages d' Agnès
Realização: Agnès Varda (Franca, 2008); Argumento: Agnès Varda; Produção: Agnès Varda, Lisa Blok-Linson, Thomas E. Taplin; Música: Joanna Bruzdowicz, Stéphane Vilar; Fotografia (cor): Julia Fabry, Hélène Louvart, Arlene Nelson, Alain Sakot, Agnès Varda; Montagem: Baptiste Filloux, Jean-Baptiste Morin; Design de produção: Franckie Diago; Direcção de Produção: Nathalie Dages, Jean-Noël Félix, Cécilia Rose; Assistentes de realização: Benjamin Blanc, Julia Fabry; Som: Olivier Schwob, Emmanuel Soland; Companhias de produção: Ciné Tamaris, arte France Cinéma, Canal+, Région Ile-de-France, Région Languedoc-Roussillon, Centre National de la Cinématographie (CNC), France 2 (FR2); Intérpretes: Agnès Varda, André Lubrano, Blaise Fournier, Vincent Fournier, Andrée Vilar, Stéphane Vilar, Christophe Vilar, Rosalie Varda, Mathieu Demy, Christophe Vallaux, Mireille Henrio, Didier Rouget, Anne-Laure Manceau, Gérard Ayres, Jim McBride, Tracy McBride, Patricia Louisianna Knop, Zalman King, Richard Scarry, Eugene Kotlyarenko, Laura Betti, Jane Birkin, Sandrine Bonnaire, Antoine Bourseiller, Nino Castelnuovo, Constantin Demy, Jacques Demy, Joséphine Demy, Catherine Deneuve, Robert De Niro, Gérard Depardieu, France Dougnac, Harrison Ford, Charlotte Gainsbourg, Serge Gainsbourg, Julie Gayet, Valérie Mairesse, Sabine Mamou, Corinne Marchand, Silvia Monfort, Yolande Moreau, Jim Morrison, Philippe Noiret, Michel Piccoli, James Rado, Gerome Ragni, Alain René, Viva, etc. Duração: 110 minutos; Distribuição em Portugal: Midas Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 23 de Julho de 2009; Locais de filmagens: Ancienne Ecole Nationale de Photographie et de Cinématographie, 85 Rue de Vaugirard, Paris 6, Paris, França.

CINEMA:

AS PRAIAS DE AGNÈS
Let's look at the trailer:

enquanto se prepara ao texto.

sexta-feira, julho 24, 2009

TEATRO: PIAF

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ÉDITH PIAF
Édith Piaf é indiscutivelmente um caso. Não se trata tanto de alguém com existência certa e segura, mas de um mito. Acontece àqueles que “por obras valorosas se vão da lei da morte libertando.” Uns mais do que outros. Na música, na canção, Sinatra, Presley, Amália, Callas, Caruso, Piaf são alguns exemplos a que se juntou agora Michael Jackson. A sua vida é uma, a auréola de que gozam é outra. São nomes que ficam, vozes que não se esquecem, presenças que permanecem para lá da grande ausência. Nada apaga a sua glória, os mais velhos continuam a ouvi-los, os mais novos começam a escutá-los e a amá-los. Edith Piaf continua a vender. No mundo inteiro. Quando se fala da canção francesa podem vir à memória dez ou vinte nomes, mas sobressai uma rainha, Piaf. A sua vida ajudou a construir o mito, mas não há mito que sobreviva sem algo mais, essa migalha de génio que divide os homens entre uns e outros, uma divisão que ninguém contesta, porque “uns” milhões precisam tanto de “outros” tão poucos de eleitos para sobreviver, que todos acatam a diferença e a desejam.
Édith Piaf (Édith Giovanna Gassion) nasceu a 19 de Dezembro de 1915, em Paris. Existe uma placa no nº 72 da rua de Belleville, no 20º bairro, que assinala o facto. Mas na certidão de nascimento está marcado que nasceu no nº 4 da rua da Chine, onde ficava o hospital Tenon. Parece que teve uma vida conturbada, tumultuosa, infância infeliz, adolescência nas ruas de Paris, sobrevivendo pela venda do corpo, enquanto cantava e bebia desbragadamente.
Os pais eram pobres, mas ambos ligados ao espectáculo de rua. O pai, Louis Alphonse Gassion, artista de circo, contorcionista (10. V.1881 – 3.III. 1944), a mãe, Annetta Maillard (4 .VIII.1895-6.II.1945), com o nome de artista Line Marsa, cantora, nascida em Itália. Julga-se que o nome de Edith foi escolhido como homenagem a uma enfermeira inglesa, Edith Cavell, que morreu como heroína, durante a I Guerra Mundial, fuzilada pelos alemães. Rapidamente entregue aos (raros) cuidados da avó materna, Emma Saïd Ben Mohammed, de ascendência marroquina, Édith bebia vinho tinto pelo biberão (segundo a lenda), até que o pai a resgata e a entrega aos cuidados da avó paterna, dona de uma casa de prostituição, em Bernay, na Normandia. Consta que pelos 7 ou 8 anos, cegou momentaneamente em virtude de uma doença. Segundo as biografias, curou-se porque as prostitutas da casa em que vivia a levaram a rezar junto do túmulo de Santa Teresa de Lisieux (conhecida como “Santa Teresinha”), donde resultou uma devoção profunda de Piaf para com Santa Teresinha. Junta-se então ao pai, a partir de 1922, numa miserável tournée de saltimbancos, onde começa a dar nas vistas com a sua voz e uma forma muito especial de interpretar temas populares. Aos 15 anos (1930), deixa a companhia do pai e junta-se a Simone Berteaut (a "Mômone"), com quem faz um duo, que vai sobreviver nas ruas de Paris (Quartier Pigalle, Ménilmontant e subúrbios de Paris). Vivam ambas num quarto no Grand Hôtel de Clermont (na Rua Veron, 18 de Paris). A 11 de Fevereiro de 1933, com 17 anos, tem uma filha, Marcelle, resultado de uma ligação com Louis Dupont, que tratou da criança até esta morrer, dois anos depois, vítima de meningite. Um proxeneta de nome Albert foi o seu próximo “companheiro”, que também “tomava conta” de Nadia, outra prostituta que entretanto se suicidou.

“Descoberta”, em 1935, por Louis Leplée, proprietário do cabaré “Le Gerny's”, situado na avenida Champs Élysées, em Paris. Foi Leplée quem a iniciou na vida artística, lhe começou a domar a voz, e a orientá-la no palco, foi ele quem a vestiu de preto e a baptizou como "la Môme Piaf", uma expressão francesa que significa "pequeno pardal" ou "pardalzinho", pois ela era de pequena estatura. Na sua estreia no “Le Gerny's”, contou com a presença de algumas celebridades, como por exemplo o actor-cantor Maurice Chevalier. Foi no “Le Gerby's” que Piaf conheceu o compositor Raymond Asso e a compositora Marguerite Monnot, que se tornou sua parceira e grande amiga ao longo de toda a vida. São de Marguerite composições como "Mon légionnaire", "Hymne à l'amour", "Milord" e "Les Amants d'un Jour".
Em 1936, Piaf assina contrato com a Polydor e lança o primeiro disco, "Les Mômes de la Cloche", que se torna sucesso imediato. A desdita de Piaf não pára. A 6 de Abril desse ano, Leplée é assassinado em casa e Piaf é acusada de cúmplice. Ilibada, nunca deixaria de ver pesar sobre a sua cabeça alguma responsabilidade sobre esse assassinato, dado que os carrascos de Leplée eram conhecidos de Piaf. Relança a carreira com Raymond Asso, com quem também se envolve emocionalmente. É este quem lhe muda o nome artístico de "La Môme Piaf" para "Édith Piaf" e quem encomenda a Marguerite Monnot canções que focassem sobretudo o passado de Piaf nas ruas. Raymond obriga Piaf trabalhar arduamente para se tornar uma cantora profissional de Music Hall.
Entre 1936 e 1937, Piaf apresentou-se no “Bobino”, em Montparnasse. Em Março de 1937, estreia-se no “ABC”, onde se torna rapidamente uma “diva” canção francesa, amada pelo público e difundida pela rádio. Em 1940 estreia-se no teatro, numa peça de Jean Cocteau, “Le Bel Indifférent”, escrita propositadamente para ela, onde contracenava com Paul Meurisse, seu companheiro na altura. É ainda ao lado do excelente actor Paul Meurisse, que ela aparece pela primeira vez no cinema, em 1941, no filme “Montmartre-sur-Seine”, de Georges Lacombe.
Durante a ocupação alemã em França, Piaf continua a dar que falar. Sobrevive com shows, mas é acusada de colaboracionista com as forças ocupantes. Finda a guerra, declara que trabalhou para a resistência francesa. É em 1944 que Piaf conhece o jovem Yves Montand, inexperiente cantor que torna seu amante e que ajuda a lançar no “Olympya”. No ano seguinte, Piaf escreve uma de suas primeiras canções, "La Vie en rose", que se tornará num dos seus hinos e um clássico da canção francesa. Em 1946, Montand estreia-se no cinema ao lado de Piaf, em “Étoile sans Lumière”, mas o romance entre ambos acaba. Foi Piaf que um dia disse: “Até agora os homens compraram-me, a partir de agora sou eu quem os compra.” Consta que a sua vida afectiva nunca foi muito empolgante, apesar da sua vida sexual ser imparável. Sucederam-se os amantes, muitos dos quais subiram na vida à custa do seu relacionamento com Piaf.
Em 1947, lança-se nos Estados Unidos. Em 1948, nos EUA, conhece o que se julga ter sido o grande amor da sua vida, Marcel Cerdan, francês nascido na Argélia, casado, campeão mundial de boxe. Mas, em 28 de Outubro de 1949, Marcel voa de Paris para Nova Iorque e morre num terrível acidente. Piaf sofre, e sofre igualmente de uma poliartrite aguda, que a leva à morfina. "Hymne à l'amour" e "Mon Dieu" são canções que Édith canta em memória de Cerdan. O seu grande amor pouco durou.
Em 1951 será a vez do jovem cantor Charles Aznavour, que se converte em seu secretário, assistente, motorista, confidente... Piaf volta a ajudá-lo como ajudou outros antes. Em Setembro de 1952 casa-se com um outro cantor francês, Jacques Pills, do qual se divorcia em 1956. O êxito nos EUA é finalmente total, rotundo. A popularidade leva-a a apresentar-se oito vezes no “Ed Sullivan Show” e esgota duas vezes o “Carnegie Hall”, em 1956 e 1957.
Inicia então um envolvimento com Georges Moustaki, a quem ajuda no seu lançamento como cantor. Ao seu lado sofreu um grave acidente automobilístico, em 1958, e piora o estado de saúde e sua dependência da morfina. Moustaki é o autor de um novo sucesso de Piaf, "Millord". Em 1962, com a saúde numa lástima, Piaf casa-se com Théo Sarapo (Theophanis Lamboukas), um cabeleireiro grego que vira cantor e actor, e é 20 anos mais novo do que ela.
Morreu a 10 de Outubro de 1963, com 47 anos, em Plascassier, em Grasse, nos Alpes-Marítimos (no mesmo dia em que faleceu seu amigo Jean Cocteau). O corpo foi transportado para Paris, clandestina e ilegalmente. A morte só foi anunciada oficialmente no dia seguinte e Édith ficou enterrada com honras nacionais no cemitério do Père-Lachaise (talhão 97). O seu enterro foi acompanhado por uma multidão consternada. Mas o mito Piaf apenas começava a criar-se. O seu túmulo é presentemente um dos mais procurados por turistas de todo o mundo. É a partir da vida de Édith Piaf que a dramaturga inglesa Pam Gems escreve o musical “Piaf”, o novo espectáculo estreado em Lisboa por Filipe La Féria, depois de ter passado em Angra do Heroísmo (8 de Maio) e Porto (de 28 de Maio a 9 de Julho), com Wanda Stuart e Sónia Lisboa a alternarem na composição da figura de Édith Piaf.
Pam Gems é uma autora já conhecida do público português neste tipo de empreendimento. A sua peça sobre Marlene, já tinha sido estreada em Portugal, no Mundial, com Simone de Oliveira na protagonista. Não é autora que me fascine na forma como trabalha as biografias romanceadas das vedetas que procura homenagear. Trata-se de esqueletos pouco preenchidos de emoção e vida, muito concentrados numa cronologia que se alimenta de “fait divers” e por vezes não toca no essencial. Isso se sente em “Piaf”, onde todos os pormenores escabrosos da vida de Édith Piaf são apontados, mas pouco se percebe da essência da sua arte, se retirarmos as canções. O desenrolar dos episódios trágicos e sórdidos são de tal ordem que ficamos seriamente a pensar se a autora homenageia ou não a cantora. Claro que a verdade não é para escamotear, mas não acredito, não acho muito plausível o retrato que nos é dado da cantora. Por exemplo, Édith Piaf foi uma artista que muito fez por outros artistas, que os ajudou, que desbloqueou carreiras, que os colocou no meio artístico, que lutou por muitos deles. Na peça, os que aparecem, são os que ela devorou sexualmente, dando a ideia de que os ajudou só porque tinha interesse em mantê-los sob a sua alçada. Acontece que, segundo se lê nas suas biografias, Édith Piaf mantinha em sua casa uma verdadeira tertúlia que teve uma importância decisiva na revelação de uma grande geração de músicos e cantores do pós-guerra. Por ali passaram Gilbert Bécaud, Jacques Pills, Jacques Plante, Louis Amade, Charles Aznavour, Jean Broussolle, Yves Montand, Jacques Prévert, Francis Lemarque, entre tantos outros. Leia-se Marc Robine, na sua obra “Il était une fois la chanson française : Des Trouvères à nos Jours”.
Compreende-se por outro lado a dificuldade de traçar uma biografia, enquadrar dezenas de canções, e reunir tudo num espectáculo de menos de duas horas. Filipe La Féria com a sua mestria para o género, consegue impor um ritmo excelente ao espectáculo e criar cenas de grande brilhantismo cénico e visual. Logo desde início, quando a Piaf de fim de carreira cede o lugar à Piaf das ruas de Paris, com a troca de vestuário em palco, passando por várias outras cenas muito bem defendidas, com uma inventiva cénica de sublinhar. Depois o cenário, despojado, colunas vermelhas de sangue, rasgando um fundo negro, coaduna-se perfeitamente e cria um envolvimento certeiro. Há ainda, e finalmente, a arte de Piaf que resiste a (quase) tudo. As suas canções, o seu tom, o lirismo dramático que empresta a qualquer toada de amor, que assume logo os contornos trágicos de um amor louco, ou maldito, os temas que cheiram a Paris mal se começam a ouvir as primeiras notas, a sua voz rouca com passado vivido, tudo isso faz deste reportório algo de único, a que qualquer alma sensível não pode deixar de estar sujeito. Vi por duas vezes “Piaf”, uma no Porto, com Sónia Lisboa, outra em Lisboa, com Wanda Stuart. O palco mais intimista do Porto parecia favorecer o espectáculo, mas visto no Politeama, não perde nada e, paradoxalmente, ganha amplitude. Já o elenco masculino no Porto me parecia não estar à altura do elenco feminino, todo ele muito bom. Na verdade, por virtude do que atrás já dissemos, o original de Pam Gems apenas aponta figuras, em traços rápidos, por vezes caricaturais. É quase impossível um actor dar vida a um tal estereótipo. Mas o elenco de Lisboa (quase integralmente o do Porto, com um ou outro retoque, por exemplo Rui Andrade, que faz bastante bem, em Lisboa, a figura de Theo Sarapo) sai-se bem, não destoando do conjunto. E chegamos às actrizes: Paula Sá é uma surpreendente Marlene, conseguindo criar uma personagem em duas ou três aparições, Noémia Costa deve ter a melhor representação da sua carreira, compondo uma inesquecível Toine, e Sónia Lisboa e Wanda Stuart, em registos diversos, oferecem-nos duas Piafs que vale a pena ver (em dias consecutivos). Sónia Lisboa, que não conhecia, tem uma voz notável e dá-nos uma Piaf mais realista; Wanda Stuart, que conheço bem e admiro há anos, brinda-nos com uma perfomance quase expressionista, com a voz que todos conhecemos, e um gosto excessivo pelo gesto, pelo ritus facial, pela expressividade do corpo, como uma emanação da alma. Devo confessar que de início não aderi logo, mas depois aplaudi entusiasmado.
Muito público de meia-idade em ambos os espectáculos, mas muito público jovem igualmente. O que não deixa de ser saudável.

quarta-feira, julho 22, 2009

CINEMA: A ONDA

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A ONDA
Alemanha, actualidade: um professor resolve escolher para projecto final das suas aulas de fim de curso, uma semana de prática sobre o totalitarismo. A ideia é mostrar que uma ditadura pode nascer em qualquer país, em qualquer momento. Nada nos defende da manipulação e do histerismo colectivo, se não estivermos atentos à realidade. E mesmo assim… a demagogia pode muito. Primeira lição a extrair: destruir os valores da democracia, apontar os políticos democráticos como corruptos, agitar o espectro do pessimismo nacional, propalar a desconfiança, anular toda a forma de analisar os problemas friamente e com conhecimento de causa, jogar no slogan, na repetição de estereótipos. Manifestações consecutivas a propagarem mais do mesmo. Depois, aparece o “leader” iluminado que anuncia duas ou três medidas salvadoras, disciplina, um chefe, uma designação, a carneirada toda vestida com uniforme (camisa branca e jeans, neste caso), uma identificação comum (por exemplo, a saudação da onda), e logo surgem às dezenas, às centenas, aos milhares, os que gostam de ser conduzidos com pulso forte, e logo aparecem os que pretendem defender o chefe (os guardas-costas), e logo surgem os seguranças, os denunciantes, os que se investem de uma autoridade que nunca tiveram e que lhes quadra bem. Os que não pensam da mesma maneira são acusados, perseguidos, escorraçados, presos, se necessário aniquilados. A lição está aprendida, não sem antes ser atravessada pela tragédia – há sempre aqueles que se sentem atraiçoados quando a sua loucura é descoberta e se sentem órfãos de projectos tão “grandiosos”.
Esta a linha de narração de “Die Welle”, de Dennis Gansel, com argumento deste último e de Peter Thorwarth, segundo romance de Todd Strasser, que por sua vez partia de uma experiência real, vivida em 1967, por um professor norte americano, Ron Jones, que a descreveu num artigo (“The Third Wave”), depois adaptado a telefilme, pelo canal ABC, em 1981, por Johnny Dawkins e Ron Birnbach, com realização de Alexander Grasshoff (“The Wave”). O mesmo tema ainda se pode encontrar igualmente tratado em “The Wave”, um romance de Rhue Morton. Recuemos até à década de 60. “A Terceira Onda” foi uma curiosa experiência levada a cabo por Ron Jones, professor de História Contemporânea, no “Cubberley High School”, na Califórnia, na qual procurava dar resposta aos seus alunos que achavam impossível que um país como a Alemanha tivesse aderido a uma aventura louca e assassina como foi o III Reich e o nazismo. Os alunos não acreditavam que fosse possível manipular as pessoas desta forma, até elas perderem a noção do que faziam. Ou então, como muitos responsáveis pelos mais bárbaros actos se desculpavam, explicando que “apenas cumpriam ordens superiores”. Como era possível uma delirante ideologia como a nazi passar por algo saudável? Como era possível conceber a ideia de exterminar raças, como os judeus (e levá-la avante, com o apoio de milhões de pessoas)?
Tudo poderia parecer fácil de explicar aos alunos, mas a verdade foi completamente diferente. Estes aderiram ao projecto, “The Third Wave”, de forma entusiástica, ampliaram a sua massa de adeptos (com alunos de outros projectos), transformaram esta “A Terceira Onda” num acontecimento, aceitando como boa a dimanação do poder do chefe que se autoproclamava, a disciplina imposta na sala de aula (“o poder através da disciplina”), as ordens recebidas e a fazer cumprir, a uniformização de vestuário (e de ideias), as insígnias, o cumprimento pessoal e colectivo, os discursos demagógicos e inflamados, o tratamento por Senhor Jones, e tudo o que decorreu da experiência. Quando se pensava que facilmente se iria explicar os erros e os vícios do totalitarismo, este estava implantado e aceite. Ron Jones terá igualmente sido influenciado pelo êxito da iniciativa, por aquela disciplina que via nascer à sua frente, pela forma habilidosa como conduzia os alunos, pelo respeito que impunha, pelo poder que detinha e dia a dia ia aumentando. Foi assim que uma semana alterou por completo a vida de uma comunidade escolar, e ameaçava estender-se às famílias e à cidade. Até que alguns alunos começaram a questionar a experiência, a sentir o efeito da perca da liberdade, a sublinhar o perigo da demagogia, a descobrir por detrás desta mansa onda que alastrava a inquieta vaga de fundo que poderia pôr em causa a democracia e instituir uma ditadura, fosse ela de que sentido, e em nome de que valores. Nessa altura Ron Jones pensou que tinha de terminar este projecto, marcou uma reunião com todo o grupo, e explicou como o nazismo foi possível, como outros nazismos, ou outras ditaduras (de sinal idêntico ou de sinal contrário) eram imagináveis, se o cidadão não estivesse alerta para alguns sintomas da sociedade, sobretudo quando milhares de pessoas, cegas pelas palavras e o espectáculo envolvente, aceitavam um ditador, sem se questionarem, sem reflectirem. Hitler e o nazismo apareceram assim na Alemanha. Outras ditaduras tiveram idêntica gestação, muitas outras podem germinar de igual forma. Ainda por cima numa época cada vez mais fascinante em certos aspectos, mas igualmente mais massificada, pela globalização, pelas modas, pela influência generalizada dos media, pelo controle do poder cada vez mais poderoso e invisível.
No filme de Dennis Gansel, o professor muda de nome, chama-se aí Rainer Wenger, “Herr Wenger”, a experiência troca de país, o projecto ganha alguma dramaticidade, sobretudo para o final, que termina previsivelmente em tragédia, mas no fundo cinge-se fundamentalmente à experiência real que lhe está na base. Apesar dos bons desempenhos dos principais intérpretes (professor e alunos), e de uma narrativa sóbria e eficaz, apesar da competência técnica de toda a equipa, “Die Welle” mostra a renovação do actual cinema alemão, sem todavia ofuscar pelo brilho. É um filme particularmente interessante, que mobiliza atenções, que desperta polémicas, que coloca em questão não só o problema da emergência das ditaduras, da fragilidade da democracia, da manipulação das massas, como também o papel da escola e do professor, na formação do cidadão.

A ONDA
Título original: Die Welle
Realização: Dennis Gansel (Alemanha, 2008); Argumento: Dennis Gansel, Peter Thorwarth, segundo romance de Todd Strasser; Produção: Christian Becker, Nina Maag, Martin Moszkowicz, Peter Schiller; Música: Heiko Maile; Fotografia (cor): Torsten Breuer; Montagem: Ueli Christen; Casting: Franziska Aigner-Kuhn, Uwe Bünker; Design de produção: Knut Loewe; Direcção artística: Petra Ringleb; Decoração: Tilman Lasch; Guarda-roupa: Ivana Milos; Maquilhagem: Irina Tübbecke-Bechem; Direcção de Produção: Natalie Clausen, Ulrike Fauth; Assistentes de realização: Hendrik Holler, Matthias Nerlich; Departamento de arte: Philipp Hübner; Som: Stephan Fandrych, Dana Hopfe, Alexander Saal; Efeitos especiais: Michael Apling, Ronny Klost; Efeitos visuais: Abraham Schneider; Companhias de produção: Rat Pack Filmproduktion GmbH, Constantin Film Produktion.; Intérpretes: Jürgen Vogel (Rainer Wenger), Frederick Lau (Tim Stoltefuss), Max Riemelt (Marco), Jennifer Ulrich (Karo), Christiane Paul (Anke Wenger), Jacob Matschenz (Dennis), Cristina do Rego (Lisa), Elyas M'Barek (Sinan), Maximilian Vollmar, Max Mauff, Ferdinand Schmidt-Modrow, Tim Oliver Schultz, Amelie Kiefer, Fabian Preger, Odine Johne, Tino Mewes, Karoline Teska, Marco Bretscher-Coschignano, Lennard Bertzbach, Thommy Schwimmer, Joseph M'Barek, Jaime Ferkic, Darvin Schmidt, Leander Hagen, Lucas Hardt, Maxwell Richter, Sophie Kurzke, Liv Lisa Fries, Lena Lutz, Hendrik Holler, Ilo Gansel, Natascha Paulick, Maren Kroymann, Teresa Harder, Thomas Sarbacher, Hubert Mulzer, Gerald Alexander Held, Johanna Gastdorf, Friederike Wagner, Dennis Gansel, Ron Jones, etc.
Duração: 107 minutos; Distribuição em Portugal: Ecofilmes/Vitória Filme; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 8 de Janeiro de 2009.

domingo, julho 19, 2009

CINEMA: ALMOÇO DE 15 DE AGOSTO

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ALMOÇO DE 15 DE AGOSTO
Nos últimos tempos, o cinema italiano tem-nos reservado algumas boas surpresas. Uma delas foi “Gomorra”, de Matteo Garrone, outra é esta comédia discreta, “Pranzo di Ferragosto”, que o mesmo Matteo produz, e que Gianni Di Gregorio dirige e interpreta. Com o apoio do Ministero per i Beni e le Attività Culturali de Itália, o que não deve ser esquecido. Não será uma encomenda, mas anda perto. Um filme certamente interessado em dar à terceira idade (aos seniores!) um fôlego novo.
“Ferragosto” é uma ameaça italiana que o cinema já trabalhou por diversas formas. Trata-se de um feriado que parece datar dos tempos do Império Romano, e que se comemora em Itália no dia 15 de Agosto. Festeja-se o encerramento dos trabalhos agrícolas e por isso mesmo é um feriado sinistro (não por ser “de esquerda”, mas por ser opressivo). Em Roma não há comércio aberto, as ruas estão quase desertas, não há vivalma, e quem não partiu para os arredores, em piqueniques familiares, o melhor é mesmo ficar em casa, a estudar direito, como o pretendia fazer Trintignant, em A Ultrapassagem, antes de ser desviado para a má vida por um Gassman desregrado. Na época áurea do neo-realismo, já Luciano Emmer nos dera uma imagem destes feriados, em "Domingo de Agosto". Mas também, mais recentemente, tivemos a Roma em Agosto de Nani Moretti, em "Querido Diário". Todos eles “passam” por este filme de Gianni di Gregorio mas de uma forma digerida, não como citações ou pastiches. Di Gregorio possui um outro olhar, actual, uma emoção diferente, uma contemporaneidade que sentimos nossa. Gianni, com os seus cinquenta anos bem contados, vive só com a mãe num pequeno apartamento de um bairro de pequena burguesia romana, A mãe é senhora de muita idade, dependente, que gosta sobretudo de ouvir o filho ler histórias, como “Os Três Mosqueteiros”, de Alexandre Dumas (com d´Artagnan, e não Dartacão, como a ignorante tradução portuguesa sugere!). Mas nesse feriado de 15 de Agosto, o senhorio de Gianni, a quem este deve rendas, pede-lhe para ele ficar com a sua mãe, para poder dar uma escapadela sentimental. Mas esta senhora traz a tia, e o médico de família, nesse dia de urgência, convoca igualmente a mãe dele. Um feriado e quatro velhinhas, num apartamento sem grandes condições, e as maleitas e as dietas (atraiçoadas) e as brejeirices e as rabugices da terceira idade, implicativas e vingativas até dizer basta. E ternas e deliciosamente humanas, também. E Gianni a tratar de todas, até daquela que resolve arejar à noite e ir tomar um copo e fumar um cigarro para uma esplanada, sem dizer nada a ninguém. E os almoços de peixe, com um bom vinho branco. E os remédios. E a televisão, os jogos de cartas, enfim, tudo a que têm direito. Lá fora, apenas vislumbrada pelas janelas abertas, Roma, a cidade eterna. Dentro de casa, as eternas questões da sobrevivência humana. Resolvidas, uma a uma, com paciência de santo pelo generoso Gianni.
Parece que o filme tem algo de autobiográfico em relação à personagem de Gianni (assumida, ao que se julga: Gianni, a personagem, Gianni di Gregório, o realizador e actor). Julgo até que o apartamento onde é filmado “Pranzo di Ferragosto” é o apartamento do actor-realizador. Tudo ressoa, aliás, a algo muito vivido, sentido, algo de que se conhecem bem os pequenos nadas que são tudo, que oferecem uma verdade e uma densidade humana muito especial a este pequeno filme despretensioso, mas muito estimável. Com uma excelente realização que resolve muito bem os bicudos problemas do claustrofóbico apartamento, que dirige magnificamente as quatro velhinhas aqui reunidas, e que nos dá um retrato emocionado do dia a dia de uma cidade que, muitas vezes, retira o seu fascínio, não do excepcional, mas do banal.
ALMOÇO DE 15 DE AGOSTO
Título original: Pranzo di Ferragosto
Realização: Gianni Di Gregorio (Itália, 2008); Argumento: Gianni Di Gregorio, Simone Riccardini; Produção: Matteo Garrone; Fotografia (cor): Gian Enrico Bianchi; Montagem: Marco Spoletini; Design de produção: Daniele Cascella; Guarda-roupa: Silvia Polidori; Departamento de arte:Cristiana Possenti; Som: Filippo Porcari; Efeitos visuais: Francesco Spadoni; Companhias de produção: Archimede, Ministero per i Beni e le Attività Culturali (MiBAC); Intérpretes: Gianni Di Gregorio (Giovanni), Valeria De Franciscis (mãe de Giovanni), Marina Cacciotti (mãe de Luigi), Maria Calì (Tia Maria), Grazia Cesarini Sforza (Grazia), Alfonso Santagata (Luigi), Luigi Marchetti (Viking), Marcello Ottolenghi (Médico), Petre Rosu (vagabundo), Biagio Ursitti, etc. Duração: 75 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Estreia em Portugal: 16 de Abril de 2009.

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, CORREU O PANO

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COMÉDIA MOSQUETA
Texto de Angelo Beolco, o Ruzante
Encenação de Mário Barradas
Último dia do Festival, discursos da praxe, mas sentidos, emocionados, e a apresentação de “Comédia Mosqueta”, um texto de Angelo Beolco, dito o Ruzante, pelo Teatro de Almada, que assim encerrava as festividades em bom tom. A “Comédia Mosqueta” é uma das obras teatrais mais significativas e conhecidas do dramaturgo italiano do século XVI e a primeira representação em Portugal de que tenho memória data de 1972, numa criação da companhia “Os Bonecreiros”, com encenação de Mário Barradas, e interpretada por um elenco de boa memória, constituído por Fernanda Alves, José Gomes, Vicente Galfo, Mário Jacques e Maria Emília Correia. Pode dizer-se que esse foi um dos bons momentos teatrais do início dos anos 70, ainda antes do 25 de Abril, concretizando uma tentativa de aproximação de uma obra popular e crítica.
Posteriormente, “Comédia Mosqueta” voltaria a aparecer numa versão que tive oportunidade de ver, em Viana do Castelo (no Centro Dramático), numa tradução de Alexandre Passos, com dramaturgia e encenação de José Martins, com cenários e figurinos de Catarina Amaro, e um grupo de actores composto por Elisabete Pinto, Luís Barroso, Maria José Miranda e Sylvie Rocha. Julgo que várias outras encenações se lhe seguiram.
Mário Barradas, que encenou a versão de 1972 do clássico de Ruzante, voltou ao texto que tão bem conhecia agora em Almada. Actor e encenador, Mário Barradas é um nome de referência no teatro português da segunda metade do século XX, tendo sido director artístico de Os Bonecreiros, fundador do Centro Cultural de Évora (em 1975), director durante alguns anos da Escola Superior de Teatro de Lisboa, e co-fundador do Teatro da Malaposta. Angelo Beolco, dito o Ruzante, (que nasceu e viveu em Pádua, entre 1496 e 1542) foi um actor e dramaturgo italiano, que estudou Medicina e cuja obra literária, sob o pseudónimo de Ruzante (que foi buscar ao nome de uma personagem que aparece em várias das suas comédias, e que o próprio interpretava), vai da poesia ao teatro. Ruzante é considerado um dos mais importantes inovadores do teatro italiano, tendo-se servido da sua experiência como actor e encenador. Estudioso infatigável, nunca deixou de polemizar com alguns dos seus mais ilustres contemporâneos. Dario Fo, no discurso que proferiu aquando da atribuição do Prémio Nobel da Literatura, referiu-se a Ruzante como “o maior dramaturgo do Renascimento europeu, antes do aparecimento de Shakespeare”.
“La Moscheta” é uma obra que participa de um conceito de espectáculo muito definido, conhecido por “Commedia dell'arte”, e que era uma forma de teatro popular, representado nas ruas e praças públicas, improvisado, que se iniciou no séc. XV em Itália, e que se desenvolveu posteriormente também em França, mantendo-se vivo até o séc. XVIII. A “Commedia dell’arte”, também chamada “Commedia All’improviso” e “Commedia a Soggetto”, opõe-se à “Comédia Erudita”, As companhias de “Commedia dell’arte” eram itinerantes e possuíam uma estrutura de esquema familiar, seguindo apenas um roteiro, que se denominava “canovacci”, mas possuindo total liberdade de criação; os personagens eram fixos, sendo que muitos actores viviam exclusivamente esses papéis até a sua morte.
No caso de “La Moscheta” esta é uma comédia que joga com o dialecto rural da região de Pádua, e o dialecto urbano que um dos personagens utiliza para se fazer passar por alguém da cidade (precisamente o marido de Betia, quando quer por à prova a sua fidelidade). A "Moscheta" toma justamente o nome desse falar "moscheto", nome do dialecto de uma linguagem mais refinada, proveniente da cidade. O que permite algumas alfinetadas criticas sobre o campo e a cidade, mas faculta sobretudo uma curiosa sátira de costumes sobre a traição e a lealdade, a astúcia dos humildes, a vitalidade que lhes permite a sobrevivência, o engenho no artifício, a facilidade com que ultrapassam humilhações e necessidades, com uma robustez inabalável e uma sensualidade que lhes dá vida.
A encenação de Mário Barradas é inventiva e inteligente, explorando com graça certos aspectos do texto, os actores são particularmente eficazes e divertidos, sublimando-se o trabalho e a presença de Teresa Gafeira, e o recorte caricatural de José Martins.

COMÉDIA MOSQUETA - Texto de Angelo Beolco, dito o Ruzante; Encenação de Mário Barradas; Intérpretes: Ivo Alexandre, José Martins, Paulo Matos, Teresa Gafeira; Tradução: José Oliveira Barata; Cenário: Christian Retz; Recriação dos figurinos: Sónia Benite; Desenho de luz: José C. Nascimento; Duração 1h20; Classificação M12 anos.

sábado, julho 18, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 12

: “DEMO, UM MUSICAL PRAGA”
Criação Teatro Praga
“Demo” é o título escolhido para a nova criação do Teatro Praga. Sugestão que dá pano para muitas mangas. “Demo” pode ser abreviatura de “demónio” ou “demoníaco”, mas também de “demonstração” (algo a ser experimentado pelo espectador da dita), ou de “democracia”, de “manifestação” (em inglês “demonstration”), de “sample” no mundo musical, de “versão incompleta ou limitada” de um programa informático.
“As pessoas são uma merda!” é a frase com que termina a primeira parte e abre a segunda deste espectáculo. Uma conclusão demonstrativa, numa linha demoníaca, ainda que em versão reduzida, mas numa manifestação que, sendo musical, não deixa de tocar a fundo no conceito de democracia. Acontece que sendo os autores e actores de “Demo” pessoas, nem por isso o espectáculo é uma merda. O que anula desde logo e por completo a conclusão que os autores procuram retirar deste “Demo”. Mas há outras reflexões que esta obra motiva. Aliás, enquanto obra provocatória e agressiva, é um nunca acabar de reflexões a que ela dá origem.
“Demo” é um musical, que se afirma uma viagem pela Índia, sendo a Índia o contrário da Europa, ou se calhar nem isso, dado que se diz igualmente que a Índia procura ser a Europa e a Europa a Índia. Ou seja, para todos os lados que nos voltemos, neste mundo globalizado a mesma merda, e o melhor mesmo é atirar com os homens para a piscina (em que transformaram o fosso de orquestra do São Luiz) para os dar a comer aos crocodilos. Situação em si muito divertida, como quase todo o espectáculo o é, na sua aparência, mas que denuncia também a existência de umas almas iluminadas que, estando no domínio dos eleitos, se podem dar ao luxo de definirem quem deve ou não ser atirado aos crocodilos. O que em si não é um princípio muito democrático, mas, curiosamente, como em quase todas as vanguardas inspiradas, uma forma das vanguardas se colocarem ao lado do aparecimento das mais violentas ditaduras. Veja-se Mussolini e os futuristas, Lenine e os modernistas e os construtivistas, Salazar e os modernistas de Pessoa a Almada. O curioso é de que início eles caminham em uníssono, ditadura de gosto estético, ditadura de índole social, sempre contra a burguesia, que acusam de instalada, propondo “viver perigosamente”, quer na estética, como na política, mas depois o político abafa o estético e o divórcio concretiza-se entre artistas e ditadores. As ditaduras aproveitam-se pois do escândalo provocado pelos artistas, para criarem o caos e desunirem o tecido social, anularem e subverterem os valores, para uma vez instalados no poder, os anularem por completo. Enquanto o pau vai e vem, neste caso não folgam as costas, mas instala-se o folguedo. “Demo” é isso mesmo, um folguedo cheio de imaginação, inventivo, divertido, musicado e cantado como uma ópera pop alternativa (a norte-americana Kevin Blechdom, Christopher Fleeger e o estónio Andres Lõo são os compositores de serviço), com vagas referências à Índia (a maior das quais pela música de Rao Kyao, que aparece no palco pessoalmente, e do facto de Savitri, a protagonista, se chamar assim em honra do poema “Savitri: A Legend and a Symbol”, de Sri Aurobindo, segundo mito de “Mahabharata”), e instalando sobretudo um mau estar evidente contra tudo e contra todos. O que não é de todo mau: ficamos a saber que chegaram os salvadores da Humanidade. Pela morte violenta ou o suicídio: “Acabaram-se as merdas, água com eles! O que é preciso é gesticular. Não há ideologias.” O que lido de outra forma pode querer dizer: não há ideologias, só há acção. Gesticular é preciso, como forma de mostrar – demonstrar – que se está vivo. Ou de demonstrar o contrário: que se mata, se destrói, se aniquila o presente. Em nome de quê? Não nos é dito.
É o próprio grupo que explica o espectáculo: “’Demo’ tem uma narrativa. É uma história de amor (mas também pode ser um drama histórico ou um conto de fadas, um remake sem original de referência, uma tragédia política, uma biografia desactualizada, um pesadelo...). Não a contamos muito bem, porque já lá vai o tempo em que isso se fazia. Mas há uma protagonista. Baptizámo-la de Savitri. Vem das águas onde moram os crocodilos. Regressa à terra natal após longa ausência. E propõe, desculpem, impõe uma nova ordem. Há quem goste. Até porque quem não gosta é lançado aos crocodilos.
Embrulhamos questões filosóficas, éticas, sociais e culturais em chansons-papel-de-rebuçado. O rebuçado é para todos: colorido e agradável ao paladar, mas duro de trincar e letal para a dentição. É democrático, demente e demolidor.”
O Teatro Praga trabalha “sem deus nem chefe” desde 1995. Colectivo de co-criadores e intérpretes, instilando uma filosofia niilista, provocatória, transdisciplinar, fascinada por epifenómenos pop, defende a morte do dramaturgo, do texto e da personagem. Afirmam apostar “num teatro político de vanguarda”. Não ficam dúvidas, depois de vermos esta “demonstração”. Criativamente tão estimulante, quanto socialmente inquietante.

“DEMO, UM MUSICAL PRAGA” – Criação: Teatro Praga; Intérpretes: André e. Teodósio, André Godinho, Andres Lõo, Carlos António, Christopher Fleeger, Cláudia Jardim, Joana Barrios, Joana Manuel, Kevin Blechdom, Luís Madureira, Miguel Bonneville, Patrícia da Silva, Pedro Penim, Rita Só; Participação Especial: Rão Kyao; Colaboração José Vieira Mendes, Vasco Araújo; Crocodilos: André Campino, Diogo Bento e mulher bala; Apoio Vocal: Luís Madureira; Apoio Coreográfico: João Galante; Desenho de luz: Daniel Worm d’Assumpção; Música original: Kevin Blechdom,Christopher Fleeger, Andres Lõo; Produção: Cristina Correia, Joana Gusmão, Pedro Pires; Uma encomenda do São Luiz Teatro Municipal ao Teatro Praga; Duração: 1h40; Classificação: M /12 anos.

sexta-feira, julho 17, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 11

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CADERNO DE UM REGRESSO AO PAÍS NATAL
(CAHIER D’UN RETOUR AU PAYS NATAL)
Texto de Aimé Césaire, com encenação de Jacques Martial
Compagnie de la Comédie Noire – Paris, França

Excelente texto, a meio caminho entre o ensaio político e a pura poesia, este “Cahier D’un Retour Au Pays Natal” marca o nascimento do poeta Aimé Cesaire, no ano de 1939. Tinha então o autor 26 anos, e preparava-se para uma longa e vigorosa carreira política e literária, que iriam fazer dele o pai do conceito de “negritude”, um dos mais influentes adversários do colonialismo, um dos maiores poetas de língua francesa do século XX.
Aimé Fernand David Césaire nasceu em 26 de Junho de 1913, em Basse-Pointe, na Martinica, e viria a falecer a 17 de Abril de 2008, em Fort-de-France, na Martinica. Foi presidente da câmara ("prefeito") de Fort-de-France, durante 56 anos, entre 1945 e 2001.
Francês de nacionalidade e de língua, foi um político hábil que defendeu a cultura negra, as raízes africanas, que promoveu a raça negra no mundo, impondo valores e conceitos ligados à sua terra e às suas origens. Defendeu a dignidade e o orgulho de ser negro, mas procurou sempre a dignidade de homem, qualquer que seja a raça ou o credo, afirmando-se como um humanista fraterno. Nas suas obras há um pouco de tudo, da poesia (Cahier d'un retour au pays natal, Paris, 1939 ; Les Armes miraculeuses, 1946 ; Soleil cou coupé, 1947; Corps perdu (com desenhos de Picasso), Paris, 1950; Ferrements, Paris, 1960 ; Cadastre, Paris, 1961 ; Moi, laminaire, Paris, 1982 ; La Poésie, Paris, 1994), ao teatro (Et les chiens se taisaient, Paris, 1958 ; La Tragédie du roi Christophe, Paris, 1963 ; Une saison au Congo, Paris, 1966 ; Une tempête, d'après 'La Tempête de William Shakespeare: adaptation pour un théâtre nègre), Paris, 1969) do ensaio filosófico e social (Esclavage et colonisation, Paris, 1948 ; Discours sur le colonialisme, Paris, 1955 ; Discours sur la négritude, 1950), ao ensaio histórico (Toussaint Louverture, La révolution Française et le problème colonial, Paris, 1962). “Caderno de um Regresso ao País Natal” é um monologo, longo, complexo, elaborado, que coloca em cena um negro, um homem, com as suas interrogações e certezas, exilado dentro de si próprio, que se reencontra quando regressa ao seu país natal, o mesmo é dizer quando se coloca de acordo com as suas raízes, o seu íntimo, os seus antepassados, a sua terra quente e vermelha. O texto é poético, afirma-se como uma melopeia, ouve-se como se de uma cantata se tratasse, por vezes sobressaltada por uma palavra ou um conceito mais forte que impõe um alarme de consciência mais vigilante. A poesia de Aimé Césaire é musical, vibrante, ondulante de cor e de luxúria, inventiva e metafórica. Rapidamente se tornou um símbolo dos povos negros em todo o Mundo. Lê-se no programa do festival: “Poema firmemente enraizado na realidade social, histórica e geográfica das Antilhas Francesas de entre as duas guerras, uma época em que a França e a Europa em geral reinavam como senhores dos seus impérios coloniais, nomeadamente em África e nas Antilhas. Nessa época, as teses racistas de Gobineau, diplomata e escritor francês, alimentavam a filosofia do III Reich, e, no Mississipi, Bessie Smith morria de hemorragia diante de um hospital de brancos que se recusavam a tratá-la.” Para um tal texto apenas um grande intérprete o tornaria suportável em cena, durante quase hora e meia. Assim aconteceu, num fenómeno de simbiose perfeita entre texto e actor. Jacques Martial, actor e encenador, surge num palco quase deserto, apenas um telão pintado ao fundo, três sacos com roupa nos braços, nada mais, e inicia o monólogo de uma vida, de um povo. A dicção não é correcta, é sublimemente exacta, ouvem-se todas as sílabas e não se sente qualquer preciosismo. É perfeita, sim, mas sem se notar o exagero, a procura exacerbada, brota livre. A expressão de Jacques Martial é total, não se fica pela voz e a entoação, mas estende-se a todo o corpo, ele fala com as mãos, as pernas longas, o peito que arfa, o rosto que modula qualquer frase, e a recria. Mas repito não há aqui qualquer efeito gratuito, qualquer maneirismo de vedeta. Apenas a eficácia perfeita que dá vida a uma texto, sem o usurpar, sem o ofender.
Hora e meia em cena, sem uma bengala de qualquer espécie, sem causar o mínimo cansaço no espectador, é obra. Jacques Martial, nascido em Maio de 1955, em Saint-Mandé (Val-de-Marne), de pais originários da Guadalupe, é brilhante. Ostenta uma carreira notável, no teatro, no cinema, na televisão (muito conhecido pelo papel de Bain-Marie na série policial “Navarro”, ao lado de Roger Hanin) e é, desde 2006, presidente do parque e da sala de espectáculos de La Villette, uma das mais apetecíveis e importantes estruturas culturais de França (e do mundo). Professor de teatro, fundador da Compagnie de la Comédie Noire, criador da associação Rond Point des Cultures, que trabalha, em prole das minorias e da cultura ultramarina francesa, de colaboração com o Théâtre du Rond Point, Jacques Martial é um artista multifacetado, que rapidamente vemos ora em “Moonraker”, de Lewis Gilbert, ora num policial de televisão, ora numa tournée mundial com este “Cahier d'un retour au pays natal”, estreado em 2003, e que já passou por Guadalupe, Singapura, Austrália, Fidji, Nova Caledónia, Nova Iorque, Martinica, Paris, e agora Almada.
Belíssima noite de teatro, num ameno espaço, que convidava a olhar as estrelas. Num dia em que o Festival de Teatro de Almada, que já consideram tão importante como Avignon, soube que o subsídio anual da Junta de Turismo da região, passou de 32.000 euros, para 5.000. Mas sobre este episódio falaremos a seguir.

CADERNO DE UM REGRESSO AO PAÍS NATAL (CAHIER D’UN RETOUR AU PAYS NATAL) - Texto de Aimé Césaire, com encenação de Jacques Martial / Compagnie de la Comédie Noire – Paris, França; Intérprete : Jacques Martial; Cenografia: Pierre Attrait; Pintura: Jérôme Boutterin; Adereços: Martine Feraud; Desenho de luz: Jean-Claude Myrtil; Assistente de encenação: Tim Greacen; Assistente de cenografia: Elisabeth Dallier; Duração: 1h20; Classificação: M12.

quinta-feira, julho 16, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA. 10

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A ÚLTIMA NOITE DE JÁCOME CASANOVA
(ULTIMA NOTTE DI GIACOMO CASANOVA),
de Stefano Massini,
com encenação e interpretação de Mario M. Giorgetti
“Ultima Notte di Giacomo Casanova” é uma peça para um actor só, que nos fala da última noite de Giacomo Casanova. É autor da obra um jovem dramaturgo, Stefano Massini, que procura penetrar no universo de Casanova e, através das suas confidências, recuperar a memória da sua vida passada e as angústias da noite que se aproxima do adeus. Hedonista confesso, homem que amava a beleza do corpo das mulheres (e do seu próprio corpo, quando jovem), embriagado pelos prazeres da vida, não consegue enfrentar calmamente a decadência física e “os lábios que já não beijam” (frase com que abre o monólogo e que desde logo denuncia o seu andamento). Este balanço de uma vida olhado pela inexorável velhice e a solidão que esta acarreta é um tema recorrente em quem dedicou a existência ao culto dos deleites e se sente para sempre deles afastado. Nostálgico? Passadista? É o que é, a vida tem um fim, todos o sabemos, e encarar o desfecho é sempre doloroso, queira-se ou não dar a sensação de negativismo. É o que se passa com Casanova, e a versão que Stefano Massini oferece desta noite de recordações e de terrores tem a sua justificação óbvia. Não sendo um grande texto, notando-se aqui e ali alguma tendência para a grandiloquência e o “poético” pomposo, acaba por ser uma obra que se acompanha bem e que permite ao actor um monólogo esforçado e vibrante.
Stefano Massini (nascido em Florença em 1975) é um dos mais promissores jovens escritores italianos. Em 2007 recebeu o Prémio Nacional da Crítica para jovens escritores, e em 2005 venceu o maior prémio de dramaturgia italiano: o Pier Vittorio Tondelli. As suas obras estão publicadas na editora Ubulibri, tendo sido traduzidas em português, francês, alemão e checo. Entre as suas peças mais conhecidas encontram-se “La Gabbia”, “Donna non Rieducabile”, “L’Odore Assordante del Bianco”, e “Processo a Dio”, encenadas quer em Itália, como no estrangeiro. Num bem elaborado cenário único, “Ultima Notte di Giacomo Casanova” decorre no escritório, ou na sala de estar, do palácio de Giacomo Casanova, na noite anterior à sua morte. Giacomo Girolamo Casanova, nasceu em Veneza, a 2 de Abril de 1725, filho de uma jovem actriz de apenas 17 anos de idade e, conta-se, de um nobre, Michele Grimani, proprietário do Teatro de San Samuele, onde a mãe de Casanova passou a actuar. Com uma vida tumultuosa, apesar de inicialmente orientado para a vida eclesiástica, Casanova ganhou uma reputação mítica que envolve toda a sua existência de libertino ou debochado, coleccionador de mulheres, escroque ou sedutor, conquistador empedernido que percorria os bordéis de Londres todas as noites para ter relações com mais de 60 meretrizes, ou aventureiro audaz que conseguia fugir das masmorras do Palácio Ducal de Veneza, numa rocambolesca evasão pelos telhados do palácio, depois de estar prisioneiro durante 16 meses. Atravessa a fronteira, chega a Munique, e só regressa a Veneza vinte anos mais tarde, em 1785, vindo de Trieste e com a missão de escrever regularmente relatórios secretos para a Inquisição de Veneza sobre as pessoas que ele frequenta nas suas longas noites de jogo e de dissolução. Aceita, pois denunciar amigos e conhecidos, existindo cerca de 50 relatórios onde ele acusa nobres e banqueiros de adultério e deboche, da posse de livros cabalísticos e proibidos, de conjura contra o Estado ou de vigarices, crimes que afinal ele próprio tão bem conhecia. Em 1772, é recebido novamente no palácio dos Grimani, uma família aristocrata de Veneza, onde acaba por ser humilhado por causa das dívidas do jogo. Vinga-se e escreve um panfleto intitulado "Nem Amor Nem Mulheres ou o Limpador dos Estábulos", onde é facilmente reconhecido o nobre Grimani. A Inquisição ameaça-o e é forçado a abandonar Veneza onde nunca mais regressou. Viaja até Paris e transforma-se num enciclopedista na tradição de Voltaire, Diderot ou D' Alembert. Percorre Avinhão, Marselha, Florença, Roma, Praga, São Petersburgo, Istambul e Viena, conhecendo grande parte das personagens relevantes da sua época. Nos últimos anos da sua vida escreve um romance, “Isocameron”, e redige as suas memórias, “História da Minha Vida”, que se assumem como um retrato fascinante de uma época. Publicado inicialmente em 1822-25, fizeram-se depois múltiplas edições novas, retocadas. O original integral só foi conhecido em 1960, em 28 volumes, onde confessa (ou vangloria-se) de ter dormido (um eufemismo certamente) com 122 mulheres ao longo de toda a sua vida. Morre em Dux, na Boémia, a 4 de Junho de 1798.
A peça recupera a última noite de vida, com Casanova ainda a recordar momentos da sua vida passada, e dirigindo-se a um criado, Jacques, que vai escrevendo o que vai ouvindo, criado esse que nós, espectadores nunca vemos.
Mario Mattia Giorgetti, encenador e único actor, é um nome importante do actual teatro italiano, tendo realizado mais de sessenta encenações para o teatro e contando outras tantas actuações como actor. Diplomado em 1961 pelo Piccolo Teatro de Milão como actor e encenador, trabalhou durante dois anos com Giorgio Strehler e depois com Orazio Costa Giovangigli. Em 1967 fundou o Centro Attori La Contemporanea, de que é director artístico. Ao longo da sua carreira como encenador dirigiu textos de Samuel Beckett, Ionesco, Camus, Genet, Gianni Hottm, Carlo Terron, Albee e Molière.
A sua interpretação de Giacomo Casanova é interessante e representa um opção de base corajosa, pois passa a hora do monologo, sentado, frente ao público, cercado de mesas e livros, copos e garrafas, adereços de todo o género, de que se vai servindo. O monólogo por vezes é um pouco estereotipado na sua exuberância, mas acaba por cativar o espectador pelo arrojo da escolha.
Um espectáculo que não ombreia ao lado dos melhores desta edição de Almada, mas não deslustra.

A ÚLTIMA NOITE DE JÁCOME CASANOVA (ULTIMA NOTTE DI GIACOMO CASANOVA), de Stefano Massini, com encenação e interpretação de Mario M. Giorgetti; Duração: 1h00; Classificação: M12.

quarta-feira, julho 15, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 9

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DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE
(DIEU COMME PATIENT - AINSI PARLAIT ISIDORE DUCASSE)
segundo texto de Lautréamont
encenação de Matthias Langhoff
Este foi um espectáculo que dividiu o público de Almada. Percebeu-se, logo que a cortina caiu, no final. Uns ovacionavam freneticamente, outros aplaudiam paulatinamente. Uns gostaram imenso, outros apreciaram medianamente, sem grande entusiasmo. Todos referiam os cenários, mas uns galvanizaram-se com a vertigem do texto e da montagem de todo o espectáculo, outros acharam-no cansativo, e pobre em relação ao texto que o inspirou. Na base deste “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” estão os “Cantos de Maldoror”, de Isidore Ducasse, dito “Conde de Lautréamont”. É óbvio que num espectáculo de (quase) duas horas, ninguém pensaria que se iam adaptar fielmente os “Cantos”. O que Matthias Langhoff tentou, quanto a mim com inteiro sucesso, foi criar uma atmosfera, um clima, uma evocação destes “Cantos”, quer através da interpretação de alguns textos escolhidos, portanto excertos, quer através da própria encenação plástica. O resultado é simplesmente fantástico, e “fantástico” é um bom termo para definir a exuberante “feérie” que nos é dado ver no palco. Todo o espectáculo parte de uma proposta inicial de “colagem” (muito na linha das colagens dos surrealistas, de que Lautréamont é um confesso antecessor): um palco dividido em vários sectores, que por sua vez se vão desdobrando em cenários diversos, todos eles revestidos por um telão de gaze caído em frente do proscénio, e que ora se torna opaco e tela de projecção de imagens de cinema, ora se anula numa quase transparência que permite ver toda a cena iluminada por detrás.
Deve desde já dizer-se que todo esse cenário que se vai desdobrando e multiplicando à nossa frente é de uma beleza fulgurante, quer pelos motivos que evoca, um interior de casa, um barco, um bar, uma rua, quer pelos próprios desenhos que ilustram certas situações, quer pela iluminação, pela sonoplastia, pela recolha de imagens que são apresentadas no telão. Curiosamente, este dispositivo tem muito de cinematográfico, e as próprias imagens nele apresentadas, da autoria igualmente de Matthias Langhoff, são evocativas de momentos chaves da história do cinema, sobretudo do seu período mudo, obviamente do surrealismo de um Buñuel ou Dali, mas também dos expressionistas, do realismo soviético de Sergei M. Eisenstein, do neo realismo e do cinema verité, do documentarismo e da ficção, etc. A escolha não é isenta de um significado que se encontra quer na recolha de imagens de actualidade, de mendigos nas ruas de Paris, quer da reconstituição da revolta da Comuna de Paris, quer de outras imagens de propósitos nitidamente políticos, de “agit prop”.
Isidore Ducasse, que a si próprio se intitulava Conde de Lautréamont (1846-1870), nasceu em Montevideo, no Uruguai, filho de um funcionário consular. Aos vinte meses perdeu a mãe, que se suicidou; foi enviado pelo pai para França, em 1859, para estudar no liceu, em Pau, como aluno interno e vítima das sevícias de superiores e de colegas mais velhos. Abandonou os estudos superiores, levou vida boémia enquanto teve rendimentos paternos para delapidar, depois fechava-se em quartos de pensões rascas a escrever uma obra que muitos consideram única e inqualificável. Publicou, em 1868, à sua custa, o primeiro dos “Cantos de Maldoror”, que passou totalmente despercebido. No ano seguinte compôs os restantes cinco cantos. Morreu com 24 anos.
Matthias Langhoff, encenador de língua alemã, nascido em 1941 na Suíça, entrou muito jovem para o “Berliner Ensemble”, de que foi co-director em 1992-1993. À excepção desses dois anos em Berlim e do ano e meio em Lausana, nunca teve um lugar fixo. De Berlim a Barcelona, de Paris a Avignon, de Moscovo ao Epidauro, na Grécia, tem mudado constantemente de palcos, de técnicas, de intérpretes e de público. Pode dizer-se que é um dos mais sugestivos criadores teatrais da Europa contemporânea, homem de estética própria, nem sempre compreendido, nem sempre aceite, polémico e independente, procura sobretudo agitar as águas e não deixar instalar o conformismo. “Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse” é um bom exemplo deste projecto artístico pessoal de uma coerência e rigor inultrapassáveis. André Wilms, protagonista desta obra, é um actor e encenador francês, nascido em Estrasburgo em 1947. Trabalhou sob a direcção de vários dos mais importantes encenadores actuais, como Klaus Michael Grüber (“Fausto”, de Goethe, “A Morte de Danton”, de Büchner), André Engel (“Baal”, de Brecht, “À Espera de Godot”, de Beckett, “Hotel Moderno”, a partir de Kafka, “A Noite dos Caçadores”, de Georg Büchner), Deborah Warner, Michel Deutsch e outros. Como actor de cinema, participou em filmes de Aki Kaurismäki, Étienne Chatiliez e Claude Chabrol. Desde finais da década de oitenta passou a fazer as suas próprias encenações no teatro e na ópera, tendo dirigido “A Conferência dos Pássaros”, de Michäel Levinas, “O Castelo do Barba Azul”, de Bela Bartók, “A Filosofia na Alcova”, do Marquês de Sade, etc.
A estreia de “Deus como Paciente” no Théâtre de la Ville, em Paris, em Janeiro deste ano, foi destacada pela crítica francesa de forma entusiástica: “Um espectáculo em forma de turbilhão, vertiginoso, estonteante, fascinante, e do qual se sai embasbacado” (Hugues Le Tanneur, in “Les Inrockuptibles”); “Um teatro puro, perturbante e enfeitiçante” (Philippe Chevilley, in Les “Échos”); “Matthias Langhoff é um criador de mundos, que eleva o teatro ao mais alto nível, à grande Arte, como soe dizer-se () “Deus como Paciente” é um tsunami» (in “Mouvement”). É curioso verificar uma constante: o espectáculo oferece-se como um turbilhão, um tsunami, algo de impossível de captar, de aprisionar, de domesticar. Tal como Lautréamont, Matthias Langhoff é um visionário, um iconoclasta, um rebelde que questiona o que de mais puro e cruel existe no Homem. O resultado é de uma grandeza sublime. Que se ama ou de que nos afastamos, mas nunca de forma indiferente.

DEUS COMO PACIENTE - ASSIM FALAVA ISIDORE DUCASSE (“Dieu Comme Patient - Ainsi Parlait Isidore Ducasse”), segundo texto de Lautréamont ; encenação de Matthias Langhoff; Intérpretes: Anne-Lise, Heimburger, Frédérique Loliée, André Wilms; Cenário e filme: Matthias Langhoff; Pintura: Catherine Rankl, Matthieu Lemarié; Figurinos: Catherine Rankl, Corinne Fischer; Desenho de luz: Frédéric Duplessier, assistido por Éric Marynowerv; Som: Brice Cannavo; Assistentes de encenação: Hélène Bensoussan, Caspar Langhoff; Duração: 1h 45; Classificação: M12.

terça-feira, julho 14, 2009

Cinema: DEIXA-ME ENTRAR

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DEIXA-ME ENTRAR
Os filmes de vampiros mudaram. Não são só os filmes de vampiros para adolescentes, tipo “Crepúsculo”, que querem dizer outras coisas, em relação ao vulgar filme de vampiros de outrora. Um título como “Deixa-me Entrar”, que se situa a um nível completamente diferente de exigências estéticas e preocupações sociais, também apresenta uma leitura totalmente nova. Curiosamente esta nova onda de filmes de vampiros tem como protagonistas jovens adolescentes. No caso do sueco “Låt den rätte komma in” (ou "Let the Right One In" na sua tradução para língua inglesa) as duas personagens centrais têm doze anos, na série iniciada por “Crepúsculo” os jovens são um pouco mais velhos, mas existe um nítido deslocar da referência etária, e consequentemente dos problemas abordados e da forma como estes são olhados.
Mas este “agiornamento” de significado dos filmes de vampiros não é característica nova ou surpreendente. Em todas as épocas em que surgiram ondas de filmes de terror, particularmente de obras dedicadas a Drácula e outros vampiros, estas obras reflectiram sempre os temas maiores do período social e as preocupações estéticas dominantes. Pode dar-se um curso de história do cinema tendo por base os filmes de vampiros, podem estudar-se muitas das transformações sociais do dos últimos 100 anos tendo como suporte apenas obras dedicadas a vampirismo. Começando com Dreyer e Murnau, ainda no cinema mudo, que nos apontam os perigos dos movimentos totalitários (“Nosferatu” é uma evidente parábola sobre a peste que se propaga), continua-se com Tod Browning (e o seu “Drácula” que reflecte a crise social e os medos da década de 30), passa-se por Terence Fisher (com o “Drácula” licencioso dos anos do “flower power” e da libertação sexual), não se esquece Francis Ford Coppola e Abel Ferrara (“Os Viciosos” e a sida como metáfora), até chegar a este recrudescer de interesse tendo os adolescentes como heróis ou anti-heróis. Mas não se deve esquecer “Blacula” e a emancipação dos negros, e alguns outros exemplos menores, mas ainda assim muito interessantes como reflexos de um tempo.
“Deixa-me entrar” é apenas mais um exemplo, um exemplo actual que nos faz reflectir sobre o nosso tempo.
O argumento é de John Ajvide Lindqvist, que parte do seu próprio romance, e é uma construção sólida e complexa, que desafia a compreensão do espectador e lhe impõe interpretações não muito óbvias, mas extremamente compensadoras. Aparentemente estamos no domínio do filme de terror. Numa região gelada da Suécia invernosa, Oskar, um miúdo introvertido e furtivo, que olha por detrás das janelas, vive aterrorizado pelos colegas de escola que o martirizam com chacotas e humilhações, para lá de punições corporais, conhece Eli, uma vizinha da mesma idade, que surge inopinadamente do escuro, demonstrando faculdades inverosímeis, não se preocupa com o frio, sai de casa apenas quando a noite cai, alimenta-se de sangue fresco, e tem uma idade não compatível com a sua aparência. Percebe-se lentamente que é uma criatura da noite, uma vampira. Um ser perseguido pelos demais, que vai estabelecer uma estranha amizade com Oskar. São dois acossados pela sociedade, dois seres marginalizados pelos outros, dois adolescente “diferentes” que vivem atormentados por essa “diferença” que lhe desperta no íntimo uma violência defensiva que se exterioriza das formas mais diversas. Oskar percebe que Eli é uma vampira, mas é junto dela que se sente bem. É da sua cumplicidade que precisa para suportar a crueldade dos outros. É da raiva de Eli que se alimenta para criar a sua própria.
Ambos têm relacionamentos familiares estranhos, ambos habitam uma paisagem glacial que transpõe para a imagem a frieza das relações humanas. É uma paisagem que relembra Ingmar Begman, obviamente, mas que recria cenários e emoções maceradas de uma forma pessoal. Esta é também uma história de amor maldito, quer pela idade dos protagonistas, quer pelas suas condições de “malditos”. O filme de Tomas Alfredson caminha lento, deixa adensar emoções contraditórias, permite que as personagens sejam assimiladas pela paisagem que por vezes, apesar de sempre realista, parece cenário recriado em estúdio, de um ultra realismo opressivo. A forma como o realizador enquadra os seus temas, quer sejam habitações ou florestas, cafés ou hospitais, favorece essa distorção de uma realidade traumática. John Ajvide Lindqvist é, ao que consta, um admirador de Jim Morrissey, e o seu livro chama-se “Let The Right One Slip In”, precisamente como homenagem ao cantor e poeta que tem um texto que diz aproximadamente “Eu diria que tu tens todo o direito de dar uma mordidela na pessoa certa e dizer: “O que te fez demorar tanto?"”.
Apesar de ter adolescentes como protagonistas, este não é um filme para adolescentes, muito pelo contrário. A obra está carregada de sugestões de uma sexualidade não muito “normal”. Oskar tem os pais separados e quando passa dias com o pai estes decorrem de forma muito agradável, até aparecer um amigo do pai que tolda o ambiente e introduz uma nota de desconforto, que todavia fica apenas insinuada. Eli, por seu turno, vive com um velho que se faz passar por seu pai, e que funciona como seu criado, e que deixa igualmente no ar sugestões de uma ligação não muito “normal”. Aliás, uma das características de “Deixa-me Entrar” é precisamente essa deriva sem interpretações precisas, esse deslizar por superfícies de uma impossível compreensão linear, tal como se escorrega no gelo sem se saber bem onde se vai parar, sem amarras a que se agarrar. Há barreiras intransponíveis que dividem os seres uns dos outros (um vidro de uma montra por exemplo), assim como há emoções que os levam a estabelecer as mais estranhas das ligações. “Deixa-me Entrar” pode ser o pedido para se abrir a porta de casa ou a súplica para se ser simplesmente compreendido.
Os actores são notáveis, a fotografia é magnífica, criando uma realidade quase irreal, a banda sonora inspirada e inquietante. Um grande filme, que recoloca a cinematografia sueca de novo no topo das mais interessantes da actualidade. Esperemos que não seja um exemplo sem continuação.
DEIXA-ME ENTRAR
Título original: Låt den rätte komma in ou Let the Right One In
Realização: Tomas Alfredson (Suécia, 2008): Argumento: John Ajvide Lindqvist, segundo romance de sua autoria; Produção: Carl Molinder, John Nordling, Frida Asp, Gunnar Carlsson, Ricard Constantinou, Suzanne Hamilton, Henric Larsson, Lena Rehnberg, Per-Erik Svensson; Música: Johan Söderqvist; Fotografia (cor): Hoyte Van Hoytema; Montagem: Tomas Alfredson, Dino Jonsäter; Casting: Anna Zackrisson; Design de produção: Eva Norén; Guarda-Roupa: Maria Strid; Maquilhagem: Maria Strid; Direcção de Produção: Katharina Berggren, Mia Eriksson-Degerlund, Suzanne Hamilton, Sofia Lindberg, Fredrik Sidevärn; Assistente de realização: Anna Zackrisson; Departamento de arte: Josef Hamid-Norén, Anna Lindqvist; Som: Mikael Brodin, Christoffer Demby, Maths Källqvist; Efeitos especiais: Hans Harnesk; Efeitos visuais: Thomas Deutchmann, Claes Dietmann, Kaj Steveman, Fredrik Zander; Companhias de Produção: EFTI, the Chimney Pot, Fido Film AB, Filmpool Nord, Ljudligan, Sandrew Metronome Distribution Sverige AB, Sveriges Television, WAG; Intérpretes: Kåre Hedebrant (Oskar), Lina Leandersson (Eli), Per Ragnar (Håkan), Henrik Dahl (Erik), Karin Bergquist (Yvonne), Peter Carlberg (Lacke), Ika Nord (Virginia), Mikael Rahm (Jocke), Karl-Robert Lindgren (Gösta), Anders T. Peedu, Pale Olofsson, Cayetano Ruiz, Patrik Rydmark, Johan Sömnes, Mikael Erhardsson, Rasmus Luthander, Sören Källstigen, Malin Cederblad, Lena Nilsson, Berndt Östman, Kajsa Linderholm, Adam Stone, Jonas Kruse, Ingemar Raukola, Kent Rishaug, Linus Hannu, Thomas Ljungman, Fredrik Ramel, Christoffer Bohlin, Julia Nilsson, Elin Almén, Bengt Bylund, Elif Ceylan, Susanne Ruben, etc. Duração: 115 minutos; Distribuição em Portugal: Atalanta Filmes; Classificação etária: M/ 16 anos; Estreia em Portugal: 29 de Maio de 2009.

segunda-feira, julho 13, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 8

NA FOLHA INFORMATIVA DO
FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA




FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 7

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FLORES ARRANCADAS À NÉVOA
(FLORES ARRANCADAS A LA NIEBLA),
de Arístides Vargas,
encenação de Pepe Bablé

Continuamos com não muita sorte com o que nos vem de Espanha. Desta feita, “Flores Arrancadas à Névoa” (Flores Arrancadas a la Niebla), um texto de Arístides Vargas, com encenação de Pepe Bablé, também não convenceu por aí além a assistência, e deixou mesmo amargos de boca nalguns. O texto coloca em cena duas mulheres, Raquel e Aida, duas exiladas de uma qualquer guerra e de uma qualquer nação, que nunca chegam a dizer qual o motivo nem qual a guerra de que fogem. Encontram-se sozinhas numa estação de caminhos-de-ferro, esperam um comboio que não se sabe para onde vai, e dialogam sobre o que lhes passa pela cabeça, desde essa pátria, lugar de exílio, até ao território para onde vão, desde botânica e flores, até homens e sentimentos. Obviamente que se fala de solidão e de ostracismo, e das guerras que deslocam pessoas daqui para ali sem justificação aparente. Raquel, por exemplo, que esconde dentro de si uma orquídea, é cientista, estuda flores e plantas, e não aceita o seu exílio de ânimo leve, ela explica que vai para longe (a Amazónia?) para investigar casos a enviar posteriormente para as Academias. Mas a sua verdadeira viagem é até à solidão mais íntima, até ao lugar onde nada existe, até ao lugar que é a negação do lugar.
Ok, percebem-se as intenções, mas a peça é demasiado “poética”, difícil de se entender, um pouco pomposa no seu tom lírico-depressivo. A encenação também não ajuda, não tanto por ser enxuta (não há cenários, apenas duas mulheres, duas malas, e dois comboios de corda…), mas sobretudo porque não sabe muito bem o que fazer a duas mulheres sozinhas num palco, não demonstrando grande invenção. As actrizes esforçam-se, não são más, mas aos papéis falta consistência para se imporem como personagens.
O autor do texto não é espanhol, mas sim argentino. Arístides Vargas nasceu em Córdoba (Argentina), estudou teatro na Universidade de Cuyo e, em 1975, exila-se devido ao golpe militar. Dirigiu grupos e companhias de teatro latino-americanos, entre os quais a Companhia Nacional de Teatro da Costa Rica, o grupo Justo Rufino Garay, da Nicarágua, o grupo Taller del Sótano, do México, e a companhia Ire, de Porto Rico. É fundador de um dos grupos mais prestigiados da América Latina: o “Malayerba”, do Equador, que actualmente dirige. Entre outras, é autor das seguintes obras: “Jardín de pulpos”, “Pluma, La edad de la ciruela”, “Donde el viento hace buñuelos”, e “Nuestra Señora de las nubes”. Quanto ao encenador Pepe Bablé ele é, sobretudo, o rosto do Festival Iberoamericano, de Cádis. Presente desde a sua fundação, em 1985, só em 1992 se torna director do evento, passando a acumular também, a partir de 1994, a respectiva direcção artística.

FLORES ARRANCADAS À NÉVOA (FLORES ARRANCADAS A LA NIEBLA), de Arístides Vargas, encenação de Pepe Bablé; Intérpretes Ángeles Rodríguez, Charo Sábio; Cenário e figurinos Albanta; Desenho de luz e espaço sonoro Pepe Bablé; Adereços Francis Geraldía; Duração 1h20; Classificação M12.

domingo, julho 12, 2009

FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA, 6

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Em época de crise, podem fazer-se férias de muitas maneiras. Económicas, prazenteiras e ricas de ensinamento. Por exemplo, passar férias em Almada, durante quinze dias a acompanhar o Festival de Teatro. Já não digo mudarmo-nos de armas e bagagens para Almada, mas aproximarmo-nos da cidade pelo fim da tarde, jantar por ali, depois assistir a um espectáculo de teatro, dar uns dedos de conversa com amigos (alguns que já não víamos há anos, ainda ontem encontrei a Teresa Mota, que vive em Paris e há trinta anos que não encontrava), tomar alguma coisa numa esplanada da praça S. João Baptista, e ir descobrir como Almada se transformou desde o 25 de Abril. Antes era uma espécie de fim de mundo, sem qualidade de vida, um amontoado de casas para onde iam viver os que trabalhavam em Lisboa. Agora é terra que vale a pena atravessar, e habitar. Bem servida de transportes (sai-se da Av. de Roma na Fertagus, bons comboios de dois andares, pára-se em Corroios, por exemplo, e apanha-se o Metro de superfície, e rapidamente se sai quase à porta do Teatro Municipal), com uma urbanização desempoeirada e salpicada de zonas verdes, limpa e bem conservada, Almada é um bom exemplo do que em três decénios se pode fazer para transformar por completo uma cidade, ainda por cima que dá importância à cultura, ao desporto, ao entretenimento.
HOMENAGEM A RUY DE CARVALHO

A noite do Festival começou com uma homenagem a Ruy de Carvalho, um actor que é uma lenda viva no teatro, na televisão, no cinema, mas não só, na dignidade de uma vida e na paixão por uma arte. Laborinho Lúcio leu um magnífico texto de exaltação do actor, Diogo Infante elogiou-lhe as virtudes e anunciou o seu regresso ao Teatro de D. Maria II (na peça “O Camareiro”, que Laurence Olivier tão bem fez em cinema!), Joaquim Benite fez as honras da casa, bem como a Presidente da Câmara de Almada. Justíssima homenagem para alguém que muito admiro e a quem o Famafest há alguns anos prestou idêntica homenagem. É bom saber que há quem homenageie em vida aqueles que amamos.
Fotos: aspectos da Exposicisão dedicada a Ruy de Carvalho

AULLIDOS (UIVOS)
encenação de Jesus Peña

E subiu o pano para mais um espectáculo brilhante, desta feita marionetas para adultos, por uma companhia espanhola. “Aullidos” é, segundo palavras do seu autor e encenador, “um espectáculo de marionetas para adultos inspirado nos contos de fadas.” Neste espectáculo, segundo Jesús Peña, “os bonecos vêem-se submetidos às paixões humanas”. Esta criação do Teatro Corsário subverte de certa forma a ideia de teatro de marionetas, que normalmente se associa a um público jovem, a quem se oferecem histórias de fadas que sublimam as mais profundas paixões humanas, apresentando-as como histórias de inocência e de encanto. Nada de mais enganoso. As histórias de fadas encerram referências às mais íntimas e secretas paixões do Homem, das mais inocentes às mais perversas, das mais violentas às mais libidinosas. Só que está tudo diluído numa calda de açúcar que tolda a visão aparente. O que faz esta companhia, com “Uivos”, é retirar o véu de ilusória inocência das histórias de fadas e apresentar-nos as verdadeiras histórias de sexo e violência que se escondem por detrás da habilidade de escrita dos irmãos Grimm ou de Perault, de La Fontaine ou de Lewis Caroll (para só citar alguns).
O que se vê então são sangrentos diabos e sequiosos lobisomens, depravadas damas de corte e feiticeiras amaldiçoadas, brutais ogres, e irritantes diabinhos de riso convulsivo, carrascos da Inquisição e libertinos cavaleiros de um inesgotável desejo sexual, e uma menina pobre que os ricos exploram, que vai viver para debaixo do mar, na companhia das sereias, e que é despertada (ou nem isso) da letargia mortal em que caiu, nua e de pernas bem abertas, quando é descoberta pelo lobisomem de serviço, numa fornicação com inúmeros prolegómenos, de que resulta um sedento bebé. Enfim, um deboche completo, para edificação de um público que vibra com o que vê e assim exorcisa os fantasmas que lhe vão na alma. São efectivamente “Uivos” que se libertam do mais secreto da natureza humana. Com a poesia rara da arte que sabe transfigurar mesmo os “uivos” mais animalescos.
Com uma tonalidade poética e uma construção de quadros que relembra o cinema mágico de Méliès, “Uivos” fica seguramente como um dos grandes momentos deste Festival. São mais de 20 bonecos, de tamanho quase humano (alguns de tamanho mesmo sobre-humano), manipulados com maestria pelos seus criadores, que lhes incutem à nossa frente o sopro da vida, que mescla tudo o que esta comporta, amor e tragédia, crueldade e erotismo, magia e realismo (poética), amor e desejo, homens e figurões, imaginário e fantasia dos sonhos.
O “Times”, de Londres, descreveu-o como “um espectáculo de extraordinária habilidade e energia diabólica”. O “El Mundo” afirmou que se trata de uma produção de “altíssimo nível, liberdade, provocação e diversão, um trabalho magistral”. É, na verdade, como se lia no “ABC”, um “terrorífico e divertido conto de fadas. Um trabalho extraordinário”. Várias vezes premiado em Festivais: Prémio para Melhor Espectáculo para Adultos, do Festival de Valência, Prémio da União Polaca de Artistas de Teatro, e Prémio pela “magistral técnica de animação” do Festival de Lleida. Quem não viu, não sabe o que perdeu.

UIVOS (AULLIDOS) – criação e encenação de JESÚS PEÑA; Intérpretes /manipuladores: Teresa Lázaro, Olga Mansilla, Sergio Reques; Fantoches e cenário: Teatro Corsário; Desenho de luz Javier Martín; Música original: Juan Carlos Martín; Desenho de som: Juan Arteagabeitia, Javier Garcia; Maquinista / manipulador: Borja Zamorano, Iñaki Zaldua; Duração 1h05; Classificação M12.